‘Assaltos em Luanda’- Entrevista com Henrique Narciso ‘Dito’


Curtam aí uma ‘palinha’ do filme ‘Assaltos em Luanda’ longa metragem de estréia de Henrique Narciso ‘Dito’

Entrevista com Henrique Narciso ‘Dito’ para o jornal ‘O País’ de Luanda, Angola:

(edição de Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010)

Explique-nos como começou esta aventura no cinema

Embora já trabalhe para a televisão pública de Angola (TPA 1) há 10 anos, comecei a dar os primeiros passos em termos de produção e realização cinematográfica há 5 anos com Assaltos em Luanda. Em 2005 participei e venci na primeira edição do Filme do Minuto, o primeiro festival angolano do cinema realizado pela Alliance Française de Angola, no qual também participaram grandes produtoras como a Óscar Gil Produções. Após a entrega do prémio a apresentadora conversou comigo E disse-me o seguinte: “Dito, se conseguiste contar uma história em apenas um minuto podes muito bem fazer uma curta metragem bem maior, ou mesmo uma longa metragem…” Isso deu-me bastante confiança.

Qual era o prémio e qual foi a sua utilidade?

O prémio era um curso de realização na cidade francesa de Mahol, onde confesso que aprendi muito. Também fazia parte do prémio um estímulo monetário de 15 mil dólares. Quando cheguei a França mostrei à minha professora o meu projecto do filme Assaltos em Luanda. Na altura já tinha concluído 70% das filmagens. Ela ao ver disse-me que tinha futuro no mundo da realização pois já conhecia os elementos essenciais da linguagem cinematográfica, mas faltavam-me algumas noções que ela me transmitiu.

Quando regressou aplicou todos os conhecimentos adquiridos em França na conclusão do filme?

Não. Porque alguns factores básicos dependiam da qualidade do material que estava a utilizar e, por outro lado, se tivesse de os aplicar a todos teria de refazer um filme que já estava quase pronto. Tudo tinha sido feito sem apoios. Assaltos em Luanda foi feito a base de muito sacrifício.

A situação alterou-se?

Hoje já tenho material de ponta. Acabo de chegar do Dubai onde fui comprar material cinematográfico. Câmeras de alta definição, stake cam e, todo o material necessário para começar a rodar a primeira mini-série infantil angolana.

Vai dedicar-se à produção de séries e novelas?

Sim. Eu trabalho no departamento de ficção da TPA há 10 anos. Durante este tempo tive a oportunidade de trabalhar em muitas novelas da nossa televisão. Aprendi muito com realizadores como o falecido Pedro Ramires, o cubano Reinaldo Cruz em Pecado Original, Tomás Ferreira, o “Walter” das telehistórias da TPA. Já trabalhei também com o Reinaldo Bury, realizador da novela Minha Terra Minha Mãe. Enfim, tenho mais experiência neste ramo do que no cinematográfico. Mas não penso deixar de fazer cinema.

Que avaliação faz da ficção angolana?

É necessário que se aposte na formação da juventude. Na minha opinião, a nossa ficção é dominada por realizadores estrangeiros e é por isso que não reflectem o espírito e a realidade do angolano. Não quero com isso dizer que temos de deixar de contratar operadores e realizadores brasileiros ou americanos, pois estes têm muito para nos ensinar. Mas devemos garantir que eles transmitem o conhecimento aos nossos profissionais. Muitas vezes, em vez disso, fazem o que tem que fazer e vão-se embora levando consigo o conhecimento.

É necessário formar os nossos quadros porque há aqui muita gente com potencial, a quem caso lhes seja dada uma oportunidade, podem ser tão bons quanto aos brasileiros ou americanos. Só é preciso que se aposte e se acredite na prata da casa. Resumidamente, penso que a nossa ficção tecnicamente e materialmente está boa, mas é muito enfadonha. O angolano gosta de mais dinâmica. Temos que “dar vida” às nossas séries e novelas. Os realizadores têm de ser mais criativos e, ter em conta as marcações, o que é muito importante. Marcação é sobretudo dinâmica, diferente da estática enfadonha que se observa nas nossas novelas e no nosso cinema.

Fale um pouco dos seus novos projectos?

Tenho a agenda preenchida até 2011. Mas neste momento estou a trabalhar no filme

A Guerra do Kuduro. Conta a história do kuduro, como se espalhou por toda Angola e pelo mundo, os espaços que percorreu para conquistar o seu espaço. Comecei a rodar as filmagens em Dubai. Quando regressei, tive de fazer algumas alterações ao guião. Já estão seleccionados todos os actores mas, estou a estudar a possibilidade de incluir as verdadeiras “estrelas” do kuduro no filme, porque terá mais impacto se elas participarem. Queria que eles fossem interpretados por actores, mas estou ainda a estudar qual será a participação dos verdadeiros kuduristas no filme.

Quem poderemos ver neste filme?

Estou a pensar em convidar os Lamba, o Puto Prata, o Lilás, os Buraka Som Sistema. Mas ainda não os contactei. Como disse estou a estudar os moldes das participações de todos estes artistas no meu novo projecto.

Agenda até 2011…?

Este ano sai A Guerra do Kuduro. A seguir vou rodar um drama, cujo guião já está pronto há muito tempo, intitulado O Homem Branco. Estava para ser gravado a seguir a Assaltos em Luanda 1, só que as pessoas diziam que não queriam ver drama. Outros iam ainda mais longe dizendo que não gostaram do fim e que o filme devia ter uma continuação. Acabei por aceitar essas opiniões. Por isso digo sempre que Assaltos em Luanda 2 não estava na agenda. Foi a pedido do público que criei o filme. Há até quem queira uma terceira parte. Mas agora vou variar e já tenho apoio da JMPLA que me concedeu 160 mil dólares para o novo projecto.

Será feito com outros meios?

Olhe que eu vou apostar neste filme para ganhar um Óscar. Estou a trabalhar todos os aspectos técnicos. É o meu filme com o maior orçamento Estou a preparar-me para vencer o meu primeiro festival internacional e, este filme vai para Cannes (risos).

Quais são os factores que lhe transmitem tanta confiança?

Primeiro porque tenho apoio suficiente para fazer o filme e, será o primeiro em que terei uma equipe, onde não terei de exercer todos os cargos directivos. Vamos fazer casting em Portugal no final do ano para o actor principal. Vou trabalhar com um dos melhores directores de fotografia que conheço, o Quintino, um brasileiro que conheci na TPA. Outro factor que me transmite confiança é a experiência e maturidade que possuo hoje. Já não sou o realizador inexperiente dos primeiros tempos.

Em que festivais participou?

Assaltos em Luanda girou o mundo. Foi ao Festival Ibero-Americano do Cinema em Lisboa, foi ao Brasil, esteve no Festival Pan-Africano do cinema em Uagadogoou, no Burkina Faso e, no Primeiro Festival Internacional do Cinema da Zâmbia. Se houvesse classificação, os nossos filmes estariam entre os primeiros classificados.

Que feedback recebeu por parte do público e dos realizadores internacionais?

O feedback foi muito positivo. Houve festivais onde me perguntaram “de onde vens” e “qual é o teu filme”. Quando eu dizia o nome, eles ficavam radiantes e usavam as expressões do filme. Sinal que tinham visto e gostado. Até os zambianos, que viram o filme sem tradução, usavam expressões como mbaya e galheta, muzubia e wazebele. Os elogios que recebi fazem de mim um homem confiante.

Perfil

  • Nome: Henriques Deves Narciso “Dito”

  • Idade: 35 anos

  • Profissão: Profissional da televisão pública de Angola desde 1994, onde comecei como operador de câmara. Actualmente sou realizador do programa Conversas no Quintal. Também trabalho como director de montagem de programas como Vozes do Semba.

  • Estado civil: Casado no registo civil e religioso com a principal culpada pelo meu sucesso

  • Filhos: Três

  • Comida: Fumbua com funge

  • Bebida: Embora não dispense uma cerveja bem fresca, prefiro o whisky velho. Quando era mais pobre só bebia whisky novo. Agora que já tenho um bocado só bebo whisky velho (risos)

  • Melhores realizadores de cinema: Para mim são o Steven Spielberg e o Mel Gibson. Pelo seu grande poder de criação e a capacidade de contar a história em vídeo

  • Filmes realizados: Situações Inesperadas, Assaltos em Luanda 1, Alta Temperatura e Assaltos em Luanda 2

  • Projectos futuros: A Guerra do Kuduro (sai este ano), Jesus Cristo Negro e O Homem Branco. De agora em diante, os meus filmes já não vão demorar muito tempo porque tenho mais apoios financeiros.

Cine Diáspora:Africa is here! (Post #02)


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Jorge António, cineasta portugues com forte atuação em Angola

Jorge António, cineasta portugues com forte atuação em Angola

Angola filmes is coming soon!

Alto lá! No Brasil também se faz ‘Cinema Negro’

Enquanto isto no Brasil, ainda agora mesmo, em plena saída vitoriosa de nossa ‘retomada’ cinematográfica, os negros – este negro-povo de que tenho falado, bem entendido – estão lá na tela sim, mas ainda muito raramente atrás das câmeras, mandando, optando por uma estética, por histórias e abordagens menos autorizadas, menos ‘chapa branca’.

Vocês assistiram àqueles filmes do Cacá Diegues? Viram ‘Ganga Zumba’, viram ‘Quilombo’? Pois então, me digam: O que era aquilo? Era um cinema ‘branco’ olhando o negro de longe, enviezadamente, com filtros de sinhozinho bonzinho e sabe-tudo contando a história negra ideal. Pois é. Parece que há um problema político, ideológico e conceitual aí, um problema cultural redundando num problema artístico.

O que temos aqui, convenhamos, talvez seja um Cinema Negro ainda meio ‘escravo’, ainda confuso sucedâneo da farsa da democracia racial, além de ser muito auto complacente para com suas  deficiências técnicas, ainda bastante evidentes.

Cacá Diegues (o nosso ‘Jorge António’ sim, mas quanta diferença!) com a produção do ‘Cinco vezes Favela 02’ se redimiu das ‘bombas’ (‘filmes ruins’ no meu tempo de coroa cinéfilo) do tanto de pieguice paternalista que introjetou nos seus filmes ‘negros’ anteriores.

Cacá – que tem lá suas razões e qualidades – veio de uma casta da elite artística do Brasil dos anos 60/70, tão bem intencionada quanto equivocada em seu vanguardismo esteticamente arrogante.

No entanto, bato palmas para ele pelo ato de desprendimento que foi reconhecer que é necessário que existam filmes feitos pelos ‘Outros’ falando de si mesmos. Ocorre que, como o de hoje, estes ‘cacá-diegues’ da vida sempre existiram e continuam mandando no cinema nacional.

Se bem me lembro, inclusive, a presença do negro no ‘Cinema Novo’ deles sempre foi uma alegoria meio fantástica, idealizada formada por personagens negros estereotipados, tristes e ‘pai-joões’, quando não passavam de mártires, os mais sofridos e devotados cristãos deste mundo, morrendo chorosos no tronco para nos salvar.

Bem, isto já deu, certo? Mas falta fazermos também a nossa parte.

Faltam muitos rolos de filmes, léguas ainda para a gente chegar lá. Falta avançar na arregimentação de aliados mais profissionais, parceiros mais financeiros e técnicos  do que palpiteiros ideológicos; catando todas as cavacas da inexperiência, mas avançando rumo à independência criativa, mãe da originalidade e da inovação.

(Pois não foi, exatamente assim que aquela garotada branca do Cinema Novo dos anos 60 – Cacá Diegues e Barretão entre eles – fez? E não é, do mesmo modo, isto que a garotada negra de Angola está fazendo? Então?)

Sim: Em Angola também se faz cinema

E este é o grande barato da nossa descoberta

É muito significativo – estimulante mesmo – a gente perceber nos filmes do portuga  Jorge António que na música popular urbana de Angola (principalmente a música ‘de intervenção’ como dizem, o equivalente à nossa ‘canção de protesto’) há sobretudo artistas populares, a maioria oriunda de extratos mais pobres da população.

Enquanto que aqui no Brasil, durante a nossa luta similar (contra a Ditadura) o que houve foi uma espécie de elite social (‘brancos’, como se sabe) ocupando todos os postos chave de nossa cultura, tendo inclusive – e até hoje – (um pouco como predadores sociais, sejamos francos) obtido vantagens de toda ordem – inclusive financeiras com esta atitude, supostamente ‘libertária’.

José Carlos Schwartz, a voz do povo, excelente documentário também de Jorge António, sobre a trajetória heróica do músico José Carlos Hans Schwartz, guerrilheiro e pai da moderna música guineense é um exemplo candente desta diferença ideológica fundamental entre o nosso Cinema Popular domado e o Cinema inquieto e  independente destas jovens nações africanas.

Este sentimento de honesta e desinteressada insurgência, aliás, expresso de forma pungente nestes três filmes africanos é como que uma chama mantida sempre acesa a animar este invejável cinema de gente tão parecida conosco, um cinema interessado em ser motor de arte, prazer e consciência, num pan-africanismo muito salutar – para nós verdadeiramente inspirador – porque nos remete à uma diáspora africana mais nossa ‘parente’, com a qual nós brasileiros, queiramos ou não temos muito mais intimidade comovida do que curiosa estranheza.

Reconhecer e admitir esta inegável familiaridade com a África lusitana – com Angola, principalmente – assumir este parentesco estético e emocional irrevogável (quase que um ele perdido de nossa  ‘brasilidade’ ) claramente expresso nos filmes aqui citados será uma grande força para a nossa cultura no futuro.

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Acabei de assistir anteontem, mais emocionado ainda, ao terceiro e último destes filmes. Este denominado ‘Batuque, a alma de um povo’ (de  Julio Sivão Tavares) versa curiosamente sobre um gênero de música e dança muito nosso conhecido (o ‘Batuque’ do título, que lá em Cabo Verde se chama ‘Batuko’). O melhor de tudo foi descobrir que o filme confirma quase tudo que concluí sobre o Batuque (um dos ritmos matrizes de nosso Samba) em pesquisas anteriores que fiz aqui no Brasil, sem falar nas outras incríveis descobertas.

O ‘Batuko‘ Caboverdiano é uma manifestação puramente feminina na qual um grupo faz uma eletrizante levada rítmica batucada em almofadas de couro (?) encaixadas nas coxas das mulheres, enquanto que solistas reboladoras se revezam numa coreografia inteiramente concentrada nas bundas (e a inquietante semelhança com as mulheres dançarinas do nosso censurado funk ‘Proibidão’ daqui – sem a lascívia – é total).

Numa outra versão, chamada de ‘Finason’, de andamento mais lento que o das moças – o Batuko já se mostra em quase tudo semelhante ao Jongo tradicional do Brasil (o autêntico, não este tombado para Ministério-da-Cultura-ver) em seu aspecto de disputa de versos improvisados.

A descoberta mais constrangedora, contudo talvez tenha sido a de constatar que os lugares das locações, bairros pobres ou mais do que pobres dos três países africanos mostrados nos filmes (Luanda em Angola, Ilha de Santiago em Cabo Verde e Bissau na Guiné Bissau) são quase que bairros de classe média perto de nossos bairros-favelas.

A sensação que se tem olhando a ordem e a limpeza, a pobreza digna, altiva mesmo dos africanos destes locais remotos nos dá a nítida impressão de que nossos pobres pretos daqui habitam o mais horroroso e fedorento caos, cidadelas imersas na mais medieval das barbáries.

Me impressionei muito também com o nível cultural e educacional do povo destes lugares, principalmente dos angolanos, onde todos os músicos entrevistados são mais articulados às vezes, do que muitos antropólogos (brancos ou pretos) que temos por aqui.

Ação! Por um Cinema da África mais nossa vizinha

Diáspora Movie is coming soon!

Fora isto, a coisa vai avançando no Brasil sim. Já temos até negros estudando cinema, atores negros fabulosos, aqui e ali pontificando em filmes de todos os tipos, mas vamos combinar: É pouco ainda. Falta o controle da produção, no que diz respeito a isto que eles chamam de ‘nicho de mercado’.

Faltam os ‘filmes de negão’, se bem me entendem, mais e mais ‘filmes de negão’ baseados em nossa cultura real e não – e isto não posso me omitir em falar – nesta negritude pomposa, pseudo-acadêmica que insistimos em exibir por aí, como membros de uma nobreza africana falida, aristocrática, que nem na África existe mais.

(E isto ainda assim tomando muito cuidado para não sermos cooptados por interesses governistas e eleitorais de ocasião)

E vejam bem: Não se trata apenas de ‘pintar’ de preto, encher os filmes de negros. Pinçar uma cota de negrinhos artistas aqui e ali como ‘ação afirmativa‘, num cotismo banal e fora de hora, controlado e desajeitado que seria, além de inconsequente, constrangedor.

Este não é absolutamente o lance proposto aqui. Trata-se de buscar o essencial de nossa cultura popular (com ênfase nesta nossa brasileiríssima África omitida), trata-se de quebrar o calcanhar de Aquiles deste elitismo artístico e cultural tão brasileiro que nos paralisa e invadir, ocupar o território ainda baldio de coisas nossas, que aí sim, seriam com propriedade contadas por nós mesmos (além de continuarem a ser contadas pelos ‘outros‘ também, claro).

Invadir sim, mas com capacitação e méritos profissionais inegáveis, indiscutíveis, com excelência e rigor cultural e artístico, sem esta prática ‘caída’ de achar que em terra de cego quem tem um olho pode ser rei. Não basta ser negro. Tem que ser do ramo, que ser realmente o melhor naquilo que diz saber fazer.

Falo de produzir filmes com o jeitão de ser e viver de nossa população ‘de cor’ e colocar na tela. Para um país do porte e do volume de população negra que somos, para o Brasil tão negro-mulato inzoneiro que vendemos para o exterior, o que temos feito em termos de projetar a nossa imagem ‘real’ é ridículo, irrisório.

Mesmo nos tempos áureos de nossa cinematografia mais industrializada – na fabulosa era da Atlântida, da Vera Cruz – a presença proeminente do negro (do povo, por suposto), participando e influindo esteticamente – às vezes até na produção – era bem maior do que hoje.

Há sim entre nós, aquele que de capitulação para com um mercado que, pra todos os efeitos continua nas mesmas mãos, sob o controle dos mesmos donos de antes – os ‘Barretões’ da vida – aboletados nas bancas de verbas, manejando liames de editais malandros, um mercado de cartas marcadas que, na prática, não dá mostras mesmo de estar interessado em deixar, de verdade, que todos falem por si mesmos, além da velha casta artística de sempre.

Corte final sem The End

Antes de vir ao Rio, com sua bagagem de filmes afro-lusitanos, Aristóteles Kandimba fez contato, ainda da Holanda, com o Centro Afro Carioca de Cinema, do mesmo modo que eu surpreso com a pequena presença de filmes da África de expressão portuguesa por aqui. Esta desencontro entre cinemas irmãos ainda desgarrados, no entanto breve breve se resolverá.

Pelo menos para muitos de nós, Angola já é e sempre terá que ser aqui.

Aguarde portanto um Diáspora Movie Festival total e irrestrito para breve, nas telas de algum cinema perto de você, num canto qualquer de um de nossos países – no daqui ou no de lá.

Angola Brazilian films is coming soon!

Spírito Santo

Dezembro 2010

Cine Diáspora – Em cartaz um cinema africano que nos diz respeito


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O cineasta angolano Henrique Narciso “Dito”

O jovem cineasta angolano Henrique Narciso ‘Dito’ autor dos hits ‘Assaltos em Luanda’ e  ‘A Guerra do Kuduro‘.

Angola é aqui!

Ando impressionado com a qualidade dos filmes africanos que o amigo Aristóteles Kandimba (o ‘Totti Angola’ do Facebook) me trouxe de Amsterdam, Holanda. Emocionante presente de Natal.

Refletindo assim na hora da emoção, fiquei me perguntando o que se há de fazer para incrementar a exibição destes filmes por aqui, inserindo-os na cena de Cinema Negro brasileiro atual que tem mostrado hoje em dia até certa vitalidade em um ou outro concorrido festival.

Afinal em se tratando de cultura popular, de música, de cinema e de tudo o mais… Angola É aqui!

Fiquei achando … sei lá…que talvez haja uma boa razão aí para se debater – nós os mais interessados – se isto pode ter relação com certas dificuldades que fazem de nós – com as magras exceções sabidas – ainda hoje, com toda a suposta robustez econômica do país refletida num mercado cinematográfico de milhões e milhões de expectadores ávidos, ainda atores e criadores subalternos de um mercado – como tudo, aliás, no Brasil – dominado inteiramente por agentes (produtores, diretores, divulgadores, pareceristas, captadores) integrantes de uma elite… com licença da má palavra… totalmente ‘branca’.

