Parachoques do Fracasso


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Foto: Andres Bortnik

CONTO

_”Pera lá, mano! A guitarra quebrou, pô! Vou fazer o quê? Leva…Leva aí, aquele groove de baixo batera! Leva aí!”

O público se lixava. Nem se tocando para o meu drama. Já tava puto mesmo. Guitarra de merda, usada, comparada a 10 merréis ali na esquina. Queria o quê? Que funcionasse 10 anos? Tava puto sim. 15 anos de banda e ainda naquele ramerrão de showzinho em cidade de interior.

Detesto. Um bando de mauricinho brega. O filho do fazendeiro, o filho do advogado do fazendeiro, a filha do dentista do fazendeiro. Arghh! Uma carreira de toyotas enlameados de barro, na porta do clube, me afrontando. Nós, os artistas, naquele ônibus velho, de 1980, sei lá. Meio constrangedor, não é? Tava puto sim.

No começo até que foi legal. Todo mundo garotão, pai e mãe bancando aquela doce aventura, dando a maior força para o sonho dos pimpolhos, naquela conversa:

_ “…Na pior das hipóteses os meninos se divertem. Melhor do que ficar aí pela rua, se drogando”.

Papo furado de mãe. Lógico! Bullshit de pai e mãe. Vai acreditar.

————

_” Volta, porra! Volta pro palco, caralho!” – Gritava o Marcão, desesperado.

Que voltar que nada. A platéia estava odiando o som. Aquele esporro de PA de quinta categoria. De irritar surdo. Voltar para o palco? Eu? Qual é? Sem chance. Voltar é o cacete.

Dois marmanjos meio punks, meio bandidos, desses que curtem heavy metal mas que, na calada da noite, adoram mesmo é Leandro e Leonardo, começaram a jogar latinhas de red bull. Na trajetória do palco, uma bateu bem na minha testa. Ah! Não teve jeito, parti pra cima.

Algo espirrou em mim. A chuva de latas agora já era tempestade. O barulho delas, batendo no prato splash da bateria, era apenas mais um dos sons constrangedores daquele nosso espetáculo de erros.

Quem foi que enfiou na minha cabeça que eu era um músico talentoso? Quem? Meu pai? Minha mãe? Nem lembro mais. Maldita platéia de mauricinhos. As latinhas agora eram jogadas cheias. Batiam na cara do Marcão e do Pirulito, uma, duas, três. Parecia aquelas barracas de parquinho de subúrbio, com a cara do palhaço levando boladas que, se acertadas, valiam um prêmio michuruca qualquer. Um maço de cigarros, uma bolinha de plástico, um saco de jujuba. Que situação.

O supercílio do roadie abriu. Coitado. Sem ganhar um puto. Largou a faculdade pra seguir a banda, há 5 anos, por amor e pra quê? Pra levar latada na cara? As latas batiam e o líquido escorria na cara, na roupa da gente. Nem sei nem o que era. Cerveja? Podia ser mijo até, sei lá. Era como se eles cuspissem na gente. Cuspi também, com nojo.

————–

Eu, Júnior, Marcão e Pirulito. Éramos quatro.

Desde o início da banda, o mais lúcido dos nossos pais era o do Pirulito. Assistiu a três ensaios, caladão, num canto. Pirulito teve vergonha de dizer que ele tinha sido músico. Baterista de bossa Nova, algum troço brega aí, dos idos de 1960. Imagina. Eu nem sonhava em nascer. Mas não.

Agora, olhando a cara de ódio do Gordão Punk, em cima do palco, me chamando pra briga, eu tive que concordar. O pai do Pirulito tinha toda a razão.

_ “Meninos se divertindo …sem drogas”... Papo furado.

Bullshit de pai e mãe. Olha só pra nós. Quase trintões, trincadões de cocaína, cerveja, de cachaça com red bull. Bullshit de pai e mãe. As drogas éramos nós!

Aí, pronto. A porrada comeu solta. Os caras punks subiram no palco me carregando pelo cós das calças, como a um merda qualquer, dando porrada. Girei. Consegui jogar o cara para o lado da bateria, que toda desconjuntada, desabou. Plash!Splash!Prumcabragabum!

Júnior, o batera, se estabacou junto. Levantou e correu, fugiu para o camarim. Sumiu. Com o barulho, a platéia urrou feliz. Queriam mesmo é se divertir com a nossa desgraça.

Marcão, o mais sensível da banda, chorou. Tentou esconder mas eu vi, entre uma porrada e outra que o Gordão Punk dava na minha cara, eu vi, de relance, uma lágrima cortando o rosto dele.

Foi Marcão quem criou a banda, pensou a banda. O som.O visual. A proposta, tudo. Queria um lance assim, meio Seattle, de início. Punk Rock , cada vez vez mais Punk Rock, até se fixar numa coisa assim mais… ‘essência‘, como ele mesmo dizia, vago. Parece loucura, total, mas, no início da banda, o sonho era mesmo se mandar para os States.

Tocar em Seattle, Memphis! Maluquice, presunção, mania de grandeza. Mas no fundo, esse papo de ‘essência’ era concessão mesmo. A gente sabia. Um troço assim Rock Brasil, meio barro meio tijolo, tipo embrulha e manda, visando um pouco o público, mas, principalmente, o mercado, ‘nacional’, é claro. Sabe como é? Senão – enfatizava Marcão – morreríamos de fome.

_ ”Seattle? Que nada. Brazuca, cara! Cai na real. Você mal sabe pronunciar y love you.”

Marcão falava, falava, com toda a convicção do mundo, já no final de uma reunião da banda. O pai do Pirulito, quieto no seu canto, olhava para o lado, disfarçando o muxoxo.

