10 vezes Favela Movie: Agora por nós todos

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A atriz Roberta Rodrigues, os diretores Tereza Gonzalez, Feijao, e os atores Cintia Rosa e Thiago Martins, lançam 'Cinco vezes favela - agora por nós mesmos' em Cannes. (Foto: Dominique Maurel/Divulgação)

A atriz Roberta Rodrigues, os diretores Tereza Gonzalez, Feijao, e os atores Cintia Rosa e Thiago Martins, lançam 'Cinco vezes favela - agora por nós mesmos' em Cannes. (Foto: Dominique Maurel/Divulgação)

O Cinema Brasileiro ‘É  nóis’
A Favela por nós ou por eles mesmos?

“Esse lance de chamar o 5XFavela de filme ONG também me cheira a racismo e preconceito. Mas, deixa quieto, né? Vou esperar para ver esse Bróder.

Programanojapao (Roberto Maxwel, do japão) disse isso em julho 23, 2010 às 11:01 am”

“Já vi umas cenas de Bróder com o próprio Jeferson, quando ele esteve em Vitória em maio. Olha, parece um filmaço. Não vi 5 vezes favela 2, então não dá pra fazer um paralelo. Sinceramente, estou ficando de saco cheio de mazelas. Acho que prefiro o otimismo lúcido do Jeferson De. Que venha Bróder, injetando sangue e idéias novas no pedaço.”

(Claudia Rangel comentando no Facebook)

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(E como o papo entabulado no Facebook era pra lá de instigante eu, respondendo ao Roberto Maxwel fui logo engrenando neste outro post):

“É por aí mesmo – dizia eu para ele – só que eu acho que não é exatamente melhor deixar quieto não. O amplo debate desta questão é crucial. Esta área – certo cinema brasileiro – está ficando cada vez mais minada de preconceitos. Isto se reflete de maneira muito intensa nas opções de produção e atrapalha bastante a abertura do leque da democratização da linguagem cinematográfica entre nós… não só para a ascensão de novos realizadores, mas também para a assunção de novas temáticas, estéticas e pontos de vista.

Me ocorreu agora mesmo lembrar a grande pressão que se faz no mercado contra a grande recorrência de filmes ‘de favela’ (‘Favela Movies’, como se diz), entre outras coisas sob a alegada intenção de ‘proteger’ a imagem – e o mercado- do Brasil no exterior.

… Contudo, vamos combinar que a exclusão social, a violência urbana e a miséria, como temáticas artísticas são representações legítimas, quase irrecorríveis de nossa realidade, além de serem, plasticamente muito ricas. Por outro lado, existem aspectos mais profundos, humanos em suma, neste caldo de cultura fermentado nas periferias de nossas grandes cidades que são tão cinematográficos quanto quaisquer outros.

O preconceito contra os ‘filmes Ong’ (o mesmo que dizer: filmes ‘chapa branca’ – submissos, ‘pai-joões’no âmbito de um eventual conflito estético povo versus elite) pode vir do mesmo lugar de onde vêm esta pressão anti ‘brutalista’: O maniqueísmo, esta conversa em Preto& branco que predomina sempre que o pessoal de baixo começa a se ouriçar, dando mostras de que também tem algo a dizer, como suas próprias palavras.

O fato é que não há contradição importante entre ‘Bróder’ e ’5 vezes favela 2′. …São dois ângulos de se olhar uma mesma coisa, duas maneiras de se criar e produzir uma opinião (e neste caso, sabemos muito bem que, quanto mais opiniões melhor).  Também não vejo nada demais que as duas posições sejam debatidas, acalarodamente, apaixonadamente como convém às grandes questões.

O ’5 vezes favela, agora por nós mesmos’ (ainda não vi o filme) vai sofrer muito deste preconceito aí por conta de ter sido produzido (dirão ‘apadrinhado’) pelo Cacá Diegues e, simbolicamente pelos outros então jovens cineastas do filme original (Marcos Farias, Miguel Borges, Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman).