E podem estar certos de que a abordagem que proponho aqui não tem nada de ingênua ou recorrente.

Também acho – na verdade tenho certeza – que, considerando todas as facilidades que se tem hoje para fazer cinema em qualquer parte do mundo, a agilidade e a plasticidade impressionante das novas mídias digitais, o que falta mesmo a isto que estou chamando de ‘Cinema Negro’ no Brasil – entre um ou outro ‘cala-te boca’– talvez seja foco e ideologia. Ou seja, a culpa é , em grande medida, nossa mesmo.

(Pronto. Falei.)

Aliás, concordo também, por outro lado e seguindo o mesmo raciocínio, que esta conversa de ‘Cinema Negro’ também é bem discutível. Cinema em ‘Preto&Branco’ todo mundo sabe o que é mas…’Cinema Negro’ o que viria ser?

Mas explico: Não é racismo não – pelo menos da minha parte.

Falo em linguagem figurada, gente. Falo ‘negro’ assim como arquétipo, símbolo, ícone de nossa miséria material e emocional, esta que gostaríamos que fosse expressa assim, na veia, sem papas na língua.

Fossem vocês velhos cascudos e escolados como eu e também se recordariam, empolgados, de que já tivemos sim um Cinema Popular no sentido estrito da palavra. Um cinema um tanto tosco é verdade, meio italianado, metido à neo-realista, mas pujante e libertário, no qual não se discriminava pessoas pela cor tanto quanto se discrimina agora. Meninos, eu vi!

Que culpa tenho eu, mero comentarista do que vejo por aí, se em pleno século 21 ainda cabe ao negro representar o indesejado papel de eterno povo pobre oficial do Brasil?

E é deste povo, melhor dizendo, das histórias dramas e mazelas dele, contadas realmente por ele mesmo, que estou falando. Um Cinema mais ‘do Brasil’ e menos novela de celebridades da TV Globo, filmada em película. Menos fundamentalismo espírita – tudo com todo respeito e no bom sentido é claro – menos filmes caça níqueis como ‘Nosso Lar’ e mais a bagunça irreverente de ‘Casa da Mãe Joana’.

(E de novo a imagem orgulhosa do bom Jeferson De, com os itens mais radicais do Dogma tornados agora ingredientes de uma Feijoada mais light) empunhando seu troféu de Gramado, a foto da galerinha do ‘Cinco vezes 02’ não menos valorosa, desfilando pelo tapetão de Cannes, de novo são flagrantes enganosos que toldando os olhos dos mais desavisados, fazem com que um ou outro entre vocês me julgue – até  com certa razão, admito – um reclamante de barriga cheia.).

Mas não me estranhem tanto assim não, gente. Por favor. Tenho lá as minhas razões.

Luzes! Cruzes! Em Angola também se faz cinema?

Se você ainda não sabe disto está na hora de rever os seus conceitos.

Antes de agora – e exatamente como vocês – só sabia coisas muito esparsas sobre cinema angolano – ou mesmo africano – Comecei a me inteirar sobre o assunto há apenas dois anos atrás, para ser exato. Conheci um tico mínimo desta cinematografia em 2008, no primeiro festival do Centro Afro-Carioca de Cinema do Zózimo Bulbull e da Biza Viana, onde José Gamboa com seu filme ‘Herói’ representava Angola.

Fiquei desde aquela época com a impressão de que a produção cinematográfica angolana era mesmo incipiente, amadora como a nossa aqui (bem entendido na área deste ‘Cinema Negro’ a que estou me referindo) subalterna das estruturas de criação, direção e etc. controladas pelas mãos dos ‘brancos’ (portugueses no caso) de sempre.

Nem cogitei me informar sobre as cinematografias dos outros países africanos da área de influencia da Europa portuguesa.

A própria constituição da agenda de filmes  convidados para o festival do Centro Afro-Carioca de Cinema, me induzia a isto, pois, tanto naquele primeiro ano como nas versões seguintes – com exceção talvez de um ou outro filme caribenho – muito mais ênfase parecia ser dada ao cinema da África mais ao Norte.

A ênfase era para Burkina Faso, Ghana, Costa do Marfim, Nigéria, Senegal, com filmes em sua maioria oriundos das ex-colônias francesas e inglesas, um cinema negro sim, mas um tanto estrangeiro demais para mim, um negro do Brasil filho de uma capichaba bem da roça e de um mineiro de Diamantina, de sete costados.

Parecia perfeitamente normal isto acontecer, mas era também uma estranha e familiar dicotomia, muito parecida com a que ocorre no estudo da cultura negra do Brasil em geral, onde tudo de africano que nos é mais familiar, a cultura da África de expressão portuguesa costuma ser – e por razões ainda mal explicadas – subestimado, posto de lado como uma irmã feiosa que a gente não quer apresentar para os amigos.

Seguramente – pensei – os países africanos de ‘expressão portuguesa’, apesar destas óbvias e indiscutíveis similaridades culturais com o Brasil, não tinham ainda, infelizmente uma cinematografia á altura do porte do evento.

Mas não, não era bem isto, esta suposição aparentemente tão evidente não era assim tão fácil de se explicar. E olhem que eu, já familiarizado com o problema em outras áreas (com a música e com a literatura africana ocorre estas mesmas estranhas restrições) só me dei conta de que isto ocorre também com cinema, agora mesmo, por estes dias vendo os filmes que Totti me presenteou.

O certo é que foi desarmado de preconceitos que assisti aos três excelentes filmes com grande curiosidade. Animado, surpreso mesmo com a qualidade técnica e a propriedade dos temas abordados por eles, saí logo pinçando em outros links do Google trailers e resenhas de muitos mais, inclusive matérias sobre um recente festival nacional de cinema ocorrido em Luanda.

Pois bem, saibam vocês que o cinema angolano caminha bem a passos largos para estar bem longe de ser incipiente. Sobretudo, ao que se pode deduzir pelas matérias e trailers que vi, já é muito popular e potencialmente até bastante promissor em médio prazo, do ponto de vista financeiro, já que a população das principais cidades angolanas parece estar muito mobilizada como platéia cinéfila.

“Depois da fase em que a produção cinematográfica em Angola registou um interregno de cerca de 16 anos, eis que, no início do ano 2000, surge uma geração de jovens cuja coragem e determinação foram preponderantes para o “ressurgimento” do cinema, feito no país, por angolanos. Henrique Narciso “Dito” foi um dos precursores deste movimento, juntamente com Francisco Cáfua, Bijú Garizim e Olson Manuel. O ano de 2005 marcou o início de uma nova página no audiovisual do país, quando estes realizadores lançaram os seus primeiros filmes. Amigos, foram-se apoiando num caminho que foi feito com enormes dificuldades.”

Esta eletrizada platéia, aliás, já consome avidamente entretenimento de ficção do Brasil que, por enquanto  se limita a exportar para lá as mais babacas e branquelas novelas da TV Globo, mas pode ser que um dia destes – porque não? – a ficha caia e se enxergue lá uma enorme faixa de mercado para o intercâmbio de filmes brasileiros mais densos, inclusive os de ‘Cinema Negro’, daqui para lá (e vice versa).

O Kilombo de lá é mais embaixo

Como quase nunca há por aqui no Brasil, há no contexto desta jovem cinematografia afro-lusitana uma espécie de entusiastas ‘brancos’, militantes da causa artística negro-africana, no sentido integral do termo.

Uma destas figuras elogiáveis é o abnegado cineasta (documentarista) português Jorge António que tem se dedicado a formar técnicos, diretores, atores em Angola, sendo ele mesmo um autor de peso, com filmes que naturalmente inspiram os demais cineastas do país, uma nova e promissora geração que tem nele um exemplo de ponta.

Com efeito Jorge António acaba de vencer com seu documentário Angola, histórias da música Popular o Festival Internacional de Cinema de Luanda. Cônscio de seu papel social ele acaba de recusar o prêmio de melhor documentário no festival citado, declarando enfaticamente que não o merecia ‘por não ser um angolano nato’ e doando todo o valor em dinheiro para a formação de mais cineastas e técnicos de cinema no país.

Cinema de gente destemida e  desassombrada este de Angola.

A firmeza ideológica dos músicos africanos (tema do filme de Jorge António, um panorama sobre a música popular angolana com ênfase no engajamento político de seus músicos e compositores) sua fidelidade às raízes e maneiras artísticas tradicionais, sempre vistas com um olho no futuro (como no caso do emblemático grupo ‘Ngola Ritmos’) a relação tão intensa entre arte e militância empreendida por eles, sem, contudo abrir mão da excelência artística impregna todo o filme e devia inspirar e mobilizar o pessoal daqui.

Logo, nada mais lógico do que enquadrar como faço o moderno cinema angolano neste conceito de ‘Cinema negro’ que propusemos acima. Buscando inspiração nele.

O fato é que precisamos reconhecer que talvez estejamos  atrasados mesmo em relação a eles, no nosso ainda submisso cineminha de fundo de quintal, abordando timidamente temas batidos no eixo Favela, Candomblé, Paz & Amor.

( leia AQUI o post #02 desta matéria)

Spírito Santo

Dezembro 2010

Saudades de Yemanjá


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1199481682_yemaja_3_mulher_na_aguaLeo Souza-http://search.creativecommons.org

Da primeira vez, a mais pura emoção.

Foi, com certeza, em alguma praia distante, na zona oeste do Rio de Janeiro que eu, adolescente ainda, me enlevei com os meus primeiros tremores e sensações inebriantes, daquele romantismo ingênuo dos plenos de esperança.

A imagem era sempre a difusa aparição, quase fantasmagórica de uma mulher desenhada à luz do luar, imaginada morena e linda, longos cabelos negros, envolta em véus brancos, tranlúcidos e se encaminhando para o mar, por entre a espuma das ondas e as brumas da noite.

Fantástica, imaginava-a virando, abruptamente um peixe desses grandes, liso e longilíneo, como um golfinho talvez, peixe de lenda que, desaparecendo no horizonte entrevisto por entre as luzes de uma outra praia distante e vizinha, logo a nossa frente, sumia para sempre da minha confusa realidade juvenil, para habitar – como até hoje habita – os meus sonhos mais inesquecíveis, por serem os mais felizes.

O dia da aparição estava sempre acertado: De 31 de dezembro para o Um de janeiro de todo ano. Rito de passagem.

Não me lembro de foguetório na praia nesta época. Os fogos esparsos subiam dos quintais e dos terraços das casas e prédios da orla, em morteiros tímidos, estilhaçados apenas um pouco mais acima, no céu, em partículas verdes, brancas e vermelhas.

Um pouco depois, havendo experimentado já os carinhos de uma ou outra clone da mulher-peixe dos meus sonhos, mas, apesar disto ainda, estranhamente envolto pelo clima emocionante da festa da virada do ano, comecei a caçar a compreensão daquele enlevo todo que vinha, deduzi rapidamente, de um contexto de mágicas e encantamentos bem mais complexo.

Não era apenas o enlevo de estar virando homem. Era o encantamento de estar virando gente, concluí.

A mulher era a encarnação, o arquétipo de Yemanjá impresso em mim, nascido das muitas imagens e gravuras que vi ao longo da vida, uma curiosa deusa africana do Candomblé e da Umbanda, esta, a Umbanda, uma religião sincrética – moderna por assim dizer – que envolvia também cultos indígenas e tantos outros mitos ‘exóticos’, deste nosso misterioso Brasil, religião da qual minha mãe era devota fervorosa.

Vinha daí, portanto, o biótipo da mulher de longos cabelos, uma cafusa – e quiçá confusa – mistura de tudo aquilo que me parecia do bom e do melhor de se olhar e de se amar – coisa que Freud, ou qualquer outro Pai de Santo, facilmente, explicaria.

“O MITO – Iemanjá, deusa do amor e da beleza, esposa e mãe,

Rainha dos Sete Mares, chama-se em iorubá Yevê omo ejá – mãe cujos filhos são peixes – e tem como “tarefa” ajudar os namorados, as mulheres, aqueles que têm filhos e a todos que a respeitam e dependem das águas onde ela mora”.

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O tempo voou até a década seguinte. Rebelde, virei um chato ateu de carteirinha e sublimei por uns tempos a linda Yemanjá mítica da minha adolescência, trocando-a pela Revolução Popular Marxista-Leninista lida em mal traçadas linhas, enquanto vivia apaixonado pela Senhora Liberdade, mãe coragem do “Dia que virá”.

Contudo, volúvel como sou, o enlevo com a virada para o dia Um de Janeiro e a minha Deusa Cafusa, não tardei a perceber, apenas dormia eternizado em minha memória de velho menino carente.

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“Na década de 40, surgiu no Rio de Janeiro uma nova maneira de comemorar o revéillon, quando diversos adeptos passaram a deitar nas águas da baía da Guanabara, na travessia Rio-Niterói, oferendas a Iemanjá. E mesmo assim o faziam muito discretamente, quando a barca já estava no meio da baía.

Uma década depois, um conhecido pai-de-santo do Rio, “Paizinho”, chefe de um terreiro de Umbanda, organizou uma luxuosa procissão, da praia do Leme até o Posto 6, no outro extremo da praia de Copacabana, onde uma multidão incalculável de “fiéis” começaram (sic) a dançar ao som dos atabaques, homenageando a Rainha do Mar”.

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Foi já só ali pelos anos 80 que me lembro de ter voltado ao hábito de passar na praia a virada do ano. A festa, nesta época, havia assumido proporções de um gigantesco e formidável evento popular, tomando todas as praias do Rio de Janeiro.

Dia de Yemanjá e Dia da Confraternização Universal, duas chances em uma, para os homens de boa vontade poderem exercer, em toda a plenitude, sua humanidade essencial.

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…” Em 1957, D. Hélder Câmara, arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, “assombrado com o crescente prestígio da festa de Iemanjá, resolveu trazer para a rua, como no tempo das antigas procissões, a imagem e o culto da Virgem”, lembra o escritor António Callado, que assistiu a esse encontro de duas religiosidades.

Continuo com Callado:

Afinal de contas, Nossa Senhora, que jesuítas espanhóis das missões do Sul chamavam La Conquistadora, emigrara para o Brasil, com seu filho, antes dos deuses e deusas da África. Assim dia 31 de Dezembro de 1957, fez tirar a Virgem da igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, para que desfilasse em procissão nocturna pelas praias (…). O que aconteceu – meninos, eu vi – é que Iemanjá acolheu a Virgem como rainha que recebe cumprimentos de outra rainha. Houve até mesmo, em todo o percurso, uma troca de fiéis, quer dizer, gente saindo no préstito católico para ir tomar uma bençãozinha à beira-mar e mães-de-santo que subiam à calçada de mosaico para fazer o pelo-sinal e se ajoelhar à passagem da outra soberana”.

Até 1964, quando D. Hélder foi transferido para a Arquidiocese de Olinda e Recife, o culto às rainhas continuou a ser praticado por católicos e umbandistas. Com a saída de D. Hélder, o campo ficou livre para estes últimos.

Meu reencontro com ela

Para mim, o dia deste meu retorno à praia na festa da virada do ano foi quase tão mágico quanto foi aquele primeiro 31 de janeiro do passado, naquela prainha da Zona Oeste.

De longe, ainda no calçadão de Copacabana, dava para se ver amontoados de chamas de velas bruxuleando. Vultos de branco, muitos, alguns com turbantes, dançavam e dançavam, frenéticos, como sombras trêmulas de uma convenção de feiticeiros.

Eletrizado tirei os sapatos e avancei pela areia, ansioso. Aqui e ali, em covas abertas na areia para afastar o vento, mais e mais velas e ramos de lírios brancos, e garrafas de champagne barato ou sidra cereser. Bastava lançar um leve olhar em torno para se ver a areia coberta por centenas de lírios e rosas, como se tivesse havido uma chuva de flores, uma tempestade de bem-aventurança.

A multidão de feiticeiros habitava tendas provisórias, como as de um acampamento de beduínos no deserto, armadas com bambus e lonas velhas de caminhão – ou mesmo lençóis brancos, destes de dormir – eram organizadas, internamente, quase ao modo de Casas de Santo ou terreiros de umbanda, do qual elas eram as réplicas possíveis.

Protegidos da chuva eventual por meio de uma ponta de lona, à guisa de varanda, os ogãs de cada terreiro avançado, batiam seus tambores possuídos por todas as coisas boas que a música consegue incutir em nós. Impossível ficar alheio ao apelo místico dos atabaques, as varetas de aquidavi, como varinhas de condão imantadas, levando as equédis e as yaôs à dança extasiada, quase endiabrada que chamaria cada orixá às suas obrigações no terreiro, à sua missão de trazer paz à praia e ao mundo.

Aqui e ali uma mãe ou um pai de santo, incorporados por alguma preta véia, algum caboclo justo e vingativo, aconselhando fiéis hirtos de medo e de fé. Os passantes mais discretos, também contritos, tomavam passes e aceitavam ser defumados por incensos e aspergidos em mágicos banhos de descarrego, sacudidos, severamente, com molhos de arruda.

O ambiente, já à esta altura, se encontrava então completamente tomado por pessoas de todas as classes sociais que, ali, como que irmanadas por uma estranha força de vontade, como que movidas por um sentimento de povo de verdade, sem qualquer tipo de preconceito, iniquidade ou diferença, faziam daquilo a mais perfeita definição de Festa Democrática.

É aí, na boca da meia-noite-em- ponto de algum relógio, que o espoucar mais intermitente dos primeiros fogos, avança para o foguetório amplo, franco, geral e irrestrito, e a gente entra, com água até os joelhos, naquele mar de abrolhos, coalhado que está de barquinhos azuis carregados das mil e tantas oferendas, devidas por nós todos à Yemanjá.

Não há como errar o presente: A maioria das oferendas está ligada a suposta vaidade exacerbada, aos hábitos hedonistas de nossa deusa, tais como espelhos, pentes, gargantilhas, baton e frascos de perfume.

Coisas de mulher.

No fim, era só ficar ali, bêbado, com olhar maravilhado, perdido naquele mar de esperanças místicas que explodem ainda um pouco mais, vão rareando, rareando, até, já quase de manhãzinha, irem se extinguindo como a espuma de uma onda qualquer, escorregando na areia, de volta para o mar.

Voltei muitos anos mais à praia de meus delírios de virada de ano. Saía da areia sempre revigorado de esperanças e orgulho de ter participado da grande emoção de, sinceramente, abraçar as mais remotas e estranhas pessoas pelas ruas, impelido apenas pela emoção gerada pela força pujante de nossa cultura, nossa moderna tradição, vocacionada para a mais dionisíaca e incomparável das paixões: Almejar – e desejar para todos – a plenitude, o nirvana, a paz universal, embriagado, no colo de uma linda mulher de sonho chamada Yemanjá.

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‘… A partir de 1957, mais que o futebol e o Carnaval, a festa da passagem do ano, dedicada a Iemanjá, passou a ser o maior acontecimento de massas no Brasil. Fenômeno recente, a solenidade à deusa das águas em pouco tempo alastrou-se a todo território brasileiro, inflacionando-se nos países limítrofes do Sul do Continente e, até, já retornando à sua África ancestral como produto made in Brazil. Em Portugal, nas praias da linha de Cascais e na costa da Caparica, também já se ouvem os primeiros toques dos atabaques saudando a sereia rainha do mar…’

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Neste 2008 – como aliás nos últimos anos – não fui mais à qualquer praia de sonho. Na última vez que fui, tive que proteger com um guarda-chuva o meu bebê, que viera conhecer num carrinho cheio de fraldas a sua segunda mãe Yemanjá. Vândalos estúpidos, lançavam rojões uns contra os outros, na linha do chão, como se empunhassem revólveres. Um pouco antes da meia-noite a praia estava totalmente intransitável e não havia, sequer uma tenda de umbanda, pois o culto a Yemanjá havia sido banido daquele dia 31 em nome de diversas ordens e posturas municipais, entre as quais a proteção aos lucros do turismo e o desprezo que certas rodas da elite professam contra a cultura tradicional do Brasil.

Soube pelos jornais que a música oficial da festa deste ano, foi o batidão de Funk eletrônico de um famoso DJ carioca. Mesmo não sendo, exatamente, um tradicionalista, torci o nariz. É que senti uma bruta saudade dos tambores, das varetas de aquidavi me endiabrando a alma.

(Senti saudades mesmo foi de Yemanjá.)

