Mal D’África – Angola 1967

Rio-Angola: A ‘pacificação’ armada

Uma analogia impertinente

Eu sei que é altamente inconveniente. No momento as pessoas estão empolgadas com a paz que reina nos bairros da Zona Sul e Norte do Rio, cercados por favelas infestadas de gente e problemas sociais escabrosos.

Anos de violência urbana fermentada nestas favelas, parecem ter sido superados por meio de uma estratégia muito bem planejada e posta em prática pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, de maneira altamente eficiente, quase mágica: As Unidades de Polícia Pacificadora, as festejadas UPPs.

Permita-me, contudo não ser tão otimista ainda, pelo menos por enquanto.

Se você é um chato intransigente, do contra e meio estraga prazeres, faça como eu: Experimente analisar a questão através de uma analogia sarcástica entre dois modelos de ‘pacificação‘ de comunidades.

Este aí em baixo foi o utilizado pelo exército portugues para subjugar os rebeldes no início da guerra revolucionária anticolonialista na então colônia africana de Angola.

Guardadas as devidas proporções (as razões de ser da violencia armada) as semelhanças entre este modelo e o utilizado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro com as UPPs são até bem curiosas. Inquietantes até para um cara exagerado feito eu.

Lá havia um povo inteiro espoliado pelo colonialismo, tentando se libertar por meio das armas, numa luta com fundas raízes na história africana, remontando já mais de trezentos anos. Aqui, uma maioria de pobres – e vejam que pitoresco – descendentes daquele mesmo povo angolano, excluídos ainda hoje de tudo, tentando sobreviver à custa de vários expedientes deseperados, entre os quais, uns poucos optaram por fazê-lo por meios violentos, portando armas pesadas na defesa de cidadelas largadas no mundo, cuja economia é oxigenada ou se se baseia – quase que inteiramente – no comércio de drogas e outras atividades ilícitas.

No filme sobre a guerra de Angola, é bastante pungente a imagem das ‘forças’ rebeldes subjugadas, esfarrapadas, integradas por velhos e crianças, a está época (início dos combates), exatamente como os traficantes do Rio de Janeiro, não passando muito de pequenos bandos armados.

Pode ser impertinencia da minha parte, mas as imagens mostrando o comportamento ordeiro e submisso de pessoas que parecem ser aqueles mesmos rebeldes antes aprisonados, agora vestidos como brancos e aparentemente felizes em um campo de concentração colonial é incrivelmente parecida com as imagens da atual propaganda governamental que a gente vê na TV, mostrando as quiçá felizes comunidades ‘pacificadas‘ pelas UPPs do Rio de Janeiro.

Existem muitas outras diferenças nos dois eventos, claro. A principal delas, aliás, é bastante sutil:

Portugal perdeu a guerra.

O documentário italiano – também, como se vê uma peça de propaganda (colonialista) – se chama ‘Mal d’ Africa’. Ele foi realizado por Stanislau Nievo em 1967 em Angola, logo após iniciada a insurgência das frentes guerilheiras UPA e MPLA, vitoriosas ao termo da guerra, em 1975.

Para os os quase angolanos daqui a luta, quase infinda, continua. A vitória, contudo é certa.

Veja este emblemático e impressionante documentário (em duas partes) logo abaixo:

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~ por Spirito Santo em 30/10/2010.

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