Caetano fofo desfalou e contradisse


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Caetano Veloso no carnaval da Bahia. Foto: Revista Realidade - Março de 1971

Caetano Veloso no carnaval da Bahia. Foto: Revista Realidade - Março de 1971

Mas vejam só que fofo:

Caetano Veloso hoje (8 de Agosto de 2010), no segundo caderno de O’Globo, tentando ser politicamente correto (para fugir, talvez, de sua tendencia gilbertofreiriana, neo racista), mas escorregando feio num monte de atos falhos (pinço trechos esparsos – com os atos falhos em negrito- Vocês podem, facilmente repô-los no contexto lendo a matéria no jornal)

(Leia também, neste link, outras coisas bem recentes,  sobre este desvio ideológico tão… caetanovelosiano)

“…Fomos a um bar (na Finlândia) cheio de pessoas bonitas, 99% louras…”
…Zeca queria esticar ainda mais, num clube de música eletrônica chamado Butterfly. Muita gente loura, mas também muitos com cara de Ahmed e muitos pretos…”…”Dentro da Butterfly sou mais o racialismo de Celso Athayde: cotas ou violência. O Brasil deveria mostrar-se triste por estar produzindo mais separação racial do que teve há umas quatro décadas. E não são as cotas que criam artificialmente este abismo: É a natural concentração de não negros em áreas ditas nobres e escolas ditas boas…”

Traduzindo, o que os atos falhos parecem esconder:

1 – Pessoas bonitas para Caê parece que são, invariavelmente pessoas brancas, de preferencia louras de olhos azuis.

2 – Árabes, como Ahmed  (‘um iraquiano que trabalha no balcão’ ) e negros, em oposição – e por dedução já que não são definidos no texto como isto ou aquilo – parece que para Caê,  são pessoas… feias.

– A posição de Celso Athayde (da ong CUFA) a favor das Cotas raciais seria ‘racialista‘ (ou seja: equivocada porque, segundo Caetano e sua assumida turma de ideólogos do ‘elogio à mestiçagem’Ali Kamel à frente – ‘raças não existem‘, logo o racismo também não).

– Ele, Caetano, apoiaria as cotas raciais sim, mas só… na Finlândia (usando o clube Butterfly como microcosmo), logo ele é CONTRA as cotas raciais no Brasil e acha que nunca existiu racismo por aqui (só que não tem mais ‘peito‘ para dizer isto, claramente num jornal). E, vem cá, gente…citar logo a Finlândia é puro sarcasmo, o cúmulo do cinismo, não é não?

– O ‘Brasil‘ (sei lá porque posto por Caê como uma entidade vaga e impessoal)  estaria produzindo uma ‘separação’ racial que nunca teve,   pelo menos ‘nos últimos 40 anos

(Ué?! O Racismo por aqui havia sido extinto desde a década de 1970? Que pena. Esqueceram de avisar a nós, a negrada do país).

Esta parte do discurso caetanista, aliás, é a mais risível ainda porque ele não explicita QUEM estaria criando esta eufemística ‘separação‘, não diz de onde tirou esta informação de que este  ‘Brasil‘ vago e impreciso já não convivia com esta ‘separação‘ há séculos (o cuidado em não usar a expressão  ‘Racismo‘, aliás é também bem sintomático, capcioso mesmo no discurso dele.)

Fica confuso entender esta parte.  Se ele nega, terminantemente que as propostas por cotas raciais NÃO seriam as ‘culpadas‘, quem ele está insinuando em suma como sendo o responsável por esta…  ‘separação‘, tão saudosistamente lamentada? Já sei: o ‘Brasil‘, mas afinal, de que diabos de  ‘Brasil ‘ele está falando?

O ‘Brasil brasileiro, mulato insoneiro’?

E outra dúvida: Do mesmo modo que a proposta por cotas raciais seria para Caê uma medida… ‘artificial’, estaria ele afirmando então que a concentração de ‘não negros’ em áreas ‘nobres’ e escolas ‘boas’, do mesmo modo, para ele seria…natural?

– Sim porque se Caê afirma que estas áreas e escolas nobres‘ e ‘boas‘ não são, exatamente tão boas assim. Logo, não seria o caso de se deduzir então que o que ele sugere é que a afirmação dos pró-cotistas de que as escolas ‘populares‘ são ruins também é falsa (ou não é conclusiva)? Ou seja, por outro lado, esta suposta baixa qualidade da escola pública seria também…natural.

E isto qualquer aluno de aula de ciencias sociais do nível médio sabe que é, totalmente falso, inaceitável certo?

————

Contradições…contradições sim. mas com certeza imperdoáveis.  Já disse aqui: Morro de medo desta gente da ‘raça‘…ops!… do tipo do nosso mui famoso Caê. A qual das três raças tristes esta gente imagina ou sonha pertencer? Isto eles nunca falam, nunca assumem.

Mas o que é triste mesmo é que, afinal eles são os nossos mais que respeitáveis formadores de opinião. Artistas consagradíssimos, escrevem em jornais, dão entrevistas, sobem em palcos do mundo inteiro para ficar por aí difundindo (na verdade, vendendo) uma imagem inteiramente difusa do Brasil real, do Brasil que somos?

