Droga in Rio: O Mapa e o pulo do gato


Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro. Entrevista especial com José Cláudio Alves

Bem, parece incrível! É quase exatamente como tudo que temos dito aqui (siga a série aqui no blog a partir deste e seguindo este post)  – e nem seja por isso porque, para quem sabe ler, um pingo é letra. O fato é que eu concordo com o José Claudio em número gênero e grau.

Leia  a seguir este indispensável post de José Claudio Alves. Leia rápido antes que o quadro analisado mude. A nossa caótica situação é muito dinâmica.

José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e membro do Iser Assessoria. Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está por trás desses conflitos atuais no Rio de Janeiro?

José Cláudio Alves – O que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade. Isso já vem se dando há algum tempo e culminou na situação que estamos vivendo atualmente. Há elementos presentes nesse conflito que vêm de períodos maiores da história do Rio de Janeiro, um deles é o surgimento das milícias que nada mais são do que estruturas de violência construídas a partir do aparato policial de forma mais explícita. Elas, portanto, controlarão várias favelas do RJ e serão inseridas no processo de expulsão do Comando Vermelho e pelo fortalecimento de uma outra facção chamada Terceiro Comando. Há uma terceira facção chamada Ada, que é um desdobramento do Comando Vermelho e que opera nos confrontos que vão ocorrer junto a essa primeira facção em determinadas áreas. Na verdade, o Comando Vermelho foi se transformando num segmento que está perdendo sua hegemonia sobre a organização do crime no Rio de Janeiro. Quem está avançando, ao longo do tempo, são as milícias em articulação com o Terceiro Comando.

Um elemento determinante nessa reconfiguração foi o surgimento das UPPs a partir de uma política de ocupação de determinadas favelas, sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses estão voltados para a questão do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro setor, ou seja, o capital que estará envolvido nas Olimpíadas. Então, a expulsão das favelas cariocas feita pelas UPPs ocorre em cima do segmento do Comando Vermelho. Por isso, o que está acontecendo agora é um rearranjo dessa estrutura. O Comando Vermelho está indo agora para um confronto que aterroriza a população para que um novo acordo se estabeleça em relação a áreas e espaços para que esse segmento se estabeleça e sobreviva.

IHU On-Line – Mas, então, o que está em jogo?

José Cláudio Alves – Não está em jogo a destruição da estrutura do crime, ela está se rearranjando apenas. Nesse rearranjo quem vai se sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico de drogas. A mídia nos faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada nisso – que há uma luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio de Janeiro e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos. Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime.

A realidade do RJ exige hoje uma análise muito profunda e complexa e não essa espetacularização midiática, que tem um objetivo: escorraçar um segmento do crime organizado e favorecer a constelação de outra composição hegemônica do crime no RJ.

IHU On-Line – Por que esse confronto nasceu na Vila Cruzeiro?

José Cláudio Alves – Porque a partir dessa reconfiguração que foi sendo feita das milícias e das UPPs (Unidades de Policiamento Pacificadoras), o Comando Vermelho começou a estabelecer uma base operacional muito forte no Complexo do Alemão. Este lugar envolve um conjunto de favelas com um conjunto de entradas e saídas. O centro desse complexo é constituído de áreas abertas que são remanescentes de matas. Essa estruturação geográfica e paisagística daquela região favoreceu muito a presença do Comando Vermelho lá. Mas se observarmos todas as operações, veremos que elas estão seguindo o eixo da Central do Brasil e Leopoldina, que são dois eixos ferroviários que conectam o centro do RJ ao subúrbio e à Baixada Fluminense. Todos os confrontos estão ocorrendo nesse eixo.

IHU On-Line – Por que nesse eixo, em específico?

José Cláudio Alves – Porque, ao longo desse eixo, há várias comunidades que ainda pertencem ao Comando Vermelho. Não tão fortemente estruturadas, não de forma organizada como no Complexo do Alemão, mas são comunidades que permanecem como núcleos que são facilmente articulados. Por exemplo: a favela de Vigário Geral foi tomada pelo Terceiro Comando porque hoje as milícias controlam essa favela e a de Parada de Lucas a alugam para o Terceiro Comando. Mas ao lado, cerca de dois quilômetros de distância dessa favela, existe uma menor que é a favela de Furquim Mendes, controlada pelo Comando Vermelho. Logo, as operações que estão ocorrendo agora em Vigário Geral, Jardim América e em Duque de Caxias estão tendo um núcleo de operação a partir de Furquim Mendes. O objetivo maior é, portanto, desmobilizar e rearranjar essa configuração favorecendo novamente o Comando Vermelho.

Então, o combate no Complexo do Alemão é meramente simbólico nessa disputa. Por isso, invadir o Complexo do Alemão não vai acabar com o tráfico no Rio de Janeiro. Há vários pontos onde as milícias e as diferentes facções estão instaladas. O mais drástico é que quem vai morrer nesse confronto é a população civil e inocente, que não tem acesso à comunicação, saúde, luz… Há todo um drama social que essa população vai ser submetida de forma injusta, arbitrária, ignorante, estúpida, meramente voltada aos interesses midiáticos, de venda de imagens e para os interesses de um projeto de política de segurança pública que ressalta a execução sumária. No Rio de Janeiro a execução sumária foi elevada à categoria de política pública pelo atual governo.

IHU On-Line – Em que contexto geográfico está localizado a Vila Cruzeiro?

José Cláudio Alves – A Vila Cruzeiro está localizada no que nós chamamos de zona da Leopoldina. Ela está ao pé do Complexo do Alemão, só que na face que esse complexo tem voltada para a Penha. A Penha é um bairro da Leopoldina. Essa região da Leopoldina se constituiu no eixo da estrada de ferro Leopoldina, que começa na Central do Brasil, passa por São Cristóvão e dali vai seguir por Bom Sucesso, Penha, Olaria, Vigário Geral – que é onde eu moro e que é a última parada da Leopoldina e aí se entra na Baixada Fluminense com a estação de Duque de Caxias.

