Multipicai as UPPs e livrai-nos do mal, amém

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ôpa! Aqui vai uma ressalva de última hora:

(Adendo muito previsível a um velho post (leia no link) deste vosso criado, o qual  quisera eu, sinceramente  pudesse ser negado, desmentido,  revisto, rasgado como impertinentee deletado de nossas pobres almas cúmplices).

Tem jeito não.  Ao relento, na pista, na chuva, o que fazer para não se molhar?

————

“Barracão de zinco sem telhado,
sem pintura lá no morro, barracão é bangalô…”

————

Com esta nova onda de UPPs tem uma galera aí, ensandecida,  me propondo a correção daquelas minhas, quiçá exageradas e alarmistas previsões sobre o enfavelamento progressivo da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

_ “Favela não é problema. A favela é solução!”

Já ouvi esta frase por aí, várias vezes da boca de algumas polianas amigas, protegidas atrás de um ‘caveirão’ qualquer. Temiam apenas as balas perdidas e os tiroteios que enfeiavam favelas, potencialmente fashions, ‘turísticas’? E o resto do que as favelas são?

_” O resto é o resto! Vai no passo a passo, num processo de pacificação que se iniciou.”

Dizem as polianas, como hárpias. Dá vontade de exportá-las’ para o Afeganistão incandescente que são as favelas do Jacarezinho, da Vila Cruzeiro, da Zona Oeste da cidade, só  para elas verem o que é guerra a ser pacificada. Choque cultural, é do que precisam.

Mas não. Acham meigo e singelo, haver turismo cultural em favela. Circuito ‘Miséria light’? Meu Deus do céu!

Corra! Corra! (dirá o anúncio) Espaço vip! Almoço pitoresco na laje da pensão da Tia Filó, com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, ao fundo!

_” Cara! Parece a Grécia, ô meu!”_ Dirá o turista paulista, eufórico.

Quando eu vi aqueles jeeps de safari na África circulando pela zona sul do Rio, vindo ou indo para a favela do Vidigal, algo assim, sei lá,  logo pensei:

_” Ih!! Vem mais escrotidão da grossa por aí”

E vieram as UPPs.

‘Bota Abaixo 2, a missão

Quisera eu, sinceramente estar errado, mas sabe o que eu acho? As UPPs me parecem um aperfeiçoamento daquele ‘Bota abaixo’ de 1904 um apartheid de tipo novo, agora insípido e inodoro, asséptico, revisto e aumentado.

Sabem da história? (se não leu ainda leia agora neste link)  Pereira Passos, o prefeito da época, depois de uma foribunda campanha da elite ‘esperta, ‘smart’ do Rio da Belle Èpoque (início do século 19) clamava em seus discursos que a cidade devia ‘civilizar-se’.

O centro do Rio era uma ‘muvuca’ enorme. O povo, por pura necessidade como sempre, habitava um amontoado caótico de casas e barracos precários (‘cabeças de porco’, dizia-se) no que é hoje o centro comercial e financeiro da cidade.

O quadro de explosão populacional no local, cujo perímetro era limitado, exatamente por este trecho compreendido entre as ruas Direita (Primeiro de Março) e Mata Cavalos (Riachuelo), a Rua Larga (Mal Floriano) e o Campo da Aclamação (Campo de Santana), era previsível desde os tempos da Corte, onde por razões óbvias, todo mundo queria estar ou morar, desde negros de ganho, escravos fugidos das fazendas de café, negros livres até comerciantes, vendedores de tudo, marinheiros, funcionários públicos e todo tipo de gente.

A imagem mais parecida com o que seria aquilo hoje em dia, como referencia, poderia ser a de uma grande cidade destas da Índia atual, a parte mais pobre de Mumbai, algo assim.

Logo, ‘civilizar-se’ poderia ser a criação de um plano diretor, com um projeto habitacional decente, expandindo a cidade para um perímetro mais extenso, mas não. Havia um mangue enorme, entre onde hoje é o Campo de Santana e a Praça da Bandeira atual com o mar no outro extremo. No entorno uma cadeia de morros, alguns já tomados por quilombos, tudo isto tornando o custo de obras de expansão da cidade muito maior do que os eventuais bons interesses das autoridades. A solução ao que parece nem foi cogitada. Decidiram simplesmente então, expulsar os habitantes do centro dali, porta afora. Tacaram fogo e demoliram tudo, sem mais conversa.

