Droga in Rio: O Mapa e o pulo do gato


Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro. Entrevista especial com José Cláudio Alves

Bem, parece incrível! É quase exatamente como tudo que temos dito aqui (siga a série aqui no blog a partir deste e seguindo este post)  – e nem seja por isso porque, para quem sabe ler, um pingo é letra. O fato é que eu concordo com o José Claudio em número gênero e grau.

Leia  a seguir este indispensável post de José Claudio Alves. Leia rápido antes que o quadro analisado mude. A nossa caótica situação é muito dinâmica.

José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e membro do Iser Assessoria. Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está por trás desses conflitos atuais no Rio de Janeiro?

José Cláudio Alves – O que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade. Isso já vem se dando há algum tempo e culminou na situação que estamos vivendo atualmente. Há elementos presentes nesse conflito que vêm de períodos maiores da história do Rio de Janeiro, um deles é o surgimento das milícias que nada mais são do que estruturas de violência construídas a partir do aparato policial de forma mais explícita. Elas, portanto, controlarão várias favelas do RJ e serão inseridas no processo de expulsão do Comando Vermelho e pelo fortalecimento de uma outra facção chamada Terceiro Comando. Há uma terceira facção chamada Ada, que é um desdobramento do Comando Vermelho e que opera nos confrontos que vão ocorrer junto a essa primeira facção em determinadas áreas. Na verdade, o Comando Vermelho foi se transformando num segmento que está perdendo sua hegemonia sobre a organização do crime no Rio de Janeiro. Quem está avançando, ao longo do tempo, são as milícias em articulação com o Terceiro Comando.

Um elemento determinante nessa reconfiguração foi o surgimento das UPPs a partir de uma política de ocupação de determinadas favelas, sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses estão voltados para a questão do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro setor, ou seja, o capital que estará envolvido nas Olimpíadas. Então, a expulsão das favelas cariocas feita pelas UPPs ocorre em cima do segmento do Comando Vermelho. Por isso, o que está acontecendo agora é um rearranjo dessa estrutura. O Comando Vermelho está indo agora para um confronto que aterroriza a população para que um novo acordo se estabeleça em relação a áreas e espaços para que esse segmento se estabeleça e sobreviva.

IHU On-Line – Mas, então, o que está em jogo?

José Cláudio Alves – Não está em jogo a destruição da estrutura do crime, ela está se rearranjando apenas. Nesse rearranjo quem vai se sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico de drogas. A mídia nos faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada nisso – que há uma luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio de Janeiro e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos. Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime.

A realidade do RJ exige hoje uma análise muito profunda e complexa e não essa espetacularização midiática, que tem um objetivo: escorraçar um segmento do crime organizado e favorecer a constelação de outra composição hegemônica do crime no RJ.

IHU On-Line – Por que esse confronto nasceu na Vila Cruzeiro?

José Cláudio Alves – Porque a partir dessa reconfiguração que foi sendo feita das milícias e das UPPs (Unidades de Policiamento Pacificadoras), o Comando Vermelho começou a estabelecer uma base operacional muito forte no Complexo do Alemão. Este lugar envolve um conjunto de favelas com um conjunto de entradas e saídas. O centro desse complexo é constituído de áreas abertas que são remanescentes de matas. Essa estruturação geográfica e paisagística daquela região favoreceu muito a presença do Comando Vermelho lá. Mas se observarmos todas as operações, veremos que elas estão seguindo o eixo da Central do Brasil e Leopoldina, que são dois eixos ferroviários que conectam o centro do RJ ao subúrbio e à Baixada Fluminense. Todos os confrontos estão ocorrendo nesse eixo.

IHU On-Line – Por que nesse eixo, em específico?

José Cláudio Alves – Porque, ao longo desse eixo, há várias comunidades que ainda pertencem ao Comando Vermelho. Não tão fortemente estruturadas, não de forma organizada como no Complexo do Alemão, mas são comunidades que permanecem como núcleos que são facilmente articulados. Por exemplo: a favela de Vigário Geral foi tomada pelo Terceiro Comando porque hoje as milícias controlam essa favela e a de Parada de Lucas a alugam para o Terceiro Comando. Mas ao lado, cerca de dois quilômetros de distância dessa favela, existe uma menor que é a favela de Furquim Mendes, controlada pelo Comando Vermelho. Logo, as operações que estão ocorrendo agora em Vigário Geral, Jardim América e em Duque de Caxias estão tendo um núcleo de operação a partir de Furquim Mendes. O objetivo maior é, portanto, desmobilizar e rearranjar essa configuração favorecendo novamente o Comando Vermelho.

Então, o combate no Complexo do Alemão é meramente simbólico nessa disputa. Por isso, invadir o Complexo do Alemão não vai acabar com o tráfico no Rio de Janeiro. Há vários pontos onde as milícias e as diferentes facções estão instaladas. O mais drástico é que quem vai morrer nesse confronto é a população civil e inocente, que não tem acesso à comunicação, saúde, luz… Há todo um drama social que essa população vai ser submetida de forma injusta, arbitrária, ignorante, estúpida, meramente voltada aos interesses midiáticos, de venda de imagens e para os interesses de um projeto de política de segurança pública que ressalta a execução sumária. No Rio de Janeiro a execução sumária foi elevada à categoria de política pública pelo atual governo.

IHU On-Line – Em que contexto geográfico está localizado a Vila Cruzeiro?

José Cláudio Alves – A Vila Cruzeiro está localizada no que nós chamamos de zona da Leopoldina. Ela está ao pé do Complexo do Alemão, só que na face que esse complexo tem voltada para a Penha. A Penha é um bairro da Leopoldina. Essa região da Leopoldina se constituiu no eixo da estrada de ferro Leopoldina, que começa na Central do Brasil, passa por São Cristóvão e dali vai seguir por Bom Sucesso, Penha, Olaria, Vigário Geral – que é onde eu moro e que é a última parada da Leopoldina e aí se entra na Baixada Fluminense com a estação de Duque de Caxias.

Esse “corredor” foi um dos maiores eixos de favelização da cidade do Rio de Janeiro. A favelização que, inicialmente, ocorre na zona sul não encontra a possibilidade de adensamento maior. Ela fica restrita a algumas favelas. Tirando a da Rocinha, que é a maior do Rio de Janeiro, os outros complexos todos – como o da Maré e do Alemão – estão localizados no eixo da zona da Leopoldina até Avenida Brasil. A Leopoldina é de 1887-1888, já a Avenida Brasil é de 1946. É nesse prazo de tempo que esse eixo se tornou o mais favelizado do RJ. Logo, a Vila Cruzeiro é apenas uma das faces do Complexo do Alemão e é a de maior facilidade para a entrada da polícia, onde se pode fazer operações de grande porte como foi feita na quinta-feira, dia 25-11. No entanto, isso não expressa o Complexo do Alemão em si.

A Maré fica do outro lado da Avenida Brasil. Ela tem quase 200 mil habitantes. Uma parte dela pertence ao Comando Vermelho, a outra parte é do Terceiro Comando. Por que não se faz nenhuma operação num complexo tão grande ou maior do que o do Alemão? Ninguém cita isso! Por que não se entra nas favelas onde os o Terceiro Comando está operando? Porque o Terceiro Comando já tem acordo com as milícias e com a política de segurança. Por isso, as atuações se dão em cima de uma das faces mais frágeis do Complexo do Alemão, como se isso fosse alguma coisa significativa.

IHU On-Line – Estando a Vila Cruzeiro numa das faces do Complexo, por que o Alemão se tornou o reduto de fuga dos traficantes?

José Cláudio Alves – A estrutura dele é muito mais complexa para que se faça qualquer tipo de operação lá. Há facilidade de fuga, porque há várias faces de saída. Não é uma favela que a polícia consegue cercar. Mesmo juntando a polícia do RJ inteiro e o Exército Nacional jamais se conseguiria cercar o complexo. O Alemão é muito maior do que se possa imaginar. Então, é uma área que permite a reorganização e reestruturação do Comando Vermelho. Mas existem várias outras bases do Comando Vermelho pulverizadas em toda a área da Leopoldina e Central do Brasil que estão também operando.

Mesmo que se consiga ocupar todo o Complexo do Alemão, o Comando Vermelho ainda tem possibilidades de reestruturação em outras pequenas áreas. Ninguém fala, por exemplo, da Baixada Fluminense, mas Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo são áreas que hoje estão sendo reconfiguradas em termos de tráfico de drogas a partir da ida do Comando Vermelho para lá.

Por exemplo, um bairro de Duque de Caxias chamado Olavo Bilac é próximo de uma comunidade chamada Mangueirinha, que é um morro. Essa comunidade já é controlada pelo Comando Vermelho que está adensando a elevação da Mangueirinha e Olavo Bilac já está sentindo os efeitos diretos dessa reocupação. Mas ninguém está falando nada sobre isso.

A realidade do Rio de Janeiro é muito mais complexa do que se possa imaginar. O Comando Vermelho, assim como outras facções e milícias, estabelece relação direta com o aparato de segurança pública do Rio de Janeiro. Em todas essas áreas há tráfico de armas feito pela polícia, em todas essas áreas o tráfico de drogas permanece em função de acordos com o aparato policial.

IHU On-Line – Podemos comparar esses traficantes que estão coordenando os conflitos no RJ com o PCC, de São Paulo?

José Cláudio Alves – Só podemos analisar a história do Rio de Janeiro, fazendo um retrospecto da história e da geografia. O PCC, em São Paulo, tem uma trajetória muito diferente das facções do Rio de Janeiro, tanto que a estrutura do PCC se dá dentro dos presídios. Quando a mídia noticia que os traficantes no Rio de Janeiro presos estão operando os conflitos, leia-se, por trás disso, que a estrutura penitenciária do Estado se transformou na estrutura organizacional do crime. Não estou dizendo que o Estado foi corrompido. Estou dizendo que o próprio estado em si é o crime. O mercado e o Estado são os grandes problemas da sociedade brasileira. O mercado de drogas, articulado com o mercado de segurança pública, com o mercado de tráfico de drogas, de roubo, com o próprio sistema financeiro brasileiro, é quem tem interesse em perpetuar tudo isso.

A articulação entre economia formal, economia criminosa e aparato estatal se dá em São Paulo de uma forma diferente em relação ao Rio de Janeiro. Expulsar o Comando Vermelho dessas áreas interessa à manutenção econômica do capital. O que há de semelhança são as operações de terror, operações de confronto aberto dentro da cidade para reestruturar o crime e reorganizá-lo em patamares mais favoráveis ao segmento que está ganhando ou perdendo.

IHU On-Line – Como o senhor avalia essa política de instalação das UPPs – Unidades de Policiamento Pacificadoras nas favelas do Rio de Janeiro?

José Cláudio Alves – É uma política midiática de visibilidade de segurança no Rio de Janeiro e Brasil. A presidente eleita quase transformou as UPPs na política de segurança pública do país e quer reproduzir as UPPs em todo o Brasil. A UPP é uma grande farsa. Nas favelas ocupadas pelas UPSs podem ser encontrados ex-traficantes que continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade social permanece, assim como o não acesso à saúde, educação, propriedade da terra, transporte. A polícia está lá para garantir o não tiroteio, mas isso não garante a não existência de crimes. A meu ver, até agora, as UPPs são apenas formas de fachada de uma política de segurança e econômica de grupos de capitais dominantes na cidade para estabelecer um novo projeto e reconfiguração dessa estrutura.

IHU On-Line – A tensão no Rio de Janeiro, neste momento, é diferente de outros momentos de conflito entre polícia e traficantes?

José Cláudio Alves – Sim, porque a dimensão é mais ampla, mais aberta. Dizer que eles estão operando de forma desarticulada, desesperada, desorganizada é uma mentira. A estrutura que o Comando Vermelho organiza vem sendo elaborada há mais de cinco anos e ela tem sido, agora, colocada em prática de uma forma muito mais intensa do que jamais foi visto.