Esse “corredor” foi um dos maiores eixos de favelização da cidade do Rio de Janeiro. A favelização que, inicialmente, ocorre na zona sul não encontra a possibilidade de adensamento maior. Ela fica restrita a algumas favelas. Tirando a da Rocinha, que é a maior do Rio de Janeiro, os outros complexos todos – como o da Maré e do Alemão – estão localizados no eixo da zona da Leopoldina até Avenida Brasil. A Leopoldina é de 1887-1888, já a Avenida Brasil é de 1946. É nesse prazo de tempo que esse eixo se tornou o mais favelizado do RJ. Logo, a Vila Cruzeiro é apenas uma das faces do Complexo do Alemão e é a de maior facilidade para a entrada da polícia, onde se pode fazer operações de grande porte como foi feita na quinta-feira, dia 25-11. No entanto, isso não expressa o Complexo do Alemão em si.

A Maré fica do outro lado da Avenida Brasil. Ela tem quase 200 mil habitantes. Uma parte dela pertence ao Comando Vermelho, a outra parte é do Terceiro Comando. Por que não se faz nenhuma operação num complexo tão grande ou maior do que o do Alemão? Ninguém cita isso! Por que não se entra nas favelas onde os o Terceiro Comando está operando? Porque o Terceiro Comando já tem acordo com as milícias e com a política de segurança. Por isso, as atuações se dão em cima de uma das faces mais frágeis do Complexo do Alemão, como se isso fosse alguma coisa significativa.

IHU On-Line – Estando a Vila Cruzeiro numa das faces do Complexo, por que o Alemão se tornou o reduto de fuga dos traficantes?

José Cláudio Alves – A estrutura dele é muito mais complexa para que se faça qualquer tipo de operação lá. Há facilidade de fuga, porque há várias faces de saída. Não é uma favela que a polícia consegue cercar. Mesmo juntando a polícia do RJ inteiro e o Exército Nacional jamais se conseguiria cercar o complexo. O Alemão é muito maior do que se possa imaginar. Então, é uma área que permite a reorganização e reestruturação do Comando Vermelho. Mas existem várias outras bases do Comando Vermelho pulverizadas em toda a área da Leopoldina e Central do Brasil que estão também operando.

Mesmo que se consiga ocupar todo o Complexo do Alemão, o Comando Vermelho ainda tem possibilidades de reestruturação em outras pequenas áreas. Ninguém fala, por exemplo, da Baixada Fluminense, mas Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo são áreas que hoje estão sendo reconfiguradas em termos de tráfico de drogas a partir da ida do Comando Vermelho para lá.

Por exemplo, um bairro de Duque de Caxias chamado Olavo Bilac é próximo de uma comunidade chamada Mangueirinha, que é um morro. Essa comunidade já é controlada pelo Comando Vermelho que está adensando a elevação da Mangueirinha e Olavo Bilac já está sentindo os efeitos diretos dessa reocupação. Mas ninguém está falando nada sobre isso.

A realidade do Rio de Janeiro é muito mais complexa do que se possa imaginar. O Comando Vermelho, assim como outras facções e milícias, estabelece relação direta com o aparato de segurança pública do Rio de Janeiro. Em todas essas áreas há tráfico de armas feito pela polícia, em todas essas áreas o tráfico de drogas permanece em função de acordos com o aparato policial.

IHU On-Line – Podemos comparar esses traficantes que estão coordenando os conflitos no RJ com o PCC, de São Paulo?

José Cláudio Alves – Só podemos analisar a história do Rio de Janeiro, fazendo um retrospecto da história e da geografia. O PCC, em São Paulo, tem uma trajetória muito diferente das facções do Rio de Janeiro, tanto que a estrutura do PCC se dá dentro dos presídios. Quando a mídia noticia que os traficantes no Rio de Janeiro presos estão operando os conflitos, leia-se, por trás disso, que a estrutura penitenciária do Estado se transformou na estrutura organizacional do crime. Não estou dizendo que o Estado foi corrompido. Estou dizendo que o próprio estado em si é o crime. O mercado e o Estado são os grandes problemas da sociedade brasileira. O mercado de drogas, articulado com o mercado de segurança pública, com o mercado de tráfico de drogas, de roubo, com o próprio sistema financeiro brasileiro, é quem tem interesse em perpetuar tudo isso.

A articulação entre economia formal, economia criminosa e aparato estatal se dá em São Paulo de uma forma diferente em relação ao Rio de Janeiro. Expulsar o Comando Vermelho dessas áreas interessa à manutenção econômica do capital. O que há de semelhança são as operações de terror, operações de confronto aberto dentro da cidade para reestruturar o crime e reorganizá-lo em patamares mais favoráveis ao segmento que está ganhando ou perdendo.

IHU On-Line – Como o senhor avalia essa política de instalação das UPPs – Unidades de Policiamento Pacificadoras nas favelas do Rio de Janeiro?

José Cláudio Alves – É uma política midiática de visibilidade de segurança no Rio de Janeiro e Brasil. A presidente eleita quase transformou as UPPs na política de segurança pública do país e quer reproduzir as UPPs em todo o Brasil. A UPP é uma grande farsa. Nas favelas ocupadas pelas UPSs podem ser encontrados ex-traficantes que continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade social permanece, assim como o não acesso à saúde, educação, propriedade da terra, transporte. A polícia está lá para garantir o não tiroteio, mas isso não garante a não existência de crimes. A meu ver, até agora, as UPPs são apenas formas de fachada de uma política de segurança e econômica de grupos de capitais dominantes na cidade para estabelecer um novo projeto e reconfiguração dessa estrutura.

IHU On-Line – A tensão no Rio de Janeiro, neste momento, é diferente de outros momentos de conflito entre polícia e traficantes?

José Cláudio Alves – Sim, porque a dimensão é mais ampla, mais aberta. Dizer que eles estão operando de forma desarticulada, desesperada, desorganizada é uma mentira. A estrutura que o Comando Vermelho organiza vem sendo elaborada há mais de cinco anos e ela tem sido, agora, colocada em prática de uma forma muito mais intensa do que jamais foi visto.

A grande questão é saber o que se opera no fundo imaginário e simbólico que está sendo construído de quem são, de fato, os inimigos da sociedade fluminense e brasileira. Essa questão vai ter efeitos muito mais venosos para a sociedade empobrecida e favelizada. É isso que está em jogo agora.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=38721

A ‘Grande’ batalha do Alemão


Zoinho, menino de rua de dez anos, enfrenta os policiais de São Paulo - foto de Evandro Monteiro

(Zoinho, menino de rua de dez anos, enfrenta os policiais de São Paulo – foto de Evandro Monteiro)

O cerco na história : Um mito patriótico

As pessoas se esquecem, mas a história está cheia de cercos covardes, de tropas desmedidamente numerosas e superarmadas contra gatos pingados rebeldes que resistem, não se sabe como – a maioria das vezes bravamente – diante de tropas inimigas e a população vociferante que defende os invasores.

