Vale Negro: Festa, Folia e Festim #03/Epílogo

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Folia de Reis de Volta Redonda- RJ

Foto Marcus V. Garcia / 2009

Será que espetáculo pode parar para o almoço?

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. “

Ao que parece, embora os ‘moderninhos da vez’ ainda não tenham se dado conta, a espetacularização de manifestações culturais– razão de nossa conversa – talvez seja um fenômeno bem mais recorrente do que se pensa, se poderia dizer até que ele é intrínseco ao desenvolvimento cultural de qualquer sociedade. Ou seja, um conceito objeto de teses e teorias que…’ chovem no molhado’.

Já pensaram nisto?

A este respeito, apenas por ironia – ou só para apimentar a discussão – eu poderia chamar a atenção dos leitores para o seguinte:

Acho que existem, grosso modo, duas correntes de pensamento embasando o discurso daqueles que pregam uma atitude menos fundamentalista em relação à preservação da cultura tradicional no Brasil.

Uma se aferra à discutível crença de que o que chamamos de Tradição, como tal, na verdade nem existiria já que, sendo mera representação simbólica de certo momento histórico, as tradições poderiam ser aleatoriamente forjadas, segundo os interesses mais diversos de grupos sociais em aliança ou em conflito, segundo fatores os mais imponderáveis e imprevisíveis.

Pode ser verdade sim, mas… E daí?

A outra corrente, ‘antiessencialista’, um pouco mais sofisticada – e, por sua perniciosidade mais discutível ainda – é aquela que preconiza que em tempos pós-modernos, não haveria mais um fator original, seminal, uma tendencia, uma vocação enfim, alimentando e dando sentido às manifestações culturais em geral o que, por extensão, anularia a possibilidade de existirem características específicas, ‘peculiaridades em suma, na cultura de um grupo social ou étnico em relação a outros.

Tudo se resumiria a uma espécie de ‘Geléia Geral’ do Gilberto Gil. Em vez da festa, o ‘Fuzuê’, a mestiçagem existencial, enfim.

Confuso, né? Sei lá. São posições que também, para mim, não fazem o menor sentido (será que por estar ultimamente lendo apenas orelhas e resenhas de livros acabei entendendo tudo às avessas? Se for isto, não se omitam. Me corrijam logo, por favor.)

O que importa é que acabei concluindo que o conceito invenção de tradições – uma obviedade em termos, vamos combinar – não deveria ser visto assim como uma prática social ‘inventada’ pelo Eric Hobsbawm, por exemplo, do mesmo modo que certas complexas minúcias e mumunhas ocorridas nas trocas e relações socioculturais na sociedade atual não foram ‘inventadas’ pelo Nèstor Canclini.

Logo, se é que existe pós modernidade – com o perdão da ‘heresia’ – ela, neste caso, não teria rigorosamente nada a ver com isto.

Quem quiser que aponte outros, mas o que estes emblemáticos pensadores, ao que tudo indica, fizeram foi apenas descobrir – e tentar explicar para simples mortais como nós – fenômenos velhos de guerra, que marcam nossos humanos jeitos de ser desde… Sei lá… Desde as cavernas.

(Desculpem a aparente erudição numa hora destas, mas acho que andam fazendo das teorias destes doutos mestres, meras ‘teses-pretextos’)
(Ai! Como estas falsas gambiarras e bandeirinhas de pós modernidades cansam a beleza dos festeiros mais cascudos.)

Querem ver só uma prova de como a idéia de se espetacularizar cultura é uma moda antiga, que não tem nada a ver com pós modernidade?

Vocês se lembram daqueles autos teatrais encenados pelos jesuítas nas colônias da África – e aqui mesmo no Brasil – no século 16? E do Padre José de Anchieta, aquele frei meio metido a santo que, pelo que disseram, rabiscava quadrinhas à Virgem Maria nas areias de uma praia dessas aí, perto de Paraty, sei lá. Lembram?

Pois ele já espetacularizava a cultura indígena escrevendo peças de teatro de rua – com música e dança – algo inspiradas, aliás, no trabalho de outro Gil (Vicente) um teatrólogo mui afamado na metrópole lusitana. No ‘Auto de São Lourenço’, inventado’ por ele já se podia entrever claramente alguma fusão dramatúrgica de elementos artísticos, das tradições culturais dos ameríndios e dos europeus, num ‘mix’ que devia ser interessantíssimo.

