Vampirinhos de Shangrilá


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Imagem em negativo de um morango cravejado de pontas de lápis

Conto

Anna Maria, Mariana, Maria Anna. O nome ninguém sabia direito, quanto mais o sobrenome. Morava para lá da terceira porteira das terras dos Molevade. Bem pra lá. Certeza só se tinha uma: Era pobre, porém, pura. Toda a família jurava, todos diziam. Imagina se não?

Cidade de interior. São João Moreira de Shangrilá. A plaquinha na estátua dizia: ‘padre
capuchinho português morto nas montanhas do Nepal por soldados chineses em 1952′
. Os beatos mais velhos rogavam pragas contra os ‘amarelos’, todos os dias e todas as noites, em ladainhas sem fim. Claro. Cidade católica apostólica romana, a mais não poder. Queriam o quê, que espumantes de raiva, esbravejassem contra os chineses, aos palavrões?

Todos os homens também eram puros – puros não, que isto por ali era coisa de invertidos, de duvidosos – honestos, corretos, beatos, por assim dizer, isto sim. O prefeito, por exemplo, era um santo homem, Dr. Luiz Santoza. Todos os vereadores, tanto os da família Santoza quanto os da família Molevade o eram, beatos todos. Para encurtar a novela, ali eram filhos de Maria todos os políticos a partir de 1964, o ano da canonização de São João de Shangrilá, o tal santo padroeiro.

Antes disso ninguém conta como eram ou o que eram as pessoas. Só se sabe que a cidade, antigamente, se chamara Portão do Desterro. Nome triste, medonho que, por conta de ser coisa do passado, ninguém ousava explicar de onde vinha. Com que então, se o passado de São João de Shangrilá era um completo mistério antes daí, cuidemos, pois, do futuro, que é coisa certa, que a Deus pertence.

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O futuro é do Moço Bom, João Molevade Filho, que passeava por aí sem moto, sem carro e sem avião. Tinha isto tudo, mas não, curtia a rua de todo mundo, como se diz: como mais um entre os que têm o pé no chão. O melhor amigo dele era quem? Maculeba, o artesão da praça, um negão hippie, sujo, imundo, um carvoeiro de madeixas rastafári, um mendigo inteligente, por assim dizer. Falava com todo mundo, o Moço Bom, fazia festa para os meninos e os cachorros. Gente fina, este filho do senador João Molevade, o fazendeirão do lugar.

Ultimamente andara sumido, meses a fio. Cochichava-se, mas ninguém falava coisa que se pudesse acreditar. Gente pura não especula para o mal.

_’ Tá no Rio de Janeiro! ‘-

Diziam como única certeza vaga, porém, verdadeira. Voltou magrinho, de olhos fundos, esquisito como não sei o quê. Vestindo uma roupa preta, botas pretas, tudo preto. Tinha até umas riscas pretas, embaixo dos olhos, como rímel de mulher.

Todo mundo reparou, é claro, olhando de banda, a estranha reaparição do Moço Bom. Só as donzelas de Shangrilá falaram, condoídas. As mais afoitas afirmando, convictas:

_ ‘ Virou noites e noites, o coitadinho. Tentou de novo o vestibular!’

_ ‘Vai ser médico ‘- suspirava a outra

‘Médico não, Doutor! Diretor do Hospital!’ – Enfatizava a mesma, delirante.

Magro. Diferente demais do Joãozinho Molevade de antigamente. Andava agora como um
estrangeiro, sem falar com ninguém. Macambúzio, olhando para o chão ou para os lados, nunca para algum lugar. Procurando alguma coisa na própria cabeça. Maculeba, vivido, escolado, maldou logo de saída.

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Certo dia, aquela (a quem, por falta de uma certeza, vamos chamar a partir de agora, de
Marianinha) deu de emagrecer também, assim, a olhos vistos. As bochechas brilhosas sumiram. Ficaram só duas covas fundas, macabras, vazias como sepultura de desencarnado ressuscitado. É por isto que ver os dois juntinhos, feito carne e unha, pra baixo e pra cima, pela rua afora, foi um pouco uma surpresa sim, mas, não tanta. Moço Bom com Moça Pura, afinal, é tudo que a sociedade de São João Shangrilá pode querer e merecer. É alvissareiro. É bonito. Serve para asseverar que a cidade também é pura.

Além do mais, isto de Moço Rico com Moça Pobre ser pecado mortal, já foi tempo. Isto foi na época do – cala-te boca – Portal do Desterro, naquele tempo em que o povo não sabia o seu lugar. Agora não. Nascendo bebê, a família da moça acoita. Não nascendo, melhor ainda porque, não haveria nenhum risco do Moço Rico ter que casar.

