Brasil 2011: O melhor- ou o pior – dos mundos


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Brasil 2011 o melhor – ou o pior – dos mundos

Dois passinho para frente ou dois passinhos para trás?

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Ok. Vocês venceram

Tentei, me esforcei, mas uma banca dos mais doutos e sábios governistas me reprovou sumariamente. Até que reconheceram em mim alguns poucos valores intelectuais insuspeitados – e até exagerados – para o esforçado velho leigo assumido que sou.

_” Comentarista político, não!”_ Chegou a dizer um deles, quase aos berros, ululando a língua vermelha virtual, feito uma bandeira esfarrapada.

Uns mais francos e enfáticos – ou maldosos e ferinos sei lá – chegaram mesmo a ordenar peremptoriamente que eu me calasse. Duvidando de minhas fontes, para eles meras conjecturas extraídas de ensebadas orelhas de livros do século passado (ou de miseráveis links do Google, tanto faz) mandaram-me ler Guiddens, Foucault e outras sumidades. Julgavam assim, pelo menos ao que davam a transparecer, que estavam me prestando inestimável favor, afim de que eu pudesse – pelo menos isto! – alcançar as pontas mais acessíveis e inferiores de sua auto afirmada sapiência.

Bem, daí pensei nos meus palpos de aranha: É. Preciso de ajuda profissional.

A solução até que foi simples: Contratei um ‘personal’. É. Não um personal ‘stylist’ já que o meu estilo eles, os meus detratores, confessadamente até admiram. Falo de um ‘personal writer’ mesmo, sabem como é? Um sábio isento e idôneo professor e filósofo (como eles gostam que sejam os seus interlocutores) um renomado sabichão, de quem a partir de agora, sempre que o tema for política, serei apenas um mero e humilde porta voz.

Combinado assim?

É por estas e outras que tenho o prazer de apresentar a vocês o Dr. Pythako Täpate da Silva (e não deixem de ler, por favor, o insigne currículo dele aqui neste ou no link logo abaixo).

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Brasil 2011 – O melhor -ou o pior – dos mundos

Por Pythako Täpate da Silva (De Chinatooga Fields-USA)

(Provocando o debate, Dr Pythako começa logo chutando o balde):

_”Os piores sinais dos últimos prognósticos para o Brasil de 2011 são duas coisitas líquidas e certas”_

1- Nós todos – até os opositores como o meu cliente – ainda vamos sentir saudades compungidas do Lulinha Paz e Amor, a simpática figura que elegemos em 2002.

2- Tudo indica que o Brasil administrado pela gerentona Dilma Roussef, vai se tornar um lugar irritantemente chato, insuportável de se aturar.

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Ao que alguém da assistencia, revoltado e apoplético, sei lá se com toda razão incrédulo, duvida:

“Especulações do profeta especulador. E qual a probabilidade de acontecer justamente o contrario?

 

(E o Dr.Pythako solta uma sonora gargalhada neste momento e conta:)

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2011: melhor dos mundos:

Dr. Pythaco responde:

Quer mesmo saber?

 

Dilma Roussef (magrinha feito uma Bünchen e sempre de bom humor) e um Zé Dirceu simpaticão, numa ensolarada conferencia de imprensa nos jardins do palácio (bancada e convocada pelo governo) informam ao final, que tudo que se disse sobre controle da imprensa era calúnia, pura cascata da ‘mídia golpista’ para atrapalhar a consagração do governo Lula.

Desacreditada pela população e superada pela Rede Record do Bispo Macedo (que declara ter reassumido a sua condição anterior de umbandista e candomblecista) A TV Globo vai à falência e seu elenco de novelas se muda de mala e cuia para a TV Record e o SBT. Um prêmio à charge mais engraçada e crítica da presidente (a) Dilma é instituído e é entregue num jantar solene no Palacio do Planalto, transmitido direto e ao vivo com a apresentação a cargo do CQC que já havia cedido Marcelo Tás para ser o porta Voz da Presidência da República.

O Brasil dá um ‘gelo’ mortal em Hugo Chávez que insinuou que Lula era seu pupilo, e, na seqüência, rompe com o Irã depois do Ahmadinejad, em solidariedade a Chávez, xingar o Lula de sórdido traidor da Democracia dos Povos.

Estas e outras sensacionais notícias sobre o incremento formidável da democracia no Brasil são vistas por todos nós na internet de banda larga, que passou a ser inteiramente gratuita em todos os recantos do país por iniciativa do governo.

 

O Pré Sal bomba e o Brasil vira o maior produtor de petróleo como nenhum outro dantes na história do universo. A economia européia decai mais ainda, a dos EUA também. Barack Obama pede empréstimo a Brasil, que nega, só de pirraça.

 

Com a estupenda expansão do PAC e o aumento formidável dos índices de arrecadação de contribuições, o INSS universaliza as aposentadorias e o Bolsa Família vira direito de todos os brasileiros, indiscriminadamente, sendo reajustado para 80%do salário mínimo (que atingiu os U$ 100,00).

A despeito da gritaria da ‘direita raivosa’ (José Serra e FHC) que diz que a idéia foi dela, a saúde pública também se universaliza no Brasil. Um programa de médicos de família, de âmbito nacional é exemplo mundial.

 

O programa de Educação Pública sonhado e experimentado por Anísio Teixeira em Brasília, é implantado em todo o país, zerando o analfabetismo e fazendo a taxa de universitários no Brasil chegar a impensável índice de 80% dos jovens que concluiram o segundo grau.

 

A Reforma Agrária é decretada e o Brasil não tem mais terras improdutivas. Cooperativas de agricultores são criadas em todo o país. o MST totalmente inútil no contetxo de nossa democracia fundiária, vira um clube de bingo de velhinhos que usam as bandeiras vermelhas para forrar as mesas.

A Erenice assume que havia sido chantageada (só não diz o motivo) pelo insidioso DEM, partido que foi extirpado da vida pública. Ela afirma que os canalhas do partido direitista a obrigaram a montar aqueles dossiês mentirosos todos e até a roubar e extorquir por meio de lobbies para financiar a campanha de Serra e que, na verdade, todos os escândalos que a Polícia Federal pensava que eram culpa do PT, na verdade eram fruto de uma trama sórdida e diabólica do FHC, do Serra e do PSDB, para incriminar o governo Lula e se apossar do poder, afim de privatizar todo o país.

 

O PMBD é desmascarado como aliado secreto de FHC e Temer renuncia. Sarney morre de choque anafilático (ferroado por marimbondos de fogo) e Marina Silva vira amiga íntima da Dilma, assumindo o Ministério do Meio Ambiente e decretando desmatamento zero.

Em Alagoas, uma testemunha bomba aparece confessando que PC Farias foi morto pelos próprios irmãos, a mando de Collor, como queima de arquivo. Badan Palhares, o legista do caso PC farias, é sequestrado pelo Mossad e confessa sobre tortura (negada veementemente pelo governo de Israel) que o esqueleto que periciou não era o de Mengele, que continua vivo em algum lugar do planeta.

 

O filme ‘Lula, o filho do Brasil’ ganha o Oscar. Numa série de cursos supletivos, que culminam com uma faculdade de Ciências Políticas por meio de um curso à distancia, Lula se diploma, sendo a sua formatura paraninfada por Chico Buarque de Hollanda que, quebrando o protocolo canta aquela sua música ‘Vai Passar’.

Lula ganha o Nobel de Economia e é eleito Secretario Geral da ONU.

 

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Ninguem na assistencia protesta, os aplausos de admiração pela sapiencia de Pythako são gerais e ensurdecedores. Pythako, um cínico por excelencia estranha. mesmo se arriscando á levar pedradas revoltadas na cabeça decide contrariar a turba e fazer então o uso saudável do que ele chama de o ‘contraditório’:

Dr. Pythaco provoca:

“_ Sinto muito amigos, mas já pensaram se acontecer – porque não? – exatamente o contrário?