Os rebeldes cercados são sempre bandidos odiosos, escória que deve morrer trucidada, queimada, bombardeada sem perdão, uma ‘corja de assassinos’ que se quer, ironicamente também assassinar.

E vejam que curioso: Todos os nacionalistas, de todas as revoluções e rebeliões da história foram considerados assim: ‘Corja de bandidos’, independentemente   da justeza moral ou imoral do ideal ou causa que os fez pegar em armas, a ponto de lutar até a última bala ou arma ou mesmo morrer lutando com as próprias mãos.

Ao fim, muitas vezes até vitoriosos (como na velha Revolução Cubana de Fidel e Che e tantas outras) é incrível como, na maioria dos casos, estes ‘bandidos’ passaram a representar exemplos ímpares de heroísmo para as gerações futuras.

Da seita dos ‘Maus Maus’ que trucidavam belgas colonialistas no Congo, a Patrice Lumumba trucidado por Mobutu a serviço da CIA (e dos vingadores belgas), dos terroristas ‘homicidas’ do ANC de Nelson Mandela, aos ‘bastardos inglórios’ Partigianni ou Partisans na segunda guerra mundial, até Tiradentes, Lampião, Spartacus, João Cândido… quem não se lembra destes ‘odiosos bandidos’ de épocas nem tão remotas, que hoje de algum modo, representam admiráveis e memoráveis heróis da humanidade?

Quase nunca se quer a rendição deste tipo de rebelde minoritário que por sua ousadia que nos parece insana, deixa o inimigo sempre possesso, com sede de sangue. Só se oferece chance de rendição a ele quando o seu trucidamento (geralmente fuzilado indefeso num beco escuro e sem testemunhas como foi Che Guevara)  por alguma razão vai desmoralizar a imagem do trucidador, expor a sua covardia abjeta (e este parece ser o caso da Guerra do Rio)

Do cerco dos judeus rebelados no Gueto de Varsóvia e os inúmeros outros cercos covardes das tropas nazistas na segunda guerra mundial ao cerco á Zumbi de Palmares ou ao cerco aos ‘300 de Esparta’, as pessoas que, de forma geralmente sórdida torcem pelo trucidamento do inimigo por uma força estupidamente forte e gigantesca (como é o caso flagrante do Complexo do Alemão) se esquecem que, no futuro, os cercados humilhados e trucidados costumam vencer aos olhos da história.

Hoje são ‘corja‘, ‘gentalha’ que merece a morte. Amanhã podem ser heróis exemplares que desafiaram de peito aberto a iniquidade, a ignorancia e, sobretudo, a covardia.

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Entretanto, ainda sem despertar o entusiasmo dos generais, a defesa até a morte tem sido um dos grandes recursos da propaganda patriótica e, freqüentemente, o símbolo da cidade cercada tem representado o próprio país, assediado pelos estrangeiros. Não é um fato isolado, Jerusalém, símbolo das desventuras e ilusões judias, assediada por seus vizinhos idólatras ou maometanos.

A síndrome do cerco afeta também a muitos outros povos, entre eles o polaco, concebido por seus ideólogos como uma comunidade católica acossada pelos prussianos luteranos, alemães nazistas e russos cismáticos ou comunistas. Numerosos nacionalismos têm sabido explorar a imagem de um idealizado espaço patriótico, culto e piedoso, assediado pelos bárbaros do exterior.

…Representações instintivas, nas quais a psicologia política adivinha a capacidade de resistência do sitiado como resultado de seus valores e da proteção divina. O assedio é uma prova de Deus, como o ataque do Demônio à consciência. Nada tem estimulado tanto o patriotismo como o cerco, culminado com uma hecatombe seja em Masada, em El Álamo ou em Numância.”

(‘O cerco na simbologia da história de Espanha’ -Gabriel Cardona)

Alemão tem um dos piores indicadores sociais

(Dados extraídos do site G1)

“O bairro do Conjunto de Favelas do Alemão é dono de uma da piores médias do Índice de Desenvolvimento Social (IDS) da cidade. O índice, calculado pelo Instituto Pereira Passos (IPP), da prefeitura, mede o acesso a saneamento básico, a qualidade habitacional, o grau de escolaridade e a renda da população carioca.

Do total de 158 bairros do Rio, o Alemão ocupa a 149ª posição, com um IDS de 0,474. Quanto mais perto do número 1, melhor o índice. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado no ano 2000, 65.026 pessoas vivem nos 18.245 domicílios do complexo, que é formado por 14 favelas, de acordo com o IPP. Deste total, mais de 15% das residências não contam com rede de esgoto.”

Operação conta com 2.600 homens

(Dados extraídos do site G1)

“Cerca de 2.600 homens das Forças Armadas e das Polícias Militar, Civil e Federal se preparam para entrar no Conjunto de Favelas do Alemão a qualquer momento. Na tarde de sábado (27), veículos blindados avançaram à entrada da comunidade e mais de trinta suspeitos foram detidos e levados para uma delegacia da região.

A megaoperação de cerco ao local inclui 800 soldados paraquedistas, a tropa de elite do Exército, 200 fuzileiros navais, que transportam a tropa, 300 agentes da polícia federal e 1.300 policiais militares e civis do Rio. Ainda na tarde de sábado, blindados do Exército chegaram a entrar na favela, mas saíram pouco depois.”

Sabe-se que estão – estavam – encastelados no morro do Complexo do Alemão, no máximo 500 (na exagerada estatística oficial baseada sabe-se lá em que) e, no mínimo – embora seja mais realista esta segunda projeção – algo em torno de 100 bandidos.  A cada prisioneiro – entre os poucos que se entregam ou são pegos como suspeitos – que as câmeras exibem o que vemos é aquela mesma garotada negra e magrela, provavelmente o perfil da maioria desta bandidagem mulambenta cercada por estes milhares de soldados ensandecidos.

Uma comparação entre 2.600 soldados (podem ser até 4.000) sarados, superequipados e vestidos e pintados como se estivessem indo para uma batalha da Terceira Guerra Mundial e os garotos mulambentos que vamos vendo presos, aqui e ali, é de fazer ruborizar pedófilo.