Mas não. Preocupação à toa. Não namoravam, não beijavam. Além das mãos dadas, os dois nem se tocavam. Andavam só, pra baixo e pra cima, dia e noite – principalmente noite – olhando para cá e para ali como doidinhos.

Duas caveiras ambulantes é o que pareciam. A mãe dela, o pai, as tias, todo mundo se remoendo. Puros que eram, conjecturavam, conjecturavam, mas, não entendiam nada. Seria alguma paixão destas de secar rio? Seria definhamento de amor? A juventude era mesmo de uma estupidez sem tamanho, concluíam.

O certo é que o apelido que Maculeba dera, naquele seu jeitão franco de ser, foi se espalhando, se espalhando, como fofoca num rastilho, até estourar um dia, na manchete do jornal ‘A folha do Vale’, o tablóide da cidade:

_ ‘Extra! Extra! Vampiros em Shangrilá!’

Maldade de Maculeba, se sentindo ignorado pelo amigo. Se o fossem, não passariam de vampirinhos lânguidos, românticos. Perigo nenhum. Imagina?

Quantos contos não inspirariam? Quantas redações de grupo escolar? Mentira grossa, claro, mas já se falava até numa minisérie na TV da capital, num filme francês, num best seller. Mas, não teve jeito. O caso, de rumoroso, se complicou e desembestou pela ladeira da tragédia abaixo.

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Primeiro foram as galinhas, que apareceram murchas, só ossos e penas, como sacolas de
plástico vazias, porém, andantes. Depois um cabrito e um porco da fazenda, também definharam sem morrer. O cachorro do dono da farmácia da praça, pronto, também. Uma fauna enorme de bichos magrelos, chupados feito laranjas, bagaços circulando por aí.

_’É Chupa Cabras!’ –

Gritou Maculeba, maldoso. Mas, como se os seres continuavam vivos e, com as veinhas cheias de sangue, intactos?

_’ Lobisomem!’ –

Gritaram as tias da moça, desesperadas (Para elas, o Moço Bom já estava mesmo era passando da conta, cabendo mais na pele de um Coisa Ruim, de um Tinhoso)

Mas como, se os magrelinhos todos, bichos e gente, andavam no sol a pino, de dia, sem pelos nas ventas, sem dentes afiados, sem garras, sem nada de lobo, só a magreza de faminto aparecendo? Seria alguma doença, uma epidemia, talvez?

_’Isto. Uma doença! –

Dizia o dono da farmácia, olhando o fundo dos olhos do pobre do cachorro. Sim, mas, que doença seria esta, meu Deus?

———————-

Dez dias depois. O senador, pai do Moço, sumiu há dias. Saiu com a camionete, intempestivamente.

_’Foi à capital! ‘ – Disse o capataz, apreensivo com alguma coisa que não quis dizer.

Antes dele partir, na casa estivera a mãe do moço, uma mulher de meia idade com cara de sirigaita, bruxa, com o cabelo pintado de louro e a boca esticada como o bico de uma pata, os olhos tão apertados pelas cirurgias plásticas, que lembravam, imediatamente, os olhos dos tais chineses que mataram o pobre do padre João Moreira lá no alto do Nepal (a descrição maldosa, foi feita por Maculeba que odiava a madame mãe do Moço Bom, mas, em consideração ao amigo, se recusava dizer porque).

O capataz contou que ela revirou o quarto do garoto e achou o que já sabia: Umas pílulas verdes  que ele trouxera da cidade. Reviraram o quintal e acharam mais pílulas, espalhadas pelo chão, pelo cercado dos porcos, pela grama enfrente da casa, no fundo do açude.

Brigaram, aos berros, os dois. Depois choraram. O capataz os viu saindo na camionete, ainda com a noite alta, sumindo de Shangrilá. O capataz, por via das dúvidas, sumiu também. Além dele, só Maculeba, o mais esperto de todos, também partira. Lógico. Já disse. Maculeba maldara tudo, desde o início, estão pensando o quê?

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Ontem as luzes da cidade ficaram acesas durante toda a noite. Hoje também. Já eram muitos, centenas de magrelinhos zumbis. Primeiro todos os jovens da cidade, cinzentos, com os rostos encovados, foram aparecendo, saindo de suas casas, de cada canto de Shangrilá, até das fazendas mais distantes. Foram se amontoando na praça, em torno do Moço Bom e da Moça Pura, líderes aparentes daquela esdrúxula seita dos vampirinhos de Shangrilá.

Os bichos magrelos em volta deles, a cacarejar, a balir, a latir e a grunhir. Uma sujeira enorme, de tudo que é dejeto, largado, esparramado pelo chão. Os porcos, sem cerimônia, cercaram a estátua do coitado padre João Moreira, como se ela fosse um chiqueiro. Antes cagado só pelos pombos, o mártir ficou lá, embostalhado, mais martirizado e humilhado, do que o foi nas montanhas do Nepal.