A grande questão é saber o que se opera no fundo imaginário e simbólico que está sendo construído de quem são, de fato, os inimigos da sociedade fluminense e brasileira. Essa questão vai ter efeitos muito mais venosos para a sociedade empobrecida e favelizada. É isso que está em jogo agora.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=38721

A ‘Grande’ batalha do Alemão


Zoinho, menino de rua de dez anos, enfrenta os policiais de São Paulo - foto de Evandro Monteiro

(Zoinho, menino de rua de dez anos, enfrenta os policiais de São Paulo – foto de Evandro Monteiro)

O cerco na história : Um mito patriótico

As pessoas se esquecem, mas a história está cheia de cercos covardes, de tropas desmedidamente numerosas e superarmadas contra gatos pingados rebeldes que resistem, não se sabe como – a maioria das vezes bravamente – diante de tropas inimigas e a população vociferante que defende os invasores.

Os rebeldes cercados são sempre bandidos odiosos, escória que deve morrer trucidada, queimada, bombardeada sem perdão, uma ‘corja de assassinos’ que se quer, ironicamente também assassinar.

E vejam que curioso: Todos os nacionalistas, de todas as revoluções e rebeliões da história foram considerados assim: ‘Corja de bandidos’, independentemente   da justeza moral ou imoral do ideal ou causa que os fez pegar em armas, a ponto de lutar até a última bala ou arma ou mesmo morrer lutando com as próprias mãos.

Ao fim, muitas vezes até vitoriosos (como na velha Revolução Cubana de Fidel e Che e tantas outras) é incrível como, na maioria dos casos, estes ‘bandidos’ passaram a representar exemplos ímpares de heroísmo para as gerações futuras.

Da seita dos ‘Maus Maus’ que trucidavam belgas colonialistas no Congo, a Patrice Lumumba trucidado por Mobutu a serviço da CIA (e dos vingadores belgas), dos terroristas ‘homicidas’ do ANC de Nelson Mandela, aos ‘bastardos inglórios’ Partigianni ou Partisans na segunda guerra mundial, até Tiradentes, Lampião, Spartacus, João Cândido… quem não se lembra destes ‘odiosos bandidos’ de épocas nem tão remotas, que hoje de algum modo, representam admiráveis e memoráveis heróis da humanidade?

Quase nunca se quer a rendição deste tipo de rebelde minoritário que por sua ousadia que nos parece insana, deixa o inimigo sempre possesso, com sede de sangue. Só se oferece chance de rendição a ele quando o seu trucidamento (geralmente fuzilado indefeso num beco escuro e sem testemunhas como foi Che Guevara)  por alguma razão vai desmoralizar a imagem do trucidador, expor a sua covardia abjeta (e este parece ser o caso da Guerra do Rio)

Do cerco dos judeus rebelados no Gueto de Varsóvia e os inúmeros outros cercos covardes das tropas nazistas na segunda guerra mundial ao cerco á Zumbi de Palmares ou ao cerco aos ‘300 de Esparta’, as pessoas que, de forma geralmente sórdida torcem pelo trucidamento do inimigo por uma força estupidamente forte e gigantesca (como é o caso flagrante do Complexo do Alemão) se esquecem que, no futuro, os cercados humilhados e trucidados costumam vencer aos olhos da história.

Hoje são ‘corja‘, ‘gentalha’ que merece a morte. Amanhã podem ser heróis exemplares que desafiaram de peito aberto a iniquidade, a ignorancia e, sobretudo, a covardia.

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Entretanto, ainda sem despertar o entusiasmo dos generais, a defesa até a morte tem sido um dos grandes recursos da propaganda patriótica e, freqüentemente, o símbolo da cidade cercada tem representado o próprio país, assediado pelos estrangeiros. Não é um fato isolado, Jerusalém, símbolo das desventuras e ilusões judias, assediada por seus vizinhos idólatras ou maometanos.

A síndrome do cerco afeta também a muitos outros povos, entre eles o polaco, concebido por seus ideólogos como uma comunidade católica acossada pelos prussianos luteranos, alemães nazistas e russos cismáticos ou comunistas. Numerosos nacionalismos têm sabido explorar a imagem de um idealizado espaço patriótico, culto e piedoso, assediado pelos bárbaros do exterior.

…Representações instintivas, nas quais a psicologia política adivinha a capacidade de resistência do sitiado como resultado de seus valores e da proteção divina. O assedio é uma prova de Deus, como o ataque do Demônio à consciência. Nada tem estimulado tanto o patriotismo como o cerco, culminado com uma hecatombe seja em Masada, em El Álamo ou em Numância.”

(‘O cerco na simbologia da história de Espanha’ -Gabriel Cardona)

Alemão tem um dos piores indicadores sociais

(Dados extraídos do site G1)

“O bairro do Conjunto de Favelas do Alemão é dono de uma da piores médias do Índice de Desenvolvimento Social (IDS) da cidade. O índice, calculado pelo Instituto Pereira Passos (IPP), da prefeitura, mede o acesso a saneamento básico, a qualidade habitacional, o grau de escolaridade e a renda da população carioca.

Do total de 158 bairros do Rio, o Alemão ocupa a 149ª posição, com um IDS de 0,474. Quanto mais perto do número 1, melhor o índice. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado no ano 2000, 65.026 pessoas vivem nos 18.245 domicílios do complexo, que é formado por 14 favelas, de acordo com o IPP. Deste total, mais de 15% das residências não contam com rede de esgoto.”

Operação conta com 2.600 homens

(Dados extraídos do site G1)

“Cerca de 2.600 homens das Forças Armadas e das Polícias Militar, Civil e Federal se preparam para entrar no Conjunto de Favelas do Alemão a qualquer momento. Na tarde de sábado (27), veículos blindados avançaram à entrada da comunidade e mais de trinta suspeitos foram detidos e levados para uma delegacia da região.

A megaoperação de cerco ao local inclui 800 soldados paraquedistas, a tropa de elite do Exército, 200 fuzileiros navais, que transportam a tropa, 300 agentes da polícia federal e 1.300 policiais militares e civis do Rio. Ainda na tarde de sábado, blindados do Exército chegaram a entrar na favela, mas saíram pouco depois.”

Sabe-se que estão – estavam – encastelados no morro do Complexo do Alemão, no máximo 500 (na exagerada estatística oficial baseada sabe-se lá em que) e, no mínimo – embora seja mais realista esta segunda projeção – algo em torno de 100 bandidos.  A cada prisioneiro – entre os poucos que se entregam ou são pegos como suspeitos – que as câmeras exibem o que vemos é aquela mesma garotada negra e magrela, provavelmente o perfil da maioria desta bandidagem mulambenta cercada por estes milhares de soldados ensandecidos.

Uma comparação entre 2.600 soldados (podem ser até 4.000) sarados, superequipados e vestidos e pintados como se estivessem indo para uma batalha da Terceira Guerra Mundial e os garotos mulambentos que vamos vendo presos, aqui e ali, é de fazer ruborizar pedófilo.

“A Vila Cruzeiro surgiu no século 19. Os primeiros moradores eram escravos fugidos que ficavam no local sob a proteção de um padre abolicionista da Igreja da Penha. As terras onde fica a favela são de propriedade da Igreja. Hoje, o predomínio dos afro-descendentes está presente: no samba, no futebol e até salões de beleza….”

(Alberto Barbosa, editor fundador do jornal A voz da Penha, citado por Miguel Maron no Facebook).

Você já parou para pensar em quem são e o que faz ali no alto daquele morro, pronta para morrer ou ser encarcerada, aquela garotada majoritariamente negra (e não me cansem a beleza: o dado étnico é neste caso fundamental), que, também em sua maioria nasceu e foi criada ali mesmo naquele complexo e imundo mundo que de alemão não tem nada?

Não? Então pare e pense.

A…ops!…’batalha‘ pela re-tomada do ‘território’ foi iniciada com pompa e circunstancia ás 8.00 hs desta manhã.  Um formidável desfile de 7 de Setembro subiu as vielas miseráreis do Morro do Alemão. Agora às 9.30, a TV já informa, bombasticamente que “as tropas federais venceram a batalha e que o morro estava tomado”. Vitória? Como assim? Não vi  ainda nenhum soldado inimigo preso ou morto. Imagino que tenham trucidado um ou outro gato pingado, mas nada se  sabe além da informação de que os bandidos – será que ouvi direito? – depois de cercados por este exército hollywoodiano, para Spilberg nenhum botar defeito…fugiram, se evadiram!

Para onde, meu Deus? para o céu?

Como já se sabia de antemão quem seria o vencedor militar desta guerra do Rio (esta era fácil, certo? 2600 contra 500 dava 5 contra 1, moleza… isto sem se falar nos tanques de guerra), hoje é o dia e a hora de escolher o vencedor MORAL desta guerra exemplar, ou seja: é hora de nós todos optarmos de que lado MORALMENTE estamos, antes que percamos, totalmente a compostura como sociedade.

Depois só vai faltar perder – de novo – a Copa do Mundo de 2014 para o Uruguai.

“Folga nego
Branco num vem cá
Se vié
pau há de levar

(Quadrinha rebelde atribuída aos ‘odiosos bandidos’ quilombolas de Palmares cercados em 1695 em  Pernambuco, Brasil)

Spírito Santo
Novembro de 2010

Kwame Opoku:Brazil and Black Consciousness


By Spírito Santo
(Translate by Lucia Kudielela)

For Capoeira Africana blog

Many years ago when I lived in Vienna, Australia, Kwame Opoku from Ghana, a good friend of mine (who I met in Europe), decided to confess his opposition to the fact that I was unable to do certain things in Brazil because of the irreversible racism.

He was an attorney that worked at the United Nations Headquarters in Vienna and an adept of the great causes of our times. I had the honor to appreciate pictures of him taken with Amilcar Cabral, Nelson Mandela, Sam Nujoma and many other memorable figures that were part of the African rebirth. My friend was connected with these individuals either because of his profession or militancy. Either way, being so close to a person that was directly associated to the modern history of the black African made me feel exulted. I also felt like this when I was close to those giant fighters of men who represented pride in the human race and the heroes of my generation.

It took me a long time to understand Kwame’s contradiction. It intrigued and shamed me a lot as I felt, as a black Brazilian, a bit lowered with a weird feeling of inferiority to a person that was just like me that, yet feeling vain glory for his spirit of combat, political engagement, militancy, etc.

Well, before becoming my friend, Kwame (he suspected I was a member of a noble Ashanti cast, as I was able to find out from one of his countrymen) attended high school in Accra, where he played the piano. He was an African refined like a European, so to speak, but above all an African with a burning desire to learn how to play an instrument of his ancestral culture. Needless to say, becoming his teacher of the African “marimba” (a musical instrument) to this “real” African was both astonishing and unusual. But that was it! Just imagine – Kwame bought the instrument that I had made in Brazil and took it to Vienna. A year later, Kwame became my pupil through a cultural relationship between an African-Descent Brazilian and a native African.

This made me excited and redeemed a bit. But I must admit that it took me some time to understand the nature of that feeling of disdain for Kwame, for my lamentations of a revolted black Brazilian.

“There is racism in Brazil? And all of you, being as many as you are, accept it?

This was the admonition more recurrent that he made, trying to say that maybe we were too condescending and dismissive of the comforts and obstacles that racism imposed on us. I was never able to convince him of the insuperable forces of the mooring cables that hindered us. Nor did I ever recover from that sensation of a confronted wild beast. Until today, I have thought that maybe, in reality, something lacks in us Brazilians. And this was explicit in the honest expression of Kwame, the African. The consciousness of what it means to be a person of African descent, a misguided black African, besides the stigma that we experience of ignorant, non-educated and submissive people that we carry on our backs.

We should recognize that only our African ancestors brought to Brazil as slaves, subjugated by brutal force, are the ones who had the right to incorporate, assimilate, and submit before oppression (even pretending, jumping backwards like the capoeiristas dodging the kicks) for physical survival.

We should also recognize, however, that being able to become cowards before brutal forces and death many of our ancestors died not submissively but fighting to leave us a legacy and lessons from the blood of their ascendance.

I know these are bitter words in days we should be exalting our pride but I have decided to say it right now that something is lacking in black consciousness – the knack to manage valid tools of subordination, of revolt, and the ample consciousness of our rights not only for black people but for the basic human rights of all men. These rights are usually only granted to a “good” white person, “solidary” or “generous”. Many are poor men and almost never conquered by our own organized efforts, carried by our generally faulty leadership, opportunistically placed in power.

aybe something is missing in us black Brazilians – the African instinct to break, once and for all, the emotional slavery that is still engrained in us; the consciousness that whatever happens, what is done to submit us, we are and will always be free, indeed.

