‘Assaltos em Luanda’- Entrevista com Henrique Narciso ‘Dito’


Curtam aí uma ‘palinha’ do filme ‘Assaltos em Luanda’ longa metragem de estréia de Henrique Narciso ‘Dito’

Entrevista com Henrique Narciso ‘Dito’ para o jornal ‘O País’ de Luanda, Angola:

(edição de Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010)

Explique-nos como começou esta aventura no cinema

Embora já trabalhe para a televisão pública de Angola (TPA 1) há 10 anos, comecei a dar os primeiros passos em termos de produção e realização cinematográfica há 5 anos com Assaltos em Luanda. Em 2005 participei e venci na primeira edição do Filme do Minuto, o primeiro festival angolano do cinema realizado pela Alliance Française de Angola, no qual também participaram grandes produtoras como a Óscar Gil Produções. Após a entrega do prémio a apresentadora conversou comigo E disse-me o seguinte: “Dito, se conseguiste contar uma história em apenas um minuto podes muito bem fazer uma curta metragem bem maior, ou mesmo uma longa metragem…” Isso deu-me bastante confiança.

Qual era o prémio e qual foi a sua utilidade?

O prémio era um curso de realização na cidade francesa de Mahol, onde confesso que aprendi muito. Também fazia parte do prémio um estímulo monetário de 15 mil dólares. Quando cheguei a França mostrei à minha professora o meu projecto do filme Assaltos em Luanda. Na altura já tinha concluído 70% das filmagens. Ela ao ver disse-me que tinha futuro no mundo da realização pois já conhecia os elementos essenciais da linguagem cinematográfica, mas faltavam-me algumas noções que ela me transmitiu.

Quando regressou aplicou todos os conhecimentos adquiridos em França na conclusão do filme?

Não. Porque alguns factores básicos dependiam da qualidade do material que estava a utilizar e, por outro lado, se tivesse de os aplicar a todos teria de refazer um filme que já estava quase pronto. Tudo tinha sido feito sem apoios. Assaltos em Luanda foi feito a base de muito sacrifício.

A situação alterou-se?

Hoje já tenho material de ponta. Acabo de chegar do Dubai onde fui comprar material cinematográfico. Câmeras de alta definição, stake cam e, todo o material necessário para começar a rodar a primeira mini-série infantil angolana.

Vai dedicar-se à produção de séries e novelas?

Sim. Eu trabalho no departamento de ficção da TPA há 10 anos. Durante este tempo tive a oportunidade de trabalhar em muitas novelas da nossa televisão. Aprendi muito com realizadores como o falecido Pedro Ramires, o cubano Reinaldo Cruz em Pecado Original, Tomás Ferreira, o “Walter” das telehistórias da TPA. Já trabalhei também com o Reinaldo Bury, realizador da novela Minha Terra Minha Mãe. Enfim, tenho mais experiência neste ramo do que no cinematográfico. Mas não penso deixar de fazer cinema.

Que avaliação faz da ficção angolana?

É necessário que se aposte na formação da juventude. Na minha opinião, a nossa ficção é dominada por realizadores estrangeiros e é por isso que não reflectem o espírito e a realidade do angolano. Não quero com isso dizer que temos de deixar de contratar operadores e realizadores brasileiros ou americanos, pois estes têm muito para nos ensinar. Mas devemos garantir que eles transmitem o conhecimento aos nossos profissionais. Muitas vezes, em vez disso, fazem o que tem que fazer e vão-se embora levando consigo o conhecimento.

É necessário formar os nossos quadros porque há aqui muita gente com potencial, a quem caso lhes seja dada uma oportunidade, podem ser tão bons quanto aos brasileiros ou americanos. Só é preciso que se aposte e se acredite na prata da casa. Resumidamente, penso que a nossa ficção tecnicamente e materialmente está boa, mas é muito enfadonha. O angolano gosta de mais dinâmica. Temos que “dar vida” às nossas séries e novelas. Os realizadores têm de ser mais criativos e, ter em conta as marcações, o que é muito importante. Marcação é sobretudo dinâmica, diferente da estática enfadonha que se observa nas nossas novelas e no nosso cinema.

Fale um pouco dos seus novos projectos?

Tenho a agenda preenchida até 2011. Mas neste momento estou a trabalhar no filme

A Guerra do Kuduro. Conta a história do kuduro, como se espalhou por toda Angola e pelo mundo, os espaços que percorreu para conquistar o seu espaço. Comecei a rodar as filmagens em Dubai. Quando regressei, tive de fazer algumas alterações ao guião. Já estão seleccionados todos os actores mas, estou a estudar a possibilidade de incluir as verdadeiras “estrelas” do kuduro no filme, porque terá mais impacto se elas participarem. Queria que eles fossem interpretados por actores, mas estou ainda a estudar qual será a participação dos verdadeiros kuduristas no filme.

Quem poderemos ver neste filme?

Estou a pensar em convidar os Lamba, o Puto Prata, o Lilás, os Buraka Som Sistema. Mas ainda não os contactei. Como disse estou a estudar os moldes das participações de todos estes artistas no meu novo projecto.

Agenda até 2011…?

Este ano sai A Guerra do Kuduro. A seguir vou rodar um drama, cujo guião já está pronto há muito tempo, intitulado O Homem Branco. Estava para ser gravado a seguir a Assaltos em Luanda 1, só que as pessoas diziam que não queriam ver drama. Outros iam ainda mais longe dizendo que não gostaram do fim e que o filme devia ter uma continuação. Acabei por aceitar essas opiniões. Por isso digo sempre que Assaltos em Luanda 2 não estava na agenda. Foi a pedido do público que criei o filme. Há até quem queira uma terceira parte. Mas agora vou variar e já tenho apoio da JMPLA que me concedeu 160 mil dólares para o novo projecto.

Será feito com outros meios?

Olhe que eu vou apostar neste filme para ganhar um Óscar. Estou a trabalhar todos os aspectos técnicos. É o meu filme com o maior orçamento Estou a preparar-me para vencer o meu primeiro festival internacional e, este filme vai para Cannes (risos).

Quais são os factores que lhe transmitem tanta confiança?

Primeiro porque tenho apoio suficiente para fazer o filme e, será o primeiro em que terei uma equipe, onde não terei de exercer todos os cargos directivos. Vamos fazer casting em Portugal no final do ano para o actor principal. Vou trabalhar com um dos melhores directores de fotografia que conheço, o Quintino, um brasileiro que conheci na TPA. Outro factor que me transmite confiança é a experiência e maturidade que possuo hoje. Já não sou o realizador inexperiente dos primeiros tempos.

Em que festivais participou?

Assaltos em Luanda girou o mundo. Foi ao Festival Ibero-Americano do Cinema em Lisboa, foi ao Brasil, esteve no Festival Pan-Africano do cinema em Uagadogoou, no Burkina Faso e, no Primeiro Festival Internacional do Cinema da Zâmbia. Se houvesse classificação, os nossos filmes estariam entre os primeiros classificados.

Que feedback recebeu por parte do público e dos realizadores internacionais?

O feedback foi muito positivo. Houve festivais onde me perguntaram “de onde vens” e “qual é o teu filme”. Quando eu dizia o nome, eles ficavam radiantes e usavam as expressões do filme. Sinal que tinham visto e gostado. Até os zambianos, que viram o filme sem tradução, usavam expressões como mbaya e galheta, muzubia e wazebele. Os elogios que recebi fazem de mim um homem confiante.

Perfil

  • Nome: Henriques Deves Narciso “Dito”

  • Idade: 35 anos

  • Profissão: Profissional da televisão pública de Angola desde 1994, onde comecei como operador de câmara. Actualmente sou realizador do programa Conversas no Quintal. Também trabalho como director de montagem de programas como Vozes do Semba.

  • Estado civil: Casado no registo civil e religioso com a principal culpada pelo meu sucesso

  • Filhos: Três

  • Comida: Fumbua com funge

  • Bebida: Embora não dispense uma cerveja bem fresca, prefiro o whisky velho. Quando era mais pobre só bebia whisky novo. Agora que já tenho um bocado só bebo whisky velho (risos)

  • Melhores realizadores de cinema: Para mim são o Steven Spielberg e o Mel Gibson. Pelo seu grande poder de criação e a capacidade de contar a história em vídeo

  • Filmes realizados: Situações Inesperadas, Assaltos em Luanda 1, Alta Temperatura e Assaltos em Luanda 2

  • Projectos futuros: A Guerra do Kuduro (sai este ano), Jesus Cristo Negro e O Homem Branco. De agora em diante, os meus filmes já não vão demorar muito tempo porque tenho mais apoios financeiros.

Cine Diáspora:Africa is here! (Post #02)


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Jorge António, cineasta portugues com forte atuação em Angola

Jorge António, cineasta portugues com forte atuação em Angola

Angola filmes is coming soon!

Alto lá! No Brasil também se faz ‘Cinema Negro’

Enquanto isto no Brasil, ainda agora mesmo, em plena saída vitoriosa de nossa ‘retomada’ cinematográfica, os negros – este negro-povo de que tenho falado, bem entendido – estão lá na tela sim, mas ainda muito raramente atrás das câmeras, mandando, optando por uma estética, por histórias e abordagens menos autorizadas, menos ‘chapa branca’.

Vocês assistiram àqueles filmes do Cacá Diegues? Viram ‘Ganga Zumba’, viram ‘Quilombo’? Pois então, me digam: O que era aquilo? Era um cinema ‘branco’ olhando o negro de longe, enviezadamente, com filtros de sinhozinho bonzinho e sabe-tudo contando a história negra ideal. Pois é. Parece que há um problema político, ideológico e conceitual aí, um problema cultural redundando num problema artístico.

O que temos aqui, convenhamos, talvez seja um Cinema Negro ainda meio ‘escravo’, ainda confuso sucedâneo da farsa da democracia racial, além de ser muito auto complacente para com suas  deficiências técnicas, ainda bastante evidentes.

Cacá Diegues (o nosso ‘Jorge António’ sim, mas quanta diferença!) com a produção do ‘Cinco vezes Favela 02’ se redimiu das ‘bombas’ (‘filmes ruins’ no meu tempo de coroa cinéfilo) do tanto de pieguice paternalista que introjetou nos seus filmes ‘negros’ anteriores.

Cacá – que tem lá suas razões e qualidades – veio de uma casta da elite artística do Brasil dos anos 60/70, tão bem intencionada quanto equivocada em seu vanguardismo esteticamente arrogante.