Entediado, assisti pela TV a burocrática e recorrente explosão cronometrada de fogos de artifícios. Tentei, juro por Deus, encontrar alguma diferença transcendental entre o foguetório do Rio de Janeiro e o de Sidney, Austrália, ou mesmo entre o foguetório da China e o da Quinta Avenida, Nova York e não consegui ver diferença alguma (talvez seja porque esta, de ficar medindo foguetório, não é mesmo a minha praia.)

_”Seis…cinco…quatro…três…dois…um”… Foi como porre de cerveja quente. Odiei.

Neste mesmo fatídico reveillon de 2008, soube que traficantes dos morros da zona Sul do Rio, ao que se supõe, lançaram rajadas de tiros de fuzil para o alto, indiferentes à multidão na praia, atingindo algumas pessoas, entre as quais uma morreu.

Pelo menos a trilha sonora de Funk pesadão foi adequada às cenas de horror que devem ter rolado no calçadão.

Nada a ver com paz e fraternidade, convenhamos.

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Foi, com certeza, em alguma praia distante, na zona oeste do Rio de Janeiro, que eu, adolescente ainda, me enlevei com os meus primeiros tremores e sensações inebriantes, daquele romantismo ingênuo dos plenos de esperança.

Saudoso, pensei em voltar, no ano que vem, à praia dos sonhos do meu passado, na Zona Oeste. Um amigo de fé, no entanto, me alertou desolado:

_”Ih…Pode esquecer. Não existe mais a tal praia. Foi assoreada pela poluição da baía de Guanabara. Hoje ela é um extenso lamaçal negro. E como fede!”

Não tem importância, problema nenhum. Não me queixo. Sempre que durmo, até hoje, sonho com ela, a minha deusa cafusa Yemanjá. Ainda tenho, guardadas em seu colo, todas as oferendas de esperanças, que em nome dela mesmo despejei no mar. Quando me faltam alegrias, corro lá e me extasio todo, sem nenhum remorso.

_”Salve Yemanjá!”_

Spírito Santo

Janeiro 2008

Notas:
Os textos destacados são todos de Duda Guennes Jornal do Comercio – Recife

Manuel Casttels e a era da intercomunicação


Mordendo o pé da ‘contra mídia’, quem cochicha rabo espicha

 

“Caro Spirito Santo deixo-te este artigo de Castells, talvez aí nos compreenda:”

Sergio José Dias

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Anti hegemonia, se for à vera – como banana bem descascada – engorda e faz crescer.

Recebo esta prosaica mensagem aí de cima, originada ao que me consta, de um blog petista (ligado ao Movimento Negro) – um tanto fundamentalista por sinal a julgar pela grossura de sua verve editorial que vocês podem conferir neste link. A mensagem me vem a guisa de um comentário a este post que acabo de escrever sob o eventual aparecimento de uma estranha onda de ‘Contra Mídia’ no Brasil, com uma ainda embrionária, embora já preocupante tendencia para  um radicalismo proselitista, bem parecido, na intenção expressa – pelo menos para mim –  com fascismo do Estado Novo e outros velhos fascismos de ocasião.

Não faço ainda ideia de quem é a pessoa que tomou a decisão de mandar isto para mim (Sergio José Dias), ainda mais por meio deste modo inviesado, transverso. O fato de ser pessoa ligada ao Movimento Negro me constrange um pouco também.

É que nesta hora me dou conta do quanto esta corrente política fundamentalista que tento denunciar (quase bradando no deserto, reconheço) avançou no seio do Movimento Social do Brasil, a ponto de até eu, que sempre me vangloriei de ter estado nesta luta por tanto tempo, ter de me opor a este pessoal que, sei lá se por ingenuidade política ou por convicção ideológica, decidiu se atrelar a este proselitismo que tanto condeno.

È aquela história: Gente teimosa rema contra a maré. Às vezes chega à frente, às vezes se perde no mar.

Mas com tudo isto eu acho que, no fundo é bom sinal.  O tema central de nossas indagações é exatamente este: Como se comportam vias e canais  alternativos (transversos) de mídia, meios de formação de opinião enfim, hoje em dia, no contexto de uma sociedade ainda aturdida com a acachapante hegemonia de um sistema econômico baseado no lucro desmedido, que provoca uma espécie de crise de identidade político cultural, talvez ainda sem precedentes em nossa história.

Um ‘freio de arrumação’ que reconfigura em campos agora ambíguos (e não mais propriamente opostos), por exemplo, a Cultura Popular e a Cultura de Massa, a Democracia real e a Democracia Formal, as Grandes potências e as Pequenas Potências, num confuso souflê de conceitos, ‘prato-feitos’ para  boas teses, mas também para muitos aventureirismos sociais e políticos de ocasião.

(Talvez esteja nos faltando mesmo um conjunto de ideias adequado a estes novos turbulentos tempos).

Junto da lacônica e insinuante apresentação do destinatário (sugerindo leve e educadamente que fui eu que não entendi o espírito, o verdadeiro sentido ‘positivo’ deste ‘Forum de Mídia Livre’ do MinC) recebo a interessante e essencial matéria de Manuel Castells que com muito prazer reproduzo a seguir.

O mais curioso disto tudo – e neste caso sugiro que os amigos que não leram antes, leiam agora a matéria que suscitou esta ‘recomendação‘ a mim enviada pelo, imagino, jovem negro petista – é que o texto de Castells é muito bom mesmo e bastante pertinente para o caso (talvez o melhor a que tive acesso no ensejo de tocar nesta questão).

É bastante surpreendente para mim, portanto – e por certo o será para alguns leitores – como uma ideia justa e claramente exposta como esta de Castells, termina sendo manipulada e distorcida a ponto de passar a significar, exatamente o contrário daquilo que o autor pretendia que ela significasse.

Vejam como é assustador – e as pessoas, não sei por que, demoram demais a se dar conta disto – quando idéias como estas passam a embasar a estratégia de campanhas de propaganda política ou programas de aliciamento de adeptos e simpatizantes de uma corrente partidária qualquer, quando passam a servir enfim, a objetivos um tanto obscurantistas, antidemocráticos em suma,  bem diversos dos ventos de democratização da cultura e da livre circulação da informação, no sentido amplo e irrestrito que Castells tão brilhantemente nos sugeriu em seu texto.

Vejam como, ao que tudo indica, acontecendo agora mesmo diante de nossos olhos, o indefectível ‘jeitinho‘ brasileiro vai transformando em artifício perverso também as nossas maneiras de ler o mundo e o país. Contrapondo maniqueístamente, em campos de guerra, a Mídia empresarial e a Contra informação populista (quase fascista, pois) manobrada pela cabeça de sabe-se lá que deformadores de opinião, a luz sabe-se lá de que interesses, gente que artificiosamente, capciosamente, com o pretexto de democratizar os meios de informação, vai tornando toda a informação disponível, venenosa e propositalmente vulgar, primária, para enfim, pela reiteração de mentiras deslavadas, manter-se ou perpetuar-se no poder.

Se quiserem discordar discordem, é claro, mas não deixem de ler com toda atenção as entrelinhas do texto de Castells bem como os links dos blogs petistas desta ‘Contra Mídia’, links que disponibilizo aqui e na outra matéria citada, neles observe as recorrentes e grosseiras e distorções das idéias sobre ‘Mídia Livre’, tornadas por estes grupos palavras de ordem virulentas, que qualquer um pode observar por aí, sendo trombeteadas aos quatro ventos como verdades ‘absolutas’ – dogmáticas, religiosas quase – nos bate papos e posts de sites de relacionamento como o Facebook, por exemplo.

Observe sobretudo – uma curiosidade que só me ocorre agora – que ‘independente, palavra chave de nossa questão, de modo sintomático,  quase nunca aparece nestes blogs petistas, que nos bombardeiam com sua propaganda).

Ao que tudo indica, este (para usar um conceito que, infelizmente vai se tornando muito corriqueiro entre nós) fundamentalismo político-evangélico que nos espreita,  já vai mostrando as suas unhas pouco polidas há algum tempo, sem que a gente dele se apercebesse. Ele parece se basear em princípios e leis da propaganda básicos e não muito complexos (já disse: Golbery os chamava de ‘Propaganda subversiva Adversa’), mas não são de modo algum uma obra de amadores e muito menos de intelectuais e políticos ingênuos.

Talvez seja por isto que Manuel Castells, o comunicador libertário vem sendo tão lido, para ser depois desdito, desconstruído e posto às avessas como uma invenção maquiavélica do Grande Irmão do Orwell, mostrando na Teletela uma ilusão qualquer, falsa sim, mas que como uma droga poderosa – um ‘crack’ virtual , ópio do povo – serve para incendiar e congregar as massas contra o que o Poder de plantão julgar ameaçador à sua hegemonia.

Mídia ‘Livre’… porém bem dirigida. Quem se importará?

(Nossa! Sem exagero: como o 1984 do George explica bem este momento.). Vamos ao Castells então que é melhor:

Spírito Santo
Outubro 2010

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Manuel Castells
(Extraído de Le Monde diplomatic)

(Os grifos são meus)
Tradução: Márcia Macedo

“Por que os blogs, o RSS e outras tecnologias podem mudar os padrões de informação com que a humanidade se acostumou há séculos. O que isso tem a ver com a crise da política tradicional e a possibilidade de uma alternativa” [1]

Manuel Castells

“A informação e a comunicação sempre foram vetores dos poderes dominantes, dos poderes alternativos, das resistências e das mudanças sociais. O poder de influência sobre o pensamento das pessoas – que é exercido pela comunicação – é uma ferramenta de resultado incerto, porém fundamental. É apenas através do exercício da influência sobre o pensamento dos povos que os poderes se constituem em sociedades, e que as sociedades evoluem e mudam.

A repressão física ou mental é certamente uma importante dimensão do poder dominante. No entanto, se um povo modifica radicalmente seu modo de ver as coisas, se ele passa a pensar de maneira diferente e por si mesmo, não há poder que possa se opor.

Torturar um corpo é bem menos eficaz do que moldar um pensamento. Eis o motivo pelo qual a comunicação é a pedra de toque do poder. O pensamento coletivo (que não é a soma dos pensamentos individuais em interação, mas sim um pensamento que absorve tudo e é difundido por toda a sociedade) se elabora na comunicação. É da comunicação que vêm as imagens, as informações, as opiniões e é por meio desses mecanismos de comunicação que a experiência é divulgada e transmitida ao coletivo/na coletividade.

Tudo isso se aplica fortemente em nossas sociedades, no seio das quais as redes de comunicação atravessam todos os níveis, do global ao local e do local ao global. Conseqüentemente, as relações dentro do poder dominante, elemento que constitui toda e qualquer sociedade e determina suas evoluções, são cada vez mais elaboradas na esfera da comunicação.

Mídia é poder, mas manipulação tem limites

Na sociedade contemporânea, a política depende diretamente da mídia. As agendas do sistema político e mesmo as decisões que dele emanam são feitos para a mídia, na busca de obter o apoio dos cidadãos ou, pelo menos, atenuar a hostilidade frente às decisões tomadas.

Isso não quer dizer que o poder se encontre incondicionalmente nas mãos da mídia, nem que o público tome posições em função do que é sugerido pela mídia. Pesquisas em comunicação mostraram há muito tempo até que ponto o público é ativo e não passivo.

Além disso, os meios de comunicação possuem, internamente, sistemas que controlam sua capacidade de influenciar o público, pois antes de qualquer coisa, eles são empresas submetidas aos imperativos da rentabilidade e precisam ter audiência ou estender sua difusão. Em geral, eles são diversificados, competitivos, e devem ter tanta credibilidade quanto seus concorrentes. Eles frequentemente se impõem outras restrições, no que diz respeito à ética profissional ou jornalística (mediadores, conselhos de ética, etc.). Um meio de comunicação não é, portanto, algo fadado a distorcer ou manipular informações.

No entanto, precisamos focar nossa atenção nas tendências. O jornalismo militante, ideológico, a mídia engajada, por exemplo, foi durante muito tempo tido como uma mídia sem a qualidade da «objetividade» — logo, sem consumidores. Os jornais que se denominam «órgãos de partido» praticamente desapareceram ou enfrentam graves crises de distribuição.

No entanto, a situação começa a mudar: o militantismo ou engajamento ideológico pode se tornar um modelo altamente rentável. Por exemplo, a Fox News, uma das principais redes de televisão dos Estados Unidos (filial da News Corp, que pertence a Rupert Murdoch), conquistou uma grande parte da audiência conservadora norte-americana ao defender, sem a menor preocupação com a objetividade, as teses dos neoconservadores favoráveis à invasão do Iraque, em 2003.

A segunda tendência que pode ser observada atualmente está na perda da autonomia por parte dos jornalistas profissionais com relação aos seus empregadores. Nesse âmbito joga-se boa parte do complexo jogo das manipulações midiáticas.

Um estudo recente procurou explicar que, em meados de 2004, 40% dos norte-americanos ainda acreditava que o Sadam Hussein e a Al Quaeda trabalhavam lado a lado e que Saddam possuía armas de destruição em massa no Iraque. Isso um ano depois de o contrário ter sido provado. Esse estudo enfatiza as ligações entre a máquina da propaganda do governo Bush e as produções do sistema midiático.

Quando a omissão é a arma decisiva

No entanto, isso tudo é apenas a ponta do iceberg, pois a maior influência que a mídia exerce sobre a politica não é proveniente do que é publicado, mas do que não o é: de tudo o que permanece oculto, que passa desapercebido. A atividade midiática repousa sobre uma dicotomia: algo existe no pensamento do público se está presente na mídia. O seu poder fundamental reside, portanto, na sua capacidade de ocultar, de mascarar, de omitir.

A necessidade de algo ter de existir na mídia para existir politicamente induz uma relação orgânica à linguagem midiática, encontrada tanto na televisão quanto no rádio, na mídia impressa ou na internet. Os meios de comunicação em massa fazem uso de um jargão específico que não chega a ser um dialeto próprio, mas algo semelhante.

A mensagem midiática mais simples e também a mais poderosa é a imagem. E o rosto é a mensagem mais simples que a imagem pode transmitir. Sendo assim, existe uma ligação orgânica entre a midiatização da política, a personalização da mídia e a personalização da política. A partir do momento em que se passa a cultivar uma vida política baseada em querelas pessoais e de imagem ou em manipulações midiáticas, os programas de governo perdem sua importância, pois ninguém se refere a eles e os cidadãos não lhes dão mais importância (com toda a razão).

O triunfo da «personalização» da política reside no fato de que a forma mais convincente de combater uma ideologia passa a ser o ataque contra a pessoa que encarna uma mensagem. A difamação e os boatos tornam-se uma arte dominante na política: uma mensagem negativa é cinco vezes mais eficaz do que uma mensagem positiva. Todos os partidos utilizam essa estratégia: eles manipulam e até mesmo fabricam informações. E não é a mídia quem cuida disso. Esse trabalho cabe aos intermediários, às empresas especializadas.

O resultado é uma ligação direta entre a «midiatização» da política, sua personalização e a difamação ou a prática do escândalo político, cuja banalização acarretou, nos últimos quinze anos, assassinatos de pessoas eleitas, crises de governo e até mesmo de regime político.

Isso nos leva à atual e profunda crise da legitimidade política em escala mundial, uma vez que há uma ligação forte e evidente, mesmo não sendo exclusiva, entre a prática do escândalo, a midiatização exacerbada da cena pública e a falta de confiança por parte dos cidadãos no sistema. Essa desconfiança pode ser ilustrada por uma pesquisa feita pelos serviços da Organização das Nações Unidas (ONU) segundo a qual dois terços dos habitantes do planeta afirmam não se sentir representados pelos seus governantes.

Intercomunicação e crise de legitimidade política

Trata-se, então, de uma crise de legitimidade. Mas embora o mundo afirme não ter mais confiança nos governos, nos dirigentes políticos e nos partidos, a maioria da população ainda insiste em acreditar que pode influenciar aqueles que a representam. Ela também crê que pode agir no mundo através da sua força de vontade e utilizando seus próprios meios. Talvez essa maioria esteja começando a introduzir, na comunicação, os avanços extraordinários do que eu chamo de Mass Self Communication (a intercomunicação individual).

Tecnicamente, essa Mass Self Communication está presente na internet e também no desenvolvimento dos telefones celulares. Estima-se que haja atualmente mais de um bilhão de usuários de internet e cerca de dois bilhões de linhas de telefone celular. Dois terços da população do planeta podem se comunicar graças aos telefones celulares, inclusive em lugares onde não há energia elétrica nem linhas de telefone fixo.

Em pouco tempo, houve uma explosão de novas formas de comunicação. As pessoas desenvolveram seus próprios sistemas: o SMS, os blogs, o skype… O Peer-to-Peer ou P2P torna possível a transferência de qualquer dado digitalizado. Em maio de 2006, havia 37 milhões de blogs (em janeiro de 2006, havia 26 milhões). Em média, um blog é criado por segundo no mundo, o que significa 30 milhões por ano…55% dos blogueiros continuam a alimentar seus blogs até 3 meses depois deles terem sido abertos. A quantidade de blogueiros é 60 vezes maior do que era há seis anos. E ela dobra de seis em seis meses.

Como, no início, a língua inglesa era o idioma dominante na internet, atualmente, mais de um-terço dos sites da web são em inglês. O chinês vem em seguida, depois o japonês, o espanhol, o russo, o francês, o português e o coreano… O que realmente importa não é tanto a existência de todos esses blogs, mas a ligação que há entre eles, e o que eles condensam e difundem com a totalidade de interfaces comunicacionais (esta interligação é viabilizada pela tecnologia RSS.

A Mass Self Communication constitui certamente uma nova forma de comunicação em massa – porém, produzida, recebida e experienciada individualmente. Ela foi recuperada pelos movimentos sociais de todo o mundo, mas eles não são os únicos a utilizar essa nova ferramenta de mobilização e organização. A mídia tradicional tenta acompanhar esse movimento e, fazendo uso de seu poder comercial e midiático passou a se envolver com o maior número possível de blogs. Falta pouco para que, através da Mass Self Communication, os movimentos sociais e os indivíduos em rebelião crítica comecem a agir sobre a grande mídia, a controlar as informações, a desmentí-las e até mesmo a produzi-las.

Reaberta a batalha mais antiga da História

O movimento altermundialista contra o capitalismo global, com toda a sua diversidade, utiliza há muito tempo a internet e todos os recursos da Mass Self Communication – não só como ferramenta de organização, mas também como um espaço para debates e intervenções. Também foi desenvolvida por esse mesmo meio uma capacidade de exercer influência sobre a mídia dominante, passando pela Indymedia ou uma série de outras redes alternativas e associativas.

A constituição de redes de comunicação autônomas chega também aos meios de comunicação mais tradicionais. As televisões de rua e as rádios alternativas – como a TV Orfeo em Bolonha, a Zaléa TV em Paris, a Occupen las Ondas em Barcelona, a TV Piqueteros em Buenos Aires – e uma enorme quantidade de mídias alternativas, ligadas em rede, formam um sistema de informação verdadeiramente novo.

Mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Albert Gore, aderiu a essa tendência, criando sua própria rede de televisão, na qual atualmente cerca de 40% do conteúdo é alimentado pelos telespectadores. As campanhas presidenciais também se renderam à influência desse novo meio de comunicação. Por exemplo, em 2003-2004, a candidatura de Howard Dean não teria decolado se não fosse a sua capacidade de mobilização por meio da internet .

Em segundo lugar está a «mobilização política instantânea», via telefone celular, que aparece há dois anos como um fenômeno decisivo.  Essa «onda» mobilizadora, apoiada por redes de comunicação entre telefones celulares obteve efeitos impressionantes na Coréia do Sul, nas Filipinas, na Ucrânia, na Tailândia, no Nepal, no Equador, na França… Pode obter um efeito imediato, como em abril passado na Tailândia, com a destituição do primeiro-ministro Thaksin Shinawatra pelo rei Bhumibol Adulyadej. Ou na Espanha, com a derrota, nas eleições legislativas em março de 2004, do Partido Popular de José Maria Aznar. A suspeita de que as autoridades estivessem manipulando informações, com o intuito de atribuir ao ETA a culpa pelos atentados em Madri, fez com que uma infinidade de mensagens circulasse pelos telefones celulares. Isso resultou na organização de uma enorme manifestação, em um dia no qual, teoricamente, devido ao choque e ao luto, seria impossível falar sobre política.

Isso não quer dizer que tenhamos de um lado a mídia aliada ao poder, e de outro, as Mass Self Media, associadas aos movimentos sociais. Ao contrário: cada uma opera sobre uma dupla plataforma tecnológica. Mas a existência e o desenvolvimento das redes de Mass Self Communication oferecem à sociedade maior capacidade de controle e intervenção, além de maior organização política àqueles que não fazem parte do sistema tradicional.

