Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book

O grande encontro de 'Bois Caiman' onde começou a revolução do Haiti

O grande encontro de ‘Bois Caiman’ onde começou a revolução do Haiti

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Palmares revisitado

(Leia também – e logo – os posts #01 e #03 desta série)

Há poucos anos atrás, numa solenidade festiva em Brasília na sede da Fundação Palmares (como se sabe, uma instituição do governo do Brasil voltada para a cultura dos afro descendentes) resolvi prestar mais atenção numa apresentação gravada que sempre , algo incomodado, ouvia meio assim por alto, nas solenidades da entidade pelo Brasil a fora. Nela, na tal apresentação, um locutor repassava com a voz empolada de civismo o que seria a história oficial do grande líder da nosso maior e mais perene complexo de cidadelas de escravos rebelados: Zumbi de Palmares:

“… Embora tenha nascido livre, (Zumbi) foi capturado quando tinha por volta de sete anos de idade. Entregue a um padre católico, recebeu o batismo e ganhou o nome de Francisco, aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

O incômodo um belo dia deu lugar ao susto. O insight chegou como nos chegam todos os ‘eurecas’ desta vida: uma luz imaginária piscando, piscando e logo se acendendo, ardendo os olhos e a cuca, quase queimando a nossa mufa. Caramba! Como não havia me dado conta daquilo antes?

(Na verdade já me dera conta sim, mas ressabiado, precisava juntar ainda alguns cacos, mesmo embaçados que fossem, alguns poucos subsídios teóricos para poder duvidar, questionar com propriedade. Temia que me tomassem por doido varrido ou delirante, como sempre fazem nestas horas os patrulheiros ideológicos de ocasião. Faltava o ‘eureca’ crucial e inquestionável).

Podem dizer então que tudo começou com um surto de rebeldia adolescente ou algo assim bem intempestivo, mas convenhamos que é isto mesmo que agita e move o mundo de lugar. A insubmissão e o questionamento, o arroubo quase infantil de criancinhas ‘pé no saco’:

_ O que, Tio? Por quê, Tio? Pois sim, Tio! Como não, Tio?

Estas coisas surgem de repente, mas amadurecem como qualquer fruto. Afinal foram muitos anos chafurdando livre e empiricamente, neste esmiuçamento ‘cri cri‘ de detetive forense de série de TV, fuçando estas coisas enrustidas da cultura negra do Brasil.

Pulgas atrás das orelhas. Fazer o que?

Uma pesquisa insana, em suma – todo mundo que mexe com isto sabe – porque as perguntas são milhares, mas a maioria das respostas não estão, absolutamente onde deveriam estar, muito menos nos livros de história do Brasil

Ah…Se tudo na velha fosse bonito como o arco dela!

A enormidade da surpresa, esta sim, precisava ser explicada. Ora, o problema era que a versão da história de Zumbi de Palmares – acatada como oficial pela maior e mais referendada entidade de cultura negra do país – tinha todos os elementos de ser totalmente inverossímil, infundada, falsa mesmo, como conversa pra boi dormir ou aquelas histórias do arco da velha.

E vejam só meu dilema: Como embasar um ponto de vista assim tão iconoclasta, propor uma revisão tão paradigmática, diante de uma versão profundamente estabelecida como verdade absoluta, corroborada por livros e mais livros (alguns até mesmo escritos por mui eminentes historiadores negros do Brasil) jamais questionados nestes termos. Como desmontar uma versão mítica, supostamente heróica, incrustada na mente de – quase – todos nós por meio de séculos de incansáveis reiterações?

Difícil, não é não? Mas sério, gente! Juro que posso explicar – provar – cada tim tim mal ajambrado desta história.

E o pior de tudo – e não há de ser nada – é que terei de fazê-lo quase sem nenhum livro brasileiro conhecido em que me basear. Existem sim revisões da história oficial do negro no Brasil, mas são abordagens, do ponto de vista crítico, muito tímidas, a maioria resgatando ainda muito vagamente a importância da cultura bantu. Diretamente sobre o Quilombo de Palmares, contudo, neste foco em que decidi abordar o tema, rigorosamente – e isto foi uma surpresa absoluta para mim – nenhum trabalho com informações realmente novas foi encontrado.

O que me queimava a mufa é compreensível que seja aceito por pessoas comuns, mas de modo algum poderia ter sido corroborado por argutos historiadores. Este ‘plot’, este leit motiv, este cerne do argumento da história nunca lhes pareceu conhecido não?

Um ‘Story Line’ fajuto:

“…Aprendeu (Zumbi) a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

Nossa senhora! Isto é um mito completamente cristão, não é não? E o que é pior: Ela, esta versão oficial da história de Zumbi de Palmares, na verdade ofende e desmerece a memória dos quilombolas (e em conseqüência a memória das lutas e anseios de todos negros do país) sabem por quê? É que em seu argumento central ela sugere, quase afirma que, para que o Quilombo de Palmares alcançasse o sucesso político e estratégico que alcançou, foi necessário que o seu líder máximo – Zumbi – fosse formado, educado como branco (aculturado, melhor que se diga) por um padre europeu.

Nada contra a civilização cristã ocidental, mas vamos e venhamos, aquele pessoal de Palmares descendia de gente com séculos e mais séculos de história original. África, gente! Parem para pensar: O berço da humanidade. Se tocaram agora?

O recorte heróico do herói mítico que, tal qual um Jesus Cristo ‘black power’ ou um Moisés negão eleito por Deus para salvar seu povo é altamente popular, mas convenhamos: carece de sentido naquelas e em quaisquer outras circunstancias em se tratando da história transatlântica de um povo africano, de cultura tão diversa da dos europeus.

As perguntas que me incandesceram mufa foram, portanto as seguintes (perguntem-se vocês também, se de mim duvidarem, mesmo que por um instante):

1- Seria historicamente comprovável a hipótese de um menino, descendente do principal líder do quilombo de Palmares ter sido sequestrado sem que ninguém se desse conta ou comunicasse o fato?

2- Seria possível a criação e a manutenção por quase um século de uma experiência política e estratégica tão exitosa como foi o Quilombo de Palmares, por parte de milhares de negros escravos, sem que estes se baseassem em sólidas referencias anteriores de organização social, comunitária e militar – regras rígidas de sucessão inclusive- ligadas ao seu mais que remoto passado africano?

3- No contexto de uma sociedade com semelhantes características sócio históricas, teria sido possível um menino negro aculturado, com identidade ou origem genética impossível de ser estabelecida, educado por um padre católico, assumir aos 15 anos (ou 20, tanto faz) o comando de um articuladíssimo e eficiente conjunto de cidadelas rebeldes?