After my stay in Vienna, ironically the homeland of Adolf Hitler, exchanging lessons on blackness with Kwame Opoku, the African, I started to observe better the subtle difference that exists between to have black consciousness, and to have the consciousness of being black.

The first one (to have) dwells in the profound and reflecting understanding of moral values, ethical, social, cultural, etc., contained in the African heritage, of brothers and sisters in the Diaspora, seeking incessantly for the essence of having the symbolic Africa within us, to have humility wherever we are in this world.

The second one (to be) would be to keep the unbroken soul, the clean ideological consciousness, acquired in dealing with repetitive social exclusion and racism in a country with black and white people (what should we do!) looking for ways to do “the right thing” along with the majority. This is usually accompanied by the occasional black minority, at the “picnic” of a sordid cast, trying to break the mental barriers of our submission, of that emotional slavery that annihilates and lowers all of us.

The socio-racial consciousness will never be enclosed in the dark ghetto of our own, in the dichotomy syndrome, that separates diabolically, blacks and whites, perpetuates and legitimates inequality. This inequality is justifiable by the alleged differences of one, the white elite, supposedly always superior to all others. All of those that are not white are considered black simply by exclusion.

The plain consciousness to know how to excel in this world of inequality that racism injected in the heads of us all, blacks and “whites” of Brazil.

The consciousness, anyway, that Brazil is essentially a country with black people will only reach the awaited success of its civilizing process (as Darcy Ribeiro would say) on the day that it has a consciousness of pan-African nature and one that is super human. It will come when it has assumed the Brazilian in all of us.

I did not see Kwame Opoku, the African, after leaving Vienna. I have received random news. For example, that he has retired from United Nations. After seeing him for the last time, many things changed. Mandela was freed from prison. South Africa became a great nation. Angola is walking toward the same goal. The suffered Africa, under renitent pockets of dictatorship, and poverty, still lives on.

I wish, on this Day of Black Consciousness in Brazil, that we blacks and whites of this country of ours of perfectly accomplishable dreams and temporary anguishes, make an assessment of consciousness and start the struggle at our own expense, knowing this is the only way we will be able to know that the victory is assured.

Spírito Santo

Rio de Janeiro 2010

(https://spiritosanto.wordpress.com)

Rio de Janeiro: No fogão os ovos e as omeletes


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Todo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons.Foto Spírito Santo -Cartuchos recolhidos em guerra de traficantes e polícia no Complexo de favelas da Maré

Na frigideira ardente da cidade vendo a coisa ficar preta

Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública e um dos autores do livro ‘Elite da Tropa’ (que inspira o filme ‘Tropa de Elite’) tem afirmado ultimamente que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, do tipo como este praticado por facções de favelados – que no momento travam o que parece ser uma de suas ultimas batalhas, acossadas que estão por um desmesurado e ridículo exército de proporções mais que  iraquianas – está com os dias contados por ser antiquado, pesado e  militarmente muito custoso.

Luiz Eduardo propõe que no futuro próximo – com o que eu concordo plenamente – o tráfico de drogas no Rio de Janeiro será mais ‘limpo’, sendo a distribuição feita por um sistema de tipo delivery (como aliás, ao que parece, já é feito em áreas próximas à favelas dominadas por milícias)

Por este pragmático ponto de vista, a violência urbana, impressionantemente exacerbada agora em terrorismo e guerrilha urbana, arrefeceria. Na minha modesta opinião de leigo, contudo, infelizmente, não será bem por aí.

Para começar, esta ‘modernização dos serviços’ a que Luiz Eduardo se refere se formos analisá-la um pouco mais acuradamente , diz respeito apenas à distribuição da droga no varejo. Falta um elemento crucial nesta equação que são os problemas do transporte e distribuição no atacado e o armazenamento dos estoques, principais razões do tráfico ter que ser armado.

É óbvio que as facções e cartéis não estão armados até os dentes apenas para se defender da repressão da polícia. A polícia na verdade – ainda mais em se tratando da polícia corrupta do Rio de Janeiro – é o menor dos problemas neste caso, às vezes até uma aliada estratégica e essencial.

O que ocorre na verdade é que as facções e cartéis, por conta do alto valor e dos lucros exorbitantes do negócio – a droga ilícita talvez seja a mercadoria mais valorizada da economia capitalista hoje em dia – passaram a depender da formação de verdadeiros exércitos de seguranças armados para, não só se defenderem das gangs rivais, na defesa dos estoques e do território onde estão instalados os seus depósitos, quanto da polícia e das forças de segurança em geral que, tanto podem ambicionar a posse da mercadoria por serem corruptas, ou pretender atacar os armazéns para apreender a mercadoria, no intuito de cumprir a lei.

A grande sacada do tráfico no Rio de Janeiro foi a instalação de seus depósitos, ‘lojas’ (‘bocas‘) e laboratórios de pós refino, em favelas quase inexpugnáveis, estratégia sugerida e motivada pelas especiais características do modelo de racismo e exclusão social adotado no Rio de Janeiro, caracterizado pela formação de guetos miseráveis ao lado de bairros finos, coalhados de consumidores potenciais de drogas ilícitas.

Quem pariu Mateus que o embalance.

No meu entender, portanto o bandido favelado perderá em breve sim – e isto é líquido e certo – o controle comercial do negócio das drogas, mas terá como destino inexorável passar a ser mero ‘soldado’, ‘segurança’ de cartéis ‘de elite’.

Este fenômeno, aliás, já ocorre de forma generalizada e recorrente em áreas antes dominadas por traficantes favelados, que foram invadidas por milícias (e hoje estão controladas por policiais bandidos) nas quais parte da bandidagem ‘convencional’– a que não foi assassinada nos combates – passou a trabalhar como ‘soldadesca’ a serviço destes novos chefes.

O caso mais emblemático deste novo modelo é, com efeito, a favela da Cidade de Deus onde ao que nos indicam alguns moradores informantes, já há alguns anos a milícia que invadiu o local ‘terceiriza’ o tráfico de drogas contratando os serviços de bandidos sobreviventes como ‘sub-gerentes’ e ‘soldados’. Não é de todo improvável portanto – pelo menos para os menos ingênuos e ufanistas – que o mesmo esquema possa vir a funcionar (já deve estar até sendo testado) em favelas controladas por UPPs.

É bastante provável, pois, que brevemente não haverá mais a eventual ascensão econômica de pobres jovens favelados, alçados à condição de gerentes de favelas ou chefes de facções e candidatos ao encarceramento eterno em prisões e segurança máxima nos confins do país.

A grande mudança no tráfico de drogas no Rio de Janeiro (e no Brasil) em suma, é que ele deve passar agora a ser comandado por comerciantes politicamente mais articulados, em sua maioria indivíduos brancos e de classe média, que terão a seu serviço (incumbindo-se da parte mais ‘suja’ e pesada do ramo) a mesma massa de desempregados de sempre: A reles ralé.

É incrível como tem gente que, pouco se lixando para a exclusão social exacerbada do modelo econômico brasileiro, aplaude a guerra atual contra bandos de traficantes favelados em fuga, julgando de forma egoísta e covarde que seu problema (a violência urbana) estará resolvido, mesmo o sendo à custa de seletivos massacres de bandidos, abatidos como moscas à tiros por frios snipers aboletados em helicópteros, com inocentes desvalidos, sendo atingidos pelo fogo cruzado.

Ledo engano. Toda iniquidade cobra o seu preço. O castigo, mais dia menos dia, de um jeito ou de outro, chega a cavalo.

Este prognóstico (paradigmático só em certa medida) na verdade é terrível para todos nós por que indica que a nova fase do tráfico de drogas por aqui pode ser a dos cartéis comandados por chefões intelectualmente mais articulados, com um esquema de contenção de rivais e inimigos mais militarizado ainda, cada vez mais especializado, portanto em ações de guerrilha urbana e terrorismo – como ocorreu no México agora mesmo ou na Colômbia de décadas atrás.

O povo negro e  pobre das favelas por isto mesmo, se mantido na mesma situação de penúria em que se encontra, retido em guetos infectos que só mudarão de mãos, continuará a fornecer soldados violentos para esta guerra sem fim que – Deus queira que não – entrará agora na fase do Crime realmente Organizado.

Como não se faz omelete sem quebrar ovos e os ovos somos nós, quem viver – queira ou não queira – verá a coisa preta, cada vez mais preta.

Spírito Santo
Novembro 2010

Cidade Bandida:Cidade Perdida


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Eu, correspondente de guerra em pânico declaro: _ Quero minha mãe!

Que se danem os patrulhadores ideológicos. Se nem mesmo esta guerra imbecil foi declarada porque eu não poderia me declarar Correspondente de Guerra. Assumo: hoje eu sou. Quem não é? Falo aqui do meu bunker-apartamento, a quilômetros de distancia do front, mas já vi passaram três helicópteros pela minha janela.

O discurso padrão da classe média carioca (da parte menos cínica ou individualista dela, claro) sobre a chamada ‘Guerra do Rio’, pinçado por mim no facebook hoje –  é mais ou menos o seguinte:

“…desconfio que – nada obstante toda dor, os sustos e o medo – essa confusão toda é, no agregado, um sinal positivo.

Quando criminosos comuns… partem para aterrorizar indiscriminadamente a população, estão adotando uma tática de altíssimo risco – sobretudo pra eles próprios.

Se ultimamente têm estado mais propensos a aceitar esses riscos, é sinal de que a situação geral deles tem-se deteriorado numa direção crítica para a manutenção de seus interesses habituais.

Talvez eu esteja sendo ingênuo, não sou entendido no assunto. Mas meu palpite, numa situação dessas, é manter o curso. Ajustes no plano tático imagino que devem ser feitos todo dia. Mas, na estratégia, o negócio é segurar o leme.

“…Estamos retomando o território. Antes mais recentemente, fizeram os franceses e aliados contra os nazistas, mais recentemente a Colombia. Agora é nossa vez de exigir a liberdade.”

“…Acredito que a tática de implantação das UPPs foi correta, qdo avisam sobre a tomada das comunidades com antecedência. Dominam territórios sem conflitos, empurrando os bandidos para uma única localidade. Só aí poderemos dizer se houve uma mudança real na tática da polícia, no concernente à execução de bandidos. De qq forma, tivemos um avanço, qdo se tem um mínimo de estratégia.”

‘Helicópteros’? ‘Território’, ‘baixas’, ‘prisioneiros’, ‘estratégia’, tática’, ‘cerco’, ‘logística’, ‘desgaste do inimigo’, ‘munição’, ‘armamento’, ‘veículos de combate’ etc. Todo o jargão que ouvi anteontem na coletiva de um porta voz da Polícia Militar do Rio é o de combate. Quase nenhuma palavra sobre como a população deveria proceder. Recomendam que fiquemos em casa (como ‘refugiados’, pensei…).

Bem, mas a situação piorou bastante depois disto. Daí uma coisa ficou me martelando a cabeça: Contei… sei lá… uns 50, no máximo 80 bandidos cercados naquele morro. Como é isto? Envolvido na operação, direta ou indiretamente, com soldados espalhados pela cidade estava, simplesmente todo o contingente da Polícia Militar do Rio, da Polícia Civil mais 800 fuzileiros navais, tanques de guerra, blindados ‘caveirões’, guindastes e helicópteros.

Um exército cercando uma bandidagem brancaleonica – embora muito bem armada – amontoada no alto de uma estradinha do morro, e mesmo assim os incêndios prosseguiram, a cidade ficou paralisada e os bandidos conseguiram fugir com poucas baixas. É isto mesmo? Então se pode concluir de antemão que só existe UPPs é porque os bandidos deixaram, certo? Fica parecendo lógico que só pode ter havido algum acordo espúrio – pelo menos tácito –  para que os bandidos evacuassem o território pretendido pelo governo do Estado numa retirada estratégica, negociada, certo?

Mas que diabos! Se estava acordado (‘arregado’ como diza bandidagem) Por que será então que os traficantes reagiram assim agora, tão violentamente? Será que uma das partes – as autoridades no caso – furou o acordo?

