BellEdisonFigner – O som est machina

“Machina que falla”. Do telefone à Casa Edison

(Por mais que estranho que pareça, a voz aprisionada é sempre mais livre e solta. É que sem algo que a enclausure, a voz – qual chumaço de algodão doce – se esfarinha no ar do tempo)

Vocês sabiam que éramos pouco mais que surdos até o finalzinho do século 19? Não? Querem que eu fale mais alto ou que eu repita?

Certo, certo! Já ouvi.

Cantávamos lá as nossas musiquinhas, batucávamos nas nossas bugigangas percussivas, fazíamos música e barulho sim – e como sempre para chamar a atenção de nossos semelhantes – mas, convenhamos que o nosso desempenho nesta tarefa era tremendamente ineficiente.

Afinal, não conseguíamos amontoar muito mais do que meia dúzia de gatos pingados em nossas performances para chamar a atenção para isto ou aquilo. Cem metros adiante de nós e já não se ouvia mais nada do que falávamos ou cantávamos. Nem o eco.

Anh?’ – em várias línguas, é claro – devia ser a palavra mais falada naquelas ocasiões.

Para disseminar uma notícia, uma informação, qualquer que fosse ela, com o som, tínhamos de picotar a notícia em vários pedacinhos e espalhá-la por  meio de ‘transmissores’geralmente humanos, clones da gente, nós mesmos multiplicados saindo por aí em carroças, trens, cavalos ou a pé, sozinhos ou organizados em bandos (‘bandas’) cantando, gritando, se esgoelando, fazendo estardalhaço em suma. Escandalosos.

(Dá até rouquidão, só de pensar).

Sacam aqueles caras de malha justa e cabelinho chanel, os arautos? Tinham que fazer um espôrro sem fim com aquelas cornetas – quando não o faziam com aqueles quase ensurdecedores taróis – para chamar a atenção do pessoal e obter algum silêncio, para só então, poder ler o ‘bando’ (aquele papel enrolado, com a notícia escrita) sempre com alguma informação de eletrizar ou apavorar o povo do burgo (e mesmo assim, sem escapar de, vez por outra, ter que fazer algum ‘psiu!’ para os engraçadinhos mais inconvenientes):

_ “ O nobre sr. arauto poderia fazer a fineza de repetir, por favor?’_

Acho até que os surdos de verdade, mesmo se pudessem discernir, nem iriam se sentir assim tão deficientes em relação aos ‘normais’.

‘É mesmo. Até que nem somos tão surdos assim‘_ pensariam.

Isto melhorou um pouco – pelo menos no caso da comunicação musical –  quando se popularizaram as acima citadas bandas de música, quando alguém descobriu que juntar uma porção de gente com objetos de fazer barulho, se conseguia um estardalhaço maior, digamos assim, mais consistente e eficiente.

Mas repararem só como eram grandes demais os instrumentos destas bandas? Tubos e ressonadores imensos, caixas acústicas pesadas de grandes, tudo para dar uma modesta sensaçãozinha aos nossos ouvidos de que eles funcionavam sim, estavam perfeitos e alguma coisa podia penetrar na gente, sensibilizar-nos até as lágrimas,  nos emocionar e arrepiar, pela simples via de nossas esquisitas e precárias orelhas.Mas, convenhamos, mesmo assim alguma coisa ficava faltando.

A gente ouvia a música da banda, tuba, clarone, bombardino, bumbo caixa de guerra… mas aí, já não se ouvia mais nada. Um montão de coisa não podia ser dita, assim de viva voz, se não fosse dita num coreto ou num teatro, num caixote qualquer bem alto e grandão no qual de algum modo a nossa voz reverberasse e pudesse ser ouvida por, digamos, uma centena de pessoas, não mais que isto. E mesmo assim ficava ainda sobrando sempre um engraçadinho para perguntar:

‘_Anh?’

Parece que ninguém se dá conta – e fico eu aqui refletindo neste meu ‘você sabia’ com jeito de abobrinha – mas, creiam: a gente acaba refletindo sobre estas coisas sim quando olha para um dispositivo de amplificação ou de gravação do som, um disco de vinil, uma fita K7, um drive de CD, este trecos.

Uma conversa de surdos

(E já que comecei falando de surdez, vocês sabiam que isto tudo começou por obra e graça dos surdos de marre de si?). Então? Éramos todos surdos e não sabíamos.

