A ‘Grande’ batalha do Alemão

Zoinho, menino de rua de dez anos, enfrenta os policiais de São Paulo - foto de Evandro Monteiro

(Zoinho, menino de rua de dez anos, enfrenta os policiais de São Paulo – foto de Evandro Monteiro)

O cerco na história : Um mito patriótico

As pessoas se esquecem, mas a história está cheia de cercos covardes, de tropas desmedidamente numerosas e superarmadas contra gatos pingados rebeldes que resistem, não se sabe como – a maioria das vezes bravamente – diante de tropas inimigas e a população vociferante que defende os invasores.

Os rebeldes cercados são sempre bandidos odiosos, escória que deve morrer trucidada, queimada, bombardeada sem perdão, uma ‘corja de assassinos’ que se quer, ironicamente também assassinar.

E vejam que curioso: Todos os nacionalistas, de todas as revoluções e rebeliões da história foram considerados assim: ‘Corja de bandidos’, independentemente   da justeza moral ou imoral do ideal ou causa que os fez pegar em armas, a ponto de lutar até a última bala ou arma ou mesmo morrer lutando com as próprias mãos.

Ao fim, muitas vezes até vitoriosos (como na velha Revolução Cubana de Fidel e Che e tantas outras) é incrível como, na maioria dos casos, estes ‘bandidos’ passaram a representar exemplos ímpares de heroísmo para as gerações futuras.

Da seita dos ‘Maus Maus’ que trucidavam belgas colonialistas no Congo, a Patrice Lumumba trucidado por Mobutu a serviço da CIA (e dos vingadores belgas), dos terroristas ‘homicidas’ do ANC de Nelson Mandela, aos ‘bastardos inglórios’ Partigianni ou Partisans na segunda guerra mundial, até Tiradentes, Lampião, Spartacus, João Cândido… quem não se lembra destes ‘odiosos bandidos’ de épocas nem tão remotas, que hoje de algum modo, representam admiráveis e memoráveis heróis da humanidade?

Quase nunca se quer a rendição deste tipo de rebelde minoritário que por sua ousadia que nos parece insana, deixa o inimigo sempre possesso, com sede de sangue. Só se oferece chance de rendição a ele quando o seu trucidamento (geralmente fuzilado indefeso num beco escuro e sem testemunhas como foi Che Guevara)  por alguma razão vai desmoralizar a imagem do trucidador, expor a sua covardia abjeta (e este parece ser o caso da Guerra do Rio)

Do cerco dos judeus rebelados no Gueto de Varsóvia e os inúmeros outros cercos covardes das tropas nazistas na segunda guerra mundial ao cerco á Zumbi de Palmares ou ao cerco aos ‘300 de Esparta’, as pessoas que, de forma geralmente sórdida torcem pelo trucidamento do inimigo por uma força estupidamente forte e gigantesca (como é o caso flagrante do Complexo do Alemão) se esquecem que, no futuro, os cercados humilhados e trucidados costumam vencer aos olhos da história.

Hoje são ‘corja‘, ‘gentalha’ que merece a morte. Amanhã podem ser heróis exemplares que desafiaram de peito aberto a iniquidade, a ignorancia e, sobretudo, a covardia.

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Entretanto, ainda sem despertar o entusiasmo dos generais, a defesa até a morte tem sido um dos grandes recursos da propaganda patriótica e, freqüentemente, o símbolo da cidade cercada tem representado o próprio país, assediado pelos estrangeiros. Não é um fato isolado, Jerusalém, símbolo das desventuras e ilusões judias, assediada por seus vizinhos idólatras ou maometanos.

A síndrome do cerco afeta também a muitos outros povos, entre eles o polaco, concebido por seus ideólogos como uma comunidade católica acossada pelos prussianos luteranos, alemães nazistas e russos cismáticos ou comunistas. Numerosos nacionalismos têm sabido explorar a imagem de um idealizado espaço patriótico, culto e piedoso, assediado pelos bárbaros do exterior.

…Representações instintivas, nas quais a psicologia política adivinha a capacidade de resistência do sitiado como resultado de seus valores e da proteção divina. O assedio é uma prova de Deus, como o ataque do Demônio à consciência. Nada tem estimulado tanto o patriotismo como o cerco, culminado com uma hecatombe seja em Masada, em El Álamo ou em Numância.”

(‘O cerco na simbologia da história de Espanha’ -Gabriel Cardona)

Alemão tem um dos piores indicadores sociais

(Dados extraídos do site G1)

“O bairro do Conjunto de Favelas do Alemão é dono de uma da piores médias do Índice de Desenvolvimento Social (IDS) da cidade. O índice, calculado pelo Instituto Pereira Passos (IPP), da prefeitura, mede o acesso a saneamento básico, a qualidade habitacional, o grau de escolaridade e a renda da população carioca.

Do total de 158 bairros do Rio, o Alemão ocupa a 149ª posição, com um IDS de 0,474. Quanto mais perto do número 1, melhor o índice. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado no ano 2000, 65.026 pessoas vivem nos 18.245 domicílios do complexo, que é formado por 14 favelas, de acordo com o IPP. Deste total, mais de 15% das residências não contam com rede de esgoto.”

