1968- Grupo Manifesto. Ah, meus tempos!

Esquerdismo é doença infantil do Comunismo. Música é que é o Comunismo real.

Ano 1968. Uma importante emissora de TV (TV Tupi…os seria Continental?) mantinha no ar, aos sábados, um programa estrelado por um grupo de jovens cantores e músicos chamado ‘Grupo Manifesto’. Numa época emblemática, meses antes da ditadura militar decretar o AI5, euzinho estava lá na assistencia de uma apresentação do grupo, no estúdio da emissora, no aprazível bairro da Urca.

O grupo era excelente, os jovens cantavam, compunham coisas muito bonitas, ‘da moda’, ‘pra frente’, como se dizia, questionando com muita verve o excessivo engajamento e o proselitismo radical de certa esquerda que, dava os seus primeiros passos para ingressar na Luta Armada.

(Para estes militantes ‘organizados’, o Grupo manifesto era associado ao que eles, pejorativamente chamavam de ‘Esquerda Festiva’.)

Uns dois meses depois desta apresentação na Urca, euzinho de novo, sou bem classificado num festival da TV Globo, ganho prêmios (terceira melhor música e um dos dois melhores intérpretes) e sou assediado pelo empresário do grupo Manifesto que me diz assim, na lata:

_” Queremos que você integre o Grupo Manifesto e viaje com a gente para os Estados Unidos!” (ou Europa, não lembro)

Filho mais velho de mãe viúva relutei. Envolvido já com a onda da luta armada, clandestinamente já integrando um organização daquelas, relutei mais ainda. Queria salvar a família e a nação. Besteirada de quem tem 19 anos. O empresário do grupo me deu o cartão de visitas e eu fui para casa,  o paletó do smoking escancarado,  enebriado com o sucesso e com o vento da janela do trem da Central me refrescando as fuças.

Quatro meses depois, estava preso. 10 dias num quartel do Exército em São Cristóvão, depois a cadeia do Dops na Rua da Relação e por fim, a prisão de segurança máxima da Ilha Grande. Não me arrependo de quase nada na vida, mas esta experiencia de estar numa encruzilhada que me levaria para o exterior como artista emergente ou para a prisão como preso político de uma causa que a gente está vendo aí a merda que deu, é uma arrependida e atroz memória que me atormenta o juízo sempre que me lembro dela.

Os artistas do grupo longe dos ares de chumbo da Ditadura, fizeram carreira no exterior. Dos que eu me lembro Gracinha Leporace

ingressou como cantora numa das formações do grupo de Sergio Mendes (“Brasil 66′) que estourou mundo á fora logo a seguir. Lembrei com isto tudo agora mesmo a letra do maior hit musical do Grupo Manifesto, interinha. Acho que foi por força destas memórias agitadas pela campanha eleitoral de 2010.

Ah se naquela época eu tivesse entendido a mensagem sutil que aquela música me mandava…

” A minha música não traz mensagem
e nem faz chantagem em guerra fria
pois não fala em ideologia
eu venho apenas para lhes falar
de uma grande perda que eu não sei
se é da Direita ou da Esquerda

Não me importa se a censura corta
pois eu gosto dela se é vermelha
ou se é verde ou amarela

Oh minha amada quero lhe dizer
que sem o seu amor eu posso até morrer

Oh minha amada quero lhe dizer
que sem o seu amor eu posso até morrer”

Spírito Santo
Outubro 2010

Anúncios

~ por Spirito Santo em 16/10/2010.

3 Respostas to “1968- Grupo Manifesto. Ah, meus tempos!”

  1. Essa foi total novidade!
    Quanta coisa se perde na vida em função de experiências que precisamos passar. Ainda bem que vc não se arrepende de nada.
    De minha parte,agradeço a possibilidade de ter te encontrado em 68, e novamente 40 anos depois! Minha amizade fraterna e sincera por vc, querido Spirito!

    Curtir

  2. André,

    A mensagem eu não entendi muito bem pois veio meio truncada. É algo sobre escrever um artigo sobre Kuduro, é isto? Se for o que entendi tenho interesse sim, claro pois, a propósito já tenho até um artigo sob este tema pronto e rodando por aí na rede.

    Curtir

  3. Estimado Spirito Santo,

    venho por esse meio de comunicação como achei nenhuma outra possibilidade. Li o conteudo na pâgina de voce e achei muito interessante. Sebtia vontade de escrever um artigo em português para uma revista alemã sobre o kuduro? No caso positivo por favor me escreve ao endereço que lhe dei. os melhores, André

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: