Cronica suja #02

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Últimos fragmentos de um incidente infelizmente verídico

(Leia parte 1 aqui)

Fragmento #02

Os Peões

Dia de arregimentar a peãozada. O pátio, a quadra e todos os espaços da associação de moradores, ficaram lotados. Uma galera descontraída; estranho ambiente para quem, como eu, previa um monte de semblantes carregados de ansiedade, agarrados àquela possibilidade sonhada de, enfim conseguir um emprego e segurar a barra pesada que atormentava a casa (a mulher grávida, com a perna inchada, deprimida, o menino mais velho vendo a panela vazia e pensando no assédio do pessoal do Zu, que vive insistindo para que ele ingresse logo na ‘endolação’ para ganhar algum dinheiro).

_” Vai ficar nessa, vai? Levando esta merda de vida que o teu ‘coroa’ tá levando? Sai dessa, mané?”

Zu circulou algumas vezes pela fila, poderoso; mais cumprimentado do que o engenheiro que avaliava os candidatos com um olhar meio desolado, pensando nas perguntas que faria nas entrevistas para aqueles pobres diabos. Não demoramos muito a perceber que aquela tranqüilidade toda tinha um motivo bem prosaico: A maioria dos candidatos era gente de Zu. Bandidos maiores de idade, parentes e agregados, gente do esquema. À boca pequena um dos funcionários da empresa, acabou me confessando que havia sido firmado um acordo entre Zu e ‘Alguém de direito’.

_” Tá legal. Autorizo a ‘parada’ da obra sim, mas, tem um porém: Quero prioridade para o meu pessoal, valeu?”_ Teria dito Zu, sacramentando o acordo.

Uma contrapartida justa. Difícil discordar, não admitir.

Carteira de trabalho assinada é um bem muito precioso para um bandido de morro; significa livre trânsito no asfalto, liberdade de ir e vir, poder passar por uma ‘dura’ da PM sem ser esculachado, sem tomar bolacha na cara, descer favela com o nariz em pé, cheio de moral.

_” Qual é, chefia? Num tá vendo que eu sou trabalhador?”

A desolação do fiscal da obra, tinha, enfim, bastante fundamento. O que esperar de um peão bandido, sonado, com a cara amarrotada, trincado de tanto cheirar cocaína? Um peão que passou a noite na ronda, tenso com a possibilidade de encarar uma invasão dos ‘alemão’ quer saber de mudinha de planta frutífera? Que enxada? Que ancinho? Que nada. As ferramentas dele são os ‘Bicos’, azeitados, pesados, cheios de balas.

Bendisse mil vezes, naquela hora, o fato de não ser engenheiro florestal. Já pensaram? Como fiscalizar o serviço de semelhantes trabalhadores? Como repreender um sujeito que todo fim de tarde você encontra com um fuzil enorme pendurado no ombro? E os faltosos recalcitrantes? Como demiti-los?

Pronto. A turma de trabalho havia sido escolhida a dedo. Eu já podia então cuidar das tais atividades de ‘Inserção da Cultura da Comunidade no Âmbito da Obra em Si’, do que me competia enfim. A pobre Mata atlântica que esperasse. Fazer o quê?

De tudo que pesquisei, rodando pelo morro, autorizado por Zu, o que se poderia chamar de cultura da comunidade se resumia aos bailes Funk (único lazer para os ‘soldados’ e suas ‘tchuchucas’) e as baladas bregas que rolavam toda noite na igrejinha evangélica em frente á associação, tocadas num violão rachado, pelo pastor que imitava roufenhamente o Odair José.

Do bloco de Carnaval que havia no morro (do qual eu pude ver os restos mortais, representados pelas peças da bateria furadas e enferrujadas), a única notícia que tive foi também a que Zu me deu: Os batuqueiros estavam todos ‘pedidos’, procurados pela polícia e o bloco não podia evoluir mais do que alguns metros em torno da quadra. Não tinha a menor graça e a estranha agremiação acabou. Ele ainda me instigou para que fizesse um projetinho para reparar as peças, com a ajuda da garotada do morro. Não me animei muito e a idéia murchou.

A esta altura, em minhas entrevistas, já havia ficado sabendo de muito mais do que o bom senso recomendaria. De certo modo, quase íntimo do bando, conhecia já quase todos os soldados de Zu, como Jorge Sumiço, por exemplo, que era sempre escalado para me escoltar em minhas andanças pela favela, subindo no topo do morro para ver como andava a obra, ou para panfletar a divulgação de algum evento cultural. Num dia desses, Jorge Sumiço, que parecia ter simpatizado com a minha velha mania de dar conselhos de graça, me perguntou, meio ressabiado:

_ ”Aí, tio… Tô com um problema aí, sabe? Posso falar?”

