A musicologia de Schaeffer entre os zulu

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'Selvagens' zulu imitam brancos ao piano - Okinawa Soba on Flickrs

'Selvagens' zulu imitam brancos ao piano - Okinawa Soba on Flickrs

O big bang da pólvora é música segundo Schaffer

Ora ora. A pólvora foi descoberta enfim. Ai, ai! E já falávamos disto há tanto tempo (e nem me lembro bem se já havia lido este iluminado texto do Schaeffer resenhado pelo Carlos Palombini aí embaixo).

Pois não é que em sua própria essência foram, exatamente estas as conclusões a que chegamos no Musikfabrik? Nossa metodologia ficou sendo, literalmente esta, construída que foi assim, enquanto refletíamos  sob a luz norteadora da velha e boa prática – física, manual, braçal, efetiva mesmo –  do ‘artesanato musical’ como a denominamos, confrontada com outros tantos estudos lidos aqui e ali, esparsamente (inclusive de musicólogos como Schaeffer) mas também de outras áreas como a linguistica de Noam Chomsky, por exemplo, tudo junto e misturado como nos ensinaram os avós.

Curioso mesmo é lembrar que quase sempre – na verdade até hoje  –  estas idéias musicais tão simples e corriqueiras (pelo menos para uma pessoa que não seja surda) quando expressas por pobres mortais ‘leigos’ (como os zulu da foto acima), passam a ser consideradas meras – ou mesmo estúpidas – heresias de ‘curioso‘. E a gente fica repetindo, enfadado com os irônicos questionamentos de alunos mais esnobes ou sabichões , do tipo:

_ ‘Oh! Não existe modernidade em música?!? Mas como assim?’

(Claro que eu falava, no aspecto socio-hierárquico do termo – sendo ‘moderno’ igual a ‘superior’ – se bem me entendem). Dava vontade de dizer sem papas:

_”A música é uma linguagem que se processa no tempo e no espaço, Anta! (‘Anta’, claro que eu não dizia. É só força de expressão). Logo, do ponto de vista de nossa própria natureza, é  virtualmente impossível haver uma cultura musical superior à outra.

É física, lei da natureza…Anta! (‘Anta’ – já disse –  eu não repitia de verdade não) Tudo nela, na Música, é relativo. O que parece ‘moderno’, ‘novo’, atual’, ‘contemporâneo’ hoje (ou aqui), pode ser ‘primitivo’, ‘velho’, ‘fora de moda’ amanhã (ou ali). Tudo pode ser extemporâneo e fora de lugar, portanto… E este é o grande barato da linguagem musical”.

E cá entre nós: Chega a ser até meio constrangedor constatar que os conceitos lançados por Schaeffer, que são básicos em qualquer musicologia que se preze (estão em 9 entre dez teses e dissertações da área), sejam ainda tão ‘difíceis’ de serem assimilados e compreendidos, apesar de sua transparente obviedade (que é, ao fim das contas, o que sugere a resenha de Carlos Palombini, divulgada com foros de novidade).

Será que é um problema pedagógico – ou ideológico- de nossas escolas  e conservatórios? Gente de Deus! Os textos do Schaeffer citados aqui abaixo são de quase… 50 anos atrás!

Desculpe-me os maus bofes, mas a rigidez eurocentrica, elitista, conservadora – e ignorante – de certa musicologia academica (pelo menos no Brasil) cansa, não é não?

Spírito Santo

julho 2010

(…Ué? Não viu não? Volta! Volta! Em cada nome do Schaeffer linkado acima (e até neste aí que passou) coloquei uma maluquice sonora dele pra você ouvir. Volta lá)

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Música é linguagem múltipla, repito
(Com Schaeffer como guru)

Carlos Palombini, divulgando a tradução de “Os três becos sem saída da musicologia”, da introdução, “Situação histórica da música”, do ‘Tratado dos objetos musicais, de Pierre Schaeffer, publicado em 1966:

“Um desses becos sem saída é o das noções musicais. Já não são apenas a escala e a tonalidade que as músicas mais aventurosas da época, como as mais primitivas acabam por negar, mas a primeira dessas noções: a de nota musical, arquétipo do objeto musical, fundamento de toda a notação, elemento de toda a estrutura, melódica ou rítmica.

