Cronica suja #02


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Últimos fragmentos de um incidente infelizmente verídico

(Leia parte 1 aqui)

Fragmento #02

Os Peões

Dia de arregimentar a peãozada. O pátio, a quadra e todos os espaços da associação de moradores, ficaram lotados. Uma galera descontraída; estranho ambiente para quem, como eu, previa um monte de semblantes carregados de ansiedade, agarrados àquela possibilidade sonhada de, enfim conseguir um emprego e segurar a barra pesada que atormentava a casa (a mulher grávida, com a perna inchada, deprimida, o menino mais velho vendo a panela vazia e pensando no assédio do pessoal do Zu, que vive insistindo para que ele ingresse logo na ‘endolação’ para ganhar algum dinheiro).

_” Vai ficar nessa, vai? Levando esta merda de vida que o teu ‘coroa’ tá levando? Sai dessa, mané?”

Zu circulou algumas vezes pela fila, poderoso; mais cumprimentado do que o engenheiro que avaliava os candidatos com um olhar meio desolado, pensando nas perguntas que faria nas entrevistas para aqueles pobres diabos. Não demoramos muito a perceber que aquela tranqüilidade toda tinha um motivo bem prosaico: A maioria dos candidatos era gente de Zu. Bandidos maiores de idade, parentes e agregados, gente do esquema. À boca pequena um dos funcionários da empresa, acabou me confessando que havia sido firmado um acordo entre Zu e ‘Alguém de direito’.

_” Tá legal. Autorizo a ‘parada’ da obra sim, mas, tem um porém: Quero prioridade para o meu pessoal, valeu?”_ Teria dito Zu, sacramentando o acordo.

Uma contrapartida justa. Difícil discordar, não admitir.

Carteira de trabalho assinada é um bem muito precioso para um bandido de morro; significa livre trânsito no asfalto, liberdade de ir e vir, poder passar por uma ‘dura’ da PM sem ser esculachado, sem tomar bolacha na cara, descer favela com o nariz em pé, cheio de moral.

_” Qual é, chefia? Num tá vendo que eu sou trabalhador?”

A desolação do fiscal da obra, tinha, enfim, bastante fundamento. O que esperar de um peão bandido, sonado, com a cara amarrotada, trincado de tanto cheirar cocaína? Um peão que passou a noite na ronda, tenso com a possibilidade de encarar uma invasão dos ‘alemão’ quer saber de mudinha de planta frutífera? Que enxada? Que ancinho? Que nada. As ferramentas dele são os ‘Bicos’, azeitados, pesados, cheios de balas.

Bendisse mil vezes, naquela hora, o fato de não ser engenheiro florestal. Já pensaram? Como fiscalizar o serviço de semelhantes trabalhadores? Como repreender um sujeito que todo fim de tarde você encontra com um fuzil enorme pendurado no ombro? E os faltosos recalcitrantes? Como demiti-los?

Pronto. A turma de trabalho havia sido escolhida a dedo. Eu já podia então cuidar das tais atividades de ‘Inserção da Cultura da Comunidade no Âmbito da Obra em Si’, do que me competia enfim. A pobre Mata atlântica que esperasse. Fazer o quê?

De tudo que pesquisei, rodando pelo morro, autorizado por Zu, o que se poderia chamar de cultura da comunidade se resumia aos bailes Funk (único lazer para os ‘soldados’ e suas ‘tchuchucas’) e as baladas bregas que rolavam toda noite na igrejinha evangélica em frente á associação, tocadas num violão rachado, pelo pastor que imitava roufenhamente o Odair José.

Do bloco de Carnaval que havia no morro (do qual eu pude ver os restos mortais, representados pelas peças da bateria furadas e enferrujadas), a única notícia que tive foi também a que Zu me deu: Os batuqueiros estavam todos ‘pedidos’, procurados pela polícia e o bloco não podia evoluir mais do que alguns metros em torno da quadra. Não tinha a menor graça e a estranha agremiação acabou. Ele ainda me instigou para que fizesse um projetinho para reparar as peças, com a ajuda da garotada do morro. Não me animei muito e a idéia murchou.

A esta altura, em minhas entrevistas, já havia ficado sabendo de muito mais do que o bom senso recomendaria. De certo modo, quase íntimo do bando, conhecia já quase todos os soldados de Zu, como Jorge Sumiço, por exemplo, que era sempre escalado para me escoltar em minhas andanças pela favela, subindo no topo do morro para ver como andava a obra, ou para panfletar a divulgação de algum evento cultural. Num dia desses, Jorge Sumiço, que parecia ter simpatizado com a minha velha mania de dar conselhos de graça, me perguntou, meio ressabiado:

_ ”Aí, tio… Tô com um problema aí, sabe? Posso falar?”

Poderia ser uma conversa banal, de mais jovem para mais velho, não fosse o fuzil trançado á bandoleira no ombro de Jorge, que a todo o momento trocava a arma de lado, sofrendo com o peso dela forçando as suas costas.

_” É que a mulher arranjou um emprego, de doméstica aí, tá ligado? Numa casa de madame lá de baixo e, vê só. Tô aqui agora sem poder, sabe? Tinha que tá lá e tô aqui, tá ligado? Nós tem um menininho, assim de uns três pra quatro meses e aí… sabe como é, tio?Tem mamadeira, ele caga pra caramba, essas coisas. Deixei ele lá com a vizinha mas tô aqui nos nervos, tá ligado?

Recomendei uma creche lá em baixo. Dar um tempo também, até que a creche da associação passasse a funcionar não era má idéia. O papo era surrealista e tive que esconder minha estranheza, olhando para a vista da cidade, lá em baixo.

Tinha outro, o Catarina. Louro, já meio coroa para os padrões do bando, com uns fios grisalhos aparecendo aqui e ali, “Catarina” era o braço direito de Zu. Mais velho que o chefe, ele era ao mesmo tempo, a figura mais falante e mais soturna do grupo. Falava até demais, às vezes. De repente, como que deprimido, não falava nada.

Contou que a filha, a quem há muito tempo não via, estudava para ser médica da Marinha. Ana Lúcia, a assistente social de nossa equipe, ‘descolada’ de Copacabana que era, achou “Catarinaum cara até que bem legal. Ficaram quase amigos, talvez ela se parecesse com a filha dele, imaginei.

A história mais estranha de “Catarina” foi a das toucas ninjas e das luvas pretas que ele encomendou de Ana Lúcia que, boa de tricô que era – além de sensibilizada com as noites de frio e sereno que ele passava na ronda – logo providenciou. Na sua simpatia por “Catarina”, Ana Lúcia nem achava muita graça quando Zu contava, rindo às gargalhadas, alguma mancada de “Catarina” em público, como aquela história da rajada de fuzil que assustara o morro todo, na madrugada anterior: Tinha sido por culpa do escorregão que “Catarina” levou, ao pisar, distraído, numa latinha de cerveja, com o dedo no gatilho.

Outra figura incrível era Tião Gordo. Eletricista nas horas vagas havia sido ele quem instalara as lâmpadas de mercúrio na subida do morro. Zu falava que ele era o cara mais covarde que ele conhecera em toda a sua vida. Estranha covardia por que Tião viva por ali, sempre perto de Zu, contando piada. O que Tião mais gostava de fazer na vida era de contar as aventuras – dos outros, é claro – entre elas os detalhes mais macabros ocorridos na cruenta batalha que decidiu a posse do morro pelo bando de Zu.

_ ”Teve um cara que recebeu uma estocada, com essas facas de matar porco, sabe? Assim, entre o ombro e o pescoço. Daquelas que entram fundo, sem chance. Desceu dali daquela escada até lá em baixo, na ânsia da morte, sabe?

_” Ânsia da morte?”_ Que diabo é isto, perguntei

_ ”O cara acha que a morte está vindo atrás dele, que ele vai poder escapar dela, correndo, mas, que nada. A morte já tá ali, junto dele, agarrada nele, até o fim…”

A faca de matar porco me lembrava o enorme chiqueiro que havia visto num barranco do morro, no passeio da véspera. A visão do cabo da faca no ombro do moribundo e o cheiro nauseabundo do chiqueiro, juntos, me traziam, não sei por que, a impressão de que havia alguma coisa a ver entre os porcos mortos (que eram esquartejados ali mesmo no morro, para serem vendidos em improvisados açougues), e o esquartejador de gente, profissional que algumas quadrilhas de favela, passaram a manter entre seus quadros, mais ou menos naquela época.

Os desafetos mortos, geralmente “chisnoves” (espiões infiltrados), desapareciam assim, acondicionados em sacos de estopa. Cabeça aqui, membros ali, tronco acolá. O horror! O horror!.

Fragmento #3

Cine Paratodos

Não queria, mas um dia tive que ficar na favela até perto do anoitecer, para ver o movimento cultural da área, mas, foi muito decepcionante. O pessoal que trabalhava subia apressado, vigiado pelo pessoal do Zu que, em sua maioria meninos ainda, ficava plantado na entrada da favela, batendo um futebol provisório, sem tirar os revólveres das mãos. O povo cumprimentava os bandidos com um respeito meio forçado e desaparecia, sumindo nos becos, se escondendo nos barracos lá no alto.

Não pude deixar de perceber os olhares de certo desprezo que alguns dos passantes dirigiam para mim. Se eu estava com o pessoal do Zu, ali, às vezes circulando com eles pra baixo e pra cima, com trânsito já liberado para passar pela rua da ‘boca’, para ver os meninos da ‘endolação’ descansando na calçada, com mãos enegrecidas da química que usavam no preparo da cocaína, quem seria eu senão mais um cara do esquema? Um policial corrupto, talvez.

Tomando cerveja, sendo apresentado aos birosqueiros, às costureiras, aos ‘vapozeiros’, às cozinheiras e aos entregadores de ‘quentinhas’, apresentado até ao sinistro irmão de Zu, dono da parte baixa do morro, que um dia, sem camisa e com uma pequena metralhadora Uzi pendurada no braço, me fuzilou com o olhar mais frio deste mundo, recusando o copo de cerveja que o irmão lhe ofereceu e seguindo em frente, como se eu, Zu e os outros caras, não existíssemos. Quem seria eu afinal?

Sonhava poder dizer a eles um dia, que aquele era apenas o meu trabalho.

_ ”Trabalho antropológico!” _ diria cheio de orgulho e coragem.

_” Antropologia de botequim! Corajoso mesmo não anda com covardes” _ poderiam me dizer, com desdém, se pudessem.

Zu também se ressentia muito por não ver reconhecido o seu esforço em prol da evolução da comunidade. O empenho era mais de Ném, mas, ele, ao que parecia, apoiava honestamente. Claro que tudo vinha de um senso político assim, meio empírico, intuitivo. Clientelismo puro, canhestro; camuflado de campanha para ser visto como um bem feitor da comunidade. Chegara mesmo um dia, a confessar um remoto desejo de se tornar vereador do morro. Zu passava, portanto, à sua maneira, a impressão de que seu esforço era esperto, porém, honesto.

O bando, visivelmente não apoiava essas veleidades de Zu. “Viadagem!”, talvez pensassem alguns, sem coragem de falar às claras. Muitas vezes ele nos defendeu, a mim e a Ana Lúcia, de algum bandido mais abusado que ousara questionar a liberdade que tínhamos de subir até à plantação de mudas.

Sempre mantive esta suposta honestidade ‘socialista’ de Zu na conta, apenas, de uma remota probabilidade. Foi por isto que fiquei bastante surpreso, no dia de uma das visitas, com a evolução das obras da creche, quase a ponto de inaugurar. Estavam lá os vasinhos sanitários, as cadeirinhas coloridas, as salas pintadas. Ném havia realmente fechado o convênio com a Ong alemã.

O repasse do dinheiro chegava e era Zu quem ia, pessoalmente, pega-lo com o padre italiano. Até hoje, na verdade, não entendi muito bem, a lógica por trás daquela atitude de um bandido tão vulgar, comum, como era o Zu. Seria alguma sutil contradição oculta no caráter dele? Ou seria minha a contradição?

Nada de teatro. Música, aquela temeridade brega-funk. A única atividade cultural que achei potencialmente instigante, para sacudir um pouco a mesmice cultural daquela favela, foi o cinema (uma idéia não menos estúpida que as anteriores, pude descobrir logo depois). O mais incrível é que Zu, quando toquei cuidadosamente no assunto, pescou uma outra e surpreendente idéia, no ar:

_” Aí, ó…Se tu quiser a gente pode até fazer um filme aqui, sabia? O pessoal fala algumas verdades da ‘boca’, umas coisas da nossa realidade, mostra as armas. Só não pode mostrar a cara do pessoal. A gente bota touca. E aí? O que é que tu acha?”

Seria inacreditável uma proposta destas depois da tragédia de Tim Lopes mas foi exatamente isto que Zu, por pura vaidade, talvez, me propôs naquele dia. Fiquei empolgado no momento, mas, o bom senso, graças ao bom Deus, prevaleceu.

Podia ser por conta da confiança que eu havia obtido dele, com aquela minha ‘conversinha’ de antropólogo de botequim. Mas podia também ser um teste, para mim. Sei lá por que, de vez em quando, ele me chamava mesmo de ‘conversinha’, palavra que, para qualquer bom entendedor, não tinha nada a ver com elogio. Significava ‘Conversa Fiada’, ‘Cascateiro’, gírias famosas neste meio para designar gente que fala demais e é indigna de confiança.

A primeira vez que ouvi isto dele, confesso que gelei.

O fato é que, mesmo gelado de medo, a ideia de fazer alguma coisa com cinema evoluiu. Do pátio da associação, olhando para cima, se descortinava uma enorme massa de barracos, circundando tudo. A idéia que me veio naquele começo de noite foi simples. Um telão de pano estendido num ponto visível dos barracos de cima, poderia formar um grande cinema a céu aberto.

Um contato com um programa de cinema comunitário do Sesc vingou e conseguimos um projetor 16 mm e um projecionista. O problema era o programa. Não havia muitos filmes disponíveis nesta bitola. Entre os títulos disponíveis, optei por dois: Compasso de Espera, de Antunes Filho, com o Zózimo Bulbul, sobre as atribulada vida de um ‘negro de alma branca’ e o documentário de Benjamim Abrahão ‘Lampeão’, no qual se pode acompanhar fragmentos da pitoresca vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, Maria Bonita, seus Cabras e suas armas (entre as quais os fuzis Parabellun e a charmosa pistola Lugger de Lampião). No fim do filme, as cabeças dos cangaceiros, apareciam cortadas, expostas como mercadorias de feira.

A projeção do filme aconteceu depois de um evento de Educação Ambiental, no qual foram plantadas pela comunidade várias mudas de árvores típicas da Mata Atlântica. Neste dia a alta cúpula do reflorestamento compareceu, em peso. Zu mandou que os soldados escondessem as ‘ferramentas’ (os fuzis). Sua determinação era a de que as armas não poderiam ser vistas, de forma acintosa, quando autoridades estivessem presentes.

Uma forma de respeito meio hipócrita na verdade, porque as tais autoridades, não só sabiam, muito bem, onde as armas estavam guardadas, como circulavam tranquilamente pela favela, ao lado de Zu. Em pelo menos uma oportunidade, percebi, por uma rápida esfregada no nariz e um sorriso maquiavélico, que pelo menos uma das mais importantes autoridades presentes, havia compartilhado com Zu uma generosa carreira de pó, sem a menor cerimônia.

Fingi que não vi.

No fim do tour pela área do reflorestamento, já no sopé do morro, a comitiva ficou perfilada num barranco, olhando com curiosidade para uma guarita da PM, na qual dois constrangidos soldados, disfarçavam o incômodo espetáculo que representavam, fingindo olhar para o outro lado da rua. Zu não perdeu a piada:

_” Alá! Tão vendo? São tudo uns ‘Cú-de-Galinha’. Não sabem meu nome verdadeiro mas ‘tão sabendo quem sou eu. É que nós tem ‘Acordo’ com os que ‘tão acima deles, mermão! O bagulho é doido mas o negócio é direito. Não tem bandido. Não tem polícia. O que tem é ‘Acordo’, mermão. Acordo, morou?”