Este modelo de festa de rua, ideologicamente voltado para a engambelação de índios e africanos, a sua submissão à fé cristã,  ao domínio do Branco enfim, é até hoje o modelo mais bem sucedido de espetacularização conhecido entre nós. Ora, e o que era aquilo senão, nada mais nada menos, do que uma tradição inventada?

“Na natureza nada se cria tudo se transforma”:_ Olha o Lavoisier, aí gente!

Perceberam? Já estava tudo ali, na mais velhusca das filosofias (E desconfio até que era isto mesmo que os Hobsbawms e os Canclinis da vida estavam tentando nos dizer.)

Pois foi nesta constatação óbvia, nesta fonte bem ‘feijão-com-arroz’, que este autor, na qualidade de palpiteiro convidado do Cortejo das Tradições de Vassouras foi beber, no ensejo de apresentar a sua proposta.

Fui sim, mas fui com barbas de molho, pois não estava suficientemente claro porque diabos não foram logo montando a festa no formato já consagrado, tão à vista de todos? Porque teriam se exposto ao mico de inventar, justamente a tradição errada?

Afinal de contas, as referências insinuadas pelo modelito fracassado anterior sempre foram, descaradamente sucessoras deste formato afro-indígena-luso-jesuítico inventado pelo Anchieta (sem dúvida alguma, pelo menos neste aspecto, o primeiro carnavalesco deste nosso Pindorama).

Bastava, portanto transformar. Ou seja: A questão não era bem ter ou não ter um… carnavalesco. A questão era estar ou não estar antenado na cultura local, sem prepotencia sabichona.

Pois foi assim que, desviando dos poucos percalços aqui e ali que a tal reformatação da festa aqui descrita foi posta à prova (e nisto não vos irei enganar: Existiram sim fortes – embora sutis e veladas – pressões para o formato antigo perdurar).

Que deu frio na espinha deu.

A Estrutura para o ‘novo ‘Cortejo das Tradições’ de Vassouras em 2009:

(Tal como foi proposto ao coletivo de grupos e à direção do Cecult/USS)

“Os grupos, em tempo determinado, se encaminharão para a praça em separado, cada grupo definindo o seu figurino e a maneira como se conduzirá (se andando, se dançando) segundo seus próprios hábitos corriqueiros ou tradicionais, até irem se encontrando e se juntando a um cortejo simples (sem o conteúdo carnavalizado) se encaminhando para a praça onde as apresentações se darão concomitantemente, segundo uma organização discreta (o telão é que as separará no ato de exibi-las, ou seja, a assistência é que vai circular entre os eventos, livremente enquanto o telão seleciona uma ordem de exibição qualquer, bem dinâmica)… .

Bem, até aí foi, exatamente assim, que as coisas rolaram. Como um relógio. Segundo os prognósticos do Cecult USS, um público recorde de cerca de 5000 pessoas assistiu a festança na praça.

A partir daí sim, foi só foguetório, cachaça e alívio. Ufa!

Os grupos e manifestações participantes:

(Segundo trechos do texto usado na locução do evento)

“Vindas de muito longe, das ruas da Corte Imperial… as Folias de Reis de hoje em dia muito mais incrementadas que as de ontem, são como dizia Mário de Andrade, uma Dança Dramática na acepção da palavra… Com mais tambores ainda, sanfona, impressionantes palhaços e muita cantoria, elas contam de porta em porta a emocionante saga do nascimento do Menino Jesus.

“…Tudo indica que a Caninha Verde veio da antiga ‘Dança de Paus’ européia ou, no nosso caso, de Portugal. O nome também sugere que a dança vem do tempo do ciclo da cana de açúcar aqui na região. …

“… Uma Ata da câmara Municipal de Vassouras de 5 de fevereiro de 1893 dava conta de ter sido banida, varrida da freguesia, a praga das hordas de desordeiros conhecidos como capoeiras. Hoje a Capoeira não é de Vassouras, não é do Rio de Janeiro e muito menos da Bahia. A Capoeira agora é do mundo inteiro.

“…Calango é música de roça, cantada nos fundos das fazendas por peões e campeiros, de improviso… Dois desafiantes … terçando versos, sempre satirizando um ao outro, como num combate verbal  mesmo, no qual o mais ridicularizado é o perdedor. Fora isto pouco se escreveu sobre o Calango…

Foi isto. Os mais atentos devem ter percebido que, entre grupos confirmados para participar do evento, a maioria era formada por aqueles que praticavam manifestações que – inventadas ou desinventadas- já estavam carecas de saber como atuar em espetáculos, em grandes festas de rua.