No entanto, bato palmas para ele pelo ato de desprendimento que foi reconhecer que é necessário que existam filmes feitos pelos ‘Outros’ falando de si mesmos. Ocorre que, como o de hoje, estes ‘cacá-diegues’ da vida sempre existiram e continuam mandando no cinema nacional.

Se bem me lembro, inclusive, a presença do negro no ‘Cinema Novo’ deles sempre foi uma alegoria meio fantástica, idealizada formada por personagens negros estereotipados, tristes e ‘pai-joões’, quando não passavam de mártires, os mais sofridos e devotados cristãos deste mundo, morrendo chorosos no tronco para nos salvar.

Bem, isto já deu, certo? Mas falta fazermos também a nossa parte.

Faltam muitos rolos de filmes, léguas ainda para a gente chegar lá. Falta avançar na arregimentação de aliados mais profissionais, parceiros mais financeiros e técnicos  do que palpiteiros ideológicos; catando todas as cavacas da inexperiência, mas avançando rumo à independência criativa, mãe da originalidade e da inovação.

(Pois não foi, exatamente assim que aquela garotada branca do Cinema Novo dos anos 60 – Cacá Diegues e Barretão entre eles – fez? E não é, do mesmo modo, isto que a garotada negra de Angola está fazendo? Então?)

Sim: Em Angola também se faz cinema

E este é o grande barato da nossa descoberta

É muito significativo – estimulante mesmo – a gente perceber nos filmes do portuga  Jorge António que na música popular urbana de Angola (principalmente a música ‘de intervenção’ como dizem, o equivalente à nossa ‘canção de protesto’) há sobretudo artistas populares, a maioria oriunda de extratos mais pobres da população.

Enquanto que aqui no Brasil, durante a nossa luta similar (contra a Ditadura) o que houve foi uma espécie de elite social (‘brancos’, como se sabe) ocupando todos os postos chave de nossa cultura, tendo inclusive – e até hoje – (um pouco como predadores sociais, sejamos francos) obtido vantagens de toda ordem – inclusive financeiras com esta atitude, supostamente ‘libertária’.

José Carlos Schwartz, a voz do povo, excelente documentário também de Jorge António, sobre a trajetória heróica do músico José Carlos Hans Schwartz, guerrilheiro e pai da moderna música guineense é um exemplo candente desta diferença ideológica fundamental entre o nosso Cinema Popular domado e o Cinema inquieto e  independente destas jovens nações africanas.

Este sentimento de honesta e desinteressada insurgência, aliás, expresso de forma pungente nestes três filmes africanos é como que uma chama mantida sempre acesa a animar este invejável cinema de gente tão parecida conosco, um cinema interessado em ser motor de arte, prazer e consciência, num pan-africanismo muito salutar – para nós verdadeiramente inspirador – porque nos remete à uma diáspora africana mais nossa ‘parente’, com a qual nós brasileiros, queiramos ou não temos muito mais intimidade comovida do que curiosa estranheza.

Reconhecer e admitir esta inegável familiaridade com a África lusitana – com Angola, principalmente – assumir este parentesco estético e emocional irrevogável (quase que um ele perdido de nossa  ‘brasilidade’ ) claramente expresso nos filmes aqui citados será uma grande força para a nossa cultura no futuro.

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Acabei de assistir anteontem, mais emocionado ainda, ao terceiro e último destes filmes. Este denominado ‘Batuque, a alma de um povo’ (de  Julio Sivão Tavares) versa curiosamente sobre um gênero de música e dança muito nosso conhecido (o ‘Batuque’ do título, que lá em Cabo Verde se chama ‘Batuko’). O melhor de tudo foi descobrir que o filme confirma quase tudo que concluí sobre o Batuque (um dos ritmos matrizes de nosso Samba) em pesquisas anteriores que fiz aqui no Brasil, sem falar nas outras incríveis descobertas.

O ‘Batuko‘ Caboverdiano é uma manifestação puramente feminina na qual um grupo faz uma eletrizante levada rítmica batucada em almofadas de couro (?) encaixadas nas coxas das mulheres, enquanto que solistas reboladoras se revezam numa coreografia inteiramente concentrada nas bundas (e a inquietante semelhança com as mulheres dançarinas do nosso censurado funk ‘Proibidão’ daqui – sem a lascívia – é total).

Numa outra versão, chamada de ‘Finason’, de andamento mais lento que o das moças – o Batuko já se mostra em quase tudo semelhante ao Jongo tradicional do Brasil (o autêntico, não este tombado para Ministério-da-Cultura-ver) em seu aspecto de disputa de versos improvisados.

A descoberta mais constrangedora, contudo talvez tenha sido a de constatar que os lugares das locações, bairros pobres ou mais do que pobres dos três países africanos mostrados nos filmes (Luanda em Angola, Ilha de Santiago em Cabo Verde e Bissau na Guiné Bissau) são quase que bairros de classe média perto de nossos bairros-favelas.

A sensação que se tem olhando a ordem e a limpeza, a pobreza digna, altiva mesmo dos africanos destes locais remotos nos dá a nítida impressão de que nossos pobres pretos daqui habitam o mais horroroso e fedorento caos, cidadelas imersas na mais medieval das barbáries.

Me impressionei muito também com o nível cultural e educacional do povo destes lugares, principalmente dos angolanos, onde todos os músicos entrevistados são mais articulados às vezes, do que muitos antropólogos (brancos ou pretos) que temos por aqui.

Ação! Por um Cinema da África mais nossa vizinha

Diáspora Movie is coming soon!

Fora isto, a coisa vai avançando no Brasil sim. Já temos até negros estudando cinema, atores negros fabulosos, aqui e ali pontificando em filmes de todos os tipos, mas vamos combinar: É pouco ainda. Falta o controle da produção, no que diz respeito a isto que eles chamam de ‘nicho de mercado’.

Faltam os ‘filmes de negão’, se bem me entendem, mais e mais ‘filmes de negão’ baseados em nossa cultura real e não – e isto não posso me omitir em falar – nesta negritude pomposa, pseudo-acadêmica que insistimos em exibir por aí, como membros de uma nobreza africana falida, aristocrática, que nem na África existe mais.

(E isto ainda assim tomando muito cuidado para não sermos cooptados por interesses governistas e eleitorais de ocasião)

E vejam bem: Não se trata apenas de ‘pintar’ de preto, encher os filmes de negros. Pinçar uma cota de negrinhos artistas aqui e ali como ‘ação afirmativa‘, num cotismo banal e fora de hora, controlado e desajeitado que seria, além de inconsequente, constrangedor.

Este não é absolutamente o lance proposto aqui. Trata-se de buscar o essencial de nossa cultura popular (com ênfase nesta nossa brasileiríssima África omitida), trata-se de quebrar o calcanhar de Aquiles deste elitismo artístico e cultural tão brasileiro que nos paralisa e invadir, ocupar o território ainda baldio de coisas nossas, que aí sim, seriam com propriedade contadas por nós mesmos (além de continuarem a ser contadas pelos ‘outros‘ também, claro).

Invadir sim, mas com capacitação e méritos profissionais inegáveis, indiscutíveis, com excelência e rigor cultural e artístico, sem esta prática ‘caída’ de achar que em terra de cego quem tem um olho pode ser rei. Não basta ser negro. Tem que ser do ramo, que ser realmente o melhor naquilo que diz saber fazer.

Falo de produzir filmes com o jeitão de ser e viver de nossa população ‘de cor’ e colocar na tela. Para um país do porte e do volume de população negra que somos, para o Brasil tão negro-mulato inzoneiro que vendemos para o exterior, o que temos feito em termos de projetar a nossa imagem ‘real’ é ridículo, irrisório.

Mesmo nos tempos áureos de nossa cinematografia mais industrializada – na fabulosa era da Atlântida, da Vera Cruz – a presença proeminente do negro (do povo, por suposto), participando e influindo esteticamente – às vezes até na produção – era bem maior do que hoje.

Há sim entre nós, aquele que de capitulação para com um mercado que, pra todos os efeitos continua nas mesmas mãos, sob o controle dos mesmos donos de antes – os ‘Barretões’ da vida – aboletados nas bancas de verbas, manejando liames de editais malandros, um mercado de cartas marcadas que, na prática, não dá mostras mesmo de estar interessado em deixar, de verdade, que todos falem por si mesmos, além da velha casta artística de sempre.

Corte final sem The End

Antes de vir ao Rio, com sua bagagem de filmes afro-lusitanos, Aristóteles Kandimba fez contato, ainda da Holanda, com o Centro Afro Carioca de Cinema, do mesmo modo que eu surpreso com a pequena presença de filmes da África de expressão portuguesa por aqui. Esta desencontro entre cinemas irmãos ainda desgarrados, no entanto breve breve se resolverá.

Pelo menos para muitos de nós, Angola já é e sempre terá que ser aqui.

Aguarde portanto um Diáspora Movie Festival total e irrestrito para breve, nas telas de algum cinema perto de você, num canto qualquer de um de nossos países – no daqui ou no de lá.

Angola Brazilian films is coming soon!

Spírito Santo

Dezembro 2010

Cine Diáspora – Em cartaz um cinema africano que nos diz respeito


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O cineasta angolano Henrique Narciso “Dito”

O jovem cineasta angolano Henrique Narciso ‘Dito’ autor dos hits ‘Assaltos em Luanda’ e  ‘A Guerra do Kuduro‘.

Angola é aqui!

Ando impressionado com a qualidade dos filmes africanos que o amigo Aristóteles Kandimba (o ‘Totti Angola’ do Facebook) me trouxe de Amsterdam, Holanda. Emocionante presente de Natal.

Refletindo assim na hora da emoção, fiquei me perguntando o que se há de fazer para incrementar a exibição destes filmes por aqui, inserindo-os na cena de Cinema Negro brasileiro atual que tem mostrado hoje em dia até certa vitalidade em um ou outro concorrido festival.

Afinal em se tratando de cultura popular, de música, de cinema e de tudo o mais… Angola É aqui!

Fiquei achando … sei lá…que talvez haja uma boa razão aí para se debater – nós os mais interessados – se isto pode ter relação com certas dificuldades que fazem de nós – com as magras exceções sabidas – ainda hoje, com toda a suposta robustez econômica do país refletida num mercado cinematográfico de milhões e milhões de expectadores ávidos, ainda atores e criadores subalternos de um mercado – como tudo, aliás, no Brasil – dominado inteiramente por agentes (produtores, diretores, divulgadores, pareceristas, captadores) integrantes de uma elite… com licença da má palavra… totalmente ‘branca’.