No dia acertado, a projeção do filme aconteceu sem problemas. Encaramos o medo do tiroteio que rolou na parte baixa, a cheiração de cocaína comendo solta no caminho das biroscas, esperando a noite escurecer; encaramos tudo sem fraquejar e projetamos os filmes até o fim.

Zu assistiu tudo, sentado numa cadeira ao lado da minha, enchendo o chão com as cervejas que um menino ia, de vez em quando, buscar na birosca. O povo dos barracos lá em cima, meio ressabiado, também assistiu a tudo, com surpreendente atenção. Acho que naquela noite ninguém viu a novela da TV.

Zu achou bonita a Lugger do Lampião, mas, não deu a mínima atenção para as cabeças cortadas por que, distraído, passara a se importar mais com o plano que surgira na sua cabeça ali, de estalo, naquele mesmo momento. Aquela ideia intempestiva de Zu acabou por selar, de vez, o futuro da obra na favela: Seqüestrar o carro do governo.

_” Aí, mermão… me empresta o carro um tempo aí. Vou e volto.”

Tremi na base, mas, relutei, com firmeza na voz:

_” Você vai desculpar Zu, mas, não dá mesmo. Além do mais o responsável pelo carro não sou eu, é o motorista.”

Não convenci. Zu tirou da cintura as duas pistolas automáticas e deu para uma mulher, sua cunhada, que já estava ao seu lado.

_” Olha só. Vou humilde. Vou desarmado! Não tem nenhum problema. Pô?! É só uma carona, mermão!”

O motorista me olhou em pânico. Querendo que eu o livrasse da situação. E quem haveria de me livrar ?

Não havia mais o que fazer, até porque nem dava mais tempo. Quando nos demos conta, Zu já estava no carro. A mulher, enfiando as duas armas na própria cintura, também já entrara e o carro partiu, velozmente, sutilmente, sequestrado.

Tememos pelo pior. O projecionista, eu, a engenheira florestal, o projetor do Sesc, sequestrados, retidos no morro. Cercados pela bandidagem nervosa, esperamos. O tiroteio recomeçou na parte baixa, mais forte. Fria, geladeira total.

Cerca de duas horas depois, para o nosso alívio, o carro voltou:

_” Não falei que não tinha problema?” – Disse Zu, vitorioso.

Nos despedimos da bandidagem, friamente, e partimos de imediato. O motorista mudo por alguns minutos, por fim, gaguejou:

_” Tô fora, gente! Não levem a mal não, mas, amanhã mesmo entrego a demissão. Podia ter morrido hoje. Não vou esperar a próxima não. Tô fora!” _ E contou a sua aventura:

Zu o forçara a ir até Niterói, município vizinho. Chegando lá mandou o carro estacionar na esquina de um presídio. Seguiu em frente por uma rua escura, onde se encontrou com alguém, que saiu pelo grande portão principal. Trocaram palavras, pacotes, armas, drogas, sabem-se lá o que. Não dava pra ver nada naquela escuridão. Daí Zu voltou, tranquilo, realizado. A mulher tinha ficado no carro, armada, calada. Não dava nem para pensar em fugir.

Depois da narrativa do motorista me calei de vez. Ali mesmo, no caminho, sem precisar pensar muito, decidi me demitir também.

O risco, de calculado ficara imprevisível. _“Bagulho doido!” _ pensei, usando a nova gíria que aprendera. Aquela estranha confiança estabelecida entre eu e Zu não queria dizer muita coisa (nada de bom, pelo menos). Não haveria chance alguma de articular cultura nenhuma, trabalho comunitário algum, que não fosse do interesse de Zu.

Cúmplices, todos nós, de um contexto social caótico demais para a nossa capacidade de compreensão, me preocupava também, um dado instigante: Os interesses das tais autoridades, também não estavam claros. Será que estariam mesmo interessadas no futuro da Mata Atlântica? Que outros misteriosos interesses poderiam estar por trás de nós, de Zu, de Ném e de toda aquela jovem bandidagem sem futuro?

_ ”Tô fora!” – Comuniquei ao diretor, no dia seguinte.

Quinze dias depois, já livre daquele peso terrível, daquele frio na barriga, associado ao medo e à sensação de morte eminente. Voltei para a minha doce rotina das viagens para o interior do estado e, enfim relaxei. Ou quase.

Enquanto aguardava, tranquilamente, a hora do ônibus estacionar, refestelado num banco da rodoviária, abri o jornal e gelei, pela última vez : Num canto da página do jornal uma pequena notícia dizia:

“ASSASSINADO O LÍDER COMUNITÁRIO!”.
O corpo do líder comunitário do Morro dos Prazeres José Antônio da Silva, foi encontrado ontem, carbonizado no alto do Sumaré… ”

O corpo de Zu havia sido encontrado caído numa ribanceira, dentro de um táxi. O corpo do motorista também. O pobre do taxista estava lá, morto como queima de arquivo. Caso típico do sujeito que (como eu estivera) estava ali, na hora errada, no lugar errado, na missão errada. Segundo a notícia, Zu havia ido ao encontro do padre italiano recolher o dinheiro da doação da tal Ong alemã, do convênio da creche. Pela teor da nota, a imprensa não sabia que o homem morto era Zu, o chefe do tráfico local. Bandido benemérito? Sinal trocado. Tudo errado.

Na manhã seguinte á morte dele, o Morro foi retomado pelo Comando Vermelho, antes mesmo da notícia de sua morte chegar às bancas de jornais. A maioria dos soldados de Zu foi pega, num ataque de surpresa, muito mal explicado. Foram todos barbaramente assassinados ali mesmo. Pelo que supus e pelo que descreveram os jornais, morreram todos aqueles com os quais eu convivi, inclusive Ném, a militante negra de trancinhas afro.

Outro dia, muitos anos depois daqueles incidentes eu subi, meio que por engano no Morro dos Prazeres e revi o velho casarão, agora todo restaurado. Me disseram, que ali agora funciona uma importante Ong. Com frio na espinha procurei sair o mais rapidamente possível daquele lugar.

O Brasil está ficando uma terra cada vez mais estranha. A crônica dela é suja.

Spírito Santo

Abril de 2007

(Matéria originalmente publicada em www.http://overmundo.com.br. Leia parte 1 aqui)

Cronica suja #01


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kunstprojekt der Favela Morro dos Prazeres Klaus Werner

kunstprojekt der Favela Morro dos Prazeres Klaus Werner

Nota (26/08/2012) : Uma curiosidade explodida em calafrios na memória ao lembrar destes incidentes: O local onde ocorreram em 1994  os fatos narrados nesta crônica que vocês lerão a seguir, coincidentemente serviu, anos depois, de locação para as cenas mais sangrentas do filme ‘Tropa de Elite’ do José Padilha.

A associação de moradores do Morro dos Prazeres era aquela mesma.  O platô em frente a associação, com a amurada de ferro, a sala onde – no filme-  os ‘ongueiros‘ viciados foram baleados (com a biblioteca anexa), o cume do morro onde o ‘ongueiro‘ foi assado no ‘colar de dragão’ (‘micro-ondas’), todos estes locais foram o mesmo cenário das minhas reuniões e conversas com ‘Zu’, ‘Ném’ a mulher ‘oficial’de ‘Zu’ (cujo nome, coincidentemente era o mesmo do chefe do tráfico da Rocinha de hoje) e os demais integrantes do bando. Gelei quando vi o filme e gelei de novo agora, lembrando:

Coisa estúpida tentar promover cultura naquelas circunstancias!

Fragmentos quase diários de um incidente infelizmente verídico

Início da década de 1990. Viajava semanalmente para o interior. O destino era sempre as cercanias de Vassouras, aprazível cidade histórica no Vale do rio Paraíba do Sul. Antigas fazendas dos tempos áureos do café, histórias do tempo da escravidão, cultura negra, tradicional, num paraíso de memórias, lendas e histórias, que quase ninguém havia parado para contar.

Paz de espírito, quase férias no campo.

A vida, no entanto, não andava assim tão mansa. Precisava de mais trabalho. Foi assim que decidi, sem muito sofrimento, aceitar um serviço que me pareceu, a princípio, pra lá de interessante: Estimular a cultura local em duas favelas do Rio, atendidas por um plano de reflorestamento de encostas promovido pelo governo. O contrato, assumido com uma empresa de reflorestamento de outro estado, dizia mais ou menos o seguinte:

“Promover a articulação comunitária, as boas relações entre a obra de reflorestamento, seus engenheiros e a comunidade em geral, ajudando inclusive a arregimentar os operários que, selecionados entre os desempregados das comunidades atendidas pelo programa, roçariam, plantariam e revigorariam a vegetação local, que fazia parte da degradada e outrora exuberante Mata Atlântica.

A empresa havia tentado reflorestar as áreas alguns meses antes, trazendo camponeses reais de sua sede, no outro estado, mas, a inexperiência ao negociar com os traficantes e as acusações de que os camponeses estariam submetidos a um regime de trabalho escravo, acabou gerando um escândalo na imprensa que obrigou á paralisação das obras e contratação de especialistas locais, daqui do Rio de Janeiro, para intermediar a situação. Era aí que eu entrava, com o pomposo título de Coordenador de Articulação Cultural.

O contexto era simples de entender: A ocupação desordenada das encostas por parte das favelas, um problema crônico do Rio de Janeiro (que talvez tenha começado já no século 19, bem antes da Abolição da Escravatura), destruiu quase que completamente a vegetação que cobria a cadeia de serras e morros que circundam a cidade. A água de chuvas torrenciais, muito habituais na região, sem nada que as retivesse, com o desgaste do tempo, passou a descambar morro abaixo, inundando praças e ruas. Rios de esgoto, lixo, ratos mortos, dejetos de toda espécie, além de um fedor insuportável, escorriam junto, como se o saco de mazelas sociais (aqui estranhamente empurradas para o alto), geradas pelo descaso de mais de um século, estourasse, deixando à mostra as suas incômodas entranhas.

Mergulhar numa aventura sociológica infecta, porém, bem remunerada, não seria nada mau àquela altura. A aventura, no entanto pouco durou. Acabou de forma estúpida, abrupta poucos meses depois.

Ontem por acaso, bisbilhotando velhos papéis do tempo em que nem tinha ainda um computador, encontrei rascunhos esparsos do que seria o meu último e mais franco relatório, o que não tive coragem de concluir (quanto mais de entregar). Os rascunhos são fragmentos de alguns incidentes esparsos, os mais importantes entre os que ocorriam diariamente, a maioria presenciada in loco, os quais, por razões óbvias, relato cuidadosamente a vocês, ainda hoje sem poder me aprofundar muito em certos detalhes.

Vistos agora, distanciados no tempo, estes fragmentos talvez possam ajudar a lançar alguma luz sobre a atual situação da violência urbana no Rio de Janeiro, e de como ela evoluiu para o insuportável ponto no qual se encontra.

Entre os envolvidos (a maioria morta nos poucos meses em que a história durou) apenas o autor poderá ser identificado. Com nomes fictícios eles não passam muito de personagens anônimos, mesquinhos, miseráveis às vezes, outras vezes cobertos de uma inusitada aura de dignidade, quase humanidade, vislumbrada de relance em alguns poucos gestos nobres.

Nesta crônica sem nenhum charme ou poesia, não há nenhum herói presente ou ausente, pois é só sangue inutilmente derramado, sem nenhuma bravura, sem nenhuma comenda merecida, como ocorre com as guerras civis, não declaradas.

Crônica de uma guerra suja.

Fragmento #1

Um Morro sem Prazeres

Na chegada, havia ainda um pouco de honrosa adrenalina animando a missão que se iniciava, mas, a nossa entrada no campo de batalha até que não foi lá muito apoteótica.

A do pessoal da véspera foi. Até demais. Como num verdadeiro desembarque na Normandia eles foram recebidos com um enorme foguetório e uma comitiva de recepção furiosa que, assomando de sopetão num barranco, apontou dezenas de revólveres e fuzis de última geração, como se a favela fosse um braço de praia (ou um Iraque) invadido.

É que os engenheiros que faziam o papel de precursores do contato com os líderes comunitários do local, presunçosos como sempre, haviam decidido na última hora, sem que nem por que, trocar o Fiat verde escuro, combinado como senha com os traficantes, por um Fiat branco. Faltou muito pouco para serem metralhados, estropiados por uma saraivada de balas. Quase viraram esta estrepitosa notícia de jornal:

” ENGENHEIROS DO GOVERNO ESTADUAL ASSASSINADOS POR TRAFICANTES EM EMBOSCADA! ”

Desta escaparam.

Não vi a cena, mas, me contaram que o sujeito que comandava o grupo de traficantes, desceu correndo do barranco com uma automática prateada levantada e passou uma constrangedora descompostura no engenheiro, que se dizia chefe dos precursores, todos funcionários de um órgão do governo estadual.

_ “Você quer morrer, seu filho da puta? Tá pensando que nós é o que, Mané? Tem respeito não, é? Da próxima vez já sabe…Passamo o cerol!”

Ficou muito claro naquele momento quem é que realmente era o chefe de alguma coisa por ali.

Conosco não foi assim. Graças a Deus. Equipe mínima: apenas eu, o motorista e uma engenheira florestal. As regras do protocolo foram seguidas á risca, até a hora da chegada foi cronometrada: 10 hs., em ponto, o Fiat verde estacionou no local combinado, o pátio em frente a associação de moradores. Desembarcamos um pouco tensos, suando frio, com as mãos, exageradamente, à vista, longe da cintura, quase para o alto.

Não demorou muito para que um menino descalço voltasse acompanhado por um mulato baixinho e bem falante, de cerca de trinta anos de idade, que se apresentou oferecendo a mão esquerda e escondendo discretamente a direita que, podemos perceber, era meio atrofiada.

_’Bom dia! Sou o presidente da associação. De dia sou o José Antônio da Silva. De noite eu sou o Zu!”

Zu? Nome sinistro, não? O que ele queria dizer com isto? Um nome de dia outro de noite? Dava para intuir, certo? Zu acumulava funções: De dia o abnegado líder comunitário. De noite, o implacável chefão do tráfico local.

A mão oferecida era mole, gelada. Aperto de mão não era definitivamente uma especialidade dele. Não lhe apetecia. Gentil, em poucos minutos contou tudo que achou que nos interessava e nos levou para mostrar o que lhe interessava: As instalações da associação, um prédio de dois andares imundo, a quadra de esportes em frente, a creche em construção.

Apresentou também alguns estranhos funcionários: Uma mulher trintona e sestrosa, responsável pela creche e uma figura que, pelo jeito que se expressava, era semi-alfabetizada, mas, que talvez por gostar muito de ler, havia sido incumbida de tomar conta da pobre e poeirenta biblioteca, composta, quase que exclusivamente, por livros didáticos superados, desconjuntados e romances medíocres, fruto de edições encalhadas, refugo de sebos. Quase lixo.

A mulher trintona era sexy, de uma beleza muito insinuante, ainda visível sob o ‘leg’ que lhe apertava as banhas que já se avolumavam. Quando entramos no úmido e escuro salão onde se realizavam os bailes Funk, ela e Zu trocaram afagos de mão e ironias sensuais, fingindo que nos ignoravam. Ele, querendo talvez exibir de antemão o seu status de garanhão do morro, de Galo do pedaço. Ela, pretendendo, com toda certeza, mostrar o seu poder de concubina do rei. Nos dias seguintes muitas mulheres, algumas adolescentes ainda, desfilaram para nós neste ritual de exibição do seu status de cortesãs.

_” Passa lá depois, bem. Você some… Depois vai reclamar. Vem um gavião ai e, ó… Vai ficar chupando dedo”.
Dizia uma.

_” Que chupando o que? Que nada… só se o gavião for maluco …” Respondia Zu seguro de seu poder de galo em seu terreiro, de sultão vingativo.

No harém do sultão Zu só quem não se exibia era a Ném, a verdadeira mulher do cara. Uma figura que parecia não caber naquele contexto. Trancinhas afro, discurso articulado, despachada e empreendedora, Ném embolava completamente a análise que eu fazia do ambiente. Não entendia ela ali. Era sinal trocado, enviesado.