Vendem uma opinião, deliberadamente dúbia, ambígua – quase falsa – fechada em seu elitismo oportunista, travestida de uma modernidade cult , na verdade pra lá de arcaica e provinciana.

…E vale perguntar: Porque Caê fala tanto disto justo agora, fazendo dos temas Raça, Racismo, Racialismo, Negros, Branco, Mulato,  o seus temas prediletos, quase como uma idéia fixa? Não tem mais o que fazer não?

——————

…Ih! Quase ia me esquecendo. Falando em Caetano, vejam só a pérola sofismática proferida pelo Hermano Viana na mesa da FLIP 2010. Seria mais um deles (dos cavaleiros da Távola Quadrada) se desdizendo?:

_” Obviamente o Brasil não é uma democracia racial. Temos que entender a afirmação do Freire ( o Gilberto, claro) menos com tentativa de acobertar o racismo, mais como um meio de combatê-lo”

Eu heim? Estranho desdito este, não? Afinal o conceito  Democracia Racial’ é auto-explicativo. Tanto quanto Racismo. São claríssimas antíteses. Um não existe se há o outro. Ora, Se você afirma isto,  obviamente está negando – ou acobertando aquilo.

Gilberto Freire, efetivamente vendeu o peixe de que o racismo brasileiro era incipiente por ser lusitanamente ‘brando‘, ‘humano‘, portanto praticamente inexistente.  Seríamos um alegre e feliz ‘povo mestiço’.

Fez coisa bem pior na África a partir da década de 1940 (fato omitido ou subestimado por dez entre dez ‘Gilbertofreiristas’), a convite e a serviço da ditadura de Salazar quando contribuiu – de forma proeminente, no ‘aperfeiçoamento‘ de um sistema de discriminação sócio-racial sórdido, denominado ‘Lei do Indigenato‘, efetivamente implantado em Angola, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, de recorte claramente fascista e muito semelhante ao Apartheid dos brancos da África do Sul.

(E se você quiser, não se avexe: pode ler muito mais sobre este assunto neste link.)

A ideologia da ‘democracia Racial partia de uma premissa falsa, reacionária e deliberadamente voltada para perpetuar a desgualdade sócio racial que perdura entre nós até hoje. Uma ideologia que ficou sendo de Estado e é, sob todos os pontos de vista, deletéria e execrável. Precisa ser inteiramente desmascarada para que o Brasil avance como sociedade. Ponto.

Gilberto Freire já era e tem como justificativa de seus equívocos o fato de ter sido ‘um homem de seu tempo’. Continuar hoje em dia a defender os seus arcaicos pontos de vista sobre exclusão social e racismo, mesmo tentando reciclá-los  é que são elas e não é, de modo algum um comportamento intelectual digno de nossa pretensão à modernidade

Logo, o que Hermano Viana diz agora é um sofisma límpido, clássico. Afirma uma coisa mas, no fundo se quer dizer outra. ‘Conversa de cerca lourenço’ (‘mole‘, ‘fiada‘) como dizia meu tio com sua fina cultura da malandragem.

E nem precisamos estender muito a conversa: Como Caetano, Hermano também parece se desdizer, tentando escrever o errado por linhas certas. É fofo e só. Contudo e – na boa – acho elogiável o esforço intectual de rever – antes que seja tarde –  velhos conceitos superados pelos fatos. Será que admitir o óbvio doeu neles o mesmo que antes doía em nós, esperando que tão impolutas pessoas caíssem na real?

Sei lá. Talvez não passem muito de atos falhos?… Ou não.

Spirito Santo
Agosto de 2010

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~ por Spirito Santo em 10/08/2010.

5 Respostas to “Caetano fofo desfalou e contradisse”

  1. Valeu, Moreno!

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  2. São engraçados esses discursos neo-racistas. Invertem a parada dizendo que tocar na questão racial brasileira é que é racismo, pois raça não existe etc. etc. etc. É como dizia um certo professor da UFF, o Carlos Walter, raça não existe mas racismo sim. Ora, claro que raça não existe e que é uma invenção do pensamento europeu racista do século XIX, mas o que está em questão são os efeitos desse discurso raciológico, que ainda espraiam suas emanações sobre nós. Não há dúvida: Caetano é um neo-racista.
    Parabéns Spirito Santo pelo belo trabalho e pelo blog. Abraços!

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  3. Também cansei de cansar desse moço. Alás, o que deu notoriedade a Caetano, antes da fazer a música dele conhecida, foi um progama de perguntas e respostas na tevê, sabia tudo o cara, uma enciclopédia ambulante. Computador desligado e conhecimento acumulado pouco servem se restritos ao umbigo do indivíduo (é que Narcíso acha feio o que não é espelho), salvou-ou a difusão da melodiosa poesia dita e vez por outra cantada. Caetano sociólogo é um triste quase nada. Prefiro os mistérios de Clarisse, que se guardava firme… no coração.

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  4. Esse papo dele tá qualquer coisa e ele já pra lá de Marakesh…

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  5. Spírito, essa “neguinha” tá me cansando, um fenômeno medieval-colonial, como este é este cara só podia aparecer num pesadelo de Gilberto Freire ao ir à África com a licenca matrimonial de poder experimentar uma negra e brochar… Delírios de uma brancura no ocaso, e perdida em meio ao tezao mitológico dos negros escravizados, que nao podem pegar nem emprestado.

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