Palavra degradada: Veias abertas

 

Inferno de Dante segundo Wiliam Blake

Inferno de Dante segundo Wiliam Blake

 

O cara é o Santiago Kovadloff que escreveu este post aqui para o jornal argentino La Nación do dia 24 de Setembro. As relações entre o assunto abordado e o nosso Brasil de hoje em dia é impressionantemente contrangedora (pelo menos para quem não está drogado, embriagado pelo alcoólico veneno destas eleições).

Me constrange mesmo, muito, isto de estarmos nos achando assim tão moderninhos e evoluídos em algumas poucas coisas aparentes quando, o que está acontecendo mesmo, de verdade, de baixo de nossos pés e narizes sem que a gente se dê exatamente conta, é esta degradação galopante a qual Kovadloff se refere.

O mais preocupante contudo é que, pelo que se depreende das incríveis semelhanças entre a política argentina e a nossa, o fenômeno parece ser bem amplo, sul americano (se não for mundial, temo), uma tendencia que parece inexorável da degradação institucional se tornar norma, regra – de novo – em nossa ainda pobre latino america.

Vamos lá galera! Observem que traduzi para os mais ‘roots‘, razoavelmente com apenas uns poucos hiatos que poderiam atrapalhar a compreensão do todo.

Aos céticos petistas, aos cegos e incrédulos de ocasião de qualquer laia ou corrente, mando logo o aviso de sempre:

_ Teoria da conspiração também é cultura!

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“Cuando los agravios y los insultos son moneda corriente”
A PALAVRA DEGRADA
Santiago Kovadloff
Para LA NACION 

“É difícil decidir se a decadência dos valores morais e políticos de uma comunidade se inicia com o desvirtuamento da linguagem ou se termina por refletir a agonia daqueles. Seja como for a interdependência entre linguagem, moral e política se mostra, desde sempre, como um fato incontestável.

George Steiner soube assinalar: “As pessoas é que exercem a decadência cultural sobre a linguagem”. Já em começos dos anos 60, advertia que “os imperativos da cultura e a comunicação de massas, têm obrigado a linguagem a desempenhar papéis cada vez mais grotescos”. A obscenidade do grotesco consiste em sua ostentação: na exibição da vulgaridade como um bem.

Animadores de programas de rádio e televisão, jornalistas e dirigentes políticos incorporam ao seu léxico a grosseria e o desplante como se não fossem, ou, pior ainda, como se fossem dignos de difusão. Sem desestímulo e cada vez com mais freqüência, se faz eco desta fascinação pela rudeza verbal, empenhando-se em apresentá-la como garantia de autenticidade e proximidade com seu público.

Diante de semelhante caudal de impropriedades e perversões, se faz indispensável recordar que a linguagem, apenas secundariamente é uma ferramenta para a  informação. Primeiramente e primordialmente, é um signo espiritual: o indício mais alto e mais fundo da índole dos recursos subjetivos com que conta ou deixa de contar uma comunidade. Com ele cada um dos que a integra conhece, se dá a conhecer e consegue autorreconhecer-se.  A palavra não pode dizer tudo, porém diz tudo sobre os que  a empregam.

É certo que o menosprezo pelo idioma está longe de ser um fenômeno exclusivamente argentino, mas resulta indiscutível que, entre nós, uma de suas modalidades mais usuais, o emprego complacente de um léxico ‘sujo’, ‘chulo’, é uma prática sedimentada.

Ninguém ignora que há muito tempo a educação entrou em decadência, como nossa realização fundamental. Nem que o consenso majoritário, tornado vulnerável pela involução e a deterioração, já fez da indigência expressiva um sinônimo desagregador da eloqüência.

grosseiro, o ordinário e grotesco foram, contudo cedendo terreno para algo pior: a circulação progressiva de toda classe de violências verbais. E a assim chamada classe política não tem vacilado em dar a sua própria contribuição a este exercício irresponsável da palavra, convertendo o adversário em inimigo e a dissidência com o próprio parecer-se com um insulto.

A deterioração do idioma exerce uma poderosa influencia sobre a força das idéias. Como bem observa Steiner, à medida que esta deterioração se acentua “a linguagem deixa de configurar um pensamento para proceder ao seu embrutecimento.”

Desentendendo-se com qualquer compromisso com a exemplaridade, são incontáveis os políticos que, década após década vão se mostrando na Argentina, difusores de um idioma aviltado pela mentira, a impropriedade e a anemia expressiva.

Sejamos francos: Onde a linguagem se corrompe algo mais que a linguagem se corrompe também. A sujeira no que ela se converte contamina irremediavelmente o pensamento. O caso de nossas autoridades constituídas atual é, neste sentido, patético. Ter adversários os repugna e estes são definidos como seres desprezíveis. O destrato com que se trata estes adversários não tem limites.

Com ele, a política como cabalmente é entendida, tende a desaparecer. Seu lugar é ocupado então pelo despotismo. A intenção que o inspira não dissimula o seu propósito. A demagogia e a intolerância dão-se as mãos. A pluralidade de critérios horroriza sua propensão ao monólogo. Em conseqüência, o debate não estimula senão o maniqueísmo. O discernimento necessário se transforma, sob seu peso, em confrontação. E a confrontação, neste mesmo sentido, numa prática orientada para o extermínio do oponente…

…Desqualificações ferozes, simplificações grosseiras, ofensas que ostentam seu despropósito como uma realização; ameaças, prepotência, pressões de corte mafioso, conformam a paga constante que recebem quem, professando convicções não oficiais, ousam manifestá-las.

