O Folk Fake do Brasil ‘muderno’

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Carta aberta para uma Cultura Popular em risco

Certo, certo. Parece conversa fora de moda, tipo CPC da UNE dos anos 60/70, mas, pode parar que não é.

Eu também já sei que Cultura popular é um destes tantos conceitos em vias de serem revistos por nossa moderna academia, principalmente quando se referindo à qualquer coisa relacionada à tradicionalidade (outro conceito hoje quase maldito em certas rodas que preconizam a relatividade de tudo em Cultura). Assim, toda cultura seria ‘inventada’, logo tradicionalidade seria uma premissa atrasada, superada pela modernidade.

Modernidade… De tanto se evocar o santo nome da moça em vão a pobre chegou até a ficar… passada.

Tem gente escolada, vivida e juramentada que crê nisto, nesta universalidade vazia, no caráter supostamente vago, indefinível da tradicionalidade em Cultura (como um evangélico bispo-macedista crê num Reino de Deus que acabou de ser inventado agorinha mesmo, só para lhe surrupiar os dízimos.)

É certo também – contraditoriamente aliás – que com os ‘Pontos de Cultura‘ estamos vivendo hoje um formidável surto de estímulo às manifestações populares, num esforço claramente visível –  e mesmo fora do âmbito da propaganda oficial  – de fomento e de apoio à cultura…ops… tradicional, por parte do Ministério da Cultura do Brasil e seus caixas falsamente samaritanos (Petrobras, grandes estatais, grandes bancos e fundações, etc.).

‘Responsabilidade Social‘, enchem a boca para dizer…hum! Me engana que eu gosto. Como assim se é o nosso imposto (‘renunciado‘ pelo governo em nosso nome ) que paga tudo?  Ora, ora…isto não passa de cortesia com chapéu alheio (no caso o meu, o seu, o nosso roto chapéu já meio desabado de dívidas)!

Existem por baixo das alfaias de maracatu industrializadas e dos saiões de chita falsa, contudo muito mais do que apenas baque virado e calçolas rendadas. Vivemos numa terra de ávidos, vorazes predadores de tudo, ainda não notaram não?

É que os mais atentos ou ressabiados, escaldados, costumam enxergar problemas bem graves pairando sobre este manto de proteção governamental, este rio de dinheiro que escorre na planície da renúncia fiscal de Brasília (o Estado-pilatos lavando as suas mãos e fechando os olhos para aqueles espertinhos dispostos a sujar as suas)… Sim, estes mesmos, os ‘captadores‘, os ‘gestores‘, os ‘secretários ‘, ‘os produtores‘, estes que amam a Cultura popular de paixão ).

Um conceito complexo que nós – e sabe-se lá mais quem – lançamos em vários veementes posts como este aqui, pode dar bem a medida do que há de errado neste pobre reino desta pseudo-dinamarca culta (só para inglês ver) em que vivemos.

Digo que são os males da incúria intelectual (e governamental) os vícios de nossa gente mandante e bem pensante enfim, que dão respaldo e sustentação ideológica à esta espetacularização desenfreada de nossa cultura tradicional, transformando tudo  em mercadoria nestes tempos de folclóricas  – e, aparentemente simplórias e bucólicas – armadilhas de Turismo Cultural.

Qual é a natureza dos acordos estabelecidos entre os agentes culturais de sua cidade e as empresas de produção cultural interessadas em promover o turismo e a cultura de sua região? São contratos idoneos, legais? Você já se fez esta pergunta tão banal?

Você já deu uma sacada mais atenta nos programas culturais tocados pelas secretarias de cultura e de turismo da sua cidade? Qual é a fonte dos recursos eventualmente aplicados? É verba do caixa da municipalidade ou são oriundos de algum patrocínio privado? É dinheiro público captado via renúncia fiscal? Como são geridos estes recursos? Como são remunerados os grupos e artistas contratados? Os gestores públicos locais são de alguma forma remunerados ou… ‘recompensados‘ no ensejo das parcerias estabelecidas?

Predadores vorazes de tudo, eu disse lá em cima, lembra?

Pois se liga ! Muitos interesses escusos podem estar sendo urdidos no campo minado da nossa cultura nacional, tão valorizada quanto enxovalhada nestes dias que correm. Ao final, como quem paga a conta somos nós, já devíamos saber que… ‘em rio que tem piranha, jacaré nada de costas’.

O conceito é : Degradação do patrimônio cultural imaterial no Brasil. Pense nisto.

Pague para ver se quiser (ou fique omisso, matutando) mas sobretudo reflita com esta galera da Paraíba que nos manda esta longa e precisa carta aberta (que reproduzo logo abaixo), um documento-denúncia – talvez romântico em suas ingênuas reivindicações improváveis – mas que, cabendo direitinho no panorama da Cultura popular e tradicional (ops!) do Brasil como um todo, prova cabalmente que, não foi por falta de aviso que a coisa está dando lá, como deu aqui – e com o perdão da palavra- nesta merda toda que o documento denuncia em suas entrelinhas.

É como desmatar quilômetros de selva para construir hidrelétricas. Estrangulem os rios. Danem-se. Tradição é o cacete: Vale TUDO em nome do progresso nacional (e na falta de cacife, nenhum problema: apostamos as calças também).