E podem estar certos de que a abordagem que proponho aqui não tem nada de ingênua ou recorrente.

Também acho – na verdade tenho certeza – que, considerando todas as facilidades que se tem hoje para fazer cinema em qualquer parte do mundo, a agilidade e a plasticidade impressionante das novas mídias digitais, o que falta mesmo a isto que estou chamando de ‘Cinema Negro’ no Brasil – entre um ou outro ‘cala-te boca’– talvez seja foco e ideologia. Ou seja, a culpa é , em grande medida, nossa mesmo.

(Pronto. Falei.)

Aliás, concordo também, por outro lado e seguindo o mesmo raciocínio, que esta conversa de ‘Cinema Negro’ também é bem discutível. Cinema em ‘Preto&Branco’ todo mundo sabe o que é mas…’Cinema Negro’ o que viria ser?

Mas explico: Não é racismo não – pelo menos da minha parte.

Falo em linguagem figurada, gente. Falo ‘negro’ assim como arquétipo, símbolo, ícone de nossa miséria material e emocional, esta que gostaríamos que fosse expressa assim, na veia, sem papas na língua.

Fossem vocês velhos cascudos e escolados como eu e também se recordariam, empolgados, de que já tivemos sim um Cinema Popular no sentido estrito da palavra. Um cinema um tanto tosco é verdade, meio italianado, metido à neo-realista, mas pujante e libertário, no qual não se discriminava pessoas pela cor tanto quanto se discrimina agora. Meninos, eu vi!

Que culpa tenho eu, mero comentarista do que vejo por aí, se em pleno século 21 ainda cabe ao negro representar o indesejado papel de eterno povo pobre oficial do Brasil?

E é deste povo, melhor dizendo, das histórias dramas e mazelas dele, contadas realmente por ele mesmo, que estou falando. Um Cinema mais ‘do Brasil’ e menos novela de celebridades da TV Globo, filmada em película. Menos fundamentalismo espírita – tudo com todo respeito e no bom sentido é claro – menos filmes caça níqueis como ‘Nosso Lar’ e mais a bagunça irreverente de ‘Casa da Mãe Joana’.

(E de novo a imagem orgulhosa do bom Jeferson De, com os itens mais radicais do Dogma tornados agora ingredientes de uma Feijoada mais light) empunhando seu troféu de Gramado, a foto da galerinha do ‘Cinco vezes 02’ não menos valorosa, desfilando pelo tapetão de Cannes, de novo são flagrantes enganosos que toldando os olhos dos mais desavisados, fazem com que um ou outro entre vocês me julgue – até  com certa razão, admito – um reclamante de barriga cheia.).

Mas não me estranhem tanto assim não, gente. Por favor. Tenho lá as minhas razões.

Luzes! Cruzes! Em Angola também se faz cinema?

Se você ainda não sabe disto está na hora de rever os seus conceitos.

Antes de agora – e exatamente como vocês – só sabia coisas muito esparsas sobre cinema angolano – ou mesmo africano – Comecei a me inteirar sobre o assunto há apenas dois anos atrás, para ser exato. Conheci um tico mínimo desta cinematografia em 2008, no primeiro festival do Centro Afro-Carioca de Cinema do Zózimo Bulbull e da Biza Viana, onde José Gamboa com seu filme ‘Herói’ representava Angola.

Fiquei desde aquela época com a impressão de que a produção cinematográfica angolana era mesmo incipiente, amadora como a nossa aqui (bem entendido na área deste ‘Cinema Negro’ a que estou me referindo) subalterna das estruturas de criação, direção e etc. controladas pelas mãos dos ‘brancos’ (portugueses no caso) de sempre.

Nem cogitei me informar sobre as cinematografias dos outros países africanos da área de influencia da Europa portuguesa.

A própria constituição da agenda de filmes  convidados para o festival do Centro Afro-Carioca de Cinema, me induzia a isto, pois, tanto naquele primeiro ano como nas versões seguintes – com exceção talvez de um ou outro filme caribenho – muito mais ênfase parecia ser dada ao cinema da África mais ao Norte.

A ênfase era para Burkina Faso, Ghana, Costa do Marfim, Nigéria, Senegal, com filmes em sua maioria oriundos das ex-colônias francesas e inglesas, um cinema negro sim, mas um tanto estrangeiro demais para mim, um negro do Brasil filho de uma capichaba bem da roça e de um mineiro de Diamantina, de sete costados.

Parecia perfeitamente normal isto acontecer, mas era também uma estranha e familiar dicotomia, muito parecida com a que ocorre no estudo da cultura negra do Brasil em geral, onde tudo de africano que nos é mais familiar, a cultura da África de expressão portuguesa costuma ser – e por razões ainda mal explicadas – subestimado, posto de lado como uma irmã feiosa que a gente não quer apresentar para os amigos.

Seguramente – pensei – os países africanos de ‘expressão portuguesa’, apesar destas óbvias e indiscutíveis similaridades culturais com o Brasil, não tinham ainda, infelizmente uma cinematografia á altura do porte do evento.

Mas não, não era bem isto, esta suposição aparentemente tão evidente não era assim tão fácil de se explicar. E olhem que eu, já familiarizado com o problema em outras áreas (com a música e com a literatura africana ocorre estas mesmas estranhas restrições) só me dei conta de que isto ocorre também com cinema, agora mesmo, por estes dias vendo os filmes que Totti me presenteou.

O certo é que foi desarmado de preconceitos que assisti aos três excelentes filmes com grande curiosidade. Animado, surpreso mesmo com a qualidade técnica e a propriedade dos temas abordados por eles, saí logo pinçando em outros links do Google trailers e resenhas de muitos mais, inclusive matérias sobre um recente festival nacional de cinema ocorrido em Luanda.

Pois bem, saibam vocês que o cinema angolano caminha bem a passos largos para estar bem longe de ser incipiente. Sobretudo, ao que se pode deduzir pelas matérias e trailers que vi, já é muito popular e potencialmente até bastante promissor em médio prazo, do ponto de vista financeiro, já que a população das principais cidades angolanas parece estar muito mobilizada como platéia cinéfila.

“Depois da fase em que a produção cinematográfica em Angola registou um interregno de cerca de 16 anos, eis que, no início do ano 2000, surge uma geração de jovens cuja coragem e determinação foram preponderantes para o “ressurgimento” do cinema, feito no país, por angolanos. Henrique Narciso “Dito” foi um dos precursores deste movimento, juntamente com Francisco Cáfua, Bijú Garizim e Olson Manuel. O ano de 2005 marcou o início de uma nova página no audiovisual do país, quando estes realizadores lançaram os seus primeiros filmes. Amigos, foram-se apoiando num caminho que foi feito com enormes dificuldades.”

Esta eletrizada platéia, aliás, já consome avidamente entretenimento de ficção do Brasil que, por enquanto  se limita a exportar para lá as mais babacas e branquelas novelas da TV Globo, mas pode ser que um dia destes – porque não? – a ficha caia e se enxergue lá uma enorme faixa de mercado para o intercâmbio de filmes brasileiros mais densos, inclusive os de ‘Cinema Negro’, daqui para lá (e vice versa).

O Kilombo de lá é mais embaixo

Como quase nunca há por aqui no Brasil, há no contexto desta jovem cinematografia afro-lusitana uma espécie de entusiastas ‘brancos’, militantes da causa artística negro-africana, no sentido integral do termo.

Uma destas figuras elogiáveis é o abnegado cineasta (documentarista) português Jorge António que tem se dedicado a formar técnicos, diretores, atores em Angola, sendo ele mesmo um autor de peso, com filmes que naturalmente inspiram os demais cineastas do país, uma nova e promissora geração que tem nele um exemplo de ponta.

Com efeito Jorge António acaba de vencer com seu documentário Angola, histórias da música Popular o Festival Internacional de Cinema de Luanda. Cônscio de seu papel social ele acaba de recusar o prêmio de melhor documentário no festival citado, declarando enfaticamente que não o merecia ‘por não ser um angolano nato’ e doando todo o valor em dinheiro para a formação de mais cineastas e técnicos de cinema no país.

Cinema de gente destemida e  desassombrada este de Angola.

A firmeza ideológica dos músicos africanos (tema do filme de Jorge António, um panorama sobre a música popular angolana com ênfase no engajamento político de seus músicos e compositores) sua fidelidade às raízes e maneiras artísticas tradicionais, sempre vistas com um olho no futuro (como no caso do emblemático grupo ‘Ngola Ritmos’) a relação tão intensa entre arte e militância empreendida por eles, sem, contudo abrir mão da excelência artística impregna todo o filme e devia inspirar e mobilizar o pessoal daqui.

Logo, nada mais lógico do que enquadrar como faço o moderno cinema angolano neste conceito de ‘Cinema negro’ que propusemos acima. Buscando inspiração nele.

O fato é que precisamos reconhecer que talvez estejamos  atrasados mesmo em relação a eles, no nosso ainda submisso cineminha de fundo de quintal, abordando timidamente temas batidos no eixo Favela, Candomblé, Paz & Amor.

( leia AQUI o post #02 desta matéria)

Spírito Santo

Dezembro 2010

Manuel Casttels e a era da intercomunicação


Mordendo o pé da ‘contra mídia’, quem cochicha rabo espicha

 

“Caro Spirito Santo deixo-te este artigo de Castells, talvez aí nos compreenda:”

Sergio José Dias

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Anti hegemonia, se for à vera – como banana bem descascada – engorda e faz crescer.

Recebo esta prosaica mensagem aí de cima, originada ao que me consta, de um blog petista (ligado ao Movimento Negro) – um tanto fundamentalista por sinal a julgar pela grossura de sua verve editorial que vocês podem conferir neste link. A mensagem me vem a guisa de um comentário a este post que acabo de escrever sob o eventual aparecimento de uma estranha onda de ‘Contra Mídia’ no Brasil, com uma ainda embrionária, embora já preocupante tendencia para  um radicalismo proselitista, bem parecido, na intenção expressa – pelo menos para mim –  com fascismo do Estado Novo e outros velhos fascismos de ocasião.

Não faço ainda ideia de quem é a pessoa que tomou a decisão de mandar isto para mim (Sergio José Dias), ainda mais por meio deste modo inviesado, transverso. O fato de ser pessoa ligada ao Movimento Negro me constrange um pouco também.