Tirando a iniquidade flagrante de pretender resolver o problema ignorando o caráter social e crucial da questão, o plano de implantação gradual de UPPs até que era uma boa estratégia. Na impossibilidade de resolver todo o problema no prazo exigido pelos compromissos turistico-esportivos que a cidade assumiu, montava-se um cinturão de segurança preservando uma área prioritária aos eventos e depois se cuidava do resto do problema… ou não. Mas convenhamos que, se a bandidagem destas áreas ‘pacificadas‘ não estava sendo feita ‘prisioneira’, os ‘evacuados’ tinham que fazer a sua retirada para algum lugar, certo?

(E enfatizo aqui que quando digo ‘a bandidagem evacuada’ me refiro a tudo que ela, esta ‘tropa’, carrega: ‘soldados’, armas, estoques de droga, a frota de carros e motos, tudo, gente e aparato logístico considerável, já que – que incrível! – nada foi apreendido e ninguém foi preso em nenhuma incursão para a instalação de UPPs.

Logo, reparem que constatação emblemática: enormes ‘bondes’ de traficantes, em algum momento durante a ‘retirada’ dos bandidos das áreas das UPPs já implantadas, se deslocaram pela cidade, evacuando a zona ‘pacificada’, de forma organizada, ordenada e acertada previamente com as ‘forças de ocupação’ e – mama mia! –  ninguém viu?  Daí começaram os problemas (que seriam previsíveis caso as ações das forças de segurança’ estivessem baseadas num planejamento, realmente inteligente):

Desarticuladas ou dificultadas em suas ações de distribuição e venda da droga para as Zonas Sul e Norte (áreas onde – todo mundo sabe- estão os consumidores potenciais) por conta da mudança de território, aquela parte da bandidagem voltada para as ações de rotina no comercio varejista da droga, partiu para ações isoladas para conseguir carros para  os ‘bondes’ (deslocamento de ‘soldados’ e transporte de armas, drogas e dinheiro) a fim de cuidarem da manutenção de suas atividades rotineiras.

Estas ações ‘emergenciais’, são típicas da ação de esquadrões guerrilheiros após a retirada ou deslocamento para montar novas bases de operação. No caso dos traficantes cariocas estas ações se caracterizaram por ‘arrastões’ nas grandes vias de acesso da área próxima às favelas onde parte destes bandidos se concentraram (Vila Cruzeiro e adjacências) com a prática de incendiar carros para interromper o trânsito, agilizar os saque e facilitar a fuga rápida.

Ao que tudo indica o alto impacto midiático destas ações –  até então apenas circunstancialmente terroristas – e seu potencial para desmoralizar a política de segurança implantada, é que obrigou as autoridades do governo a mudar a sua estratégia anterior.

Erro um, portanto:

Partir para o confronto de agora, denota que, da parte das autoridades de segurança do Estado não havia um plano de contenção dos bandidos nas áreas para as quais fugiram (um cerco estratégico às linhas Amarela e Vermelha, por exemplo) de modo a isolar o problema nestas áreas de retaguarda.

Erro dois, logo a seguir:

Fazer o jogo da bandidagem e abrir, intempestivamente uma nova frente (invadir o novo território dos traficantes) sem um plano bem articulado e, o que é pior, sem ter ainda a área ‘pacificada‘ das UPPs totalmente consolidada, foi uma atitude desesperada que pode trazer efeitos funestos, negativos, para o plano geral de segurança pública, que, como já cansamos de afirmar, é já em si mesmo falho e imediatista em sua origem, pois, ignora o caráter eminentemente social e político do problema.

E aqui um detalhe inquietante: Estas ações dos traficantes indicam uma mudança no modus operandis deles, que podem ter iniciado agora o exercício e o aperfeiçoamento para a posterior aplicação – agora sistemática – de táticas de guerrilha urbana específicas, que como se viu neste caso presente, podem ser bem eficientes (pelo menos mais eficientes do que as forças de segurança atuais demonstraram ser capazes de reprimir).

Precisamos rezar para que não apareça um líder bandido bem articulado, tipo gênio do crime, com perspicácia guerrilheira. Se mal ajambrados como parecem ser, estes bandidos já conseguem tocar este terror todo, todo este rebu, imaginem se pegam mesmo jeito para a coisa?

Tanques de guerra, movimentação de um número absurdo de tropas (aparentemente a opção propagandística adotada por alguma estúpida autoridade) na verdade demonstraram, ao contrário do que pretendiam, certa improvisação e algum aturdimento das autoridades que, pegas de surpresa parecem pretender agora, atabalhoadamente, dar a ilusão para a imprensa mundial de que tem mais poder de fogo nesta guerra, o ‘mando de campo’ por assim dizer.

Só que o ‘Campo’ que se pretende preservar é na área do esporte e não um… ‘Campo de batalha’.

Ora, ninguém se deu conta de que aceitar que havia uma guerra destas, de proporções iraquianas, mobilizando um verdadeiro exército contra menos de uma centena de bandidos ‘fuleiros’ encastelados num morrinho – todo mundo viu! – seria o que de pior a administração de uma cidade candidata a sede de um grande evento mundial podia fazer nesta hora. Vexame internacional, sem dúvida. Será que dá para reverter a má impressão?

E olha que a Vila Cruzeiro é apenas UMA das dezenas e favelas daquela área (as últimas contas falam em DEZESETE favelas). Se já é virtualmente impossível ‘ocupar’ (e manter) militarmente aquela área (Complexo da Penha) quanto mais ocupar militarmente TODA a cidade do Rio de Janeiro (sim, porque, a cada ‘ocupação’ a bandidagem – exatamente como em Bagdá – se deslocará para outra favela.

Os otimistas histéricos não vêem, mas aquilo que vimos ontem na TV, em tempo real, foi vexaminoso. A capacidade de reação terrorista da bandidagem – e as razões de ser desta reação extremada não estão de modo algum suficientemente explicadas – foi subestimada e alguma ‘otoridade’ estúpida e irresponsável, já que o caldo havia entornado, achou que tinha poder militar e podia aproveitar a oportunidade para dar um golpe de alto impacto publicitário, uma demonstração de força.

Daí a coisa fugiu do controle (o que prova que os serviços de inteligencia da polícia são burros, ineficientes ou inexistentes) a bandidagem pôs em ação um amplo plano de terror que já devia estar orquestrado com antecedência (segundo alguns relatos comandos de meninos viciados em crack foram mobilizado para as ações de incêndio de veículos em pontos estratégicos) e a polícia e os militares, pegas de surpresa, não tiveram mais como voltar atrás.

(Quase todo santo dia eu vejo dezenas e dezenas destes meninos jogados no chão como lixo, enrolados em panos imundos, dormindo a sol pleno em grande parte do trajeto do meu ônibus quando vou para o trabalho)

Mesmo assim, dada a acachapante vantagem numérica e de aparato de guerra usado pelas forças de …’segurança’ eu – como todo mundo – achei que eles iam cercar a bandidagem no alto do morro e acabar a história com uma carnificina básica. Não resolveriam nada, pois o problema apenas seria afastado para outro…’território’. Mas não, conseguiram piorar ainda mais a situação e enfiando os pés pelas mãos, acabaram se tornando até mais terroristas (tanque de guerra? Fala sério!) do que os bandidos.

Ver um verdadeiro exército, centenas e centenas de policiais e soldados zanzando pela cidade como baratas tontas, caindo pelo chão, tropeçando em si mesmos foi constrangedor. Confesso para vocês: Fiquei e estou ainda agora apavorado, com um medo pânico de sair de casa. E tem gente que ainda acredita – e falam isto babando de emoção sádica – que haverá um ‘confronto final’ no Complexo do Alemão e as ‘forças da paz’ (?) triunfarão.

Maluquice e marketing: Perderam mesmo a noção do perigo.

Se as ‘nossas’ forças da paz, são estes homens de preto amontoados, quase acuados atrás de barracos de alvenaria, espreitando esquinas, atirando a esmo e matando, indiscriminadamente inocentes e supostos bandidos por aí, como é que podemos nos sentir seguros?

Óbvio que esta ação amalucada de invadir com tanques e soldados um morrinho de favelados, como propaganda é péssima e a estratégia parece bem doida e irresponsável também, pois, agora a situação, como a de toda guerra de invasão – remember Bagdá – é imprevisível. O ‘exército’ do governo ganha, por enquanto, claro. Mata os bandidos ‘fuleiros’ de hoje e alguns inocentes, ocupa o morrinho com pose de quem tomou ‘Monte Castelo’ ou ‘Iwo Jima’ na segunda guerra mundial, mas o filme pode queimar de vez e melar a Copa.

(E isto, este tipo de arroubo arrogante, é a cara do Sergio Cabral, não é não?)

Bandido no Rio dá em árvore, gente! Favela também. Toma-se um morrinho aqui, eles montam outra base ali. Só quem já viu do alto o mar de favelas que margeiam a Avenida Brasil do Caju até o limite de Santa Cruz, lá no limite do município, sabe do que estou falando. Como a questão, de forma burra e omissa, está sendo tratada como uma guerra convencional, uma disputa de território, em breve poderemos ter guerras localizadas entre traficantes e milicianos, entre milicianos e PMs, com bandos de um ou de outro lado invadindo até as UPPs até agora, supostamente estabelecidas.

O problema do Rio não é o crime organizado. O problema do Rio é o crime ser tão generalizado (tendo as autoridades como cúmplices) e… desorganizado.

O triste, o revoltante, é que há por aqui os que comemoraram esta ‘vitória’ das forças ‘pacificadoras’. Uns irresponsáveis individualistas que gostaram da ‘paz’ aparente das zonas Sul e Norte da cidade, com a molecada bandida – jovens negros em maioria – expulsa para a periferia. Gente de Deus! Já disse aqui, muitos outros estão dizendo isto  também:

O Rio tem mais de 1000 favelas…MIL favelas, ouviram?

A cidade é uma imensa periferia favelada cercando meia dúzia de bairros ‘normais’.

Mais de 20% da população do Rio é favelada oficialmente, mas uns 40% vivem em bairros miseráveis, favelizados do mesmo modo. Estes milhões (!) de pessoas estão largados à própria sorte e a bandidagem é (mesmo a contra gosto da população) a vanguarda desta gente que acena lençóis brancos das varandas dos barracos.

Os nossos milhões de favelados – talvez a maioria de nossa população – são tratados como seres parasitas, chamados eufemisticamente e de forma cínica de…’trabalhadores’, ‘gente de bem’ (biscateiros, subempregados, mal remunerados, e desempregados, na verdade sem nenhum ireito de cidadania) a parte ‘baixa’ da sociedade que os ‘de cima’ mantêm ali, nestes guetos infectos como escravos modernos, serviçais, catadores de sobras, de ‘bicos’, vendedores de dejetos, párias largados no meio do lixo para se virarem como puderem.

Não é por acaso que os principais produtos que movimentam a economia destes locais são a droga e outras ilicitudes controladas por milicianos de um lado ou pelos chefes desta molecada bandida de outro. O Rio de Janeiro é uma Casa de Marimbondos, uma Caixa de Pandora, um container de lixo que esconde dentro uma bomba com um relógio acoplado, marcando a hora em que vai explodir.

Este Rio revoltante, que já é parecido com Gaza ou com Bagdá, periga se tornar rapidinho um lugar igual a Soweto do tempo do Apartheid, com aquela blitzkrieg das forças de segurança massacrando e atirando na população indefesa para pegar supostos agitadores bandidos, gerados pelas próprias circunstancias da vida nos guetos.

Disque denúncia bate recorde de mil ligações!

Acabo de constatar vendo pela manhã o Jornal da Globo – e isto pode ser visto nos demais jornais também – que a mídia dita ‘golpista’ ontem (porque, supostamente exagerava a gravidade da situação, queimando o filme do Sergio Cabral e sua turma), hoje já faz uma campanha deslavada para vender a idéia de que a população, maciçamente apóia a ação das forças de segurança. Observo também, sem surpresa alguma que este apoio irrestrito é exatamente a posição da classe média do Rio, única beneficiária direta desta insana e hipócrita política das UPPs.