Ném era bem novinha. Ali pelos seus 23, 24 anos. As trancinhas afro não eram um look comum em mulheres de favela naquela época. De jeito nenhum. O look dos 90 das tchutchucas era mais a chapinha, o henné, algo que formasse madeixas lisas como as de Withney Houston. Trancinhas afro era coisa de nega fina, universitária, militante de movimento negro, feminista, estas coisas. E era exatamente este o discurso de Ném que, logo que fomos apresentados, me mostrou, numa folha de papel meio amassada, as linhas programáticas que compunham o seu plano de montar uma Ong para captar fundos para a Associação de moradores do Morro dos Prazeres.

A prioridade era a creche. Me falou do padre italiano que ajudava a comunidade e de um dinheiro que poderia vir de uma congregação católica alemã se a Ong tivesse os papéis em dia.

É claro que achei aquilo tudo com pinta de uma tremenda armação, mas, as trancinhas da Ném não combinavam com armações. Sabe como é? Orgulho racial e armação, num contexto violento como aquele, de regras e protocolos de honra tão rígidos…

O fato é que fui me envolvendo, inteiramente, na empolgação de Ném. Aceitei o rascunho de um estatuto que ela me deu, pedindo que eu fizesse uma breve tradução em alemão, para ser mostrada ao padre.

Zu olhava de banda mas parecia apoiar aquele esforço da sua concubina preferida. A esposa, como ele dizia. Parecia estar honestamente solidário com ela, por amor, por remorso, por algum resquício de humanidade que sobrara nele. Quem saberá?

Ném me passava seriedade mas e Zu? Traficante com responsabilidade social? Um cara com duas automáticas na cintura, comandando um bando de famigerados bandidos com AR15, AK47 e, como diziam, outros ‘bicos’?

Não. Era melhor não viajar muito nesta maionese de Robin Hood tropical.

Na visita seguinte Zu fez questão de me apresentar o padre. Conversei rapidamente com ele. Era um padre normal, militante, a história da Ong, do estatuto e da verba possível, parecia ser fato.

Subi com Zu para o segundo andar da associação, seu escritório. Ele me ofereceu uma carreira de pó. Recusei gentilmente, mas, ele ficou constrangido (muito estranho ver um sujeito como Zu, constrangido). Sentiu vontade de me contar particularidades suas, não sei por quê. Não perguntei nada, mas, ele cismou de dizer:

_” Não gostava de pó não. Comecei aqui, nesta vida. Não tô viciado ainda não. Acho que, quando quiser posso parar. Só não posso é parar com esta vida. Já avancei demais nela. Agora …”

Havia sido guarda ferroviário. Vinha da Baixada Fluminense. De policial corrupto, expulso da corporação acabou virando miliciano de um grupo de justiceiros da Baixada (um dos embriões das milícias que agora infestam o Rio de Janeiro). Um dia um amigo de fé, ex-policial como ele, já envolvido até o pescoço com o crime organizado, o convidou para integrar a tropa do Terceiro Comando que invadiria o Morro dos Prazeres, que pertencia na ocasião ao Comando Vermelho. Topou.

Fizeram uma carnificina no local e tomaram a favela. O amigo morreu ou se escafedeu. Zu acabou assumindo com o irmão o comando das ‘bocas’ do local. Zu o chefe do preto (maconha); o irmão, o chefe do branco(cocaína).

Saímos para dar uma volta pelo morro. Pensando que eu era engenheiro, Zu queria me mostrar os postes de luz de vapor de mercúrio que havia instalado na larga rua que, subindo por um lado do morro, passava em frente a um casarão abandonado, perto da associação.

_”Os ‘Cu-de-galinha’ dos ‘alemão’ (os inimigos da facção rival) podem subir por aqui mas agora, se subirem a gente vê eles e aí é só metralhar… Vão morrer na praia. Que é que tu acha? Tá bacana a gambiarra?”

Disse que sim, que estava maneira. Como dizer que não?

(Leia a Parte 2 aqui)

Spírito Santo

Abril de 2007

(matéria originalmente publicada em www.http://overmundo.com.br.

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga/Post #02


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons."Futebol na favela" - Pintura näif de Helena dos Santos Coelho - 'Talentos da Terceira idade, edição 2009

“Futebol na favela” – Pintura näif de Helena dos Santos Coelho – ‘Talentos da Terceira idade, edição 2009

Ih!!!Bingo!

(Leia aqui o #post 01 )

_”Tava arregado! –Disse o refém-testemunha, descrevendo o que os bandidos diziam no hotel em São Conrado, aos berros, revoltados com os PMs que teriam quebrado o acordo estabelecido com o batalhão para deixar o bonde passar à vontade, toda sexta feira de baile funk, do Vidigal para a Rocinha.

Não sei de nada, não vi nada. Façam de conta que não está mais aqui quem falou.

Voltando ao ramerrão das mui discutíveis UPPs, é básico portanto a gente refletir que o ‘xis’ da questão, também neste caso da batalha de  São Conrado está em descobrir, em minúcias – e encarar de frente- no que consistem e o quanto são profundas estas relações promíscuas que se estabeleceram entre a cidade ‘oficial’ e a cidade ‘clandestina’ no Rio de Janeiro (já que uma está, umbelicalmente ligada à outra) a ponto de nos lançar na situação tão incontrolável como esta em que nos encontramos.

(E vejam bem: não estamos aqui para parafrasear aquele já tão badalado conceito do Zuenir Ventura de ‘Cidade Partida’. Isto, infelizmente já é hoje um conceito inteiramente superado, atropelado que foi pelos fatos. O Rio de Janeiro, ao que tudo indica, perdeu há muito tempo qualquer chance de ter suas duas metades reunidas, ‘pacificadas’ como dizem hoje estes cínicos. A sociedade carioca, esgarçou, exacerbou  demais da conta a sua dicotomia entre riqueza e pobreza.

(Aliás, a propósito, sempre que escuto este papo de ‘paz e amor’ entre os ‘desiguais’ e/ou ‘diferentes’, me vem à cabeça aquela musiquinha terrível do Chico e do Vinícius (e também do ‘Garoto‘, mas ele eu perdôo), piegas e hipócrita mais não poder):

…E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar

E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

Não vai adiantar. Sob qualquer ponto de vista que se analise, a cidade do Rio de Janeiro tem problemas dramáticos e quase insolúveis a médio prazo.  Pegando o aspecto o urbanístico, por exemplo, a gente esbarra com a agudização do verdadeiro apartheid que se estabeleceu por aqui.

O que fazer? Remover, erradicar favelas? Onde colocar as pessoas? Com que recursos realizar todas as obras de infraestrutura necessárias para realojá-las? Reurbanizar as favelas? Como assim? Se é favela, jamais poderá ser bairro. Os conceitos são excludentes entre si. Isto é um sofisma sem tamanho. Pura cascata.

Entre outras características de história da carochinha, a filosofia– na verdade não muito mais que uma tática policial de curto prazo, no sentido militar do termo – o que está por trás das UPPs parece não estar, nem de longe relacionado a esta premissa fundamental que nos aparece como sendo irrecorrível e que nos sugerem muitas perguntas pra lá de capciosas.

Seria possível resolver um problema tão complexo de forma tão simples, reduzindo-o a simples ocupação de partes determinadas do imenso território favelado como numa guerra convencional? O problema poderia mesmo ser reduzido simplesmente ao desalojamento do chamado ‘poder paralelo’ destes nossos quase sempre fuleiros bandos de traficantes?

Vocês eu não sei, mas eu acho terminantemente que não.

Caindo no macro mundão do problema, observemos que estudos bem recentes dão conta de que são cerca de 200 milhões os usuários contumazes de drogas no mundo, a cifra apavorante de cerca de 5% da população mundial, um mercado consumidor gigantesco, do qual o Brasil, evidentemente participa com um número considerável de ‘consumidores’.

Pois bem, onde está concentrada a maior parte destes… ’consumidores’ brasileiros? Posso responder de cara, na lata: Nas ‘áreas nobres’ das nossas grandes cidades. Neste contexto, todo mundo está também careca de saber que a zona sul do Rio de Janeiro talvez seja o nosso maior mercado consumidor (digo ‘talvez’, porque, assustadoramente, a disputa entre nossas grandes capitais, para se saber quem consome mais drogas anda bem acirrada).

E reparem: O perfil destes ‘consumidores‘ vorazes de drogas ilícitas é gente, majoritariamente branca e bem fornida de condições sociais, culturais, financeiras e tudo o mais.

Olhando a questão ainda do ponto de vista macro, portanto – e pedindo perdão por ter que apavorá-los mais ainda – reproduzimos aqui a palavra de um especialista (olhando, bem entendido, apenas para um dos ângulos comerciais da coisa):

“…com intuito mais específico, se pretende explorar quais as relações e até que ponto existe uma simbiose entre as organizações que exploram o comércio de drogas ilícitas, o sistema bancário, que realiza a lavagem de dinheiro, e o sistema financeiro, onde o dinheiro se transforma em capital. Simbiose no sentido de que embora sejam organizações dissimilares convivem numa relação mutuamente benéfica…

Uma abordagem geo-econômica e geo-política talvez permita encaminhar a idéia de que essa simbiose se apóia na contradição, presente na origem e no desenvolvimento do sistema capitalista, entre processos de transnacionalização e formação de mercados mundiais (no nosso caso, dinheiro e drogas) e o estado nacional.”

Sacou? Veja então agora então pelo ângulo das relações fundiárias, ou seja, você acha mesmo que, neste contexto de conflagração de interesses tão poderosos,  a população original das áreas eventualmente… ’pacificadas’ vai conseguir manter seu território e suas propriedades (ou ‘posses‘) intactas?

“…A discussão fundiária, no entanto, tem adquirido vigor sobretudo como consequência da ação do governo de retomar o controle territorial das favelas com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Por exemplo, o Instituto Atlântico, dirigido pelo economista Paulo Rabello de Castro, propôs ao prefeito Eduardo Paes e ao vice-governador Luiz Fernando Pezão um projeto-piloto no Morro do Cantagalo, em Copacabana.

O plano inclui cadastramento geral dos moradores e o levantamento da topografia detalhada com o objetivo de conceder a titulação plena dos possuidores de lotes e unidades residenciais. São 1.456 domicílios e cerca de 5 mil moradores, 79% dos quais vivem lá há mais de 20 anos, informa o instituto. O argumento é que a ocupação fundiária passa a ser uma exigência da ocupação territorial. O território, antes dominado pelos traficantes, precisa ter dono, ressalta Paulo Rabello de Castro….”

———–

“…Para a professora Sonia Rabello, os moradores das favelas costumam ver com desconfiança a regularização fundiária. Primeiro, diz ela, porque isso significa entrar num mundo complexo ao qual não estão habituados, o terreno dos cartórios, dos advogados e da Justiça. Outro fator, segundo a professora, é que o título de propriedade pode, no médio e longo prazos, ser um fator de expulsão dessa população.

Para Sonia Rabello, todas as áreas de favelas só não foram ocupadas pela especulação imobiliária ou porque não tinham título ou porque não tinham lotes suficientes. O que garantiu a ocupação das favelas foi a impossibilidade de ocupação formal. A especialista lembra que, nesses casos, o direito de posse é garantido pelo uso, não por uma eventual titulação.

Enquadrem estes conceitos técnicos especializados no modelo de nossa micro-sociedade e descabelem-se logo, enquanto é tempo. E são mais de mil favelas, lembram-se? Destas, pelo menos 20 são de grande porte. Fizeram a conta?

Transferindo as quadrilhas de traficantes daqui para ali, mediante estes misteriosos acordos, vocês acreditam mesmo que o governo estadual está interessado em ‘pacificar’ e ‘humanizar’ favelas? A Polícia Militar teria efetivos para ‘pacificar’, pelo menos em parte, todo este universo de favelas? Considerem, por exemplo, a Rocinha, com cerca de 150.000 habitantes e várias centenas de becos e vielas.

Recentemente o exército brasileiro recusou propostas de intervenção da Força Nacional de Segurança no problema por causa do alto risco de corrupção da tropa (no entanto, como se sabe, topou a mesma parada na favela de Citè Soleil, no Haiti).

Quando se fala desta mesma ocupação por policiais militares, o que lhe vem à cabeça? Dá para se sentir seguro? Pois o secretário José Mariano Beltrame disse a pouco que seriam necessários, só para ocupar a Rocinha, 1.800 novos PMS.  Favelas sitiadas é o que ele propõe, como se fazia com bairros do Iraque no tempo do Bush? Durante quanto tempo? A que custo?

Fico pasmo. Ou o secretário pirou ou está blefando, certo?

Você já olhou bem para a geografia e as dimensões assustadoras de um mar de construções mal ajambradas como o Jacarezinho, a Mangueira? Você acha possível haver dominação e controle militar em espaços urbanos assim tão caóticos sem haver algum tipo de… ‘Acordo’ entre as partes?

E que boi adormece com esta história?

Se você acredita mesmo que a maioria das favelas do Rio de Janeiro vai virar parque temático, com elevadores panorâmicos e teleféricos metálicos e cintilantes, de onde vamos pode ver felizes crioulinhos indo e vindo para suas felizes escolas high tech, pilotando skates, com as suas felizes mãezinhas, ‘prendas domésticas’ indo e vindo para o aconchego de amplas bibliotecas com internet banda larga, ou mesmo para bem equipadas academias de ginástica, pilotando motinhas Honda, o problema é seu.

Tudo bem. Você deve ser destes que acreditam em Papai Noel, Branca de Neve, Disco Voador, estas coisas (o que, convenhamos, não é nenhum pecado, claro… até porque, em Disco Voador até eu acredito)

Mas se você, como eu, está cansado de ser enganado, raciocine. No âmbito de uma população total de mais ou menos 6.000.000 de habitantes – segundo o último censo – a população favelada do Rio atinge a cifra estúpida de 1,09 milhão de pessoas. Ou seja, no barato, 18,7% da população carioca reside em favelas. Especialistas que estudam o assunto afirmam, contudo que o número pode ser bem maior, podendo ser orçado aí por volta dos 1,5 milhão de pessoas ou seja: mais que 20% da população carioca seria favelada.

A conta, contudo pode aumentar muito se incluirmos neste cômputo outros tantos e tantos milhões de pessoas que residem em bairros muito pobres – quase favelas, como os bairros da Zona Oeste, por exemplo – que engolfados por ‘comunidades provisórias ’circundantes, se favelizarão também em muito breve.

Observem com atenção que as favelas cariocas, nesta sua nova e avassaladora fase de expansão, crescem no entorno de bairros convencionais, como parasitas que se alimentam da pequena rede de serviços pré existentes, escolas, comercio, postos de saúde, sobrecarregando a infra estutura do bairro até sufocá-lo, como uma jibóia. É esta, com certeza a dinâmica da formação dos chamados ‘complexos’ de comunidades faveladas.

Faça, portanto como eu: jogue a propaganda eleitoral – o nome dela já diz tudo: é ‘gratuita’, no sentido de irresponsável e cretina – no lixo onde ela merece estar e pense em profundidade, sem paixão, como gente grande.

Em suma: Se não se desmontou o mercado de drogas que segue impávido, de vento em popa e sem prejuízos visíveis – se não se forneceu, concretamente trabalho decente, residência digna, educação de qualidade, saneamento básico e saúde para a imensa maioria dos habitantes do Rio de Janeiro que hoje – vale sempre lembrar – é favelada e se não há a menor condição estratégica de se ocupar militarmente a maior parte do território de nossa cidade, no que eles querem mesmo que a gente acredite?

E vocês crédulos? Estão mesmo acreditando ou estão se acumpliciando porque acham que vão levar algum tipo de vantagem neste arranjo… quero dizer…Acordo?

Olha minha gente, quem avisa amigo é: Acabada a nossa – tomara que – feliz Copa do Mundo e os – tomara que – felizes Jogos Olímpicos o que será de nossas pobres almas? E se o  bagulho for bem mais doido do que a nossa capacidade de suportá-lo?