Eu mesmo me dei conta da relevância destas reflexões agora mesmo, só por acaso, quando dia destes uma pessoa amiga me chamou a atenção para a voz que anunciava (como um arauto antigo) os registros da gravadora ‘Casa Edison’ (no caso um post sobre o genial Patápio Silva), que iniciou esta história de disco no Brasil, aí pelo final do século 19. Já ouviram falar desta história, quero dizer, do quanto isto tudo tem a ver com a surdez transcendental de nossa natureza, do tanto que têm de  moucos os nossos ouvidos?

Contando ninguém acredita.

Nem pergunto mais… ‘Vocês sabiam?’ Enganam-se redondamente os que pensam que eu não sei que muitos já sabem alguma coisa ou outra sobre isto desde o ginásio (se é que alguém se lembra o que quer dizer ginásio), eu mesmo pesquei muita coisa agora mesmo no google, que não sou de ferro.

Lembram aquele troço preto, de plástico que a gente chamava de ‘Graham Bell’?

Se toquem os menos ligados, por favor: Em tempos de Internet todo mundo é sabichão desde criancinha. O que vale é arrumação do papo, o fio da conversa pois a ordem dos fatores é que altera o produto.

Então para mim é isto: Tudo começou com a surdinha.

Ele é o primeiro Cara da nossa história.

Sim, sim, Eliza Grace Symonds a mãe do Alexander Graham Bell – o cara que, como todo mundo já sabe, inventou o telefone – era uma destas pessoas surdas das quais o mundo anda cheio.

‘Portadores de Deficiencia Auditiva, dizíamos antes (hoje em dia dizemos ‘portadores de dificuldades especiais’, vagamente, cheios de feias, hipócritas e logicamente pouco corretas politicagens sociais, não é mesmo?)

Foi ela sim, a surdinha, a mãe de tudo. Considerem, por favor, antes de tudo, que talvez tenha sido por isto mesmo – por ela ser surda – que o pai de Alexandre havia se tornado especialista em problemas relacionados à audição e instrutor de deficientes auditivos. Puro amor pela surdinha.

Vejam a cena, ainda em preto&branco: A família toda, unida e solidária com o problema de Eliza, se envolvendo de corpo e alma num projeto para o mundo. Seu empenho foi tão intenso que Alexander e os irmãos, ainda bem jovens (ele, na verdade ainda adolescente) construíram um protótipo de uma impressionante máquina que reproduzia o aparelho fonador humano, com lábios, palato, dentes, e cordas vocais.

Sabiam disto? Não? Não acredito!

E reparem bem como tudo que vamos contar a seguir, esta conversa de fonógrafo, rádio, vinil, CD, computador, começa meio que por aí. E como se pode notar só por aí, tudo vem de um fio de meada bem mais comprido e embolado do que se pensa.

Em 1873 Alexandre deu início às pesquisas sobre como utilizar a transmissão de sons por meio da eletricidade, idéias as quase vinha se dedicando desde o fim da adolescencia. Foi assim que em 1874, envolvido na criação de um telégrafo múltiplo, que ele acabou por desenvolver o que viria a ser mais tarde o telefone.

E vejam só que curioso: Alexandre se casou em 1877, com Mabel, uma moça que havia ficado surda aos 5 anos e que havia sido aluna da escola para surdos tocada por ele após ter sido como vimos, criada por seu pai.

Ouvi dizer não sei de quem que o telefone foi na verdade, fruto dos esforços da família Graham Bell para fazer Eliza ouvir e falar, se comunicar mais diretamente com o mundo.

Pelo que se viu da história de Alexandre isto bem que pode ter sido verdade. Fiquei até achando que, no fundo no fundo, quem inventou mesmo o telefone – e tudo que veio dele a seguir- foi mesmo Elisa, a surdinha mais sortuda deste mundo.

Impressionantemente simples: A força do gênio humano – para o bem ou para o mal – parece que é sempre motivada por este amor desmedido por si mesmo e/ou pelo semelhante.

Foi assim também com o Thomas Edison que seguiu a trilha de Alexandre:

‘Mary tinha um carneirinho’, cantava sem cansar o Thomas Edison, o nosso segundo Cara.

(E a pobre mulher de Edison –que não era surda – é quem pagava as penas)

“- Mary had a little lamb,
Its fleece was white as snow;
And everywhere that Mary went,
The lamb was sure to go.
He followed her to school one day;
That was against the rules;
It made the children laugh and play;”

E este aí em cima foi o primeiro hit da música pop mundial gravado.