A polêmica diz respeito, exatamente a este ‘… agora por nós mesmos’, sintomaticamente inserido como slogan da versão atual. Ou seja: A produção cinematográfica brasileira (quase) sempre dominada por ‘brancos‘ da elite, falando do povo com certo distanciamento ideológico, quiçá paternalista… estaria, realmente, dando vez a outras possibilidades de abordagem, outros olhares?…

… Acho que temos uma discussão muito salutar nascendo disto aí. Os filmes do Jeferson De e da galera de ‘5 vezes favela 2‘, feitos que são agora – pelo menos segundo se diz –  também por ‘nós’ mesmos (e não mais apenas por ‘eles’, bem entendido) espero que seja uma espécie de Marco Zero desta discussão.”

O ‘velho’ e seminal‘Favela Movie
(Em 1962 a Cidade já estava careca de ser sem Deus)

Numa alentada resenha sobre o velho e original  ’5 Vezes favela’ (que pode ser lida na íntegra neste link) Estêvão Garcia melhor do eu diria, já dizia:

“…O filme nada mais é do que a colocação em prática de um dos princípios primordiais do CPC (Centro Popular de Cultura ) da UNE ( União Nacional dos Estudantes ): a instrumentalização do cinema e da arte para difundir unicamente seus objetivos políticos. A representação da cultura popular de Cinco vezes favela se aproxima intimamente de filmes como ‘Bahia de todos os santos’ (Trigueirinho Neto/1960), ‘A grande feira’ e ‘Barravento’ – ou seja, a cultura popular significada como gérmen da alienação.

Além da cultura emanada pelo povo ser a responsável por sua secular resignação, caberia a eles (os intelectuais pertencentes a uma classe intermediária entre o povo e a alta burguesia) a função de indicar a este povo a cultura popular que deveriam consumir. O CPC almejava, então, esculpir uma cultura popular própria baseada nas visões de seus integrantes, e assim jogá-la para o povo – quase da mesma forma que um aposentado joga milho aos pombos da Cinelandia. Essa arte popular de maneira nenhuma deveria incorporar as investigações de linguagem do Cinema Novo, e essa posição propagada em artigo no Metropolitano (órgão de imprensa da UNE) se constituiu em um dos motivos da inevitável ruptura.

Essa figura do elemento intermediário entre duas antagônicas classes, possuidor da função de conduzir o povo, que tanto os cinemanovistas quanto os militantes do CPC almejavam ser, aparece em aqui de maneira um tanto primária e maniqueísta.

…Cinco vezes favela sendo visto hoje, após 42 anos de sua realização não difere em alguns pontos da mesma constatação ocasionada na época de sua estréia: a certeza de estarmos diante, no caso dos episódios O favelado, Zé da Cachorra e Escola de samba alegria de viver, de um discurso um tanto limitado, e ainda desprovido de maior interesse na parte estética. Já no caso de Couro de gato e de Pedreira de São Diogo percebemos que, apesar de banhadas no mesmo caldo ideológico dos outros três, há ali uma pulsão de cinema, um talento latente e uma verdade flamejante que só ao vermos o conjunto da obra de Leon Hirsman e de Joaquim Pedro podemos constatar como a promessa de dois grandes artistas que estavam por vir.”

O cinema do Brasil entre o cavalo e o bandido
(… que não apareceu naquele filme)

Como todo mundo já sabe, nós vamos poder assistir muito em breve à nova versão deste ‘favela movie ‘cascudo’ e velho de guerra de 1962, agora sob o reciclado título de 5 vezes favela… agora por nós mesmos.

A comparação com as intenções ideológicas e artísticas expressas por aquele projeto do já distante ano de 1962 – uma época politicamente tão conturbada que culminou com uma sangrenta ditadura que nos assolou logo em seguida – cuja nuvens pardacentas até hoje pairam sobre nós – serão inevitáveis.

Mesmo antes de assistir ao filme atual nos chama fortemente a atenção, contudo o fato do cinema brasileiro (e a sociedade brasileira como um todo)  manter ainda quase inalterados, níveis de exclusão social idênticos aos daquela época, o que se reflete, obvia e claramente na ausência, até hoje em nosso cinema, da expressão de um protagonismo ‘popular’ efetivo, cuja inexistência aquela geração do CPC, tão arrogantemente vanguardista, atribuía a letargia do ‘zé povinho’, à índole submissa do ‘povão’ que ela, mais dia menos dia iria dirigir e comandar até à vitória final da Revolução Socialista. Pois sim…

(Você viram? Deu no jornal de ontem: O Brasil de 2010 é o terceiro pior desempenho em distribuição de renda do mundo!)