“A Vila Cruzeiro surgiu no século 19. Os primeiros moradores eram escravos fugidos que ficavam no local sob a proteção de um padre abolicionista da Igreja da Penha. As terras onde fica a favela são de propriedade da Igreja. Hoje, o predomínio dos afro-descendentes está presente: no samba, no futebol e até salões de beleza….”

(Alberto Barbosa, editor fundador do jornal A voz da Penha, citado por Miguel Maron no Facebook).

Você já parou para pensar em quem são e o que faz ali no alto daquele morro, pronta para morrer ou ser encarcerada, aquela garotada majoritariamente negra (e não me cansem a beleza: o dado étnico é neste caso fundamental), que, também em sua maioria nasceu e foi criada ali mesmo naquele complexo e imundo mundo que de alemão não tem nada?

Não? Então pare e pense.

A…ops!…’batalha‘ pela re-tomada do ‘território’ foi iniciada com pompa e circunstancia ás 8.00 hs desta manhã.  Um formidável desfile de 7 de Setembro subiu as vielas miseráreis do Morro do Alemão. Agora às 9.30, a TV já informa, bombasticamente que “as tropas federais venceram a batalha e que o morro estava tomado”. Vitória? Como assim? Não vi  ainda nenhum soldado inimigo preso ou morto. Imagino que tenham trucidado um ou outro gato pingado, mas nada se  sabe além da informação de que os bandidos – será que ouvi direito? – depois de cercados por este exército hollywoodiano, para Spilberg nenhum botar defeito…fugiram, se evadiram!

Para onde, meu Deus? para o céu?

Como já se sabia de antemão quem seria o vencedor militar desta guerra do Rio (esta era fácil, certo? 2600 contra 500 dava 5 contra 1, moleza… isto sem se falar nos tanques de guerra), hoje é o dia e a hora de escolher o vencedor MORAL desta guerra exemplar, ou seja: é hora de nós todos optarmos de que lado MORALMENTE estamos, antes que percamos, totalmente a compostura como sociedade.

Depois só vai faltar perder – de novo – a Copa do Mundo de 2014 para o Uruguai.

“Folga nego
Branco num vem cá
Se vié
pau há de levar

(Quadrinha rebelde atribuída aos ‘odiosos bandidos’ quilombolas de Palmares cercados em 1695 em  Pernambuco, Brasil)

Spírito Santo
Novembro de 2010

Kwame Opoku:Brazil and Black Consciousness


By Spírito Santo
(Translate by Lucia Kudielela)

For Capoeira Africana blog

Many years ago when I lived in Vienna, Australia, Kwame Opoku from Ghana, a good friend of mine (who I met in Europe), decided to confess his opposition to the fact that I was unable to do certain things in Brazil because of the irreversible racism.

He was an attorney that worked at the United Nations Headquarters in Vienna and an adept of the great causes of our times. I had the honor to appreciate pictures of him taken with Amilcar Cabral, Nelson Mandela, Sam Nujoma and many other memorable figures that were part of the African rebirth. My friend was connected with these individuals either because of his profession or militancy. Either way, being so close to a person that was directly associated to the modern history of the black African made me feel exulted. I also felt like this when I was close to those giant fighters of men who represented pride in the human race and the heroes of my generation.

It took me a long time to understand Kwame’s contradiction. It intrigued and shamed me a lot as I felt, as a black Brazilian, a bit lowered with a weird feeling of inferiority to a person that was just like me that, yet feeling vain glory for his spirit of combat, political engagement, militancy, etc.

Well, before becoming my friend, Kwame (he suspected I was a member of a noble Ashanti cast, as I was able to find out from one of his countrymen) attended high school in Accra, where he played the piano. He was an African refined like a European, so to speak, but above all an African with a burning desire to learn how to play an instrument of his ancestral culture. Needless to say, becoming his teacher of the African “marimba” (a musical instrument) to this “real” African was both astonishing and unusual. But that was it! Just imagine – Kwame bought the instrument that I had made in Brazil and took it to Vienna. A year later, Kwame became my pupil through a cultural relationship between an African-Descent Brazilian and a native African.

This made me excited and redeemed a bit. But I must admit that it took me some time to understand the nature of that feeling of disdain for Kwame, for my lamentations of a revolted black Brazilian.

“There is racism in Brazil? And all of you, being as many as you are, accept it?

This was the admonition more recurrent that he made, trying to say that maybe we were too condescending and dismissive of the comforts and obstacles that racism imposed on us. I was never able to convince him of the insuperable forces of the mooring cables that hindered us. Nor did I ever recover from that sensation of a confronted wild beast. Until today, I have thought that maybe, in reality, something lacks in us Brazilians. And this was explicit in the honest expression of Kwame, the African. The consciousness of what it means to be a person of African descent, a misguided black African, besides the stigma that we experience of ignorant, non-educated and submissive people that we carry on our backs.

We should recognize that only our African ancestors brought to Brazil as slaves, subjugated by brutal force, are the ones who had the right to incorporate, assimilate, and submit before oppression (even pretending, jumping backwards like the capoeiristas dodging the kicks) for physical survival.

We should also recognize, however, that being able to become cowards before brutal forces and death many of our ancestors died not submissively but fighting to leave us a legacy and lessons from the blood of their ascendance.

I know these are bitter words in days we should be exalting our pride but I have decided to say it right now that something is lacking in black consciousness – the knack to manage valid tools of subordination, of revolt, and the ample consciousness of our rights not only for black people but for the basic human rights of all men. These rights are usually only granted to a “good” white person, “solidary” or “generous”. Many are poor men and almost never conquered by our own organized efforts, carried by our generally faulty leadership, opportunistically placed in power.

aybe something is missing in us black Brazilians – the African instinct to break, once and for all, the emotional slavery that is still engrained in us; the consciousness that whatever happens, what is done to submit us, we are and will always be free, indeed.

After my stay in Vienna, ironically the homeland of Adolf Hitler, exchanging lessons on blackness with Kwame Opoku, the African, I started to observe better the subtle difference that exists between to have black consciousness, and to have the consciousness of being black.

The first one (to have) dwells in the profound and reflecting understanding of moral values, ethical, social, cultural, etc., contained in the African heritage, of brothers and sisters in the Diaspora, seeking incessantly for the essence of having the symbolic Africa within us, to have humility wherever we are in this world.