No final era isto mesmo que a gente deduziu. Era o papo que algum empresário caído arriou em cima dele, para descolar um percentual qualquer em cima da gente. E foi assim que saímos tocando por aí.

————

Uma porrada do Gordão, mal dada, fechou o meu olho. Abri bem o outro e acordei das lembranças. O Gordão me largou ali, meio desfalecido e partiu pra cima, logo de quem? Do Pirulito. Gente de Deus! Ele é epilético! Se cair do palco e se machucar, o pai dele vai acabar com a banda. De vez. Foi isto que me fez acordar.

Ou foi o som do baixo do Marcão que parou? Será que foi a falta daquele barulho roufenho que me acordou? O Punk Magrão havia chutado o amp do Marcão, com tanta força, que a caixa tombou no palco, rachada de cima a baixo.

Com um estrondo, misturado com o esporro do feed back, o amp, que era nacional, é claro, pifou. Porra! Não falo nem a marca pra não queimar o filme do fabricante, mas, bem que merecia. Negou patrocínio pra banda mil vezes. Tivemos que comprar a merda do equipamento à prestação.

O pai do Marcão, gente boa, empresário no ramo de imóveis, foi quem deu a entrada. Suamos vinte e cinco shows para pagar. Mas, agora, que se dane. Acabou. Pronto. O amp quebrou. Nem sei se vai ter conserto.

———–

E a porrada comendo. Solta. Olhei para o lado e vi o Gordão Punk imprensando o Pirulito na coxia. O público, urrando, na farra, nem via que o Pirulito podia até ser morto ali, naquele canto escuro. Foda-se. Nem pensei. Peguei o extintor de incêndio e disparei na coxia. Na cara do Gordão Punk. Com raiva. Pirulito ali, como os olhos revirados, babando, aquela baba espessa, não sei se do extintor ou da epilepsia (engraçado. Pensei nisso agora. Será que me enganei? Foda-se).

A fumaça do extintor esguichando. Aquele chiado estridente e pronto: Pânico! A platéia maldita se desesperando. Olhei excitado, sádico. A casa estava lotada. Bombada. Estourada de gente. Foi a minha redenção. Vingança. Foda-se.

_”Incêndio! Incêndio!” – Gritaram as patricinhas histéricas e os mauricinhos cagões.

Meu celular tremeu no bolso. Como é que ia atender no meio da confusão? Pedia licença aos punks, às patricinhas histéricas e aos mauricinhos cagões? Pedia silêncio á turba maldita para poder atender ao celular? Não. Melhor olhar o display. Pra quê? Tremi. Ai meu Cristo! Minha mãe! Aí…Pum! Foi o tempo de desviar as costas.

O extintor, tomado de mim pelo Gordão Punk, bateu na minha cabeça em cheio e caiu no palco, esguichando, de novo, espuma pra todos os lados. Só que, de repente o chiado parou. Subitamente. Só me lembro de ficar ouvindo uma musiquinha. Longe.

Não vi. Dizem que depois que eu caí, o gordão pegou meu celular e pisou, pisou, com toda vontade. O bicho não quebrou assim, logo. Ainda ficou tocando aquele toquezinho fresco, uma musiquinha do Mozart, que eu escolhi, de bobeira, só por que me lembrava de quando eu era neném. Fiquei calminho de repente. Relax. Achei que era a musiquinha. De repente, nem Mozart nem nada. Silêncio.

Quando acordei de vez, olhei para o lado e vi o Marcão, sentado no palco, meio zonzo, olhando para o amp quebrado, desolado. Pirulito sumira. Ah, não! Logo me deparei como ele ali, sentado no chão do salão, atendido por um enfermeiro com o guarda pó ensebado, suadão. Que alívio. Não tinha tido ataque nenhum. A espuma na boca tinha sido do extintor mesmo.

O salão do clube vazio. Pra andar, tentando arrumar as idéias na cabeça e lembrar a história toda, tive que desviar das pilhas de latinhas, de copinhos de plástico, de seringas do pico dos punks, aqui e ali de umas camisinhas, calcinhas, um nojo só. Olhei pra cara do dono do clube, nosso contratante.

Gelei, desanimado. A cara dele estava tão feia, mas tão feia que logo vi. Nada, nem sombra de cachê à vista. Demorar muito por ali era até um risco. Ele podia ter a brilhante idéia de nos cobrar o prejuízo. Cobrar do meu pai ou, pior ainda, da minha mãe. Que sufôco.

O telefone do Marcão tocou. Achei que era o meu. Não era, mas, a ligação sim, era mesmo pra mim.

_” E aí mãe? O que foi?”

_” Nada, filho? Teu telefone só dá desligado ou fora de área… E o show? Como foi?”

_ ”É mãe. Maneiro. Deixamos nossa marca. Agora nós somos um sucesso por aqui”.

Não precisava nem falar, entrar em detalhes. Ela sabia entender a voz do filhão. 15 anos botando panos quentes nos meus fracassos. Me bancando. Até se divorciou do meu pai por causa de mim. A pensão alimentícia, o velho já parou de pagar faz um tempão. Sou quase um trintão, lembram? Na hora das dificuldades, nos mudamos pra Bangu. Mas ela segura minha onda. Sem reclamar. Sabe como é? Mãe é mãe, certo?

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Maio 2007

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~ por Spirito Santo em 30/07/2010.

2 Respostas to “Parachoques do Fracasso”

  1. eu sou de bangu q

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  2. Gostei da história. Bem contada, do jeito que eu gosto, a excessão da porradaria, mas se compreende.
    Qualquer dia conto uma.
    Vai mais um abraço!

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