Parece papo de viciado prometendo largar o vício, de pé junto, mas não largando nunca não é não? Viciados em favela, será que é o que somos? Se for isto, a luz vermelha está acesa e há sintomas fortes de overdose à vista!

E se problema afetar o coração da cidade? Parada respiratória, cardíaca e…Babau! O Rio de Janeiro irá para um belo de um beleléu. Creiam-me e perdoem-me, de antemão, pois, gostem ou não gostem da conversa, caros amigos: alarmismo também é cultura.

Spírito Santo
Agosto 2010

———–

(Desculpem voltar, mas…não é que é bingo de novo?):

Pezão, nosso vice-governador, numa entrevista hoje (28/08), em O Globo:

_”…Não é sem droga (se referindo à função das UPPs). Droga existe a nível mundial; ninguém vai conseguir acabar. Mas nós vamos conseguir tirar o fuzil das ruas do Rio de Janeiro”

Ora, ora… Mas não era sobre isto mesmo que eu falava?

Usemos a lógica mais elementar: Se o fuzil está nas ruas porque há tráfico de drogas, uma mercadoria ilícita de altíssimo valor comercial, onde há drogas, portanto terá de haver, necessariamente traficantes armados.

Logo, onde há traficantes há, evidentemente disputa pela posse ou pela repressão da venda da mercadoria refinada e/ou guardada nestes entrepostos. É , pois, da natureza desta disputa pelo mercado da droga haver sempre armas e violencia.

Conclue-se então que, para se deslocar as armas (tirá-las das ruas do Rio, como diz o político) só se for deslocando os entrepostos, intervindo diretamente na distribuição em suma, mas como garantir que isto poderia mesmo ser feito, se o tráfico de drogas é bandido, clandestino?

Cabe, portanto perguntar: Estaria o vice governador sugerindo que o governo do Rio pretende transferir os entrepostos para outros lugares? Quais seriam estes lugares? Seriam os ‘complexos‘ de favelas da periferia ou seria o interior do Estado? Deus do céu!

Loucos de pedra! irresponsáveis!

E a distribuição da droga – o tráfico propriamente dito – para os consumidores daqui da cidade ‘oficial‘, como seria organizada? Quem controlaria este tráfico já que, acabar com ele não é, assumidamente a pretensão do Estado?

Perguntas…muitas perguntas sem respostas, que não sejam mais assustadoras ainda.

Acho que só se topassem discutir e combinar isto tudo com os comandos de traficantes (e os comandos de milícias), num grande seminário, uma cúpula bandida, um…’Acordão‘.

Sugiro de cara – prendendo o riso – o Hotel Intercontinental, em São Conrado.

Spirito Santo

Setembro 2010

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga


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Pegue – ainda andando – o Bonde da Batalha de São Conrado

Todo mundo da Zona Sul, em pânico já falou, escreveu, leu, tremeu enquanto o pau comeu. Pois então parem de tremer, só um pouquinho e vejam de novo a cena aí em baixo, em câmera lenta, comigo.

Calma! Take easy! (Cadê o diazepan, o bromazepan, desta gente? E o lexotan, o psicosedin, o somalium, o tensil, o valium? Ai, ai! Help! Help! I need somebody help!… E eu? Cadê o meu isordil?)

Ué? Mas não estava uma calmaria só com esta história de UPPs pra lá UPPs pra cá? A política de segurança adotada contra a violencia urbana – com a tomada de doril, a sumida zastrás da bandidagem, cedendo pacificamente – esportivamente até – o território para as redentoras UPPs?

Até eu, bruto, grosso que só vendo, com esta minha má vontade proverbial (que os lulistas mais fanáticos dizem ser ‘insana’ e ‘gratuita’) me animando para com as nossas atuais autoridades constituídas, já baixando a bola crítica ao ler as animadoras reportagens propagandísticas sobre UPPs, com dificuldade para discernir, entre o que era trigo da mais pura verdade do que era joio da mais deslavada propaganda eleitoral, nesta história de pacificação das ‘comunidades sitiadas pelo poder paralelo’.

Sim porque, com foros de descoberta da cura do câncer, da decodificação do último caco da pedra da roseta, do fechamento do buraco na camada de ozônio, a violência urbana dava toda a pinta de que desapareceria sim, no lapso de uma mágica com ar de malandragem mandraqueana, como uma paradigmática política, a mais certeira e verdadeira deste mundo.

Daí:Pum! Pá!Pá!Pá!Pá!

Correria, reféns, cena de cinema. Não fossem as armas high tech e as roupas de grife da bandidagem, ia ficar parecendo aqueles reids de cangaceiros de filme da Vera Cruz, que eram por sua vez – quem se lembra?- copiados dos filmes de far west classe ‘C’, com aqueles bandidos mexicanos suados, barbados, invadindo a cidade às gargalhadas, dando tiros a esmo e soltando gritinhos histéricos, como mariachis cantando ‘cucurucucu paloma’.

Pois sim. A não ser os da assistência, quais gritinhos histéricos você ouviu? Zero. Nenhum. Berros, urros matraqueados de fuzis de assalto, AR15, AK47 FAL, isto sim foi que se ouviu. A bandidagem desenvolta gritando os palavrões mais cabeludos deste mundo.

Mas foi mal sim, não foi? Em plena manhã de sábado em pleno ‘Rio-que-mora-no-mar’ aquela bandidada toda, saltando daquelas vans de roupa preta como se fosse assim um bando de ninjas tropicais de cara limpa, saídas de uma locação de favela de um filme do Van Damme, do Will Smith, do Stallone. Vieram de onde aqueles bárbaros vândalos? De um baile funk nas ‘serras de veludo’, do alto lá do ‘Rio que NÃO sorri de tudo’, foi o que a imprensa divulgou.

Bárbaros! Vândalos! Onde é que já se viu? Não sabem mais onde é o seu lugar? Concordo e me solidarizo com a bacanada. Juro por Deus.

Que não foi nada fofo, isto não foi não. Um terror quase médio oriental. Uma chusma de talibans desgovernados, sem nenhum bin laden pra gente chamar de nosso, para colocar a culpa e mandar – como um bode bíblico – para uma montanha remota de um Paquistão destes qualquer, ou um Bangu 1, 2, 3, 4, 5, 6…, para purgar todos os pecados deste nosso abilolado Brasil de quase primeiro mundo.

O lado bom – é gente, dependendo do ponto de vista, tudo tem sempre um lado bom – é que a gente pode baixar um pouco a bola sim, sair desta euforia tão dilmista, desta conversa fiada governista de paz e amor sem sacanagem, para tentar fazer uma análise mais realista e franca da situação.

Estão mesmo a fim de cair na real? Acompanhem então no meu modesto e imparcial raciocínio os dados que todo mundo está careca de saber, mas finge esquecer.

O buraco – vou logo avisando – é bem mais embaixo

O Rio de Janeiro tem mais de 1000 favelas, certo? (e para quem duvida a lista está aqui mesmo para ser conferida). É um número tão absurdo, mas tão absurdo para uma cidade com apenas cerca de 1.224,56 km2  que, para caber no espaço que ocupam (sem ferir as leis da física) muitas destas favelas se juntaram umas às outras, como um turbilhão de moléculas, criando células urbanas amorfas e agigantadas, sendo chamadas hoje quase cinicamente de… ‘complexos’ (o que, cá entre nós, assim meio sem querer, acabou virando uma palavra bastante apropriada para o caso – cujas mumunhas mais impressionantes nós mesmos, aliás, já esmiuçamos por aqui)

Indo mais fundo ainda na questão, vamos combinar então que uma favela não passa muito de um amontoado de habitações imprensadas umas nas outras, nas quais reside um aglomerado aparentemente desarticulado de pessoas, as quais, por uma contingência natural de sua condição de seres vivos (nem precisavam ser humanos) se organizaram de uma forma ou de outra até assumiram uma feição de uma micro-cidade.

É uma questão de lógica mesmo, gente. Pessoas demais – aquelas a quem a sociedade nega tudo, inclusive espaço para morar- ocupando espaço de menos. Isto, numa física mais elementar ainda, costuma ser igual à pressão e, em algum prazo (o tempo do pavio) explosão.

Esta ‘sub-cidade’ , esta bomba sempre prestes a fazer ‘Bum!’ – apartada que está da ‘cidade oficial’ – desenvolveu, evidentemente uma economia própria, clandestina, do mesmo modo que criou relações políticas e culturais anárquicas, clandestinas também (e talvez este seja o único aspecto positivo da história) tudo isto estruturado em torno de uma instancia de poder dita ‘paralela’, espontaneamente surgida ou – como ocorre na maioria das vezes – instalada ali por meio da força bruta, de uma invasão armada, militarizada, mas de qualquer modo representando um poder, efetivamente instituído, com um complexo protocolo de interesses e relações – não importa mais se promíscuas ou não – estabelecidas tanto internamente (no seio do que se chama eufemisticamente de ‘comunidade‘) quanto com o mundo exterior (no nosso caso, a aqui chamada cidade ‘oficial’).

Agora deu para entender, não deu? Posso divagar um pouco então.

‘Zu’, comandante ‘bicho solto’ do Kilombo Louco.

Ouvindo o secretario de Segurança do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame dizer hoje que sabe muito bem onde mora o ‘Nem‘ da Rocinha (e até mesmo o que existe dentro da casa dele) antes de cair na gargalhada, pensei: E daí? Isto qualquer zé mané pode saber. Não é segredo para ninguém. Isto não é vantagem que se alardeie assim, como uma suprema glória estratégica. Ele devia era ter vergonha de dizer um disparate destes, que não prende ‘Nem‘ para ‘preservar a população’ de constrangimentos e… balas perdidas. Que chantagem! Que cinismo!

Me lembrei no ato que, eu mesmo, trabalhando durante algum tempo na década de 1990 dentro de uma destas cidadelas clandestinas, por dever de ofício, pude ter um contato bem direto, privando da intimidade mesmo, com um destes ‘sobas’ de favela igualzinho ao ‘Nem‘.

A experiência (que já narrei anteriormente no post deste link) me permitiu observar alguns fatores cruciais, fundamentais mesmo para se compreender o quanto é cabeludo o problema.

Zu” (o codinome deste bam bam bam de favela já falecido, barbaramente assassinado) se apresentou a mim anunciando, sem meias palavras, que era o “presidente da associação de moradores de dia e o chefe do tráfico de noite”.

Os demais integrantes da quadrilha – cerca de 15 a 20 homens, no máximo – todos bem jovens ainda os quais, do mesmo modo, conheci bem de perto, tinham aquela ocupação precária como único emprego possível. Um número indeterminado de outros moradores, donos de biroscas, cozinheiras que vendiam quentinhas para o bando, de uma maneira ou de outra, também dependia daquele negócio para sobreviver.

E tinham as ‘tchuchucas’ que pescavam favores, lascas e prendas da negadinha bandida; o pastor que salvava os não bandidos do demônio (e amealhava os dízimos dos coitados); um mundo de gente desamparada, vivendo como mariposas na aba do ‘movimento‘. Fazer o que?

Nunca me esquecerei de uma garotada mal entrada na adolescencia, que vi uma vez sentada num degrau à porta da ‘Boca‘. Trabalhavam na chamada ‘endolação‘, preparando e embalando a cocaína para a distribuição. Haviam manchas estranhas, enormes, de um roxo enegrecido estigmatizando os antebraços e as mãos daqueles garotos esquálidos.

As manchas – soube depois – eram provenientes da manipulação do produto químico que usavam na decomposição da cocaína, algo como amônia, não sei bem.

Os rostos encaveirados daqueles garotos, todos negros, um pouco pelo cansaço, um pouco pelo algo de droga que consumiam, tinham um que de caras de zumbies de filme de terror norte americano. Estavam sentados ali imóveis me olhando, exaustos como num intervalo da filmagem de um thriller no qual Michael Jackson algum conseguiria injetar glamour.

(Estranho como ainda bem antes do advento fúnebre do crack, esta negadinha  já se parecia com os bandos de zumbizinhos craqueados e moribundos de hoje).

Deste mesmo negócio sujo viviam advogados ‘de porta de xadrez’ , alcaguetes de polícia (quase sempre agentes duplos) e um grupo enorme de PMs além, é claro, do próprio comandante do batalhão da área. ‘Zu“, pessoalmente me falou sobre isto em certa feita, apontando de longe um PM numa guarita de uma rua chic, próxima à favela me dizendo:

_’ A’lá! Tá vendo? São tudo uns cú-de-galinha. Sabem quem sou eu, mas não podem fazer nada porque tem o acordo’.

Até mesmo a creche do local, totalmente abandonada pela prefeitura da cidade ‘oficial’ dependia bastante de uma ou outra ajuda do caixa do tráfico, segundo eu mesmo pude constatar realizando ‘inspeções‘ solicitadas pelo próprio ‘Zu‘, cioso e interessado em me provar que tinha mesmo alguma…’responsabilidade social’. E quem ia duvidar ou discordar dele? Eu?

Outra característica curiosa do poder especial do xerife ‘Zu’, a ele delegado pelas… especiais circunstancias (havia participado da invasão armada ao local, desalojando a quadrilha anterior com uma chacina) era o alto grau de sumarismo da justiça local, por ele assumida, a ferro e fogo.

A condição de entreposto de drogas, uma mercadoria de tão alto valor comercial, que precisava ser defendida assim, militarmente, obrigava ‘Zu’ a difundir e a manter ativo um código de leis absolutamente terrorista onde a pena de morte era quase sempre a única pena admitida e aplicável.

Qualquer manifestação de ponderação ou ‘salomonismo’ por parte dele, o ‘líder’ seria sempre encarada como um sintoma de vacilação, deixando-o com a fama de frouxo, incitando a cobiça dos inimigos invejosos, ficando portanto vulnerável aos ataques de quadrilhas integradas por rivais externos ou internos.

A regra mais fundamental do caráter sui generis daquela micro-sociedade clandestina, a base política de sua sobrevivência era, portanto o chamado ‘Acordo’. Espécie de tratado de paz, de acerto diplomático estabelecido com agentes intermediários da autoridade constituída, o poder oficial, ‘exterior‘.

Este ‘Acordo‘ (que no âmbito estrito da Policia Militar do Rio de Janeiro, foi depois tornado público no filme ‘Tropa de Elite’) é que dava garantias a ‘Zu’ de poder contar com total segurança para tocar seus negócios, desde que dentro dos limites de seus domínios territoriais.

O ‘Acordo’ (ah…qual é? Porque será que insisto em falar disto se todo mundo já sabe)  era – como ainda é – baseado no pagamento de um valor periódico (mensal, semanal) uma ‘comissão’ rigidamente estipulada entre as partes. Chamado de ‘PP’ na gíria – ‘pronto pagamento’– a palavra parece ter sido extraída do jargão do Jogo do Bicho , ou seja, era um ‘pro labore’ sem nota ou recibo. O pior da história é que esta prática parece estar indelevelmente arraigada entre nós, como marca histórica mesmo, vigente que é há muito tempo, desde os tempos de D.João Charuto.

Gosto de fazer uma analogia entre nossas favelas com o exemplo dos quilombos de escravos fugidos do Brasil colonial (afinal, o modelito bem que deve ter sido inspirado nisto aí) porque a História do Brasil, mesmo esta ‘chapa branca’, convencional, já constatou que para que estes quilombos pudessem durar tanto tempo (Palmares , por exemplo, o quilombo mais célebre, chegou a durar quase um século), certo nível de promiscuidade nas relações comerciais e ‘políticas’ entre eles e a sociedade ‘oficial’ tinha, necessariamente de existir.

(Cheguei mesmo a chamar numa canção esta comparação entre os quilombos de ontem e o as favelas de hoje de ‘Kilombo Louco’, com as favelas de hoje representando uma exacerbação de nossa psicopatia social, nossa mania – melhor dizendo, nosso  vício –  imoral e renitente de excluir a maioria de nossa gente em benefício de uma reles minoria.)