Poderia ser uma conversa banal, de mais jovem para mais velho, não fosse o fuzil trançado á bandoleira no ombro de Jorge, que a todo o momento trocava a arma de lado, sofrendo com o peso dela forçando as suas costas.

_” É que a mulher arranjou um emprego, de doméstica aí, tá ligado? Numa casa de madame lá de baixo e, vê só. Tô aqui agora sem poder, sabe? Tinha que tá lá e tô aqui, tá ligado? Nós tem um menininho, assim de uns três pra quatro meses e aí… sabe como é, tio?Tem mamadeira, ele caga pra caramba, essas coisas. Deixei ele lá com a vizinha mas tô aqui nos nervos, tá ligado?

Recomendei uma creche lá em baixo. Dar um tempo também, até que a creche da associação passasse a funcionar não era má idéia. O papo era surrealista e tive que esconder minha estranheza, olhando para a vista da cidade, lá em baixo.

Tinha outro, o Catarina. Louro, já meio coroa para os padrões do bando, com uns fios grisalhos aparecendo aqui e ali, “Catarina” era o braço direito de Zu. Mais velho que o chefe, ele era ao mesmo tempo, a figura mais falante e mais soturna do grupo. Falava até demais, às vezes. De repente, como que deprimido, não falava nada.

Contou que a filha, a quem há muito tempo não via, estudava para ser médica da Marinha. Ana Lúcia, a assistente social de nossa equipe, ‘descolada’ de Copacabana que era, achou “Catarinaum cara até que bem legal. Ficaram quase amigos, talvez ela se parecesse com a filha dele, imaginei.

A história mais estranha de “Catarina” foi a das toucas ninjas e das luvas pretas que ele encomendou de Ana Lúcia que, boa de tricô que era – além de sensibilizada com as noites de frio e sereno que ele passava na ronda – logo providenciou. Na sua simpatia por “Catarina”, Ana Lúcia nem achava muita graça quando Zu contava, rindo às gargalhadas, alguma mancada de “Catarina” em público, como aquela história da rajada de fuzil que assustara o morro todo, na madrugada anterior: Tinha sido por culpa do escorregão que “Catarina” levou, ao pisar, distraído, numa latinha de cerveja, com o dedo no gatilho.

Outra figura incrível era Tião Gordo. Eletricista nas horas vagas havia sido ele quem instalara as lâmpadas de mercúrio na subida do morro. Zu falava que ele era o cara mais covarde que ele conhecera em toda a sua vida. Estranha covardia por que Tião viva por ali, sempre perto de Zu, contando piada. O que Tião mais gostava de fazer na vida era de contar as aventuras – dos outros, é claro – entre elas os detalhes mais macabros ocorridos na cruenta batalha que decidiu a posse do morro pelo bando de Zu.

_ ”Teve um cara que recebeu uma estocada, com essas facas de matar porco, sabe? Assim, entre o ombro e o pescoço. Daquelas que entram fundo, sem chance. Desceu dali daquela escada até lá em baixo, na ânsia da morte, sabe?

_” Ânsia da morte?”_ Que diabo é isto, perguntei

_ ”O cara acha que a morte está vindo atrás dele, que ele vai poder escapar dela, correndo, mas, que nada. A morte já tá ali, junto dele, agarrada nele, até o fim…”

A faca de matar porco me lembrava o enorme chiqueiro que havia visto num barranco do morro, no passeio da véspera. A visão do cabo da faca no ombro do moribundo e o cheiro nauseabundo do chiqueiro, juntos, me traziam, não sei por que, a impressão de que havia alguma coisa a ver entre os porcos mortos (que eram esquartejados ali mesmo no morro, para serem vendidos em improvisados açougues), e o esquartejador de gente, profissional que algumas quadrilhas de favela, passaram a manter entre seus quadros, mais ou menos naquela época.

Os desafetos mortos, geralmente “chisnoves” (espiões infiltrados), desapareciam assim, acondicionados em sacos de estopa. Cabeça aqui, membros ali, tronco acolá. O horror! O horror!.

Fragmento #3

Cine Paratodos

Não queria, mas um dia tive que ficar na favela até perto do anoitecer, para ver o movimento cultural da área, mas, foi muito decepcionante. O pessoal que trabalhava subia apressado, vigiado pelo pessoal do Zu que, em sua maioria meninos ainda, ficava plantado na entrada da favela, batendo um futebol provisório, sem tirar os revólveres das mãos. O povo cumprimentava os bandidos com um respeito meio forçado e desaparecia, sumindo nos becos, se escondendo nos barracos lá no alto.