Nenhuma destas hipóteses – pasmem – podem ser comprovadas, carecendo, portanto, totalmente de fundamento. Na verdade, se formos nos basear numa pesquisa mais aprofundada (como esta que estou propondo aqui) todas estas hipóteses, com toda certeza terão que ser declaradas mera e rasteira ficção historiográfica.

É o que devíamos fazer. E logo.

Bem, isto tudo é para explicar que este artigo é apenas uma introdução a uma pesquisa independente, talvez solitária e ainda em curso e que vai precisar de outras evidencias para ser considerada inquestionável, mas que já pode ser lançada por aí . Sim, porque é por aí mesmo que a História real avança: aos trancos e barrancos, pelo caminho das pedras.

Só um aspecto a historiografia brasileira terá que aceitar como falha flagrante e indesculpável de sua metodologia: A maioria esmagadora dos títulos a que tive acesso para embasar meus pontos de vista sobre estes incidentes que ligam, indelevelmente à África ao Brasil, apesar de estarem facilmente disponíveis aos especialistas interessados que poderiam ter proposto teses e livros a partir deles, são quase todos absolutamente estrangeiros (europeus e africanos)

Respondendo à perguntas pra lá de cabulosas

As cartas do padre Antonio de Melo

”…O padre não tratava o pretinho como escravo. ’O padre criou o menino, batizando-o como Francisco. Com a educação recebida, aos 10 anos já sabia latim e português e aos 12 era coroinha. Em uma carta, o padre refere-se ao menino como dono de um “engenho jamais imaginado na sua raça” e que bem poucas vezes encontrara em brancos. Certa manhã do ano de 1670, então com 15 anos Zumbi resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, viver com os negros de Palmares…”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

Nada foi encontrado nos documentos oficiais analisados sobre nosso herói negro mais recorrente, personagem de tantos sambas-enredo, Zumbi de Palmares, que comprovasse a veracidade de dados desta sua suposta biografia, contidos na versão insistentemente aludida pela maioria dos autores que trataram do tema e admitida, até mesmo, como disse acima, pelo movimento negro e todos os órgãos oficiais interessados na superação do racismo no Brasil.

Dos muitos filhos, netos ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses da época, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo) há também o líder do mocambo Acotirene, que deve se referir a mais um membro da família de Ganga Zumba, o rei, filho mais velho de Aqualtune, a rainha-mãe.

São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (e observem nos negritos como é bastante recorrente a semelhança fonética entre a maioria dos nomes e os vocábulos ‘Nkanga’ e ‘Nzambi‘ ).

Observamos também a ocorrencia de nomes comuns em Angola – como Kiluange, por exemplo – que remetem ao nome de um grande chefe angolano – Ndambi Kilwange, ‘manikongo‘ líder da guerras contra Portugal no século 16 e que, segundo algumas fontes era o próprio pai da Rainha Jinga.

A grande questão é que, a julgar pelo cruzamento dos dados extraídos de documentos da época disponíveis, principalmente relatórios de expedições invasoras, nenhuma entre estas quase 20 pessoas pôde ser associada, da forma mais remota que fosse, àquela criança descrita nas supostas cartas do padre Antonio Melo.

…” muitas entradas, de fato, se fizeram aos quilombos a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, até 1657, mas, cronologicamente, não se sabe a data certa em que elas se realizaram ou por não ter havido diário de operações, ou por terem eles se perdido…”

(Trechos de um relatório de expedição contra Palmares extraídos do livro de Mário Martins de Freitas “ O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro 1988.)

…”Depois vieram as expedições comandadas pelos holandeses Rodolfo Baro (1664) e João Blaer (1645). Em seguida, o governo de Pernambuco passou a tratar Palmares como um “caso de polícia”, adotando medidas mais “enérgicas”, comandadas por militares locais, as expedições ocorridas nesse período foram, segundo o autor, maiores, mas não atingiram os resultados esperados, tendo acontecido, inclusive, um período de “trégua” entre 1667 e 1671”.

(Laura Peraza Mendes – ‘Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695’)

Existe num documento uma alusão a dois filhos de Ganga Zona (irmão de Ganga Zumba) que teriam sido adotados pelo governador da capitania no ato da ratificação do acordo de Cacaú e batizados com o sobrenome do governador Aires de Souza Castro, mas nada indica que fossem adultos ou capazes de, logo a seguir, assumirem a função de Nkanga a Nzumbi, ou qualquer outro posto relevante no quilombo, cuja atribuição, sabe-se hoje, devia obedecer à práticas socioculturais africanas, pelo menos da maneira como supomos, também vigentes na sociedade de Palmares na ocasião.

Como nos dão conta diversos documentos consultados acerca da similaridade óbvia entre os hábitos sociais dos kimbundos do Reino de Angola e do Kongo nos séculos 16 e 17 e os dos quilombolas de Palmares, existiram vários indivíduos que, com nomes ou funções precedidas pelo título Nkanga (a confusão semântica com o vocábulo ‘Nganga’ /’senhor’ é muito recorrente)  como reparamos anteriormente, foram realmente chefes de alguma localidade ou exerciam alguma função importante no complexo de quilombos (Nganga Zumba, Nganga Zona, Nganga Muissa, etc.). Neste sentido, em nossas prospecções a palavra Ganga Zumba parece ser mesmo uma expressão genérica, diretamente originada de…

Nkanga a Nzumbi.

Nkanga (Nganga) = sacerdote, sagrado, Santo

Nzumbi= entidade, fantasma, Espírito =

Espírito Santo.

A tradução literal do termo Nkanga a Nzumbi (termo do kimbundo angolano) vocábulo que pode, mais acertadamente estar relacionado ao personagem Zumbi de Palmares, poderia ser portanto Espírito Santo.

_Como assim, Spírito Santo?_ Dirão vocês.

Calma! Surprendam-se sem pudores. Eu também fiquei surpreso – na verdade ‘chapado’ – com esta estranha conclusão’, mas como naquele aviso de filmes ela não passa de mera coincidência.

O nome (‘Nkanga‘) seria uma espécie de título de origem com toda certeza católica – daí a coincidencia – que supomos estar fortemente relacionada a alguma linhagem de inspiração jesuítica de reis ou sobas – ‘Manikongos’ – cristianizados, iniciada em época remota (que poderia mesmo remontar ao século 16) e que identificaria o ‘rei’ ou chefe com poderes religiosos e militares, francamente utilizado em algumas culturas do Reino do Kongo (e também no Reino de Angola) ainda durante este período.   