“…Kilombo louco!
Cada favela um Brasil
Kilombo louco!
Mateus, quem pariu?
Depois da lança e bodoque
a pistola Glock, a metralhadora e o fuzil”

A grande tragédia brasileira – mais trágica ainda porque está sendo agora mesmo, subestimada, irresponsavelmente tolerada por nosso corrompido eleitorado nas eleições atuais – é que esta prática acaba de se tornar – mais ainda do que já era – infelizmente, generalizadamente nacional.

Ela é recorrente tanto no âmbito das relações comezinhas entre a polícia e os bandidos descritas no microcosmo das favelas que acabo de descrever – sua provável gênese – quanto no âmbito das relações entre autoridades constituídas em geral e máfias de contraventores de qualquer ordem ou tipo principalmente – como se pode constatar no episódio dos mensalões de Brasília – no âmbito da política e de todos os níveis da administração pública, da Presidência da República a mais inexpressiva prefeiturinha municipal.

Bem, mas isto a julgar pela direção em os ventos das eleições presidenciais estão soprando, está virando uma carroça pesada demais para os puros de coração que, fatalmente terão que empurrar com a barriga – e nós nas tripas – mais este bonde de mazelas republicanas, por mais alguns anos.

…Isto para os que ainda estiverem neste mundo (ou que tenham ainda alguma barriga com que empurrar alguma coisa).

Ai!

(Pronto. Podem voltar a respirar agora. Podem sair de baixo da cama. O tiroteio por enquanto amainou. Ai que alívio! Meu isordil chegou, a pressão arterial baixou… Ufa! Depois eu volto e sigo o bonde no post #02 deste papo)

Spírito Santo
27 de Agosto 2010 (dia do eu 6.3 turbinado)

Basil Davidson: Morre o filho branco da Mãe Negra


Bristol, 9 de Novembro de 1914 – Londres, 9 de Julho de 2010

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Morre o grande amigo da mãe África

A lembrança está marcada em mim como e tivesse sido a fogo tatuada, nítida como se fosse hoje. Agora mesmo, contando isto para vocês, me vem o cheiro do papel do livro que comprei novinho, estalando, na Livraria Camões, no térreo do Edifício Av Central, no centro do Rio de Janeiro.

“Mãe Negra- Basil Davidson”

O cheiro acre da tinta e  do papel portugueses, o mesmo cheiro que impregnava todo o ambiente da tradicional livraria (até hoje existe) especializada em literatura africana, livros e mais livros, revistas (entre elas a antológica e literária  ‘Revista África’) mapas, tudo que quisesse ler sobre Portugal e suas ainda colônias em franco e acelerado processo de descolonização sim, porém marcado ainda por cruentas lutas de libertação. O cheiro disto tudo, ainda hoje está impregnado em mim, não sei se na pele, nas narinas  ou se apenas na memória, só sei que para sempre.

Egito, Sudão,  Kilwa, Angola, , Guiné Bissau, Nigéria, Benin, Moçambique, Zimbabwe…nenhum sentido haveria na história destas terras que tanta gente nos mandaram como escravos, se não fosse aquele livro fulgurante,  fulminante que comprei naquele dia remoto na década de 1970.

Mãe Negra, de Basil Davidson continha toda a verdade omitida pelos livros de história que havia lido antes em toda a minha vida. Nunca mais abri um livro didático de História do Brasil depois daquele dia. Era óbvio que o Brasil real jamais esteve nos meus livros e cadernos de escola. Fiquei achando que que havia lido apenas lixo e mentiras até então.

Até hoje leio historiadores brasileiros com desconfiança e certo ‘pé atrás’, alguns até com mal disfarçado desprezo, confesso. Porque aceitam omitir e falsear tanto algo tão importante quanto a nossa própria história e suas nuances mais orgulhosas? Porque não foram capazes de ser historiadores de verdade como Basil?

A morte de Basil Davidson no dia 9 de Julho passado deixará uma saudade enorme em mim e em tantos outros como eu que, por intermédio dele, descobrimos a natureza complexa da África que havia latente em nós. Ela, a saudade de Basil,  será mitigada apenas pelo cheiro ocre dos livros da Livraria Camões que guardo comigo como ouro em folhas de papel.

De certo modo, ler aquele livro claro e incisivo dele, aquela historiografia incisiva, precisa, me contando a saga de uma África grandiosa assolada por tão vorazes e covardes predadores europeus, antes  apenas imaginada ou sonhada por nós, militantes por uma negritude brasileira ainda ingênua de propósitos, me libertou completamente e me inspira até hoje. É uma das mais mais vivas brasas entre as minhas mais fogosas lembranças.

É por isto – por causa da saudade de gente como eu –  que o mundo inteiro está lendo agora mesmo a história honrosa de Basil, o amigo da África e este mesmo mundo inteiro esquecerá num lapso, jamais lerá um um pingo de ‘i’ que seja da história dos outros, destes reles historiadores que  tanto tentaram nos enganar com mentiras falsamente cívicas, bajuladores da pátria alheia, desestoriadoriadores, descontadores, engendradores de apagões mentais.

“…Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente
nas horas difíceis.
Mas em mim
a vida matou esta mística esperança
eu não espero.
Sou aquele por quem se espera
A esperança somos nós, os teus filhos
nascidos para um fé que alimenta a vida…”

(Agostinho Neto)

——————

Basil Davidson: Espião, resistente anti-fascista repórter e historiador de África

Maputo, Quarta-Feira, 18 de Agosto de 2010/Notícias

(Extraído de ‘Moçambique para todos’)

Owei Lakemfa

Basil Risbridge Davidson não foi um santo, tipo o que evoca a figura do herói Ernesto Che Guevara. Não foi um Tarzan, deambulando pelas selvas de África, nem tão-pouco um missionário de uma estranha confissão religiosa que evangelizou o continente à expensa da sua terra, da sua cultura, sangue e riqueza.

Não foi um neo-colonialista, que em nome do FMI ou do Banco Mundial passava a prescrever receitas expiradas para todas as enfermidades africanas. Antes, Davidson foi um intelectual comprometido, que estudou e escreveu honestamente sobre África e os seus povos, sobre a sua história ancestral e contemporânea, sobre os seus ancestrais; sobre lideres africanos convictos tais como Samora Machel e criminosos como Mobutu Sesse Seko.

Não foi um cientista social desinteressado que estudou África à distância, quando os nossos povos vertiam sangue nas guerras de libertação em Moçambique e na Guiné-Bissau, ele esteve fisicamente nos campos de batalha. Dos mais de trinta livros que escreveu não abarcavam apenas uma vertente teórica, mas eram guias práticos para muitos africanos; ajudou a moldar a visão política de muitos jovens africanos na década de 1970 e 1980.  Ele abriu a mente de muitos africanos sobre o rico manancial historial, desde aos tempos pré-coloniais, passando para o período das guerras anti-coloniais aos encarniçados combates para a libertação, envolvendo as forças patrióticas do continente e os fidalgos representantes de Lisboa, Bruxelas, Paris, Londres e Joanesburgo.

Curiosamente, atendendo aos seus antecedentes, Basil Davidson era umas das mais suspeitas e improváveis vozes a levantar-se a favor da consciencialização e libertação em África. Ele era tenente-coronel na reforma do Exército, inglês que combateu na segunda Guerra Mundial, tendo ajudado os movimentos de resistência na Hungria, Jugoslávia e Itália. Chegou a ser espião britânico, trabalhou para M15, especializou-se em sabotagem e foi prisioneiro de guerra, que beneficiou com o processo de troca de presos com a Itália.

Basil Davidson, que trabalhou como repórter para muitos órgãos de imprensa, decidiu, a partir de 1951, documentar o continente africano. O seu interesse inicial foi a Europa do Leste, mas depois inclinou-se para a África e foi neste continente onde deixou um legado a várias gerações. O seu primeiro encontro com África foi no Cairo, Egipto, onde se tinha deslocado ainda como soldado e espião para arranjar logística para a resistência eslava.

O avião em que viajou tinha feito escalas na região de Bathurst (antiga designação da cidade de Lagos) e num local que, para ele, passou a ser “algures no norte da Nigéria, um ponto desconhecido do mapa, tanto quanto eu pude descobrir”. O avião, dizia, “tinha feito um voo, abaixa altitude, sobre em paisagens, planícies e vastas extensões de terra desprovidas de populações”. Basil Davidson disse que tinha saído para um passeio: “À distância, vieram sobre mim imagens da presença de uma barreira estreita e alta, o muro de uma cidade…tinha sido construída de barro, paus e circundava toda a cidade perdida algures em África, que descobri mais tarde ser a cidade de Kano, com mais de 700 anos, senão mais…e que não havia nenhuma história em África, tanto quanto eu sabia”.

Assim foi como a sua curiosidade por África cresceu. Os seus estudos e escritos acerca do continente estavam para absorver os últimos dois terços dos seus 95 anos que marcaram a sua passagem pela terra, que começou no dia 9 de Novembro de 1914 e terminou no dia 9 de Julho de 2010.

Ao procurar provar que África tinha uma rica História pré colonial, Basil Davidson escreveu numerosos livros, que incluíam estudos sobre os antigos reinos do Egipto, de Kush, de Nok, sobre culturas e impérios do Mali, Ghana, Songhai. Tudo isto consta de livros como “A redescoberta da velha África”, “Mãe África”, o “Passado africano e os africanos”.

Davidson escreveu sobre a ruptura dos impérios africanos, forçados a entrar num ciclo de nações-Estados, tendo questionado se “deve a África renovar a proliferação de nações e as disputas nacionalistas…os povos africanos tinham seguido, no passado, o seu próprio caminho, e nada indica que não venham fazê-lo novamente de forma construtiva e criativa”. Mas a África não seguiu o seu velho caminho, antes optou por aquilo que foi ditado pelas as suas antigas potências coloniais. Davidson sentiu-se atormentado com esta perspectiva.

Ao analisar a tragédia do continente, especialmente nos anos de 1970 e 1980, lamentou que “o declínio de valores morais e políticos daqueles que clamavam falar em nome de África era tão rápido quanto generalizado”. Ao mesmo tempo que reconhecia a imensa autoridade moral de líderes como Julius Nyerere, Basil Davidson notou em líderes como Samuel Doe, da Libéria, Ibrahim Babangida, da Nigéria, Idi Amin, do Uganda, Jean Bedel Bokassa, da República Centro-Africana, e Macias Nguema da Guiné-Equatorial o que chegou a caracterizar como “um fenómeno excessivamente patológico que apareceu no período colonial e pós colonial jogado por individualidades que tinham a autoridade e carisma para chegarem ao poder, mas sem a sabedoria para controlá-lo.

Tais figuras agarraram-se ao poder e surgiu a ambição, quer por mais poder, quer pelos seus frutos”.

Um dos seus legados duradoiros foi a forma documentada como retratou a luta de libertação nas colónias portuguesas, as lições para África e o que se pôde aprender com a teoria da guerra popular. Por exemplo, ele tinha descrito uma acção audaciosa desencadeada por combatentes do então movimento PAIGC no aeroporto de Bissau, numa altura em que as autoridades coloniais portuguesas tinham fortificado as áreas circundantes do aeroporto com vedações e campos minados. O movimento conseguiu destruir aviões que se encontravam na placa aeroportuária, nos hangares, sem que tivessem provocado danos humanos. Uma das lições, do audacioso ataque, dizia Davidson, era que a invulnerabilidade estava do lado da guerrilha e não do lado colonial.

Basil Davidson defendia que “todas as guerras eram perversas”, mas que “uma bem dirigida guerra de auto-defesa” – distinta de qualquer acto terrorista – pode resultar em ganhos, mesmo em circunstâncias mais adversas”.

O historiador britânico advogava que uma ideologia de libertação não pode ser desenvolvida sem “a potencialidade da consciencialização de um povo, num específico tempo e determinado lugar”. Basil Davidson, com as suas obras “O fardo do homem negro”, a “Causa do povo: uma história de guerrilhas em África”, “As cidades perdidas de África”, “África Ocidental antes da era colonial: uma história até 1850”, “África” (que veio a ser adaptada em série televisiva) e “África na História”, plantou o seu legado no solo africano e no mundo intelectual.

Owei Lakemfa

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Com heróis como estes gajos, quem precisa de vilões?

…”Obrei quando o discurso me guiava,
Ouvi aos sábios quando errar temia;
Aos Bons no gabinete o peito abria,
Na rua a todos como iguais tratava.

Julgando os crimes nunca os votos dava
Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
Mas devendo salvar ao justo, ria,
E devendo punir ao réu, chorava.

Não foram, Vila Rica, os meus projetos
Meter em férreo cofre cópia d’ouro
Que farte aos filhos, e que chegue aos netos:
Outras são as fortunas, que me agouro,

Ganhei saudades, adquiri afetos,
Vou fazer destes bens melhor tesouro…”

Podia até render uma série interminável de posts. Uma coleção inteira de livros rasgados para serem revistos, de tanto que a história do Brasil tem de caôcaô.

Este aqui, o caso de Tomás Antonio Gonzaga (para nós o mui trágico poeta de ‘Marília de Dirceu’ carro-chefe cujo trecho abre este nosso curto papo) ‘herói’ da Inconfidência, que amargou como castigo o ‘cruel‘ degredo na África é típico. E  isto acrescentando que a África aqui, no caso – sabe-se lá porque cargas d’água ou ledo engano – nos aparece como um inferno muito mais selvagem e dantesco que o Brasil.

Vamos sabendo cada vez mais agora, lendo coisas recentes de Portugal, Moçambique e Angola, que a chapa do inferno colonial que esquentava aqui na América, esquentava lá em África do mesmo jeito. Pura baboseira. Mania nossa de grandeza fora de hora. Sentimento de roto imaginado, complexado, falando de um suposto esfarrapado.

Que nada: Em África, a madrasta Portugal tinha como colonias invadidas, balnearios tão aprazíveis e tropicais quanto éramos nós, ora pois pois.

Isto mesmo e sem melindres: Ao se supor pelo se lerá logo abaixo, o gajo Tomás Antonio Gonzaga – cá entre nós, talvez nem lá tão poeta assim – era quase um crápula como tantos outros de sua época e laia, naquela espécie de convescote de desentendimentos e questiúnculas entre portugas que foi a Inconfidência Mineira (e o próprio displicente nome… ‘inconfidência‘  com o qual foi batizada aquela  suposta conjuração nacionalista – e  a gente nem se deu conta-  já nos dizia tudo). 

E nós aqui os pranteando em homenagens póstumas, mandando as nossas criancinhas os pratearem também, chorosas e contritas nestes ‘libertas quae sera tamen’ tão tardios,  tão cristãos, como se estes gajos lusitanos até a raiz dos cabelos, merecessem mesmo algum pranto, como se fossem os melhores e mais emblemáticos entre nós todos, super homens brasileiros natos, de fato ansiando ardentemente por nossa independência de Portugal. Como se éramos o próprio Portugal nos trópicos?

Pois sim…Corruptos de carteirinha é o que ao tudo indica eles eram. Espertalhões cuidando mesmo é dos seus próprios narizes e  interesses, daquilo que julgavam lhes pertencer e que, na verdade mesmo era nosso – ou pelo menos a nós todos deveria pertencer.

Quase um bando de aloprados  lusos é o que eram, flagrados num protomensalão, numa préhistórica maracutaia, caídos com a boca na botija em alguma desgraça fortuita, (um golpe contra o governador). Só não foi um piada de portugues porque o mais pé rapado dentre eles –  o tal do alferes dentista –  serviu de bode expiatório, de  ‘Bucha‘, aquele que sacrificado para servir de exemplo (para que nós outros pés rapados não nos metêssemos também a besta) carregou para o deserto da forca todos os pecados de uns e outros, aqueles mais de fino trato, os supimpas que, como Gonzaga, podiam daquela fria se safar.

Leiam isto aí em baixo, com todas as entrelinhas e me respondam: É isto mesmo que eu disse ou será que exagerei?