The second one (to be) would be to keep the unbroken soul, the clean ideological consciousness, acquired in dealing with repetitive social exclusion and racism in a country with black and white people (what should we do!) looking for ways to do “the right thing” along with the majority. This is usually accompanied by the occasional black minority, at the “picnic” of a sordid cast, trying to break the mental barriers of our submission, of that emotional slavery that annihilates and lowers all of us.

The socio-racial consciousness will never be enclosed in the dark ghetto of our own, in the dichotomy syndrome, that separates diabolically, blacks and whites, perpetuates and legitimates inequality. This inequality is justifiable by the alleged differences of one, the white elite, supposedly always superior to all others. All of those that are not white are considered black simply by exclusion.

The plain consciousness to know how to excel in this world of inequality that racism injected in the heads of us all, blacks and “whites” of Brazil.

The consciousness, anyway, that Brazil is essentially a country with black people will only reach the awaited success of its civilizing process (as Darcy Ribeiro would say) on the day that it has a consciousness of pan-African nature and one that is super human. It will come when it has assumed the Brazilian in all of us.

I did not see Kwame Opoku, the African, after leaving Vienna. I have received random news. For example, that he has retired from United Nations. After seeing him for the last time, many things changed. Mandela was freed from prison. South Africa became a great nation. Angola is walking toward the same goal. The suffered Africa, under renitent pockets of dictatorship, and poverty, still lives on.

I wish, on this Day of Black Consciousness in Brazil, that we blacks and whites of this country of ours of perfectly accomplishable dreams and temporary anguishes, make an assessment of consciousness and start the struggle at our own expense, knowing this is the only way we will be able to know that the victory is assured.

Spírito Santo

Rio de Janeiro 2010

(https://spiritosanto.wordpress.com)

Rio de Janeiro: No fogão os ovos e as omeletes


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Todo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons.Foto Spírito Santo -Cartuchos recolhidos em guerra de traficantes e polícia no Complexo de favelas da Maré

Na frigideira ardente da cidade vendo a coisa ficar preta

Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública e um dos autores do livro ‘Elite da Tropa’ (que inspira o filme ‘Tropa de Elite’) tem afirmado ultimamente que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, do tipo como este praticado por facções de favelados – que no momento travam o que parece ser uma de suas ultimas batalhas, acossadas que estão por um desmesurado e ridículo exército de proporções mais que  iraquianas – está com os dias contados por ser antiquado, pesado e  militarmente muito custoso.

Luiz Eduardo propõe que no futuro próximo – com o que eu concordo plenamente – o tráfico de drogas no Rio de Janeiro será mais ‘limpo’, sendo a distribuição feita por um sistema de tipo delivery (como aliás, ao que parece, já é feito em áreas próximas à favelas dominadas por milícias)

Por este pragmático ponto de vista, a violência urbana, impressionantemente exacerbada agora em terrorismo e guerrilha urbana, arrefeceria. Na minha modesta opinião de leigo, contudo, infelizmente, não será bem por aí.

Para começar, esta ‘modernização dos serviços’ a que Luiz Eduardo se refere se formos analisá-la um pouco mais acuradamente , diz respeito apenas à distribuição da droga no varejo. Falta um elemento crucial nesta equação que são os problemas do transporte e distribuição no atacado e o armazenamento dos estoques, principais razões do tráfico ter que ser armado.

É óbvio que as facções e cartéis não estão armados até os dentes apenas para se defender da repressão da polícia. A polícia na verdade – ainda mais em se tratando da polícia corrupta do Rio de Janeiro – é o menor dos problemas neste caso, às vezes até uma aliada estratégica e essencial.

O que ocorre na verdade é que as facções e cartéis, por conta do alto valor e dos lucros exorbitantes do negócio – a droga ilícita talvez seja a mercadoria mais valorizada da economia capitalista hoje em dia – passaram a depender da formação de verdadeiros exércitos de seguranças armados para, não só se defenderem das gangs rivais, na defesa dos estoques e do território onde estão instalados os seus depósitos, quanto da polícia e das forças de segurança em geral que, tanto podem ambicionar a posse da mercadoria por serem corruptas, ou pretender atacar os armazéns para apreender a mercadoria, no intuito de cumprir a lei.

A grande sacada do tráfico no Rio de Janeiro foi a instalação de seus depósitos, ‘lojas’ (‘bocas‘) e laboratórios de pós refino, em favelas quase inexpugnáveis, estratégia sugerida e motivada pelas especiais características do modelo de racismo e exclusão social adotado no Rio de Janeiro, caracterizado pela formação de guetos miseráveis ao lado de bairros finos, coalhados de consumidores potenciais de drogas ilícitas.

Quem pariu Mateus que o embalance.

No meu entender, portanto o bandido favelado perderá em breve sim – e isto é líquido e certo – o controle comercial do negócio das drogas, mas terá como destino inexorável passar a ser mero ‘soldado’, ‘segurança’ de cartéis ‘de elite’.

Este fenômeno, aliás, já ocorre de forma generalizada e recorrente em áreas antes dominadas por traficantes favelados, que foram invadidas por milícias (e hoje estão controladas por policiais bandidos) nas quais parte da bandidagem ‘convencional’– a que não foi assassinada nos combates – passou a trabalhar como ‘soldadesca’ a serviço destes novos chefes.

O caso mais emblemático deste novo modelo é, com efeito, a favela da Cidade de Deus onde ao que nos indicam alguns moradores informantes, já há alguns anos a milícia que invadiu o local ‘terceiriza’ o tráfico de drogas contratando os serviços de bandidos sobreviventes como ‘sub-gerentes’ e ‘soldados’. Não é de todo improvável portanto – pelo menos para os menos ingênuos e ufanistas – que o mesmo esquema possa vir a funcionar (já deve estar até sendo testado) em favelas controladas por UPPs.

É bastante provável, pois, que brevemente não haverá mais a eventual ascensão econômica de pobres jovens favelados, alçados à condição de gerentes de favelas ou chefes de facções e candidatos ao encarceramento eterno em prisões e segurança máxima nos confins do país.

A grande mudança no tráfico de drogas no Rio de Janeiro (e no Brasil) em suma, é que ele deve passar agora a ser comandado por comerciantes politicamente mais articulados, em sua maioria indivíduos brancos e de classe média, que terão a seu serviço (incumbindo-se da parte mais ‘suja’ e pesada do ramo) a mesma massa de desempregados de sempre: A reles ralé.