Nenhum solfejo, nenhuma harmonia, ainda que atonal, pode dar conta de certa generalidade de objetos musicais, e notadamente daqueles utilizados pelas músicas africanas ou asiáticas.

O segundo beco sem saída é o das fontes instrumentais. Apesar da tendência dos musicólogos a referirem a nossas normas os instrumentos arcaicos ou exóticos, eles se viram subitamente desarmados diante das fontes novas de sons concretos ou eletrônicos que — ó! surpresa — entendiam-se às vezes muito bem com os instrumentos africanos ou asiáticos.

Mais inquietante ainda era a desaparição eventual da noção de instrumento. Instrumentos encaixáveis ou sintéticos, tais seriam os ornamentos de nossas salas de concerto, a menos que um despojamento total consagrasse a ausência de todo o instrumento. Iríamos assistir ao desaparecimento da orquestra e do maestro, evidentemente ameaçados pelo das partituras, em vias de substituição por fitas magnéticas lidas por alto-falantes?   O terceiro beco sem saída é o do comentário estético.

Em seu conjunto, a abundante literatura consagrada às sonatas, aos quartetos e às sinfonias soa oca. Só o hábito pode mascarar a pobreza e o caráter disparatado dessas análises. Descartando- se, para cima e para baixo da obra, as considerações complacentes sobre o estado de espírito do compositor ou do exegeta, fica-se reduzido à mais seca enumeração, em termos de tecnologia musical, de seus procedimentos de fabricação ou, na melhor das hipóteses, de sua sintaxe.

Mas nenhuma verdadeira explicação do texto. Talvez não haja razão para se espantar? Talvez a boa música, sendo ela mesma linguagem, e linguagem específica, escape radicalmente a toda a descrição e a toda a explicação por meio de palavras? De todo o modo, me limitarei a reconhecer que o problema é muito importante para ser camuflado, que a dificuldade não foi nem resolutamente encarada nem claramente tratada.

A análise é severa, sem dúvida, mas um dia deveremos tomar consciência do esgotamento da musicologia denunciado por ela. Se toda a explicação se esquiva, seja ela nocional, instrumental ou estética, mais vale afinal confessar que não sabemos grande coisa da música. E, ainda pior, que aquilo que sabemos é propício a nos desnortear, e não a nos orientar.

————–

E eis que o Carlos Palombini, via lista do grupos yahoo da Etnomusicologia me manda neste comentário bem bacana um texto inédito – e tudo a ver – do Pierre Schaeffer:

“Olá, Spírito Santo

Fico feliz que o excerto lhe diga alguma coisa. Você me deixou com vontade de traduzir suas 700 páginas. E já que você fala de antas, mando-lhe este excerto inédito, que muito me disse quando o encontrei, e que continua dizendo, no qual ele fala de imbecis

Achei linda a foto. Em 1953 Schaeffer partiu para a África para implementar um plano de descolonização do rádio, mas foi mandado de volta em 1957.

PS.: O excerto sobre o imbecil foi enviado com a autorização da detentora dos direitos autorais, Jacqueline Schaeffer, à qual agradeço

“Palavras de um imbecil

Pierre Schaeffer, 17 de março de 1947, sobre um artigo acerca da Indochina de Bertrand d’Astorg publicado em Esprit.

Os imbecis sabem muito bem que um povo colonizado acumulou demorado rancor, uma raiva oculta sob os bons sentimentos, que o caminho para a independência não é daqueles que se tomam de mãos dadas com o antigo invasor. O imbecil sabe muito bem que quando as crianças de além-mar retornam ao rebanho coroadas de diplomas, as questões que se colocam não dizem respeito a altos princípios de colaboração, mas à partilha miserável de alguns lugares. Rivalizam então redondamente esses “Brancos” e esses “Homens de cor” que a mãe pátria imprudentemente qualificou.