É que nesta hora me dou conta do quanto esta corrente política fundamentalista que tento denunciar (quase bradando no deserto, reconheço) avançou no seio do Movimento Social do Brasil, a ponto de até eu, que sempre me vangloriei de ter estado nesta luta por tanto tempo, ter de me opor a este pessoal que, sei lá se por ingenuidade política ou por convicção ideológica, decidiu se atrelar a este proselitismo que tanto condeno.

È aquela história: Gente teimosa rema contra a maré. Às vezes chega à frente, às vezes se perde no mar.

Mas com tudo isto eu acho que, no fundo é bom sinal.  O tema central de nossas indagações é exatamente este: Como se comportam vias e canais  alternativos (transversos) de mídia, meios de formação de opinião enfim, hoje em dia, no contexto de uma sociedade ainda aturdida com a acachapante hegemonia de um sistema econômico baseado no lucro desmedido, que provoca uma espécie de crise de identidade político cultural, talvez ainda sem precedentes em nossa história.

Um ‘freio de arrumação’ que reconfigura em campos agora ambíguos (e não mais propriamente opostos), por exemplo, a Cultura Popular e a Cultura de Massa, a Democracia real e a Democracia Formal, as Grandes potências e as Pequenas Potências, num confuso souflê de conceitos, ‘prato-feitos’ para  boas teses, mas também para muitos aventureirismos sociais e políticos de ocasião.

(Talvez esteja nos faltando mesmo um conjunto de ideias adequado a estes novos turbulentos tempos).

Junto da lacônica e insinuante apresentação do destinatário (sugerindo leve e educadamente que fui eu que não entendi o espírito, o verdadeiro sentido ‘positivo’ deste ‘Forum de Mídia Livre’ do MinC) recebo a interessante e essencial matéria de Manuel Castells que com muito prazer reproduzo a seguir.

O mais curioso disto tudo – e neste caso sugiro que os amigos que não leram antes, leiam agora a matéria que suscitou esta ‘recomendação‘ a mim enviada pelo, imagino, jovem negro petista – é que o texto de Castells é muito bom mesmo e bastante pertinente para o caso (talvez o melhor a que tive acesso no ensejo de tocar nesta questão).

É bastante surpreendente para mim, portanto – e por certo o será para alguns leitores – como uma ideia justa e claramente exposta como esta de Castells, termina sendo manipulada e distorcida a ponto de passar a significar, exatamente o contrário daquilo que o autor pretendia que ela significasse.

Vejam como é assustador – e as pessoas, não sei por que, demoram demais a se dar conta disto – quando idéias como estas passam a embasar a estratégia de campanhas de propaganda política ou programas de aliciamento de adeptos e simpatizantes de uma corrente partidária qualquer, quando passam a servir enfim, a objetivos um tanto obscurantistas, antidemocráticos em suma,  bem diversos dos ventos de democratização da cultura e da livre circulação da informação, no sentido amplo e irrestrito que Castells tão brilhantemente nos sugeriu em seu texto.

Vejam como, ao que tudo indica, acontecendo agora mesmo diante de nossos olhos, o indefectível ‘jeitinho‘ brasileiro vai transformando em artifício perverso também as nossas maneiras de ler o mundo e o país. Contrapondo maniqueístamente, em campos de guerra, a Mídia empresarial e a Contra informação populista (quase fascista, pois) manobrada pela cabeça de sabe-se lá que deformadores de opinião, a luz sabe-se lá de que interesses, gente que artificiosamente, capciosamente, com o pretexto de democratizar os meios de informação, vai tornando toda a informação disponível, venenosa e propositalmente vulgar, primária, para enfim, pela reiteração de mentiras deslavadas, manter-se ou perpetuar-se no poder.

Se quiserem discordar discordem, é claro, mas não deixem de ler com toda atenção as entrelinhas do texto de Castells bem como os links dos blogs petistas desta ‘Contra Mídia’, links que disponibilizo aqui e na outra matéria citada, neles observe as recorrentes e grosseiras e distorções das idéias sobre ‘Mídia Livre’, tornadas por estes grupos palavras de ordem virulentas, que qualquer um pode observar por aí, sendo trombeteadas aos quatro ventos como verdades ‘absolutas’ – dogmáticas, religiosas quase – nos bate papos e posts de sites de relacionamento como o Facebook, por exemplo.

Observe sobretudo – uma curiosidade que só me ocorre agora – que ‘independente, palavra chave de nossa questão, de modo sintomático,  quase nunca aparece nestes blogs petistas, que nos bombardeiam com sua propaganda).

Ao que tudo indica, este (para usar um conceito que, infelizmente vai se tornando muito corriqueiro entre nós) fundamentalismo político-evangélico que nos espreita,  já vai mostrando as suas unhas pouco polidas há algum tempo, sem que a gente dele se apercebesse. Ele parece se basear em princípios e leis da propaganda básicos e não muito complexos (já disse: Golbery os chamava de ‘Propaganda subversiva Adversa’), mas não são de modo algum uma obra de amadores e muito menos de intelectuais e políticos ingênuos.

Talvez seja por isto que Manuel Castells, o comunicador libertário vem sendo tão lido, para ser depois desdito, desconstruído e posto às avessas como uma invenção maquiavélica do Grande Irmão do Orwell, mostrando na Teletela uma ilusão qualquer, falsa sim, mas que como uma droga poderosa – um ‘crack’ virtual , ópio do povo – serve para incendiar e congregar as massas contra o que o Poder de plantão julgar ameaçador à sua hegemonia.

Mídia ‘Livre’… porém bem dirigida. Quem se importará?

(Nossa! Sem exagero: como o 1984 do George explica bem este momento.). Vamos ao Castells então que é melhor:

Spírito Santo
Outubro 2010

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Manuel Castells
(Extraído de Le Monde diplomatic)

(Os grifos são meus)
Tradução: Márcia Macedo

“Por que os blogs, o RSS e outras tecnologias podem mudar os padrões de informação com que a humanidade se acostumou há séculos. O que isso tem a ver com a crise da política tradicional e a possibilidade de uma alternativa” [1]

Manuel Castells

“A informação e a comunicação sempre foram vetores dos poderes dominantes, dos poderes alternativos, das resistências e das mudanças sociais. O poder de influência sobre o pensamento das pessoas – que é exercido pela comunicação – é uma ferramenta de resultado incerto, porém fundamental. É apenas através do exercício da influência sobre o pensamento dos povos que os poderes se constituem em sociedades, e que as sociedades evoluem e mudam.

A repressão física ou mental é certamente uma importante dimensão do poder dominante. No entanto, se um povo modifica radicalmente seu modo de ver as coisas, se ele passa a pensar de maneira diferente e por si mesmo, não há poder que possa se opor.

Torturar um corpo é bem menos eficaz do que moldar um pensamento. Eis o motivo pelo qual a comunicação é a pedra de toque do poder. O pensamento coletivo (que não é a soma dos pensamentos individuais em interação, mas sim um pensamento que absorve tudo e é difundido por toda a sociedade) se elabora na comunicação. É da comunicação que vêm as imagens, as informações, as opiniões e é por meio desses mecanismos de comunicação que a experiência é divulgada e transmitida ao coletivo/na coletividade.

Tudo isso se aplica fortemente em nossas sociedades, no seio das quais as redes de comunicação atravessam todos os níveis, do global ao local e do local ao global. Conseqüentemente, as relações dentro do poder dominante, elemento que constitui toda e qualquer sociedade e determina suas evoluções, são cada vez mais elaboradas na esfera da comunicação.

Mídia é poder, mas manipulação tem limites

Na sociedade contemporânea, a política depende diretamente da mídia. As agendas do sistema político e mesmo as decisões que dele emanam são feitos para a mídia, na busca de obter o apoio dos cidadãos ou, pelo menos, atenuar a hostilidade frente às decisões tomadas.

Isso não quer dizer que o poder se encontre incondicionalmente nas mãos da mídia, nem que o público tome posições em função do que é sugerido pela mídia. Pesquisas em comunicação mostraram há muito tempo até que ponto o público é ativo e não passivo.

Além disso, os meios de comunicação possuem, internamente, sistemas que controlam sua capacidade de influenciar o público, pois antes de qualquer coisa, eles são empresas submetidas aos imperativos da rentabilidade e precisam ter audiência ou estender sua difusão. Em geral, eles são diversificados, competitivos, e devem ter tanta credibilidade quanto seus concorrentes. Eles frequentemente se impõem outras restrições, no que diz respeito à ética profissional ou jornalística (mediadores, conselhos de ética, etc.). Um meio de comunicação não é, portanto, algo fadado a distorcer ou manipular informações.

No entanto, precisamos focar nossa atenção nas tendências. O jornalismo militante, ideológico, a mídia engajada, por exemplo, foi durante muito tempo tido como uma mídia sem a qualidade da «objetividade» — logo, sem consumidores. Os jornais que se denominam «órgãos de partido» praticamente desapareceram ou enfrentam graves crises de distribuição.

No entanto, a situação começa a mudar: o militantismo ou engajamento ideológico pode se tornar um modelo altamente rentável. Por exemplo, a Fox News, uma das principais redes de televisão dos Estados Unidos (filial da News Corp, que pertence a Rupert Murdoch), conquistou uma grande parte da audiência conservadora norte-americana ao defender, sem a menor preocupação com a objetividade, as teses dos neoconservadores favoráveis à invasão do Iraque, em 2003.

A segunda tendência que pode ser observada atualmente está na perda da autonomia por parte dos jornalistas profissionais com relação aos seus empregadores. Nesse âmbito joga-se boa parte do complexo jogo das manipulações midiáticas.

Um estudo recente procurou explicar que, em meados de 2004, 40% dos norte-americanos ainda acreditava que o Sadam Hussein e a Al Quaeda trabalhavam lado a lado e que Saddam possuía armas de destruição em massa no Iraque. Isso um ano depois de o contrário ter sido provado. Esse estudo enfatiza as ligações entre a máquina da propaganda do governo Bush e as produções do sistema midiático.

Quando a omissão é a arma decisiva

No entanto, isso tudo é apenas a ponta do iceberg, pois a maior influência que a mídia exerce sobre a politica não é proveniente do que é publicado, mas do que não o é: de tudo o que permanece oculto, que passa desapercebido. A atividade midiática repousa sobre uma dicotomia: algo existe no pensamento do público se está presente na mídia. O seu poder fundamental reside, portanto, na sua capacidade de ocultar, de mascarar, de omitir.