———–

Gonzaga, um poeta no desterro (*)

Adelto Gonçalves(**)

I

O poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, nasceu em Miragaia, no Porto, mas viveu parte da infância e da juventude no Recife, Bahia e Rio de Janeiro, antes de voltar a Portugal para estudar em Coimbra. Bacharel em Direito, montou banca em Lisboa e ainda candidatou-se, sem êxito, à cadeira de Direito Pátrio em Coimbra, antes de ingressar na magistratura em 1778. Foi juiz de fora em Beja, até que em fevereiro de 1782 saiu sua nomeação para ouvidor-geral de Vila Rica, em Minas Gerais.

Como ouvidor, não se pode dizer que Gonzaga tenha sido um magistrado reto, que não se tenha deixado levar pelas paixões e a cobiça de um tempo em que a atividade mineradora fizera a América portuguesa passar por muitas transformações. Se não existem provas cabais de que o ouvidor tenha favorecido a família de sua noiva, evidências não faltam.

Em 1788, por exemplo, o ouvidor se limitou a confirmar a reforma compulsória do capitão Baltasar João Mairinque, pai de sua noiva, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. Não lhe aplicou nenhuma sanção, embora o militar tivesse sido afastado do comando do destacamento da Serra Diamantina de Santo Antônio do Itacambiruçu por crime de tolerância ao contrabando.

Afastado Mairinque por imposição da Junta Diamantina, o governador e capitão-general Luís da Cunha Meneses, aquele que passaria para a História como o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas, aproveitou para favorecer apaniguados: promoveu o tenente José de Sousa Lobo e Melo a capitão e sargento-mor “em breves meses” e o tenente Tomás Joaquim de Almeida Trant a capitão, entregando-lhe o comando da repartição de Paracatu.

Quem ardeu de raiva foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que, com a vaga aberta, pretendia ascender a tenente. Era julho de 1788. A ira do ouvidor talvez nascesse da constatação de que, afastado Mairinque, seu substituto, sob o manto protetor do governador, agia de modo ainda pior, sem que nada lhe pudesse ocorrer. O ouvidor deu o troco como pôde, ao absolver, mais tarde, o cadete Joaquim José Vieira Couto, irmão do doutor José Vieira Couto, conhecido maçom. Joaquim José fora acusado de injuriar o comandante do Tijuco, José de Vasconcelos Parada e Sousa, homem do esquema do governador.

Talvez por isso o irmão de Parada, o tenente Fernando, tenha resolvido desrespeitar o ouvidor. Gonzaga, então, recorreu ao tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do regimento de cavalaria regular, que advertiu o subordinado. Todas essas questiúnculas o ouvidor contou disfarçadamente nas Cartas Chilenas, mas podem ser também comprovadas na documentação do Arquivo Público Mineiro e em vários depoimentos que constam dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira.

Depois que Cunha Meneses deixou Vila Rica em julho de 1788, Gonzaga teve menos de dois meses para trabalhar com o novo governador, o visconde de Barbacena. No dia 7 de setembro, passou o cargo para o novo ouvidor, Pedro José de Araújo Saldanha, que subira do Rio de Janeiro com o alferes Tiradentes à frente do comboio. A posse foi tumultuada porque, no dia anterior, 31 presos haviam fugido da cadeia pública.

II

Fora das funções, Gonzaga permaneceu em Vila Rica à espera de autorização real para o seu casamento com Maria Dorotéia. Por esse tempo intensificou suas relações com os poderosos do lugar: no começo de outubro, esteve por vários dias como hóspede do fazendeiro Alvarenga Peixoto em São João del-Rei. E batizou um filho do amigo. Um outro filho de Alvarenga recebeu batismo no mesmo dia, mas o padrinho foi o arrematante de contratos de entradas João Rodrigues de Macedo, dono do prédio em Vila Rica que, mais tarde confiscado pela Coroa, passaria a ser conhecido como Casa dos Contos.

A festa serviu para muitas manifestações de repúdio ao domínio português. O que preocupava o coração daqueles homens era a decisão da Corte, trazida pelo novo governador, de impor a derrama para se completar o pagamento das cem arrobas de ouro exigidas por lei.

Por aquela época, o jovem José Álvares Maciel, filho do capitão-mor das ordenanças, que estudara em Birmingham, estava de volta e fora nomeado assessor do governador. Maciel já havia conquistado para o levante a adesão de seu cunhado, o tenente-coronel Freire de Andrada, a maior autoridade militar da região depois do governador.

Freire de Andrada estava tão empenhado na conjura que cedeu sua residência na Rua Direita de Ouro Preto, em Vila Rica, para uma série de reuniões. A principal ocorreu a 26 de dezembro com a participação do ex-ouvidor Gonzaga.

A hesitação do visconde de Barbacena em decretar a derrama, porém, aparentemente, atrapalhou os planos e dispersou alguns conspiradores. A outra possibilidade é que tenha havido uma ruptura entre os revolucionários quanto ao sistema político que a nova república adotaria.

Em meados de janeiro, talvez por ter desistido da idéia da sublevação, Freire de Andrada decidiu pedir licença do comando por dois meses. Alvarenga resolveu deixar a casa de Gonzaga e voltar para a sua fazenda em Paraopeba. Quando o coronel dos auxiliares Joaquim Silvério dos Reis, ex-arrematante dos contratos de entradas e grosso devedor do Erário Régio, decidiu delatar seus companheiros de conjura, os planos de sublevação já haviam sido praticamente deixados de lado.

As autoridades, porém, nunca se deixaram enganar por Silvério e sempre o tiveram como o “motor” da sublevação, aquele que tivera a idéia inicial do levante. O outro seria Macedo, igualmente ex-arrematante e grosso devedor. Ambos haviam construído fortunas com os recursos que haviam arrecadado em nome da Coroa. E queriam se ver livres das dívidas.

Mesmo com a delação de Silvério, os inconfidentes só não derrubaram o visconde de Barbacena por causa da hesitação de Freire de Andrada, que se recusou a colocar a tropa na rua. Um gesto do militar e o poder régio teria ruído na capitania: Barbacena estava acuado no Palácio de Cachoeira do Campo, valendo-se apenas do “fraco socorro de seus ajudantes-de-ordens”, sem um barril de pólvora.

Denunciada a conjuração, Gonzaga tratou de tomar algumas providências que o colocassem acima de qualquer suspeita. No dia 20 de abril, procurou o governador a pretexto de obter uma autorização para casar a 30 de maio, um sábado. Alegou que precisava viajar para assumir o lugar para o qual estava nomeado na Relação da Bahia.

Detido, foi encaminhado ao Rio de Janeiro e recolhido à fortaleza da ilha das Cobras no dia 6 de junho. Escreveu liras, rompeu o noivado com Maria Dorotéia e compareceu a vários interrogatórios, sempre mantendo-se “numa tenaz negativa”. Da prisão, pediu a um amigo que levasse para Lisboa os originais de Marília de Dirceu, que sairia à luz pela Tipografia Nunesiana, quando ele já estava em seu exílio na ilha de Moçambique havia três meses.

III

Pouco tempo depois de desembarcar da nau Nossa Senhora da Conceição e Princesa de Portugal, a 31 de julho de 1792, para cumprir pena de degredo por dez anos na ilha, Gonzaga foi nomeado promotor de defuntos e ausentes pelo ouvidor Francisco Antônio Tavares de Siqueira.

Ao contrário do que afirmou o professor M. Rodrigues Lapa, em seu prefácio para Obras Completas de Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942), o poeta não casou com “a herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócio de escravatura” nem consagrou “as horas vagas ao rendoso comércio de escravos”.   Muito menos ajudou o sogro a aumentar sua fortuna. Até porque nem teve tempo para isso. O escrivão Alexandre Roberto Mascarenhas, seu subordinado, morreu aos 42 anos, em 1793, no mesmo ano de seu casamento com Juliana de Sousa Mascarenhas, uma jovem analfabeta de 19 anos

Mascarenhas nunca se envolveu no comércio negreiro. Era proprietário de uma casa na Rua do Largo da Saúde, na ilha de Moçambique, onde Gonzaga passou a morar com a mulher, e de uma machamba (plantação de mandioca) no continente fronteiro à ilha, que obtivera pelo casamento com Ana Maria de Sousa.

O casamento representou um desafogo nas finanças do degredado, mas não foi suficiente para torná-lo um potentado. Ana Maria, a sogra, com a morte do marido, transferiu para o casal a morada da Rua do Largo da Saúde e passou a morar sozinha na machamba, nas Terras Firmes. Com a concordância de sua mãe, Juliana França de Sousa, doou ao casal um palmar com suas casas contíguo a sua propriedade.

A vida nunca esteve mal para Gonzaga. Tanto que, com menos de 25 dias de chegado à terra, pôde comprar um escravo ladino por 20 mil-réis. Uma das raras pessoas cultas naquele fim de mundo, o ex-ouvidor não encontraria dificuldades.

No AHU, há um atestado que Gonzaga escreveu para João da Silva Guedes, a tempo ainda de o ouvidor que estava de saída assiná-lo e levá-lo para o Reino na mesma nau que deixara os inconfidentes. Guedes nunca mais esqueceria o favor e seria fiel a Gonzaga até o fim. Em troca, o ex-ouvidor faria outros favores a Guedes e fecharia os olhos para muitos negócios escusos do amigo.

Gonzaga nunca deixou de ser maçom, como mostra o seu bom relacionamento com Guedes, pai de Vicente Guedes da Silva e Sousa, que, de retorno do Reino onde fora estudar, seria preso no Rio de Janeiro em julho em 1799, acusado de ter embarcado ilegalmente livros “ímpios e blafesmos” e catecismos maçônicos.

Como advogado, Gonzaga trabalhou para outros traficantes negreiros e, mais tarde, ao final da vida, como juiz interino da alfândega, seria acusado pelo governo do príncipe regente D. João de ter favorecido os interesses da elite negreira da ilha, em detrimento da Coroa.

IV

Na África, comporia alguns versos e pelo menos “A Conceição”, poema épico inspirado no naufrágio da nau Marialva, em 1802, às costas de Moçambique, que hoje (incompleto) faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como advogado, escreveu cartas e petições às autoridades no Reino.

Com Juliana, teve dois filhos: Ana e Alexandre Mascarenhas Gonzaga. Alexandre, que nasceu em 1809, morreu solteiro e não deixou descendentes. Ana casou, em segundas núpcias, com Adolfo João Pinto de Magalhães, que viveu até 1860 e foi um dos maiores traficantes negreiros de Moçambique.  Gonzaga morreu entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro de 1810 e foi sepultado na igreja do convento de São Domingos dedicada à Nossa Senhora do Rosário, na ilha de Moçambique. Em 1852, esse templo foi demolido por estarem suas paredes comprometidas e os ossos do poeta teriam se perdido. Não há indícios de que tenham sido trasladados para outra igreja.

_______________________

(*) Publicado na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, abril-maio-junho 2010, nº 63, ano XVI, pp.175-180.

(**) Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999;São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

America Iracema: o violão eterno do último dos tabajaras


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Herundy 'Antenor' e Mussaperê 'Natalício' (o 'quarto'e o 'terceiro' de uma família tabajara)

Herundy ‘Antenor’ e Mussaperê ‘Natalício’ (o ‘quarto’e o ‘terceiro’ de uma família tabajara )

A saga de ‘Los Indios Tabajaras’

“…O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará, levando no frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar a terra onde repousava a amiga e senhora. O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?”

(José de Alencar, Iracema: Lenda do Ceará. Rio de janeiro 1865)

——————

O que evoca para você a expressão ‘Tabajara’? Alguma remota e quase extinta tribo indígena do Brasil? Ou seria um jocoso sinônimo de baixa qualidade, coisa mal feita, ruim, atributos aos quais a palavra passou a ser associada, depois daquelas piadas infames da turma do Casseta & Planeta: ‘Organizações Tabajara’, ‘Tabajara Futebol Clube’, etc., aquele negócio de apelidar de ‘Tabajara’ tudo que é coisa reles, imprestável enfim?

Só pra começar, fosse eu um tabajara também iria esbravejar revoltado, doido para tacar logo a borduna na cabeça destes desafetos sem mãe (e até mesmo o pobre do Bussunda, se vivo fosse, ia entrar no pau).

A gente até ri da piada, afinal nossa sociedade está mesmo cheia de coisas para serem zoadas, ricularizadas, mas convenhamos: é chato pra caramba, é mesmo triste e lamentável constatar que no Brasil banalizamos, principalmente o que é brasileiro. Uma cultura de banalidades indígenas, atrasadas, é isto que a palavra Tabajara nos evoca assim, no ato.

Um Brasil primitivo, brega, bugre, que o nosso pretenso cosmopolitismo quer esquecer.

Mas é só forçar a memória um pouco que a gente vai se lembrando daquelas palavras estranhas, exóticas, que íamos aprendendo logo nos primeiros anos de escola e que as pobres das professorinhas diziam para nós assim, cheias daquela presunção-rainha que as moças de terra de cego tem:

_”Palavras do ‘Tupi-Guarani’_ diziam elas, _” Um ‘dialeto’ falado por todos os índios do Brasil”.

Pagé, Tupã, buriti, jaçanã, Poti… Lembraram? Isto mesmo. Era um tupi-guarani tosco, escasso de valor linguístico, apenas uma meia dúzia de vocábulos soltos, pinçados pelo escritor José Alencar (nosso indianista mais fervoroso) no seu mui famoso romance indianista Iracema de 1865, escrito com intenções de reproduzir alguma língua ‘tabajara’ (agora sim, no mal sentido) que ele copiou de algum google de sua época, algum glossário apressado de termos da chamada Língua brasílica, um português colonial, castiço usado no interior do Brasil naquela ocasião.

Mas imaginem! São centenas as línguas faladas pelas inúmeras tribos de índios sobreviventes no Brasil de hoje, já depauperadas pela voracidade predatória dos brancos sim, claro, mas ainda assim línguas originais, dignas de algum dicionário, por menor que seja. Já pensaram a babel que era aquilo, aquela nossa selva quase intacta ainda, no século 19?

Mais lembrem um pouco mais e vejam que curioso: A língua principal destes índios míticos de Alencar –  o Tupi-Gurarani – seria, exatamente aquela falada pelos índios… ‘Tabajara’, do Ceará mais remoto e longínquo. É isto: Tabajara, segundo Alencar, um cearense orgulhoso de si, era um dos povos-matriz da ‘raça’ mestiça brasileira (pelo menos nesta parte de nossa praia biotípica já que ele não considerava ainda o negro como parte desta mestiçagem tão discutível).

“Martins Soares Moreno,

De cavalheiresco ardor,

Por amor à índia formosa,

Virgem de morena cor

Fundou a Pátria ditosa

da liberdade e do amor”

(Poema de Álvaro Martins)

A raça brasileira de Alencar se completava assim com a conjunção carnal entre o português Martim (baseado numa história de amor supostamente verídica vivida por um tal de Martins Soares Moreno) e a bela índia Iracema, uma legítima… tabajara (que – vejam que incrível! – segundo rezam algumas fontes, seria um anagrama de ‘America’)

I-R-A-C-E-M-A = A-M-E-R-I-C-A

Não é engraçado que o que para Alencar era a ‘verdade’ da formação de nossa nacionalidade esteja hoje tão associado a uma suposta ficção, uma eventual invenção anagramática?

Mas a verdade verdadeira mesmo é que, para sacramentar de vez a semgracice da generalização da piada de brasileiro, nem seria preciso ser índio para ficar revoltado não:

A palavra Tabajara além de ser o nome real desta valorosa e emblemática tribo do Brasil mais profundo, com marcas simbólicas tão fortes, de uma forma ou de outra, impregnadas na alma histórica do país, mais do que isto, Tabajara marca também – e não menos indelevelmente – a música do nosso mundo inteiro, imprimida pelo trabalho de uma dupla de músicos virtuoses, eméritos violonistas, cuja história impressionante honrará o nome de sua tribo – e a de seu país, o Brasil – para todo o sempre.

Quem levantou esta lebre foi o Marcus Vinicius Garcia, contando no último Das GroBe Kulture Seminar, emocionado a saga existencial e musical do duo violonístico ‘Os Irmãos Tabajaras’. Não sabiam disto não? Sabem que nem eu? Olhando agora mesmo na internet pude encontrar um mundo de informações sobre eles, a maioria, infelizmente oriunda de sites, revistas e jornais norte americanos.