É incrível o desprezo que esta gente que apóia acriticamente esta guerra de miseráveis morais contra miseráveis sociais está demonstrando ter pelo ‘resto’ (a maioria) da população, principal vítima de tudo, em todas as circunstancias. Meio nojento isto aí, esta indiferança insana. Como não existe ‘almoço grátis’, a conta com toda certeza virá e será salgada.

Os ‘pagões’, como sempre seremos todos nós. Só tenho pena daqueles que – tomara que não seja um de nós –  pagarão com a vida.

E o seu Correspondente e guerra se despede de vocês repetindo:

_” Eu quero a minha mãe!”

Spírito Santo

Novembro 2010


Dia do músico é dia de Anacleto


Araribóia

Araribóia’ (clique e ouça o mp3) é o hino ou ‘dobrado’ (o autor chamou de ‘passo-dobrado’) mais cheio de feeling e groove que eu já ouvi na vida. A composição já é um arraso, a orquestração então.  Tudo é bem a medida da genialidade do maestro que, para alguns como eu, é o pai dos arranjadores de orquestra pop do Brasil.

Sem Anacleto de Medeiros (ao centro da foto com a fantástica banda do Corpo de Bombeiros), nada de Pixinguinha, nada de Tom Jobim nem nada de Villa Lobos também.

E quem teimar comigo eu chamo para a briga.

Kwame Opoku: A consciencia do homem é negra


Foto de Fernando Rabelo - Folha Press

Brasil e consciência negra.

(Para a africana Lucia Kudielela)

Há muitos anos atrás quando eu vivia em Viena Áustria, Kwame Opoku do Ghana, um grande e bom amigo que fiz por lá (na Europa, bem entendido), resolveu confessar toda a sua contrariedade com a insistência com que eu justificava coisas que não conseguira realizar no Brasil, alegando como impedimento incontornável o racismo.

Advogado na sede da ONU em Viena, velho adepto das grandes causas africanas de nosso tempo, tive a honra de admirar na casa dele, fotos suas com Amílcar Cabral, Nelson Mandela, Sam Nujoma e tantas outras enormes e memoráveis figuras do renascimento africano  as quais, de algum modo meu amigo esteve ligado por dever de ofício ou militância. Estar perto de uma pessoa associada tão diretamente à história moderna do negro africano me fazia ficar exultante. Sentia-me assim também muito próximo daqueles gigantes lutadores pela liberdade dos homens, orgulhos da raça humana, heróis da minha geração.

Mas demorei muito a assimilar a contrariedade de Kwame. Ela me constrangia e envergonhava bastante. Sentia-me enquanto negro brasileiro um pouco diminuído, num sentimento de inferioridade estranho para uma pessoa como eu que sempre se vangloriou de sua combatividade, seu engajamento político, de sua militância enfim.

Mesmo orgulhoso de, inusitadamente ser o professor de marimba africana de um africano real – Pasmem, mas é isto mesmo! Bem antes de ser meu amigo, o já velho Kwame (desconfio eu um membro destacado de alguma casta da nobreza ashanti, segundo pude testemunhar numa festa de reverentes conterrâneos seus) fora educado num liceu de Accra, onde havia tocado piano. Um africano refinado como europeu, digamos assim, mais, sobretudo um africano com um recôndito desejo de aprender a tocar um instrumento musical de sua cultura ancestral.

Kwame comprou o instrumento que – imaginem!- eu mesmo havia fabricado no Brasil e  levado para Viena. Um ano depois  Kwame acabou se tornando meu aluno, numa inusitada relação cultural invertida entre um brasileiro afro-descendente e um africano ‘legítimo’.
Isto me animava e redimia um pouco, mas devo reconhecer que demorei algum tempo mais para compreender de onde vinha aquele sentimento de quase desprezo de Kwame pelas minhas lamúrias de negro brasileiro revoltado.

_” Há racismo lá no Brasil? E vocês, sendo tantos como são, aceitam?”_

Era esta a admoestação mais recorrente que ele me fazia, querendo dizer com isto que talvez nós estivéssemos sendo condescendentes demais, omissos demais diante das afrontas e impedimentos que o racismo nos impunha. Jamais consegui convencê-lo da força insuperável das amarras que nos tolhiam.

Jamais me recuperei daquela sensação de fera afrontada. Fiquei até hoje achando que talvez falte mesmo em nós, brasileiros – e isto estava explícito no sentimento honesto de Kwame, o africano – a  consciência do que significa ser mesmo um afro-descendente, um negro-africano desgarrado, além da vívida sensação que temos do estigma, da pecha de ignorantes, despreparados e submissos que carregamos nas costas.

Reconheçamos que só os nossos antepassados africanos, trazidos para o Brasil como escravos, manietados e subjugados pela força bruta, é que tiveram o direito de incorporar, de assimilar, de se curvar diante da opressão (mesmo fingidamente que fosse, saltando para trás como os capoeiristas negaceando o golpe) por necessidades de sobrevivência física.

Reconheçamos, sobretudo que, mesmo assim, mesmo podendo se acovardar diante da força bruta e da morte, muitos de nossos antepassados ainda assim, insubmissos morreram, lutando, apenas para nos legar as lições e o sangue de sua descendência.

Sei que são palavras amargas no dia em se deveria apenas  exaltar nosso orgulho, mas me ocorreu dizer agora mesmo que falta-nos talvez e ainda – a consciência negra plena e profunda – o traquejo para manejar ferramentas válidas da insubordinação e da revolta, a consciência ampla dos nossos direitos – não de negros tão somente, mas de homens – direitos básicos humanos enfim, ainda hoje quase que apenas concedidos por brancos ‘bons’, ‘solidários’ ou ‘piedosos’ – e muitos o são honestamente, coitados – e quase nunca conquistados pelo esforço organizado de nós mesmos, a reboque de nossas geralmente pífias lideranças, oportunisticamente aboletadas nos poleiros do poder.

Talvez falte a nós, negros brasileiros, o instinto africano de romper enfim, de uma vez por todas, com a escravidão emocional que ainda está entranhada em nós. A consciência de que, haja o que houver, façam o que fizerem para nos submeter, somos e seremos livres sempre sim.

————-

Depois desta estada em Viena – ironicamentea pátria de Adolf Hitler – trocando lições de negritude com Kwame Opoku, o africano, passei sempre a observar melhor a diferença sutil que existe entre ter consciência negra e ter a consciência de ser negro.

A primeira consciência (a de ter) reside na profunda e refletida compreensão dos valores morais, éticos, sociais, culturais enfim contidos na herança africana de irmãos na diáspora, a busca incessante pela essência de ter a África simbólica dentro de nós, de ter humanidade enfim, onde quer que se esteja neste vasto mundo. A consciência de si per si, de sermos nós mesmos os reis, cada qual com mais um rei seu na barriga.

A segunda consciência (a de ser) seria manter a alma inquebrantável, a consciência ideológica limpa, adquirida na convivência com a exclusão social reiterada e o racismo num país que tem negros, mas que também tem – fazer o que? – brancos, na busca de saídas para fazer a ‘coisa certa’ junto com a maioria – e não no oco de uma minoria ‘negra’ de ocasião, no convescote de uma casta sórdida – para romper as barreiras mentais de nossa submissão, daquela escravidão emocional que nos aniquila e avilta a todos.

A consciência sócio racial de jamais ficar trancado no gueto escuro de nós mesmos, na síndrome da dicotomia que, separando maquiavelicamente negros de brancos, perpetua  e legitima a desigualdade, assim justificada pelas alegadas diferenças de um – a branca elite – supostamente sempre superior aos demais – todos aqueles que não sendo brancos, passam a ser negros, simplesmente por exclusão.

A consciência plena de saber se colocar acima deste mundo de iniquidades que o racismo introjetou nas cabeças de nós todos, negros e ‘brancos’ do Brasil.

A consciência enfim de que, para todos os efeitos, o Brasil é essencialmente um país com negros, que só atingirá o ansiado sucesso de seu processo  civilizatório (como dizia o saudoso Darcy Ribeiro) no dia em que tiver consciência de sua natureza pan-africana, super humana  de ser, quando tiver, definitivamente se assumido  como Brasil brasileiro de todos nós.

—————

Nunca mais vi Kwame Opoku, o africano. Dele tenho notícias esparsas, sei, por exemplo, que se aposentou do trabalho na ONU. Depois que deixei de vê-lo muita coisa mudou. Mandela foi libertado, por exemplo.  A África do Sul virou uma grande nação. Angola caminha para isto, a África sofrida ainda em certos bolsões renitentes de ditadura e pobreza também e sobretudo, anda.

Desejaria nos Dias da Consciência Negra no Brasil que nós, os negros e os brancos deste nosso país de sonhos perfeitamente realizáveis e angústias passageiras, fizéssemos um exame de consciência e partíssemos para a luta às nossas próprias custas e riscos, certos de que assim –  e só assim – a vitória será certa.

Spírito Santo
Novembro 2010

Brasil Afro #03 – Ainda Palmares e um necessário parentese africano


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Clique na foto e a amplie. Fique chapadão como eu. Na gravura do pintor holandês Olferd Dapper, uma vista panoramica da incrível – e enorme – capital do ‘reino’ do Loango no século 17. O Loango era um sobado suserano (um reino menor e subalterno) do grande Reino do Kongo que, pode-se ver agora, devia ser muito maior do que imaginávamos.

(Leia os sensacionais posts #01, #o2 e desta série)

Se liga galera: Negros não nascem de pés de repolho

Eu sei. Promessa é dívida. Fiquei de desvendar um segredo crucial desta saga angolana no Brasil: O mito do menino Zumbi sequestrado.

Vou cumpri-lo, claro, mas me dei conta agora mesmo de que vocês estão – como eu estava –boiando totalmente nesta história, na História maiúscula desta gente preta que deu no que somos hoje todos nós.

Incrível, mas vocês não sabem de nada. Cegos em tiroteio. Também não é para menos: Ninguém se deu ao trabalho de colocar esta parte da nossa história num livro didático. Numa ou noutra tese de doutores ela está, mas quem lê teses de doutores? O certo é que – sabe-se lá quem – falsearam, forjaram e omitiram totalmente de nós alguns detalhes.

Negros não nasceram de pés de repolho, não é mesmo? Estamos aqui porque nossos parentes vieram de algum lugar.

Daí ficarmos assim, achando que nosso jeito africano de ser surgiu – sem desmerecer os silvícolas ameríndios que também somos – da improvisação, do atavismo de um bando de selvagens de tanga, arco e flecha, envolvidos em ritos bárbaros e trazidos à força para um ‘civilizado’ Brasil.

Mentira deslavada, sabe-se lá por quem lançada. E nem nos interessa mais saber por quê. Cuidemos de, cabalmente desmenti-las e pronto. Vocês verão que o segredo impressionante que estou guardando sobre a farsa do menino Zumbi sequestrado – o tcham tcham tcham tcham desta série – fará muito mais sentido depois deste mergulho na mais remota história de nós mesmos, negros e brancos do Brasil.

Não precisa nem dizer: Eu sei que você, brasileiro (ou angolano), estudou bastante história portuguesa no ginásio. Dom Sebastião, o venturoso, batalha de Alcacerkibir, sei lá, estas coisas aí bem ‘trás-os-montes’. É hora de perguntar então (pelo menos os brasileiros): Porque não nos ensinaram a história de Angola?

A hora é esta então: Em vez da história da nobreza portuguesa, coloquemos  em foco, aqui e agora, a história gloriosa de nossa própria e preta nobreza de descendentes de lá dos ‘trás-os-oceanos’.

Sim por que, no século 17 – época na qual o Kilombo de Palmares cresceu e prosperou – Angola e Brasil eram praticamente uma colônia só. Tudo nos unia, até mesmo as guerras. A maioria esmagadora dos negros de Palmares veio dos reinos do Kongo e de Angola.

Ué?! Não te contaram isto não?

Há um lençol pudico, uma névoa de censura envergonhada cobrindo o nosso espelho étnico neste em em muitos outros aspectos – e este é o tema central desta série de posts – nossa imagem africana real precisa ser revelada. Vamos pensar mais nisto então, enquanto corremos atrás do que nos diz respeito?

África. Século 12, 13, por aí:

Ndongo, reinos do Kongo e de Angola

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto do Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este Nimi a Lukenyi foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

Em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, exceto sugerir que voltará daí a pouco tempo e que gostaria de conhecer o rei de todo aquele país. Deixa por lá desta vez quatro padres franciscanos com a incumbência de irem até onde reside o rei do lugar.