Aliás, isto pode ser constatado facilmente analisando a lista dos mandatários dos reinos do Kongo e de Angola do século 16 em diante.  A quantidade de ‘Nkangas‘ na lista é impressiomnte. O fato de se usar a mesma palavra para definir ou ‘sacerdote‘ quando se referindo a ‘padre‘ (católico) é também uma eloquente evidencia a nos encaminha para estas conclusões.

Segundo esta regra protocolar, portanto, todo supremo mandatário poderia ser reconhecido pelo povo como um ser divino, possuidor de poderes – e obrigações – religiosas, conceito africano original, que teria sido mantido vigente (reciclado, sincretizado) mesmo após a cristianização da aristocracia congoleza ou angolana de então (com os termos católicos traduzidos  para o kimbundo local) e, deste modo transplantado para o Brasil de Palmares.

O fato é que se a rigor (como acabamos de constatar acima) não existem informações documentais confiáveis (o menino, futuro Zumbi, supostamente sequestrado teria nascido entre 1655 e 1662) acerca das fracassadas expedições ocorridas contra o Quilombo de Palmares entre 1654 e 1662 .

Logo, se teria havido pouco depois  desta época ‘um período de “trégua” entre 1667 e 1671 (pouco se sabe sobre os anos entre 1663 e 1666) de onde teria, vindo as recorrentes informações que dariam conta de que um filho do rei Ganga Zumba, recém nascido ainda (ou já com 7 anos de idade) teria sido sequestrado nesta ocasião? Ao que parece, tudo se origina mesmo – sem querer desmerecer a renomada fonte – da seguinte enganosa revelação:

“…E por isso teria havido tantos Zumbis. Eu efetivamente entendia que não. Até que um dia, por mero acaso_ e a pesquisa histórica depende muito de sorte também e do acaso , eu encontrei uma consulta do Conselho Ultramarino, órgão de assessoria ao rei, em que se dizia ao rei que todas as certidões que diziam ter sido morto um Zumbi eram falsas, forjadas para que os chefes das expedições recebessem as mercês do rei. Verificou-se que Zumbi continuava vivo. Este foi o ponto de partida para estabelecer a identidade de Zumbi. Até que encontrei as cartas do padre Antonio Melo…”

(Decio Freitas, autor de “Palmares, a guerra dos escravos” em entrevista á ‘Folha on line Brasil 500’.)

A respeito precisamente do heróico personagem a quem as cartas citadas acima se referiam, há que se considerar que diversos relatórios militares da época já haviam sido unânimes em atestar que este ‘Zumbi‘  já estaria ativo em Palmares, em época mesmo anterior ao acordo de Cucaú datado de 1678 (tendo sido inclusive ferido em combate). Havia até um mocambo com o seu nome (Zambi ou Zumbi), o que seria, naquele tempo, o mesmo que dizer: habitado e comandado por ele.

O fato é que não existem fundamentos nem provas documentais para confirmar, em qualquer um de seus aspectos, a fabulosa história do padre Antonio Melo. A sustentá-la apenas o beneplácito dos pesquisadores diante de hipóteses tão infundadas quanto providenciais a certos setores do pensamento acadêmico brasileiro – e talvez resida aí alguma eventual intenção oculta nas supostas cartas- para quem, ainda hoje, faz sentido a pergunta que até hoje não quer calar:

Como o negro escravizado no Brasil, não tendo passado, origem, nem história, poderia constituir e manter durante tanto tempo, uma sociedade tão complexa e, em sua conturbada época, tão estável e perene quanto foi o Quilombo de Palmares?

Tentando explicar o que a ingenuidade etnocentrista, infelizmente julga inexplicável até hoje, um documento chegava a especular:

”…Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre. Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias (e se informou sobre aquilo a Zumbi) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus (More), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francis Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro”

O ‘Segredo’ da Condessa Schönborn

O argumento da história central, aquela que gera todas as outras versões sobre as cartas do padre Antonio de Melo (muitas delas acrescidas de detalhes que não se sabe bem de onde surgiram) parece estar baseado na mera suposição (uma lenda urbana da época, talvez apócrifa), de que certo padre de Porto Calvo teria escrito uma ou duas cartas contando a saga de uma criança negra sequestrada numa expedição contra o quilombo em 1662 (certos autores, sem nenhuma evidencia apresentada – talvez fazendo ‘contas de chegar’ – falam que o fato teria se dado numa expedição em 1662).

“…Durante uma expedição contra Palmares, comandada por Brás da Rocha, foi raptado ainda recém-nascido e entregue ao padre Antônio Melo, vigário de Porto Calvo, que o criou sob o nome de Francisco.

Na dificuldade de se encontrar uma origem segura para a história , quem buscar notícias sobre o paradeiro das cartas do padre Antonio Melo , terá o dissabor de descobrir apenas uma segunda história, também providencialmente complementar à primeira e, contudo mais implausível ainda:

(Na verdade – tcham, tcham, tcham, tcham – já desvendamos a origem segura da lenda, que é como os leitores verão em breve -num post a seguir – absolutamente surpreendente!)

“Arquivo revela que Zumbi sabia latim!

A condessa de Schönborn, 65, nascida Graziela de Cadaval, é conhecida entre os pesquisadores e ”caçadores” de documentos como a guardiã dos arquivos da casa da marquesa de Cadaval, sua mãe. São cerca de 5.000 livros e conjuntos de documentos reunidos nos últimos seis séculos e guardados em Muge, 80 quilômetros a leste de Lisboa. …Anos atrás, dezenas de documentos foram roubados por um ”pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas”. Desde então, só convidados vigiados pela condessa pesquisam os manuscritos tombados pelo Estado.

Entre esses papéis (roubados) estariam duas cartas preciosas que permitem imaginar Zumbi no seu tempo de menino. Foram escritas pelo padre Antonio de Melo em 1696 e 1698, quando já corria a notícia da morte de Zumbi. As cartas, não localizadas pela condessa, foram copiadas em 1978 a pedido do historiador gaúcho Décio Freitas.

..Na época das cartas, o presidente do Conselho Ultramarino era Nuno Pereira Álvares de Melo, que foi o primeiro duque de Cadaval, e por isso os documentos foram guardados pela família. Ao longo do tempo, parte do arquivo dos Cadavais foi se perdendo. Em fins do século 17, um incêndio destruiu o palácio da família. Depois, com a invasão napoleônica, muitos papéis foram trazidos para o Brasil. Em 1964, as famílias dividiram o que restava do arquivo. Metade ficou com a condessa e o restante foi para o duque de Cadaval. Há notícias de leilões de documentos nos últimos anos…”

(Do enviado a Muge (Portugal) Aureliano Biancarelli para Folha Online – Brasil 500)

O que esta história complementar nos dá conta em suma é que, as famosas cartas deste misterioso e desconhecido padre Antonio Melo talvez não possam ter jamais a sua autenticidade – ou mesmo a sua própria existência – comprovada porque, de uma forma ou de outra, por furto, extravio, por culpa de um incêndio ou um acidente fortuito qualquer, os originais teriam se perdido para sempre.