Neste momento em que a democracia formal e tradicional está particularmente em crise, em que os cidadãos não acreditam mais em suas instituições democráticas, o que percebemos diante da explosão das Mass Self Communications assemelha-se à reconstrução de novas formas políticas, mas ainda não é possível dizer no que elas resultarão.

No entanto, de uma coisa podemos ter certeza: a sorte da batalha será jogada no terreno da comunicação, e terá peso a nova diversidade dos meios tecnológicos. Sem dúvida, essa batalha é a mais antiga de toda a história da humanidade. Desde sempre, ela visa à liberação de nosso pensamento.

Tradução: Márcia Macedo

Publicado originalmente no Le Monde diplomatic

100 anos do Natal da Chibata


O contexto era algo parecido com o clima que vivemos agora.

A cidade do Rio de Janeiro vivia ainda um clima de periódicas revoltas populares, entre as quais a mais famosa foi a Revolta da Vacina.

O processo denominado ‘Bota Abaixo’, caracterizado pela expulsão em massa da população mais pobre que habitava o que é hoje o centro comercial da Cidade do Rio de Janeiro, com a demolição de todas as suas habitações – ação governamental que está na raiz do desenfreado processo de favelização (leia no link) atual – se concretiza com a inauguração da ‘Avenida Central’ (hoje Av.Rio Branco) e inúmeros prédios estilosos entre os quais um Teatro Municipal bordado ouro. O mote propagandístico do ‘Bota Abaixo’ era:

O Rio civiliza-se!

Em 1910, sob o pretexto da repressão aos marujos da Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto, o’ Almirante Negro‘, o governo aprisiona populares ‘desocupados‘, operários e motorneiros de bonde grevistas, capoeiristas, prostitutas, etc. qualquer pessoa incômoda ao regime e, simplesmente aprisiona um grande grupo delas num navio cargueiro que as levaria para o degredo e a morte nas selvas do Acre.

João Cândido com mais 17 companheiros, por força de protestos da embaixada inglesa (João havia feito um curso de especialização em Liverpool e fizera amigos entre a oficialidade da armada de lá), são presos na Ilha das Cobras, onde a maioria foi assassinada asfixiada por ácido fênico lançado á cela para simular um acidente. Só João Cândido e um companheiro chamado ‘Pau da Lira’, sobreviveram.

Os presos civis seriam entregues a chamada ‘Missão Rondon’ para cumprirem – sem julgamento algum – trabalhos forçados na selva. Muitos morreram de doenças ou comidos por bichos. No grupo de prisioneiros estavam seis ou sete líderes da Revolta da Chibata que o comandante recebeu ordens de fuzilar  sumariamente em alto mar.

Na peça teatral (veja o texto integral neste link) que escrevi narrando estes fatos horrorosos, típicos do sistema de terrorismo de estado vigente naquela época, há a narração verídica do diário de bordo do famigerado navio mausoléu:

Trecho da peça teatral ‘EXUCHIBATA” escrita em 1994 por este vosso criado

...Voz (do capitão do navio ‘Satélite’ que há 100 anos atrás, em dezembro transportou degredados – ‘vagabundos’ e ‘desocupados’- e marinheiros para as selvas do Acre). narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105 ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro mulheres e cinquenta praças do Exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros. Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.”

Navio “Satélite”

Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911

Diário de bordo do Capitão Carlos Brandão Storry

—————–

Que a verdadeira Paz esteja com todos – inclusive com os mais  ‘perversos bandidos‘ – nestes 100 anos da Revolta da Chibata.

Spírito Santo
24 de Dezembro 2010

EXUCHIBATA, a peça (texto integral)


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“…Qual cisne Branco em noite de lua

Peça Teatral de Spirito Santo /1994


Guarnição do encouraçado ‘Minas Gerais’, como a esquadra dominanda, armada para o que desse e viesse.

(Leia resenha da peça neste link)

Cena 01
Kizumba
Exu Tranca Rua

Platéia entrando. No palco, a cena inteiramente montada está “congelada”.

Cena reproduz um motim popular numa rua do Rio em 1904. Barricada com pedaços de móveis velhos, caixotes, etc., está formada Em parte destacada da cena, dois negros capoeiristas, em posição de comando, ao lado de partes de um bonde virado. Fincada no bonde, uma vara com um trapo de pano vermelho simulando uma bandeira.

Á frente desta cena, ocultando-a parcialmente, a reprodução do quadro ampliado da capa de um Jornal segundo descrição a seguir.

Manchete está escrita numa longa faixa, sui

spensa por dois atores em pernas de pau, tomando todo o comprimento superior do palco :

JORNAL DO COMMÉRCIO

12 de Novembro de 1904
EXPLODE A REVOLTA DA VACINA!
Populacho em fúria faz quebra-quebra na cidade!

Abaixo da faixa, atores ou figurantes seguram alguns painéis quadrangulares, ficando ocultos atrás deles. Painéis reproduzem detalhes diversos da diagramação da capa do jornal (blocos de textos, charges, anúncios, etc.)

A composição com os painéis e a faixa, deve cobrir quase que, inteiramente a boca de cena, inclusive na sua altura, deixando vazia apenas um trecho quadrangular, onde se poderá ver enquadrado como uma foto, o pedaço da cena com os dois capoeiristas e parte do bonde com a
bandeira.

Inteiramente silenciosa e imóvel, a cena deve permanecer assim o tempo suficiente para criar um tensão inicial na platéia.

Após este tempo, som de um apito da polícia.

Grupo de policiais irrompe na cena com estardalhaço. Um deles carrega um cartaz onde se lê:

CENSURADO PELO GOVERNO !

Elementos cenográficos da “capa” se dissolvem, sendo desmontados desordenadamente e com rapidez. Cena atrás deles explode em gritos.

Fumaça e correria. Alguns policiais entram em cena portando espadas e dando tiros de  mosquete nos manifestantes. Pequenos objetos como rolhas, são lançados no chão por estes manifestantes. Policiais caem, tropeçando nos objetos. Em todas as situações, os dois  capoeiristas estão em posições de destaque, comandando o motim. Outros manifestantes também lutam com passes de capoeira.

Manifestantes vão sendo dominados. Muitos estão caídos como se feridos.

Gritos, ruídos e fumaça vão se dissipando até cena se congelar de novo.

Figurante vestido como um esfarrapado profeta louco, cruza lentamente a cena congelada, portando duas tabuletas seguras como “tábuas da lei”. Nelas se lê:

Tabuleta 01
Este país da Bruzundanga
parece de Deus deslembrado
Nele o povo anda na canga
amarelo, pobre, esfaimado

Tabuleta 02
No ano que tem dois sete
Ele por força voltará
e oito ninguém sofrerá
pois castigos já são sete
e oito ninguém sofrerá

Cena ainda congelada. Som de tambores e berimbaus vem surgindo ao fundo, crescendo, de fora da cena.

Os dois capoeiristas – Manduka e Pata Preta- separam-se dos demais e simulam jogar capoeira na frente da cena que, vai se descongelando lentamente.

Policiais orientam rudemente ações de “limpeza” do palco, realizadas pelos atores e figurantes. Feridos são retirados. Cena se prolonga com o retorno gradativo daqueles que vão saindo para as coxias, de forma que sempre haja o movimento de limpeza do palco durante toda a cena a seguir.

Capoeiristas durante as falas, interrompem o jogo. Cena atrás deles se congela nestes momentos. Quando voltam a jogar, após cada fala, cena atrás deles se descongela.

Sempre alternando movimentos e falas, capoeiristas se dirigem à platéia:)

Manduka: (olhando para os policiais)

_Pulhas! Na pernada não vem cá. Mandaro meu pai pra guerra do Paraguai. O véio caiu lá mesmo…um magote de capoeiras caiu por lá, adefendendo o Brasil. Agora eles falam que nós é da arruaça e do motim. Queriam o quê? Eles vem de espada e mosquetão. Queriam o quê? Que nós aceitasse morar na rua, no tempo? Derrubaram um muro aqui, na Praça da Harmonia, em cima de gente viva! Pulhas! Pra matar índio no Paraguai nós serve. Aqui, se nós se adefende deles, eles atacam e… tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Pata Preta:

_ De primeiro eu até ria. Meganha correndo, com a espada calada na bunda, entre as pernas, igualzinho a um rabo…eu gozava! Chegava rolar no chão de tanto rir. Depois, foi me dando raiva. Fiquei dez dias no hospício, sabem porque? Tava descalço, andando no Rossio, cheio de parati. O meganha chegou e me deu umas três porretadas. Pronto! Dei banda nele…Ah,ah,ah! Caiu sentado na lama, o desgraçado. Daí corri.

Me pegaram. Fiquei lá no meio dos malucos, comendo o maior fubá. Quer dizer…Andar descalço é crime, né? agora…dar porretada na cabeça de negro é o que? Se agente fica na rua, sem casa…já tá descalço, né?…Pra agüentar, ora…só tomando muito parati. Quer dizer…nós tá no crime sem querer. Pegam a gente e botam adonde? No hospício, na casa de correção, na Presiganga, mandam nós pro Acre, pros bichos comer. De modos que comigo é assim: Chegou, bateu? Eu também dou porrada! E…tome chibata!

(Volta o jogo até congelar )

Manduka:

_A verdade eu falo agora. Querem derrubar nossa casa. Eles falam que é pr´uma tal de saúde pública. Pública de quem? Sem casa como é que a gente pode ter saúde? Meu avô foi escravo. Carregava na cabeça um barril de merda da família do sinhō, da Rua Direita até o cais Pharoux. O senhor morreu duma febre que deu lá, naquele tempo. A casa do finado, do sinhō do meu avô foi derrubada? Que nada. Tá lá até hoje…podre, fedida.

Não tô aqui por que quero.  Trouxeram meu avô pra cá. A gente se adefende com o pé, com a mão, com um pedaço de pau, com o que for. Me dá casa nova, me dá sapato, me dá camisa que eu bato palma pra saúde pública. Se me der bordoada, eu devolvo, eu pago, dou porrada também! E…tome chibata!

(Palco neste momento deve estar totalmente limpo. Ouve-se novamente o som de histéricos apitos da polícia. Capoeiristas correm para fora de cena, perseguidos por policiais.)

Cena 02
MUSEKE
Exu Marabô

(Penumbra. Novas partes do cenário, transferidas dos bastidores para o palco, fazem com que ele tenha agora dois níveis, sendo o superior composto por um praticável ou jirau móvel, dividido de alguma forma em dois espaços distintos, acessados por intermédio de escadas também móveis.

Metade deste jirau, reproduz um coreto tradicional, em cuja parte central bem no topo, um figurante coloca um letreiro. )

BATALHA DAS FLORES
GOVERNO PEREIRA PASSOS
1906

Música de bandinha, surge dos bastidores, crescendo. Parte do lado do palco, o mesmo onde está o coreto, mantém o bonde da cena anterior recomposto, ao lado da mesma coxia onde estava, sendo acessível aos atores através dos bastidores.

Saindo da coxia e atravessando o bonde, como se dele desembarcassem, muitas pessoas entram e cena, todas com os rostos pintados de branco. Algumas delas ficam por um tempo, dependuradas nos balaustres do bonde que, assim como tudo neste lado da cena, está ornamentado com flores. As pessoas estão muito bem vestidas (roupas de domingo), portando chapéus, bengalas, guarda-sóis, bambolês e bicicletas, tudo enfeitado. Músicos de uma bandinha também entram por ali.

O fluxo constante de pessoas pode ser conseguido através da circulação delas do palco para os bastidores, de onde retornam de novo ao palco, com ligeiras alterações de figurinos e adereços. As pessoas vão se aglomerando em torno do coreto, fazendo grande alarido. Luz neste ambiente é feérica Sob luz mortiça e no outro lado do palco simetricamente dividido, a parte inferior do jirau representa o pátio de uma casa de cômodos, no qual deve estar à vista algo que se assemelhe à fachada de um cortiço.

Um pequeno chafariz, algumas tinas de roupa, cadeiras, além de varais de roupas cruzados pelo espaço mas ainda vazios, podem completar o cenário.  Focos nos participantes da festa no coreto. Um grupo de autoridades se aproxima, vindo detrás da platéia. Grupo de policiais faz escolta.

Participantes da festa, do palco, aplaudem e dão vivas entusiásticas. Participante grita:

Participante:

_ Viva o Prefeito Pereira Passos!

Todos respondem em coro.

Grupo de autoridades sobe ao palco e se fixa no centro do coreto. Fotógrafo com máquina “lambe-lambe” assume boca de cena. Autoridades se imobilizam diante do fotógrafo, esperando a foto. Explosão do flash fotográfico sinaliza inversão da luz nos ambientes. Na penumbra, cena do coreto prossegue com movimentos normais mas, sem ruídos.

Luz da casa de cômodos cresce. Pátio da casa de cômodos começa a ser ocupado por homens vestidos com roupas sujas, trazendo alguns dos adereços citados que vão sendo largados pelo pátio. Alguns destes homens são marinheiros. Outros homens entram trazendo carrinhos de mão tipo “burro-sem-rabo” e grandes sacos de carvão.

Ruídos da cena são apenas os produzidos pelas ações descritas. Alguns homens entram na casa e desaparecem nos bastidores. A maioria senta ao lado do chafariz, fumando lentamente. Todos parecem cansados. Mulheres começam a sair da casa e estendem roupas nos varais. Num dos cantos uma mulher lava roupa numa tina.

Homens e mulheres vão se recolhendo para o interior da casa até que toda o pátio fique vazio.

Nova explosão de flash fotográfico. Nova inversão de luz nos cenários.

Burburinho na cena do coreto volta forte. Luz forte se concentra no centro do coreto onde se destaca uma autoridade de barbicha.

Prefeito faz discurso inflamado:

Pereira Passos:

_ A população do Rio que, na sua quase unanimidade, felizmente ama o asseio e a compostura, espera ansiosa pela terminação desse hábito selvagem e abjeto, que nos impunham as sovaqueiras suadas, apenas defendida por uma camisa de meia rota e enojante de suja, do vexame de uma súcia de cafajestes, em pés no chão, quando um calçado está hoje a 5 mil réis o par e há tamancos por todos os preços. Na Europa, ninguém tem a insolência e o despudor de vir às ruas de Paris, Berlim, de Roma, de Lisboa, etc. …em pés no chão e desavergonhadamente em mangas de camisa!

Aplausos frenéticos de novo. Participantes ficam agitados. Prefeito prossegue:

Prefeito Pereira Passos:

_O Rio de Janeiro principalmente vai passar e…já está passando por uma transformação radical. A velha cidade, feia, suja, tem os seus dias contados! Não é outro, tenho-lhes dito, o verdadeiro sentido de civilização e progresso do que nossos detratores tem chamado, levianamente de “bota a baixo”!

Coro de participantes (gritando) :

_ Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo! Bota a baixo!

Participantes vão ficando agressivos e começam a ocupar o cenário da casa de cômodos,  depredando-o. Policiais tentam impedir, sem muita convicção e não conseguem. Platéia começa desmontar todo o pátio da casa. Policiais resolvem também a ajudar no vandalismo.

Participantes da batalha das flores vão ocupando toda a cena, Luz acompanha este movimento de expansão da cena e vai tomando também todo o espaço cênico. Prefeito é carregado em júbilo pelos participantes, que vão saindo com ele pelo lado onde estava o pátio da casa.

Alarido da saída dos participantes da batalha da flores prossegue ainda um pouco, mesmo depois da cena estar vazia.

Com o silêncio, homens e mulheres que moravam na casa de cômodos, voltam à cena como garis da época, limpam os restos de adereços que sobraram no palco e recolhem as partes do jirau.

Luz vai caindo até o black out.

Cena 03
ZUNGA
Pomba Gira

Música de Ragtime em piano comum e percussão típica. Fundo da cena simula linha do mar e parte do convés de um navio do início do século.

Predominância de preto e branco nas cores em todo cenário e figurino. Personagens brancos, têm os rostos pintados nesta cor.

Todos os movimentos das personagens são esquemáticos, quase mímicos.

Cena simula uma seqüência de cinema mudo.

Português bigodudo entra em cena de ceroulas, boné característico e tamancos. Caminha até o centro da cena de forma cômica. Só aí demonstra perceber que está de ceroulas. Cobre a bunda e púbis com as mãos e foge para uma das coxias. Antes de sumir faz sinal para que a platéia o aguarde.

Português volta com o corpo coberto por dois painéis de anúncio de cinema. No painel da frente se lê:

“Cinematógrapho Avenida e Pathè Films Apresentam A sensacional película!!

KALUNGA, O MARUJO DO BARULHO”

Português vira de costas. Segundo painel é lido:

Hoje:

KALUNGA E OS TENENTES DO DIABO

Português sai de cena mas voltará sempre com novos letreiros que formarão as legendas do filme mudo.

Grupo de tenentes da marinha entra desajeitadamente no palco, um deles faz soar um apito característico, chamando alguém que está oculto na coxia, do lado oposto ao que entrara o  português. Um dos tenentes faz a mímica como se falasse. Português mostra letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Pessoa chamada não se apresenta. Um dos tenentes agita no ar uma chibata. Apito soa  novamente. Tenente repete o chamado, com mais ênfase.

Português mostra de novo o letreiro:

MARUJO, APRESENTE-SE!

Entra em cena o marujo Kalunga. Negro, baixinho, fazendo graça para a platéia. Tropeça, finge que está com medo dos tenentes, Perfila-se e faz desajeitada continência para eles. Um dos tenentes faz mímica de grito, dirigindo-se aos outros.

Português mostra letreiro:

A BARRICA! A BARRICA!

Dois tenentes vão até a coxia e retornam com uma grande barrica posta sobre um chassi com rodinhas. Viram para a platéia um lado da barrica onde se vê um orifício. Tenentes apontam o orifício para a platéia. Ordenam a Kalunga que se aproxime. Letreiro anuncia a ordem:

ENTRE NA BARRICA, MARUJO! É UMA ORDEM!

Kalunga reluta. É pego por um dos tenentes, se desvencilha, corre pelo palco. Muita comicidade na perseguição. Corre em torno da barrica até ser pego pelos os tenentes. É posto à força dentro da barrica que é levada com ele dentro para fora do palco. Tenentes saem com a barrica, rindo e indicando com gestos, que vão sodomizar o marujo . Letreiro anuncia:

ORDENS…SÃO ORDENS!

Breve momento de cena deserta. Kalunga coloca a cabeça para fora dos bastidores, do lado oposto ao do que está a barrica. Kalunga assume o palco e faz sinal para que platéia fique em silêncio. Eufórico, faz suspense, aponta para o lado onde está a barrica. Pede a platéia que espere atenta.

Luz na direção da coxia onde está a barrica. Gemidos lascivos são ouvidos, vindos do lado onde está a barrica. Logo após os gemidos, um grito desesperado de dor.

Kalunga simula riso divertido, cobrindo boca para não ser ouvido, insinuando sempre com mímica o que está ocorrendo na coxia. Gritos de desespero de todos os tenentes.

Kalunga solta gargalhadas (sem som) Tenentes entram, perseguindo Kalunga com raiva. Kalunga foge, dá uma volta completa pelos bastidores e volta à cena. Tenentes, ao atravessar o palco, deixam que se veja enormes lagostas vermelhas, balançando, presas nas braguilhas como se tivessem sido mordidos.

Atrás do grupo que sai finalmente de cena, entra o português com letreiro :

É O FIM!

Luz caindo até curto black out.

Luz volta. Placa do filme postada num canto, indica a saída do cinematógrafo.

Político e mulher elegantes, entram em cena como se estivessem saindo do cinema mas, apenas simulam estar andando pela rua enquanto conversam.

Detalhes da rua – placas, letreiros, postes, quiosque, etc.- são adereços carregados por atores e figurantes que desfilam com eles pelo palco, como se a rua girasse num ciclorama.

Mendigos abordam o casal mas são repelidos com elegância. Carroceiros cortam a cena com carrinhos “burro-sem-rabo” cheios de tralhas. Quiosque se imobiliza e grupo de populares entram em cena para ocupar o balcão.

Bebem, comem e conversam. Vão ficando bêbados. Palco vai se enchendo de figurantes caracterizados como prostitutas, marinheiros, vendedores ambulantes, etc.

Burburinho se reduz para a fala do político.

Político: (Irritado)

_ Achei a película execrável!

Mulher:

_ O que, Chèrie?

Político:

_ Detestável! Uma bodega! É o que digo sempre…É assim que
nossos ideais de progresso dão sempre com os burros n’agua!