A necessidade de algo ter de existir na mídia para existir politicamente induz uma relação orgânica à linguagem midiática, encontrada tanto na televisão quanto no rádio, na mídia impressa ou na internet. Os meios de comunicação em massa fazem uso de um jargão específico que não chega a ser um dialeto próprio, mas algo semelhante.

A mensagem midiática mais simples e também a mais poderosa é a imagem. E o rosto é a mensagem mais simples que a imagem pode transmitir. Sendo assim, existe uma ligação orgânica entre a midiatização da política, a personalização da mídia e a personalização da política. A partir do momento em que se passa a cultivar uma vida política baseada em querelas pessoais e de imagem ou em manipulações midiáticas, os programas de governo perdem sua importância, pois ninguém se refere a eles e os cidadãos não lhes dão mais importância (com toda a razão).

O triunfo da «personalização» da política reside no fato de que a forma mais convincente de combater uma ideologia passa a ser o ataque contra a pessoa que encarna uma mensagem. A difamação e os boatos tornam-se uma arte dominante na política: uma mensagem negativa é cinco vezes mais eficaz do que uma mensagem positiva. Todos os partidos utilizam essa estratégia: eles manipulam e até mesmo fabricam informações. E não é a mídia quem cuida disso. Esse trabalho cabe aos intermediários, às empresas especializadas.

O resultado é uma ligação direta entre a «midiatização» da política, sua personalização e a difamação ou a prática do escândalo político, cuja banalização acarretou, nos últimos quinze anos, assassinatos de pessoas eleitas, crises de governo e até mesmo de regime político.

Isso nos leva à atual e profunda crise da legitimidade política em escala mundial, uma vez que há uma ligação forte e evidente, mesmo não sendo exclusiva, entre a prática do escândalo, a midiatização exacerbada da cena pública e a falta de confiança por parte dos cidadãos no sistema. Essa desconfiança pode ser ilustrada por uma pesquisa feita pelos serviços da Organização das Nações Unidas (ONU) segundo a qual dois terços dos habitantes do planeta afirmam não se sentir representados pelos seus governantes.

Intercomunicação e crise de legitimidade política

Trata-se, então, de uma crise de legitimidade. Mas embora o mundo afirme não ter mais confiança nos governos, nos dirigentes políticos e nos partidos, a maioria da população ainda insiste em acreditar que pode influenciar aqueles que a representam. Ela também crê que pode agir no mundo através da sua força de vontade e utilizando seus próprios meios. Talvez essa maioria esteja começando a introduzir, na comunicação, os avanços extraordinários do que eu chamo de Mass Self Communication (a intercomunicação individual).

Tecnicamente, essa Mass Self Communication está presente na internet e também no desenvolvimento dos telefones celulares. Estima-se que haja atualmente mais de um bilhão de usuários de internet e cerca de dois bilhões de linhas de telefone celular. Dois terços da população do planeta podem se comunicar graças aos telefones celulares, inclusive em lugares onde não há energia elétrica nem linhas de telefone fixo.

Em pouco tempo, houve uma explosão de novas formas de comunicação. As pessoas desenvolveram seus próprios sistemas: o SMS, os blogs, o skype… O Peer-to-Peer ou P2P torna possível a transferência de qualquer dado digitalizado. Em maio de 2006, havia 37 milhões de blogs (em janeiro de 2006, havia 26 milhões). Em média, um blog é criado por segundo no mundo, o que significa 30 milhões por ano…55% dos blogueiros continuam a alimentar seus blogs até 3 meses depois deles terem sido abertos. A quantidade de blogueiros é 60 vezes maior do que era há seis anos. E ela dobra de seis em seis meses.

Como, no início, a língua inglesa era o idioma dominante na internet, atualmente, mais de um-terço dos sites da web são em inglês. O chinês vem em seguida, depois o japonês, o espanhol, o russo, o francês, o português e o coreano… O que realmente importa não é tanto a existência de todos esses blogs, mas a ligação que há entre eles, e o que eles condensam e difundem com a totalidade de interfaces comunicacionais (esta interligação é viabilizada pela tecnologia RSS.

A Mass Self Communication constitui certamente uma nova forma de comunicação em massa – porém, produzida, recebida e experienciada individualmente. Ela foi recuperada pelos movimentos sociais de todo o mundo, mas eles não são os únicos a utilizar essa nova ferramenta de mobilização e organização. A mídia tradicional tenta acompanhar esse movimento e, fazendo uso de seu poder comercial e midiático passou a se envolver com o maior número possível de blogs. Falta pouco para que, através da Mass Self Communication, os movimentos sociais e os indivíduos em rebelião crítica comecem a agir sobre a grande mídia, a controlar as informações, a desmentí-las e até mesmo a produzi-las.

Reaberta a batalha mais antiga da História

O movimento altermundialista contra o capitalismo global, com toda a sua diversidade, utiliza há muito tempo a internet e todos os recursos da Mass Self Communication – não só como ferramenta de organização, mas também como um espaço para debates e intervenções. Também foi desenvolvida por esse mesmo meio uma capacidade de exercer influência sobre a mídia dominante, passando pela Indymedia ou uma série de outras redes alternativas e associativas.

A constituição de redes de comunicação autônomas chega também aos meios de comunicação mais tradicionais. As televisões de rua e as rádios alternativas – como a TV Orfeo em Bolonha, a Zaléa TV em Paris, a Occupen las Ondas em Barcelona, a TV Piqueteros em Buenos Aires – e uma enorme quantidade de mídias alternativas, ligadas em rede, formam um sistema de informação verdadeiramente novo.

Mesmo o ex-presidente dos Estados Unidos, Albert Gore, aderiu a essa tendência, criando sua própria rede de televisão, na qual atualmente cerca de 40% do conteúdo é alimentado pelos telespectadores. As campanhas presidenciais também se renderam à influência desse novo meio de comunicação. Por exemplo, em 2003-2004, a candidatura de Howard Dean não teria decolado se não fosse a sua capacidade de mobilização por meio da internet .

Em segundo lugar está a «mobilização política instantânea», via telefone celular, que aparece há dois anos como um fenômeno decisivo.  Essa «onda» mobilizadora, apoiada por redes de comunicação entre telefones celulares obteve efeitos impressionantes na Coréia do Sul, nas Filipinas, na Ucrânia, na Tailândia, no Nepal, no Equador, na França… Pode obter um efeito imediato, como em abril passado na Tailândia, com a destituição do primeiro-ministro Thaksin Shinawatra pelo rei Bhumibol Adulyadej. Ou na Espanha, com a derrota, nas eleições legislativas em março de 2004, do Partido Popular de José Maria Aznar. A suspeita de que as autoridades estivessem manipulando informações, com o intuito de atribuir ao ETA a culpa pelos atentados em Madri, fez com que uma infinidade de mensagens circulasse pelos telefones celulares. Isso resultou na organização de uma enorme manifestação, em um dia no qual, teoricamente, devido ao choque e ao luto, seria impossível falar sobre política.

Isso não quer dizer que tenhamos de um lado a mídia aliada ao poder, e de outro, as Mass Self Media, associadas aos movimentos sociais. Ao contrário: cada uma opera sobre uma dupla plataforma tecnológica. Mas a existência e o desenvolvimento das redes de Mass Self Communication oferecem à sociedade maior capacidade de controle e intervenção, além de maior organização política àqueles que não fazem parte do sistema tradicional.

Neste momento em que a democracia formal e tradicional está particularmente em crise, em que os cidadãos não acreditam mais em suas instituições democráticas, o que percebemos diante da explosão das Mass Self Communications assemelha-se à reconstrução de novas formas políticas, mas ainda não é possível dizer no que elas resultarão.

No entanto, de uma coisa podemos ter certeza: a sorte da batalha será jogada no terreno da comunicação, e terá peso a nova diversidade dos meios tecnológicos. Sem dúvida, essa batalha é a mais antiga de toda a história da humanidade. Desde sempre, ela visa à liberação de nosso pensamento.

Tradução: Márcia Macedo

Publicado originalmente no Le Monde diplomatic

100 anos do Natal da Chibata


O contexto era algo parecido com o clima que vivemos agora.

A cidade do Rio de Janeiro vivia ainda um clima de periódicas revoltas populares, entre as quais a mais famosa foi a Revolta da Vacina.

O processo denominado ‘Bota Abaixo’, caracterizado pela expulsão em massa da população mais pobre que habitava o que é hoje o centro comercial da Cidade do Rio de Janeiro, com a demolição de todas as suas habitações – ação governamental que está na raiz do desenfreado processo de favelização (leia no link) atual – se concretiza com a inauguração da ‘Avenida Central’ (hoje Av.Rio Branco) e inúmeros prédios estilosos entre os quais um Teatro Municipal bordado ouro. O mote propagandístico do ‘Bota Abaixo’ era:

O Rio civiliza-se!

Em 1910, sob o pretexto da repressão aos marujos da Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto, o’ Almirante Negro‘, o governo aprisiona populares ‘desocupados‘, operários e motorneiros de bonde grevistas, capoeiristas, prostitutas, etc. qualquer pessoa incômoda ao regime e, simplesmente aprisiona um grande grupo delas num navio cargueiro que as levaria para o degredo e a morte nas selvas do Acre.

João Cândido com mais 17 companheiros, por força de protestos da embaixada inglesa (João havia feito um curso de especialização em Liverpool e fizera amigos entre a oficialidade da armada de lá), são presos na Ilha das Cobras, onde a maioria foi assassinada asfixiada por ácido fênico lançado á cela para simular um acidente. Só João Cândido e um companheiro chamado ‘Pau da Lira’, sobreviveram.

Os presos civis seriam entregues a chamada ‘Missão Rondon’ para cumprirem – sem julgamento algum – trabalhos forçados na selva. Muitos morreram de doenças ou comidos por bichos. No grupo de prisioneiros estavam seis ou sete líderes da Revolta da Chibata que o comandante recebeu ordens de fuzilar  sumariamente em alto mar.

Na peça teatral (veja o texto integral neste link) que escrevi narrando estes fatos horrorosos, típicos do sistema de terrorismo de estado vigente naquela época, há a narração verídica do diário de bordo do famigerado navio mausoléu:

Trecho da peça teatral ‘EXUCHIBATA” escrita em 1994 por este vosso criado

...Voz (do capitão do navio ‘Satélite’ que há 100 anos atrás, em dezembro transportou degredados – ‘vagabundos’ e ‘desocupados’- e marinheiros para as selvas do Acre). narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105 ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro mulheres e cinquenta praças do Exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros. Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.”