Ouvindo as inúmeras gravações existentes das performances deles no Youtube, lembrei tão emocionado quanto Marcus, de músicas que tocando no rádio, marcaram a minha infância (como o hit Maria Elena, por exemplo, gravado em 1958 cuja letra de Lorenzo Barcelata dizia, romanticamente:….’Maria Elena és tu’…)

A versão instrumental desta música do duo Los Indios Tabajara é tão inesquecível que chega a ser quase um crime, em termos, que o nome destes artistas geniais não seja tão famoso por aqui quanto a gravação, que eu, ignorantemente sempre atribuí a algum violonista mexicano, cubano ou portoriquenho.

Um mexicano, um portoriquenho ou mesmo um cubano, em certas circunstancias, também são, de algum modo, índios. Mas o que nos importa mesmo é que  estes índios Tabajara, genios e heróis da música popular e erudita internacional (erudita sim, porque eles eram especializados, entre outros autores, em Chopin) são coisa nossa, índios do Brasil dos quais a gente devia muito e orgulhar, jamais ignorar ou desconhecer.

Mussapere ou Natalício Moreira Lima, o Nato Lima, o solista da dupla, o tabajara sobrevivente, aquele que tocou de forma genial a arte de seu violão até aproximadamente os 91 anos, morreu em Nova York em 2009.

Você havia ouvido falar disto? Pois bem. Esta é a impressionante história da travessia destes filhos de Iracema da selva tropical mais remota para a notoriedade artística na maior metrópole do mundo. A travessia de ‘Los Indios Tabajara’ foi, portanto uma descoberta da América.

Em toda história o começo é pelo fim

…”Na tarde do último domingo, 15 de novembro (2009), o violonista cearense Natalício “Nato” Lima, 91 anos, radicado há várias décadas nos Estados Unidos, perdeu a longa batalha contra um câncer de estômago. Ele estava internado no Katerina Nursing Home, em New York City.”

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Segundo todos os seus fascinados contadores a história de Los Indios Tabajaras é tão inacreditável que bem poderia ser uma história de cinema.  De todos estes contadores o mais feliz foram o próprio Nato Lima (Mussapere) e Luiz Nassif que conseguiu este fantástico depoimento dele, Mussapere-Nato, em 2004, por telefone, do qual publicamos aqui alguns trechos:

“Nasci na serra do Ibiapaba, entre Piauí e Ceará. Nesta serra, em 1929, existia Ubajara, cidade pequena, lugar famoso hoje. Naquela época não era. Um dia apareceu por lá uma tropa de militares, chefiada pelo tenente Hildebrando Moreira Lima.

Era muita gente e mudou nossa história. Não tínhamos cidade, éramos uma tribo mesmo, fomos criados na tribo Tabajara, morando em um terreno que não era nem Ceará nem Piauí, era uma área de litígio.

A tropa de militares foi para lá para amparar uma tropa que vinha do Piauí, de um lugar chamado Tucurutiba. Passaram por lá 20 dias. Fizemos amizade. Não éramos aqueles selvagens que todo mundo dizia que os índios eram. Nós estávamos a um quilômetro da beirada da serra.

Um dia meu pai saiu da aldeia e disse que viu um buraco enorme nos pé da serra. Nós estávamos na chapada e meu pai havia visto serra abaixo. Aí começou uma ventania, uma chuva e ele passou três dias ali. Quando voltou à tribo nossa, antiga, disse que nunca havia visto buraco tão grande. Viu lua sair do chão. Nós ficamos curiosos porque nunca vimos lua sair de lugar nenhum, apenas de trás das árvores.

Nós fomos em três irmãos até lá, chegamos lá e começamos a comer fruta enorme, besta, que não vale nada, chamada Ingá, maior que feijão e contém espécie de algodão em volta, muito doce, muito bom. Quando olhamos, vimos um violão, metemos a mão, fez aquele som, levamos um susto.

Levamos para tribo. Naquela época, os índios não deixavam ninguém chegar a menos de 600 metros dali. Vivíamos isolados. O violão causou transtorno na tribo. Havia outro som que escutávamos às seis da tarde, e não sabíamos o que era. Nós, pequenos, pensávamos que era violão. Era sino de cidade a uns 60 quilômetros dali, o sino de Ibiapina, assim chamada porque lá era terra completamente pelada.

Um dia um soldado levou flechada, era um soldado baiano, um mulatinho bonito. Os curadores da tribo curaram com infusões em menos de cinco minutos, uma espécie de leite que se faz da folha de uma árvore. Dois ou três pingos igual que leite. Depois de cinco minutos fica uma cola horrível. Nossos curadores curaram aquele soldado que caminhou na mesma hora. Os soldados ficaram muito admirados. Eles já tinham trazido caixão branco com cruz. Começou ali amizade entre ele e uma das meninas da tribo.

Quando soldados se foram começamos a sentir saudades do café, bolacha redonda de meio palmo e carne seca. Nós não conhecíamos, e também gostávamos da corneta dos corneteiros. Só tocava quando ordenado, mas algumas vezes tocava algumas coisas.

Eu tinha 8 ou 10 anos. Tribo tinha menos índios que soldados, que eram mais de mil. Nós éramos uns 700.

Diziam que meu pai era guerreiro ou chefe. Não era. Ele perdeu o colar de guerreiro, porque na tribo o guerreiro ganha aquele colar de dente de onça. E o pai perdeu por coisa incorreta que fez. Não permitiam nem que ele caçasse. Para casar necessita ser guerreiro. Como tinha casado antes de perder o colar, tinha 13 filhos.

A mãe estava grávida do 14º, todos homens, cada um com seu número no nome. Mas a gente dava número e não conseguia contar mais que cinco. Toda noite contava as estrelas e não passava de cinco.

Usavam muito medicina de mato. Eu gostava de comer barro e passava mal. Tinha vício daquilo e quase morri. Os curadores diziam que eu iria morrer daquilo, porque criava bicho na barriga.

Os militares foram embora, mas nos deixaram batizados. Padre que se chamava Magalhães, andava sempre de preto e se ajoelhava, a gente ficava admirado. Na cidade tinha gente de todas as cores, preto, branco, loiro, alguns com barba no rosto.

No Rio, começamos a tocar na rua. E nos jogavam algum dinheiro e a gente ia vivendo bem, mas dava muito vergonha porque éramos grandes, já.

Dali saímos a viajar no Circo, fomos a Belo Horizonte. Durante o dia fomos a um cassino e conhecemos artistas, o Alvarenga e Ranchinho. Até falei para a minha esposa que quer ir lá, porque tinha águas quentes…E fui também para Ouro Preto e Alto do Rio Doce. Chegamos a ir até a rádio Nacional, depois de voltar do Cassino da Pampulha.

Eu disse ao Alvarenga: agora nós temos um som de qualidade. Mas temos problema, porque o cassino em que vocês trabalham quer nos contratar, mas nós temos contrato com o circo, que não paga coisa nenhuma. Ele disse: “vocês vão me levar ao circo que falo com o dono e rompo com o contrato de vocês. Agora à noite, quando for tocar, vocês desafinam os dois violões e cantam muito ruim, o pior que vocês podem. O dono do circo vai ficar muito zangado”.

O dono do circo sabia que nós éramos dos índios e tínhamos estampa boa, mas não sabia que a gente cantava. O povo aplaudia por causa da roupa indígena e da simpatia, mas o talento era muito ruim.

No dia seguinte Alvarenga foi lá e disse que queria comprar os artistas. O dono: quanto você paga? Alvarenga: nós não pagamos grande coisa porque esses artistas não valem nada. O cara disse: um conto de réis.

“…Quando chegamos no México nos anunciaram: ‘Índios Tabajaras’, completamente ignorantes de música. Quem nos anunciou foi Ricardo Montalban, que não era conhecido na época. Era no Night Club El Pateo, cujo diretor era Miranda.

…Depois que escutei aquele negócio do Chopin, no outro dia sai para comprar música, comprei partitura de piano, ‘Clemente Partitura de Piano’ e ‘Compêndios de Moderna Harmonia de Rimsky-Korsakov’.

Um ano no México estudando dia e noite sozinho, sem professor, e aprendi a ler música. E examinei todas as músicas de Chopin,

Quando chegamos na RCA Vitor, diziam: são os maiores do mundo do violão. Ninguém acreditava nisso. Os violonistas não dizem quem é o maior, mundo é grande demais: mas eu acho que ninguém toca aquela valsa e o “Vôo do Besouro” que nem nós. Até hoje tocam nas reprises do Eddy Sullivan, a gente vestindo de índio, e eu ainda me admiro.

Ganhamos muitos milhões de dólares, mas nunca guardamos. Meu irmão faleceu oito anos atrás. Não era muito chegado aos sacrifícios da música. Nós temos que passar horas e horas. Música clássica leva muito tempo e, ademais, faço transcrição de piano para dois violões.

Na “Valsa em Dó Sustentido Menor” botei sexta corda grossa, tem som do piano. O mi, coloco em lá, igual à quinta corda. É uma guitarra de sete cordas, mas afinada em lá. A sexta dá som muito melhor que no piano. A última corda do piano é lá bemol, mas não tem som, não se sabe se é lá, é muito grave. No baixo sinfônico de quatro cordas, aquela nota se escuta. Mas no piano não.

O meu violão era um tom mais alto. É menor, o braço é mais curto, tem 26 trastes, que passam da boca do violão. São notas muito altas, igual ao piano e ao violino. Notas muito altas e o lá sustenido.

Todos os violonistas de Espanha daquela época, Regino De La Matta, o maior violonista espanhol, o crítico do Diário ABC de Madri, não quis ir ao concerto e não acreditava que índio pudesse tocar música clássica. Foi um sucesso. Teatro Lope de Vega, teatro elegante.

…Agora sou Nato Lima. Americano gosta de nome curto e ficou.

….Os maiores violonistas: conheci na Espanha o Regino. Os grandes daquele época não são os grandes de hoje. Hoje existem melhores. No Brasil tem alguns entre os maiores: Sérgio Abreu, os irmãos Assad, Turíbio Santos, também muito bom, e Barbosa Lima, que também é muito bom. E todos estiveram em casa, porque sou muito velho e eles pensam que vou morrer no próximo ano. Mas a gente de minha família vive muitos anos.

….Quando vim para cá me deram título americano, mas disseram que não queriam tirar minha nacionalidade porque sabiam que eu iria voltar ao Brasil. Tenho terras, irmãos lá. Eles me disseram: com título americano você tem uma vantagem: se você caçar na Amazônia e se você se perder lá, nós mandamos sete helicópteros para encontrar você.

Meu plano é ir morar no Brasil dentro de 3 anos. Mas a vida aqui é tão boa, uma moleza. O dinheiro chega do estrangeiro, e eu nem sei de onde vem, 43 países me mandam dinheiro de lá, e algumas vezes, nos últimos anos, tem engrossado.

Moro em frente da sociedade que arrecada dinheiro, perto do Central Park. Tenho 45 composições registradas. Tem tanto dinheiro que fico desconfiado.

Não fiquei milionário nunca porque nunca juntei dinheiro. Algumas vezes distribuí porque era muito. Hoje ganho 3 mil, 4 mil dólares por mês e é bastante. Às vezes recebo 9, 10 mil. Meu sonho é morar no mato, mas no dia em que encontrar terra, talvez no estado de São Paulo, entre São Paulo, Campinas, Jundiaí. Quero 10 alqueires”.

Nosso repertório é de música popular de acordo com o gosto do povo. Nós somos brasileiros, mas tocamos de acordo com o gosto do povo, para vender disco, para ter dinheiro para comer, trocar roupa. Aqui nos EUA estamos rodeados de países espanhóis. Se colocar só música brasileira, não vende. “

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Em 1920 Mussapere e Herundi eram dois indiozinhos nascidos numa aldeia tabajara no interior do Ceará, Brasil. Seus nomes são números, segundo a  ordem de nascimento. Mussapere ‘Nato Moreyra Lima’, o ‘terceiro’ filho daquela família tabajara não é, mas poderia ser chamado hoje sim de ‘O último dos Tabajaras’.

Spírito Santo

Agosto 2010

(Veja entrevista em vídeo com Nato ‘Mussapere‘ Lima aqui e ouça parte do repertório de ‘Los Indios Tabajaras’ neste e neste outro  sensacional link)

Bróder: Cinema Paradigma


O diretor Jefferson De e o ator Caio Blat, do filme 'Bróder', posam com seus kikitos Foto: Felipe Panfili e Alex Palarea/AgNews

O diretor Jefferson De e o ator Caio Blat, do filme ‘Bróder’, posam com seus kikitos
Foto: Felipe Panfili e Alex Palarea/AgNews

(Extraído de Terra Notícias)

Cinema negro em festa!

O drama Bróder, do diretor Jefferson De, foi o melhor longa-metragem brasileiro no 38º Festival de Cinema Gramado, cuja cerimônia de premiação foi realizada na noite deste sábado (14), com transmissão ao vivo pelo Canal Brasil.

“Dedico esse filme ao maior líder da periferia, Mano Brown, e a Daniel Filho”, afirmou um emocionado Jefferson De, que estreia em longa-metragem com a produção.

Igualmente emocionado, o ator Caio Blat, que conquistou o Kikito de melhor ator pelo trabalho, declarou: “O Macu (personagem do ator no longa) foi o presente mais lindo da minha carreira. Hoje eu posso encher a boca e dizer: ‘Eu sou negão!'”. Caio, que atualmente roda Xingu no Norte do País, dedicou o Kikito às comunidades que o acolheram durante as filmagens.

O longa-metragem acompanha 24 horas na vida de três amigos da periferia de São Paulo, interpretados por Caio Blat, Silvio Guindane e Jonathan Haagensen.

Bróder levou ainda os kikitos de melhor diretor (Jefferson De) e ator (Caio Blat). Também com três estatuetas ficou Não Se Pode Viver Sem Amor, do cineasta chileno radicado no Brasil Jorge Durán: fotografia (Luis Abramo), roteiro (Dani Patarra e Jorge Durán) e atriz (Simone Spoladore).

Os nacionais O Contestado – Restos Mortais, de Sylvio Back; Enquanto a Noite Não Chega, de Beto Souza; e Ponto Org, de Patricia Moran saíram sem kikitos da cerimônia.

Entre os concorrentes latino-americanos, o chileno Mi Vida com Carlos, de German Berger, faturou os troféus de melhor filme e fotografia, e o argentino La Vieja de Atras os de roteiro e ator (Martin Piroyansky, dividido com Gabino Rodriguez, de Perpetuum Mobile).

Não há nenhum Mal neste Brasil Canibal


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Barbárie também é Cultura

Em época de se discutir a barbárie nossa de cada dia, que tal mudar um pouco o rumo da prosa para um enfoque, digamos assim, menos baixo astral?

O tema que propomos hoje é assaz conhecido de nós todos, brasileiros, desde que os primeiros contadores de histórias europeus estiveram por aqui (os que não foram comidos, é claro): A Antropofagia.

Chamamos a atenção do leitor apenas para um transcendental detalhe: a história mais abaixo narrada – por mais incrível que possa parecer – é rigorosamente verdadeira.

De insofismável conteúdo cultural e, por que não dizer profundamente antropológica (já que não trata apenas de canibalismozinhos, comezinhos e suburbanos), a história fala daquela antropofagia de alto nível, ritual, tradicional, contida nas curiosas e meticulosas maneiras de se destrinchar fibras, carnes e ossos de indigitados inimigos humanos, com intenções altamente simbólicas (logo, de modo algum meramente alimentícias). Antropofagia artística se poderia dizer em suma.

O tema (ainda muito mais relevante se considerarmos os animados dias de hoje, cheios de eletrizantes massacres) pode servir também para muitas elucidativas – e, sobretudo divertidas – reflexões acerca da natureza da alma brasileira, notadamente naqueles pontos que tentam explicar por que vivemos ainda, mais de quatrocentos anos depois da história narrada haver transcorrido, a nos comermos uns aos outros, assim, de forma tão… tão sem cerimônia, tão literalmente e sem pompa ou circunstância.