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2011: o pior dos mundos:

 

Dilma Roussef – de mau humor – o botox vencido, junto com o Zé Dirceu – de mau humor também- despachando no Planalto à portas fechadas, querem porque querem calar a CNBB e a ABI, duas instituições que protestam contra as ameaças de restrições à liberdade de opinião no país. Na ante sala, Anthony Garotinho e Benedita da Silva, assessores do Bispo Crivela, Ministro de Assuntos Religiosos, oram, torcendo pelo pior (que seria o melhor para eles): pressões contra a hegemonia do catolicismo no Brasil.

 

Já pensou?

 

Dilma e Dirceu, dias depois, convocando rede nacional de rádio e TV para botar o dedo na nossa cara e informar que, depois de uma série de conferências protagonizadas por integrantes do Movimento Social organizado (?), um conselho federal de ‘controle de mídia’ foi implantado, por decreto, com a função de ‘democratizar’ o acesso aos veículos de comunicação de massa e a imprensa em geral.

 

Por meio do Jornal ‘A Voz do Brasil’, principal veículo do Ministério das Mídias e das Comunicações (cujo titular é o jornalista Franklin Martins) e da Rede de TV ‘Estrela vermelha” (cujo titular é o jornalista Luiz Nassif), o governo passa a encher o saco da imprensa comercial, principalmente dos colunistas, cartunistas da chamada mídia golpista.

 

 

Com orçamento reduzido à 0,13% o Ministério da Cultura passa a se chamar Ministério da Propaganda e da Cultura (apelidado pelos intelectuais que antes apoiavam Lula de ‘Ministério do Amor’). Ciro Gomes é indicado por Dilma como ministro desta pasta (mas quem manda mesmo nela é o Zé Dirceu).

 

Grupos de hackers denominados ‘Agentes populares da Mídia Livre’, a serviço do PT e bancados pelo MinPC/PT invadem redes sociais de oposição, blogs e sites independentes na internet com mensagens apócrifas e denúncias cabeludas contra FHCe a oposição à esquerda e à direita, tanto faz.

 

Com a internet vigiada, a justiça brasileira é inundada por ações de interdição de conteúdo por parte do governo e instituições governamentais e não governamentais ligadas ao MinPC/PT, obrigando a população a, entre outras coisas, acreditar que o Chávez e o Ahmadinejad são os guardiões da democracia dos povos, os Estados Unidos e Barack Obama são as bestas feras do imperialismo assassino e que toda a mídia comercial é burguesa, caluniadora e corrupta.

 

Já pensou?

 

O Pré Sal encrua. A grana preta a ser investida nas pesquisas fica embargada pelo congresso porque a oposição, atravancando todas as votações, encasquetou no inaceitável – porque astronômico – custo da prospecção (o ‘bilhete premiado’ era ‘conto do vigário’).

Enquanto isto o preço do petróleo vai caindo, caindo junto com o dólar que despenca a 0,50 cents, elevando o Real á um valor explosivo. A crise da Europa chega sorrateiramente até aqui (e não me perguntem como nem por que. Sou filósofo e não economista)

 

Com o PAC – desculpe o velho e infame trocadilho – empacado, as ações da Petrobras dão chabus constantes na Bolsa de Valores. Lula da Silva, nomeado por Dilma presidente da empresa embora tenha zero de experiência em gestão empresarial, briga e rompe relações com Gabrieli (que na verdade era quem dirigia a empresa como eminência parda) e mete os pés pelas mãos levando a empresa á beira da bancarrota.

 

Com a crise econômica e a derrocada de empresas estatais como a Petrobras, os recursos da renúncia fiscal disponíveis para financiar cultura desabam e o meio artístico e cultural bancado por estes recursos a fundo perdido, entra em profunda depressão.

 

Lá para as tantas, a pobre da Erenice, largada na chuva logo após a eleição, rejeitada feito uma leprosa, sem ter de onde tirar o ‘leite das crianças’, é assediada por solertes enviados do PSDB. Pressionada por muita grana, ela decide confessar que Dilma, Dirceu e Lula sabiam sim de tudo que acontecia na Casa Civil e que ela era apenas a testa de ferro do esquema.

 

A família de Celso Daniel volta ao Brasil e pede para ser encaixada no programa de proteção ás testemunhas. Porque, não me perguntem que não sei.

 

Querem mais?

 

No auge da crise financeira mundial agravada, com o desemprego no país estourando no teto, o Bolsa família esgota a sua capacidade de bancar a alimentação dos muitos milhões de famílias que precisa atender e começa a ter que ser descontinuado, por causa da inflação que cresce em taxas inversamente proporcionais às taxas chinesas.

 

Uma bomba relógio social é armada. O dia em que ela explodirá é imprevisível, mas não tardará.

 

Pressionados pela crise econômica que assola todo o mundo (menos a China e a Índia) Chávez, Lula, Evo, Ortega, Piñera, Castro, Cristina, Correa e Lula…quer dizer, Dilma, montam o Bloco dos 9 (ou dez, ou onze) e se aliam à Ahmadinejad para tumultuar e chantagear o mundo com ameaças veladas. Neste conturbado contexto, Brasil e Venezuela assumem que também têm o direito de almejar a bomba atômica.

 

Contando com a vista grossa do bloco dos 9, distraídos com seu proselitismo político de finalidades populistas (única chance de se manter no poder e esconder os efeitos do desemprego galopante que grassa no continente), As Farcs, arrebanham muitos militantes, avançando pelas fronteiras da Venezuela e do Brasil a dentro.

Por debaixo dos panos, Brasil e Venezuela acabam se associando á Bolívia no mercado cocaleiro, que se rendeu totalmente á produção de drogas destiladas da folha. As plantações clandestinas de coca avançam por áreas antes intocadas da Amazônia e daí para refinarias de cocaína instaladas nas margens dos principais rios da região..

 

A ONU, diante e protestos e pressões dos EUA e países da Europa, preocupadas com a insuportável instabilidade social da região, estuda o envio de ‘capacetes azuis’ para a área ocupada pelas Farcs.

 

Mandato de Dilma acaba, melancolicamente.

Lula, de óculos escuros, bermudão ‘cargo’ e uma cigarrilha cubana na mão, dá uma entrevista para a imprensa internacional, assumindo sorridente que jamais pensou em se recandidatar á presidência da República.

 

_” A minha missão eu já cumpri! Cada cachorro que lamba a sua caceta!”_ Diz ele grosso, eufórico e intraduzível, encerrando a entrevista com uma gargalhada rouca.

 

Querem mais?

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Ao que o leitor Will Teofilo , morador de New York protesta:

Pô! Vc ta trucidando minha vontade de voltar a morar no Brasil, de chegar, colocar e cantar aquela musica do Roberto Carlos “o Portão”…

Mas Dr.Pythako não se faz de rogado e consola o moço, não se sabe se se desdidizendo ou afirmando algo do que já desdisse, sim como não ou muito pelo contrário:

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De resto:

A Academia de Letras de Londres declara que o Tesouro da literatura oral universal denominado histórias da Carochinha‘, oriundas da Europa, mas desenvolvidas por velhas índias da tribo dos Kamaiurás, aqui do Brasil, são, na verdade, histórias muito mais do que reais.

 

Na mesma onda ou hora da verdade, Papai Noel em entrevista exclusiva à CNN assume que existe sim, nasceu no Brasil (em Santa Catarina), mas decide confessar, contrito: Os presentes que distribui nunca foram fabricados na Lapônia. Na verdade eles são mesmo…made em China

 

(e nesta hora o bom velhinho, muito ético e moralista que é, ruboriza as velhas bochechas)

 

Como nunca antes na história deste país, o Brasil é alçado a maior potência do planeta, confirmando a máxima do neuro cientista Miguel Nicolelis que disse em 2009: “O primeiro mundo é aqui!”.

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Querem mais? Ufa! Chega, né? Mentir para tanta gente cansa demais. Não sei como ‘eles’ (e vocês) aguentam.

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Em Outubro 2010, eu Spírito Santo que subescrevi, pela ditada inteligência e sapiencia de (veja currículum aqui) Pythako Täpate da Silva, meu mestre.