Desprezo lapidar, em suma, para com o outro que, ao não concordar com os critérios do poder da ocasião, se converte num vazio sem comprometimento inabalável empenhado em adverti-lo que algo bem pior poderá lhe acontecer, caso não se submeta  ao silencio.

A disputa eleitoral que se aproxima provará até que ponto a disputa pelo poder passou a ser, simultaneamente, um enfrentamento entre concepções de linguagem e, portanto, do papel do pensamento na construção da política.

Uma destas duas concepções de linguagem o entende como uma arma de dominação que deve esgrimir ás custas de qualquer alteridade. A outra, não sem vacilações e contradições, se nega a deixar de ver na linguagem um recurso para a implantação da convivência e a pacificação indispensáveis.

….A degradação do idioma, em boa parte dos políticos, reflete a magnitude alcançada pela perda de valor das investiduras. Tão excedida está essa degradação que seria injusto supor que as autoridades constituídas têm o monopólio do aviltamento da língua. Porém é inegável que é em suas fileiras onde esta prática encontra maior aceitação.

Mas além dos exageros discursivos, nos quais, com premeditada freqüência incorre a presidenta da Nação e seu esposo, resulta evidente que é em seu entorno que proliferam os cultores mais decididos da agressão verbal É esta negativa em inscrever o tratamento dos conflitos nacionais no marco de uma abordagem no qual a palavra não opere como machado ou uma tocha, a que se faz notar dramaticamente na recorrência a linguagem chula e briguenta. A eles se seguem como é evidente, as ofensas personalizadas e sem nenhuma sutileza ideológica.

A mais grave de todas é recente. Recaiu sobre o ex Juiz federal Julio César Strassera, figura emblemática da democracia reconstituída. O governo tolerou calado que um homem identificado com a sua gestão o chamasse de ‘filho da puta’. Tolerou igualmente que seu chefe de gabinete se referisse a este magistrado como a um ‘miserável’. Referendou, enfim, com seu silencio cúmplice, um comportamento pervertido que perdurará na memória dos argentinos como um sinal inequívoco da decadencia moral da política.

É que a medida em que se deixa transparecer a repugnacia que a independência de critério desperta a sensibilidade autoritária, recrudescem os ataques contra todos aqueles que não rendem obediência à causa do poder de plantão.

Ali estão para prová-lo, empresários, sindicalistas, juízes, intelectuais e jornalistas. “Víbora venenosa” chamou o colunista Joaquín Morales Solá a esta raivosa figura em que se converteu Hebe de Bonafini. É indubitável que o objetivo atingia o que se propunha: em política, a degradação da palavra é a subordinação forçada de toda dissidência a uma vontade despótica.

Uma nova estirpe de excluídos começa a ser forjada pela intolerância do poder. Ela é integrada por todos aqueles que aspiram seguir exercendo o pensamento crítico. Assim, à insegurança conhecida se soma uma nova. Transitar pelas ruas, as avenidas e as esquinas é, desde muito tempo, um grande risco. Freqüentar livremente a senda das palavras começa a sê-lo também. Duas formas de delito se complementam na Argentina para multiplicar a mesma desolação.”

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Spírito Santo
Outubro 2010 (véspera das eleições gerais no Brasil)

(Siga a dica sugerida no título e leia Eduardo Galeano)

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~ por Spirito Santo em 02/10/2010.

Uma resposta to “Palavra degradada: Veias abertas”

  1. Este domínio da linguagem virulenta é atualmente,uma bolha universal. Bolha gosmenta que vai encolvendo tudo e todos.
    A pergunta Spírito é quem vai estourar a bolha. Hengels já falava que depois de uma revolução nas estruturas sociais, a palavra, os conceitos e códigos de uma sociedade levam uns cem anos para mudarem, e incorporarem na palavras as mudanças acontecidas.

    Muçulmanos chamam os americanos de diabo, americanos anglo-saxonônicos chamam os latinos-americanos de baratas, os intelectuais chamam os povos que exercem outras culturas de incultos. É o carnaval geral. Me parece que a linguagem é o que domina a sociedade, como bolha visgosa virou a própria estrutura social.

    Como agora as coisas são rápidas, e me arriscando a criar um conceito pervertido do Engels, chego a acreditar que esta involução linguística, será acompanhada pela “mudança engessada” da própria sociedade.

    Falta como digo quem fure a bolha turva. Pois ao contrário do que você diz, não considero que é o pt que vai ganhar a eleições, o máximo que uma legião de petecontistas vai ganhar é o poder de serem a polícia do movimento social e do pensamento crítico.

    Serão como os verde aqui em Hamburgo, os gendarmes dos autofágicos neoliberais. Creio que é preciso identicar qual a consistência desta bolha de ignorancia e obscurantismo. Dar o nome aos bois.

    Se bem que eu reconheça que no texto de Santiago Kovadloff, transpira um cagaço em relação à própria vida e existência econômica, que eu não desmereço. Pois os autores desta linguagem xula e deprimente, são cães que não só ladram, pois mordem.

    axé e prepare as galochas.

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