É incrível como tem gente que, pouco se lixando para a exclusão social exacerbada do modelo econômico brasileiro, aplaude a guerra atual contra bandos de traficantes favelados em fuga, julgando de forma egoísta e covarde que seu problema (a violência urbana) estará resolvido, mesmo o sendo à custa de seletivos massacres de bandidos, abatidos como moscas à tiros por frios snipers aboletados em helicópteros, com inocentes desvalidos, sendo atingidos pelo fogo cruzado.

Ledo engano. Toda iniquidade cobra o seu preço. O castigo, mais dia menos dia, de um jeito ou de outro, chega a cavalo.

Este prognóstico (paradigmático só em certa medida) na verdade é terrível para todos nós por que indica que a nova fase do tráfico de drogas por aqui pode ser a dos cartéis comandados por chefões intelectualmente mais articulados, com um esquema de contenção de rivais e inimigos mais militarizado ainda, cada vez mais especializado, portanto em ações de guerrilha urbana e terrorismo – como ocorreu no México agora mesmo ou na Colômbia de décadas atrás.

O povo negro e  pobre das favelas por isto mesmo, se mantido na mesma situação de penúria em que se encontra, retido em guetos infectos que só mudarão de mãos, continuará a fornecer soldados violentos para esta guerra sem fim que – Deus queira que não – entrará agora na fase do Crime realmente Organizado.

Como não se faz omelete sem quebrar ovos e os ovos somos nós, quem viver – queira ou não queira – verá a coisa preta, cada vez mais preta.

Spírito Santo
Novembro 2010

Cidade Bandida:Cidade Perdida


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Eu, correspondente de guerra em pânico declaro: _ Quero minha mãe!

Que se danem os patrulhadores ideológicos. Se nem mesmo esta guerra imbecil foi declarada porque eu não poderia me declarar Correspondente de Guerra. Assumo: hoje eu sou. Quem não é? Falo aqui do meu bunker-apartamento, a quilômetros de distancia do front, mas já vi passaram três helicópteros pela minha janela.

O discurso padrão da classe média carioca (da parte menos cínica ou individualista dela, claro) sobre a chamada ‘Guerra do Rio’, pinçado por mim no facebook hoje –  é mais ou menos o seguinte:

“…desconfio que – nada obstante toda dor, os sustos e o medo – essa confusão toda é, no agregado, um sinal positivo.

Quando criminosos comuns… partem para aterrorizar indiscriminadamente a população, estão adotando uma tática de altíssimo risco – sobretudo pra eles próprios.

Se ultimamente têm estado mais propensos a aceitar esses riscos, é sinal de que a situação geral deles tem-se deteriorado numa direção crítica para a manutenção de seus interesses habituais.

Talvez eu esteja sendo ingênuo, não sou entendido no assunto. Mas meu palpite, numa situação dessas, é manter o curso. Ajustes no plano tático imagino que devem ser feitos todo dia. Mas, na estratégia, o negócio é segurar o leme.

“…Estamos retomando o território. Antes mais recentemente, fizeram os franceses e aliados contra os nazistas, mais recentemente a Colombia. Agora é nossa vez de exigir a liberdade.”

“…Acredito que a tática de implantação das UPPs foi correta, qdo avisam sobre a tomada das comunidades com antecedência. Dominam territórios sem conflitos, empurrando os bandidos para uma única localidade. Só aí poderemos dizer se houve uma mudança real na tática da polícia, no concernente à execução de bandidos. De qq forma, tivemos um avanço, qdo se tem um mínimo de estratégia.”

‘Helicópteros’? ‘Território’, ‘baixas’, ‘prisioneiros’, ‘estratégia’, tática’, ‘cerco’, ‘logística’, ‘desgaste do inimigo’, ‘munição’, ‘armamento’, ‘veículos de combate’ etc. Todo o jargão que ouvi anteontem na coletiva de um porta voz da Polícia Militar do Rio é o de combate. Quase nenhuma palavra sobre como a população deveria proceder. Recomendam que fiquemos em casa (como ‘refugiados’, pensei…).

Bem, mas a situação piorou bastante depois disto. Daí uma coisa ficou me martelando a cabeça: Contei… sei lá… uns 50, no máximo 80 bandidos cercados naquele morro. Como é isto? Envolvido na operação, direta ou indiretamente, com soldados espalhados pela cidade estava, simplesmente todo o contingente da Polícia Militar do Rio, da Polícia Civil mais 800 fuzileiros navais, tanques de guerra, blindados ‘caveirões’, guindastes e helicópteros.

Um exército cercando uma bandidagem brancaleonica – embora muito bem armada – amontoada no alto de uma estradinha do morro, e mesmo assim os incêndios prosseguiram, a cidade ficou paralisada e os bandidos conseguiram fugir com poucas baixas. É isto mesmo? Então se pode concluir de antemão que só existe UPPs é porque os bandidos deixaram, certo? Fica parecendo lógico que só pode ter havido algum acordo espúrio – pelo menos tácito –  para que os bandidos evacuassem o território pretendido pelo governo do Estado numa retirada estratégica, negociada, certo?

Mas que diabos! Se estava acordado (‘arregado’ como diza bandidagem) Por que será então que os traficantes reagiram assim agora, tão violentamente? Será que uma das partes – as autoridades no caso – furou o acordo?

Tirando a iniquidade flagrante de pretender resolver o problema ignorando o caráter social e crucial da questão, o plano de implantação gradual de UPPs até que era uma boa estratégia. Na impossibilidade de resolver todo o problema no prazo exigido pelos compromissos turistico-esportivos que a cidade assumiu, montava-se um cinturão de segurança preservando uma área prioritária aos eventos e depois se cuidava do resto do problema… ou não. Mas convenhamos que, se a bandidagem destas áreas ‘pacificadas‘ não estava sendo feita ‘prisioneira’, os ‘evacuados’ tinham que fazer a sua retirada para algum lugar, certo?

(E enfatizo aqui que quando digo ‘a bandidagem evacuada’ me refiro a tudo que ela, esta ‘tropa’, carrega: ‘soldados’, armas, estoques de droga, a frota de carros e motos, tudo, gente e aparato logístico considerável, já que – que incrível! – nada foi apreendido e ninguém foi preso em nenhuma incursão para a instalação de UPPs.