O fato é que pode residir aí, nesta ainda mal contada história do vanguardismo juvenil daquela aguerrida geração de ‘nossa’ (deles) elite intelectual – e econômica, claro – uma ironia sem tamanho que a expressão‘… Agora por nós mesmos’ simboliza muito bem, define mesmo, cabendo nela justinha como uma luva:

… Bem, vamos ver se entendi: Quer dizer  que ao se falar agora (a respeito da nova versão de ‘5 vezes favela’) que existe um cinema ‘nosso’, ‘eles’ estão assumindo então que aquele era o cinema… ‘deles‘? É isto?

Donde se pode concluir, portanto que o povo – notadamente, por que não dizer, o negro favelado, arquétipo mais que principal neste argumento – não era alienado e resignado coisíssima nenhuma. Sim, agora se pode até contar num filme, por exemplo, que este ‘povão’ na verdade havia sido escravo, e estava era subjugado por séculos e  séculos de renitente opressão cultural, física mesmo, sem forças e canais para se expressar. Logo, novas temáticas – sem nenhuma censura estética ou ideológica – nesta praia e por este viés, podem estar vindo por aí, não é assim?

Donde se deve concluir também que a revolução socialista (afora o heroísmo pungente de alguns daqueles garotos – que como eu amavam o Marx, o Marighela e o Plekanov) não passou mesmo de – e infelizmente – uma revolução ‘deles.

Ih!…Quase ia me esqueço que o papo é sobre cinema…

É que nem me lembrava bem do cinema modernoso de 1962. Eu tinha promissores 15 anos e de cinema só conhecia mesmo as adoráveis chanchadas da Atlântida (que eu amava de paixão). De Nem Sansão nem Dalila, ‘ O homem do Sputnik’, ‘Cala boca Etelvina’, ‘Amei um bicheiro’‘As 13 cadeiras’, assisti a todas. Êxtase era o que eu sentia, sem nenhum exagero. Era emocionante demais sentir a cachoeira de fotogramas, o prazer visual escorrendo,  encharcando a minha memória de movimentos pretos, brancos e cinzentos, meus olhos marejando de tanto chorar de rir.

Passei a adorar cinema por causa destas imagens ao mesmo tempo finas, longas, curtas e grossas, logo consideradas ‘trash movie’, mera excrescência fílmica, pelo pedante pessoal Mauricinho-radical que, reunido pelo CPC tomou a produção cinematográfica para si, criando o ‘tal’ do Cinema Novo‘ e banindo aquelas imagens – e aqueles atores e personagens – das telas do meu cinema juvenil.

A expressão _ “O ‘tal ‘ do Cinema Novo” _ eu tomei emprestada da grande dama de nosso cinema seminal: Ruth de Souza, que numa conversa casual dia destes, me fez esta ácida e veemente confissão:

_’Odeio cinema novo! Odeio Glauber Rocha”_

No seu desabafo ela enumerava a quantidade de atores oriundos do chamado ‘povão’ que pontificavam no nosso cinema antes de 1962. Aguinaldo Camargo, Grande Otelo (o de antes das chanchadas, ainda na fase dos grandes dramas filmados), Léa Garcia, ela mesma: Ruth de Souza, Abdias do Nascimento e tantos outros. Sua descrição para as festas hollywoodianas das quais participou, nos lançamentos de filmes da Vera Cruz é antológica.

(Quando vi na foto da garotada do ‘5 vezes favela 2’ a Roberta Rodrigues toda bonitona e poderosa, entrando pelo tapetão de Cannes, me lembrei da Ruth  na hora)

Em nossa conversa ela usou a ênfase nas pompas e circunstancias das festas da Vera Cruz – o vestido longo que usava as mesas longuíssimas com ‘tudo do bom e do melhor’ disposto à sua frente, os buquês de flores que ganhava exatamente com uma Greta Garbo afro descendente – para exprimir o quanto ela acha que todos nós perdemos com o fim da Vera Cruz e daquele modelo ‘americanizado‘ de se tentar uma indústria de cinema no país (modelo este que, como se sabe, copiado pela televisão anos mais tarde, gerou esta formidável e bem sucedida – embora estúpida – máquina de entretenimento, que é a TV do Brasil).