Mulher:

_ Mas era só uma sátira, chèrie!! Até que bem hilariante…Um  pouco grosseira talvez  mas…divertida. Muito divertida!

Político:

_ Existem temas mais apropriados. Zombam das instituições, isto sim. A armada devia coibir estes excessos!

Mulher:

_Não seja tolo, chèrie! É uma película norte-americana. Aquela armada não é a nossa. Deve ser a inglesa…sei lá!

Político:

_ Mas é como se fosse. A vida dos marujos, afinal não é tão dura assim. Ainda ontem estes homens não eram mais que escravos. Hoje têm soldo, trabalho digno, viajam o mundo e…

Grupo de bêbados irrompe numa sonora gargalhada. Casal olha para o quiosque surpreso, como se achasse que riram deles.

Mulher:

_ Oui, mon amour! Você está certo. São abusos sim mas, você não relaxa nunca? Detesto este teu fanatismo pelo trabalho na Câmara, esses debates. Você se acha a palmatória do mundo. Um dia você vai e o Brasil fica por aí, oh…belo e faceiro. Viu como todo mundo se divertiu lá no cinematógrafo? Até os velhos mais caquéticos riram à larga. Você devia deixar a política na escrivaninha da câmara, isto sim. O importante, chèrie, é o…savoir vivre!

Homem:

_ Vocês, mulheres…acham que tudo se resolve com savoir vivre e art nouveau. Pensam que isto vai…colorir as mazelas do país? Isto aqui, minha cara, não é a França não. Olhe para esta gente (apontando para o quiosque ) Não se civiliza nunca, viu? Se a gente dorme, é capaz de acordar com os excrementos deles em nossa própria porta. Nossa art nouveau, nossa belle époque, hum…só se for com muita água e sabão!

Pessoal do quiosque passa a olhar o casal com hostilidade. Casal se assusta e vai se retirando.

Mulher:

_A propósito, mon amour…Podíamos ir à tua garçonière! O que achas? Tomamos um banho de sais e…Você não sairá cedo amanhã, não?

Homem:

_ Infelizmente sim!

Mulher:

_Oh, non!

Homem:

_ Sim, sim! Irei agora contigo mas, pela manhã…Imagine que o jornalista João do Rio nos aprontou mais uma. Desafiou-nos, a todos nós da Câmara e, pelos jornais, a acompanhá-lo numa inspeção sanitária, a uma destas espeluncas da cidade. Disse ele que se chamam…Zungas. São lugares fétidos, imundos, nem queira saber o quanto. De modos que terei que ir ao beco dos ferreiros amanhã. Não posso medrar. Só espero que…os sais de hoje, me livrem de um impaludismo amanhã!

Mulher:

_Oh…oui, oui! Os sais de França fazem milagres, chèrie!

InBêbados fazem algazarra. Xingam o casal que sai rápido de cena. Dono do quiosque fecha as janelas, expulsa os bêbados que saem protestando.

Último bêbado mostra um letreiro:

DIA SEGUINTE. NO ZUNGA

Penumbra. Jiraus retornam. Reproduzem agora o interior de uma hospedaria barata, tipo “cabeça de porco”. O espaço cênico, está agora totalmente ocupado pelos atores com esteiras, redes e camas improvisadas. O nível superior, dividido, de alguma forma em planos ou espaços distintos, é acessado por intermédio de escadas.

A maioria dos atores e figurantes, vestidos com trapos imundos ou seminus, vão entrando lentamente e ocupando os dois níveis do espaço, deitando-se silenciosamente, demonstrando cansaço. Alguns se deitam simplesmente no chão. Entre eles estão alguns marinheiros.

Brigam entre si por melhores espaços. São brigas surdas, com movimentos bruscos e tensos. Burburinho contido de vozes tossindo, e reclamando e depois, respirando ou roncando, prosseguem até o silêncio.

Penumbra é rompida por luz forte e súbita. Grupo de policiais, vindos dos bastidores, irrompe no recinto seguido por homens engravatados. Policiais afastam rudemente com cassetetes, as pessoas que estão no caminho.

Alguns fingem dormir, outros envergonhados, sentam-se cabisbaixos. Só se ouvem as vozes dos policiais e inspetores. Entre eles está o cronista João do Rio que fala:

João do Rio:

_ Eis aí, senhores, o vosso século 20! Nosso alentado progresso. Não lhes disse que o Brasil escondia a idade média em suas entranhas?

Alguns inspetores puxam lenços para tapar os narizes, com nojo. Outros  hesitam em avançar. Político do cinematógrafo fala para os demais:

Político:

_ Vamos senhores! É preciso não ter pejo. Vejam a realidade crua, nojenta. Sintam o seu cheiro, seu miasma infecto. Como vêem, não exageramos em nossos discursos na câmara. Urge ou não urge acabar logo com estes antros? Pois venham Srs.! Avancem!

Polca “Rato, rato” em compasso bem lento, soa no ambiente. Grupo circula pelos corpos caídos, desviando de uns e de outros, Na subida da escada, alguns hóspedes estão apoiados, fingindo dormir num corrimão. Mulheres, sentadas nos degraus da escada, escondem as pernas, cuidadosamente.

No andar superior, muitos homens deitados estão quase nus, enquanto que longo banco de madeira, um grupo cochila sentado, com os antebraços apoiados numa corda esticada, cujo nó é rompido bruscamente, por um dos policiais. Pessoas que cochilam na corda despencam no chão. Os despertos ficam de pé num salto, assustados.

Inspetores vão se retirando em silêncio. Policiais abrem caminho com os cassetetes. A esta altura todos já estão acordados e se comportam entre envergonhados e assustados. Cena vai voltando à penumbra lentamente.

Pessoas vão voltando a seus lugares, lenta e silenciosamente. Polca prossegue mais um pouco e vai descendo com a luz até o black out.

Cena 04
KURIMBA!
Exu Veludo

Luz volta. No palco uma mesa, em cima dela uma moringa, um lampião, um cinzeiro com um cigarro aceso, alguns papéis e uma garrafa de cachaça.

Sentado na mesa o marinheiro João Cândido, com a túnica da farda desabotoada e descalço. Som de batidas na porta. A batida é ritmada, como um senha. João responde:

João Cândido:

_ Pode chegar! Tô aqui!

Três outros marujos entram e sobem uma das escadas do jirau. Cumprimentam-se efusivamente e se sentam. Bebem cachaça e conversam com João, preocupados.

Líder marujo 01:

_ Uma coisa é certa. A marinha sabe, gente. Desde que a gente voltou da Inglaterra que ela sabe.

Líder marujo 02: _ Pois é. Eles devem ter mandado a gente pra lá, só pra ver se arrefecia a idéia do motim. É isso. Só pode ser. Olha…É melhor adiar isso.

João Cândido:

_ Que é isso, gente! Que adiar o quê…Calma. ´Cês lembram daquele sindicalista inglês, lá no estaleiro de New Castle…O Laughton, lembram? Pois ele já tinha me dito que a Marinha andava meio ressabiada mas…não com a gente. Se nos mandaram p´ra Inglaterra é porque botaram esperança na gente, claro! Que desconfiança o que, ora! É só a gente fazer tudo direito, sem apavoramento, com paciência!

Líder marujo 01:

_ Mas João…é arriscado, homem. A inglesada foi amiga, muito solidária e tal e coisa mas…eles estão lá, né ? E nós aqui! A gente pode ser preso, condenado…Pode até ser morto, fuzilado! Tua
casa já tá vigiada, tu sabia? A gente espera outra chance. É melhor adiar a revolução, né mesmo?

João Cândido:

_ Que nada! E se a Marinha souber? E daí? Eles devem estar achando que é fogo de palha nosso, homem. Acham que a gente não tem capacidade pra organizar, comandar a tropa. Olha só…eu já marquei com o Marcolino. Marquei pra hoje, lá naquele candomblé do Santo Cristo. A gente pode conversar todo mundo lá. Toma umas cachaça, pede proteção pra oxalá, pra Exu, sei lá? Vamo em frente que eu sei que vai dar… Calma, gente.

Líder marujo 03:

_ Tá certo, tá certo! Mas nós vamos ter que mudar o endereço do comitê. Tua casa tá mesmo vigiada. Aqui na Saúde não dá não…Não dá mais.

João Cândido:

_ Papo furado…Mas ´cês não tem imaginação mesmo, heim! Eles acham que nós somos um bando de pés lascados. Fica calmo, homem. Já temos plano, já temos data…o que vocês querem mais? ´Cês tem que confiar aqui no timoneiro, ora! Vão, vão logo. Lá no Marcolino a gente se vê, tá bom?

Marujos se levantam e descem. Um deles volta e pega a garrafa de cachaça. João apaga o lampião e desce com eles, deixando a cena às escuras.

Ruído de sereia de navio. Alguém bate numa porta. Voz responde:

Voz: (Em off ) _ De quem se trata? Apresente-se!

Ninguém responde ou se apresenta. Oficial da Marinha aparece se aproximando de uma porta. iluminada. Abre a porta e não vê ninguém. Algo chama a sua atenção no chão. Encontra um bilhete na soleira da porta.

Oficial pega papel e fixa o olhar nele, como se lesse.

Voz (lendo bilhete, em off ):

_”Venho por meio desta linhas, pedir não maltratar mais a guarnição
deste navio que tanto se esforça para trazê-lo limpo. Aqui ninguém é
salteador nem ladrão. Desejamos paz e amor. Ninguém é escravo de
oficiais e …chega de chibata. Cuidado.
Assinado:
Mão Negra “

Oficial tem reação preocupada. Black out.

Tambores de candomblé tocam forte para Exu, ocultos da cena. Luz
crescendo.

Mulheres, participantes do culto – Ekedis – montam ritualísticamente o cenário com a instalação de um peji (oratório). Nele velas são acesas, vasilhas de comida para os orixás- ebós – são colocadas , etc. Logo após a montagem, Ekedis saem e retornam junto a um grupo maior de Yaôs, dançando e cantando ao som dos atabaques. Cena deve reproduzir elementos essenciais do ritual de uma “saída de Exu”.

Algumas pessoas estão “possuídas” e dançam em transe. Pessoa que está sendo iniciada entra em cena paramentada como Exu. Não se consegue ver quem está sob os paramentos. Ritual vai assumindo clima de grande êxtase. Grito de sacerdote-ogã – interrompe o ritual. Grupo de Ekedis e Yaôs, vai se retirando da cena dançando.

Pessoa vestida de Exu vai se despindo dos paramentos. Sob eles vai aparecendo uma farda de marinheiro. Já totalmente despido dos paramentos, se percebe que o iniciando é João Cândido.

João Cândido: (para a platéia )

_ Meu nome é João Cândido Felisberto, gaúcho, marinheiro de primeira classe da gloriosa Marinha do Brasil.

Estive na guerra do Paraguai e sobrevivi. Quando o Brasil mandou construir na Inglaterra os três encouraçados mais modernos do mundo, eu estava lá, na guarnição. O meu navio é o Minas Gerais, sou o timoneiro do melhor navio do mundo. É por isso que eu digo. Não sou nenhum desqualificado não. O que eu não sou e nunca fui mesmo é Pai João. Tá tudo aí pra todo mundo ver. Tratam a gente feito cachorro. Não dá mais. Chega de chibata! Se o governo não vê ou finge que não vê, eu vejo e, tenho nojo do que vejo.

Black out. João Cândido desce para a platéia e se junta ao público, para assistir a cena a seguir.

Som dos tambores vai crescendo. Parte do Jirau, deslocada para o palco por figurantes vestidos de marinheiros, representa de novo o convés de um navio do início do século. Há no conjunto um grande mastro de navio bem à vista.

Grande grupo de marujos entra em cena, assumindo posições no navio, sob o comando de oficiais. Ordens gritadas pelos oficiais são ouvidos. Oficial comandante, em posição de destaque, grita, apontando para uma coxia:

Oficial Comandante:

_ Aos ferros! Acorrentem o negro no mastro ! Aos ferros com ele, já! Dois cabos entram em cena com um marujo amarrado. Oficial comandante ordena para os demais oficiais:

Oficial Comandante:

_ Em formatura!

Oficial repete a ordem. Marinheiros formam. Silêncio na cena. Marujo é preso ao mastro e  começam a açoitá-lo com chibatas. Tambores de candomblé marcam o ritmo das chibatadas .Oficial ordena que a tropa dê as costas para o marujo açoitado.

Oficial Comandante:

_ Meia Volta…Volver!

Tropa não obedece a ordem e fica imóvel. Oficial insiste em vão. Demais oficiais se agitam tensos.

Líder Marujo: (gritando)

_ É agora!

Tropa desfaz a formatura e cerca oficiais que puxam pistolas e espadas. Marinheiros gritam:

Marinheiros:

_ Liberdade! Abaixo a chibata! Abaixo a chibata!

Música de tambores. Tumulto no convés. Oficial corre para a boca de cena e grita para o público:

Oficial Comandante:

_ Motim! Motim!

Silêncio. Oficiais são dominados. Alguns estão caídos, feridos ou mortos.

Foco de luz segue João Cândido que volta ao convés-palco. Marinheiros formam para ele, perfilados reverentemente. João Cândido amarra um lenço vermelho no pescoço e, com um gesto, manda que desfaçam a reverencia e a formatura. Marinheiros começam a desmontar o cenário da luta, saindo de cena, onde somente João Cândido permanece.

Tambores soam mais fortes. Ekedis e Yaôs voltando à cena dançando, cercam João Cândido e vestem nele de novo os paramentos rituais. Grupo dança freneticamente. Marujos voltam à cena
Ogã lança pipocas sobre alguns marujos que entram em imediatamente êxtase, como se  incorporados. Todo o grupo parece estar incorporado. João Cândido, vestido de Exu, dança no meio deles.

Som brusco de um apito da polícia. Policiais entram em cena. Tambores cessam.

Policiais chutam ebós e peji. Cena é evacuada pelos policiais com violência.

Black out.

Cena 05
KALUNGA!
Exu Rei

Ainda no black out, som de batidas numa porta. Homem vestido de mordomo entra, iluminando a cena, com um candelabro. Candelabro mostra outro homem que chega. Ele se veste elegantemente, de casaca e está cansado mas, eufórico como se tivesse chegando de uma festa.
Homem se senta numa poltrona, retira os sapatos e as calças, ficando só de casaca, ceroulas e meias. Mordomo se dirige a ele, ansioso:

Mordomo: ( sotaque francês, apreensivo )

_ Monsieur Presidente, por favor!

Hermes da Fonseca:

_ Ora bolas, Jean Claude! Não vês que estou exausto?

Mordomo: (esbaforido)

_ Pardon, Monsieur Hermès..Pardon! Ces très important. A armada…A Marinha…

Hermes da Fonseca: (Desatento, irritado )

_ Vá, homem! Desembucha, sô!

Mordomo: (Trêmulo)

_ Passarram um rádio, excelência!..Mon dieu! A Armada…a Armada se rebelou! Os marrujos dizem que querrem…o fim das torturras, ou algo assim. Ameaçam bombardear a cidade, excelência! Bombarrdear a cidade!

Hermes da Fonseca: ( se levantando assustado )

_ Com os diabos! Bombardear a cidade! Mas o que pensam? Acabo de tomar posse. Ficaram loucos? Cambada de insolentes, corja! (andando de uma lado para o outro) Anda Jean Claude! Vá, anda! Me traz o automóvel…Me chama todo o ministério, o Estado Maior…(notando o candelabro ) A luz, que foi feito da luz do Palácio?

Mordomo:

_Por Dieu, Monsieur! Tivemos que apagar tudo. O palácio é o alvo principal dos bandidos!

Hermes da Fonseca: ( aturdido )

_ Vai, homem! Me traz também o…Rui Barbosa! Ave Maria, vá! Traga todos…Não…Deixe estar. Eu vou junto até eles. Depressa, homem…Diabos!

Mordomo sai na frente afobado, levando o candelabro e seguido pelo presidente.

Hermes da Fonseca: (Puxando o mordomo para trás)

_Volte.! Volte aqui, homem! Preciso vestir minhas calças!

Os dois saem, deixando a cena às escuras.

Luz sobre o fundo branco da cena, reproduz céu avermelhado. Vindas de lados opostos, das duas coxias, as partes separadas do jirau entram forradas com longos panos, de forma que se assemelhem à proas de dois grandes navios que, avançam lentamente em sentido transversal ao palco, até quase se tocarem. A caracterizar os navios, o nome das embarcações (“Bahia” e “São Paulo”), simulações de âncoras e canhões, etc. As proas avançam um pouco à frente do céu e na parte superior delas, no nível do que seriam os conveses, marinheiros gritam e acenam eufóricos, lançando os bonéscaxangás para o alto.

Todos os marujos trazem lenços ou trapos vermelhos no pescoço ou nos bolsos das túnicas. Os navios têm flâmulas vermelhas desfraldadas.

Na parte baixa da cena – o palco – cenário reproduz também detalhes de um outro convés, contendo bem visível o nome do navio (“Minas Gerais”), da mesma forma ocupado por marinheiros eufóricos. O conjunto cenográfico simula o encontro de três navios de guerra. No centro do convés-palco, um marujo negro saúda os marinheiros dos navios de cima, acenado a espada levantada. A maioria dos marujos são negros mulatos ou morenos. Todos portam fuzis ou espadas.

Dos dois navios do fundo são lançadas escadas de cordas. Por elas descem dois marinheiros, líderes dos navios. Marinheiros que desceram abraçam o do convés do palco que usa um uniforme surrado e está descalço.

Marujo descalço – João Cândido – fala para os que desceram.

João Cândido:

_ A oficialidade teve algumas baixas aqui no Minas Gerais. Se defenderam como puderam. Amanhã mandamos os corpos para a terra. Agora não tem mais jeito…O governo vai ter que ceder. Mão Negra! Cadê o manifesto? Tá pronto? Deixa eu ler.

Mão Negra: (passando um rolo de papel para João)

_ É bom ler mesmo, pra todo mundo ouvir. Vai valer o escrito. Quem quiser desertar da luta, a hora é esta. Agora é ganhar ou morrer!

Silêncio. João Cândido olha o papel com se o lesse. Grande estandarte com o texto ampliado do manifesto, é lançado de cima de um dos navios:

“Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1910
Il.mo. Ex.mo. Sr. Presidente da República Brasileira.
Cumpre-nos informar a V.Excia., como Chefe da Nação Brasileira:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu que nos cobria os olhos de patriótico e enganado povo.

Achando-se todos os navios em nosso poder, mandamos esta honrada mensagem para que V.Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facultam, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira.

Reformar o código Imoral e Vergonhoso que nos rege, afim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos  semelhantes; aumentar nosso soldo, educar os marinheiros que não tem competência para vestir a orgulhosa farda, mandar por em vigor a tabela de serviço que a acompanha.

Tem V.Excia. o prazo de 12 horas para mandar-nos resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada.

22 de novembro de 1910
Nota: Não poderá ser interrompida ida e volta do mensageiro.
Marinheiros

Marinheiros aplaudem. Desfaz-se a formação dos navios, com o recolhimento das partes do jirau que carregam suas tripulações que, saem de cena eufóricas com entraram.

Fundo da cena está agora azulado. Silhueta do pão de açúcar é projetada sobre este fundo. Num dos cantos da boca de cena, são colocadas peças de um cais.

Música para dança. Grandes estandartes de pano, simulando cascos de navios, manipuladas por grupo de marujos-dançarinos, aparecem em cena representando o movimento de uma esquadra.  O sentido estético da dança deve ser bastante suave e lírico. Canhão cenográfico apontado para o alto é empurrado para o centro da cena, oculto pelos estandartes da dança.

Figurantes e atores, caracterizados como populares, policiais, soldados, mulheres elegantes, homens engravatados, trabalhadores, etc., vão ocupando os dois cantos da cena, principalmente ao lado do cais, como se tivessem sido atraídos pela dança da esquadra.

Quando a assistência do “cais” estiver bem embevecida, dançarinos abrem bruscamente um claro entre os estandartes, deixando a luz acentuar a existência do canhão.

Canhão atira com grande estrondo e todos, figurantes e dançarinos debandam da cena assustados. Luz pisca e fixa-se em black out.

Luz volta. Fundo da cena assume tom azulado. Junto com a silhueta do Pão de Açúcar aparecem agora silhuetas de navios de guerra ancorados ao largo. Grupo de autoridades civis e militares, seguindo um almirante vestido pomposamente e com chapéu característico, olha do cais para a esquadra ao fundo com alguns binóculos e lunetas. Um oficial cochicha algo no ouvido do almirante, apontando para uma das coxias. Almirante faz sinal para que alguém se aproxime.