Mal D’África – Angola 1967


Rio-Angola: A ‘pacificação’ armada

Uma analogia impertinente

Eu sei que é altamente inconveniente. No momento as pessoas estão empolgadas com a paz que reina nos bairros da Zona Sul e Norte do Rio, cercados por favelas infestadas de gente e problemas sociais escabrosos.

Anos de violência urbana fermentada nestas favelas, parecem ter sido superados por meio de uma estratégia muito bem planejada e posta em prática pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, de maneira altamente eficiente, quase mágica: As Unidades de Polícia Pacificadora, as festejadas UPPs.

Permita-me, contudo não ser tão otimista ainda, pelo menos por enquanto.

Se você é um chato intransigente, do contra e meio estraga prazeres, faça como eu: Experimente analisar a questão através de uma analogia sarcástica entre dois modelos de ‘pacificação‘ de comunidades.

Este aí em baixo foi o utilizado pelo exército portugues para subjugar os rebeldes no início da guerra revolucionária anticolonialista na então colônia africana de Angola.

Guardadas as devidas proporções (as razões de ser da violencia armada) as semelhanças entre este modelo e o utilizado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro com as UPPs são até bem curiosas. Inquietantes até para um cara exagerado feito eu.

Lá havia um povo inteiro espoliado pelo colonialismo, tentando se libertar por meio das armas, numa luta com fundas raízes na história africana, remontando já mais de trezentos anos. Aqui, uma maioria de pobres – e vejam que pitoresco – descendentes daquele mesmo povo angolano, excluídos ainda hoje de tudo, tentando sobreviver à custa de vários expedientes deseperados, entre os quais, uns poucos optaram por fazê-lo por meios violentos, portando armas pesadas na defesa de cidadelas largadas no mundo, cuja economia é oxigenada ou se se baseia – quase que inteiramente – no comércio de drogas e outras atividades ilícitas.

No filme sobre a guerra de Angola, é bastante pungente a imagem das ‘forças’ rebeldes subjugadas, esfarrapadas, integradas por velhos e crianças, a está época (início dos combates), exatamente como os traficantes do Rio de Janeiro, não passando muito de pequenos bandos armados.

Pode ser impertinencia da minha parte, mas as imagens mostrando o comportamento ordeiro e submisso de pessoas que parecem ser aqueles mesmos rebeldes antes aprisonados, agora vestidos como brancos e aparentemente felizes em um campo de concentração colonial é incrivelmente parecida com as imagens da atual propaganda governamental que a gente vê na TV, mostrando as quiçá felizes comunidades ‘pacificadas‘ pelas UPPs do Rio de Janeiro.

Existem muitas outras diferenças nos dois eventos, claro. A principal delas, aliás, é bastante sutil:

Portugal perdeu a guerra.

O documentário italiano – também, como se vê uma peça de propaganda (colonialista) – se chama ‘Mal d’ Africa’. Ele foi realizado por Stanislau Nievo em 1967 em Angola, logo após iniciada a insurgência das frentes guerilheiras UPA e MPLA, vitoriosas ao termo da guerra, em 1975.

Para os os quase angolanos daqui a luta, quase infinda, continua. A vitória, contudo é certa.

Veja este emblemático e impressionante documentário (em duas partes) logo abaixo:

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Multipicai as UPPs e livrai-nos do mal, amém


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ôpa! Aqui vai uma ressalva de última hora:

(Adendo muito previsível a um velho post (leia no link) deste vosso criado, o qual  quisera eu, sinceramente  pudesse ser negado, desmentido,  revisto, rasgado como impertinentee deletado de nossas pobres almas cúmplices).

Tem jeito não.  Ao relento, na pista, na chuva, o que fazer para não se molhar?

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“Barracão de zinco sem telhado,
sem pintura lá no morro, barracão é bangalô…”

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Com esta nova onda de UPPs tem uma galera aí, ensandecida,  me propondo a correção daquelas minhas, quiçá exageradas e alarmistas previsões sobre o enfavelamento progressivo da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

_ “Favela não é problema. A favela é solução!”

Já ouvi esta frase por aí, várias vezes da boca de algumas polianas amigas, protegidas atrás de um ‘caveirão’ qualquer. Temiam apenas as balas perdidas e os tiroteios que enfeiavam favelas, potencialmente fashions, ‘turísticas’? E o resto do que as favelas são?

_” O resto é o resto! Vai no passo a passo, num processo de pacificação que se iniciou.”

Dizem as polianas, como hárpias. Dá vontade de exportá-las’ para o Afeganistão incandescente que são as favelas do Jacarezinho, da Vila Cruzeiro, da Zona Oeste da cidade, só  para elas verem o que é guerra a ser pacificada. Choque cultural, é do que precisam.

Mas não. Acham meigo e singelo, haver turismo cultural em favela. Circuito ‘Miséria light’? Meu Deus do céu!

Corra! Corra! (dirá o anúncio) Espaço vip! Almoço pitoresco na laje da pensão da Tia Filó, com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, ao fundo!

_” Cara! Parece a Grécia, ô meu!”_ Dirá o turista paulista, eufórico.

Quando eu vi aqueles jeeps de safari na África circulando pela zona sul do Rio, vindo ou indo para a favela do Vidigal, algo assim, sei lá,  logo pensei:

_” Ih!! Vem mais escrotidão da grossa por aí”

E vieram as UPPs.

‘Bota Abaixo 2, a missão

Quisera eu, sinceramente estar errado, mas sabe o que eu acho? As UPPs me parecem um aperfeiçoamento daquele ‘Bota abaixo’ de 1904 um apartheid de tipo novo, agora insípido e inodoro, asséptico, revisto e aumentado.

Sabem da história? (se não leu ainda leia agora neste link)  Pereira Passos, o prefeito da época, depois de uma foribunda campanha da elite ‘esperta, ‘smart’ do Rio da Belle Èpoque (início do século 19) clamava em seus discursos que a cidade devia ‘civilizar-se’.

O centro do Rio era uma ‘muvuca’ enorme. O povo, por pura necessidade como sempre, habitava um amontoado caótico de casas e barracos precários (‘cabeças de porco’, dizia-se) no que é hoje o centro comercial e financeiro da cidade.

O quadro de explosão populacional no local, cujo perímetro era limitado, exatamente por este trecho compreendido entre as ruas Direita (Primeiro de Março) e Mata Cavalos (Riachuelo), a Rua Larga (Mal Floriano) e o Campo da Aclamação (Campo de Santana), era previsível desde os tempos da Corte, onde por razões óbvias, todo mundo queria estar ou morar, desde negros de ganho, escravos fugidos das fazendas de café, negros livres até comerciantes, vendedores de tudo, marinheiros, funcionários públicos e todo tipo de gente.

A imagem mais parecida com o que seria aquilo hoje em dia, como referencia, poderia ser a de uma grande cidade destas da Índia atual, a parte mais pobre de Mumbai, algo assim.

Logo, ‘civilizar-se’ poderia ser a criação de um plano diretor, com um projeto habitacional decente, expandindo a cidade para um perímetro mais extenso, mas não. Havia um mangue enorme, entre onde hoje é o Campo de Santana e a Praça da Bandeira atual com o mar no outro extremo. No entorno uma cadeia de morros, alguns já tomados por quilombos, tudo isto tornando o custo de obras de expansão da cidade muito maior do que os eventuais bons interesses das autoridades. A solução ao que parece nem foi cogitada. Decidiram simplesmente então, expulsar os habitantes do centro dali, porta afora. Tacaram fogo e demoliram tudo, sem mais conversa.

Vale repetir:

“…De uma hora para outra, a antiga cidade desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro. Havia mesmo na cousa muito de cenografia”.
(Lima Barreto em As Bruzudangas , 1923)

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…”Lá não existe felicidade de arranha-céus
Pois quem mora lá no morro
já vive pertinho do céu…”

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Nasceram assim as nossas favelas urbanas e toda a nossa infecta periferia. Um problema empurrado com a barriga gorda de nossa elite da época que se estende até hoje, multiplicado por mil.