Foi assim, segundo ela, que atravessando como num sonho a sua calçada da fama – de resto merecida fama de uma das maiores atrizes do país – que tudo foi se esbordoando com a virada dos anos 60, sintomaticamente ao mesmo tempo em que a ditadura fermentava já sua bílis e a onda de bossas novas modernistas que a classe média desenvolvimentista engendrava, iam alijando o ‘povão’ para debaixo do tapete preto & branco da periferia da periferia da periferia…

(… E lembrem-se: Brasília, a ilha de todas as nossas mais inimagináveis fantasias, também estava sendo engendrada ali.)

Para Ruth – e para mim do mesmo modo, confesso – antes de ser apenas o bonitinho advento da modernidade artística na produção fílmica do Brasil, o surgimento paradigmático do Cinema Novo, aí por volta de 1960, representou também o gradual alijamento do mercado, não só de toda aquela fabulosa estirpe de atores negros, populares enfim (formados pela fantástica experiência que foi o Teatro Experimental do Negro – e o teatro de revistas e variedades, o circo enfim) como o advento também de uma censura virtual a certa maneira de se olhar e filmar a realidade brasileira, uma maneira promissora – embora ainda titubeante – mais solta e ‘mais nossa’ de dizer as coisas, uma dramaturgia cinematográfica, talvez em suma – como saber? – mais apropriada aos nossos modos de ser, viver e sentir a vida.

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2010: Depois de Ruth na festa da Vera Cruz, enfim, a Favela em Cannes.
“Cinco vezes favela’ leva arroz com feijão e tráfico a Cannes”

“Coletânea de curtas produzida por Cacá Diegues participa do festival. Histórias foram escritas e dirigidas por moradores de comunidades do Rio.

(Extraído de G1 notícias / Diego Assis, em Cannes)

“Funk carioca, arroz com feijão, pipa e, claro, tráfico e violência foram apresentados nesta terça-feira (18) aos frequentadores do Festival de Canne… O cartão de visitas é “Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos”, projeto capitaneado por Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães, que reúne curtas-metragens realizados por jovens cineastas originários de comunidades carentes do Rio de Janeiro.

Exibido fora da competição oficial, o longa-metragem pretende passar uma imagem diferente da favela. “Existe uma tentativa de construção de uma identidade completamente diferente dos estereótipos e lugares-comuns que a gente vê em geral na imprensa e na televisão quando o assunto é favela”, explicou Diegues em entrevista ao G1 nesta tarde. “Este é um filme que tem um humor, uma luz no horizonte, uma preocupação moral que não são normais no chamado ‘filme de favela’,” defendeu.

…As interpretações e diálogos seguem uma linha de produções de TV – lembra a série “Cidade dos homens” às vezes -, e os finais são quase sempre felizes. Uma exceção é o curta “Concerto para violinos”, de Luciano Vidigal, que tem no elenco o ator Thiago Martins na pele de um traficante que é encurralado pela polícia e pelo líder da facção inimiga depois de roubar armas de uma delegacia local. Mas o PM encarregado recuperar as armas é um amigo de infância do traficante.”

Mas olhem bem vocês: Quando derem vez ao morro toda a cidade vai cantar
(Ao que parece, o Cine Paratodos está sendo reinaugurado enfim)

Este momento melancólico da transição do velho e gregário cinema da italianada da Vera Cruz (que talvez por pura esperteza comercial apostava na diversidade étnica, na imagem do negro atuando seu protagonismo sem nenhuma invisibilidade) para o advento do Cinema Novo (que subalternizava, subestimava o povo) foi flagrado exatamente por um cineasta estrangeiro, Marcel Camus – um francês, vejam só que coisa curiosa! – que no seu antológico Orfeu Negrocompôs o mais lírico de todos os favela movies de ‘nossa’ filmografia, espécie de canto do cisne daquela cinematografia ainda hospitaleira, que tentava pensar o povo sem tanto distanciamento como o cinema do CPC pensava.