Não pude deixar de perceber os olhares de certo desprezo que alguns dos passantes dirigiam para mim. Se eu estava com o pessoal do Zu, ali, às vezes circulando com eles pra baixo e pra cima, com trânsito já liberado para passar pela rua da ‘boca’, para ver os meninos da ‘endolação’ descansando na calçada, com mãos enegrecidas da química que usavam no preparo da cocaína, quem seria eu senão mais um cara do esquema? Um policial corrupto, talvez.

Tomando cerveja, sendo apresentado aos birosqueiros, às costureiras, aos ‘vapozeiros’, às cozinheiras e aos entregadores de ‘quentinhas’, apresentado até ao sinistro irmão de Zu, dono da parte baixa do morro, que um dia, sem camisa e com uma pequena metralhadora Uzi pendurada no braço, me fuzilou com o olhar mais frio deste mundo, recusando o copo de cerveja que o irmão lhe ofereceu e seguindo em frente, como se eu, Zu e os outros caras, não existíssemos. Quem seria eu afinal?

Sonhava poder dizer a eles um dia, que aquele era apenas o meu trabalho.

_ ”Trabalho antropológico!” _ diria cheio de orgulho e coragem.

_” Antropologia de botequim! Corajoso mesmo não anda com covardes” _ poderiam me dizer, com desdém, se pudessem.

Zu também se ressentia muito por não ver reconhecido o seu esforço em prol da evolução da comunidade. O empenho era mais de Ném, mas, ele, ao que parecia, apoiava honestamente. Claro que tudo vinha de um senso político assim, meio empírico, intuitivo. Clientelismo puro, canhestro; camuflado de campanha para ser visto como um bem feitor da comunidade. Chegara mesmo um dia, a confessar um remoto desejo de se tornar vereador do morro. Zu passava, portanto, à sua maneira, a impressão de que seu esforço era esperto, porém, honesto.

O bando, visivelmente não apoiava essas veleidades de Zu. “Viadagem!”, talvez pensassem alguns, sem coragem de falar às claras. Muitas vezes ele nos defendeu, a mim e a Ana Lúcia, de algum bandido mais abusado que ousara questionar a liberdade que tínhamos de subir até à plantação de mudas.

Sempre mantive esta suposta honestidade ‘socialista’ de Zu na conta, apenas, de uma remota probabilidade. Foi por isto que fiquei bastante surpreso, no dia de uma das visitas, com a evolução das obras da creche, quase a ponto de inaugurar. Estavam lá os vasinhos sanitários, as cadeirinhas coloridas, as salas pintadas. Ném havia realmente fechado o convênio com a Ong alemã.

O repasse do dinheiro chegava e era Zu quem ia, pessoalmente, pega-lo com o padre italiano. Até hoje, na verdade, não entendi muito bem, a lógica por trás daquela atitude de um bandido tão vulgar, comum, como era o Zu. Seria alguma sutil contradição oculta no caráter dele? Ou seria minha a contradição?

Nada de teatro. Música, aquela temeridade brega-funk. A única atividade cultural que achei potencialmente instigante, para sacudir um pouco a mesmice cultural daquela favela, foi o cinema (uma idéia não menos estúpida que as anteriores, pude descobrir logo depois). O mais incrível é que Zu, quando toquei cuidadosamente no assunto, pescou uma outra e surpreendente idéia, no ar:

_” Aí, ó…Se tu quiser a gente pode até fazer um filme aqui, sabia? O pessoal fala algumas verdades da ‘boca’, umas coisas da nossa realidade, mostra as armas. Só não pode mostrar a cara do pessoal. A gente bota touca. E aí? O que é que tu acha?”

Seria inacreditável uma proposta destas depois da tragédia de Tim Lopes mas foi exatamente isto que Zu, por pura vaidade, talvez, me propôs naquele dia. Fiquei empolgado no momento, mas, o bom senso, graças ao bom Deus, prevaleceu.

Podia ser por conta da confiança que eu havia obtido dele, com aquela minha ‘conversinha’ de antropólogo de botequim. Mas podia também ser um teste, para mim. Sei lá por que, de vez em quando, ele me chamava mesmo de ‘conversinha’, palavra que, para qualquer bom entendedor, não tinha nada a ver com elogio. Significava ‘Conversa Fiada’, ‘Cascateiro’, gírias famosas neste meio para designar gente que fala demais e é indigna de confiança.

A primeira vez que ouvi isto dele, confesso que gelei.