Dois fuzileiros trazem um marujo aos solavancos. Almirante manda que o soltem. Marujo se perfila para o almirante e fala:

Marujo:

_Sou o emissário do marinheiro João Cândido Felisberto. Trago uma mensagem urgente da esquadra.

Fuzileiros seguram o marujo e o sacolejam de novo. Almirante de novo manda soltá-lo. Marujo olha com desdém para os fuzileiros.

Marujo retira um papel de um tubo e entrega ao almirante que o lê. Demais oficiais cercam o Almirante, curiosos. Almirante fica possesso.

Almirante:

_ Nunca! Jamais! Ah, mas…Esta gentalha não vai nos…

Antes que almirante conclua a frase, som de zumbido de um tiro de canhão  corta o ar. Estrondo de explosão do tiro, logo em seguida. Autoridades fogem para fora de cena. Black out.

Luz crescendo lentamente. Música. Cena vai sendo ocupada por populares,  homens elegantes conversando, policiais, senhoras com guarda-sóis,  melindrosas, todos passeando tranqüilamente. Alguns portam adereços que  caracterizem detalhes de uma grande avenida: tabuletas de lojas, fachadas  de quiosques, vitrines, postes, triciclos, bicicletas etc.. Fachada do bonde  pode ser reposta em cena.

Um homem portando um cartaz de propaganda circula entre os populares,  gritando pregão:

Homem do cartaz:

_ Não percam! Não percam! Estréia hoje! Benjamim de Oliveira no Circo Spinelli! A Vingança do marujo! A vingança do Marujo! Sensacional espetáculo teatral! Não percam, hoje!

Cartaz:

O Circo Spinelli orgulhosamente
apresenta o sensacional espetáculo teatral:


A VINGANÇA DO MARUJO

Com o fabuloso, o insuperável palhaço negro BENJAMIN DE OLIVEIRA.  Não percam!

Além da voz do homem-cartaz e da música, nenhum outro som é inteligível  na cena. O que se ouve é apenas o burburinho das conversas dos populares.

De repente, outro som do zumbido de tiro de canhão é ouvido. Black out  simultâneo a explosão de outro tiro. Gritos histéricos e correria dos populares. Cena é evacuada, ficando inteiramente vazia.

Luz geral. Dupla de palhaços entra em cena e desenha um grande círculo de  giz, tomando todo o diâmetro do palco, exceto um pequena área em torno, onde se acomodará uma claque de figurantes.

Música de banda circense. Foco ilumina mestre de cerimônias devidamente fardado,  anunciando:

Mestre de Cerimônias:

_Senhoras e senhores! Ladies and gentlemen! O meu cordiaaaal Boaaa noooite! O grande circo Spinelli tem a honra, o inenarrável orgulho de apresentar nesta memorável noite…(rufos de tarol )…O sensacional espetáculo…A vingança do Marujo! E para interpretá-lo, ele…o inigualável…o fabuloso…o insuperável ator e clown (banda ataca acorde de suspense) …Benjamim…de O..li..vei…raaaa!.

Bandinha segue com uma marcha bem alegre. Aplausos entusiasmados da claque.

Dupla de palhaços traz ao palco-picadeiro, o elenco em fila indiana formado pelos personagens do espetáculo: Ator-benjamim-Almirante Negro, com espada e chapéu próprio; ator-senador Rui Barbosa, vestindo casaca; ator- senador Pinheiro Machado, também de casaca; ator-senador Alfredo Ellis, vestindo terno bem justo; coro de marujos descalços; coro de senadores de chapéus coco e casacas.

Atores-senadores sentam em caixotes deixados no chão pelos palhaços. Cada caixote possui o nome do senador respectivo escrito em letras grandes. Os dois coros, em lados opostos, ficam em pé atrás dos senadores e do Almirante Negro .

Um dos palhaços, sob o rufar do tarol da bandinha, mostra para a platéia,  com um risinho de chacota, o seguinte letreiro:

Letreiro:

Numa sessão do Senado Federal,
um debate DECISIVO para o Brasil

Ficando em pé em seu caixote, diante dos outros senadores, dirigindo-se também à platéia real do espetáculo, Rui Barbosa discursa:

Rui Barbosa:

_Quero crer que o governo, único responsável pela constrangedora situação atual, onde a indefinição se fez a irmã mais legítima da covardia, compreenda que o que trouxemos aqui, para esta magna casa, nada mais foram que provas…fatos absolutamente concretos e científicos, que atestam, definitivamente que…as figuras divinas, celestiais e diáfanas a que chamamos anjos…nada mais são do que fêmeas! Virgens sublimes como a mãe de Deus! Fêmeas! Insofismavelmente eu digo! (esmurrando a própria mão, com ênfase) Digo e afirmo sim!…São fêmeas todos os anjos do céu!

Claque interrompe com gargalhadas, apupos e aplausos.

Pinheiro Machado:

_ Conceda-me o ilustre colega um aparte.

Rui Barbosa: ( com irritação)

_ Que não seja longo, Senador.

Pinheiro Machado:

_ Chamo a atenção dos presentes para o seguinte. A situação difícil que se criou, o foi pela teimosia de homens como o ilustre senador da Bahia. Poderia mesmo dizer que é a turronice do excelentíssimo senhor Rui Barbosa que nos leva a este tão grave impasse. (aplausos da claque o interrompem ) Machos, eu afirmo! São machos os anjos do céu. (exaltando-se) Posso prová-lo apenas com minhas convicções.

E os bigodes, senhoras e senhores? Os respeitáveis  cavanhaques dos arcanjos, valorosos guardiões do céu? E as espadas longuíssimas que alguns deles empunham, com a força de verdadeiros homens que são? Machos, volto a enfatizar! Que órgão reprodutor teria aquele que, cumprindo os desígnios de Deus, em nome da ordem no Paraíso, expulsou Adão e Eva para os castigos terrenos? Bagos, senhoras e senhores! Bagos como os que temos nós, ferrenhos defensores da ordem e das instituições.

(Claque aplaude e apupa freneticamente )

Rui Barbosa: (também se exaltando )

_ Respeito, senhor Senador! Exijo respeito nesta casa! As ofensas de um caudilho…de um oligarca…não me atingem. Não me rebaixarei diante de suas ignomínias!

Exaltação de ânimos se generaliza. Um dos palhaços entra no picadeiro e cochicha algo no ouvido do senador Alfredo Ellis que, tenta transmitir imediatamente aos colegas.

Alfredo Ellis:

_ Atenção senhores! Temos a nossa porta uma comissão de marinheiros que…

Burburinho na claque. Senador prossegue aos berros.

Alfredo Ellis:

_ Por favor! Silêncio, por favor! Os marinheiros querem denunciar supostos maltratos sofridos por eles na Armada.

Senadores protestam por terem sido interrompidos. Palhaço sai do picadeiro e retorna, cochichando agora no ouvido de Pinheiro Machado que fica subitamente histérico.

Pinheiro Machado:

_ É grave, senhores! Muito grave! Os marujos afirmam que tem… valha-nos Deus! toda a esquadra sob o seu poder! Questão de ordem!! Questão de Ordem!!

Claque e senadores: (Burburinho)

_Oh!

Banda toca acordes dissonantes e cessa a música. Rufos de caixa. Suspense. Clima de número de corda bamba. Grupo de marinheiros, comandados pelo Almirante Negro, com pistolas, espadas e mosquetes, invade o picadeiro. Almirante negro levanta a espada, assustando os senadores que caem por sobre o coro e a claque.

Almirante Negro: (tirando o chapéu)

_ Sei que não somos anjos, senhores! Peço desculpas por interromper vosso trabalho mas…é que temos importante mensagem para o Governo.

Coro de marujos se aproxima do centro do picadeiro, se posiciona, empunhando e acenando as armas:

Coro de marujos: ( Cantando)

Chega de morrer de trabalhar, yayá
chega de comer couve com fubá, yoyô
chibata bateu, doeu, sarou
sarou, doeu
doeu, sarou o ponta pegou em quem bateu

Coro prossegue, baixinho. Pinheiro Machado se aproxima do Almirante Negro, solícito.

Pinheiro Machado:

_ Poderiam os Srs. nos descrever o esse tal Castigo da Chibata que, tal como dizem, seria praticado em nossa armada?

Banda toca melodia de música anterior, como um fundo de anúncio comercial.

Narrador em off, descreve o castigo. Coro de marujos, distribuídos no picadeiro, reproduz numa pantomima, tudo que está sendo narrado, como se fosse um número de circo. Chibatas maiores, similares as descritas na narração, são usadas para ilustrar o número.

Narrador:

_ Pegue uma corda mediana, de linho e a atravesse em toda a extensão com agulhas de aço das mais resistentes. Deixe livre das agulhas apenas um espaço para a empunhadura. Para inchar a corda, deixe-a de molho, até que só apareçam as pontas das agulhas. O faltoso tratado à Chibata, fica assim… como uma tainha, lanhada para ser salgada. Civilize o seu marujo. Use Chi-ba-ta. Chibata! Não estraga, não quebra, não mata!

Claque faz algazarra, vaia o número, e se junta aos marinheiros, revoltada.

Parlamentares isolados, se afastam assustados, cochichando. Algazarra aumenta com tiros dos marujos dados para o alto. Parlamentares fogem para as coxias. Claque e marujos gritam:

Claque e marujos:

_ Anistia! Anistia!

Em meio a um grande tumulto, senadores voltam à cena, apavorados. Um deles traz na mão um documento. Passando de mão em mão, todas elas trêmulas, o documento chega até os marujos que o entregam ao Almirante Negro que lê em silêncio. Silêncio na cena também é total.

Rufos de caixa. Marujos se acercam do Almirante Negro . Breve momento de espera. Gritos de marujos e da claque explodem na cena:

Marujos e claque:

_ Viva a anistia! Viva a anistia!

Banda de música volta com a marchinha, agora bem mais vibrante. Claque aplaude de pé. Coro de marujos carregam o Almirante Negro nos ombros, aclamado e saem de cena comemorando. Dupla de palhaços retira os senadores e seu coro de cena com empurrões e gozações. Luz e música vão caindo. Black out.

Cena 06
PRESIGANGA
Pomba Gira das almas

Gravação do hino “Cisne Branco” tocado por banda militar. Luz somente na boca de cena. Grupo de sete marinheiros entra no palco em fila indiana, carregando estandartes enrolados. O tamanho destes estandartes é no comprimento, o da extensão dos braços levantados dos marinheiros até o limite do chão, tendo na largura, tamanho que permita que ,quando
desenrolados, cubram toda a cena atrás deles. Num dos lados os estandartes são inteiramente pretos. No outro, têm manchetes de jornal reproduzidas, uma em cada um. Os marinheiros desenrolam os estandartes em seqüência, da direita para a esquerda.

Manchetes:

27 de novembro de 1910
TERMINOU, DEFINITIVAMENTE
A SUBLEVAÇÃO DOS MARUJOS!

28 de Novembro de 1910
VASSOURADA NA ARMADA!
Governo decreta exclusão de marinheiros a bem
da disciplina na Esquadra.

10 e Dezembro de 1910
NOVA REBELIÃO NA ARMADA!
Batalhão Naval em armas!

10 de Dezembro de 1910
FORÇAS LEGAIS MASSACRAM REBELDES DO
BATALHÃO NAVAL!
Marujos da Chibata leais ao governo.

10 de Dezembro de 1910
MARUJOS DA CHIBATA DIZEM QUE A REVOLTA DOBATALHÃO NAVAL FOI UMA FARSA!

10 de Dezembro de 1910
ESTADO DE SÍTIO!
Exército e policiais prendem rebeldes e arruaceiros.

10 de Dezembro de 1910
PRESO AO DESEMBARCAR O MARINHEIRO JOÃO CÂNDIDO!
Todos os rebeldes da Chibata encarcerados!

Black out breve. Marinheiros viram os estandartes com os lados negros voltados para o público. Luz volta. Marinheiros exibem as tarjas negras por um instante e saem de cena da mesma forma como entraram, deixando á vista a cena seguinte, que foi inteiramente montada por figurantes e atores, enquanto esteve encoberta pelos estandartes das manchetes. Música cessa.

Ópera “Taunhauser” de Wagner soando na cena. Três mesas comuns, dispostas em pontos destacados do palco, com oficiais do exército sentados, atendendo a filas de prisioneiros. Duas destas filas são formadas por populares e outra, em ponto destacado da cena, só por marinheiros.

Os marujos estão com os uniformes incompletos e amarrotados. Alguns populares estão em trajes de dormir. Os presos não falam e só se ouvem os gritos dos soldados e oficiais organizando as filas.

Todo o elenco deve estar em cena. Grupos que já passaram pela triagem nas mesas, voltam às filas contornando os bastidores, demonstrando grande fluxo de prisioneiros.

Grupo heterogêneo de prisioneiros ruidosos, aparecem de repente. São prostitutas, mendigos, motorneiros de bonde, malandros e capoeiristas.

Guardas tentam por o grupo nas filas mas estes reagem com um tumulto.  Guardas batem em alguns do grupo, inclusive numa mulher que foge para a platéia. Guarda a persegue. Tumulto se agrava e oficial grita ameaças.

Oficial:

_É a Presiganga! É a Presiganga! Vocês vão embarcar…Não adianta! É tudo vagabundo aqui. A ordem é mandar vocês todos pra bem longe do mundo!

Guardas dominam a fila com a ameaça das armas. Outra mulher corre para a boca de cena.

Mulher 01:

_É governo de gente sem mãe. Se tivesse, a mãe devia era estar lá com gente, na zona. (falando com a outra que está na platéia: ) Não é Jerusa? Nem o diabo me põe nesta fila. Sente só…fede a defunto.(mostrando o braço) olha só a bordoada que me deram! Vão ter que explicar que crime político é este que eu fiz pra ser pega assim, pelo Estado de Sítio…Ou será que a gente se virar já é ameaça a segurança nacional? Eu tô dizendo. É tudo frouxo, Jerusa! É governo de merda!

Guarda desce à platéia e corre atrás da segunda mulher. Outro agarra a que falou na boca de cena. Mulher da platéia ao ser agarrada grita:

Mulher 02:

_ Larga, larga! Seu cachorro! Tu só é homem de mosquete na mão. Borra botas! Xibungo!

Guardas dominam as mulheres que são devolvidas para a fila, puxadas pelos cabelos. Prisioneiros se aquietam. Oficial da mesa dos marinheiros chama guardas.

Oficial:

_ Mais dois guardas aqui! (para dois guardas )Escoltem esta cambada pro cais. Cadê os marujos? (para outro guarda )Separa eles…Confere aí guarda. Traz as nove gracinhas até aqui!

Guarda traz os marinheiros amarrados com cordas nos pulsos. Marinheiros estão assustados. Oficial se dirige aos marujos com sarcasmo:

Oficial:

_ Vão passear de barquinho? Não sabiam? Pois vão sim, suas gracinhas Vão pro navio “Satélite”, sabem qual é? Hum…Pois se preparem. Quero ver vocês fazerem rebelião na boca de tubarão.

Luz caindo. Som de sereia de navio. Filas vão sendo encaminhadas pelos guardas para fora de cena. Alguns prisioneiros tentam reagir, xingam os guardas, se debatem. Os últimos tumultos vão se diluindo, encobertos pelo som insistente da sereia de um navio e pelo black out.

Som de sereia de navio prossegue no black out, espaçadamente. Coro de vozes afinadas canta “noite Feliz” em alemão.

“Heilligue nacht
Stile nacht
Alles schläft
Einsam wacht
Nur das traurigue
kindlein schläft
Rut gehrut
auf die wiglein schläft
Schlafe in himmlischer ruhn
schlafe in himmlischer ruhn”

Coro vai repetindo a canção, solfejando. Grande estandarte de pano, como o perfil do casco de um grande barco puxado por atores, avança lentamente em sentido longitudinal ao palco, quase na linha da boca de cena. Na superfície do pano-barco está escrito o seu nome: “Satélite”.

Atrás deste pano-barco, atores e figurantes iluminados por trás, formam silhuetas de um grupo de prisioneiros dominados por soldados armados de fuzis e espadas. Algumas sombras de soldados circulam pelo espaço como a montar guarda.

Com a canção ao fundo e os sons esparsos de tiros e gritos, as ações principais descritas pelo texto narrado a seguir, também serão reproduzidas por movimentos das silhuetas projetadas no pano-barco

Voz narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105  ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro
mulheres e cinqüenta praças do exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos
prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros.  Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.

Navio “Satélite”
Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911
Diário de bordo do
Capitão Carlos Brandão Storry

Ao final da narração e suas ações respectivas, pano-barco sai de cena lentamente, junto com a luz e a canção, ficando o palco inteiramente às escuras.

Cena 7
Katumbi

Exu das sete encruzilhadas

Dois oficiais e alguns fuzileiros navais entram em cena iluminando-a com uma lanterna de navio. Trazem consigo 18 marinheiros presos. Os marujos estão todos amarrados, descalços e sujos. São empurrados através da grande porta de uma masmorra. Toda a cena é iluminada apenas pela lanterna.

Porta da masmorra é fechada. Fuzileiros batem nela com o cabo dos fuzis. Oficial fala:

Oficial 01:

_ Malta! Corja de rebeldes de merda! Deram sorte de não terem sido embarcados para o Amazonas. São protegidos, não é? Diz que até ministro inglês defendeu vocês. ´Tá certo. A gente não vai esquecer este detalhe.

Fuzileiro 01:

_ Agora é com vocês, cambada!

Fuzileiros riem.

Oficial 2:

_Vão apodrecer agora aí dentro! Quando estiver fedendo, cheirando mal, eu mando pegar vocês, tá certo?

Fuzileiro 02:

_ Vamos ver agora, né gente? A valentia dessa negrada. Vão jogar capoeira com o capeta!

Todos soltam gargalhadas.

Oficial 01: ( Aproximando o rosto da porta )

_ Tem muito João aí? Só tem um não é mesmo? Quando não tiver mais nenhuma raça de João aí dentro, a gente solta todo mundo, tá bom? Quero esse tal de João Cândido morto, acabado! Ele não diz que é almirante? Pois agora ele vai ser almirante é no céu ou…nos quintos dos infernos!

Oficial 02: ( chamando os outros para se retirarem )

_ Agora é com vocês, seus bostas!

Fuzileiros e oficiais saem com a lanterna.

Luz de cena sobe um pouco, revelando o interior da masmorra. A porta é grossa e pesada, parece ser de ferro, com uma pequena abertura. Os marinheiros presos, largados pelo chão, parecem dormir. Estão inertes, deitados ou agachados com as cabeças entre as pernas.

Som de vozes cantando e instrumentos de percussão, começa a soar como se viesse de longe. A música é a de um bloco de carnaval mas, a harmonia das vozes é lúgubre e o andamento do ritmo é arrastado e marcial.

Luz sobe mais, junto com o volume da música que se aproxima. Figuras fantasiadas vão surgindo, os rostos são pálidos, pintados de branco, como fantasmas. São pierrôs, colombinas, melindrosas, arlequins e outras figuras típicas de carnavais antigos. Comandando o bloco, que está dividido em dois grupos, duas figuras fantasiadas de militares, com roupas semelhantes as de oficiais da marinha.

Uma delas está com o rosto coberto com uma máscara de diabinho de carnaval, a outra da mesma forma usa uma máscara de morcego. As duas figuras que comandam o bloco, carregam longas tripas de pano preenchidas com areia e bexigas e com elas golpeiam o chão com violência.

Grupo chefiado pelo diabinho, carrega latas de talco com os quais vão enevoando a cena. O grupo do diabinho carrega também um estandarte onde se lê:

ALA DO CAL VIRGEM

O segundo grupo, com seringas de água, parecendo grandes frascos de lança-perfume, vão molhando o chão e os prisioneiros. No seu estandarte se lê:

ALA DO ÁCIDO FÊNICO

Luz adicional projeta sombras das figuras nas paredes. Com o barulho, João Cândido é o único a despertar. Levanta-se apavorado.

Figuras do bloco o assediam.

Desesperado, João corre de um lado para o outro. Foliões o perseguem, rindo debochados. João tenta se proteger encostando na parede. Foliões-fantasmas vão acuando João na parede, para assustá-lo ainda mais. João é cercado pelos dois grupos e desaparece no meio deles e da névoa de talco. João dá um grito de desespero.

Black out. Figuras desaparecem.

Luz voltando. João está estático, no mesmo lugar onde foi acuado. Olha para o vazio. Luz agora ilumina toda a masmorra enevoada. Tossindo, um dos presos-Pau da Lira-acorda olha para João que parece estar em choque. Circula o olhar pela masmorra. Sacode os outros presos  que não se movem porque estão mortos.