(Agora já dá para você ter uma idéia mais clara do que eles estão fazendo hoje, não dá não? )

Empurrando as pessoas para mais longe um pouquinho, para a periferia da periferia, é o que eles estão fazendo. Começaram tirando a economia ‘invisível’ e estrutural das favelas (o dinheiro do tráfico de drogas e outras clandestinas ‘táboas de salvação’) economia esta administrada, gerida pela maluca bandidagem, a partir dos rios de grana que recebe de sua rica clientela: a classe média ‘fashion’ da zona sul.

Expulso o traficante, a única economia resultante será qual? Dá para saber? Eu aposto que, a princípio,  será a especulação imobiliária, as pessoas vendendo suas casinhas e se mudando para longe dali, para outra freguesia, exatamente para onde já foi a bandidagem.

Traficantes e milícias (que já estão instaladas nos bairros da Zona Oeste) dividirão cidadelas entre si e uma nova conjuntura bandida se organizará (sistema de fornecimento de drogas ‘delivery’, seria?), mantendo a economia do tráfico, agora livre da vizinhança com a violência, funcionando como sempre.

É ou não é o mesmo ‘Bota abaixo’ (ou ‘Bota fora’) de ontem, com mais requintes de crueldade?

A primeira impressão é ótima. Num passe de mágica a PM invade de forma teatral, ‘sorrateira e seletivamente‘ certas’ favelas, expulsa a bandidagem num passe de mágica (na verdade ‘espanta’ a marginália para longe) e assume o terreno com medidas cosméticas e muita maquiagem mescladas com supostas obras sociais (entre as quais a mais supimpa é a graninha extra que uns e outros ganham alugando lajes-cenográficas para a rede Globo filmar bucólicas novelas de Romeu e Julieta).

(Sobre as áreas comandadas pelas milícias, quase nenhuma conversa se ouve)

E a negadinha sem camisa, lotando a laje do Michael Jackson no Dona Marta, batucando um hip hop tosco em latas velhas, feliz da vida com os spots de propaganda rolando na TV à toda hora:

_ “Crianças, tenham esperança! Tudo vai mudar!”

Bem, não lhes parece fácil demais não? Não se criou programa de geração de empregos algum. Nem plano habitacional, nem escola, nem saneamento básico, nada, nada mesmo. Não se investiu praticamente em coisa alguma ligada a verdadeira redenção social das pessoas daqueles locais. Como então – que passe de mágica seria este!..ou seria uma passada trágica? – o problema social mais grave de nossa cidade, as violentas favelas, assim do nada, tomou ‘doril’ e pluft! sumiu?

‘Anh?! Como foi isto? Mister ‘M‘ que nos explique o truque. Para onde foram aquelas bárbaras gangs todas, aquela meninada seca de cocaína até na alma, super armada, magrela de correr pelos becos com fuzis de última geração; os bolsos dos bermudões ‘cargo‘ cheios de munição. Sim, porque, curiosamente nem mesmo presos ou perseguidos estes solertes marginais foram.

E o tráfico de drogas, como eu já disse, emprego direto ou indireto de muitas pessoas destas favelas, se deslocará para onde o seu ‘movimento‘? E porque as áreas ‘pacificadas’ são também, curiosamente apenas aquelas situadas em áreas nobres da cidade ou no trajeto do aeroporto? Será que é porque as Olimpíadas e a Copa do Mundo estão chegando aí?

E os estoques de drogas que estavam armazenados nestas cidadelas do crime? Que fim levaram todas as refinarias clandestinas ali homiziadas? Todos os ‘esquemas’ e todas as ‘bocas’ para onde foram? E todos os baseados, todos os pacotes e todos papelotes? Onde será que a clientela está se abastecendo com a cocaína e a maconha de cada dia que, continuam a rolar soltas pelas noites dos ‘baixos‘ e ‘altospoints da gente descolada e bronzeada que borboleta por aí.

E eu? Porque será que reclamo? Afinal não está dando tudo certo?

_”Viram só como nas favelas ficaram apenas a gente humilde, simples e trabalhadora, que agora está livre de todo mal amém?” _ Dizem as polianas cínicas, com desdém.

Mas é que uma dúvida me assalta… uma a não, duas, três, quatro, uma revoada de dúvidas atrozes: Será que assim que vier a inevitável valorização imobiliária destas áreas, encostas paradisíacas com vista de 360 graus para a orla das praias mais bonitas do planeta, os imóveis – se  é que caixas toscas  de tijolos podem ser chamadas assim – vão mesmo continuar pertencendo aos mesmos habitantes-proprietários? Ué? Mas será que eles são mesmo proprietários e têm títulos de suas ‘posses‘? Duros, quase miseráveis (senão não morariam ali, certo?) eles têm alguma condição de esnobar as propostas irrecusáveis que, muito provavelmente receberão?

Do que pude saber,  de novidade real mesmo só as indústrias de tinta envidando todos os seus esforços de… responsabilidade social na pintura das fachadas das áreas UPPeizadas. São cores bem vivas, quase primárias, alegres enfim seguindo em tudo, aliás, uma moda que  foi – talvez ninguém se lembre mais – lançada pelo Bispo Macedista da IURD Marcelo Crivela no Morro da Providência, no escroto Projeto  denominado Cimento Social (embrião das UPPs) no qual, num incidente bárbaro e sangrento,  três jovens inocentes foram entregues por uma patrulha do exército brasileiro travestida de ‘Força de Segurança’ (vendidos, dizem, por algum dinheiro) como troféu de guerra, para traficantes de uma favela rival.

Os garotos foram torturados, massacrados e lançados numa caçamba de lixo perto do Morro da Mineira para logo depois, quando a coisa ameaçou feder com um escândalo Federal, terem os corpos desovados num lixão em Gramacho, num município vizinho e vilipendiados com a pecha de bandidos (o que as famílias afirmam, veementemente não eram) que mereceriam mesmo morrer, estraçalhados como cachorros vadios como foram.

(As vezes dá vontade de vomitar em cima desta gente)

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…”Tem alvorada, tem passarada no amanhecer
sinfonia de pardais anunciando o anoitecer…”

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(Não espalhem não e nem falem por aí que fui eu que falei, mas pelas notícias publicadas pela imprensa na época do tal ‘Cimento Social’, como não podia deixar de ser, o Ministério do Exército do Brasil (sob a fachada do Ministério das Cidades) entrou na malfada parceria com o já então senador bispo-macedista, com o aval da Presidência da República, já que Lula da Silva, era aliado de Crivela na eleição da época – como o é, aliás, até hoje)

O Projeto existiu no Morro da Providência (a emblemática ‘primeira favela’) . Os garotos foram mortos no Morro da Mineira. Ninguém foi acusado ou punido. Crivela continua Senador do Lula e o Lula…bem o Lula é O Cara, certo?

Se Marcelo Crivela – o pai das UPPs – é um bispo do Reino de Deus em que purgatório estarão estes garotos pagando o azar de terem esbarrado com os interesses de um senador da República do Brasil?

Dá pra confiar na lisura e na pureza de propósitos desta gente? Sei não. Parece mais com limpeza étnica no Kosovo (sem o massacre físico, real) Acho que neste formidável ‘bota fora’ a pobre e já tão gigantesca periferia é que se expandirá! Com tantas UPPs e UPAs já anunciadas…haja periferia!

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…”E o morro inteiro
no fim do dia
reza uma prece Ave Maria…”

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(As quadrinhas, piegas de doer – vocês já sabem – são do clássicoAve Maria No Morrode Herivelto Martins)

Spírito Santo
Agosto 2010

Pierre Verger – Mensageiro Entre Dois Mundos (1998)


Nascido em Paris, dia 4 de novembro de 1902, filho de uma abastada família de origem belga e alemã, Pierre Verger chegou a Bahia em Agosto de 1946 e a partir de então passou a dedicar sua vida ao estudo da forte e complexa relação existente entre a África e a Bahia.