O fato é que, mesmo gelado de medo, a ideia de fazer alguma coisa com cinema evoluiu. Do pátio da associação, olhando para cima, se descortinava uma enorme massa de barracos, circundando tudo. A idéia que me veio naquele começo de noite foi simples. Um telão de pano estendido num ponto visível dos barracos de cima, poderia formar um grande cinema a céu aberto.

Um contato com um programa de cinema comunitário do Sesc vingou e conseguimos um projetor 16 mm e um projecionista. O problema era o programa. Não havia muitos filmes disponíveis nesta bitola. Entre os títulos disponíveis, optei por dois: Compasso de Espera, de Antunes Filho, com o Zózimo Bulbul, sobre as atribulada vida de um ‘negro de alma branca’ e o documentário de Benjamim Abrahão ‘Lampeão’, no qual se pode acompanhar fragmentos da pitoresca vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, Maria Bonita, seus Cabras e suas armas (entre as quais os fuzis Parabellun e a charmosa pistola Lugger de Lampião). No fim do filme, as cabeças dos cangaceiros, apareciam cortadas, expostas como mercadorias de feira.

A projeção do filme aconteceu depois de um evento de Educação Ambiental, no qual foram plantadas pela comunidade várias mudas de árvores típicas da Mata Atlântica. Neste dia a alta cúpula do reflorestamento compareceu, em peso. Zu mandou que os soldados escondessem as ‘ferramentas’ (os fuzis). Sua determinação era a de que as armas não poderiam ser vistas, de forma acintosa, quando autoridades estivessem presentes.

Uma forma de respeito meio hipócrita na verdade, porque as tais autoridades, não só sabiam, muito bem, onde as armas estavam guardadas, como circulavam tranquilamente pela favela, ao lado de Zu. Em pelo menos uma oportunidade, percebi, por uma rápida esfregada no nariz e um sorriso maquiavélico, que pelo menos uma das mais importantes autoridades presentes, havia compartilhado com Zu uma generosa carreira de pó, sem a menor cerimônia.

Fingi que não vi.

No fim do tour pela área do reflorestamento, já no sopé do morro, a comitiva ficou perfilada num barranco, olhando com curiosidade para uma guarita da PM, na qual dois constrangidos soldados, disfarçavam o incômodo espetáculo que representavam, fingindo olhar para o outro lado da rua. Zu não perdeu a piada:

_” Alá! Tão vendo? São tudo uns ‘Cú-de-Galinha’. Não sabem meu nome verdadeiro mas ‘tão sabendo quem sou eu. É que nós tem ‘Acordo’ com os que ‘tão acima deles, mermão! O bagulho é doido mas o negócio é direito. Não tem bandido. Não tem polícia. O que tem é ‘Acordo’, mermão. Acordo, morou?”

No dia acertado, a projeção do filme aconteceu sem problemas. Encaramos o medo do tiroteio que rolou na parte baixa, a cheiração de cocaína comendo solta no caminho das biroscas, esperando a noite escurecer; encaramos tudo sem fraquejar e projetamos os filmes até o fim.

Zu assistiu tudo, sentado numa cadeira ao lado da minha, enchendo o chão com as cervejas que um menino ia, de vez em quando, buscar na birosca. O povo dos barracos lá em cima, meio ressabiado, também assistiu a tudo, com surpreendente atenção. Acho que naquela noite ninguém viu a novela da TV.

Zu achou bonita a Lugger do Lampião, mas, não deu a mínima atenção para as cabeças cortadas por que, distraído, passara a se importar mais com o plano que surgira na sua cabeça ali, de estalo, naquele mesmo momento. Aquela ideia intempestiva de Zu acabou por selar, de vez, o futuro da obra na favela: Seqüestrar o carro do governo.

_” Aí, mermão… me empresta o carro um tempo aí. Vou e volto.”

Tremi na base, mas, relutei, com firmeza na voz:

_” Você vai desculpar Zu, mas, não dá mesmo. Além do mais o responsável pelo carro não sou eu, é o motorista.”

Não convenci. Zu tirou da cintura as duas pistolas automáticas e deu para uma mulher, sua cunhada, que já estava ao seu lado.

_” Olha só. Vou humilde. Vou desarmado! Não tem nenhum problema. Pô?! É só uma carona, mermão!”

O motorista me olhou em pânico. Querendo que eu o livrasse da situação. E quem haveria de me livrar ?

Não havia mais o que fazer, até porque nem dava mais tempo. Quando nos demos conta, Zu já estava no carro. A mulher, enfiando as duas armas na própria cintura, também já entrara e o carro partiu, velozmente, sutilmente, sequestrado.