A bem da verdade tudo começa mesmo antes de Edison, em 1857 com o grande salto nesta história que foi o dado pelo hoje obscuro Édouard-Leon_Scott de Martinville, um livreiro e editor francês que criou o ‘fonautógrafo’, interessante traquitana que transformava sons em sinais gráficos impressos num cilindro de papel, madeira ou vidro recoberto de fuligem (uma espécie de rolo papel carbono ou um mimeógrafo a seco, sei lá, se é  que me entendem)…

Daí sim – corrigindo o defeito do outro – foi que veio o tal Fonógrafo de Edison.

(Nada como um ‘Você Sabia’ explícito numa hora destas)

E com vocês, na maviosa voz do cantor Pedro Augusto…

Como vimos Tomas Edison – o mesmo ‘Edison‘ homenageado mais tarde no Rio de Janeiro com seu nome na ‘Casa’ que não era dele  –  inventou a sua máquina que aprisionava sons em 1877. Pois não é que, pelo que dizem, um ano depois o nosso moderno e precursor imperador já havia autorizado Edison a comercializá-la no Brasil.

‘13 de novembro de 1889. Na presença do imperador D. Pedro II, da princesa Isabel e seu marido, o conde D’Eu, um de seus filhos, o príncipe do Grão-Pará, falou e o outro, o príncipe D. Pedro Augusto, solfejou. Era a primeira gravação de sons feita no Brasil, ao ser apresentado à Corte o grafofone (modelo mais avançado de Thomas Edison para seu gramofone). Portanto, D. Pedro Augusto foi o primeiro brasileiro a ter sua voz gravada, cantando.’

O que teria solfejado o príncipe? Seria ele afinado? A voz esganiçada?

Isto são mistérios insondáveis, daqueles que pouco importam. Se alguém sabia, não contou e logo, ninguém jamais o saberá.

——————

Frederico Figner , o terceiro entre ‘Os caras’.

“No Brasil o primeiro a se interessar comercialmente pelas máquinas falantes foi o imigrante tchecoslovaco, de origem judaica, Frederico Figner.

Menino, emigrou para os Estados Unidos e lá, já adulto, ao tomar conhecimento da invenção, que ainda funcionava de forma primitiva com rolos de cera e deixava de ser curiosidade para se transformar em atividade comercial, comprou um fonógrafo, com alguns rolos de cera, e saiu a exibi-los pelas Américas. De volta àquele país resolve explorar um mercado virgem e parte rumo ao Brasil, onde entra por Belém do Pará no final de 1891.

Percebendo o sucesso de suas apresentações, envereda pelo Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia e dá com os costados no Rio de Janeiro, em abril de 1892. Instala-se na Rua do Ouvidor, 135, com sua “machina que falla”, como anunciavam os jornais, sem saber que iria interferir profundamente na cultura popular do país que escolhera ao acaso para ganhar dinheiro.”

Em qualquer um dos contextos que se estude a música do Brasil, o nome de Fred Figner estará lá bem no alto. Todos os Lundus, todos os MaxixesValsas, Fox Trots e todos Sambas. Tudo que nas primeiras décadas do século 20 se entoou nas ruas, nas casas e nos salões, todos os arfantes suores e suspiros, sem elitismos tolos ou preconceitos pseudo eruditos, passaram pelas maquinas de capturar sons que o visionário mascate Fred Figner entroduziu no Brasil.

O fato em suma é que se não fosse por estes três senhores amantes das surdinhas, das engenhocas e das traquitanas, todo um mar de sons teria se perdido por aí. Rasgos, fragmentos deles estariam por certo em nossas memórias ainda – as músicas em amarfanhadas partituras – mas seriam sempre não muito mais que resquícios pálidos de todos os complexos sons que aprendemos a expressar por esta vida de tantos séculos e séculos amém. O som que fomos desde o big bang ensurdecedor que nos criou.

Sempre que eu escuto uma voz gritar (e era a voz do próprio cantor que ia gravar, sabiam?) o nome da Casa Edison com aquela voz roufenha e anasalada, ou mesmo o som qualquer de algum cebolão vinil daqueles antigos, aqui mesmo num youtube destes da vida  (que cá entre nós também não existiria sem os tres Caras) eu me arrepio da cabeça aos pés.

_”… Fulano de tal cantando o maxixe ‘Assim Assim’ para a Casa Edison!”

Ainda em meio ao frio do arrepio eu penso: Deus também é, mas quem est machina’ mesmo, á vera, no duro, assim de mover o mundo, é o Som nosso de cada dia.

SpiritoSanto
Novembro 2010

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~ por Spirito Santo em 14/11/2010.

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