Vale repetir:

“…De uma hora para outra, a antiga cidade desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro. Havia mesmo na cousa muito de cenografia”.
(Lima Barreto em As Bruzudangas , 1923)

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…”Lá não existe felicidade de arranha-céus
Pois quem mora lá no morro
já vive pertinho do céu…”

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Nasceram assim as nossas favelas urbanas e toda a nossa infecta periferia. Um problema empurrado com a barriga gorda de nossa elite da época que se estende até hoje, multiplicado por mil.

(Agora já dá para você ter uma idéia mais clara do que eles estão fazendo hoje, não dá não? )

Empurrando as pessoas para mais longe um pouquinho, para a periferia da periferia, é o que eles estão fazendo. Começaram tirando a economia ‘invisível’ e estrutural das favelas (o dinheiro do tráfico de drogas e outras clandestinas ‘táboas de salvação’) economia esta administrada, gerida pela maluca bandidagem, a partir dos rios de grana que recebe de sua rica clientela: a classe média ‘fashion’ da zona sul.

Expulso o traficante, a única economia resultante será qual? Dá para saber? Eu aposto que, a princípio,  será a especulação imobiliária, as pessoas vendendo suas casinhas e se mudando para longe dali, para outra freguesia, exatamente para onde já foi a bandidagem.

Traficantes e milícias (que já estão instaladas nos bairros da Zona Oeste) dividirão cidadelas entre si e uma nova conjuntura bandida se organizará (sistema de fornecimento de drogas ‘delivery’, seria?), mantendo a economia do tráfico, agora livre da vizinhança com a violência, funcionando como sempre.

É ou não é o mesmo ‘Bota abaixo’ (ou ‘Bota fora’) de ontem, com mais requintes de crueldade?

A primeira impressão é ótima. Num passe de mágica a PM invade de forma teatral, ‘sorrateira e seletivamente‘ certas’ favelas, expulsa a bandidagem num passe de mágica (na verdade ‘espanta’ a marginália para longe) e assume o terreno com medidas cosméticas e muita maquiagem mescladas com supostas obras sociais (entre as quais a mais supimpa é a graninha extra que uns e outros ganham alugando lajes-cenográficas para a rede Globo filmar bucólicas novelas de Romeu e Julieta).

(Sobre as áreas comandadas pelas milícias, quase nenhuma conversa se ouve)

E a negadinha sem camisa, lotando a laje do Michael Jackson no Dona Marta, batucando um hip hop tosco em latas velhas, feliz da vida com os spots de propaganda rolando na TV à toda hora:

_ “Crianças, tenham esperança! Tudo vai mudar!”

Bem, não lhes parece fácil demais não? Não se criou programa de geração de empregos algum. Nem plano habitacional, nem escola, nem saneamento básico, nada, nada mesmo. Não se investiu praticamente em coisa alguma ligada a verdadeira redenção social das pessoas daqueles locais. Como então – que passe de mágica seria este!..ou seria uma passada trágica? – o problema social mais grave de nossa cidade, as violentas favelas, assim do nada, tomou ‘doril’ e pluft! sumiu?

‘Anh?! Como foi isto? Mister ‘M‘ que nos explique o truque. Para onde foram aquelas bárbaras gangs todas, aquela meninada seca de cocaína até na alma, super armada, magrela de correr pelos becos com fuzis de última geração; os bolsos dos bermudões ‘cargo‘ cheios de munição. Sim, porque, curiosamente nem mesmo presos ou perseguidos estes solertes marginais foram.

E o tráfico de drogas, como eu já disse, emprego direto ou indireto de muitas pessoas destas favelas, se deslocará para onde o seu ‘movimento‘? E porque as áreas ‘pacificadas’ são também, curiosamente apenas aquelas situadas em áreas nobres da cidade ou no trajeto do aeroporto? Será que é porque as Olimpíadas e a Copa do Mundo estão chegando aí?