Navio “Satélite”

Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911

Diário de bordo do Capitão Carlos Brandão Storry

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Que a verdadeira Paz esteja com todos – inclusive com os mais  ‘perversos bandidos‘ – nestes 100 anos da Revolta da Chibata.

Spírito Santo
24 de Dezembro 2010

GetuLulismo sem mestre e sem carinho



Bem sei: A história só se repete como farsa, mas é exatamente disto que estou falando.

É que não resisti. Adoro analogias e similaridades, mesmo supostas. O amigo de facebook Jj Leandro cantou a pedra e eu sugiro que se leia o artigo seguinte, tentando encontrar alguma relação com o projeto de Brasil que, pelo menos ao que parece, estão tentando vender para nós agora, em pleno século 21.

Posso estar até exagerando e me afobando (a Dilma nem bem assumiu), mas sei lá…achei que os projetos – este velhusco do Getúlio, que vocês lerão aí embaixo e  o ‘novo’, o aparente, o do Lula forever – são quase…’primos’.

A propósito, nem sou eu que estou falando. Muita gente está cantando esta pedra hoje, depois do discurso neo-getulista do Lula, se despedindo dos brasileiros com um enigmático e enrustido ‘até breve’

Em 2014 – quem sabe? – Vocês vão botar o retrato do velho no mesmo lugar. Vão dizer de novo que “o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar”.

Bem leiam aí. No mínimo se aprende um pouco de história do Brasil (o que, além de não ser pouca coisa, engorda e faz crescer)

Getúlio Vargas e o Departamento de Imprensa e Propaganda: Como Moldar Opiniões Diante das Páginas de uma Revista?

por Alyne Mendes Fabro Selano

“As análises elaboradas sobre o primeiro período em que Getúlio Vargas esteve à frente do Brasil, compreendido entre 1930 e 1945, ditadura denominada “Estada Novo”, reportam a importância do papel da imprensa para a manutenção do regime. O apoio que o então presidente obteve através da veiculação de jornais, revistas e programas de rádio, foi notadamente um dos alicerces de propagação do seu projeto ideológico nacionalista.

Vargas chega ao poder com a “Revolução de 30” que pode ser compreendida também, como um resultado da crise das oligarquias políticas tradicionais, particularmente a cafeeira, e pela ascensão das elites urbanas e rurais que participavam secundariamente da Republica até então – entre eles, os industriais, os militares e o setor agropecuário. Desde então presença física ou simbólica de Getúlio Vargas será significativa no cenário político brasileiro até o final do século XX.

De fato ele soube concentrar na sua imagem a confiança e a credibilidade que o país necessitava para a reorganização política e social que o momento exigia.

Os conflitos regionais, o uso da máquina eleitoral a serviço de manobras partidárias e os interesses do setor cafeeiro agravavam a crise econômica do período. As fontes de riquezas estavam cada vez mais abandonadas já que não havia estímulo ao trabalho e os empréstimos comprometiam a situação financeira do país.

Para que o projeto nacionalista tomasse forma e alcançasse os indivíduos foram estimuladas as manifestações cívicas que enfatizassem o papel da família, o trabalho, como motor para alavancar o desenvolvimento. Mais ainda, inverte-se a ótica que caracteriza o “homem”, que agora não mais era visto como “malandro”, mas sim, como “cidadão”, célula indispensável para o crescimento do país e para a concentração em torno do ideal de “Nação”.

A Constituição Federal de 1937, implantada por Vargas após o golpe do Estado Novo atribuiu um caráter especial à imprensa, limitando a liberdade individual e fornecendo as bases necessárias ao governo para que o mesmo pudesse colocar em prática seu ideário nacionalista.

Em comparação à Constituição de 1934, percebemos que já nesse tempo havia certa preocupação com a imprensa. As medidas tomadas em 1937 foram uma complementação às restrições já existentes em 1934. Com uma ressalva, a Constituição de 1934 permitia a liberdade de pensamento, pois inexistia a censura.

Nesse contexto, Vargas defendia que o papel da imprensa seria acompanhar o desenvolvimento da nação e destacar os feitos do Estado, condenando a “imprensa mercenária”, convocando-a para servir seu projeto e ao Estado.

Diante desses argumentos Vargas assegura amparo à imprensa e passa a considerar todo jornalista um “funcionário do Estado”. Sob essa égide, e com a intenção de melhor controlar todo o material veiculado, em dezembro de 1939 foi criado o D.I.P. (Decreto-Lei nº 1.915 de 27 de dezembro de 1939).

O D.I.P. tem origem em órgãos criados anteriormente pelo governo getulista. Em 1931, foi criado o Departamento Oficial de Publicidade – D.O.P – que, em 1934, se transformou em Departamento de Propaganda e Difusão Cultural – D.P.D.C -, subordinado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Em 1938 transformou-se em Departamento Nacional de Propaganda – D.N.P -. O que se percebe é que todos os órgãos ligados à propaganda possuíam roupagem similar; porém desde 1934 as preocupações estariam em torno do rádio, por ter maior facilidade de propagação.

O D.I.P. marca a transformação da estrutura da comunicação no país já que deixa de exercer uma função exclusivamente técnica para assumir caráter político. Diferenciando-se dos outros órgãos anteriormente criados, aglutina o Serviço de Inquéritos Políticos e Sociais -S.I.P.S[2] – e os serviços de propaganda dos órgãos da administração pública, como por exemplo, o Departamento Administrativo do Serviço Público – D.A.S.P.- e cria uma “Divisão de Imprensa” que apura as formas de intervenção do Estado.

O discurso produzido pelo D.I.P. deveria então traduzir para essa sociedade os desejos do Estado, legitimando-o e fortalecendo-o cada dia mais, visto que era subordinado diretamente a Vargas. Através do monopólio dos veículos de comunicação, o D.I.P. suprimia a contrapropaganda e diante disso, a sociedade incorporava valores que o Estado selecionava, como se esses valores fossem “inseridos na consciência popular”. Contava ainda com a ajuda dos Departamentos Estaduais de Imprensa e Propaganda – D.E.I.Ps – para alcançar todo o território nacional.

Além de promover a figura do estadista, o D.I.P. censurava programações e enaltecia os feitos do governo, através dos D.E.I.Ps fiscalizava nos estados o cumprimento das normas que impunha, aplicando sanções e multas; cadastrava os profissionais da área de comunicação, supervisionava seus direitos e deveres, e recolhia seus direitos autorais; promovia campanhas na área da propaganda e distribuía prêmios; fazia a edição de folhetos, jornais, livros e revistas, além de dar orientação todo o conteúdo a ser veiculado, estimulando manifestações culturais, com o intuito de organizar uma cultura nacional.

A imagem do líder, personificado em Vargas era cuidadosamente produzida. Sua vida, sua postura e seu caráter estavam sempre sendo enaltecidos, não somente ele, mas todos que compunham o governo possuíam sua imagem promovida. É importante destacar que a celebração do mito aproximava cada vez mais a população aos participantes do governo, em especial ao presidente, que estimulava a criação de datas comemorativas, para que nesses grandes encontros fosse reafirmado o sucesso de seu projeto político-ideológico.

A partir das atuações do D.I.P. desenvolviam-se dois modelos de disseminação da cultura nacional; o primeiro possuía um caráter letrado, com influências européias, para ser apreciado pelas elites, onde se enquadra a Revista Cultura Política e o último, possuía uma roupagem popular através dos sambas, marchinhas, entre outros.

Como um recurso popular, a música também se tornou um veículo importante, pois teve uma reformulação em suas temáticas, onde predominavam assuntos relacionados ao trabalho, a família e aos bons costumes e onde estariam presentes as características de uma sociedade de consumo.

O D.I.P também esforçava-se para que nenhum filme ou o material de propaganda contivesse cenas de violência, cenas que fossem contrárias à “moral e aos bons costumes” da sociedade ou que desprestigiassem o governo. Criou também os chamados “filmes educativos” e com o intuito de proteger a indústria cinematográfica nacional foi determinado que antes dos filmes de longa-metragem fosse passado um curta-metragem.

Em sua função de produtor e selecionador da cultura nacional o D.I.P também era responsável por captar recursos através da cobrança de taxas, além de funcionar como editor desses filmes para que eles somente mostrassem as belezas naturais do país, as informações de utilidade pública, alusões ao passado histórico e mais ainda, os feitos do Estado. Esse mesmo estado que, no que concerne a indústria cinematográfica, regulava a iniciativa privada também faz com que os produtores e os funcionários do cinema estivessem devidamente registrados, participando em todos os pontos dessa indústria.

O D.I.P. ofereceu ao regime ditatorial de Vargas os meios para o controle ideológico da imprensa que colaborou para o mesmo permanecer quinze anos à frente da censura no país. Formulou uma verdade oficial e soube aproximar os intelectuais para submetê-los ao projeto, oferecendo-os uma identidade jornalística e legitimando suas funções. Porém ao fazê-lo, o governo conseguia censurar e moldar as manifestações artísticas e culturais, o que de certa maneira, suprimiam esses mesmos intelectuais.

Sob esse aspecto destacamos o papel da Revista Cultura Política, diretamente ligada ao D.I.P. e possuiu uma formulação destinada a agregar à sociedade da época os valores defendidos pelo Estado, como podemos perceber na citação acima, onde o jornalista José Firmo – Diretor da União Brasileira de Imprensa – destaca as características da chamada “vida moderna” a partir do nascimento do Estado Novo. Afirma que os elementos que compõem a sociedade e que foram instituídos no período tornaram-se responsáveis pelo “esclarecimento dos indivíduos e colaboraram para o progresso do país”.

O período de circulação da revista ocorreu mensalmente de março de 1941 a outubro de 1945, passando a ser trimestral nos 3 últimos exemplares.

Possuía caráter explicativo e era divulgada no Rio de Janeiro e em São Paulo, vendida em bancas de jornais. Sua finalidade era difundir os feitos do Estado junto às elites, e colaborar com a manutenção do projeto político já posto em prática. A revista não manteve uma uniformidade com relação a distribuição das secções; possuía inicialmente uma diagramação séria, similar a um livro e mais tarde aderiu a uma roupagem mais colorida e de tamanho menor, já com o intuito de alcançar novo público-alvo.