Operação conta com 2.600 homens

(Dados extraídos do site G1)

“Cerca de 2.600 homens das Forças Armadas e das Polícias Militar, Civil e Federal se preparam para entrar no Conjunto de Favelas do Alemão a qualquer momento. Na tarde de sábado (27), veículos blindados avançaram à entrada da comunidade e mais de trinta suspeitos foram detidos e levados para uma delegacia da região.

A megaoperação de cerco ao local inclui 800 soldados paraquedistas, a tropa de elite do Exército, 200 fuzileiros navais, que transportam a tropa, 300 agentes da polícia federal e 1.300 policiais militares e civis do Rio. Ainda na tarde de sábado, blindados do Exército chegaram a entrar na favela, mas saíram pouco depois.”

Sabe-se que estão – estavam – encastelados no morro do Complexo do Alemão, no máximo 500 (na exagerada estatística oficial baseada sabe-se lá em que) e, no mínimo – embora seja mais realista esta segunda projeção – algo em torno de 100 bandidos.  A cada prisioneiro – entre os poucos que se entregam ou são pegos como suspeitos – que as câmeras exibem o que vemos é aquela mesma garotada negra e magrela, provavelmente o perfil da maioria desta bandidagem mulambenta cercada por estes milhares de soldados ensandecidos.

Uma comparação entre 2.600 soldados (podem ser até 4.000) sarados, superequipados e vestidos e pintados como se estivessem indo para uma batalha da Terceira Guerra Mundial e os garotos mulambentos que vamos vendo presos, aqui e ali, é de fazer ruborizar pedófilo.

“A Vila Cruzeiro surgiu no século 19. Os primeiros moradores eram escravos fugidos que ficavam no local sob a proteção de um padre abolicionista da Igreja da Penha. As terras onde fica a favela são de propriedade da Igreja. Hoje, o predomínio dos afro-descendentes está presente: no samba, no futebol e até salões de beleza….”

(Alberto Barbosa, editor fundador do jornal A voz da Penha, citado por Miguel Maron no Facebook).

Você já parou para pensar em quem são e o que faz ali no alto daquele morro, pronta para morrer ou ser encarcerada, aquela garotada majoritariamente negra (e não me cansem a beleza: o dado étnico é neste caso fundamental), que, também em sua maioria nasceu e foi criada ali mesmo naquele complexo e imundo mundo que de alemão não tem nada?

Não? Então pare e pense.

A…ops!…’batalha‘ pela re-tomada do ‘território’ foi iniciada com pompa e circunstancia ás 8.00 hs desta manhã.  Um formidável desfile de 7 de Setembro subiu as vielas miseráreis do Morro do Alemão. Agora às 9.30, a TV já informa, bombasticamente que “as tropas federais venceram a batalha e que o morro estava tomado”. Vitória? Como assim? Não vi  ainda nenhum soldado inimigo preso ou morto. Imagino que tenham trucidado um ou outro gato pingado, mas nada se  sabe além da informação de que os bandidos – será que ouvi direito? – depois de cercados por este exército hollywoodiano, para Spilberg nenhum botar defeito…fugiram, se evadiram!

Para onde, meu Deus? para o céu?

Como já se sabia de antemão quem seria o vencedor militar desta guerra do Rio (esta era fácil, certo? 2600 contra 500 dava 5 contra 1, moleza… isto sem se falar nos tanques de guerra), hoje é o dia e a hora de escolher o vencedor MORAL desta guerra exemplar, ou seja: é hora de nós todos optarmos de que lado MORALMENTE estamos, antes que percamos, totalmente a compostura como sociedade.

Depois só vai faltar perder – de novo – a Copa do Mundo de 2014 para o Uruguai.

“Folga nego
Branco num vem cá
Se vié
pau há de levar

(Quadrinha rebelde atribuída aos ‘odiosos bandidos’ quilombolas de Palmares cercados em 1695 em  Pernambuco, Brasil)

Spírito Santo
Novembro de 2010

Uma resposta em “A ‘Grande’ batalha do Alemão

  1. Informação a qual a imprensa jamais terá acesso (nem vocês): O governo do Rio mantêm na Ilha do Governador dois reformatórios para menores ‘infratores’. Eu conheço um destes estabelecimentos por dentro. Chamam de ‘colégios’, mas na verdade são presídios comuns, sem tirar nem por. Acabam de criar um anexo de um deles no Complexo pentenciário de Bangu. De fonte segura soube que ontem à noite cerca de 30 meninos-bandidos que se renderam no cerco ao Complexo do Alemão foram levados para lá.Se não me engano o Brasil é o único lugar do mundo que tem presídios de meninos disfarçados de ‘reformatórios’. A estatística de meninos presos deve ser alta por estes dias. Grande parte está viciada em crack, mas este é o tipo de estatística que não interessa ao governo nem a elite. Esqueçam então.

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