Este era o caso flagrante das Folias de Reis, por exemplo, entre todas, a única manifestação da região realmente ambulante, apta para desfiles (cortejos, no caso), excelente para animar e eletrizar uma cidade.

Com exceção da ênfase e da prioridade que, por razões óbvias, se deu a este tipo de manifestação não havia realmente nada a se reinventar neste aspecto.

(Eu sei. Eu sei. Ficou faltando falar do Jongo, mas – se me permitem a ressalva – Jongo, em se tratando de espetacularização, é mesmo um capítulo à parte)

Jongo de ponto amarrado

A ‘Morte Matada’ das tradições.

“Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia.

A transformação permanente do Tabu em totem.”
Atentem para este fato (não tem nada de engraçado, mas garanto que tem tudo a ver):

Dos cinco grupos de Jongo participantes da festa de Vassouras neste ano de 2009 (Jongo de Arrozal, Jongo de Pinheiral, Jongo de Barra do Piraí, Caxambu Renascer de Vassouras e Jongo do Quilombo São José) todos são ou estão em vias de virar instituições legalizadas (Pontos de Cultura ou ONGs), habilitados, portanto para a captação de recursos no campo do MinC (alguns com efeito até já conseguiram este o benefício, estando hoje às voltas com a inusitada experiência de gerí-lo)

Parece bacana, não?

Mas não. É que se anunciou como um problema o fato de os grupos não possuírem nenhuma experiência de gestão jurídico financeira anterior, o que os tornava de um modo ou de outro, dependentes de agentes e intermediários ‘de fora ‘ de seu contexto social.

(É bom se destacar logo de saída – e com a devida ênfase – que entre todos os bons aspectos propostos pela equipe de formuladores da reformatação do Cortejo das Tradições para 2009, o reconhecimento destes direitos dos grupos foi reafirmado como prioritário em todos os encontros. Há inclusive uma interessante experiência de incubação e capacitação de gestores no âmbito do grupo de caxambu local, por iniciativa do Cecult USS /Vassouras.)

Barra limpa para alguns intermediários, mas, contudo aí também moram outros candentes perigos.

Como único efeito positivo de um controvertido processo de ‘tombamento’ ou ‘registro’ de bens culturais imateriais no Brasil, o certo é que se abriram inúmeros mecanismos de captação de recursos oriundos da Renúncia Fiscal.

O efeito negativo é que isto gerou uma espécie de corrida do ouro, iniciada ali por volta do ano 2000 por jovens intermediários de classe média – uns ‘interessados abnegados’ outros ‘interesseiros, aventureiros’ – atraídos pela abertura destes canais, a princípio ligados a políticas de preservação do patrimônio cultural imaterial do país, a partir de iniciativas do Iphan (como já se disse por injunção ou inspiração da UNESCO).

Em suma, é correto se considerar, portanto que por impulsão do Estado brasileiro, fonte única, exclusiva e direta destes recursos, as manifestações culturais de ascendência africana, da região por nós observada, antes contidas em guetos bem remotos e baseadas na intimidade de preceitos e hábitos simbólicos ou sócio familiares bem estabelecidos pela (ops!) tradição, passaram a estar diante de um ainda incompreendido paradigma, representado pela irrecorrível opção de ‘ser ou não ser’.

(Ou, o que talvez seja bem pior: ‘Mudar’ ou… morrer’.)

A agudização deste paradigma, na falta de uma ética especial para a mediação dos diversos interesses envolvidos, representando um incremento da distribuição de recursos de patrocínio e a proliferação de iniciativas de Turismo Cultural na região com certeza vai gerar imprevisíveis consequencias (não necessariamente positivas).

(Conhecem a prática social da ‘Gafanhotagem‘? Claro que não, pois acabo de inventar o conceito.)

Tendo as performances destes grupos tradicionais como base de sustentação artística, tende a ocorrer em eventos como o de Vassouras um inevitável e controverso processo de adaptação (ou resignificação) estética das manifestações culturais ‘tradicionais’, em direção ao gosto especialmente mundano – e inculto – das platéias de turistas de classe média (como já ocorre no caso flagrante da repaginação ‘kitsch’ de figurinos de alguns grupos da região) e aos interesses comerciais gerais dos citados (com exceções, é claro) ‘aventureiros interesseiros’, ‘intermediários’, ‘produtores culturais’, ‘diretores artísticos’, ‘etc.

É aí que os ‘moderninhos’, sempre ponderando, argumentam:

_ “Bem, se todos ganham com isto, ainda assim continua a parecer bacana, não é não? “-

Vamos com calma com este andor, contudo que o santo continua a ser de barro.