Reunia artigos dos mais ilustres escritores da época, dentre os tais, Nelson Werneck Sodré, Graciliano Ramos, Gilberto Freyre. Os intelectuais possuíam grande influência na construção do Estado Novo como formadores de opinião, daí a necessidade de tê-los como intermediários entre o Estado e essa sociedade. Em decorrência disso, esses “colaboradores” recebiam muitas vezes maior remuneração do que se pagava a outras publicações com as quais a revista convivia como, por exemplo, Brasil Novo, Política, Planalto, Ciência Política. A revista Cultura Política foi a que reuniu a maior gama de intelectuais da época, daí sua importância para o projeto ideológico de Vargas.

O contexto social nos remete a idéia que a arte participaria ativamente da divulgação dos ideais defendidos no período, através do estímulo a sua produção e até mesmo através do desejo que esses artistas nutriam em elaborar uma arte nacionalista. Havia “(…) uma coincidência feliz entre os rumos artísticos e os da nova política do Brasil (…)”[3]. Mesmo diante disso, o governo não deixava de fiscalizar e orientar essas produções.

A “Revista dos estudos brasileiros” era basicamente dividida em: problemas políticos e sociais; o pensamento político do chefe de governo; a estrutura jurídico-política do Brasil; o trabalho e a economia nacional; a atividade governamental; textos históricos e finalmente, Brasil social, intelectual e artístico.

Falava-se sobre os feitos de Vargas; da geografia e da agricultura de determinado local; do passado brasileiro a partir de personagens históricos; da economia e das relações exteriores, fazendo referência a correntes de pensamentos de autores europeus e norte-americanos.

Em suas páginas também encontramos a justificativa para a centralização ocorrida no período, que retirou a autonomia dos estados e tornou responsabilidade do Executivo toda a administração publica; mais ainda, ao extinguir os símbolos desses estados, eliminou a individualidade e o sentimento regionalista.

A partir daí destaca-se os esforços para comprovar a existência da democracia no Brasil. “(…) Uma democracia que, nessa visão, encerrava todo o sentido social da civilização, configurando um conceito dinâmico que envolvia e acompanhava as mutações da vida (…)

Sabe-se que na prática a “democracia” não se configurou como o “governo do povo”, mas como um elemento constitutivo do projeto autoritário de Vargas.

A construção desse ideal democrático surge, portanto, na figura do presidente, o qual sintetiza a “vontade nacional”. Vargas aglutinava as características de “determinação e coragem, um exemplo de amor à democracia e a justiça social”, arbitrando os diversificados interesses da sociedade, adaptando-se as situações e buscando as soluções apropriadas. Nasce, portanto o mito popular cujas características são até hoje cultivadas.

Para que esse “Estado Nacional” permanecesse fortificado, tornava-se importante a alusão ao passado histórico, pois somente diante da compreensão de uma “identidade igualitária” os indivíduos se reconheceriam como coletividade, como Nação.

O pensamento autoritário explicitado ainda na década de 1920 por ideólogos como Oliveira Viana, Azevedo Amaral, Francisco Campos, Alberto Torres; exaltava a intervenção do Estado através da burocratização do poder. Encontrava relevância no pressuposto que a ideologia estatal centralizadora era composta por um Estado guardião e por uma sociedade benevolente e cordial.

Orientando-se como porta-voz dos feitos governamentais a revista justifica sua postura ao afirmar que se manteve coerente em suas publicações. As páginas da Revista Cultura Política tornaram-se primordiais para a análise dos elementos que fizeram parte das idealizações do governo ditatorial exercido por Vargas.

Caracterizando-se como o objeto com o qual os intelectuais da época fomentou a ideologia dominante, mais ainda, favoreceu a permanência do legado de Vargas como líder político e social.

A revista se configurou como objeto de subserviência aos interesses do governo e nesse sentido a imprensa perdeu o real sentido de “informação” e passou a integrar um projeto que além de moldar as opiniões dos cidadãos, deixou um legado de apatia com relação à construção de um pensamento autônomo e crítico sobre os assuntos em que a sociedade deveria constantemente atuar, questões que estão diretamente ligadas ao interesse comum e que regem a vida econômica, política e social do país.”

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CARTA DE APOIO À ANGOLANA FELÍCIA AURORA


Empregada limpando - óleo sobre tela - Armando Vianna- 1923

Empregada limpando - óleo sobre tela - Armando Vianna- 1923

 

“Vimos (nós, os abaixo assinados) por meio desta, manifestar nosso apoio à jovem angolana FELÍCIA AURORA pela situação de extrema exploração e violência a que vem sendo submetida em solo paraibano.

FELÍCIA AURORA é Angolana e veio ao Brasil a convite de um casal de empresários paraibanos, para trabalhar como empregada doméstica em sua residência com promessas de que seria garantido à mesma, moradia, salário e, principalmente, o direito a estudar. Segundo eles, Felícia trabalharia durante meio período e noutro poderia estudar, que era o principal objetivo da jovem.

Chegou a Paraíba no mês de abril de 2010 e, desde então vem sendo explorada pelo casal (donos de uma fábrica de sorvetes e de uma sorveteria), pois além de trabalhar em sua residência pela manhã, ainda tinha que fazer as refeições dos trabalhadores da fábrica, trabalhar na fábrica à tarde e na sorveteria à noite, e ainda era obrigada a distribuir panfletos na rua, FELÍCIA trabalhava todos os dias e durante os finais de semana.

Porém, FELÍCIA adoeceu e teve que fazer uma cirurgia e não podendo mais trabalhar, foi “descartada” pelo casal sem nenhuma indenização. Durante o período em que seu estado de saúde se agravou, FELÍCIA sofreu muita pressão, por vezes recebia ligações dos mesmos, até no período noturno, para que a mesma fosse trabalhar. Atualmente, FELÍCIA, se encontra com sérias complicações de saúde (cálculo renal, anemia e perda acentuada de peso).

Trata-se de uma situação de violação total dos direitos humanos, posto que seja absolutamente inadmissível que em pleno século XXI, a prática de trazer pessoas do continente africano, como vistas à exploração continue em voga. É importante pontuar que FELÍCIA é mulher, africana e negra, ou seja, sobre ela recaem discriminações e preconceitos históricos que a colocam numa situação de vulnerabilidade.

Necessário dizer que este ano ocorreram outras denúncias de racismo e intolerância na Paraíba em relação à população negra brasileira e africana, o que se começa a questionar a postura da sociedade paraibana frente ao racismo e mesmo das autoridades competentes no tratamento desses casos. Ou seja, casos com esses estão se tornando recorrentes em nossa sociedade.

A maneira como FELÍCIA vem sendo tratada é de total descaso e desumanidade, além da violação de tratados e convenções internacionais de Direitos Humanos reconhecidos pelo Estado Brasileiro, o que a jovem vem passando ainda se enquadra em legislações internas, como a Lei Maria da Penha, normas e direitos elencados na CLT, constituindo-se como crime, previsto no Código Penal Brasileiro – considerando que a redução da pessoa humana à condição análoga de escravo pode ser tanto o trabalho forçado como o trabalho em condições degradantes. Além dos direitos previstos no Estatuto da Igualdade Racial, dos princípios e normas reconhecidos na Constituição Federal, principalmente o princípio fundamental do respeito à dignidade da pessoa humana.

É necessário informar que, atualmente, FELÍCIA se encontra em situação irregular em solo brasileiro, posto que o casal que a aliciou para vir ao Brasil, que providenciou sua documentação (visto e passaporte), trouxe-a com visto de turista, cujo prazo já expirou, ou seja, já existe um processo de deportação da jovem para seu País de origem.

Por tudo até aqui exposto, esta CARTA APOIO é direcionada a pontuar que FELÍCIA AURORA não está sozinha e que, além da solidariedade prestada nesse momento, todas e todos que a esta subscreve não compactuam com esta violação aos direitos humanos e se colocam contra toda a violência racista e sexista cometido contra as mulheres.”

ASSINAM:

AACADE – Associação de Apoio dos Assentamentos e Comunidades Afro-descendentes/PB

ACMUN- Associação Cultural de Mulheres Negras/RS

Afya – Centro Holístico da Mulher/PB

Art-FeRa – Articulação Feminista AntiRacista/BA

Associação de Mulheres de Patos/PB

AMB – Articulação de Mulheres Brasileiras

AMNB – Articulação de Mulheres Negras Brasileiras

Articulação de Juventude Negra/PB

Bamidelê – Organização de Mulheres Negras na Paraíba

CACES – Centro de Atividades Culturais, Econômicas e Sociais

CEDHOR – Centro de Direitos Humanos D. Oscar Romero/PB

Centro de Cultura Afro Brasileiro OJÚ OSUN

CRDH – Centro de Referência de Direitos Humanos – UFPB

Cunhã – Coletivo Feminista/PB – Criola/RJ

GLEFAS – Grupo Latino-americano de Formação, Estudo e Ação Feminista Mulheres na Rua

Geledés – Instituto da Mulher Negra/SP

Grupo de Mulheres Maria Quitéria/PB

Ilê Tatá do Axé/PB

IMENA – Instituto de Mulheres Negras do Amapá/AP

INTECAB – Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-brasileiro/PB

IRÊ – Instituto de Referência Étnica/PB

MMM – Marcha Mundial de Mulheres

Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras/RS

MNO/PB – Movimento Negro Organizado da Paraíba

NENN – Núcleo de Estudantes Negras e Negros da UFPB

NIPAM – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Ação sobre Mulher e Relações de Sexo e Gênero – UFPB

Observatório Negro/PE

Pastoral dos Negros/ PB

PRO-AFRO – UERJ

Rede de Mulheres em Articulação na Paraíba

Rede de Mulheres Negras do Paraná

Rede de Mulheres de Terreiro/PB

Wendo Teimosia/PB

OMNBRO-Organização de Mulheres Negras do Bairro Roncador-Magé/RJ

Associação Nzinga Mbandi/SP

Grupo de Mulheres Negras Acotirene/SP

Fórum Nacional de Mulheres Negras/SP

Movimento Saúde dos Povos Círculo Brasil

Ylê Ogy Omin/SP

Jaqueline Lima Santos – SP

Musikfabrik Brasil – RJ

Grupo Vissungo-RJ

A Iconografia da Barbárie


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BARBÁRIE TAMBÉM É CULTURA

Estamos apresentando hoje um tema que apesar de, enquanto peça de humor, não ter a menor graça, nos ajudará sem dúvida nenhuma a compreender, definitivamente, porque talvez devêssemos começar a nos livrar logo (além da hipocrisia, do cinismo e de outras manias sub-urbanas) de algumas expressões outrora tão jocosas e pitorescas  – ó jocosidade brasileira hoje tão efêmera!-  tais como, por exemplo, ‘Bárbaro!’ (quando nos referíamos a uma coisa tão boa, que chegava a ser fantástica) ou a gauchíssima “Barbaridade!” (com um sentido mais ou menos igual, só que exagerando mais ainda), ou mesmo “Sinistro!” (algo assim como ‘Incrível!’, ‘Pra lá de bom’!), ou mesmo “Terror”, ‘Horror‘, ‘Alucinante‘ e outras palavrinhas;

É que que, ditas assim, no calor de uma conversa sadia e sem compromisso, estas palavras podem agora assustar alguns desavisados, estressados, como estamos ficando nós todos hoje em dia -principalmente os cariocas – que de hilários piadistas de plantão, antes cuca-frescas profissionais, nos tornamos pilhas de nervos, literalmente perdidos como cegos em tiroteio, ouvindo a briga de foice no escuro, abaixando aqui e ali a cada zás das foices (vai que uma delas é a daquela ‘velha dama‘ que nos quer a todos, um belo dia, em sua fria companhia?).

