O Rio das UPPs em tres tempos

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“A Milicia é o monstro que tomou conta do Rio, diz Paulo Lins, autor de ‘Cidade de Deus’ ”

(Leia Paulo Lins na íntegra aqui. Leia também o post irmão deste aqui neste link

O “Bota Abaixo”- Século 21

Tempo 1:

As UPPs são o bem e o mal em si. A idéia do estado policial presente também nas favelas, a democratização da segurança pública, é o lado bom, mas é só.

O chato é que o lado do mal é bem mais amplo e complexo: Elas, as UPPs nascem de uma estratégia imperativa e imediatista (criar um cinturão de segurança onde vão acontecer os jogos da Copa e das Olimpíadas), logo são seletivas: Visam ‘pacificar’ a Zona Sul e Zona Norte. Outra questão é que elas não visam combater as causas, pois não tocam na exclusão social, no desemprego, na falta de infraestrutura, equipamentos de saúde (as UPAs são uma ação de caráter apenas emergencial), e saneamento básico dos bairros (a não ser cosmeticamente com obras de fachada) não promovem uma política habitacional, e nem combatem o tráfico de drogas e armas, apenas os expulsa para a periferia.

No geral, considerando-se as suas limitadas proporções, as UPPs são muito parecidas com a política de segurança aplicada pelos EUA durante a ocupação de Bagdá no Iraque.

Tempo 2:

Os problemas estruturais das favelas (entre outros a falta de uma política habitacional maciça) estão sendo transferidos, portanto para a periferia para onde os bandidos estão se asilando e para onde, em certo prazo, os favelados também irão, expulsos pela especulação imobiliária, já que a valorização das áreas faveladas ‘pacificadas’, principalmente na Zona Sul deverá ser explosiva em certo prazo.

Tempo 3:

Aí, nestes megaconglomerados periféricos de favelas (‘Complexos’) o estado imagina que as milícias cumprirão o papel de controlar as coisas por meio de seus métodos ditatoriais (como já fazem na Zona Oeste da cidade). Os problemas estariam deste modo isolados numa periferia real e concreta, bem distante.

O problema crucial da segurança pública do Rio que sempre foi a promiscuidade residencial entre pobres e ricos habitando uma mesma área – como uma mega ‘Casa Grande unida a uma mega Senzala’- estaria deste modo sanado, como numa versão moderna do ‘Bota Abaixo do Prefeito Pereira Passos em 1906, já que os pobres, como já disse, em algum prazo, pressionados por ofertas irrecusáveis, venderão a preço de banana as suas habitações precárias e também se mudarão.

Cruel e Maquiavélica solução. Está até no programa do provável governo de Dilma Roussef como modelo para ser universalizado, aplicado no país inteiro. Mas existem duas questões que não querem calar:

1- O Brasil inteiro continuará injusto e violento e terá imensas periferias controladas por milícias, com ‘UPPs’ limpando’ os territórios próximos aos bairros da elite?

2- Este plano dará certo durante quanto tempo? E quando a bolha de violência estourar, ela terá um caráter nacional, generalizado como está tendo no México de hoje?

Spírito Santo
Outubro 2010

————–

Leia também o post irmão deste aqui neste link

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~ por Spirito Santo em 27/10/2010.

Uma resposta to “O Rio das UPPs em tres tempos”

  1. Excelente artigo Spírito, vou weitewrblogar.
    Uma amiga minha passou 10 dias em São Gonçalo, foi visitar a familia. Assistiu sete assaltos. Voltou apavorada. Infelizmente a discussão sobre a violência, ponta do Iceberg dos problemas estruturais que o autor cita, impedem que a sociedade parta para discutir e pleitear o fim do genocídio de uma geração.
    Apoiei o Gabeira no Rio e a Dilma no planalto, porque acredito que a discussão está apenas começando. A discussão sobre porque a minhoca se enrola quando está pegando fogo.
    O esquadrão do L´Coq, só foi aperfeiçoado, e sou contra a milícias de nascença. Me causa ojeriza ver o Rio dominado pelo medo.
    axé
    Romão

    ps: Estou me recuperando lentamente da última operação. Até sentar no Komputer incomoda a área operada. Queria estar mais perto nesta discussões sobre liberdade de imprensa e a nova mídia local, em que me engajei. Local global pra falar mais certo. Pois os métodos dos tubarões são os mesmos, aqui em Hamburgo expulsam o pessoal por usarem chador, aí por usarem Ar15.

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