É aquela história: Avisar não custa nada. Cada cabeça uma sentença (as vezes de morte). Depois de nada vai adiantar chorar a morte da bezerra desmamada.

Afinal – já me disseram, na lata – Tradição? Pra que? Tradição não enche barriga.

Spírito Santo
Julho 2010

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(Carta disponobibilizada por Marcelo Manzatti)

“Encaminho abaixo a Carta Aberta elaborada por artistas e mestres da cultura popular tradicional, em parceria com pesquisadores, integrantes de ONGs e outros mediadores culturais, em defesa da cultura popular. A carta foi escrita de forma colaborativa, em sucessivas reuniões do Fórum Estadual de Cultura Popular da Paraíba…

…Divulgue esta carta aberta. A cultura popular e os que a realizam agradecem.

Abraços,

Marcos Ayala

CARTA ABERTA

À POPULAÇÃO DA PARAÍBA

Pontos de uma Política Cultural para as Expressões Culturais Populares Tradicionais da Paraíba.

O Fórum Estadual das Culturas Populares Tradicionais da Paraíba é uma entidade informal sem fins lucrativos, com a participação de mestras, mestres, brincantes, representantes de grupos tradicionais populares, produtores culturais, articuladores, pesquisadores de cultura popular e representantes de entidades dedicadas à cultura. Foi criado em 2006, como forma de garantir a participação da Paraíba no II Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares e I Encontro Sul-Americano das Culturas Populares. Constituído como movimento social em março de 2009, sob a forma de Fórum Metropolitano, atua desde então com reuniões regulares, promovendo o encontro, o debate e a organização política desse setor para a promoção das Culturas Populares Tradicionais, transformando- se em Fórum Estadual em abril de 2010.

Este Fórum vem a público expressar aos gestores públicos: governador, prefeitos, deputados, vereadores, entidades responsáveis pelas políticas públicas de cultura no estado da Paraíba e sociedade em geral sua convicção a respeito da necessidade de implementação de ações urgentes que demonstrem respeito para com as formas de expressão tradicionais e seus respectivos produtores, bem como salvaguarde o patrimônio vivo do povo paraibano.

A criação de oportunidades de apresentações públicas, com bastante visibilidade, para os grupos de Cultura Popular, é importante, mas é fundamental incentivar as expressões artísticas populares tradicionais nos bairros e nas comunidades onde vivem as mestras, os mestres, brincantes e artistas, de forma consistente e contínua. Em função disso indicamos que as apresentações nas comunidades e nos bairros devem contar com artistas e grupos de Cultura Popular Tradicional do próprio local, além de outros convidados.

As apresentações com caráter de espetáculo devem ser consideradas pelos poderes públicos e expressas em suas ações como sendo só uma parte da atividade dos mestres, mestras, brincantes e artistas. Mais importante do que elas é a atuação de artistas e grupos populares nas comunidades onde vivem. As Culturas Populares Tradicionais dependem dos laços comunitários e territoriais e esses só se fortalecem com a atuação continuada, permanente, dos artistas e grupos, nos locais de ensaio, sejam locais fechados ou nas ruas, próximo às casas dos mestres. É ali que essas têm sua base e suas principais condições de sustentabilidade. As crianças e os jovens, que serão os futuros responsáveis por essas manifestações, as aprendem nos bairros e nas comunidades, vendo os mestres e os mais velhos.

O fomento às Culturas Populares junto a suas comunidades também contribui para elevar a auto-estima de participantes dos grupos e dos moradores, ao perceberem que seu bairro e moradores de sua rua, de sua vizinhança, de sua comunidade, estão sendo valorizados. Para além disso, os órgãos públicos devem garantir que as comunidades tradicionais viverão em condições de sobrevivência digna em seu território, respeitando suas formas específicas de fazer, seus modos de vida, suas expressões culturais, seus ofícios tradicionais e demais relações construídas no e com o espaço em que vivem.

A valorização do artista popular tradicional passa por um pagamento de cachê digno, condições de tempo necessário de apresentação, estrutura, espaço físico e equipamentos adequados à realidade de cada grupo ou artista popular e, acima de tudo, tratamento respeitoso por parte de todos os envolvidos nos processos de contratação, produção, serviços técnicos, antes, durante e depois das apresentações.

Os valores propostos para pagamento pelas apresentações devem garantir o mínimo de dignidade aos artistas e grupos populares, sem, contudo, impedir que eles possam participar dos mesmos critérios que o mercado cultural permite a outros artistas, em que os cachês podem ser cobrados / pagos conforme a valorização dos mesmos, podendo aumentar de acordo com a demanda por suas apresentações.

Diante de um quadro histórico de ausência de ações governamentais consistentes e continuadas, no âmbito do Estado e dos Municípios da Paraíba, destinadas à preservação, manutenção e fomento das Culturas Populares Tradicionais, os participantes do Fórum Estadual das Culturas Populares Tradicionais da Paraíba tornam público e apresentam as seguintes propostas de políticas públicas para serem adotadas pelos governos municipais, estadual, fundações e demais entidades dedicadas à cultura do nosso Estado:

(leia a íntegra das reinvindicaçãoes neste link)

…Participantes do Fórum Estadual das Culturas Populares Tradicionais da Paraíba

João Pessoa, 03 de julho de 2010

Subscrevem a presente carta os abaixo assinados:

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~ por Spirito Santo em 02/08/2010.

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