E os estoques de drogas que estavam armazenados nestas cidadelas do crime? Que fim levaram todas as refinarias clandestinas ali homiziadas? Todos os ‘esquemas’ e todas as ‘bocas’ para onde foram? E todos os baseados, todos os pacotes e todos papelotes? Onde será que a clientela está se abastecendo com a cocaína e a maconha de cada dia que, continuam a rolar soltas pelas noites dos ‘baixos‘ e ‘altospoints da gente descolada e bronzeada que borboleta por aí.

E eu? Porque será que reclamo? Afinal não está dando tudo certo?

_”Viram só como nas favelas ficaram apenas a gente humilde, simples e trabalhadora, que agora está livre de todo mal amém?” _ Dizem as polianas cínicas, com desdém.

Mas é que uma dúvida me assalta… uma a não, duas, três, quatro, uma revoada de dúvidas atrozes: Será que assim que vier a inevitável valorização imobiliária destas áreas, encostas paradisíacas com vista de 360 graus para a orla das praias mais bonitas do planeta, os imóveis – se  é que caixas toscas  de tijolos podem ser chamadas assim – vão mesmo continuar pertencendo aos mesmos habitantes-proprietários? Ué? Mas será que eles são mesmo proprietários e têm títulos de suas ‘posses‘? Duros, quase miseráveis (senão não morariam ali, certo?) eles têm alguma condição de esnobar as propostas irrecusáveis que, muito provavelmente receberão?

Do que pude saber,  de novidade real mesmo só as indústrias de tinta envidando todos os seus esforços de… responsabilidade social na pintura das fachadas das áreas UPPeizadas. São cores bem vivas, quase primárias, alegres enfim seguindo em tudo, aliás, uma moda que  foi – talvez ninguém se lembre mais – lançada pelo Bispo Macedista da IURD Marcelo Crivela no Morro da Providência, no escroto Projeto  denominado Cimento Social (embrião das UPPs) no qual, num incidente bárbaro e sangrento,  três jovens inocentes foram entregues por uma patrulha do exército brasileiro travestida de ‘Força de Segurança’ (vendidos, dizem, por algum dinheiro) como troféu de guerra, para traficantes de uma favela rival.

Os garotos foram torturados, massacrados e lançados numa caçamba de lixo perto do Morro da Mineira para logo depois, quando a coisa ameaçou feder com um escândalo Federal, terem os corpos desovados num lixão em Gramacho, num município vizinho e vilipendiados com a pecha de bandidos (o que as famílias afirmam, veementemente não eram) que mereceriam mesmo morrer, estraçalhados como cachorros vadios como foram.

(As vezes dá vontade de vomitar em cima desta gente)

————–

…”Tem alvorada, tem passarada no amanhecer
sinfonia de pardais anunciando o anoitecer…”

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(Não espalhem não e nem falem por aí que fui eu que falei, mas pelas notícias publicadas pela imprensa na época do tal ‘Cimento Social’, como não podia deixar de ser, o Ministério do Exército do Brasil (sob a fachada do Ministério das Cidades) entrou na malfada parceria com o já então senador bispo-macedista, com o aval da Presidência da República, já que Lula da Silva, era aliado de Crivela na eleição da época – como o é, aliás, até hoje)

O Projeto existiu no Morro da Providência (a emblemática ‘primeira favela’) . Os garotos foram mortos no Morro da Mineira. Ninguém foi acusado ou punido. Crivela continua Senador do Lula e o Lula…bem o Lula é O Cara, certo?

Se Marcelo Crivela – o pai das UPPs – é um bispo do Reino de Deus em que purgatório estarão estes garotos pagando o azar de terem esbarrado com os interesses de um senador da República do Brasil?

Dá pra confiar na lisura e na pureza de propósitos desta gente? Sei não. Parece mais com limpeza étnica no Kosovo (sem o massacre físico, real) Acho que neste formidável ‘bota fora’ a pobre e já tão gigantesca periferia é que se expandirá! Com tantas UPPs e UPAs já anunciadas…haja periferia!

—————

…”E o morro inteiro
no fim do dia
reza uma prece Ave Maria…”

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(As quadrinhas, piegas de doer – vocês já sabem – são do clássicoAve Maria No Morrode Herivelto Martins)

Spírito Santo
Agosto 2010

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~ por Spirito Santo em 28/10/2010.

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