Pau da Lira, sempre tossindo se aproxima de João que parece não percebêlo. Abraça João e fala:

Pau de Lira:

_ Só tem nós, João! Só tem nós! Olha que tristeza! Tá tudo inchado que nem sapo. Morreu todo mundo, João! Que covardia! Vai até aporta, bate nela com força, grita:

Pau da Lira:

_ Acode aqui, gente! Misericórdia!(olha para João que está apático e não ajuda a gritar) Ai, João…me ajuda a gritar! A gente acaba morrendo também. Ai meu Deus!

João Cândido: (desorientado )

_ Ajudar pra quê? Eu já morri, Pau da Lira! Eu também tô morto, homem. É verdade! ´Cê não vê? (olhando os mortos, sacudindo um ou outro ) De que adianta viver agora? Me diz! Grita, grita! Pode gritar…Diz que o João Cândido já morreu!

Luz caindo até black out. Alguns segundos de silêncio e escuridão. Barulho de molho chaves. Barulho forte da porta de ferro se abrindo no Black out. Voz na cena às escuras.

Fuzileiro:

_Tenente! Corre aqui! Virge Maria! Cruz credo! Que fedor desgraçado!

Tenente:

_ Entra logo, anda! Ai meu Deus do céu! Vê se sobrou algum desgraçado vivo! O governo agora quer esse tal do João Cândido vivo! Tá o maior escândalo na imprensa. Vai! Rápido!

Música característica da década de 60. Luz voltando lentamente mostra o fundo da cena iluminado de azul, com a silhueta do pão de açúcar e o cais num dos cantos do palco.

Luz crescendo. Atores e figurantes entram na cena com pequenas barracas de feira  desmontáveis e grandes cestos de peixe. Entre eles está um peixeiro negro, velho parecendo ter mais de setenta anos.

Peixeiros montam a barracas no palco com grande alarido e em muitos gritos de pregão. A cada barraca montada e abastecida, os pregões vão se avolumando, até que toda a cena esteja tomada de barracas e vendedores de peixe gritando.

Alarido vai se reduzindo com a entrada de policiais à paisana que circulam pela feira, olhando desconfiadamente para todos os peixeiros.

Dois homens brancos, de terno e gravata, entram pela platéia, sempre perguntando algo a alguém do público. No palco, sua perguntas começam a ser ditas em voz alta. Burburinho da feira prossegue ao fundo em baixo volume. Música cessa.

Homens de terno -Jornalistas -perguntam a um peixeiro:

Jornalista 01:

_… João Cândido. O senhor conhece?

Peixeiro: (apontando a última barraca )

_ O João daqui é aquele ali, ó! Só não sei se é Cândido. Deve ser. Eu tô nessa feira de novo.. Sabe como é..

Jornalistas não esperam peixeiro acabar. Se aproximam rapidamente até a barraca apontada, ansiosos. João usa um chapéu de palha, um avental branco e longas luvas e botas de borracha.

Jornalista 02: ( para João )

_ Bom dia! O senhor não é o João Cândido Felisberto, o Almirante Negro?

João Cândido: (Sem levantar a cabeça, desconfiado)

_Almirante eu não sou não senhor mas…João Cândido, bom…sou eu mesmo.(encarando os homens ) Os senhores são da polícia, não é mesmo?

Jornalistas sorrindo sem graça.

Jornalista 01:

_ Não, não! O que é isso, seu Cândido? Nós somos é da imprensa. Do “Correio da Manhã”, sabe? É que a gente queria entrevistar o senhor e…mostrar uma coisa ( tirando um jornal dobrado do bolso de trás da calça ) Bom…é que…

Jornalista 02: (pegando o jornal do outro e dando a João )

_ Não sei se o senhor já sabe mas…

João pega o jornal e olha. Fica triste com o que lê.

Jornalista 01:

_ Sinto muito, seu Cândido. Muito mesmo! Vão desmontar o navio, o “Minas Gerais” vai virar ferro velho, sucata. Amanhã mesmo vão deslocar ele para o estaleiro. É por isso que a gente quer fazer uma matéria com o senhor. Como é que o senhor vive? Depois de tanto tempo…O que o senhor acha?

João não responde. Policiais a paisana se aproximaram do grupo e ficaram perto, fingindo escolher peixes na barraca. João olha para os policiais, tira o avental e as luvas e se retira de cena, seguido pelos jornalistas. Policiais vão atrás

Burburinho da feira cresce de novo. Luz vai caindo devagar. Barracas vão sendo desmontadas. Burburinho vai caindo durante o desmonte da feira. Luz se apaga totalmente quando o palco estiver limpo.

Música “O lago dos Cisnes”. Luz retornando. Fundo da cena com silhueta do pão de Açúcar é cortado pelo pano-barco bem esfarrapado. Trazido pelos atores ele avança em direção a uma das coxias. Encouraçado deve ter a maior altura possível e vai penetrando na cena lentamente. Nele se percebe o desenho de âncoras e a inscrição:

ENCOURAÇADO MINAS GERAIS

Ruído longo de sereia de navio. Figurantes esticam longas e estreitas tiras de tecido no sentido longitudinal ao palco e no nível do chão, fazendo com que elas tremulem, simulando ondas. João Cândido sentado, remando um bote azul e branco, como um” barquinho de Iemanjá”, é puxado da coxia oposta a que vem o navio, indo ao seu encontro.

João segue de braços abertos para encontrar o navio e no momento do encontro, faz como quem o abraça e acaricia.

Música cresce. Neblina. Pano-navio some de um lado. João segue remando para o outro, cabisbaixo, lentamente, seguido por um canhão de luz que vai se apagando. Música vai saindo também suavemente.

Fundo da cena agora é branco e sem silhuetas. Luz retorna bem forte. Vindos de trás da platéia e em grande reboliço, um grupo de “Clóvis” com fantasias vermelhas e brancas entra em cena com estardalhaço, batendo no chão com bexigas e soprando apitos estridentes.

Já no palco, organizam-se numa pose, como se fosse para uma foto. Acima das cabeças dos demais, um dos “Clóvis” levanta uma tabuleta onde se lê:

RIO DE JANEIRO, SÃO JOÃO DE MERITI 1969
MORREU O ALMIRANTE NEGRO!

Som de sirene da polícia. “Clóvis” fogem em debandada de cena. Policiais entram, revistam o palco e as coxias e somem também.

Diabinho de carnaval, circula pelo palco batendo com a chibata no piso. Numa das coxias, traz pela mão um ator fantasiado de Morte. Morte apita para outra coxia e uma pequena bateria de escola de samba entra em cena. Na frente da escola, um abre-alas onde se lê:

O GRES EXU DE MERITI AGRADECE A IMPRENSA FALADA,
ESCRITA E TELEVISADA E PEDE PASSAGEM,
APRESENTANDO O SEU ENREDO:

O ALMIRANTE NEGRO.

Restante do elenco entra em cena dançando. Todos trazem na mão barquinhos em dobraduras de jornal. Estão vestidos com roupas do espetáculo, de forma que se tenha em cena representados, grande parte dos personagens das ruas e dos carnavais do Rio do início do século. Estão em cena colombinas, motorneiros de bonde, prostitutas, marinheiros, pierrôs,
arlequins, melindrosas e índios, além é claro do Diabinho, dos Clóvis e da Morte que já estavam em cena. Diabinho sai do palco por um instante.

Barquinho de Iemanjá, é trazido para a cena. No corpo do barco se lê:

C7
CRUZADOR JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO
MARINHA FANTÁSTICA DO BRASIL

Diabinho reaparece vestindo uma túnica e um chapéu de almirante, tudo muito cintilante de lantejoulas e perfilando-se em frente ao barquinho de Iemanjá, deposita nele o chapéu e a túnica de almirante que vestia .

Elenco e bateria de samba, como num bloco de carnaval, acompanha o barquinho para fora de cena, sempre dançando e cantando. Barquinhos de jornal são largados no chão espalhados.
Elenco continua a cantar e tocar nos bastidores. Luz vai caindo. Música cessa.

Voz verdadeira de João Cândido, gravada em fita ecoa na cena:

João Cândido: ( off )

_ Eu, João Cândido Felisberto, por seis dias parei o Brasil!

Som gravado de tempestade e trovões. Som longo de sereia de navio. Canhão de luz vai se fechando, enquadrando um só dos barquinhos de papel deixados no palco.

Silêncio. Marujo Kalunga, seguido pelo canhão de luz, volta a cena, finge enxugar uma lágrima, pega o barquinho, coloca no bolso e mostra última tabuleta do filme mudo:

NO SÉTIMO DIA, JOÃO DESCANSOU.

Canhão de luz, enquadrando o marujo kalunga com a tabuleta, vai se fechando

FIM

Praça Seca, Rio de Janeiro
© Spírito Santo, Dezembro 1994

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Notas finais:

Exu Chibata, texto escrito em 1994,  tem como proposta principal o estabelecimento de um  diálogo estético ou dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) dialogo estético este que,  de certo modo aproxima a proposta de um  ‘gênero’ teatral muito em voga na mesma ocasião: O  Circo-Teatro.

Época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais. O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos estéticos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, da Art Nouveaux, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético  no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do popularíssimo Circo-Teatro – um ‘Circo-Teatro’  idealizado, diga-se – forma  implantada no Brasil por atores circenses geniais como Polydoro,  Benjamim de Oliveira e  Eduardo de Oliveira.

São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994Rio de Janeiro 1994Ficha técnicaTexto e concepção cênica :  Spírito SantoFontes bibliográficas consultadas: Tia Ciata e a pequena África do Rio de Janeiro – Roberto MouraCarnavais de Guerra – Dulce TupiLiteratura como missão- Nicolau SevcenkoA Revolta da Chibata – Edmar Morel

Lima Barreto –  Obras completasQuatro dias de Rebelião –  Joel RufinoO negro no Brasil. Da senzala à guerra do Paraguai – Júlio José ChiavenatoBenjamim de Oliveira, o palhaço negro – dados orais da Pesquisa de João Siqueira.O negro da Chibata – Fernando Granato-Fontes audiovisuais consultadas (para concepção estética e cenográfica )Áudio de depoimento de João Cândido – Museu da Imagem e do Som- Rio de Janeiro 1968Belle Èpoque e Art-Nouveaux – no Rio de Janeiro do início do século 20 – Iconografia / Obra de Arthur Bispo do Rosário – Museu do Inconsciente / Hospital Psiquiátrico Pedro Segundo/R JRitual de saída de Exu – Terreiro Axé Shangò Bomi, R.J -Arquivo Vissungo 1996Depoimento de Aniceto Menezes – Arquivo Vissungo 1982Escolas de Samba e Carnaval Carioca dos anos 60- Iconografia / DiversosFilmografia / O Cinema Mudo de Carlitos,  ‘Comedy Capers’, United Artists, etc.-EEUU O encouraçado Potenkim – Serguei Eisenstein, URSS-Filme

Apoio pesquisa: Néia Daniel de Alcântara

GetuLulismo sem mestre e sem carinho



Bem sei: A história só se repete como farsa, mas é exatamente disto que estou falando.

É que não resisti. Adoro analogias e similaridades, mesmo supostas. O amigo de facebook Jj Leandro cantou a pedra e eu sugiro que se leia o artigo seguinte, tentando encontrar alguma relação com o projeto de Brasil que, pelo menos ao que parece, estão tentando vender para nós agora, em pleno século 21.

Posso estar até exagerando e me afobando (a Dilma nem bem assumiu), mas sei lá…achei que os projetos – este velhusco do Getúlio, que vocês lerão aí embaixo e  o ‘novo’, o aparente, o do Lula forever – são quase…’primos’.

A propósito, nem sou eu que estou falando. Muita gente está cantando esta pedra hoje, depois do discurso neo-getulista do Lula, se despedindo dos brasileiros com um enigmático e enrustido ‘até breve’

Em 2014 – quem sabe? – Vocês vão botar o retrato do velho no mesmo lugar. Vão dizer de novo que “o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar”.

Bem leiam aí. No mínimo se aprende um pouco de história do Brasil (o que, além de não ser pouca coisa, engorda e faz crescer)

Getúlio Vargas e o Departamento de Imprensa e Propaganda: Como Moldar Opiniões Diante das Páginas de uma Revista?

por Alyne Mendes Fabro Selano

“As análises elaboradas sobre o primeiro período em que Getúlio Vargas esteve à frente do Brasil, compreendido entre 1930 e 1945, ditadura denominada “Estada Novo”, reportam a importância do papel da imprensa para a manutenção do regime. O apoio que o então presidente obteve através da veiculação de jornais, revistas e programas de rádio, foi notadamente um dos alicerces de propagação do seu projeto ideológico nacionalista.

Vargas chega ao poder com a “Revolução de 30” que pode ser compreendida também, como um resultado da crise das oligarquias políticas tradicionais, particularmente a cafeeira, e pela ascensão das elites urbanas e rurais que participavam secundariamente da Republica até então – entre eles, os industriais, os militares e o setor agropecuário. Desde então presença física ou simbólica de Getúlio Vargas será significativa no cenário político brasileiro até o final do século XX.

De fato ele soube concentrar na sua imagem a confiança e a credibilidade que o país necessitava para a reorganização política e social que o momento exigia.

Os conflitos regionais, o uso da máquina eleitoral a serviço de manobras partidárias e os interesses do setor cafeeiro agravavam a crise econômica do período. As fontes de riquezas estavam cada vez mais abandonadas já que não havia estímulo ao trabalho e os empréstimos comprometiam a situação financeira do país.

Para que o projeto nacionalista tomasse forma e alcançasse os indivíduos foram estimuladas as manifestações cívicas que enfatizassem o papel da família, o trabalho, como motor para alavancar o desenvolvimento. Mais ainda, inverte-se a ótica que caracteriza o “homem”, que agora não mais era visto como “malandro”, mas sim, como “cidadão”, célula indispensável para o crescimento do país e para a concentração em torno do ideal de “Nação”.

A Constituição Federal de 1937, implantada por Vargas após o golpe do Estado Novo atribuiu um caráter especial à imprensa, limitando a liberdade individual e fornecendo as bases necessárias ao governo para que o mesmo pudesse colocar em prática seu ideário nacionalista.

Em comparação à Constituição de 1934, percebemos que já nesse tempo havia certa preocupação com a imprensa. As medidas tomadas em 1937 foram uma complementação às restrições já existentes em 1934. Com uma ressalva, a Constituição de 1934 permitia a liberdade de pensamento, pois inexistia a censura.

Nesse contexto, Vargas defendia que o papel da imprensa seria acompanhar o desenvolvimento da nação e destacar os feitos do Estado, condenando a “imprensa mercenária”, convocando-a para servir seu projeto e ao Estado.

Diante desses argumentos Vargas assegura amparo à imprensa e passa a considerar todo jornalista um “funcionário do Estado”. Sob essa égide, e com a intenção de melhor controlar todo o material veiculado, em dezembro de 1939 foi criado o D.I.P. (Decreto-Lei nº 1.915 de 27 de dezembro de 1939).

O D.I.P. tem origem em órgãos criados anteriormente pelo governo getulista. Em 1931, foi criado o Departamento Oficial de Publicidade – D.O.P – que, em 1934, se transformou em Departamento de Propaganda e Difusão Cultural – D.P.D.C -, subordinado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Em 1938 transformou-se em Departamento Nacional de Propaganda – D.N.P -. O que se percebe é que todos os órgãos ligados à propaganda possuíam roupagem similar; porém desde 1934 as preocupações estariam em torno do rádio, por ter maior facilidade de propagação.

O D.I.P. marca a transformação da estrutura da comunicação no país já que deixa de exercer uma função exclusivamente técnica para assumir caráter político. Diferenciando-se dos outros órgãos anteriormente criados, aglutina o Serviço de Inquéritos Políticos e Sociais -S.I.P.S[2] – e os serviços de propaganda dos órgãos da administração pública, como por exemplo, o Departamento Administrativo do Serviço Público – D.A.S.P.- e cria uma “Divisão de Imprensa” que apura as formas de intervenção do Estado.

O discurso produzido pelo D.I.P. deveria então traduzir para essa sociedade os desejos do Estado, legitimando-o e fortalecendo-o cada dia mais, visto que era subordinado diretamente a Vargas. Através do monopólio dos veículos de comunicação, o D.I.P. suprimia a contrapropaganda e diante disso, a sociedade incorporava valores que o Estado selecionava, como se esses valores fossem “inseridos na consciência popular”. Contava ainda com a ajuda dos Departamentos Estaduais de Imprensa e Propaganda – D.E.I.Ps – para alcançar todo o território nacional.

Além de promover a figura do estadista, o D.I.P. censurava programações e enaltecia os feitos do governo, através dos D.E.I.Ps fiscalizava nos estados o cumprimento das normas que impunha, aplicando sanções e multas; cadastrava os profissionais da área de comunicação, supervisionava seus direitos e deveres, e recolhia seus direitos autorais; promovia campanhas na área da propaganda e distribuía prêmios; fazia a edição de folhetos, jornais, livros e revistas, além de dar orientação todo o conteúdo a ser veiculado, estimulando manifestações culturais, com o intuito de organizar uma cultura nacional.

A imagem do líder, personificado em Vargas era cuidadosamente produzida. Sua vida, sua postura e seu caráter estavam sempre sendo enaltecidos, não somente ele, mas todos que compunham o governo possuíam sua imagem promovida. É importante destacar que a celebração do mito aproximava cada vez mais a população aos participantes do governo, em especial ao presidente, que estimulava a criação de datas comemorativas, para que nesses grandes encontros fosse reafirmado o sucesso de seu projeto político-ideológico.

A partir das atuações do D.I.P. desenvolviam-se dois modelos de disseminação da cultura nacional; o primeiro possuía um caráter letrado, com influências européias, para ser apreciado pelas elites, onde se enquadra a Revista Cultura Política e o último, possuía uma roupagem popular através dos sambas, marchinhas, entre outros.

Como um recurso popular, a música também se tornou um veículo importante, pois teve uma reformulação em suas temáticas, onde predominavam assuntos relacionados ao trabalho, a família e aos bons costumes e onde estariam presentes as características de uma sociedade de consumo.

O D.I.P também esforçava-se para que nenhum filme ou o material de propaganda contivesse cenas de violência, cenas que fossem contrárias à “moral e aos bons costumes” da sociedade ou que desprestigiassem o governo. Criou também os chamados “filmes educativos” e com o intuito de proteger a indústria cinematográfica nacional foi determinado que antes dos filmes de longa-metragem fosse passado um curta-metragem.

Em sua função de produtor e selecionador da cultura nacional o D.I.P também era responsável por captar recursos através da cobrança de taxas, além de funcionar como editor desses filmes para que eles somente mostrassem as belezas naturais do país, as informações de utilidade pública, alusões ao passado histórico e mais ainda, os feitos do Estado. Esse mesmo estado que, no que concerne a indústria cinematográfica, regulava a iniciativa privada também faz com que os produtores e os funcionários do cinema estivessem devidamente registrados, participando em todos os pontos dessa indústria.

O D.I.P. ofereceu ao regime ditatorial de Vargas os meios para o controle ideológico da imprensa que colaborou para o mesmo permanecer quinze anos à frente da censura no país. Formulou uma verdade oficial e soube aproximar os intelectuais para submetê-los ao projeto, oferecendo-os uma identidade jornalística e legitimando suas funções. Porém ao fazê-lo, o governo conseguia censurar e moldar as manifestações artísticas e culturais, o que de certa maneira, suprimiam esses mesmos intelectuais.

Sob esse aspecto destacamos o papel da Revista Cultura Política, diretamente ligada ao D.I.P. e possuiu uma formulação destinada a agregar à sociedade da época os valores defendidos pelo Estado, como podemos perceber na citação acima, onde o jornalista José Firmo – Diretor da União Brasileira de Imprensa – destaca as características da chamada “vida moderna” a partir do nascimento do Estado Novo. Afirma que os elementos que compõem a sociedade e que foram instituídos no período tornaram-se responsáveis pelo “esclarecimento dos indivíduos e colaboraram para o progresso do país”.

O período de circulação da revista ocorreu mensalmente de março de 1941 a outubro de 1945, passando a ser trimestral nos 3 últimos exemplares.

Possuía caráter explicativo e era divulgada no Rio de Janeiro e em São Paulo, vendida em bancas de jornais. Sua finalidade era difundir os feitos do Estado junto às elites, e colaborar com a manutenção do projeto político já posto em prática. A revista não manteve uma uniformidade com relação a distribuição das secções; possuía inicialmente uma diagramação séria, similar a um livro e mais tarde aderiu a uma roupagem mais colorida e de tamanho menor, já com o intuito de alcançar novo público-alvo.