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior da selva e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos.

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuwu.

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuwu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Bem vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, este embaixadores involuntários teriam sido encorajadas á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local, o kimbundo) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos de forma tão espalhafatosa, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

A cronologia dos ‘anos de provação’ 1

A história africana desta época, no que diz respeito á nós, brasileiros, começa portanto em 1482 com o MweneKongo Nzinga a Nkuwu 2 (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuwu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei MweneKongo Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene Nsundi. Nzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba, ‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum à sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuwu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene Soyio e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manoel, cabendo a seu filho o nome de D. Antônio.

Nzinga Mpemba e a gênese do afro catolicismo angolano

A era de Nzinga a Mbemba é marcada também pelo aprofundamento da ligação da cúpula ou nobreza do Kongo com a igreja Católica Apostólica Romana, representada pelos interesses do Cardeal D. Henrique,  importante líder católico, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal e que, muito se empenhou junto a Santa Sé em Roma pela sagração de D.Henrique I, filho de Nzinga a Mbemba como bispo de Utica em maio de 1518 aos 23 anos de idade.

A extraordinária missão diplomática que leva o jovem de 18 anos carrega muitos presentes de marfim, peles raras e finos têxteis de ráfia do Congo e é acompanhada por uma comitiva trezentos e vinte cativos selecionados pelos portugueses.

A missão chegou á Lisboa de onde foi enviada, por terra, até a Itália, atravessando os Alpes á pé e chegando sã e salva ao Vaticano em 1513. O Papa Júlio II havia falecido sucedendo-lhe Leão X. que é quem em Maio de 1518, sobre a recomendação de quatro cardeais do Vaticano, consagra o filho do rei do Congo, como Bispo de Utica aos 23 anos de Idade. D.Henrique regressa ao Congo em 1521 do Kongo, morre em 1538.

A bem da verdade, esta política de colonização cultural, era levada a cabo no Kongo, não só pela coroa portuguesa, mas por seu agente principal: a ordem dos jesuítas, cujo objetivo central era montar na África missões semelhantes as criadas nas colônias europeias da América do Sul e tinha como estratégia essencial, fomentar a discórdia e desestabilizar a já combalida unidade entre os povos da região, afim de facilitar a conquista militar e territorial que se seguiria à dominação religiosa e ideológica da elite do Kongo.

Em nome da imposição de uma ordem cultural cristã hegemônica, uma era de cruel repressão ás práticas culturais tradicionais é empreendida pelo rei do Kongo, sob as ordens dos padres da ordem jesuítica dos e portugueses. Grande parte dos sacerdotes e médicos tradicionais (Ngangas e Kimbandas) é exterminada por meio de uma série programada de assassinatos. Uma longa série de conflitos e golpes de estado provocados pela inconciliáveis divergências entre sobas nacionalistas e a incondicional aliança do rei com os portugueses, lança o império do Kongo no caos.

A partir desta época, pelo pouco que se pode apreender a partir da enorme ambiguidade da documentação, o que se conhecia como Reino do Kongo passou a ser apenas uma espécie de protetorado português, com importância reduzida no contexto das lutas pela independência da região, posto que passou a ser ocupado pelo ‘Reino d’Amgola’, assim chamado pelos portugueses por conta do título de seus governantes: ‘Ngolas‘. Os títulos Mwenekongo (Rei do Kongo) e MweneNgola (rei do Ndongo) passaram então a se confundir. Os Portugueses e jesuítas que não se conformaram com esta nova  conjuntura ensaiaram um cruento golpe de estado, tentando devolver o poder a seu preposto rei do Kongo D.Alvaro I.

Ao que parece esta dinastia ligada a Ngola Ndambi (D.Alvaro I) é o clã mais importante da região do Kongo e do Ndongo, pelo menos até a morte de Nzinga Mbandi, a rainha Jinga (neta deste Ngola Ndambi) em 1663 3 . Pelo que se sabe até agora, o clã Nzinga do Ndongo assume o poder (tendo em alguns períodos total ascendência sobre o Kongo) a partir de Ngola Ndambi em 1570. Os documentos são confusos em relação a genealogia dos reinos do Kongo e Ndongo-Matamba (‘Reino d’Amgola’) nesta época. Ao que parece, alguns documentos omitem ou confundem o nome ‘angolano‘ de certos manikongos (que pertenceriam ao clã do Ndongo) com o nome de seus títulos nobiliárquicos na língua local (Kimbundo).

Ao que tudo indica portanto teriam existido dois períodos principais na história da região: Um no qual reis títeres de Portugal governaram o Kongo em crescente litígio com o clã do Ndongo-Matamba, e outro no qual os chamados Ngolas, ora se aliaram ora combateram Portugal, governando (ou tendo parentes governando) o Kongo como Manikongos de fato ou seja, o poder do império a partir de certa época, passou a ser (se já não era) exercido exclusivamente por membros de famílias oriundas do povo da região do Ndongo – Matamba.

O período de predominância desta dinastia relacionada ao Ndongo-Matamba, parece se acentuar quando o representante português Paulo Dias de Novais foi aprisionado e o golpe perpetrado pelos portugueses e jesuítas totalmente rechaçado pela população que, em 1568 numa espécie de guerra civil expulsou o Mwenekongo 4 , D. Álvaro I ,seus aliados e todos os estrangeiros para a ilha de Luanda no Reino de Angola na embocadura do Rio Nzaidi)

Novamente aqui, a grande confusão sobre os nomes de quem, efetivamente, governava o Kongo pode significar que o poder real na região estava sofrendo de muitos questionamentos e conflitos entre clãs e facções, podendo significar que conviviam num mesmo período reis do Ndongo (com algum tipo de ascendência sobre o poder no Kongo) e reis títeres, que tentavam governar o Kongo a serviço de Portugal.

Como o nome português destes eventuais reis títeres (principalmente os da dinastia dos ‘Álvaros‘) aparecem em alguns documentos como contemporâneos – ou mesmo homônimos- de supostos reis Ngolas do clã do Ndongo (o que ocorre notadamente com Ngola Nbambi e seu filho Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba), O mais provável é que tenham sido do clã do Ndongo todos os governantes da região compreendida pelos dois reinos, á partir da época de Paulo Dias e Novais.

Dois anos depois, logo após a tentativa de golpe por parte dos portugueses e dos jesuítas (1570), D.Alvaro I / Ngola Ndambi (ou Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) pede de ajuda ao rei de Portugal (D.Sebastião e ao seu tutor Cardeal D. Henrique, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal) que enviando prontamente 600 soldados comandados por Francisco de Gouvêa o recolocam no poder.

1575. Paulo Dias de Novais (que havia sido libertado) volta a Luanda. Havia assumido o poder o filho de Ngola Ndambi, Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba (ou, como o pai, Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) conhecido como D. Alvaro II. Ngola Kiluangi, liberta Francisco de Gouvêa, comandante da expedição que socorreu os aliados de Portugal, que estava também preso até então. Kiluangi também muda a Mbanza de Kakulo para o reino vizinho, o Mbaka e, em Junho 1575, manda uma embaixada de boas vindas a Paulo Dias de Novais.

Poucos anos depois, no entanto, pressionado pela grande insatisfação da população com os invasores, ele decide trair estes invasores, promovendo o cerco militar aos portugueses em Anzele em 1579. Em Janeiro 1584 chegam a Massangano os reforços militares e munições solicitados por Paulo Dias de Novais. 20 de Julho 1585 O Rei Ngola Kiluangi retira do seu acampamento de Cabaça. Ngola Kiluanji Kia Samba morre em 1587.

O próximo MweneKongo, filho de Ndambi Kiluanji e seu sucessor é Mpanzu a Lukenyi que assume o posto de MweneKongo sob o nome de D.Álvaro III, a princípio não ratificando nem derrubando os acordos anteriores, do mesmo modo pretendendo consultar a população. Lukenyi acaba  decidindo avisar ao Soba do Reino de Ndongo para tomar muito cuidado com os portugueses, pois eles querem mesmo é tomar o reino do Ndongo (Angola) e todo o império do Kongo para si. Uma guerra de libertação nacional se anuncia.

Reino de ‘Amgola’ e Palmares. Tudo junto e misturado?

Consideremos neste preâmbulo que, enquanto isso, no Brasil de 1597 já se falava no  famigerado Kilombo de Palmares.

O soba do Ndongo é Ngola Ndambi, também filho de Ndambi Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Ndambi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Ndambi, segundo algumas versões após se ver acometido de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Kimbundo (Kiluanji). Jinga (Nzinga)é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manoel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Ndambi chamada Nda Kaniinii Ka Kiluanji, oriunda de Pamba (no Mbaka), apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kaniinii foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilineares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Jinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Jinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

Jinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Anna de Souza.

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino e Angola, porque foi rompido assim que Jinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

Isolada no interior de Matamba, Jinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos e sobados de região se aliaram á Jinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis, Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depois Quissama, além do próprio Kongo.

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Amgola’, guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do Kilombo de Palmares.

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Jinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba e 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e do Ndongo-Matamba (além de sobados aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse fato histórico comprovado) que o fluxo convencional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza do reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área sociocultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo (deportados), segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso .

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados, ‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Kilombo de Palmares.

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Jinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ndambi Kiluanji.

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e Angola) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e de Angola.

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

Spírito Santo

Julho de 2006 (com ligeiras revisões em Novembro 2010)

Leia aqui no link o post final desta série

 

 

Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book


O grande encontro de 'Bois Caiman' onde começou a revolução do Haiti

O grande encontro de ‘Bois Caiman’ onde começou a revolução do Haiti

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Palmares revisitado

(Leia também – e logo – os posts #01 e #03 desta série)

Há poucos anos atrás, numa solenidade festiva em Brasília na sede da Fundação Palmares (como se sabe, uma instituição do governo do Brasil voltada para a cultura dos afro descendentes) resolvi prestar mais atenção numa apresentação gravada que sempre , algo incomodado, ouvia meio assim por alto, nas solenidades da entidade pelo Brasil a fora. Nela, na tal apresentação, um locutor repassava com a voz empolada de civismo o que seria a história oficial do grande líder da nosso maior e mais perene complexo de cidadelas de escravos rebelados: Zumbi de Palmares:

“… Embora tenha nascido livre, (Zumbi) foi capturado quando tinha por volta de sete anos de idade. Entregue a um padre católico, recebeu o batismo e ganhou o nome de Francisco, aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

O incômodo um belo dia deu lugar ao susto. O insight chegou como nos chegam todos os ‘eurecas’ desta vida: uma luz imaginária piscando, piscando e logo se acendendo, ardendo os olhos e a cuca, quase queimando a nossa mufa. Caramba! Como não havia me dado conta daquilo antes?

(Na verdade já me dera conta sim, mas ressabiado, precisava juntar ainda alguns cacos, mesmo embaçados que fossem, alguns poucos subsídios teóricos para poder duvidar, questionar com propriedade. Temia que me tomassem por doido varrido ou delirante, como sempre fazem nestas horas os patrulheiros ideológicos de ocasião. Faltava o ‘eureca’ crucial e inquestionável).

Podem dizer então que tudo começou com um surto de rebeldia adolescente ou algo assim bem intempestivo, mas convenhamos que é isto mesmo que agita e move o mundo de lugar. A insubmissão e o questionamento, o arroubo quase infantil de criancinhas ‘pé no saco’:

_ O que, Tio? Por quê, Tio? Pois sim, Tio! Como não, Tio?

Estas coisas surgem de repente, mas amadurecem como qualquer fruto. Afinal foram muitos anos chafurdando livre e empiricamente, neste esmiuçamento ‘cri cri‘ de detetive forense de série de TV, fuçando estas coisas enrustidas da cultura negra do Brasil.

Pulgas atrás das orelhas. Fazer o que?

Uma pesquisa insana, em suma – todo mundo que mexe com isto sabe – porque as perguntas são milhares, mas a maioria das respostas não estão, absolutamente onde deveriam estar, muito menos nos livros de história do Brasil

Ah…Se tudo na velha fosse bonito como o arco dela!