Logo logo, a cidade inteira estava tomada por aquela mazela sem explicação. Pais, mães, tias, todos foram se tornando magros e cavernosos. Com a sabedoria das tias, da magreza, soube-se logo o motivo: É que, com a doença estranha, que a todos contaminara, ninguém comia, só perambulavam, atrás do Moço e da Moça, sabe-se lá por que.

O mercadinho ‘Que Barato’ já não funcionava. Não se comprava mais nada. O primeiro jornalista que chegou de uma cidade próxima, para cobrir o estranho incidente, sóbrio, percebeu que todos procuravam por pílulas, mas, não entendeu muito bem do se tratava. É que as pílulas haviam sumido. Ninguém sabia quem tinha, uma delas sequer, para vender.

Fanhão, o dono do mercadinho, tentou se aproveitar da situação e mudar de ramo. Quis entrar no negócio das pílulas, naquele empreendedorismo afoito dos espertalhões. Deduziu, de pronto, que o Moço Gente Boa, devia saber onde encontrar tão ansiada mercadoria. Ah! Como se arrependeu, amargamente.

Logo no dia seguinte apareceram aqueles caras mal encarados, vestidos de preto, vindos não se sabe de que lugar. Deram uma carraspana tão bem dada em Fanhão que ele sumiu no espaço, se escafedeu do lugar. Nem o mercadinho ele fechou. A loja ficou lá escancarada, as gôndolas cheias de ratos guinchando, únicas criaturas da cidade a quem as tais pílulas não interessaram, (ou não apeteceram, vai saber?).

O cheiro das mercadorias podres no mercadinho ‘Que Barato’ exalava, assim, por toda a pracinha, sem ninguém se importar ou se dar conta. Até que um dia a camionete dos mal encarados, de repente, partiu da cidade, sem quê nem porquê. (Esta Maculeba não podia perder, mas, Deus – ou Jah – sabe o que faz. No final das contas,veremos quem acabou ganhando.)

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Enlouquecido de anseios, fissurado, desesperado, o povo se estapeava pelas ruas. Uns querendo porque querendo, uma poeirinha que fosse, daquela maldita bolinha de felicidade. Daquela sanha foram saindo aos poucos, caindo num torpor de ex-bêbados na ressaca. Do torpor, caíram num sono pesado, quase igual à morte. Acordaram aos poucos, uns tontos, outros pasmos. Foi aí que os menos tontos se deram conta de tudo: Não existia mais São João Moreira de Shangrilá!

Os ratos e os mal encarados haviam destruído, levado tudo de roldão. Os últimos a despertar foram os jovens, que vagaram ainda, por horas a fio, olhando desolados para o que Shangrilá havia se transformado. Cidade chupada, sugada, com covas fundas na geografia, suja e cinzenta, igualzinho ficara a cara dos vampirinhos. Cidade zumbi.

A Moça Pura e o Moço Bom haviam desaparecido também, misteriosamente. Alguém achou que os viu na camionete, partindo com os mal encarados sabe-se lá para que lugar. Achar que viu, contudo, não é ter certeza. Só se sabe que se esvaíram, como esvaíram-se suas carnes, quando emagreceram. Evaporam. Nem vampiros agora eles eram mais.

Muito menos de Shangrilá.

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No outro dia o pai do Moço Bom voltou á cidade. Trouxe o resultado da investigação sobre a origem das pílulas. Elas vinham de uma fábrica enorme, na capital. Estão sendo distribuídas por todo o país. Começam pelas grandes cidades, dando as pílulas para uns, que vão dando para os outros, até que todos, inebriados, dependendo delas para sobreviver, abrem mão de tudo, até mesmo ou quase, da própria vida. Os donos da fábrica são figuras notórias, mas, ninguém ousa proferir seus nomes. Não são Santoza nem Molevade, pelo menos é isto que se pode dizer. Os Santoza e os Molevade– relembrem – são todos… puros.

Como o nome Marianinha, o nome real da tal pílula também ninguém sabia. Se alguém descobriu, decidiu também omitir. Podemos dar-lhe qualquer nome então. Vamos chamá-la de Pílula Verde da Felicidade Geral da Nação: Pivefegena

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Da cidade vizinha já chegam alguns rumores sobre a chegada de vampirinhos, mas, o povo de Shangrilá, irrecuperável, não vai alertar os vizinhos sobre o que virá depois. Afinal, o que virá depois eles também querem: Bolinhas da felicidade. Pivefegena.

A cidade vizinha é a minha. Rezem por mim. A me valer, talvez, só mesmo Deus ou, quem sabe, o bondoso e valoroso São João Moreira de Shangrilá!

Spírito Santo

Junho 2007

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~ por Spirito Santo em 17/07/2010.

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