É com esta meritória – e porque não dizer – dignificante intenção que lançamos aqui mais este capítulo da série…(“tchan, tchan, tchan, tchan” de música Villa Lobos, por favor): ‘Barbárie também é cultura’,

O Motim do Monte Calvário

(Uma história que só poderia ter acontecido no Brasil.)

(Descrita no livreto do padre Carlos Bresciani Sj “A primeira evangelização das aldeias em redor de São Salvador, Bahia 1549-1569” publicado pela Fundação Gregório de Matos da Prefeitura Municipal de Salvador, 2000).

Em suas primeiras cartas em 1549, logo assim que chegou ao Brasil, chefiando uma missão jesuíta composta por quatro frades que desembarcaram com o primeiro governador geral Tomé de Souza, na barra da Bahia de Todos os Santos, o Padre Manoel de Nóbrega revelava sincero otimismo com relação à possibilidade de converter nossos índios à fé cristã:

Hans Staden (o branquelo barbudo ao fundo, rezando contrito e apavorado) assiste a um animadíssimo churrasco ritual.

Hans Staden (o branquelo barbudo ao fundo, rezando contrito e apavorado) assiste a um animadíssimo churrasco ritual.

“_ Todos estes que tenham conosco, dizem que querem ser como nós… se ouvem tanger a missa, já acodem, e quanto nos vêem fazer, tudo fazem; assentam-se de joelhos, batem nos peitos, alevantam as mãos aos céus…”

Contudo, esta missão de catequese do gentio local não era de modo algum desprovida de dificuldades como as cartas dos missionários às vezes demonstravam. Conta-se que certa vez, a despeito da não recomendação do governador geral preocupado com os riscos da empreitada, padre Nóbrega decidiu que se construísse uma casa, ‘a modos de ermida’ dentro de uma aldeia de índios, próxima à Salvador a qual eles, os padres, haviam dado o nome de Aldeia do Monte Calvário.

Escalado para nela morar, um dos missionários, o padre espanhol João Azpilcueta Navarro contou em suas cartas que ali catequizou vários índios, entre os quais muitos, ‘todos os que quiseram’, foram batizados. A ermida foi passada para o substituto do padre Navarro chamado Irmão Vicente Rodrigues, que em carta de maio de 1552 narra a história seguinte.

” Conta-nos que, numa guerra contra índios adversários, a Bastian Teles, filho do principal da Aldeia do Monte Calvário, foi adjudicado, como troféu da vitória, um preso para ser morto e comido numa grande festa. Mas Bastian e o pai, principal da aldeia, eram cristãos e não consentiram. Porém não eram cristãos os parentes da mulher de Bastiam e estes, como muitos outros, insistiram para que se aceitasse o preso e fosse comido em grande festa, segundo seu costume.

Quando chegou o corpo do preso já morto, Bastian se opôs, apesar das ameaças que lhe faziam de lhe tirar a mulher. Diante da fúria dos portadores do corpo, preferiu mudar-se para outra aldeia. Entrementes, foram avisados do caso o Pe. Paiva e o Ir. Vicente, que na ocasião estavam juntos na aldeia. Intervieram repreendendo fortemente, e, com força, conseguiram arrebatar-lhes o corpo, que, de noite, às escondidas, enterraram na horta da própria casa.

Mas os parentes, que viviam em outra aldeia, ao saberem desta desonra sofrida, vieram armados de frechas e arcos, para desenterrar o corpo. Opuseram-se novamente os dois Missionários. “Acudimos – narra Irm. Vicente – e grande coisa foi não nos frecharem; fugiram.

Às duas horas daquela noite, os dois missionários conseguiram sepultá-lo perto da cerca da cidade, à revelia dos índios, que, naquela hora, jaziam todos embriagados pelas bebedeiras da festa.

Ao amanhecer, os índios escavaram todo o terreno em redor da casa dos padres, inutilmente. Ficaram revoltados.O fato se deu entre abril de 1550 e junho de 1551. Os padres, sob estas ameaças, se retiraram a morar dentro da cidade, continuando porém a cuidar da aldeia com freqüentes visitas.

A aldeia continuou por muitos anos. Pe. Luis de Grã, em Dezembro de 1554, nos diz que muitos de seus habitantes se mudaram, até mudou-se a aldeia toda. “Andam pela aldeia muitos que eram cristãos e moravam numa aldeia situada aqui perto da cidade (a do Calvário), na qual, os padres, que estiveram no princípio, tinham casa e ermida, e ali os ensinavam a grandes e pequenos, a homens e mulheres e, como seu costume é mudar-se freqüentemente, por qualquer capricho queimam a sua choupana em que moram; ninguém lhes impede, ainda que queimam toda a aldeia.

Mudaram-se e, finalmente, se mudou toda a aldeia. Para eles eu trabalhava, mas porém seus costumes estão sem nenhum sinal de cristão…esqueceram-se tudo”.

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Sim…” esquecemo-nos de tudo”, poderíamos confirmar hoje mesmo nós outros (com os arcaísmos, por favor!). ‘Caranguejamos’, andamos para trás, poderíamos afirmar também, com toda certeza.

Dizem que nossos silvícolas antepassados (quem sabe não seriam eles- ou nós – os inventores do ‘churrasco’, tal qual o conhecemos?) naqueles banquetes de antanho, assavam as vítimas com ervas aromáticas, quase como finos chefs, mestres cucas meticulosos, artistas da culinária tradicional. A gente chega a imaginar quantos pratos típicos especiais não seriam conhecidos por eles. Tantos que se poderia abastecer um compêndio enorme de receitas deliciosas, as mais inusitadas. ‘Panturilha ao molho de piranha’, ‘Entrecoxa ao molho tártaro’, ‘Pinto ao ponto’ (não o filhinho da galinha, se bem me entendem), ‘Nádegas – ou Lombo- ao forno’… Humm!

Estranharam o que? Pois não é que hoje em dia, nós mesmos- apesar de vivermos arrotando por aí a nossa discutível civilidade,  orgulhosos urbanóides que somos, com freezers e microondas ultramodernos – depois de matar as pessoas, não nos damos nem mais ao trabalho de assá-las.

E isto é o fim da picada, não é não?

É sim. Todo mundo sabe. Para estrangeiros deve parecer um absurdo, mas alguns de nós, mais afobadinhos  (ou… pragamáticos, dependendo do ponto de vista), chegam mesmo a destrinchar os semelhantes caídos na sua antipatia, em pedacinhos – como se faz um ‘frango a passarinho’

Depois disto, não satisfeitos, em vez de comê-los como faziam nossos parentes, dão de comer  aos porcos algumas partes mais específicas ou mesmo… comprometedoras dos desditosos (as que contém aqueles vestígios de humanidade) servindo-os assim mesmo, crus como peixe de sushi, de sashimi (e dizem que os porcos, assim cevados, adoram os pratos servidos de lamber os beiços, regalados).

Estranharam o que? Se esqueceram que, embora o façamos à pururuca, nós também comemos deliciados os pobres dos leitõezinhos?). Eu sei, eu sei que que os leitõezinhos não se comem uns aos outros, mas isto é natural, é apenas um detalhe cultural, certo?

Afinal… barbárie também é cultura.

Ai, ai! Que nos sobrem ao menos alguns poucos guerreiros vivos, para levantarmos, em algum lugar, a nossa nova aldeia. É só o que desejamos.

Spírito Santo

No ano 453 da deglutição do Bispo Sardinha

O que é que isto tem a ver com os Índios Tabajaras? Bem isto é matéria para outro post, certo?

Caetano fofo desfalou e contradisse



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Caetano Veloso no carnaval da Bahia. Foto: Revista Realidade - Março de 1971

Caetano Veloso no carnaval da Bahia. Foto: Revista Realidade - Março de 1971

Mas vejam só que fofo:

Caetano Veloso hoje (8 de Agosto de 2010), no segundo caderno de O’Globo, tentando ser politicamente correto (para fugir, talvez, de sua tendencia gilbertofreiriana, neo racista), mas escorregando feio num monte de atos falhos (pinço trechos esparsos – com os atos falhos em negrito- Vocês podem, facilmente repô-los no contexto lendo a matéria no jornal)

(Leia também, neste link, outras coisas bem recentes,  sobre este desvio ideológico tão… caetanovelosiano)

“…Fomos a um bar (na Finlândia) cheio de pessoas bonitas, 99% louras…”
…Zeca queria esticar ainda mais, num clube de música eletrônica chamado Butterfly. Muita gente loura, mas também muitos com cara de Ahmed e muitos pretos…”…”Dentro da Butterfly sou mais o racialismo de Celso Athayde: cotas ou violência. O Brasil deveria mostrar-se triste por estar produzindo mais separação racial do que teve há umas quatro décadas. E não são as cotas que criam artificialmente este abismo: É a natural concentração de não negros em áreas ditas nobres e escolas ditas boas…”

Traduzindo, o que os atos falhos parecem esconder:

1 – Pessoas bonitas para Caê parece que são, invariavelmente pessoas brancas, de preferencia louras de olhos azuis.

2 – Árabes, como Ahmed  (‘um iraquiano que trabalha no balcão’ ) e negros, em oposição – e por dedução já que não são definidos no texto como isto ou aquilo – parece que para Caê,  são pessoas… feias.

– A posição de Celso Athayde (da ong CUFA) a favor das Cotas raciais seria ‘racialista‘ (ou seja: equivocada porque, segundo Caetano e sua assumida turma de ideólogos do ‘elogio à mestiçagem’Ali Kamel à frente – ‘raças não existem‘, logo o racismo também não).

– Ele, Caetano, apoiaria as cotas raciais sim, mas só… na Finlândia (usando o clube Butterfly como microcosmo), logo ele é CONTRA as cotas raciais no Brasil e acha que nunca existiu racismo por aqui (só que não tem mais ‘peito‘ para dizer isto, claramente num jornal). E, vem cá, gente…citar logo a Finlândia é puro sarcasmo, o cúmulo do cinismo, não é não?

– O ‘Brasil‘ (sei lá porque posto por Caê como uma entidade vaga e impessoal)  estaria produzindo uma ‘separação’ racial que nunca teve,   pelo menos ‘nos últimos 40 anos

(Ué?! O Racismo por aqui havia sido extinto desde a década de 1970? Que pena. Esqueceram de avisar a nós, a negrada do país).

Esta parte do discurso caetanista, aliás, é a mais risível ainda porque ele não explicita QUEM estaria criando esta eufemística ‘separação‘, não diz de onde tirou esta informação de que este  ‘Brasil‘ vago e impreciso já não convivia com esta ‘separação‘ há séculos (o cuidado em não usar a expressão  ‘Racismo‘, aliás é também bem sintomático, capcioso mesmo no discurso dele.)

Fica confuso entender esta parte.  Se ele nega, terminantemente que as propostas por cotas raciais NÃO seriam as ‘culpadas‘, quem ele está insinuando em suma como sendo o responsável por esta…  ‘separação‘, tão saudosistamente lamentada? Já sei: o ‘Brasil‘, mas afinal, de que diabos de  ‘Brasil ‘ele está falando?

O ‘Brasil brasileiro, mulato insoneiro’?

E outra dúvida: Do mesmo modo que a proposta por cotas raciais seria para Caê uma medida… ‘artificial’, estaria ele afirmando então que a concentração de ‘não negros’ em áreas ‘nobres’ e escolas ‘boas’, do mesmo modo, para ele seria…natural?

– Sim porque se Caê afirma que estas áreas e escolas nobres‘ e ‘boas‘ não são, exatamente tão boas assim. Logo, não seria o caso de se deduzir então que o que ele sugere é que a afirmação dos pró-cotistas de que as escolas ‘populares‘ são ruins também é falsa (ou não é conclusiva)? Ou seja, por outro lado, esta suposta baixa qualidade da escola pública seria também…natural.

E isto qualquer aluno de aula de ciencias sociais do nível médio sabe que é, totalmente falso, inaceitável certo?

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Contradições…contradições sim. mas com certeza imperdoáveis.  Já disse aqui: Morro de medo desta gente da ‘raça‘…ops!… do tipo do nosso mui famoso Caê. A qual das três raças tristes esta gente imagina ou sonha pertencer? Isto eles nunca falam, nunca assumem.

Mas o que é triste mesmo é que, afinal eles são os nossos mais que respeitáveis formadores de opinião. Artistas consagradíssimos, escrevem em jornais, dão entrevistas, sobem em palcos do mundo inteiro para ficar por aí difundindo (na verdade, vendendo) uma imagem inteiramente difusa do Brasil real, do Brasil que somos?

Vendem uma opinião, deliberadamente dúbia, ambígua – quase falsa – fechada em seu elitismo oportunista, travestida de uma modernidade cult , na verdade pra lá de arcaica e provinciana.

…E vale perguntar: Porque Caê fala tanto disto justo agora, fazendo dos temas Raça, Racismo, Racialismo, Negros, Branco, Mulato,  o seus temas prediletos, quase como uma idéia fixa? Não tem mais o que fazer não?

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…Ih! Quase ia me esquecendo. Falando em Caetano, vejam só a pérola sofismática proferida pelo Hermano Viana na mesa da FLIP 2010. Seria mais um deles (dos cavaleiros da Távola Quadrada) se desdizendo?:

_” Obviamente o Brasil não é uma democracia racial. Temos que entender a afirmação do Freire ( o Gilberto, claro) menos com tentativa de acobertar o racismo, mais como um meio de combatê-lo”

Eu heim? Estranho desdito este, não? Afinal o conceito  Democracia Racial’ é auto-explicativo. Tanto quanto Racismo. São claríssimas antíteses. Um não existe se há o outro. Ora, Se você afirma isto,  obviamente está negando – ou acobertando aquilo.

Gilberto Freire, efetivamente vendeu o peixe de que o racismo brasileiro era incipiente por ser lusitanamente ‘brando‘, ‘humano‘, portanto praticamente inexistente.  Seríamos um alegre e feliz ‘povo mestiço’.

Fez coisa bem pior na África a partir da década de 1940 (fato omitido ou subestimado por dez entre dez ‘Gilbertofreiristas’), a convite e a serviço da ditadura de Salazar quando contribuiu – de forma proeminente, no ‘aperfeiçoamento‘ de um sistema de discriminação sócio-racial sórdido, denominado ‘Lei do Indigenato‘, efetivamente implantado em Angola, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, de recorte claramente fascista e muito semelhante ao Apartheid dos brancos da África do Sul.

(E se você quiser, não se avexe: pode ler muito mais sobre este assunto neste link.)

A ideologia da ‘democracia Racial partia de uma premissa falsa, reacionária e deliberadamente voltada para perpetuar a desgualdade sócio racial que perdura entre nós até hoje. Uma ideologia que ficou sendo de Estado e é, sob todos os pontos de vista, deletéria e execrável. Precisa ser inteiramente desmascarada para que o Brasil avance como sociedade. Ponto.

Gilberto Freire já era e tem como justificativa de seus equívocos o fato de ter sido ‘um homem de seu tempo’. Continuar hoje em dia a defender os seus arcaicos pontos de vista sobre exclusão social e racismo, mesmo tentando reciclá-los  é que são elas e não é, de modo algum um comportamento intelectual digno de nossa pretensão à modernidade

Logo, o que Hermano Viana diz agora é um sofisma límpido, clássico. Afirma uma coisa mas, no fundo se quer dizer outra. ‘Conversa de cerca lourenço’ (‘mole‘, ‘fiada‘) como dizia meu tio com sua fina cultura da malandragem.

E nem precisamos estender muito a conversa: Como Caetano, Hermano também parece se desdizer, tentando escrever o errado por linhas certas. É fofo e só. Contudo e – na boa – acho elogiável o esforço intectual de rever – antes que seja tarde –  velhos conceitos superados pelos fatos. Será que admitir o óbvio doeu neles o mesmo que antes doía em nós, esperando que tão impolutas pessoas caíssem na real?

Sei lá. Talvez não passem muito de atos falhos?… Ou não.

Spirito Santo
Agosto de 2010