É que, contraditoriamente, apesar de anunciar o socialismo artístico, o chamado Cinema Novo tomou para si – e para os ‘seus’, para a elite que o representava enfim – a rédea de tudo que podia ou não podia ser visto no nosso cinema (e vejam que com a Embrafilme, até a nossa pre-visibilidade passou a ser determinada), inaugurando o cinema onde o povo aparecia quase apenas como figurante pau-mandado, como coro (um povo assaz fotogênico para os  ‘planos-sequencias’ glauberianos) com o perdão da expressão: “cocô do cavalo do bandido que não apareceu  naquele filme’ como se dizia.

Incensado por, supostamente romper com uma forma arcaica e colonizada de se fazer cinema (o detestado modelo hollywoodiano), o Cinema Novo (do qual ’5 vezes favela’ – junto com ‘Rio 40 graus’ e ‘Rio Zona Norte’, de Nelson Pereira dos Santos – é uma espécie de Marco Zero) introduziu no Brasil uma forma presunçosa (apesar de…vá lá… bem intencionada) de se fazer filmes que, sendo do mesmo modo aculturada (pois evocava, diretamente, modos de se fazer filmes inspirados no cinema europeu da época,  o neo realismo italiano e a nouvelle vogue) acabou por se mostrar também, ele sim, arcaico e inviável como produto cultural.

O certo é que marcado que foi indelevelmente pelo estigma de, ao apostar num  experimentalismo algo irresponsável (‘uma câmera na mão e uma idéia na cabeça’) produzir … filmes-cabeça, fechados em si mesmos, linguisticamente equivocados e ininteligíveis, este cinema passou a significar exatamente o que Ruth, com sua acidez cansada de ser enganada descreveu para mim naquela nossa conversa casual:

_’Cinema sem pé nem cabeça’_

Este modelo excludente de se fazer cinema no Brasil – afora seus méritos já sobejamente apontados – de certo modo parece ter prevalecido até os nossos dias. Pouco questionado, até então mantendo todos os seus senões simbolizados pelo modo ‘barretão‘ de se produzir filmes ‘em família’, no fundo no fundo, tem aquele mesmo espírito CPCista, vanguardista de um cinema de cima para baixo, da Elite para o Povo, mas que contraditoriamente sempre pareceu afirmar prepotente:

_ “O povo sou eu!” _

…E antes que me esqueça devo confessar: Adulto um pouco mais adiante de 1962, além de fã ardoroso da música da Bossa Nova, virei assíduo frequentador do Cine Paissandu , do Cinema Um e outros cinemas da moda e cine-clubes quejandos. Doido para ser moderno, acabei assistindo também a quase todos os principais filmes do Cinema Novo. Gostei de muitos, salvo as ressalvas acima. Falo, portanto de cadeira.

Dito isto acho que o papo pode seguir livre e solto por aí. Parece que isto tudo – e mais alguma coisa – vai poder ser esmiuçado também em novos filmes… já que estas alentadas histórias filmadas serão fotografadas e contadas… ‘agora por nós mesmos’, certo?

Valeu, Bróder’! Valeu 5 vezes favela 2‘! O cinema brasileiro agora também É  nóis na fita!

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(Siga o papo complementar nos comentários logo abaixo deste post e leia mais sobre este empolgante argumento em ‘ Cinema em preto & branco takes 01 , 02 e 03 )

Spírito Santo
Julho 2010

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~ por Spirito Santo em 24/07/2010.

4 Respostas to “10 vezes Favela Movie: Agora por nós todos”

  1. Roberto,

    Deve ser sim bem parecida a situação dos filhos de emigrantes aí no Japão. E isto é estranho porque deve ser como uma imagem invertida do que são os descendentes de africanos por aqui. Me lembrou o caso dos afro-americanos ligados aos Panteras Negras que na década de 1970 (Stockley Carmichael entre eles) propuseram um retorno à África e, ao chegarem lá se deram conta de que não eram africanos e que aquela África que imaginavam, sequer existia. Uma piração. Stockley acabou casando com a Míriam Makeba e, nas rebarbas rolou uma relação entre a música negra americana e a música africana bem interessante (mas isto já é outro ‘filme’).

