Rio de Janeiro: No fogão os ovos e as omeletes

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Todo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons.Foto Spírito Santo -Cartuchos recolhidos em guerra de traficantes e polícia no Complexo de favelas da Maré

Na frigideira ardente da cidade vendo a coisa ficar preta

Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública e um dos autores do livro ‘Elite da Tropa’ (que inspira o filme ‘Tropa de Elite’) tem afirmado ultimamente que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, do tipo como este praticado por facções de favelados – que no momento travam o que parece ser uma de suas ultimas batalhas, acossadas que estão por um desmesurado e ridículo exército de proporções mais que  iraquianas – está com os dias contados por ser antiquado, pesado e  militarmente muito custoso.

Luiz Eduardo propõe que no futuro próximo – com o que eu concordo plenamente – o tráfico de drogas no Rio de Janeiro será mais ‘limpo’, sendo a distribuição feita por um sistema de tipo delivery (como aliás, ao que parece, já é feito em áreas próximas à favelas dominadas por milícias)

Por este pragmático ponto de vista, a violência urbana, impressionantemente exacerbada agora em terrorismo e guerrilha urbana, arrefeceria. Na minha modesta opinião de leigo, contudo, infelizmente, não será bem por aí.

Para começar, esta ‘modernização dos serviços’ a que Luiz Eduardo se refere se formos analisá-la um pouco mais acuradamente , diz respeito apenas à distribuição da droga no varejo. Falta um elemento crucial nesta equação que são os problemas do transporte e distribuição no atacado e o armazenamento dos estoques, principais razões do tráfico ter que ser armado.

É óbvio que as facções e cartéis não estão armados até os dentes apenas para se defender da repressão da polícia. A polícia na verdade – ainda mais em se tratando da polícia corrupta do Rio de Janeiro – é o menor dos problemas neste caso, às vezes até uma aliada estratégica e essencial.

O que ocorre na verdade é que as facções e cartéis, por conta do alto valor e dos lucros exorbitantes do negócio – a droga ilícita talvez seja a mercadoria mais valorizada da economia capitalista hoje em dia – passaram a depender da formação de verdadeiros exércitos de seguranças armados para, não só se defenderem das gangs rivais, na defesa dos estoques e do território onde estão instalados os seus depósitos, quanto da polícia e das forças de segurança em geral que, tanto podem ambicionar a posse da mercadoria por serem corruptas, ou pretender atacar os armazéns para apreender a mercadoria, no intuito de cumprir a lei.

A grande sacada do tráfico no Rio de Janeiro foi a instalação de seus depósitos, ‘lojas’ (‘bocas‘) e laboratórios de pós refino, em favelas quase inexpugnáveis, estratégia sugerida e motivada pelas especiais características do modelo de racismo e exclusão social adotado no Rio de Janeiro, caracterizado pela formação de guetos miseráveis ao lado de bairros finos, coalhados de consumidores potenciais de drogas ilícitas.

Quem pariu Mateus que o embalance.

No meu entender, portanto o bandido favelado perderá em breve sim – e isto é líquido e certo – o controle comercial do negócio das drogas, mas terá como destino inexorável passar a ser mero ‘soldado’, ‘segurança’ de cartéis ‘de elite’.

Este fenômeno, aliás, já ocorre de forma generalizada e recorrente em áreas antes dominadas por traficantes favelados, que foram invadidas por milícias (e hoje estão controladas por policiais bandidos) nas quais parte da bandidagem ‘convencional’– a que não foi assassinada nos combates – passou a trabalhar como ‘soldadesca’ a serviço destes novos chefes.

O caso mais emblemático deste novo modelo é, com efeito, a favela da Cidade de Deus onde ao que nos indicam alguns moradores informantes, já há alguns anos a milícia que invadiu o local ‘terceiriza’ o tráfico de drogas contratando os serviços de bandidos sobreviventes como ‘sub-gerentes’ e ‘soldados’. Não é de todo improvável portanto – pelo menos para os menos ingênuos e ufanistas – que o mesmo esquema possa vir a funcionar (já deve estar até sendo testado) em favelas controladas por UPPs.

É bastante provável, pois, que brevemente não haverá mais a eventual ascensão econômica de pobres jovens favelados, alçados à condição de gerentes de favelas ou chefes de facções e candidatos ao encarceramento eterno em prisões e segurança máxima nos confins do país.

A grande mudança no tráfico de drogas no Rio de Janeiro (e no Brasil) em suma, é que ele deve passar agora a ser comandado por comerciantes politicamente mais articulados, em sua maioria indivíduos brancos e de classe média, que terão a seu serviço (incumbindo-se da parte mais ‘suja’ e pesada do ramo) a mesma massa de desempregados de sempre: A reles ralé.

É incrível como tem gente que, pouco se lixando para a exclusão social exacerbada do modelo econômico brasileiro, aplaude a guerra atual contra bandos de traficantes favelados em fuga, julgando de forma egoísta e covarde que seu problema (a violência urbana) estará resolvido, mesmo o sendo à custa de seletivos massacres de bandidos, abatidos como moscas à tiros por frios snipers aboletados em helicópteros, com inocentes desvalidos, sendo atingidos pelo fogo cruzado.

Ledo engano. Toda iniquidade cobra o seu preço. O castigo, mais dia menos dia, de um jeito ou de outro, chega a cavalo.

Este prognóstico (paradigmático só em certa medida) na verdade é terrível para todos nós por que indica que a nova fase do tráfico de drogas por aqui pode ser a dos cartéis comandados por chefões intelectualmente mais articulados, com um esquema de contenção de rivais e inimigos mais militarizado ainda, cada vez mais especializado, portanto em ações de guerrilha urbana e terrorismo – como ocorreu no México agora mesmo ou na Colômbia de décadas atrás.

O povo negro e  pobre das favelas por isto mesmo, se mantido na mesma situação de penúria em que se encontra, retido em guetos infectos que só mudarão de mãos, continuará a fornecer soldados violentos para esta guerra sem fim que – Deus queira que não – entrará agora na fase do Crime realmente Organizado.

Como não se faz omelete sem quebrar ovos e os ovos somos nós, quem viver – queira ou não queira – verá a coisa preta, cada vez mais preta.

Spírito Santo
Novembro 2010

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~ por Spirito Santo em 27/11/2010.

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