É imperativo que se avalie – e com toda profundidade possível – as eventuais benesses advindas de iniciativas turístico culturais como esta, do ponto de vista dos interesses de todos os envolvidos (e falamos aqui de interesses sociais amplos, abrangentes).

Já que se banalizou a questão nivelando-a meros fins justificando os meios, seria bom que nos dissessem na ponta do lápis enfim, usando aquela mesma velha metáfora:

_ Afinal, quem corteja quem?

É necessário, por exemplo, muito cuidado quando se sugere a existência cabal de benefícios a serem reivindicados por certas comunidades rurais (remanescentes de quilombos), a partir da simples associação direta que se estabeleceria entre a existência na área de eventuais ‘sobrevivências folclóricas’ relacionadas à ‘cultura negra’ (a prática do Jongo, no caso) e direitos garantidos à posse das terras onde a suposta comunidade quilombola residiria.

É preciso, portanto ter em conta que existem muitas controvérsias ainda, muitas implicações éticas e morais – além das jurídicas – no âmbito deste assunto, entre as quais a mais grave é a virtual inexistencia de parâmetros antropológicos – ou historiográficos – válidos para se definir a legitimidade destas reivindicações.

Não é leviano por isto mesmo se afirmar neste sentido, que em alguns casos (por este entre outros interesses até piores) grupos de Jongo inexistentes foram simplesmente inventados – ou, supostamente recriados – a partir destas demandas, infelizmente tratadas de maneira muitas vezes irresponsável por parte dos órgãos incumbidos de cuidar das políticas públicas deste campo.

Observe-se também que estas políticas – tão elogiáveis em suas alegadas intenções – são quase sempre inócuas na prática, dadas as suas motivações reais, na maior parte das vezes, meramente populistas – ou clientelistas – em sua precariedade legal, mas… quem liga?.

(Cá entre nós, deve haver uma forma mais efetiva e direta de se fazer reforma agrária, de verdade no país).

O chato da história é que, no tedioso rol destes problemas já se pode vislumbrar a possibilidade de diluição e a posterior extinção das manifestações culturais mais frágeis (caso inequívoco do Jongo), tanto do ponto de vista estético quanto no que diz respeito aos frágeis laços morais que unem os integrantes de comunidades ainda excluídas de amparo social efetivo, desprovidas que são de tudo, quase do mesmo modo em que se encontravam no tempo da escravidão.
Ética e Estética. Cultura e Sociedade: Conceitos indissociáveis (é preciso não se esquecer)

Tava durumino. Ngoma me chamou

A ‘Morte Morrida’ do Jongo real

“Só me interessa o que não é meu.Lei do homem. Lei do antropófago.”

Por ocasião dos preparativos da festa de Vassouras, numa reunião do autor deste post e a equipe do Cecult USS com líderes jongueiros da região do Vale do Paraíba do Sul, uma importante figura entre os líderes presentes, surpreendentemente reconheceu que desconhecia o significado da maioria das palavras africanas contidas nos pontos de Jongo que cantava.

_” Eu queria muito saber é o quer dizer Angoma, por exemplo. A gente canta canta e não sabe o que tá dizendo “ – disse a venerável figura, mais ou menos com estas palavras.

Incrível, mas ninguém entre os mestres presentes, do mesmo modo, sabia dizer a tradução daquela que talvez fosse a mais simbólica e característica palavra do Jongo.

Todos ficaram muito emocionados, surpresos mesmo, quando lhes disse que ‘Ngoma’ significava, simplesmente, ‘Tambor’ numa das línguas de Angola. Quando, complementando, afirmei que a origem da maioria de todos nós ali presentes (tanto quanto a da encantada palavra) estava historicamente estabelecida como sendo Angola, a informação causou nos presentes surpresa mais absoluta ainda.

Foi daí que me chamou fortemente a atenção o fato da referida palavra ser por demais conhecida nos meios acadêmicos mais relacionados a esta área de estudo, já estando de algum modo contida e, às vezes, até mesmo corretamente traduzida em dezenas de livros, teses e artigos sobre o tema hoje existentes.

_ Claro. Jongueiros não lêem livros… Muito menos teses acadêmicas – pensei comigo.