Como se vê, são bastante controversas as questões suscitadas por abordagens históricas que, deliberadamente ou não, subestimam ou omitem a óbvia ligação da cultura das comunidades quilombolas do século 17 com sua matriz africana mais imediata. A principal destas questões talvez seja a grande insistência com que elas foram sendo inseridas, com foros de verdade histórica absoluta, no contexto dos vários estudos existentes sobre o assunto, a despeito de sua evidente carência de fundamentos.

Entre dezenas de documentos disponíveis, a simples leitura, por exemplo, de uma das cartas do Padre Antônio Vieira (estas sim, autênticas), notório e influente agente dos interesses ultramarinos de Portugal além de importante autoridade eclesiástica, poderia esclarecer muito sobre esta questão. Pode-se destacar em especial dentre estas cartas de Vieira, aquela escrita em julho de 1687, em resposta a uma consulta do rei de Portugal, indeciso quanto a oferta de mais um acordo de paz aos palmarinos, sugerido por certo padre italiano de Recife:

“Muito me admiro… que sem outra informação dos superiores desta província, houvesse por bem a proposta feita por um padre particular de ir á Palmares… este padre é um religioso italiano de não muitos anos, e, posto que de bom espírito e fervoroso, de pouca ou nenhuma experiência nestas matérias. Já outro de maior capacidade teve este pensamento e posto em consulta, julgaram todos ser impossível e inútil por várias razões. Primeira: Porque se isto fosse possível, havia de ser por meio de padres nativos de Angola que, todos, os quais crêem e deles se fiam, e entendem, como sua própria pátria e língua…” .

A propósito, as evidências sobre a existência de certa similaridade entre os hábitos culturais praticados no Brasil pelos líderes palmarinos e os de seus conterrâneos na conturbada Angola do século 17 (hipótese aventada como vimos pelo próprio padre Antônio Vieira) estão se tornando cada dia mais candentes, principalmente se admitirmos a possibilidade de alguns líderes do quilombo da capitania de Pernambuco terem sido prisioneiros de guerra (soldados portanto e não escravos comuns), removidos para os Brasil no contexto da cruenta guerra colonial que sacudia o chamado ‘Reino D’Amgola’ naquela época.

Ao contrário do que ocorreu com as cartas de Vieira, o mais surpreendente é que a existência das outras cartas, supostamente atribuídas ao outro padre Antonio (e seu inusitado conteúdo) tenha sido um fato completamente desconhecido durante 300 anos.

E sobre o total desaparecimento dos originais das referidas cartas, logo que foram enfim descobertas, o que dizer? Por isto mesmo, mais do que com as controvérsias do incidente em si, talvez devêssemos nos preocupar mesmo é com as péssimas conseqüências advindas de sua eventual intenção etnocentrista, tão compreensíveis no contexto de uma colônia européia no século 17, quanto inaceitáveis neste nosso emancipado Brasil do século 21.

Sobrava-nos apenas a palavra solitária do já falecido Decio Freitas, incansável e meticuloso pesquisador que, pelo que sabe até agora, teria sido o único a ter acesso as cartas em poder da condessa o que, em se tratando de fato histórico desta relevância, infelizmente, não deve servir ainda, como prova cabal de coisa alguma.

Aliás, mesmo que tenham realmente existido, por conta do alto grau de improbabilidade dos incidentes por elas descritos, estas cartas não poderiam ter adquirido jamais, a importância que lhes deu a nossa história oficial.

“…A Torre do Tombo, o mais importante acervo do país (Portugal), tem inúmeros catálogos diferentes. O principal, os ”Manuscritos da Livraria”, não traz os documentos por ordem alfabética. Obedece a cronologia de entrada no acervo. Milhares de documentos das antigas casas de nobres ainda não foram catalogados. Não se pode confiar no que já foi informatizado.

Segundo o computador, a carta do rei que dá a patente de mestre de campo a Domingos Jorge Velho deveria estar na folha 426 do códice nove do ”Registro Geral das Mercês”. Foi encontrada pela Folha no verso da folha 246. A maioria dos documentos sobre Palmares pertence ao Arquivo Histórico Ultramarino. Ali estão as cópias dos papéis que seguiam às colônias. Muitos dos originais, destinados às capitanias do Brasil, desapareceram no tempo… Os documentos pouco ou nada contribuíram para traçar o perfil do homem Zumbi.”

(Jair Rattner especial para a Folha On Line, de Lisboa)

O que nos parece inquestionável contudo é que, a morte definitiva do último Nkanga a Nzumbi de Palmares, o sucessor de Ganga Zumbase deu mesmo em 20 de novembro de 1695 quando um de seus ajudantes de ordens (e seu suposto genro) é preso numa escaramuça e aceita traí-lo em troca de perdão. O traidor identificado como o mulato Antonio Soares, viveu em paz em Recife até morrer de velho.

Na hipótese de ser factível, pelo menos em parte, a versão dos fatos aqui apresentada, a dinastia que governou a região do Império do Kongo pelo menos a partir de 1545 (ano de nascimento de Ngola Ndambi, avô da valorosa Nzinga Mbandi, a rainha Jinga), reconstruída no Brasil num formidável fenômeno de transculturação, com a rainha Aqualtune mãe de Ganga Zumba ou com Mateus Ndambi, sogro do rei, teria durado no total mais de 150 anos (dos quais cerca de cem só no Brasil), havendo sobrevivido, após a morte de Jinga, pelo menos até 1695, apogeu e glória de seu último representante conhecido: O Nganga Nzumbi degolado em Recife.