A enormidade da surpresa, esta sim, precisava ser explicada. Ora, o problema era que a versão da história de Zumbi de Palmares – acatada como oficial pela maior e mais referendada entidade de cultura negra do país – tinha todos os elementos de ser totalmente inverossímil, infundada, falsa mesmo, como conversa pra boi dormir ou aquelas histórias do arco da velha.

E vejam só meu dilema: Como embasar um ponto de vista assim tão iconoclasta, propor uma revisão tão paradigmática, diante de uma versão profundamente estabelecida como verdade absoluta, corroborada por livros e mais livros (alguns até mesmo escritos por mui eminentes historiadores negros do Brasil) jamais questionados nestes termos. Como desmontar uma versão mítica, supostamente heróica, incrustada na mente de – quase – todos nós por meio de séculos de incansáveis reiterações?

Difícil, não é não? Mas sério, gente! Juro que posso explicar – provar – cada tim tim mal ajambrado desta história.

E o pior de tudo – e não há de ser nada – é que terei de fazê-lo quase sem nenhum livro brasileiro conhecido em que me basear. Existem sim revisões da história oficial do negro no Brasil, mas são abordagens, do ponto de vista crítico, muito tímidas, a maioria resgatando ainda muito vagamente a importância da cultura bantu. Diretamente sobre o Quilombo de Palmares, contudo, neste foco em que decidi abordar o tema, rigorosamente – e isto foi uma surpresa absoluta para mim – nenhum trabalho com informações realmente novas foi encontrado.

O que me queimava a mufa é compreensível que seja aceito por pessoas comuns, mas de modo algum poderia ter sido corroborado por argutos historiadores. Este ‘plot’, este leit motiv, este cerne do argumento da história nunca lhes pareceu conhecido não?

Um ‘Story Line’ fajuto:

“…Aprendeu (Zumbi) a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

Nossa senhora! Isto é um mito completamente cristão, não é não? E o que é pior: Ela, esta versão oficial da história de Zumbi de Palmares, na verdade ofende e desmerece a memória dos quilombolas (e em conseqüência a memória das lutas e anseios de todos negros do país) sabem por quê? É que em seu argumento central ela sugere, quase afirma que, para que o Quilombo de Palmares alcançasse o sucesso político e estratégico que alcançou, foi necessário que o seu líder máximo – Zumbi – fosse formado, educado como branco (aculturado, melhor que se diga) por um padre europeu.

Nada contra a civilização cristã ocidental, mas vamos e venhamos, aquele pessoal de Palmares descendia de gente com séculos e mais séculos de história original. África, gente! Parem para pensar: O berço da humanidade. Se tocaram agora?

O recorte do herói mítico que, tal qual um Jesus Cristo ‘black power’ ou um Moisés negão eleito por Deus para salvar seu povo é altamente popular, mas convenhamos: carece de sentido naquelas e em quaisquer outras circunstancias em se tratando da história transatlântica de um povo africano, de cultura tão diversa da dos europeus.

As perguntas que me incandesceram mufa foram, portanto as seguintes (perguntem-se vocês também, se de mim duvidarem, mesmo que por um instante):

1- Seria historicamente comprovável a hipótese de um menino, descendente do principal líder do quilombo de Palmares ter sido sequestrado sem que ninguém se desse conta ou comunicasse o fato?

2- Seria possível a criação e a manutenção por quase um século de uma experiência política e estratégica tão exitosa como foi o Quilombo de Palmares, por parte de milhares de negros escravos, sem que estes se baseassem em sólidas referencias anteriores de organização social, comunitária e militar – regras rígidas de sucessão inclusive- ligadas ao seu mais que remoto passado africano?

3- No contexto de uma sociedade com semelhantes características sócio históricas, teria sido possível um menino negro aculturado, com identidade ou origem genética impossível de ser estabelecida, educado por um padre católico, assumir aos 15 anos (ou 20, tanto faz) o comando de um articuladíssimo e eficiente conjunto de cidadelas rebeldes?

Nenhuma destas hipóteses – pasmem – podem ser comprovadas, carecendo, portanto, totalmente de fundamento. Na verdade, se formos nos basear numa pesquisa mais aprofundada (como esta que estou propondo aqui) todas estas hipóteses, com toda certeza terão que ser declaradas mera e rasteira ficção historiográfica.

É o que devíamos fazer. E logo.

Bem, isto tudo é para explicar que este artigo é apenas uma introdução a uma pesquisa independente, talvez solitária e ainda em curso e que vai precisar de outras evidencias para ser considerada inquestionável, mas que já pode ser lançada por aí . Sim, porque é por aí mesmo que a História real avança: aos trancos e barrancos, pelo caminho das pedras.

Só um aspecto a historiografia brasileira terá que aceitar como falha flagrante e indesculpável de sua metodologia: A maioria esmagadora dos títulos a que tive acesso para embasar meus pontos de vista sobre estes incidentes que ligam, indelevelmente à África ao Brasil, apesar de estarem facilmente disponíveis aos especialistas interessados que poderiam ter proposto teses e livros a partir deles, são quase todos absolutamente estrangeiros (europeus e africanos)

Respondendo à perguntas pra lá de cabulosas

As cartas do padre Antonio de Melo

”…O padre não tratava o pretinho como escravo. ’O padre criou o menino, batizando-o como Francisco. Com a educação recebida, aos 10 anos já sabia latim e português e aos 12 era coroinha. Em uma carta, o padre refere-se ao menino como dono de um “engenho jamais imaginado na sua raça” e que bem poucas vezes encontrara em brancos. Certa manhã do ano de 1670, então com 15 anos Zumbi resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, viver com os negros de Palmares…”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

Nada foi encontrado nos documentos oficiais analisados sobre nosso herói negro mais recorrente, personagem de tantos sambas-enredo, Zumbi de Palmares, que comprovasse a veracidade de dados desta sua suposta biografia, contidos na versão insistentemente aludida pela maioria dos autores que trataram do tema e admitida, até mesmo, como disse acima, pelo movimento negro e todos os órgãos oficiais interessados na superação do racismo no Brasil.

Dos muitos filhos, netos ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses da época, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo) há também o líder do mocambo Acotirene, que deve se referir a mais um membro da família de Ganga Zumba, o rei, filho mais velho de Aqualtune, a rainha-mãe.São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (e observem nos negritos como é bastante recorrente a semelhança fonética entre a maioria dos nomes e os vocábulos ‘Nkanga’ e ‘Nzambi‘ ).

Observamos também a ocorrencia de nomes comuns em Angola – como Kiluange, por exemplo – que remetem ao nome de um grande chefe angolano – Ndambi Kilwange, ‘manikongo‘ líder da guerras contra Portugal no século 16 e que, segundo algumas fontes era o próprio pai da Rainha Jinga.

A grande questão é que, a julgar pelo cruzamento dos dados extraídos de documentos da época disponíveis, principalmente relatórios de expedições invasoras, nenhuma entre estas quase 20 pessoas pôde ser associada, da forma mais remota que fosse, àquela criança descrita nas supostas cartas do padre Antonio Melo.

…” muitas entradas, de fato, se fizeram aos quilombos a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, até 1657, mas, cronologicamente, não se sabe a data certa em que elas se realizaram ou por não ter havido diário de operações, ou por terem eles se perdido…”

(Trechos de um relatório de expedição contra Palmares extraídos do livro de Mário Martins de Freitas “ O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro 1988.)

…”Depois vieram as expedições comandadas pelos holandeses Rodolfo Baro (1664) e João Blaer (1645). Em seguida, o governo de Pernambuco passou a tratar Palmares como um “caso de polícia”, adotando medidas mais “enérgicas”, comandadas por militares locais, as expedições ocorridas nesse período foram, segundo o autor, maiores, mas não atingiram os resultados esperados, tendo acontecido, inclusive, um período de “trégua” entre 1667 e 1671”.

(Laura Peraza Mendes – ‘Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695’)

Existe num documento uma alusão a dois filhos de Ganga Zona (irmão de Ganga Zumba) que teriam sido adotados pelo governador da capitania no ato da ratificação do acordo de Cacaú e batizados com o sobrenome do governador Aires de Souza Castro, mas nada indica que fossem adultos ou capazes de, logo a seguir, assumirem a função de Nkanga a Nzumbi, ou qualquer outro posto relevante no quilombo, cuja atribuição, sabe-se hoje, devia obedecer à práticas socioculturais africanas, pelo menos da maneira como supomos, também vigentes na sociedade de Palmares na ocasião.

Como nos dão conta diversos documentos consultados acerca da similaridade óbvia entre os hábitos sociais dos kimbundos do Reino de Angola e do Kongo nos séculos 16 e 17 e os dos quilombolas de Palmares, existiram vários indivíduos que, com nomes ou funções precedidas pelo título Nkanga (a confusão semântica com o vocábulo ‘Nganga’ /’senhor’ é muito recorrente)  como reparamos anteriormente, foram realmente chefes de alguma localidade ou exerciam alguma função importante no complexo de quilombos (Nganga Zumba, Nganga Zona, Nganga Muissa, etc.). Neste sentido, em nossas prospecções a palavra Ganga Zumba parece ser mesmo uma expressão genérica, diretamente originada de…

Nkanga a Nzumbi.

Nkanga (Nganga) = sacerdote, sagrado, Santo

Nzumbi= entidade, fantasma, Espírito =

Espírito Santo.

A tradução literal do termo Nkanga a Nzumbi (termo do kimbundo angolano) vocábulo que pode, mais acertadamente estar relacionado ao personagem Zumbi de Palmares, poderia ser portanto Espírito Santo.

_Como assim, Spírito Santo?_ Dirão vocês.

Calma! Surprendam-se sem pudores. Eu também fiquei surpreso – na verdade ‘chapado’ – com esta estranha conclusão’, mas como naquele aviso de filmes ela não passa de mera coincidência.

O nome (‘Nkanga‘) seria uma espécie de título de origem com toda certeza católica – daí a coincidencia – que supomos estar fortemente relacionada a alguma linhagem de inspiração jesuítica de reis ou sobas – ‘Manikongos’ – cristianizados, iniciada em época remota (que poderia mesmo remontar ao século 16) e que identificaria o ‘rei’ ou chefe com poderes religiosos e militares, francamente utilizado em algumas culturas do Reino do Kongo (e também no Reino de Angola) ainda durante este período.   

Aliás, isto pode ser constatado facilmente analisando a lista dos mandatários dos reinos do Kongo e de Angola do século 16 em diante.  A quantidade de ‘Nkangas‘ na lista é impressiomnte. O fato de se usar a mesma palavra para definir ou ‘sacerdote‘ quando se referindo a ‘padre‘ (católico) é também uma eloquente evidencia a nos encaminha para estas conclusões.

Segundo esta regra protocolar, portanto, todo supremo mandatário poderia ser reconhecido pelo povo como um ser divino, possuidor de poderes – e obrigações – religiosas, conceito africano original, que teria sido mantido vigente (reciclado, sincretizado) mesmo após a cristianização da aristocracia congoleza ou angolana de então (com os termos católicos traduzidos  para o kimbundo local) e, deste modo transplantado para o Brasil de Palmares.

O fato é que se a rigor (como acabamos de constatar acima) não existem informações documentais confiáveis (o menino, futuro Zumbi, supostamente sequestrado teria nascido entre 1655 e 1662) acerca das fracassadas expedições ocorridas contra o Quilombo de Palmares entre 1654 e 1662 .

Logo, se teria havido pouco depois  desta época ‘um período de “trégua” entre 1667 e 1671 (pouco se sabe sobre os anos entre 1663 e 1666) de onde teria, vindo as recorrentes informações que dariam conta de que um filho do rei Ganga Zumba, recém nascido ainda (ou já com 7 anos de idade) teria sido sequestrado nesta ocasião? Ao que parece, tudo se origina mesmo – sem querer desmerecer a renomada fonte – da seguinte enganosa revelação:

“…E por isso teria havido tantos Zumbis. Eu efetivamente entendia que não. Até que um dia, por mero acaso_ e a pesquisa histórica depende muito de sorte também e do acaso , eu encontrei uma consulta do Conselho Ultramarino, órgão de assessoria ao rei, em que se dizia ao rei que todas as certidões que diziam ter sido morto um Zumbi eram falsas, forjadas para que os chefes das expedições recebessem as mercês do rei. Verificou-se que Zumbi continuava vivo. Este foi o ponto de partida para estabelecer a identidade de Zumbi. Até que encontrei as cartas do padre Antonio Melo…”

(Decio Freitas, autor de “Palmares, a guerra dos escravos” em entrevista á ‘Folha on line Brasil 500’.)