Realizou um extenso trabalho etnológico retratando o povo, seus costumes e principalmente as religiões Afro-brasileiras. Seus trabalhos lhe valeram o título de Doutor em Etnologia pela Universidade de Paris, Sorbonne, e também o de Babalaô pelo Candomblé .

Seu acervo fotográfico, de valor inestimável, conta com cerca de 65 mil negativos e é uma importante referência para a Fotoetnografia do Brasil. Este site é uma homenagem ao trabalho de Verger e uma pequena mostra de suas fotografias.

Pythako Täpate- Curriculum Vitae


Curriculo late:

Pythako Täpate da Silva nasceu em Bremem Alemanha em 23 de julho de 1933. Filho de um carpinteiro brasileiro com uma funcionária do Ausländer Amt da cidade. A família fugiu da Europa para o Brasil com Pythako ainda adolescente, em meio a boatos dos vizinhos de que as famílias com estrangeiros não arianos iriam ser deportadas para campos de concentração.

No Brasil Pythako estudou em diversos colégios alemães por quase toda a vida, sendo diplomado em Ciencias Políticas e Filosóficas pela Universidade de Viena e em Protohermeneutica Filosófica pela universidade de Chinatooga Fields, Califórnia.

Pythako foi indicado para exercer diversos cargos em governos estaduais e federais (tendo sido inclusive sondado para ser vice ministro da Educação no governo do falecido Tancredo Neves), mas sempre recusou todo e qualquer convite alegando sua crença política principal, o Anarquismo.

Vice Reitor demissonário da Universidade de Brasília, antes mesmo que viesse a público sua efêmera nomeação pela ditadura militar em 1978, Pythako tem se dedicado desde então ao jornalismo militante sendo comentarista de política institucional em importantes sites e jornais legais e clandestinos no Brasil e na Europa, onde é conhecido pelo seu estilo cortante e sarcástico que lhe valeu na Inglaterra o apelido de ‘Dr. Mordacy’ .

(Fonte: Anuário das idiossincrasias da política universal– Edição de 1998- Editora ‘Leva e traz’ S/A)

O Rio das UPPs em tres tempos


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“A Milicia é o monstro que tomou conta do Rio, diz Paulo Lins, autor de ‘Cidade de Deus’ ”

(Leia Paulo Lins na íntegra aqui. Leia também o post irmão deste aqui neste link

O “Bota Abaixo”- Século 21

Tempo 1:

As UPPs são o bem e o mal em si. A idéia do estado policial presente também nas favelas, a democratização da segurança pública, é o lado bom, mas é só.

O chato é que o lado do mal é bem mais amplo e complexo: Elas, as UPPs nascem de uma estratégia imperativa e imediatista (criar um cinturão de segurança onde vão acontecer os jogos da Copa e das Olimpíadas), logo são seletivas: Visam ‘pacificar’ a Zona Sul e Zona Norte. Outra questão é que elas não visam combater as causas, pois não tocam na exclusão social, no desemprego, na falta de infraestrutura, equipamentos de saúde (as UPAs são uma ação de caráter apenas emergencial), e saneamento básico dos bairros (a não ser cosmeticamente com obras de fachada) não promovem uma política habitacional, e nem combatem o tráfico de drogas e armas, apenas os expulsa para a periferia.

No geral, considerando-se as suas limitadas proporções, as UPPs são muito parecidas com a política de segurança aplicada pelos EUA durante a ocupação de Bagdá no Iraque.

Tempo 2:

Os problemas estruturais das favelas (entre outros a falta de uma política habitacional maciça) estão sendo transferidos, portanto para a periferia para onde os bandidos estão se asilando e para onde, em certo prazo, os favelados também irão, expulsos pela especulação imobiliária, já que a valorização das áreas faveladas ‘pacificadas’, principalmente na Zona Sul deverá ser explosiva em certo prazo.

Tempo 3:

Aí, nestes megaconglomerados periféricos de favelas (‘Complexos’) o estado imagina que as milícias cumprirão o papel de controlar as coisas por meio de seus métodos ditatoriais (como já fazem na Zona Oeste da cidade). Os problemas estariam deste modo isolados numa periferia real e concreta, bem distante.

O problema crucial da segurança pública do Rio que sempre foi a promiscuidade residencial entre pobres e ricos habitando uma mesma área – como uma mega ‘Casa Grande unida a uma mega Senzala’- estaria deste modo sanado, como numa versão moderna do ‘Bota Abaixo do Prefeito Pereira Passos em 1906, já que os pobres, como já disse, em algum prazo, pressionados por ofertas irrecusáveis, venderão a preço de banana as suas habitações precárias e também se mudarão.

Cruel e Maquiavélica solução. Está até no programa do provável governo de Dilma Roussef como modelo para ser universalizado, aplicado no país inteiro. Mas existem duas questões que não querem calar:

1- O Brasil inteiro continuará injusto e violento e terá imensas periferias controladas por milícias, com ‘UPPs’ limpando’ os territórios próximos aos bairros da elite?

2- Este plano dará certo durante quanto tempo? E quando a bolha de violência estourar, ela terá um caráter nacional, generalizado como está tendo no México de hoje?

Spírito Santo
Outubro 2010

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Leia também o post irmão deste aqui neste link

Patrulha ideológica às avessas



Voltando à cumplicidade dos intelectuais

Ninguém em sã consciência está deixando de observar que, afora a suja política brasileira atual como um todo, há certa onda de irresponsável amoralidade nesta enorme popularidade do presidente Lula e de sua campanha a reeleição por meio de uma candidata preposta.

Afinal, dando respaldo a esta candidatura, ajudando a construí-la e vendê-la para a população, está um grupo bem articulado de pessoas adultas e letradas, muitas delas renomados intelectuais e artistas que, de modo algum podem ser vistos como ingênuos idealistas iludidos pela propaganda. Não são cegos.

Com – vá lá – honrosas excessões como Oscar Niemeyer, por exemplo, ao que parece não são mais aqueles idealistas do passado. São pragmáticos agora. Os índices de aparelhamento da máquina pública por parte do governo na área da Cultura, mesmo com a suposta abrangencia democrática da Lei Rouanet, são enormes. Basta frisar que os maiores patrocinadores via lei Rouanet são as grandes estatais (Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Correios, etc.).

De certo modo, se observarmos bem atentamente, a maior parte do controle da cultura do país está sob as rédeas do Estado. Isto não é um mal em si, claro. Tem lugares em que assim funciona. O ‘Mercado’, afeito a vários interesses, não consegue gerir bem ou democraticamente estas questões.

A questão é saber – e decidir nas eleições – QUEM é este Estado. A idoneidade de quem governa.

Quem for idealista que atire a primeira pedra

O fato é que muitos são cúmplices do que está instalado, isto sim. Assumiram claramente esta posição que é, sobre vários ângulos, indesculpável. Embora tenham todo o direito de duvidar da idoneidade dos seus opositores ligados ao PSDB, sabem que as denúncias existentes no Ministério público contra o PT são graves e factíveis, sabem também que os sucessos exclusivos dos 8 anos do governo Lula ou são inexistentes ou são exagerados pela propaganda e que, tanto quanto as de Serra, muitas promessas de campanha atuais são irrealizáveis, mas fingem que não sabem para ganhar a eleição.

Estão agora juntos que nem pão quente ao lado do governo. Ao que parece temem o desmonte do esquema atual por um governo que não seja o do PT. Sabem do mesmo modo e por outro lado, o risco institucional que certas idéias expressas pelo PT representam para o futuro imediato do Brasil. O mais estranho é que o histórico das lutas passadas, protagonizadas por muitos deles, não se coaduna com este flerte com idéias tão atrasadas. Sabem, portanto muito bem o que estão fazendo: Brincam com o fogo.

Sabem também, com toda certeza que ondas de progresso econômico – temperados com clientelismo de ocasião – não são exatamente parâmetros válidos de boa gestão governamental nem garantia de boa maré econômica ou financeira em médio prazo.