“…ficando só mente (Zumbi) com Vinte negros, dos quais mandou catorse pa. Os postos das emboscadas que esta gente uza no seu modo de guerra, e hindo com seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro, que artefiçiosa mente avia fabricado, achou tomada a paçagem; pelejou valeroza e desesperadamente matando hum homem ferindo alguns e não querendo Renderce nem os companheiros, foy preciso Matallos e só hum se apanhou vivo, enviouçeme a cabeça do zumbi que determinei se puzese num páo no lugar mais público desta praça a satisfazer os ofendidos e justamente queixosoz e atemorisar os negros que supretisiozamente julgavão este immortal… “

(Ds G.a Real pesoa de Vmagde.Como todos desejamos. Pernco.14 de Março de 1696” Caetano de Mello de Castro – Governador da capitania de Pernambuco )

Surpreendentemente – ah! como é bom por água na boca dos curiosos! –  tendo como pista apenas as datas e o nome suposto deste Zumbi fake aculturado – que se chamaria Francisco, lembram-se? – conseguimos em textos angolanos, portugueses e italianos a chave, a prova mais do que cabal – se é que isto é mesmo possível – da gênese real desta farsa absurda – displicente talvez , muito mais do que fraudulenta – do ‘zumbi menino sequestrado’.

Mais isto …tcham, tcham, tcham, tcham!…. como já disse, será o tema do próximo episódio desta série.

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Julho de 2006 (com pitacos novos em Novembro de 2010)

Nota: Na foto acima grande encontro em ‘Bois de Caiman’, bosque onde a revolução do Haiti foi deflagrada. Veja neste link o que isto – mesmo remotamente-  pode ter a ver com Palmares e reflita.

Leia post #03 neste link

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Se você curte analisar bibliografias e notas de rodapé, este texto possui uma relação bem completa deste tipo de referencia que você pode ler neste link

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~ por Spirito Santo em 16/11/2010.

10 Respostas to “Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book”

  1. O livro 02 será este da pesquisa dos Vissungos que já está bem adiantado. O problema é que preciso ir á Angola concluir a pesquisa e não tenho meios de ir. Nele também está a questão do Afro-catolicismo pois desconfio que vissungos são, na verdade, hinos afro-católicos cantados em missões do século 19 no sul de Angola (principalmente no Benguela), cantados em umbundo na virada do século 18 para o 19 (uma fusion de música tradicional angolana com música litúrgia luso-católica, tipo Missa Luba, saca?).

    Esta questão deste afro-catolicismo angolano-congolês como fica explícito aqui, é um assunto muito atraente e transcental no estudo de nossa cultura negra, penso eu. Mais ainda porque é tabu e mistério total no Brasil. Tem alguns poucos que foram fundo nisto aqui (O excelente Ronaldo Vainfas da UFF por exemplo) mas a maioria não consegue fazer a ligação entre o que rolou na África com o que rolou no Brasil por razões metodológicas ligadas ao seu preconceito, a sua recusa em aceitar a existencia de uma cultura africana avançada e sistematizada desde sempre, em franca relação de com a cultura europeia com a qual teve contato, influenciando e sendo influenciada no processo. Pensam o negro, por ele ter sidoe scravo, como um ser humano primitivo, vindo de uma África das cavernas.

    Tem muito material africano sobre isto na Europa. Existe muita coisa na Inglaterra, em Portugal e na França também. O tema é muito vasto e vai tocar fundo na nossa história (Palmares, por exemplo) obrigando uma revisão total de certos paradigmas. No caso de Palmares, por exemplo, há uma série de insurreições populares em Angola no início dos anos 1700 (verdadeiros movimentos de libertação nacional) cujo fundamento ideológico está no surgimento de uma corrente religiosa antonionista (um culto a um Santo Antônio totalmente africanizado) que eclode logo depois da derrota do Rei do Kongo na batalha de Mbwíla (aquele rei cujo filho serviu de base para a farsa do zumbi sequestrado do Decio Freitas). Na arqueologia de Palmares acharam ‘inquíces’ (estatuinhas) de Santo Antônio iguais as que tenho em fotos, da mesma época, achadas em escavações em Angola.

    Tem portanto uma raiz lá atrás, na incrível e coincidente similaridade entre a cosmogonia Bakongo tradicional e o catolicismo português trazido pelas missões de Diogo Cão, que acaba resultando depois na sedimentação de um catolicismo africano tolerado pela Igreja Apostólica Romana (que se transforma também, claro) na virada do século 17 para o 18 por conveniencia política.

    Penso que a Cultura negra Brasileira real (assim como a Angolana, e a do Caribe) é o resultado deste processo. Observe em suma que já temos elementos de prova de que a negrada que vem para Palmares e que vai para o Haiti, por exemplo já está impregnada por esta estranha ideologia. Apaixonante!

    Este portanto seria o livro 03, que me interessaria fazer.

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  2. tô entendendo, spirito. não tinha pensado que o movimento começava já na própria áfrica. engraçado que eu sabia disso (a conversão dos reis, por exemplo), mas acabava não colocando esse ponto dentro da questão. ficava só na diáspora. que, aliás, como você já alertou, é uma das formas de nos tirarem do caminho de casa, né? é claro que ver o que aconteceu na fonte é fundamental pra entender os lances de cá. depois vou te pedir umas indicações de leitura. falando nisso, tem previsão pro primeiro e pro segundo livros?

    também sou fã do amílcar. conheço esse texto sobre a cultura. é impressionante como ele, revolucionário, no olho do furacão, conseguiu entender em detalhes o processo que estava vivendo, e escreveu isso tudo de forma absolutamente bem fundamentada, numa linguagem simples, direta, sem malabarismos, e sem perder em nada por conta disso – pelo contrário, só fez ganhar em seu texto.

    abração!

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  3. Bem – seguindo este bom papo:

    Esta história das coisas ‘bantu’ não serem reconhecidas como tal e as ‘nagô’ sim está na raiz da nossa conversa o tempo todo (quando você ler o meu livro encantado, vai encontrar o processo desta história explicainho lá). São várias razões básicas que se interpenetram e se complementam.

    De um lado a população não costuma teorizar sobre se isto é ou não é o que, efetivamente É. A população não quer saber o nome de sua cultura. Sabe que é africana, negra e ponto. Se alguém dizer a uma pessoa normal, comum que aquilo é bantu, tudo bem. Se dizer que é nagô idem, tanto faz. Podem até dizer que é branca – ‘e daí’? – dirão. Então este re-conhecimento por parte da população é totalmente irrelevante.

    De outro lado, no campo da ‘superestrutura‘, digamos assim, os intelectuais todos, engolfados num sistema de valores que – embora arcaico e ignorante – é racista por necessidade e convicção, acabam construindo o conceito ideológico de negritude que mais lhes interesse, no caso reforçar uma imagem de negritude bem ‘distante deste chão’, bem na base de um maquiavelismo tosco.

    Se a cultura negra (bantu) for firmada e aceita como a cultura majoritária dos brasileiros todos, como é o caso, vai ficar difícil impedir que as pessoas se unam, ideologicamente quero dizer, fica fácil a uma suposta liderança unir ‘as massas’ num projeto de nação comum.