Logo, reparem que constatação emblemática: enormes ‘bondes’ de traficantes, em algum momento durante a ‘retirada’ dos bandidos das áreas das UPPs já implantadas, se deslocaram pela cidade, evacuando a zona ‘pacificada’, de forma organizada, ordenada e acertada previamente com as ‘forças de ocupação’ e – mama mia! –  ninguém viu?  Daí começaram os problemas (que seriam previsíveis caso as ações das forças de segurança’ estivessem baseadas num planejamento, realmente inteligente):

Desarticuladas ou dificultadas em suas ações de distribuição e venda da droga para as Zonas Sul e Norte (áreas onde – todo mundo sabe- estão os consumidores potenciais) por conta da mudança de território, aquela parte da bandidagem voltada para as ações de rotina no comercio varejista da droga, partiu para ações isoladas para conseguir carros para  os ‘bondes’ (deslocamento de ‘soldados’ e transporte de armas, drogas e dinheiro) a fim de cuidarem da manutenção de suas atividades rotineiras.

Estas ações ‘emergenciais’, são típicas da ação de esquadrões guerrilheiros após a retirada ou deslocamento para montar novas bases de operação. No caso dos traficantes cariocas estas ações se caracterizaram por ‘arrastões’ nas grandes vias de acesso da área próxima às favelas onde parte destes bandidos se concentraram (Vila Cruzeiro e adjacências) com a prática de incendiar carros para interromper o trânsito, agilizar os saque e facilitar a fuga rápida.

Ao que tudo indica o alto impacto midiático destas ações –  até então apenas circunstancialmente terroristas – e seu potencial para desmoralizar a política de segurança implantada, é que obrigou as autoridades do governo a mudar a sua estratégia anterior.

Erro um, portanto:

Partir para o confronto de agora, denota que, da parte das autoridades de segurança do Estado não havia um plano de contenção dos bandidos nas áreas para as quais fugiram (um cerco estratégico às linhas Amarela e Vermelha, por exemplo) de modo a isolar o problema nestas áreas de retaguarda.

Erro dois, logo a seguir:

Fazer o jogo da bandidagem e abrir, intempestivamente uma nova frente (invadir o novo território dos traficantes) sem um plano bem articulado e, o que é pior, sem ter ainda a área ‘pacificada‘ das UPPs totalmente consolidada, foi uma atitude desesperada que pode trazer efeitos funestos, negativos, para o plano geral de segurança pública, que, como já cansamos de afirmar, é já em si mesmo falho e imediatista em sua origem, pois, ignora o caráter eminentemente social e político do problema.

E aqui um detalhe inquietante: Estas ações dos traficantes indicam uma mudança no modus operandis deles, que podem ter iniciado agora o exercício e o aperfeiçoamento para a posterior aplicação – agora sistemática – de táticas de guerrilha urbana específicas, que como se viu neste caso presente, podem ser bem eficientes (pelo menos mais eficientes do que as forças de segurança atuais demonstraram ser capazes de reprimir).

Precisamos rezar para que não apareça um líder bandido bem articulado, tipo gênio do crime, com perspicácia guerrilheira. Se mal ajambrados como parecem ser, estes bandidos já conseguem tocar este terror todo, todo este rebu, imaginem se pegam mesmo jeito para a coisa?

Tanques de guerra, movimentação de um número absurdo de tropas (aparentemente a opção propagandística adotada por alguma estúpida autoridade) na verdade demonstraram, ao contrário do que pretendiam, certa improvisação e algum aturdimento das autoridades que, pegas de surpresa parecem pretender agora, atabalhoadamente, dar a ilusão para a imprensa mundial de que tem mais poder de fogo nesta guerra, o ‘mando de campo’ por assim dizer.

Só que o ‘Campo’ que se pretende preservar é na área do esporte e não um… ‘Campo de batalha’.

Ora, ninguém se deu conta de que aceitar que havia uma guerra destas, de proporções iraquianas, mobilizando um verdadeiro exército contra menos de uma centena de bandidos ‘fuleiros’ encastelados num morrinho – todo mundo viu! – seria o que de pior a administração de uma cidade candidata a sede de um grande evento mundial podia fazer nesta hora. Vexame internacional, sem dúvida. Será que dá para reverter a má impressão?

E olha que a Vila Cruzeiro é apenas UMA das dezenas e favelas daquela área (as últimas contas falam em DEZESETE favelas). Se já é virtualmente impossível ‘ocupar’ (e manter) militarmente aquela área (Complexo da Penha) quanto mais ocupar militarmente TODA a cidade do Rio de Janeiro (sim, porque, a cada ‘ocupação’ a bandidagem – exatamente como em Bagdá – se deslocará para outra favela.

Os otimistas histéricos não vêem, mas aquilo que vimos ontem na TV, em tempo real, foi vexaminoso. A capacidade de reação terrorista da bandidagem – e as razões de ser desta reação extremada não estão de modo algum suficientemente explicadas – foi subestimada e alguma ‘otoridade’ estúpida e irresponsável, já que o caldo havia entornado, achou que tinha poder militar e podia aproveitar a oportunidade para dar um golpe de alto impacto publicitário, uma demonstração de força.

Daí a coisa fugiu do controle (o que prova que os serviços de inteligencia da polícia são burros, ineficientes ou inexistentes) a bandidagem pôs em ação um amplo plano de terror que já devia estar orquestrado com antecedência (segundo alguns relatos comandos de meninos viciados em crack foram mobilizado para as ações de incêndio de veículos em pontos estratégicos) e a polícia e os militares, pegas de surpresa, não tiveram mais como voltar atrás.

(Quase todo santo dia eu vejo dezenas e dezenas destes meninos jogados no chão como lixo, enrolados em panos imundos, dormindo a sol pleno em grande parte do trajeto do meu ônibus quando vou para o trabalho)

Mesmo assim, dada a acachapante vantagem numérica e de aparato de guerra usado pelas forças de …’segurança’ eu – como todo mundo – achei que eles iam cercar a bandidagem no alto do morro e acabar a história com uma carnificina básica. Não resolveriam nada, pois o problema apenas seria afastado para outro…’território’. Mas não, conseguiram piorar ainda mais a situação e enfiando os pés pelas mãos, acabaram se tornando até mais terroristas (tanque de guerra? Fala sério!) do que os bandidos.