É bom que se recorde que os índices de popularidade de todos os déspotas do tempo da ditadura militar (Castello Branco, Costa e Silva, Junta militar, Garrastazu Médici e João Figueiredo) – exatamente como ocorre agora com este índice de 82% do Lula – era altíssimo e que o chamado ‘Milagre Econômico’ da Ditadura deixou marcas profundas em nossa economia – e em nossa cultura e na sociedade em geral – por muitos anos à frente.

Sabem de tudo isto, mas cada qual, talvez por força de alguma razão muito particular ainda omissa, resolveu justificar e apostar na adesão irresponsável ao que pode vir ser o atraso. Quem se importa? Farinha pouca meu pirão primeiro.

Gostam de levar vantagem em tudo, morou?

Spírito Santo
Outubro 2010

Farhenreit. 451, o filme



É sempre assim. Quase ninguém percebe quando o vento muda

Fahrenheit.451 é um filme imperdível de François Truffaut de 1966 (eu o assisti na época do lançamento, no início da ditadura no Brasil). É baseado num livro de Rad Bradbury de 1953. Nele, num futuro remoto, a inusitada função dos bombeiros, espécie de exército a serviço de uma ditadura, é queimar todos os livros do mundo.

Os rebeldes conspiradores, caçados por todo o país, são uma minoria de ‘homens-livros’ cada qual com a função de gravar na memória o texto de um clássico da literatura universal, formando uma seita subversiva que arregimenta clandestinamente seguidores, treina-os na memorização de um livro e envia os ‘homens e mulheres livros’ para num esconderijo seguro numa cidadela secreta nas montanhas.

Embora meramente simbólica (ou alegórica) é sinistra a semelhança do filme com os nossos dias brasileiros atuais, nos quais uma acachapante maioria, sob as ordens de certo inflamado líder exitoso, espécie de ‘Pai da Pátria’, parece que se apossou da verdade em nome de um misterioso partido.

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Veja o trailer abaixo e o filme completo neste link)
[videolog 449190]
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Spirito Santo

Outubro 2010

Mídia Suja e Mass Self Comunication


Mídia Suja e Intercomunicação
Brasil da propaganda e da transpolítica governista

(Distinto leitor, não se iluda: este não é um texto de propaganda eleitoral – nem contra nem a favor – nem muito menos é gratuito)

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Eu sei. Já comentei este mesmo artigo do Casttels por aqui, há pouco tempo, embora em outro contexto. O agravamento do nosso quadro político-midiático abastardado ao limite nestas eleições – abastardamento este agora capitaneado pelo próprio presidente da República – no entanto sugere, como uma reza forte urgente, nova releitura.

Manoel Castells com efeito, como também já disse aqui é (a sua revelia julgo eu) um dos teóricos chave da nova onda midiática denominada ‘Mídia Livre’, como já disse também, uma espécie de Ovo da Serpente da propaganda governista, segundo a minha (ou nossa) dita ‘delirante‘ maneira de ver. Ele lançou suas interessantes ideias nos ventos do Fórum Social Mundial a uns tempos atrás, de onde ao que parece, elas vieram parar na cabeça insana de alguns maquiavélicos ideólogos do PT.

Se é fato que uma suposta mentira repetida mil vezes acaba virando verdade – aparente estratégia mestra desta máquina de propaganda governista – quem sabe se uma suposta verdade, do mesmo modo repetida, não vence e desmascara a mentira? Oremos, pois.

Garanto que vamos precisar muito desta prece, bater muito nesta tecla, daqui para adiante, a se julgar pelas nuvens pretas de injúrias contra os adversários que a rouquidão raivosa de Lula da Silva anda lançando pelos ares do país.

Desde já, à acachapantemente unânime popularidade de nosso presidente peço humildes desculpas, resguardando a hipótese de haver erro e eventuais heresias em minhas opiniões. Se eu estiver certo, contudo, a ele – e aos tolos acólitos enganados – não darei nem uma réstia de perdão.

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Manuel Castells
(Extraído de Le Monde diplomatic)

Tradução: Márcia Macedo (com nossas modestas e leigas entrelinhas)

“Por que os blogs, o RSS e outras tecnologias podem mudar os padrões de informação com que a humanidade se acostumou há séculos. O que isso tem a ver com a crise da política tradicional e a possibilidade de uma alternativa” [1]

Manuel Castells

“A informação e a comunicação sempre foram vetores dos poderes dominantes, dos poderes alternativos, das resistências e das mudanças sociais. O poder de influência sobre o pensamento das pessoas – que é exercido pela comunicação – é uma ferramenta de resultado incerto, porém fundamental. É apenas através do exercício da influência sobre o pensamento dos povos que os poderes se constituem em sociedades, e que as sociedades evoluem e mudam.

A repressão física ou mental é certamente uma importante dimensão do poder dominante. No entanto, se um povo modifica radicalmente seu modo de ver as coisas, se ele passa a pensar de maneira diferente e por si mesmo, não há poder que possa se opor.

Torturar um corpo é bem menos eficaz do que moldar um pensamento. Eis o motivo pelo qual a comunicação é a pedra de toque do poder. O pensamento coletivo (que não é a soma dos pensamentos individuais em interação, mas sim um pensamento que absorve tudo e é difundido por toda a sociedade) se elabora na comunicação. É da comunicação que vêm as imagens, as informações, as opiniões e é por meio desses mecanismos de comunicação que a experiência é divulgada e transmitida ao coletivo/na coletividade.

Tudo isso se aplica fortemente em nossas sociedades, no seio das quais as redes de comunicação atravessam todos os níveis, do global ao local e do local ao global. Consequentemente, as relações dentro do poder dominante, elemento que constitui toda e qualquer sociedade e determina suas evoluções, são cada vez mais elaboradas na esfera da comunicação.

Mídia é poder, mas manipulação tem limites

Na sociedade contemporânea, a política depende diretamente da mídia. As agendas do sistema político e mesmo as decisões que dele emanam são feitos para a mídia, na busca de obter o apoio dos cidadãos ou, pelo menos, atenuar a hostilidade frente às decisões tomadas.

Isso não quer dizer que o poder se encontre incondicionalmente nas mãos da mídia, nem que o público tome posições em função do que é sugerido pela mídia. Pesquisas em comunicação mostraram há muito tempo até que ponto o público é ativo e não passivo.

Além disso, os meios de comunicação possuem, internamente, sistemas que controlam sua capacidade de influenciar o público, pois antes de qualquer coisa, eles são empresas submetidas aos imperativos da rentabilidade e precisam ter audiência ou estender sua difusão. Em geral, eles são diversificados, competitivos, e devem ter tanta credibilidade quanto seus concorrentes. Eles freqüentemente se impõem outras restrições, no que diz respeito à ética profissional ou jornalística (mediadores, conselhos de ética, etc.). Um meio de comunicação não é, portanto, algo fadado a distorcer ou manipular informações.

No entanto, precisamos focar nossa atenção nas tendências. O jornalismo militante, ideológico, a mídia engajada, por exemplo, foi durante muito tempo tido como uma mídia sem a qualidade da «objetividade» — logo, sem consumidores. Os jornais que se denominam «órgãos de partido» praticamente desapareceram ou enfrentam graves crises de distribuição. No entanto, a situação começa a mudar: o militantismo ou engajamento ideológico pode se tornar um modelo altamente rentável. Por exemplo, a Fox News, uma das principais redes de televisão dos Estados Unidos (filial da News Corp, que pertence a Rupert Murdoch), conquistou uma grande parte da audiência conservadora norte-americana ao defender, sem a menor preocupação com a objetividade, as teses dos neoconservadores favoráveis à invasão do Iraque, em 2003.

A segunda tendência que pode ser observada atualmente está na perda da autonomia por parte dos jornalistas profissionais com relação aos seus empregadores. Nesse âmbito joga-se boa parte do complexo jogo das manipulações midiáticas.

Um estudo recente procurou explicar que, em meados de 2004, 40% dos norte-americanos ainda acreditava que o Sadam Hussein e a Al Quaeda trabalhavam lado a lado e que Saddam possuía armas de destruição em massa no Iraque. Isso um ano depois de o contrário ter sido provado. Esse estudo enfatiza as ligações entre a máquina da propaganda do governo Bush e as produções do sistema midiático.