    Esta coisa de ‘sujeito’ e ‘objeto’ é mesmo, portanto o cerne de toda esta conversa. O lado mais chato desta história brasileira, contudo é que ela fica muito emiscuída, maculada, conspurdaca mesmo por esta nossa mania de não atacar e superar logo o nosso racismo, de frente.

    É evidente demais que termos como ‘favela-movie’, ‘Filme Ong’, ‘brutalismo’, etc. são eufemismos para se evitar tocar no cerne da questão, falar que o ‘outro tem uma cultura bem diferente destes ‘uns‘ que mandam ainda no mercado. Falta fazer uso de nossa rica diversidade a nosso favor.

    Não foi à toa que o Marcel Camus trocou o título ‘Orfeu da Conceição’ para o explícito ‘Orfeu Negro’. Para ele, um estrangeiro, não fazia sentido algum usar de eufemismos. Esta coisa estúpida de ‘nós‘ versus ‘eles‘, ‘eles‘ ‘nos‘ invizibilizando é que, ao que me parece, nos impede de avançar em todas as áreas, inclusive na do Cinema.

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  2. Bem lúcida sua discussão. Eu fiquei pensando à beça nesse tópico e tentando entender a produção feita no Japão pelos filhos de imigrantes que seriam, em termos sociais, os equivalentes aos afro-descendentes no Brasil. A maioria dos filmes que eu assisti até o momento foram feitos dentro de grupos formalmente organizados ou não como NPOs. E, sim, creio que, nesse caso, o fato de serem feitos no âmbito dessas NPOs merece um entendimento enquanto fenômeno sociológico. Fiquei pensando bastante sobre os personagens que aparecem nesses filmes, em como eles se apresentam à audiência. Fiquei comparando com filmes feitos por mim ou por outros diretores que não são, necessariamente, “o sujeito” desse processo. Enfim, ainda tenho que formular melhor essa ideia acerca dos filmes daqui.

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  3. Claudia,

    Muito doido, complexo, mas ao mesmo tempo, bastante previsível isto aí. Tem a ver com este ‘…agora por nós mesmos’ que é um conceito que toca fundo na ferida do corporativismo desta gente (o elitismo aqui no Brasil parece que tem este conteúdo oculto, este fundo egoísta.Tudo na sociedade tem que pertencer a ‘eles’.)

    E tem o lado esquizofrênico também dos que acham que os filmes desta galera não são ‘suficientemente’ engajados, militantes porque, eventualmente (caso do filme do Jeferson) não elegeram um protagonista principal negro ou não denunciam, explícitamente o racismo.

    O caso dos filmes acusados de serem ‘de ONg’ é neurose pura também porque, na crítica a eles, se mistura joio com trigo: filmes de propaganda institucional de ONgs (eu chamo de filmes ‘criançaesperança’), politicamente ‘corretos’, feitos para justificar programas de inclusão social fajutos (tipo ‘Afro Reggae’) com filmes simplesmente normais, artísticos cujo única intenção é ser real, humano, ser Cinema enfim (como o ‘Nós do Morro’, o Zito e o Jeferson).

    Em todos os casos, contudo, o momento é bem rico para se avançar para um cinema brasileiro bem poderoso e diverso artisticamente.

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  4. (Claudia Rangel, de Vitória, ES,comentando via Facebook)

    Então, papo bom esse… Na minha dissertação cito um caso de uma professora que não quis analisar um filme que passei (faz parte do projeto de mestrado) para a turma pesquisada. O filme é um curtinha bem lírico feito pelos meninos do Nós do… Morro (picolé. Pintinho e Pipa) e, embora se passe numa favela, mostra apenas que criança é criança, independente do local onde ela vive. E a moça viu no filme uma apologia à miséria e à violência. Disse estar de saco cheio de miséria etc. É o mesmo caso de quem vê no 5 vezes favela um “cinema ong”… Quer dizer que o povo não pode falar, só pode “ser falado”?

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