    Se, ao contrário você reforça a idéia de uma negritude exótica, estrangeira, uma ‘cultura de minoria’ fica mais fácil controlar tudo. basta arregimentar meia dúzia de ‘assimilados’ (a armadilha ‘nagô’ na qual o Mov. Negro aceita ficar amarrado) e pronto. Acho que a raiz do pânico deles, deste desprezo pelo evidente caráter ‘bantu’ de nossa cultura, está nisto aí.

    Desqualifica-se, ideologicamente a cultura majoritária do negro do Brasil para melhor dominá-lo (o Amílcar Cabral dava show teorizando sobre isto, sobre o caráter revolucionário da cultura. Sou fã de carteirinha dele)

    Sua última pergunta é a mais cabeluda. Ela está imiscuída em tudo que falamos mas eu estava fugindo dela o tempo todo. Bem, está certo. Já que você me pegou eu introduzo o papo com uma dica elucidativa:

    Rafa, o catolicismo entrou no Kongo já no século 15. As religiões africanas da região (toda a África Central, até perto do Sul do continente) foram profundamente marcadas por este contato, houve um movimento intenso, em duas vias de amalgamento (em duas vias, é bom que se enfatize) entre o catolicismo romano e estas religiões.

    O fato mais eletrizante disto tudo é que, acidentalmente havia uma similaridade filosófica enorme entre estes dois estamentos religiosos (a Cruz, por exemplo, está na base da cosmogonia bantu, pelo menos, desde o século 12). Se você considerar que o mesmo movimento, na mesma época, ocorria na África saariana e parte da sub saariana com o avanço do Islamismo e, o que é mais importante, se você olhar a questão pelo lado ideológico, que é como eu fiz para poder entender (e aceitar) isto, verá que é igualzinho a guerra fria, com a luta entre dois sistemas ideológicos rivais (Capitalismo e Socialismo) protagonizando a formação d euma nova ordem econômica mundial.

    Os Reis da região do Kongo, por este ponto de vista, do mesmo modo que os do Sudão e de outras nações negro- africanas mais ao norte, foram mais modernos e pragmáticos do que outros, produzindo com isto mudanças muito profundas na cultura de suas sociedades que ficaram algo assemelhadas, aparentadas às culturas com as quais se amalgamaram politicamente.

    Assim, bem grosso modo, uma diferença transcendental existe entre culturas bantu e culturas ‘sudanezas’. As primeiras são ligeiramente parecidas com a cultura espanhola e portuguesa (e o catolicismo – de tipo africano, bem entendido – é a chave deste enigma) as outras são um pouco aparentadas do islamismo (em alguns casos são ‘animistas’, culturas que ainda não haviam tido nenhum contato nem com o catolicismo nem com o islamismo).

    É muito profundo para falar em poucas linhas, mas é isto aí. Predomina entre nós uma cultura negra de certo tipo. No intuito de dividir-nos, de nos tornar minoria ideológica, nos vendem um cultura negra exótica, de tipo ‘estrangeiro’, chegando ao ponto de inventar um grau de exotismo exagerado, quase paroxista (o tal ‘Axé-babá’).

    Estamos, pois, presos nesta armadilha. cada garota ou garoto negro (como eu fui e você é) assim que decide militar na questão, recebe logo de cara este arrazoado de mistificações e sai por aí as reproduzindo, as vezes maquinalmente.

    É muito fácil ser racista no Brasil.

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  4. grande spirito!

    não é viagem, não. platão não se valeu de diálogos? deleuze também não publicou os dele? então, pronto. em breve, teremos os diálogos do spirito, e ficarei feliz de ser parte disso.

    voltando aos bantos, acho que me expressei mal num lance e, ao mesmo tempo, acho que entendi uma outra questão, que você não defendeu explicitamente, mas acho que está nas entrelinhas.

    primeiro, a questão das instituições, que é onde acho que me expressei mal. seguinte: eu não disse que as “coisas” bantu desapareceram. o que eu disse é que elas não são identificadas como tal. então, por exemplo, tenho a impressão que nossa umbanda, nosso samba, nosso jongo, nossos movimentos da capoeira, nosso modo de andar na rua, muitas palavras correntes em nossa língua, a musicalidade de fala, pronúncia, provérbios, nossos dribles do futebol, o jeito antigo de sambar com o pé no chão (e, em alguma medida, o samba de hoje), nossos passinhos no baile charme, nosso jeito de ser católico, nossa forma de pensar e de se comunicar, a forma como impostamos a voz, uma série de gestuais, valores, um monte de coisas, são todas muitíssimo “bantu”. também vou usar o termo entre aspas, porque concordo contigo que seja redutor (mas também não tenho condições de problematizar isso agora, além de considerar que a região bantu de que tratamos é congo-angola, mais ou menos; por isso, continuo usando “bantu”, ok?).

    enfim, retomando, é tudo muito bantu. tenho a impressão de que está em tudo, tudo mesmo. e acho que, onde há negro no brasil, é basicamente assim. ou seja, praticamente no brasil todo, com o respeito às variantes em função de outros contatos (indígenas, alemães, qualquer coisa), é basicamente assim.

    então, concordo contigo em gênero e número (em grau não se concorda, só se flexiona) que estamos atravessados pelas “coisas” bantu. e, tão atravessados, que não as reconhecemos. isso é que é incrível. porque é nosso. concordo com tudo isso, inclusive com o aspecto de angola que você mencionou. o último capítulo da minha dissertação fala exatamente sobre isso quando analiso um romance que fala do avanço das igrejas pentecostais em luanda, que se valem das “estruturas” dos cultos bantu, mas com roupagem cristã. e o mesmo, me parece, acontece aqui.

    nisso, estamos completamente de acordo, reafirmo.

    a minha questão é: tudo, ou quase tudo que é bantu, não é reconhecido como tal. isso, pra mim, é muito importante. então, por exemplo: todo mundo sabe que o samba é música negra (tirando aquela babaquice de dizer que é misturado, todo mundo sabe que a matriz é negra). mas é isso. negra, e ponto. capoeira é negra. macumba é negra. a ginga, a dança, as palavras, os instrumentos musicais, é tudo – afro.

    aí, volto à questão das religiões. até já estou concordando contigo que damos importância demais às religiões, e que isso nos reduziu. de qualquer forma, considerando que é o que temos no momento, justamente ela, a religião dos orixás, é reconhecida entre nós como algo que vem lá dos iorubá. essa coisa é localizada. o rastafarianismo, por exemplo, é localizado como etíope.