Quando a omissão é a arma decisiva

No entanto, isso tudo é apenas a ponta do iceberg, pois a maior influência que a mídia exerce sobre a politica não é proveniente do que é publicado, mas do que não o é: de tudo o que permanece oculto, que passa desapercebido. A atividade midiática repousa sobre uma dicotomia: algo existe no pensamento do público se está presente na mídia. O seu poder fundamental reside, portanto, na sua capacidade de ocultar, de mascarar, de omitir.

A necessidade de algo ter de existir na mídia para existir politicamente induz uma relação orgânica à linguagem midiática, encontrada tanto na televisão quanto no rádio, na mídia impressa ou na internet. Os meios de comunicação em massa fazem uso de um jargão específico que não chega a ser um dialeto próprio, mas algo semelhante.

A mensagem midiática mais simples e também a mais poderosa é a imagem. E o rosto é a mensagem mais simples que a imagem pode transmitir. Sendo assim, existe uma ligação orgânica entre a midiatização da política, a personalização da mídia e a personalização da política. A partir do momento em que se passa a cultivar uma vida política baseada em querelas pessoais e de imagem ou em manipulações midiáticas, os programas de governo perdem sua importância, pois ninguém se refere a eles e os cidadãos não lhes dão mais importância (com toda a razão).

O triunfo da «personalização» da política reside no fato de que a forma mais convincente de combater uma ideologia passa a ser o ataque contra a pessoa que encarna uma mensagem. A difamação e os boatos tornam-se uma arte dominante na política: uma mensagem negativa é cinco vezes mais eficaz do que uma mensagem positiva. Todos os partidos utilizam essa estratégia: eles manipulam e até mesmo fabricam informações. E não é a mídia quem cuida disso. Esse trabalho cabe aos intermediários, às empresas especializadas.

O resultado é uma ligação direta entre a «midiatização» da política, sua personalização e a difamação ou a prática do escândalo político, cuja banalização acarretou, nos últimos quinze anos, assassinatos de pessoas eleitas, crises de governo e até mesmo de regime político.

Isso nos leva à atual e profunda crise da legitimidade política em escala mundial, uma vez que há uma ligação forte e evidente, mesmo não sendo exclusiva, entre a prática do escândalo, a midiatização exacerbada da cena pública e a falta de confiança por parte dos cidadãos no sistema. Essa desconfiança pode ser ilustrada por uma pesquisa feita pelos serviços da Organização das Nações Unidas (ONU) segundo a qual dois terços dos habitantes do planeta afirmam não se sentir representados pelos seus governantes.

Intercomunicação e crise de legitimidade política

Trata-se, então, de uma crise de legitimidade. Mas embora o mundo afirme não ter mais confiança nos governos, nos dirigentes políticos e nos partidos, a maioria da população ainda insiste em acreditar que pode influenciar aqueles que a representam. Ela também crê que pode agir no mundo através da sua força de vontade e utilizando seus próprios meios. Talvez essa maioria esteja começando a introduzir, na comunicação, os avanços extraordinários do que eu chamo de Mass Self Communication (a intercomunicação individual).

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Entrelinha 01

Pelas simples razões expressas nestas entrelinhas comentadas, a frase dita por Casttels mais acima (Rebelião crítica’), muda totalmente de sentido. Poucos talvez tenham se apercebido disto, mas presumo que a ‘Rebelião’ a que ele se refere, no caso do Brasil, por meio de uma manobra malandra de desvirtuamento, promovida por alguns intelectuais a serviço do PT, vai deixando cada vez mais de ser ‘crítica’, para assumir, o caráter de ‘dirigida’, ‘manipulada’ (como instrumento de propaganda mesmo) passando a servir aos interesses propagandísticos do governo, que utiliza a esta sua militância Mass Self Comunication (blogueiros e participantes de mídias sociais como o Facebook, por exemplo) no caso, como Massa de Manobra,  Grupo de pressão contra todos os opositores.

Estas investidas se dão, principalmente por intermédio da incitação ao ataque frontal às outras mídias – notadamente a parte da imprensa comercial chamada por eles de ‘Grande Mídia’ (ou ‘Mídia Golpista’, no caso presente) do mesmo modo, atacando também, com a mesma veemência e virulência, como inimigos do mesmo modo ‘odiosos’,  todos os demais Mass Self Comunication realmente independentes, simplesmente adversários de suas ideias e propostas.

A injuriosa expressão ‘Partido da Imprensa Golpista’PIG (‘porco’ em inglês) em oposição a Partido dos Trabalhadores), cunhada pelo PT no âmbito destes ataques, denuncia muito bem o caráter de mídia dirigida desta corrente de propaganda governista.

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Casttels seguindo:

Tecnicamente, essa Mass Self Communication está presente na internet e também no desenvolvimento dos telefones celulares. Estima-se que haja atualmente mais de um bilhão de usuários de internet e cerca de dois bilhões de linhas de telefone celular. Dois terços da população do planeta podem se comunicar graças aos telefones celulares, inclusive em lugares onde não há energia elétrica nem linhas de telefone fixo. Em pouco tempo, houve uma explosão de novas formas de comunicação.

As pessoas desenvolveram seus próprios sistemas: o SMS, os blogs, o skype… O Peer-to-Peer ou P2P torna possível a transferência de qualquer dado digitalizado. Em maio de 2006, havia 37 milhões de blogs (em janeiro de 2006, havia 26 milhões). Em média, um blog é criado por segundo no mundo, o que significa 30 milhões por ano…55% dos blogueiros continuam a alimentar seus blogs até 3 meses depois deles terem sido abertos. A quantidade de blogueiros é 60 vezes maior do que era há seis anos. E ela dobra de seis em seis meses.

Como, no início, a língua inglesa era o idioma dominante na internet, atualmente, mais de um-terço dos sites da web são em inglês. O chinês vem em seguida, depois o japonês, o espanhol, o russo, o francês, o português e o coreano… O que realmente importa não é tanto a existência de todos esses blogs, mas a ligação que há entre eles, e o que eles condensam e difundem com a totalidade de interfaces comunicacionais (esta interligação é viabilizada pela tecnologia RSS.

A Mass Self Communication constitui certamente uma nova forma de comunicação em massa – porém, produzida, recebida e experienciada individualmente. Ela foi recuperada pelos movimentos sociais de todo o mundo, mas eles não são os únicos a utilizar essa nova ferramenta de mobilização e organização. A mídia tradicional tenta acompanhar esse movimento e, fazendo uso de seu poder comercial e midiático passou a se envolver com o maior número possível de blogs. Falta pouco para que, através da Mass Self Communication, os movimentos sociais e os indivíduos em rebelião crítica comecem a agir sobre a grande mídia, a controlar as informações, a desmentí-las e até mesmo a produzi-las.

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Entrelinha 02

Atentem agudamente para o fato de que o que Casttels propõe na verdade é que indivíduos independentes articulados em rede exerçam influencia sobre a mídia dominante ou hegemônica. É óbvio, portanto que ele não se refere, de modo algum (na verdade, muito pelo contrário) a grupos de indivíduos atrelados ao Estado ou ao Governo, o que não poderia ser caracterizado, evidentemente como mídia livre ou independente.

(Reparem então que o que o PT  faz na verdade, patrocinado pelo governo – o que aqui denunciamos veementemente – é criar e bancar uma rede de indivíduos militantes (ou simpatizantes como muitos preferem ser chamados), controlados por uma orientação centralizada de onde emanam palavras de ordem, chavões e contra-chavões governistas.

Os adeptos, ao que parece, são mobilizados por meio de uma rede que difunde doutrina proselitista, se utilizando de arrazoados e conceitos teóricos supostamente esquerdistas, muito recorrentes tais como ‘capitalismo’, ‘direita’, ‘burguesia, ‘fascismo’, etc, descolados de seu sentido original e colados como estigma na ficha dos opositores, seja lá qual for tendência política ou ideológica eles professem.