Ver um verdadeiro exército, centenas e centenas de policiais e soldados zanzando pela cidade como baratas tontas, caindo pelo chão, tropeçando em si mesmos foi constrangedor. Confesso para vocês: Fiquei e estou ainda agora apavorado, com um medo pânico de sair de casa. E tem gente que ainda acredita – e falam isto babando de emoção sádica – que haverá um ‘confronto final’ no Complexo do Alemão e as ‘forças da paz’ (?) triunfarão.

Maluquice e marketing: Perderam mesmo a noção do perigo.

Se as ‘nossas’ forças da paz, são estes homens de preto amontoados, quase acuados atrás de barracos de alvenaria, espreitando esquinas, atirando a esmo e matando, indiscriminadamente inocentes e supostos bandidos por aí, como é que podemos nos sentir seguros?

Óbvio que esta ação amalucada de invadir com tanques e soldados um morrinho de favelados, como propaganda é péssima e a estratégia parece bem doida e irresponsável também, pois, agora a situação, como a de toda guerra de invasão – remember Bagdá – é imprevisível. O ‘exército’ do governo ganha, por enquanto, claro. Mata os bandidos ‘fuleiros’ de hoje e alguns inocentes, ocupa o morrinho com pose de quem tomou ‘Monte Castelo’ ou ‘Iwo Jima’ na segunda guerra mundial, mas o filme pode queimar de vez e melar a Copa.

(E isto, este tipo de arroubo arrogante, é a cara do Sergio Cabral, não é não?)

Bandido no Rio dá em árvore, gente! Favela também. Toma-se um morrinho aqui, eles montam outra base ali. Só quem já viu do alto o mar de favelas que margeiam a Avenida Brasil do Caju até o limite de Santa Cruz, lá no limite do município, sabe do que estou falando. Como a questão, de forma burra e omissa, está sendo tratada como uma guerra convencional, uma disputa de território, em breve poderemos ter guerras localizadas entre traficantes e milicianos, entre milicianos e PMs, com bandos de um ou de outro lado invadindo até as UPPs até agora, supostamente estabelecidas.

O problema do Rio não é o crime organizado. O problema do Rio é o crime ser tão generalizado (tendo as autoridades como cúmplices) e… desorganizado.

O triste, o revoltante, é que há por aqui os que comemoraram esta ‘vitória’ das forças ‘pacificadoras’. Uns irresponsáveis individualistas que gostaram da ‘paz’ aparente das zonas Sul e Norte da cidade, com a molecada bandida – jovens negros em maioria – expulsa para a periferia. Gente de Deus! Já disse aqui, muitos outros estão dizendo isto  também:

O Rio tem mais de 1000 favelas…MIL favelas, ouviram?

A cidade é uma imensa periferia favelada cercando meia dúzia de bairros ‘normais’.

Mais de 20% da população do Rio é favelada oficialmente, mas uns 40% vivem em bairros miseráveis, favelizados do mesmo modo. Estes milhões (!) de pessoas estão largados à própria sorte e a bandidagem é (mesmo a contra gosto da população) a vanguarda desta gente que acena lençóis brancos das varandas dos barracos.

Os nossos milhões de favelados – talvez a maioria de nossa população – são tratados como seres parasitas, chamados eufemisticamente e de forma cínica de…’trabalhadores’, ‘gente de bem’ (biscateiros, subempregados, mal remunerados, e desempregados, na verdade sem nenhum ireito de cidadania) a parte ‘baixa’ da sociedade que os ‘de cima’ mantêm ali, nestes guetos infectos como escravos modernos, serviçais, catadores de sobras, de ‘bicos’, vendedores de dejetos, párias largados no meio do lixo para se virarem como puderem.

Não é por acaso que os principais produtos que movimentam a economia destes locais são a droga e outras ilicitudes controladas por milicianos de um lado ou pelos chefes desta molecada bandida de outro. O Rio de Janeiro é uma Casa de Marimbondos, uma Caixa de Pandora, um container de lixo que esconde dentro uma bomba com um relógio acoplado, marcando a hora em que vai explodir.

Este Rio revoltante, que já é parecido com Gaza ou com Bagdá, periga se tornar rapidinho um lugar igual a Soweto do tempo do Apartheid, com aquela blitzkrieg das forças de segurança massacrando e atirando na população indefesa para pegar supostos agitadores bandidos, gerados pelas próprias circunstancias da vida nos guetos.

Disque denúncia bate recorde de mil ligações!

Acabo de constatar vendo pela manhã o Jornal da Globo – e isto pode ser visto nos demais jornais também – que a mídia dita ‘golpista’ ontem (porque, supostamente exagerava a gravidade da situação, queimando o filme do Sergio Cabral e sua turma), hoje já faz uma campanha deslavada para vender a idéia de que a população, maciçamente apóia a ação das forças de segurança. Observo também, sem surpresa alguma que este apoio irrestrito é exatamente a posição da classe média do Rio, única beneficiária direta desta insana e hipócrita política das UPPs.

É incrível o desprezo que esta gente que apóia acriticamente esta guerra de miseráveis morais contra miseráveis sociais está demonstrando ter pelo ‘resto’ (a maioria) da população, principal vítima de tudo, em todas as circunstancias. Meio nojento isto aí, esta indiferança insana. Como não existe ‘almoço grátis’, a conta com toda certeza virá e será salgada.

Os ‘pagões’, como sempre seremos todos nós. Só tenho pena daqueles que – tomara que não seja um de nós –  pagarão com a vida.

E o seu Correspondente e guerra se despede de vocês repetindo:

_” Eu quero a minha mãe!”

Spírito Santo

Novembro 2010


Dia do músico é dia de Anacleto


Araribóia

Araribóia’ (clique e ouça o mp3) é o hino ou ‘dobrado’ (o autor chamou de ‘passo-dobrado’) mais cheio de feeling e groove que eu já ouvi na vida. A composição já é um arraso, a orquestração então.  Tudo é bem a medida da genialidade do maestro que, para alguns como eu, é o pai dos arranjadores de orquestra pop do Brasil.

Sem Anacleto de Medeiros (ao centro da foto com a fantástica banda do Corpo de Bombeiros), nada de Pixinguinha, nada de Tom Jobim nem nada de Villa Lobos também.

E quem teimar comigo eu chamo para a briga.