    e o que é bantu? ninguém sabe que é bantu. é negro, é afro, é um monte de coisa, mas não é bantu, não é angola, não é congo, não é moçambique (em medida muito menor, claro).

    isso, pra mim, gera justamente o problema que estamos discutindo. porque, em última instância, quando não sabemos de onde a coisa vem, ela se torna mais fraca. é justamente por essa razão (além de outras, claro) que não trazemos filmes de angola, que não nos envolvemos com as lutas deles na época da libertação e etc etc. eu acho que isso é fundamental, e é um fenômeno que tem que ser considerado.

    reformulando o problema: por que o que é banto é considerado “afro”, enquanto algumas das coisas que são nagô são localizadas como nagô?

    acho que isso faz toda a diferença.

    segunda questão: como já falei, estou já concordando contigo e dando um passo atrás na questão da religião. não que ela não seja importante, mas acho que realmente é possível que tenha sido dada a ela uma importância muito maior em nossa cosmogonia do que ela realmente tem. talvez na esteira de nos verem como seres “supersticiosos”, a religião ganhou um espaço maior do que deveria, e nos aprisionou no folclore. é, acho que você tem razão. e, o que me parece que está nas suas entrelinhas, é que devemos de fato deixar a religião um pouco de lado para poder ver que há outras coisas. é isso? se sim, também começo a concordar.

    MAS, continuo intrigado como é possível as religiões bantu quase não terem sobrevivido ENQUANTO religiões bantu. elas vivem, me parece, sobretudo na umbanda. mas é nome de orixá que se usa, e nunca de inquice ou antepassado. misturam tudo num balaio de cristianismo/kardecismo/espiritismo/candomblé-ketu e não sobre nada de bantu NOMEADAMENTE. nesse ponto, por mais que esteja começando a concordar que a religião deva ter seu papel de importância reduzido, ainda acho que ela seja um bom termômetro pra gente entender o que foi feito de nossas principais raízes.

    abraços, só volto em 2011, lá pelo dia 3. feliz ano novo! fui!!

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  5. Grande Rafa!
    Seus comentários são inspiradores. Um dia reuno tudo numa matéria imensa. Pode até ser um livro…) viajei, viu?)

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  6. Rafa,

    Você está indo num bom caminho (e a dúvida insistente é o melhor leme mesmo nestas horas). A questão é lógico que é diaspórica num sentido mais complexo do que a maioria pensa. Não é mesmo esta coisa de ‘todo preto é igual’ (como falam de japoneses). Ocorre que cada caso é um caso. Eu nem uso muito mais este conceito ‘bantu’ porque ele também é muito genérico para o ponto em que cheguei na pesquisa.

    Repare o seguinte: Para o Caribe (Cuba e Haiti, Rep Dominicana, Jamaica, basicamente) realmente foi muita gente da atual Nigéria e do antigo Dahomey (Benin). Com certeza lá ocorreu uma influencia bem maior do que aqui de cultura ‘sudaneza’ (como dizem, simplificando), mas foi só durante algum tempo.

    E veja que curioso: A religião predominante entre os negros do Dahomey que vieram, deu no Vudu. A dos nigerianos deu a Santería (que parece com o nosso Candomblé). Mas são coisas bem diversas Vudu e Candomblé e, para complicar mais ainda, são aspectos apenas religiosos da cultura do Caribe que tem, como qualquer cultura, outros elementos a serem considerados. Não somos um saco de gatos pardos soltos no escuro, em suma.

    O grande equívoco destes caras do Brasil é achar que a religião pode encerrar todos os elementos de uma cultura. Nada mais falso. isto é, literalmente uma visão ‘branca‘ das coisas e sobre nós. Esta nossa bandida ‘aristocracia‘ crioula adotou este modelito de pensamento ‘branco‘ que confunde a gente.

    Muita confusão ocorre ainda porque a gente se esquece as vezes que, do ponto de vista cultural, o fluxo de escravos para uma região precisa ser analisado no tempo e no espaço. É preciso cruzar os dados com a história colonial, os avanços e recuos do tráfico, os conflitos entre as colônias influindo na vinda em maior número deste ou daquele grupo étnico. E isto é que ocorre com a predominacia dos bantu que, vieram em número assustadoramente maior para as Américas a partir de certa época, por conta das dificuldades de acesso que Espanha e Portugal passaram a ter para penetrar na África do Norte dominada pelos ingleses. Logo, o que dá ao bantu esta evidente proeminencia numérica e cultural é o fato de terem chegado em maior número em época mais próxima de nós.

    (Na verdade é a cultura sudaneza (a real) que vai se apagando na nossa memória, enquanto vai sendo cada vez mais reciclada e re-inventada pelos livros dos ‘negrólogos’ oportunistas (principal fonte dos Pais de Santo de hoje em dia).

    Há, portanto este equívoco só na tua análise: este negócio de achar que “as religiões e instituições bantu não sobreviveram ao tempo”. Talvez você não saiba ainda identificar o que sejam ‘instituições bantu’, ou melhor dizendo, você não está considerando que estas instituições bantu podem (como creio que estão) tão entranhadas em nossa cultura que você, inadvertidamente (e a maioria das pessoas) acaba achando elas tão familiares que perde a noção de que elas são ‘africanas’ sim.

    Este paradoxo é parte do que faz com que se fique caçando uma negritude exótica, de gibi e facilita muito o trabalho de quem urdiu a armadilha deste nosso racismo, os acadêmicos ‘anti-racialistas’ de plantão. É um problema quase esquizofrênico isto aí. Um nó antropológico bem difícil de ser resolvido.

    O que acontece quando a gente vai aprofundando a pesquisa é que se vai descobrindo, passo a passo, o quanto somos ‘bantu’ sem o saber (é preciso morar fora do Brasil para perceber isto). Somos ‘pretos de alma branca’ ainda e precisamos de um choque cultural bantu com urgencia para nos libertarmos enfim.

    Imaginamos – ou nos forçaram imaginar – uma África fake, como digo, a partir de modêlos inglêses e franceses (as culturas africanas da África do Norte, como disse acima) e que não tem, a rigor, nada a ver com a do nosso povo.

    O mais problemático disto tudo (o lado mais babaca da esquizofrenia de ‘nós‘, ‘pretos de alma branca’ do Mov. Negro) é que nada disso importa para o nosso povo normal, os milhares de pessoas que não sofrem influência dos intelectuais brancos ou negros que se intitulam sábios na questão. É por isto que este Mov. Negro atual, cada vez menos tem base de apoio popular.

    O povo normal não se imagina africano-bantu não: Ele É e pronto, está acabado. É exatamente como o angolano – cada dia vou mais reconhecendo – lida com sua cultura. Pense nisto.