Casttels seguindo:

Reaberta a batalha mais antiga da História

“…O movimento altermundialista contra o capitalismo global, com toda a sua diversidade, utiliza há muito tempo a internet e todos os recursos da Mass Self Communication – não só como ferramenta de organização, mas também como um espaço para debates e intervenções. Também foi desenvolvida por esse mesmo meio uma capacidade de exercer influência sobre a mídia dominante, passando pela Indymedia ou uma série de outras redes alternativas e associativas….”

A constituição de redes de comunicação autônomas chega também aos meios de comunicação mais tradicionais. As televisões de rua e as rádios alternativas – como a TV Orfeo em Bolonha, a Zaléa TV em Paris, a Occupen las Ondas em Barcelona, a TV Piqueteros em Buenos Aires – e uma enorme quantidade de mídias alternativas, ligadas em rede, formam um sistema de informação verdadeiramente novo.

Mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Albert Gore, aderiu a essa tendência, criando sua própria rede de televisão, na qual atualmente cerca de 40% do conteúdo é alimentado pelos telespectadores. As campanhas presidenciais também se renderam à influência desse novo meio de comunicação. Por exemplo, em 2003-2004, a candidatura de Howard Dean não teria decolado se não fosse a sua capacidade de mobilização por meio da internet .

Em segundo lugar está a «mobilização política instantânea», via telefone celular, que aparece há dois anos como um fenômeno decisivo.  Essa «onda» mobilizadora, apoiada por redes de comunicação entre telefones celulares obteve efeitos impressionantes na Coréia do Sul, nas Filipinas, na Ucrânia, na Tailândia, no Nepal, no Equador, na França… Pode obter um efeito imediato, como em abril passado na Tailândia, com a destituição do primeiro-ministro Thaksin Shinawatra pelo rei Bhumibol Adulyadej. Ou na Espanha, com a derrota, nas eleições legislativas em março de 2004, do Partido Popular de José Maria Aznar.

A suspeita de que as autoridades estivessem manipulando informações, com o intuito de atribuir ao ETA a culpa pelos atentados em Madri, fez com que uma infinidade de mensagens circulasse pelos telefones celulares. Isso resultou na organização de uma enorme manifestação, em um dia no qual, teoricamente, devido ao choque e ao luto, seria impossível falar sobre política.

A Mass Self Communication constitui certamente uma nova forma de comunicação em massa – porém, produzida, recebida e experienciada individualmente.

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Entrelinha 03

A diferença sutil existente entre ‘Rebelião crítica’ e ‘Rebelião Dirigida’ que explicitamos acima, de difícil detecção pela sociedade em geral precisa ser urgentemente compreendida por quem teme o advento de expedientes de censura aos meios de comunicação no país.

Deveriam existir leis (se é que já não existem) que protegessem a liberdade de expressão no Brasil destes abusos dos quais não estamos de modo algum livres hoje em dia.

Ao que tudo indica, como ficou claro na presente campanha presidencial, estamos assistindo ao início do combate de uma falsa Mass Self Comunication criada,financiada, atrelada e aparelhada que foi pelo governo, por meio de uma tática de propaganda posta em prática pelo Partido do presidente,versus a mídia empresarial e outras formas de mídia independente em geral (as Mass Self Comunication reais), com evidentes prejuízos para a liberdade dos cidadãos de se expressar e comunicar.

É o próprio Castells – em trecho evidentemente pouco ressaltado pelos proselitistas de plantão – que chama a atenção (leia abaixo) para certos aspectos desta sutileza.

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Casttels, concluindo:

“… Isso não quer dizer que tenhamos de um lado a mídia aliada ao poder, e de outro, as Mass Self Media, associadas aos movimentos sociais. Ao contrário: cada uma opera sobre uma dupla plataforma tecnológica. Mas a existência e o desenvolvimento das redes de Mass Self Communication oferecem à sociedade maior capacidade de controle e intervenção, além de maior organização política àqueles que não fazem parte do sistema tradicional.

Neste momento em que a democracia formal e tradicional está particularmente em crise, em que os cidadãos não acreditam mais em suas instituições democráticas, o que percebemos diante da explosão das Mass Self Communications assemelha-se à reconstrução de novas formas políticas, mas ainda não é possível dizer no que elas resultarão.

No entanto, de uma coisa podemos ter certeza: a sorte da batalha será jogada no terreno da comunicação, e terá peso a nova diversidade dos meios tecnológicos. Sem dúvida, essa batalha é a mais antiga de toda a história da humanidade. Desde sempre, ela visa à liberação de nosso pensamento.

Tradução: Márcia Macedo

Publicado originalmente no Le Monde diplomatic

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Spírito Santo (introdução e entrelinhas)
Outubro 2010

1968- Grupo Manifesto. Ah, meus tempos!


Esquerdismo é doença infantil do Comunismo. Música é que é o Comunismo real.

Ano 1968. Uma importante emissora de TV (TV Tupi…os seria Continental?) mantinha no ar, aos sábados, um programa estrelado por um grupo de jovens cantores e músicos chamado ‘Grupo Manifesto’. Numa época emblemática, meses antes da ditadura militar decretar o AI5, euzinho estava lá na assistencia de uma apresentação do grupo, no estúdio da emissora, no aprazível bairro da Urca.

O grupo era excelente, os jovens cantavam, compunham coisas muito bonitas, ‘da moda’, ‘pra frente’, como se dizia, questionando com muita verve o excessivo engajamento e o proselitismo radical de certa esquerda que, dava os seus primeiros passos para ingressar na Luta Armada.

(Para estes militantes ‘organizados’, o Grupo manifesto era associado ao que eles, pejorativamente chamavam de ‘Esquerda Festiva’.)

Uns dois meses depois desta apresentação na Urca, euzinho de novo, sou bem classificado num festival da TV Globo, ganho prêmios (terceira melhor música e um dos dois melhores intérpretes) e sou assediado pelo empresário do grupo Manifesto que me diz assim, na lata:

_” Queremos que você integre o Grupo Manifesto e viaje com a gente para os Estados Unidos!” (ou Europa, não lembro)

Filho mais velho de mãe viúva relutei. Envolvido já com a onda da luta armada, clandestinamente já integrando um organização daquelas, relutei mais ainda. Queria salvar a família e a nação. Besteirada de quem tem 19 anos. O empresário do grupo me deu o cartão de visitas e eu fui para casa,  o paletó do smoking escancarado,  enebriado com o sucesso e com o vento da janela do trem da Central me refrescando as fuças.

Quatro meses depois, estava preso. 10 dias num quartel do Exército em São Cristóvão, depois a cadeia do Dops na Rua da Relação e por fim, a prisão de segurança máxima da Ilha Grande. Não me arrependo de quase nada na vida, mas esta experiencia de estar numa encruzilhada que me levaria para o exterior como artista emergente ou para a prisão como preso político de uma causa que a gente está vendo aí a merda que deu, é uma arrependida e atroz memória que me atormenta o juízo sempre que me lembro dela.

Os artistas do grupo longe dos ares de chumbo da Ditadura, fizeram carreira no exterior. Dos que eu me lembro Gracinha Leporace

ingressou como cantora numa das formações do grupo de Sergio Mendes (“Brasil 66′) que estourou mundo á fora logo a seguir. Lembrei com isto tudo agora mesmo a letra do maior hit musical do Grupo Manifesto, interinha. Acho que foi por força destas memórias agitadas pela campanha eleitoral de 2010.

Ah se naquela época eu tivesse entendido a mensagem sutil que aquela música me mandava…

” A minha música não traz mensagem
e nem faz chantagem em guerra fria
pois não fala em ideologia
eu venho apenas para lhes falar
de uma grande perda que eu não sei
se é da Direita ou da Esquerda

Não me importa se a censura corta
pois eu gosto dela se é vermelha
ou se é verde ou amarela

Oh minha amada quero lhe dizer
que sem o seu amor eu posso até morrer

Oh minha amada quero lhe dizer
que sem o seu amor eu posso até morrer”

Spírito Santo
Outubro 2010