A respeito precisamente do heróico personagem a quem as cartas citadas acima se referiam, há que se considerar que diversos relatórios militares da época já haviam sido unânimes em atestar que este ‘Zumbi‘  já estaria ativo em Palmares, em época mesmo anterior ao acordo de Cucaú datado de 1678 (tendo sido inclusive ferido em combate). Havia até um mocambo com o seu nome (Zambi ou Zumbi), o que seria, naquele tempo, o mesmo que dizer: habitado e comandado por ele.

O fato é que não existem fundamentos nem provas documentais para confirmar, em qualquer um de seus aspectos, a fabulosa história do padre Antonio Melo. A sustentá-la apenas o beneplácito dos pesquisadores diante de hipóteses tão infundadas quanto providenciais a certos setores do pensamento acadêmico brasileiro – e talvez resida aí alguma eventual intenção oculta nas supostas cartas- para quem, ainda hoje, faz sentido a pergunta que até hoje não quer calar:

Como o negro escravizado no Brasil, não tendo passado, origem, nem história, poderia constituir e manter durante tanto tempo, uma sociedade tão complexa e, em sua conturbada época, tão estável e perene quanto foi o Quilombo de Palmares?

Tentando explicar o que a ingenuidade etnocentrista, infelizmente julga inexplicável até hoje, um documento chegava a especular:

”…Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre. Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias (e se informou sobre aquilo a Zumbi) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus (More), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francis Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro”

O ‘Segredo’ da Condessa Schönborn

O argumento da história central, aquela que gera todas as outras versões sobre as cartas do padre Antonio de Melo (muitas delas acrescidas de detalhes que não se sabe bem de onde surgiram) parece estar baseado na mera suposição (uma lenda urbana da época, talvez apócrifa), de que certo padre de Porto Calvo teria escrito uma ou duas cartas contando a saga de uma criança negra sequestrada numa expedição contra o quilombo em 1662 (certos autores, sem nenhuma evidencia apresentada – talvez fazendo ‘contas de chegar’ – falam que o fato teria se dado numa expedição em 1662).

“…Durante uma expedição contra Palmares, comandada por Brás da Rocha, foi raptado ainda recém-nascido e entregue ao padre Antônio Melo, vigário de Porto Calvo, que o criou sob o nome de Francisco.

Na dificuldade de se encontrar uma origem segura para a história , quem buscar notícias sobre o paradeiro das cartas do padre Antonio Melo , terá o dissabor de descobrir apenas uma segunda história, também providencialmente complementar à primeira e, contudo mais implausível ainda:

(Na verdade – tcham, tcham, tcham, tcham – já desvendamos a origem segura da lenda, que é como os leitores verão em breve -num post a seguir – absolutamente surpreendente!)

“Arquivo revela que Zumbi sabia latim!

A condessa de Schönborn, 65, nascida Graziela de Cadaval, é conhecida entre os pesquisadores e ”caçadores” de documentos como a guardiã dos arquivos da casa da marquesa de Cadaval, sua mãe. São cerca de 5.000 livros e conjuntos de documentos reunidos nos últimos seis séculos e guardados em Muge, 80 quilômetros a leste de Lisboa. …Anos atrás, dezenas de documentos foram roubados por um ”pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas”. Desde então, só convidados vigiados pela condessa pesquisam os manuscritos tombados pelo Estado.

Entre esses papéis (roubados) estariam duas cartas preciosas que permitem imaginar Zumbi no seu tempo de menino. Foram escritas pelo padre Antonio de Melo em 1696 e 1698, quando já corria a notícia da morte de Zumbi. As cartas, não localizadas pela condessa, foram copiadas em 1978 a pedido do historiador gaúcho Décio Freitas.

..Na época das cartas, o presidente do Conselho Ultramarino era Nuno Pereira Álvares de Melo, que foi o primeiro duque de Cadaval, e por isso os documentos foram guardados pela família. Ao longo do tempo, parte do arquivo dos Cadavais foi se perdendo. Em fins do século 17, um incêndio destruiu o palácio da família. Depois, com a invasão napoleônica, muitos papéis foram trazidos para o Brasil. Em 1964, as famílias dividiram o que restava do arquivo. Metade ficou com a condessa e o restante foi para o duque de Cadaval. Há notícias de leilões de documentos nos últimos anos…”

(Do enviado a Muge (Portugal) Aureliano Biancarelli para Folha Online – Brasil 500)

O que esta história complementar nos dá conta em suma é que, as famosas cartas deste misterioso e desconhecido padre Antonio Melo talvez não possam ter jamais a sua autenticidade – ou mesmo a sua própria existência – comprovada porque, de uma forma ou de outra, por furto, extravio, por culpa de um incêndio ou um acidente fortuito qualquer, os originais teriam se perdido para sempre.

Como se vê, são bastante controversas as questões suscitadas por abordagens históricas que, deliberadamente ou não, subestimam ou omitem a óbvia ligação da cultura das comunidades quilombolas do século 17 com sua matriz africana mais imediata. A principal destas questões talvez seja a grande insistência com que elas foram sendo inseridas, com foros de verdade histórica absoluta, no contexto dos vários estudos existentes sobre o assunto, a despeito de sua evidente carência de fundamentos.

Entre dezenas de documentos disponíveis, a simples leitura, por exemplo, de uma das cartas do Padre Antônio Vieira (estas sim, autênticas), notório e influente agente dos interesses ultramarinos de Portugal além de importante autoridade eclesiástica, poderia esclarecer muito sobre esta questão. Pode-se destacar em especial dentre estas cartas de Vieira, aquela escrita em julho de 1687, em resposta a uma consulta do rei de Portugal, indeciso quanto a oferta de mais um acordo de paz aos palmarinos, sugerido por certo padre italiano de Recife:

“Muito me admiro… que sem outra informação dos superiores desta província, houvesse por bem a proposta feita por um padre particular de ir á Palmares… este padre é um religioso italiano de não muitos anos, e, posto que de bom espírito e fervoroso, de pouca ou nenhuma experiência nestas matérias. Já outro de maior capacidade teve este pensamento e posto em consulta, julgaram todos ser impossível e inútil por várias razões. Primeira: Porque se isto fosse possível, havia de ser por meio de padres nativos de Angola que, todos, os quais crêem e deles se fiam, e entendem, como sua própria pátria e língua…” .

A propósito, as evidências sobre a existência de certa similaridade entre os hábitos culturais praticados no Brasil pelos líderes palmarinos e os de seus conterrâneos na conturbada Angola do século 17 (hipótese aventada como vimos pelo próprio padre Antônio Vieira) estão se tornando cada dia mais candentes, principalmente se admitirmos a possibilidade de alguns líderes do quilombo da capitania de Pernambuco terem sido prisioneiros de guerra (soldados portanto e não escravos comuns), removidos para os Brasil no contexto da cruenta guerra colonial que sacudia o chamado ‘Reino D’Amgola’ naquela época.

Ao contrário do que ocorreu com as cartas de Vieira, o mais surpreendente é que a existência das outras cartas, supostamente atribuídas ao outro padre Antonio (e seu inusitado conteúdo) tenha sido um fato completamente desconhecido durante 300 anos.

E sobre o total desaparecimento dos originais das referidas cartas, logo que foram enfim descobertas, o que dizer? Por isto mesmo, mais do que com as controvérsias do incidente em si, talvez devêssemos nos preocupar mesmo é com as péssimas conseqüências advindas de sua eventual intenção etnocentrista, tão compreensíveis no contexto de uma colônia européia no século 17, quanto inaceitáveis neste nosso emancipado Brasil do século 21.

Sobrava-nos apenas a palavra solitária do já falecido Decio Freitas, incansável e meticuloso pesquisador que, pelo que sabe até agora, teria sido o único a ter acesso as cartas em poder da condessa o que, em se tratando de fato histórico desta relevância, infelizmente, não deve servir ainda, como prova cabal de coisa alguma.

Aliás, mesmo que tenham realmente existido, por conta do alto grau de improbabilidade dos incidentes por elas descritos, estas cartas não poderiam ter adquirido jamais, a importância que lhes deu a nossa história oficial.

“…A Torre do Tombo, o mais importante acervo do país (Portugal), tem inúmeros catálogos diferentes. O principal, os ”Manuscritos da Livraria”, não traz os documentos por ordem alfabética. Obedece a cronologia de entrada no acervo. Milhares de documentos das antigas casas de nobres ainda não foram catalogados. Não se pode confiar no que já foi informatizado.

Segundo o computador, a carta do rei que dá a patente de mestre de campo a Domingos Jorge Velho deveria estar na folha 426 do códice nove do ”Registro Geral das Mercês”. Foi encontrada pela Folha no verso da folha 246. A maioria dos documentos sobre Palmares pertence ao Arquivo Histórico Ultramarino. Ali estão as cópias dos papéis que seguiam às colônias. Muitos dos originais, destinados às capitanias do Brasil, desapareceram no tempo… Os documentos pouco ou nada contribuíram para traçar o perfil do homem Zumbi.”

(Jair Rattner especial para a Folha On Line, de Lisboa)

O que nos parece inquestionável contudo é que, a morte definitiva do último Nkanga a Nzumbi de Palmares, o sucessor de Ganga Zumbase deu mesmo em 20 de novembro de 1695 quando um de seus ajudantes de ordens (e seu suposto genro) é preso numa escaramuça e aceita traí-lo em troca de perdão. O traidor identificado como o mulato Antonio Soares, viveu em paz em Recife até morrer de velho.

Na hipótese de ser factível, pelo menos em parte, a versão dos fatos aqui apresentada, a dinastia que governou a região do Império do Kongo pelo menos a partir de 1545 (ano de nascimento de Ngola Ndambi, avô da valorosa Nzinga Mbandi, a rainha Jinga), reconstruída no Brasil num formidável fenômeno de transculturação, com a rainha Aqualtune mãe de Ganga Zumba ou com Mateus Ndambi, sogro do rei, teria durado no total mais de 150 anos (dos quais cerca de cem só no Brasil), havendo sobrevivido, após a morte de Jinga, pelo menos até 1695, apogeu e glória de seu último representante conhecido: O Nganga Nzumbi degolado em Recife.

“…ficando só mente (Zumbi) com Vinte negros, dos quais mandou catorse pa. Os postos das emboscadas que esta gente uza no seu modo de guerra, e hindo com seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro, que artefiçiosa mente avia fabricado, achou tomada a paçagem; pelejou valeroza e desesperadamente matando hum homem ferindo alguns e não querendo Renderce nem os companheiros, foy preciso Matallos e só hum se apanhou vivo, enviouçeme a cabeça do zumbi que determinei se puzese num páo no lugar mais público desta praça a satisfazer os ofendidos e justamente queixosoz e atemorisar os negros que supretisiozamente julgavão este immortal… “

(Ds G.a Real pesoa de Vmagde.Como todos desejamos. Pernco.14 de Março de 1696” Caetano de Mello de Castro – Governador da capitania de Pernambuco )

Surpreendentemente – ah! como é bom por água na boca dos curiosos! –  tendo como pista apenas as datas e o nome suposto deste Zumbi fake aculturado – que se chamaria Francisco, lembram-se? – conseguimos em textos angolanos, portugueses e italianos a chave, a prova mais do que cabal – se é que isto é mesmo possível – da gênese real desta farsa absurda – displicente talvez , muito mais do que fraudulenta – do ‘zumbi menino sequestrado’.

Mais isto …tcham, tcham, tcham, tcham!…. como já disse, será o tema do próximo episódio desta série.

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Julho de 2006 (com pitacos novos em Novembro de 2010)

Nota: Na foto acima grande encontro em ‘Bois de Caiman’, bosque onde a revolução do Haiti foi deflagrada. Veja neste link o que isto – mesmo remotamente-  pode ter a ver com Palmares e reflita.

Leia post #03 neste link

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Se você curte analisar bibliografias e notas de rodapé, este texto possui uma relação bem completa deste tipo de referencia que você pode ler neste link