Reunia artigos dos mais ilustres escritores da época, dentre os tais, Nelson Werneck Sodré, Graciliano Ramos, Gilberto Freyre. Os intelectuais possuíam grande influência na construção do Estado Novo como formadores de opinião, daí a necessidade de tê-los como intermediários entre o Estado e essa sociedade. Em decorrência disso, esses “colaboradores” recebiam muitas vezes maior remuneração do que se pagava a outras publicações com as quais a revista convivia como, por exemplo, Brasil Novo, Política, Planalto, Ciência Política. A revista Cultura Política foi a que reuniu a maior gama de intelectuais da época, daí sua importância para o projeto ideológico de Vargas.

O contexto social nos remete a idéia que a arte participaria ativamente da divulgação dos ideais defendidos no período, através do estímulo a sua produção e até mesmo através do desejo que esses artistas nutriam em elaborar uma arte nacionalista. Havia “(…) uma coincidência feliz entre os rumos artísticos e os da nova política do Brasil (…)”[3]. Mesmo diante disso, o governo não deixava de fiscalizar e orientar essas produções.

A “Revista dos estudos brasileiros” era basicamente dividida em: problemas políticos e sociais; o pensamento político do chefe de governo; a estrutura jurídico-política do Brasil; o trabalho e a economia nacional; a atividade governamental; textos históricos e finalmente, Brasil social, intelectual e artístico.

Falava-se sobre os feitos de Vargas; da geografia e da agricultura de determinado local; do passado brasileiro a partir de personagens históricos; da economia e das relações exteriores, fazendo referência a correntes de pensamentos de autores europeus e norte-americanos.

Em suas páginas também encontramos a justificativa para a centralização ocorrida no período, que retirou a autonomia dos estados e tornou responsabilidade do Executivo toda a administração publica; mais ainda, ao extinguir os símbolos desses estados, eliminou a individualidade e o sentimento regionalista.

A partir daí destaca-se os esforços para comprovar a existência da democracia no Brasil. “(…) Uma democracia que, nessa visão, encerrava todo o sentido social da civilização, configurando um conceito dinâmico que envolvia e acompanhava as mutações da vida (…)

Sabe-se que na prática a “democracia” não se configurou como o “governo do povo”, mas como um elemento constitutivo do projeto autoritário de Vargas.

A construção desse ideal democrático surge, portanto, na figura do presidente, o qual sintetiza a “vontade nacional”. Vargas aglutinava as características de “determinação e coragem, um exemplo de amor à democracia e a justiça social”, arbitrando os diversificados interesses da sociedade, adaptando-se as situações e buscando as soluções apropriadas. Nasce, portanto o mito popular cujas características são até hoje cultivadas.

Para que esse “Estado Nacional” permanecesse fortificado, tornava-se importante a alusão ao passado histórico, pois somente diante da compreensão de uma “identidade igualitária” os indivíduos se reconheceriam como coletividade, como Nação.

O pensamento autoritário explicitado ainda na década de 1920 por ideólogos como Oliveira Viana, Azevedo Amaral, Francisco Campos, Alberto Torres; exaltava a intervenção do Estado através da burocratização do poder. Encontrava relevância no pressuposto que a ideologia estatal centralizadora era composta por um Estado guardião e por uma sociedade benevolente e cordial.

Orientando-se como porta-voz dos feitos governamentais a revista justifica sua postura ao afirmar que se manteve coerente em suas publicações. As páginas da Revista Cultura Política tornaram-se primordiais para a análise dos elementos que fizeram parte das idealizações do governo ditatorial exercido por Vargas.

Caracterizando-se como o objeto com o qual os intelectuais da época fomentou a ideologia dominante, mais ainda, favoreceu a permanência do legado de Vargas como líder político e social.

A revista se configurou como objeto de subserviência aos interesses do governo e nesse sentido a imprensa perdeu o real sentido de “informação” e passou a integrar um projeto que além de moldar as opiniões dos cidadãos, deixou um legado de apatia com relação à construção de um pensamento autônomo e crítico sobre os assuntos em que a sociedade deveria constantemente atuar, questões que estão diretamente ligadas ao interesse comum e que regem a vida econômica, política e social do país.”

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CARTA DE APOIO À ANGOLANA FELÍCIA AURORA


Empregada limpando - óleo sobre tela - Armando Vianna- 1923

Empregada limpando - óleo sobre tela - Armando Vianna- 1923

 

“Vimos (nós, os abaixo assinados) por meio desta, manifestar nosso apoio à jovem angolana FELÍCIA AURORA pela situação de extrema exploração e violência a que vem sendo submetida em solo paraibano.

FELÍCIA AURORA é Angolana e veio ao Brasil a convite de um casal de empresários paraibanos, para trabalhar como empregada doméstica em sua residência com promessas de que seria garantido à mesma, moradia, salário e, principalmente, o direito a estudar. Segundo eles, Felícia trabalharia durante meio período e noutro poderia estudar, que era o principal objetivo da jovem.

Chegou a Paraíba no mês de abril de 2010 e, desde então vem sendo explorada pelo casal (donos de uma fábrica de sorvetes e de uma sorveteria), pois além de trabalhar em sua residência pela manhã, ainda tinha que fazer as refeições dos trabalhadores da fábrica, trabalhar na fábrica à tarde e na sorveteria à noite, e ainda era obrigada a distribuir panfletos na rua, FELÍCIA trabalhava todos os dias e durante os finais de semana.

Porém, FELÍCIA adoeceu e teve que fazer uma cirurgia e não podendo mais trabalhar, foi “descartada” pelo casal sem nenhuma indenização. Durante o período em que seu estado de saúde se agravou, FELÍCIA sofreu muita pressão, por vezes recebia ligações dos mesmos, até no período noturno, para que a mesma fosse trabalhar. Atualmente, FELÍCIA, se encontra com sérias complicações de saúde (cálculo renal, anemia e perda acentuada de peso).

Trata-se de uma situação de violação total dos direitos humanos, posto que seja absolutamente inadmissível que em pleno século XXI, a prática de trazer pessoas do continente africano, como vistas à exploração continue em voga. É importante pontuar que FELÍCIA é mulher, africana e negra, ou seja, sobre ela recaem discriminações e preconceitos históricos que a colocam numa situação de vulnerabilidade.

Necessário dizer que este ano ocorreram outras denúncias de racismo e intolerância na Paraíba em relação à população negra brasileira e africana, o que se começa a questionar a postura da sociedade paraibana frente ao racismo e mesmo das autoridades competentes no tratamento desses casos. Ou seja, casos com esses estão se tornando recorrentes em nossa sociedade.

A maneira como FELÍCIA vem sendo tratada é de total descaso e desumanidade, além da violação de tratados e convenções internacionais de Direitos Humanos reconhecidos pelo Estado Brasileiro, o que a jovem vem passando ainda se enquadra em legislações internas, como a Lei Maria da Penha, normas e direitos elencados na CLT, constituindo-se como crime, previsto no Código Penal Brasileiro – considerando que a redução da pessoa humana à condição análoga de escravo pode ser tanto o trabalho forçado como o trabalho em condições degradantes. Além dos direitos previstos no Estatuto da Igualdade Racial, dos princípios e normas reconhecidos na Constituição Federal, principalmente o princípio fundamental do respeito à dignidade da pessoa humana.

É necessário informar que, atualmente, FELÍCIA se encontra em situação irregular em solo brasileiro, posto que o casal que a aliciou para vir ao Brasil, que providenciou sua documentação (visto e passaporte), trouxe-a com visto de turista, cujo prazo já expirou, ou seja, já existe um processo de deportação da jovem para seu País de origem.

Por tudo até aqui exposto, esta CARTA APOIO é direcionada a pontuar que FELÍCIA AURORA não está sozinha e que, além da solidariedade prestada nesse momento, todas e todos que a esta subscreve não compactuam com esta violação aos direitos humanos e se colocam contra toda a violência racista e sexista cometido contra as mulheres.”

ASSINAM:

AACADE – Associação de Apoio dos Assentamentos e Comunidades Afro-descendentes/PB

ACMUN- Associação Cultural de Mulheres Negras/RS

Afya – Centro Holístico da Mulher/PB

Art-FeRa – Articulação Feminista AntiRacista/BA

Associação de Mulheres de Patos/PB

AMB – Articulação de Mulheres Brasileiras

AMNB – Articulação de Mulheres Negras Brasileiras

Articulação de Juventude Negra/PB

Bamidelê – Organização de Mulheres Negras na Paraíba

CACES – Centro de Atividades Culturais, Econômicas e Sociais

CEDHOR – Centro de Direitos Humanos D. Oscar Romero/PB

Centro de Cultura Afro Brasileiro OJÚ OSUN

CRDH – Centro de Referência de Direitos Humanos – UFPB

Cunhã – Coletivo Feminista/PB – Criola/RJ

GLEFAS – Grupo Latino-americano de Formação, Estudo e Ação Feminista Mulheres na Rua

Geledés – Instituto da Mulher Negra/SP

Grupo de Mulheres Maria Quitéria/PB

Ilê Tatá do Axé/PB

IMENA – Instituto de Mulheres Negras do Amapá/AP

INTECAB – Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-brasileiro/PB

IRÊ – Instituto de Referência Étnica/PB

MMM – Marcha Mundial de Mulheres

Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras/RS

MNO/PB – Movimento Negro Organizado da Paraíba

NENN – Núcleo de Estudantes Negras e Negros da UFPB

NIPAM – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Ação sobre Mulher e Relações de Sexo e Gênero – UFPB

Observatório Negro/PE

Pastoral dos Negros/ PB

PRO-AFRO – UERJ

Rede de Mulheres em Articulação na Paraíba

Rede de Mulheres Negras do Paraná

Rede de Mulheres de Terreiro/PB

Wendo Teimosia/PB

OMNBRO-Organização de Mulheres Negras do Bairro Roncador-Magé/RJ

Associação Nzinga Mbandi/SP

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A Iconografia da Barbárie


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BARBÁRIE TAMBÉM É CULTURA

Estamos apresentando hoje um tema que apesar de, enquanto peça de humor, não ter a menor graça, nos ajudará sem dúvida nenhuma a compreender, definitivamente, porque talvez devêssemos começar a nos livrar logo (além da hipocrisia, do cinismo e de outras manias sub-urbanas) de algumas expressões outrora tão jocosas e pitorescas  – ó jocosidade brasileira hoje tão efêmera!-  tais como, por exemplo, ‘Bárbaro!’ (quando nos referíamos a uma coisa tão boa, que chegava a ser fantástica) ou a gauchíssima “Barbaridade!” (com um sentido mais ou menos igual, só que exagerando mais ainda), ou mesmo “Sinistro!” (algo assim como ‘Incrível!’, ‘Pra lá de bom’!), ou mesmo “Terror”, ‘Horror‘, ‘Alucinante‘ e outras palavrinhas;

É que que, ditas assim, no calor de uma conversa sadia e sem compromisso, estas palavras podem agora assustar alguns desavisados, estressados, como estamos ficando nós todos hoje em dia -principalmente os cariocas – que de hilários piadistas de plantão, antes cuca-frescas profissionais, nos tornamos pilhas de nervos, literalmente perdidos como cegos em tiroteio, ouvindo a briga de foice no escuro, abaixando aqui e ali a cada zás das foices (vai que uma delas é a daquela ‘velha dama‘ que nos quer a todos, um belo dia, em sua fria companhia?).

Coisa de louco!

Vamos nessa então sem fazer muito estardalhaço, enquanto vivos estamos (o episódio de hoje aliás, passa ao largo destas palavras que não se deve mais sequer ousar falar).

Escrito no já distante 4 de Janeiro de 2004 e publicado em 2005 (nesta versão de 2010 há uma brevíssima atualização), num jornal on line chamado ‘Observatório da Imprensa‘, leiam o candente tema da escuridão jornalística, do ‘apagão‘ imagético, do ‘branco‘ da nossa antes tão corajosa e impoluta mídia, enfim sobre a ausência de imagens que a barbaridade real (até demais) destes nossos dias vai nos legar para o futuro (que, se recuarmos à 2004, nada mais é do que este inquietante presente). Com vocês então:

A Iconografia da Barbárie
Mídia e imagem popular no Brasil

Como um filme mal editado, a Mídia no Brasil começa a sofrer, em muitos aspectos as consequências da ausência de imagens que reflitam o que realmente acontece nas entranhas de nossas grandes cidades, principalmente no interior dos enormes bolsões de exclusão e miséria ainda hoje chamadas, com certo descaso semântico, de ‘comunidades carentes‘.

Que efeitos estas circunstancias produzirão num futuro mais imediato, sobre o acervo de imagens da vida contemporânea de nossas grandes cidades, principalmente Rio e São Paulo; sobre a iconografia de nossa alma urbana em suma?

Que falta estas imagens farão á compreensão de nossa realidade, aquela compreensão tão necessária á formulação de políticas que estimulem nosso desenvolvimento?

Para início de conversa, pode-se supor talvez que, entre outras razões, a circunstância desta nossa carência de imagens reais do cotidiano, foi recentemente instalada pela violenta e absoluta rejeição que os traficantes de drogas – e as diversas outras modalidades de bandidos que hoje infestam o nosso Brasil — passaram a sentir pela imprensa em geral, principalmente por aqueles setores voltados para o registro de imagens, em coberturas jornalísticas que, por força do enorme aguçamento da violência urbana, passaram rapidamente a assumir a condição de cobertura de guerra.

Havia já na moderna iconografia jornalística do Brasil (na filmografia inclusive), por conta dos renitentes (embora sutis) mecanismos de afirmação do nosso elitismo, um certo manto de invisibilidade que encobria, por exemplo, a trágica vida nas favelas, invisibilidade esta encoberta pela criação de uma imagem, idílica, romântica, do favelado cordial, pitoresco e submisso, dominado por meia dúzia de contraventores fuleiros e desorganizados, imagem que talvez nada mais fosse do que uma espécie de projeção de como os intelectuais de nossa iníqua classe média, gostariam que os favelados efetivamente fossem:

Seres miseráveis porém, conformados, bem humorados, e inofensivos.

Foi justamente quando este manto de hipocrisia jornalística parecia se dissipar, que a síndrome Tim Lopes se abateu, de forma definitiva sobre esta arriscada forma de se fazer imprensa no Brasil.

Produzindo sub-repticiamente o registro, flagrando os delitos, o modus operandi da bandidagem, num contexto que já poderia ser descrito, sem nenhum exagero, como um típico estado de guerra, com dois lados empenhados em verdadeiras batalhas de morte; auxiliando (ou sendo utilizada) na produção de certo tipo de retratos do submundo que, por sua contundência, acabavam por se transformar em provas e atos de denúncia direta contra indivíduos de alta periculosidade, nossa imprensa talvez só tenha se dado conta dos enormes riscos – jornalísticos e humanos- contidos nesta sua temerária estratégia, quando Tim Lopes foi barbaramente trucidado por Elias Maluco.

O fato é que, no afã de cumprir – talvez açodadamente – sua função de caçadora de notícias, a imprensa de nossas grandes cidades, passou a divulgar, de maneira muito sistemática, certos segredos estratégicos cruciais para a estabilidade do crime organizado esquecendo-se de que estava envolvida na cobertura de uma guerra e que, neste caso, não poderia autorizar jamais, que seus correspondentes penetrassem, sem apoio policial ou militar, nas linhas inimigas.

Na Teletela de Orwell

Esta ojeriza pela utilização judicial ou comercial de imagens de seu cotidiano, foi crescendo lentamente no meio dos traficantes, ao mesmo tempo em que ia se formando no Brasil, a exemplo do que já ocorria no resto deste nosso globalizado mundo, uma espécie de sociedade “Big Brother”, com a privacidade de cada cidadão (sempre em nome da segurança de todos), sendo controlada por milhares de câmeras e microfones ocultos, gerando em todas as pessoas de bem, uma sensação de contraditória insegurança.

Perdendo o controle da situação e abandonado a imparcialidade (condição difícil, mas essencial à imprensa também em situações de guerra) os jornalistas (fotógrafos, principalmente) passaram a ser vistos como ‘chisnoves‘, espiões em potencial, se transformando, na ótica dos traficantes, em bolas da vez, vítimas preferenciais de mortes exemplares, assassinatos emblemáticos, quase culturais, como efetivamente aconteceu com o hoje mítico Tim Lopes.

É por esta, entre outras razões, que hoje existem apenas lendas, relatos orais do que acontece realmente no interior de um complexo de favelas.

Circula também, a bem da verdade, certo tipo de imagem bem próxima do real (talvez um tanto glamurizada demais) que anda sendo expressa por aí em bons filmes e telefilmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens.

Desde que o controle violento dos traficantes sobre os espaços mais carentes da cidade se agudizou no entanto, rigorosamente nenhuma imagem real – principalmente noturna – pôde ser gerada ou trazida para fora do contexto onde foi produzida (neste ponto um novo preâmbulo com uma pergunta que não quer calar: Haverá uma iconografia autorizada pelas ‘milícias’?).

Outro aspecto importante é que, ao mesmo tempo em que a enorme popularização de máquinas, meios e equipamentos para o registro de imagens virava um fenômeno de consumo no Brasil, o crescente interesse das, agora escaldadas, empresas jornalísticas (principalmente emissoras de TV) pela aquisição das impactantes imagens desta guerra, passou a ser orientado no sentido de racionalizar, ou mesmo anular, todos custos operacionais e humanos diretos, comprando imagens geralmente produzidas por outro interessante personagem de nossas selvagens cidades: O bravo e indefectível “cinegrafista amador”.

É, com efeito, esta conjuntura que acaba por estimular, se não o surgimento, pelo menos a afirmação deste tipo de ‘profissional’ de imprensa, safo, ágil, clandestino, biscateiro especializado na documentação de solenidades comunitárias, batizados, festas de casamento, bailes Funk, etc. indivíduos que, transformados numa espécie de paparazzi de mazelas e tragédias urbanas, logo se transformaram em incansáveis caçadores de qualquer imagem inusitada que tenha interesse jornalístico especial (e o conseqüente valor comercial) – exceto é claro aquelas cuja obtenção signifique o risco da vida ou a certeza da morte.

Ninguém sabe…ninguém viu.

Está se criando por conta disso tudo, uma extensa área de sombra na iconografia de nossas grandes cidades, um apagão provocado pela falta de registros gráficos (fotografia, cinema, TV) retratando o dia á dia, o bem e o mau viver dessa gente, ou até mesmo o que acontece nos espaços públicos onde vivem ou circulam estes milhões de pessoas que o Brasil rico e remediado, hoje já meio apavorado, teima em esconder.

Infelizmente este vazio, muito provavelmente, só poderá ser preenchido um dia, pela pesquisa ou coleta de imagens privadas, registradas por aqueles mesmos cinegrafistas amadores em festas comunitárias, casamentos, álbuns de família, etc. imagens aleatórias, cifradas, censuradas por severíssimas leis ‘do silêncio’, geradas que serão pelas mais vagas motivações e fortuitos interesses , sobre as quais não podemos ainda sequer prever a estética e os conteúdos que conterão porque, serão reflexo da visão estreita, da visão possível, obtida através de um ângulo bem fechado, de dentro destas comunidades, que se tornaram trágicas cidadelas da invisibilidade.

Parece óbvio, pelo menos nos aspectos abordados até aqui, que esta situação só poderá provocar a curto prazo, a confrontação na mídia brasileira de duas iconografias contraditórias mas não excludentes:

Uma hegemônica, que voltará a ser imaginada ou idealizada pelos habituais profissionais criadores de imagens (fotógrafos e cineastas principalmente), segundo sua exclusiva visão estética e ideológica, alimentada por seu interesse comercial evidente e aquela outra, produzida pelos próprios habitantes das tais comunidades carentes (inclusive os traficantes e integrantes de ‘milícias’), anárquica, espécie de iconografia autofágica, movida por códigos de linguagem e conteúdos absolutamente imprevisíveis mas de valor sociológico muito maior.

Não é difícil se concluir portanto que na falta de outras, estas imagens quase endoscópicas ou tomográficas de nossa sociedade, serão essenciais à compreensão de nossas doenças sociais mais graves, pistas vagas porém, quiçá únicas, para almejarmos talvez alguma cura no futuro.

Extrair e compreender as imagens retidas no interior destas nossas cidadelas de invisibilidade será uma tarefa jornalística urgente daqui para a frente. Sem elas não haverá antropologia possível no futuro. Quem sobreviver verá. O melhor cego é aquele que quer ver.

Spírito Santo

Rio, 4 de Janeiro de 2004
(publicado em Observatório da Imprensa em 2005)