Mas esperem aí… Afinal de contas, se muitos destes mestres jongueiros, tão solicitados que sempre foram para participar de editais de programas, institucionais, de Pontos de Cultura espalhados pelo estado, muitas vezes na qualidade de abalizados informantes de suas tradições orais (‘objetos de estudo’, no dizer distanciado predominante nestas abordagens acadêmicas) como explicar a quase total ausência de um feedback qualquer (da parte dos pesquisadores) de uma contrapartida educativa, capacitadora, no âmbito destas relações que deveriam ser de troca de saberes?

(Foi neste momento que me ocorreu a imagem dos gafanhotos, numa alusão a espertos predadores sociais.

Vocês se lembram do H.G.Welles, daquela citação alegre do início do post #01 desta série? Não? Não importa. É dele também a fábula de horror dos alienígenas civilizadíssmos que invadem a Terra só para chupar o nosso sangue em ‘Guerra dos Mundos’, aquele filme do Spielberg)

Fazer o que? O que se poderia esperar num contexto contraditório onde os sábios verdadeiros são iletrados funcionais, incapacitados para a difusão ágil de seus saberes e práticas e no qual, do mesmo modo contraditório, os letrados- apesar de sua arrogante habilidade na difusão de saberes alheios – são completamente ignorantes do conteúdo ético das práticas as quais foram instados a definir, discernir e legislar?

Aberta a Caixa de Pandora da espetacularização oportunista, pouco nos resta a fazer senão lamentar ou exultar, dependendo do nosso ponto de vista. Talvez tivesse sido melhor ‘deixar quieto’, não ter tombado nada, não ter interferido naquilo que estava vivo e pulsante por sua própria conta e risco.

Sei lá. Como saber? Agora já foi, passou. Quem comeu se regalou.

Como bem dizia o Oswald de Andrade aí de cima – e de baixo – (nas citações em negrito) é típico da natureza cínica de nossas relações sociais devorar a cultura dos ‘ outros’ como antropófagos do ethos alheio.

Osmose gustativa: ‘Comer’ o inimigo civilizado nos tornaria, segundo a utopia modernista de Oswald, civilizados maiúsculos por vias tortas. Oh, engano terrível! Oh, irônica farsa!
Comemo-nos uns aos outros, isto sim.

Mais ou menos por aí – ou muito pelo contrário, já nem sei – eu diria que, na desfaçatez sem vergonha, na rapidez com que vamos nos transformando nesta cultura ‘assim assada’, nos exacerbando em nossa desculturação oportunista, atingimos enfim a antropafagia máxima, a antropofagia pop do ‘come-quieto’ ou do afobado que ‘come cru ‘.

É sim e agora… já era.

Na velocidade cinco da bunda da mulher-fruta do Funk de favela, piramos de vez, passando a devorar também – Oh, Zambi! Oh, Tupã! – a cultura de nós mesmos, e nesta ‘badtrip’ vamos ficando assim cada vez mais sem brio, sem prumo, sem ethos algum, desmascarados e o que é pior, descarados.

“… Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato.

Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. “Antropófagos.”

Pós macunaímas assumidos já somos. Será que povo original um dia seremos? Pelo andar da carruagem no epílogo desta história o normal serão as falsas festanças pra inglês ver, cada vez mais festim e menos folia.

`Tupi, or not tupi that is the question”.

(E a esta altura da vernissage, velho gourmet empanzinado de ‘ comes e bebes’ que estou… só me resta mesmo sair da festa de fininho… à francesa. )

Spírito Santo

Setembro 2009

(Leia aqui os posts #01 e #02 desta série)

Nota: Os trechos não creditados, entre aspas, são do ‘Manifesto antropófago’ de Oswald de Andrade em “Piratininga ano 374 da deglutição do bispo Sardinha.” (revista de antropofagia, ano 1, no. 1, maio de 1928

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~ por Spirito Santo em 15/11/2010.

2 Respostas to “Vale Negro: Festa, Folia e Festim #03/Epílogo”

  1. Pois é, Marcus,

    ‘Gafanhotagem’ talvez seja forte demais sim, mas se fizermos a ressalva de que, no meu entender, o estado não é o vilão da história (ele é apenas desatento em suas ações, as vezes) e focarmos nos indivíduos lobbystas e oportunistas que se aproveitam desta distração institucional, as asinhas e as anteninhas dos gafanhotos vão aparecer bem nítidas no nosso horizonte, não é não?

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  2. ê Spirito, gafanhotagem realmente é um novo conceito, um tanto´rigoroso’ acho, para uma velha prática, já quase, ou senão, uma Tradição… Vivemos o tal dilema: se o estado chega, ele abarrota, se não chega, morre-se de inanição…o sujeitão inescrupuloso… Abração.

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