Tememos pelo pior. O projecionista, eu, a engenheira florestal, o projetor do Sesc, sequestrados, retidos no morro. Cercados pela bandidagem nervosa, esperamos. O tiroteio recomeçou na parte baixa, mais forte. Fria, geladeira total.

Cerca de duas horas depois, para o nosso alívio, o carro voltou:

_” Não falei que não tinha problema?” – Disse Zu, vitorioso.

Nos despedimos da bandidagem, friamente, e partimos de imediato. O motorista mudo por alguns minutos, por fim, gaguejou:

_” Tô fora, gente! Não levem a mal não, mas, amanhã mesmo entrego a demissão. Podia ter morrido hoje. Não vou esperar a próxima não. Tô fora!” _ E contou a sua aventura:

Zu o forçara a ir até Niterói, município vizinho. Chegando lá mandou o carro estacionar na esquina de um presídio. Seguiu em frente por uma rua escura, onde se encontrou com alguém, que saiu pelo grande portão principal. Trocaram palavras, pacotes, armas, drogas, sabem-se lá o que. Não dava pra ver nada naquela escuridão. Daí Zu voltou, tranquilo, realizado. A mulher tinha ficado no carro, armada, calada. Não dava nem para pensar em fugir.

Depois da narrativa do motorista me calei de vez. Ali mesmo, no caminho, sem precisar pensar muito, decidi me demitir também.

O risco, de calculado ficara imprevisível. _“Bagulho doido!” _ pensei, usando a nova gíria que aprendera. Aquela estranha confiança estabelecida entre eu e Zu não queria dizer muita coisa (nada de bom, pelo menos). Não haveria chance alguma de articular cultura nenhuma, trabalho comunitário algum, que não fosse do interesse de Zu.

Cúmplices, todos nós, de um contexto social caótico demais para a nossa capacidade de compreensão, me preocupava também, um dado instigante: Os interesses das tais autoridades, também não estavam claros. Será que estariam mesmo interessadas no futuro da Mata Atlântica? Que outros misteriosos interesses poderiam estar por trás de nós, de Zu, de Ném e de toda aquela jovem bandidagem sem futuro?

_ ”Tô fora!” – Comuniquei ao diretor, no dia seguinte.

Quinze dias depois, já livre daquele peso terrível, daquele frio na barriga, associado ao medo e à sensação de morte eminente. Voltei para a minha doce rotina das viagens para o interior do estado e, enfim relaxei. Ou quase.

Enquanto aguardava, tranquilamente, a hora do ônibus estacionar, refestelado num banco da rodoviária, abri o jornal e gelei, pela última vez : Num canto da página do jornal uma pequena notícia dizia:

“ASSASSINADO O LÍDER COMUNITÁRIO!”.
O corpo do líder comunitário do Morro dos Prazeres José Antônio da Silva, foi encontrado ontem, carbonizado no alto do Sumaré… ”

O corpo de Zu havia sido encontrado caído numa ribanceira, dentro de um táxi. O corpo do motorista também. O pobre do taxista estava lá, morto como queima de arquivo. Caso típico do sujeito que (como eu estivera) estava ali, na hora errada, no lugar errado, na missão errada. Segundo a notícia, Zu havia ido ao encontro do padre italiano recolher o dinheiro da doação da tal Ong alemã, do convênio da creche. Pela teor da nota, a imprensa não sabia que o homem morto era Zu, o chefe do tráfico local. Bandido benemérito? Sinal trocado. Tudo errado.

Na manhã seguinte á morte dele, o Morro foi retomado pelo Comando Vermelho, antes mesmo da notícia de sua morte chegar às bancas de jornais. A maioria dos soldados de Zu foi pega, num ataque de surpresa, muito mal explicado. Foram todos barbaramente assassinados ali mesmo. Pelo que supus e pelo que descreveram os jornais, morreram todos aqueles com os quais eu convivi, inclusive Ném, a militante negra de trancinhas afro.

Outro dia, muitos anos depois daqueles incidentes eu subi, meio que por engano no Morro dos Prazeres e revi o velho casarão, agora todo restaurado. Me disseram, que ali agora funciona uma importante Ong. Com frio na espinha procurei sair o mais rapidamente possível daquele lugar.

O Brasil está ficando uma terra cada vez mais estranha. A crônica dela é suja.

Spírito Santo

Abril de 2007

(Matéria originalmente publicada em www.http://overmundo.com.br. Leia parte 1 aqui)

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~ por Spirito Santo em 29/08/2010.

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