Pode-se perguntar, por exemplo, se nossas Universidades que servem tão bem a nós, Intelectuais do Ocidente, preparam convenientemente os jovens orientais para a retomada de suas responsabilidades. Se eles voltam munidos apenas de nossos sórdidos impulsos de pretensão aos postos, de nossa impaciência e de nossos planos de curto alcance, para que diplomas? Estou pronto, nesse caso, a preferir-lhes provisoriamente o imbecil; e seus reflexos, necessariamente sãos, de defesa da própria pele.

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~ por Spirito Santo em 30/07/2010.

3 Respostas to “A musicologia de Schaeffer entre os zulu”

  1. Grande Hugo,

    É esta a resposta que se podia esperar de um instrumentista! Eu na minha modesta prática de fazedor de instrumentos de tudo, claro que concordo com você. É só a gente refletir – fazer um aluno refletir – que o sentido da palavra ‘linguagem’, pressupõe, imperativamente como se sabe, algum conjunto de elementos – pelo menos dois elementos – organizados em padrões definidos, diferentes um do outro, para se estabelecer. Se não tivermos no mínimo dois sons, perceptivelmente diferentes um do outro, nada é dito, nada é linguagem, nada faz sentido e sem sentido (emocional) não é música. Isto é o básico.

    Claro que qualquer som produz emoção, mas música é este fenômeno aí controlado, manipulado, organizado para a gente dizer algo emocionalmente compreensível.

    Na minha canhestra metodologia este princípio é sempre repetido até que o aluno entenda que a linguagem musical trabalha como um código elaborado a partir de sons e timbres diferentes uns dos outros e de algum modo encadeados para que provoquem uma impressão emocional qualquer, a maioria das vezes não de todo prevista, porém irresistível.

    O músico é o cara que estuda e consegue entender uma pequena parte deste truque e tenta aprender a reproduzir esta mágica da natureza. Claro que não precisa haver uma lógica cartesiana nisto aí (e talvez seja isto que o europeu Schaffer quer dizer), mas é sempre necessário haver algum sentido emocional (ou espiritual para alguns) nisto aí, e para se produzir isto necessita-se de algum tipo de instrumento (artificial ou natural) no qual possamos manipular estes truques, desde que saibamos que a música é algo sempre complexo demais para ser dominado inteiramente por nós, pobres mortais quase surdos.

    Não basta fazer barulho. É preciso saber controlar que tipo de emoção este ou aquele barulho faz para se poder dizer que se faz música.

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  2. O “esgotamento” na limitação das notas musicais é bastante discutível. Da mesma maneira que o piano reproduz e “imita’ a orquestra. A questão não está somente nas notas isoladamente ou em escalas ou na tonalidade. A questão está na “combinação” dos sons que mesmo num sistema limitado por comas, tons e semi-tons, de doze sons como o do piano permite possibilidades que embora finitas, são incontáveis, como ao se colocar um grão de arroz no primeiro quadrado do tabuleiro de xadrez e a seguir completar o tabuleiro em progressão geométrica. É como encontrar o fim da reta no infinito que se torna uma curva. Mesmo com relação às peculiaridades dos sons não codificados pelo então sistema, digamos, cromático, é possível “imitar” ou “reinterpretar” sons de objetos já existentes e desconhecidos em outras culturas. E quem foi que disse que a Música precisa de sons verdadeiros? A Música é a Fantasia dos sons. Mas não é essa a finalidade da Música. A finalidade da Música é a busca do Sublime e da capacidade do homem de se comunicar e informar por um meio sem a censura e limitação da fala e da escrita, no caso da Música produzida através do instrumento musical. E nesse momento me parece que o Schaeffer não considera o Jazz Moderno como a maior força de expressão cultural jamais produzida pelo homem. E isso acontece simplesmente porque isso inclui o IMPROVISO, que só existirá uma única vez no mencionado Tempo/Espaço enunciado por você. É a MÚSICA do AGORA! E isso é apenas um dos tópicos que podem ser levantados. O Jazz é muito maior que o que posso descrever.

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  3. Texto muito interessante que aguça nossa curiosidade histórica.

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