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  7. mais uma coisa:

    li aquela matéria que conta que o manifesto que disparou a revolução dos escravos no haiti foi escrita em quicongo. isso me faz refletir, como você pediu, que a questão “cadê os bantu” é diaspórica, e talvez deva ser pensada em conjunto a outras realidades além da brasileira.

    na matéria conta que também em cuba rolam vestígios de presença muito forte, como é o caso do papiamento, a língua crioula deles que tem mistura com línguas bantu.

    então, me pergunto novamente: como pode o Brasil, Cuba e Haiti, três dos países mais pretos das Américas/Caribe, terem suas negritudes representadas por orixás e voduns em vez de inquices e antepassados. Sério, acho que esse é um mistério dos grandes, e insisto que a religião é um indicador muito forte sobre como pode ter sido a articulação dos escravos. Por que as religiões e insitituições bantu não sobrevivem ao tempo? (Novamente: as insitituições, coisas nomeada e localizadamente bantu, não os aspectos da nossa cultura que, num geral, estão impregnados de cultura bantu).

    O site http://www.slavevoyages.org, que me foi apresentado dia desses, está tentando pesquisar melhor a rota da galera que veio, de onde veio, pra onde veio. Existem outras iniciativas parecidas, como a da Unesco, mas essa me parece interessante (ainda não consegui parar pra olhar ocm calma). Enfim, o caso é que neste mapa (http://www.slavevoyages.org/tast/assessment/intro-maps/01.jsp) e neste (http://www.slavevoyages.org/tast/assessment/intro-maps/07.jsp) fica claro que PELO MENOS METADE dos escravos que vieram pras Américas e Caribe eram bantu.

    A presença dessas culturas não era pra ser mais “vistosa”? O próprio manifesto dos escravos haitianos seria um indicativo disso, não?

    abraços.

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  8. spirito, acho que é por conta da ignorânca, sim, mas uma ignorância que se multiplica porque é muito confortável. então, por mais que não seja intencional, continua sendo profundamente canalha e opressor.

    e olha como esses falseamentos vão expandindo seus tentáculos para outras coisas: quando eu era menininho, estudava numa escola de classe média alta do rio, o são vicente de paulo, católica com fama de liberal e progressista porque abrigou gente na ditadura e deixava seus alunos fumarem no recreio. progressista pra quem, né? enfim, eu tive uma professora de história, na quinta série, que um dia, ao ser perguntada por uma aluna “mas como os escravos não reagiam a tantos maus tratos?” (olha que loucura: a pergunta da menina já parte de um pressuposto absurdo pelo que foi construído pelos falseamentos), aí a professora, então, dispara: “porque eles não tinham consciência de classe.”

    eu, menininho, o único preto da sala, fiquei silenciosamente me perguntando “mas como pode os escravos não terem percebido que, tendo uma cor de pele diferente e vivendo a situação que viviam, como pode eles não se perceberem um grupo à parte da sociedade?” claro que não me perguntei com essas palavras, mas tenho a clara lembrança disso, até porque o termo “consciência de classe” foi então discutido e explicado mais a fundo.

    enfim, duas coisas incríveis sobre isso. primeiro, como pode uma professora dizer, em 1997, já passados os cem anos da abolição e trezentos de zumbi, quando muito se discutiu sobre o tema, como pode essa senhorita, por mais que a formação dela fosse totalmente eurocêntrica, como pode ela sequer desconfiar ou refletir sobre essa afirmação completamente tosca que duas criancinhas de dez/onze anos foram capazes de questionar?

    pode até ser ignorância, mas é uma ignorância que se mantém, repito, pelo conforto. é claro que você sabe disso muito melhor do que eu, mas estou só dando um exemplo de como o processo pode acontecer.

    segunda coisa: isso foi uma coisa muito pesada pra minha auto-estima. por quê? bom, até meus 17 anos, eu nunca havia pensado sobre questão racial com mais propriedade. pra mim, não era uma questão no plano da consciência. eu simplesmente sabia que rolava racismo, já tinha passado por isso, mas morria aí. acontece que, sendo o único preto da sala, aquela história de que os escravos não tinham consciência de classe me atingiu DIRETAMENTE. eu era o representante de uma raça de estúpidos, inertes, que justificavam pelas suas próprias não-ações e não-percepções que tivessem sido escravizados, achincalhadose tudo o mais. é óbvio, novamente, que eu não pensei isso com essas palavras, e tampouco meus colegas, mas foi isso que ficou no ar, ou pelo menos, com certeza, foi isso que ficou na minha cabeça durante MUITO tempo.

    ao ouvirmos de uma voz de autoridade, a da professora, que não havia consciência de classe, nossos questionamentos infantis sobre o comportamento dos escravos foram, se não satisfeitos, aprisionados naquele momento. o falseamento sobre as origens de zumbi, que começou lá atrás onde você mostrou, chegou a mim. o único passado digno para explicar o “evento” zumbi, essa coisa episódica e fora da linha normal, teria de ser ocidental (criado por padre e leitor de francis bacon) e para os outros, nada de passado. não tinham consciência de classe, justamente porque não tinham passado. surgiram do nada, e para o nada queremos que eles se vão.

    sinistro, parceiro. desculpa a psicanálise aí no teu blog, mas é que já há muito tempo não sou mais da classe média alta, e nem rola divã aqui no bairro em que eu moro.

    abraços.

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  9. Creia, mesmo eu que estou caçando estas lebres há bem uns 15 anos, vou ficando cada vez mais chapado com a quantidade de coisas omitidas ou, simplesmente falseadas. Acho incrível como nos deixamos levar pela história que construiram para nós, isto que eu chamo de ‘história oficial do negro’. Nâo sei, siceramente a que atribuir esta ‘nossa’ incuria intelectual (digo ‘nós’ para ser educado, claro). Os hiatos e distorções são tão grosseiros que chego a pensar muito mais na ignorancia da elite intelectual brasiliera mesmo, um erro de foco ditado pelo preconceito puro e simples, um descaso acadêmico muito mais gerado pela intolerancia do que pela premeditação.
    Instigante demais esta aventura de ir descobrindo, propondo e podendo revelar este outro lado de nossa – mais bela ainda – história.
    O bacana também é a força e o estímulo de tantas pessoas. Por conta desta força publico outra parte ainda hoje.

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  10. Meu querido, você está mais que na pista certa! Vamos ver se nossa garotada segue atrás e pesquisa, pois é tarefapra muitos. Vou fazer de tudo ara divulgar estas teses.

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