Coisa de louco!

Vamos nessa então sem fazer muito estardalhaço, enquanto vivos estamos (o episódio de hoje aliás, passa ao largo destas palavras que não se deve mais sequer ousar falar).

Escrito no já distante 4 de Janeiro de 2004 e publicado em 2005 (nesta versão de 2010 há uma brevíssima atualização), num jornal on line chamado ‘Observatório da Imprensa‘, leiam o candente tema da escuridão jornalística, do ‘apagão‘ imagético, do ‘branco‘ da nossa antes tão corajosa e impoluta mídia, enfim sobre a ausência de imagens que a barbaridade real (até demais) destes nossos dias vai nos legar para o futuro (que, se recuarmos à 2004, nada mais é do que este inquietante presente). Com vocês então:

A Iconografia da Barbárie
Mídia e imagem popular no Brasil

Como um filme mal editado, a Mídia no Brasil começa a sofrer, em muitos aspectos as consequências da ausência de imagens que reflitam o que realmente acontece nas entranhas de nossas grandes cidades, principalmente no interior dos enormes bolsões de exclusão e miséria ainda hoje chamadas, com certo descaso semântico, de ‘comunidades carentes‘.

Que efeitos estas circunstancias produzirão num futuro mais imediato, sobre o acervo de imagens da vida contemporânea de nossas grandes cidades, principalmente Rio e São Paulo; sobre a iconografia de nossa alma urbana em suma?

Que falta estas imagens farão á compreensão de nossa realidade, aquela compreensão tão necessária á formulação de políticas que estimulem nosso desenvolvimento?

Para início de conversa, pode-se supor talvez que, entre outras razões, a circunstância desta nossa carência de imagens reais do cotidiano, foi recentemente instalada pela violenta e absoluta rejeição que os traficantes de drogas – e as diversas outras modalidades de bandidos que hoje infestam o nosso Brasil — passaram a sentir pela imprensa em geral, principalmente por aqueles setores voltados para o registro de imagens, em coberturas jornalísticas que, por força do enorme aguçamento da violência urbana, passaram rapidamente a assumir a condição de cobertura de guerra.

Havia já na moderna iconografia jornalística do Brasil (na filmografia inclusive), por conta dos renitentes (embora sutis) mecanismos de afirmação do nosso elitismo, um certo manto de invisibilidade que encobria, por exemplo, a trágica vida nas favelas, invisibilidade esta encoberta pela criação de uma imagem, idílica, romântica, do favelado cordial, pitoresco e submisso, dominado por meia dúzia de contraventores fuleiros e desorganizados, imagem que talvez nada mais fosse do que uma espécie de projeção de como os intelectuais de nossa iníqua classe média, gostariam que os favelados efetivamente fossem:

Seres miseráveis porém, conformados, bem humorados, e inofensivos.

Foi justamente quando este manto de hipocrisia jornalística parecia se dissipar, que a síndrome Tim Lopes se abateu, de forma definitiva sobre esta arriscada forma de se fazer imprensa no Brasil.

Produzindo sub-repticiamente o registro, flagrando os delitos, o modus operandi da bandidagem, num contexto que já poderia ser descrito, sem nenhum exagero, como um típico estado de guerra, com dois lados empenhados em verdadeiras batalhas de morte; auxiliando (ou sendo utilizada) na produção de certo tipo de retratos do submundo que, por sua contundência, acabavam por se transformar em provas e atos de denúncia direta contra indivíduos de alta periculosidade, nossa imprensa talvez só tenha se dado conta dos enormes riscos – jornalísticos e humanos- contidos nesta sua temerária estratégia, quando Tim Lopes foi barbaramente trucidado por Elias Maluco.

O fato é que, no afã de cumprir – talvez açodadamente – sua função de caçadora de notícias, a imprensa de nossas grandes cidades, passou a divulgar, de maneira muito sistemática, certos segredos estratégicos cruciais para a estabilidade do crime organizado esquecendo-se de que estava envolvida na cobertura de uma guerra e que, neste caso, não poderia autorizar jamais, que seus correspondentes penetrassem, sem apoio policial ou militar, nas linhas inimigas.

Na Teletela de Orwell

Esta ojeriza pela utilização judicial ou comercial de imagens de seu cotidiano, foi crescendo lentamente no meio dos traficantes, ao mesmo tempo em que ia se formando no Brasil, a exemplo do que já ocorria no resto deste nosso globalizado mundo, uma espécie de sociedade “Big Brother”, com a privacidade de cada cidadão (sempre em nome da segurança de todos), sendo controlada por milhares de câmeras e microfones ocultos, gerando em todas as pessoas de bem, uma sensação de contraditória insegurança.

Perdendo o controle da situação e abandonado a imparcialidade (condição difícil, mas essencial à imprensa também em situações de guerra) os jornalistas (fotógrafos, principalmente) passaram a ser vistos como ‘chisnoves‘, espiões em potencial, se transformando, na ótica dos traficantes, em bolas da vez, vítimas preferenciais de mortes exemplares, assassinatos emblemáticos, quase culturais, como efetivamente aconteceu com o hoje mítico Tim Lopes.

É por esta, entre outras razões, que hoje existem apenas lendas, relatos orais do que acontece realmente no interior de um complexo de favelas.

Circula também, a bem da verdade, certo tipo de imagem bem próxima do real (talvez um tanto glamurizada demais) que anda sendo expressa por aí em bons filmes e telefilmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens.

Desde que o controle violento dos traficantes sobre os espaços mais carentes da cidade se agudizou no entanto, rigorosamente nenhuma imagem real – principalmente noturna – pôde ser gerada ou trazida para fora do contexto onde foi produzida (neste ponto um novo preâmbulo com uma pergunta que não quer calar: Haverá uma iconografia autorizada pelas ‘milícias’?).

Outro aspecto importante é que, ao mesmo tempo em que a enorme popularização de máquinas, meios e equipamentos para o registro de imagens virava um fenômeno de consumo no Brasil, o crescente interesse das, agora escaldadas, empresas jornalísticas (principalmente emissoras de TV) pela aquisição das impactantes imagens desta guerra, passou a ser orientado no sentido de racionalizar, ou mesmo anular, todos custos operacionais e humanos diretos, comprando imagens geralmente produzidas por outro interessante personagem de nossas selvagens cidades: O bravo e indefectível “cinegrafista amador”.

É, com efeito, esta conjuntura que acaba por estimular, se não o surgimento, pelo menos a afirmação deste tipo de ‘profissional’ de imprensa, safo, ágil, clandestino, biscateiro especializado na documentação de solenidades comunitárias, batizados, festas de casamento, bailes Funk, etc. indivíduos que, transformados numa espécie de paparazzi de mazelas e tragédias urbanas, logo se transformaram em incansáveis caçadores de qualquer imagem inusitada que tenha interesse jornalístico especial (e o conseqüente valor comercial) – exceto é claro aquelas cuja obtenção signifique o risco da vida ou a certeza da morte.

Ninguém sabe…ninguém viu.

Está se criando por conta disso tudo, uma extensa área de sombra na iconografia de nossas grandes cidades, um apagão provocado pela falta de registros gráficos (fotografia, cinema, TV) retratando o dia á dia, o bem e o mau viver dessa gente, ou até mesmo o que acontece nos espaços públicos onde vivem ou circulam estes milhões de pessoas que o Brasil rico e remediado, hoje já meio apavorado, teima em esconder.

Infelizmente este vazio, muito provavelmente, só poderá ser preenchido um dia, pela pesquisa ou coleta de imagens privadas, registradas por aqueles mesmos cinegrafistas amadores em festas comunitárias, casamentos, álbuns de família, etc. imagens aleatórias, cifradas, censuradas por severíssimas leis ‘do silêncio’, geradas que serão pelas mais vagas motivações e fortuitos interesses , sobre as quais não podemos ainda sequer prever a estética e os conteúdos que conterão porque, serão reflexo da visão estreita, da visão possível, obtida através de um ângulo bem fechado, de dentro destas comunidades, que se tornaram trágicas cidadelas da invisibilidade.

Parece óbvio, pelo menos nos aspectos abordados até aqui, que esta situação só poderá provocar a curto prazo, a confrontação na mídia brasileira de duas iconografias contraditórias mas não excludentes:

Uma hegemônica, que voltará a ser imaginada ou idealizada pelos habituais profissionais criadores de imagens (fotógrafos e cineastas principalmente), segundo sua exclusiva visão estética e ideológica, alimentada por seu interesse comercial evidente e aquela outra, produzida pelos próprios habitantes das tais comunidades carentes (inclusive os traficantes e integrantes de ‘milícias’), anárquica, espécie de iconografia autofágica, movida por códigos de linguagem e conteúdos absolutamente imprevisíveis mas de valor sociológico muito maior.

Não é difícil se concluir portanto que na falta de outras, estas imagens quase endoscópicas ou tomográficas de nossa sociedade, serão essenciais à compreensão de nossas doenças sociais mais graves, pistas vagas porém, quiçá únicas, para almejarmos talvez alguma cura no futuro.

Extrair e compreender as imagens retidas no interior destas nossas cidadelas de invisibilidade será uma tarefa jornalística urgente daqui para a frente. Sem elas não haverá antropologia possível no futuro. Quem sobreviver verá. O melhor cego é aquele que quer ver.

Spírito Santo

Rio, 4 de Janeiro de 2004
(publicado em Observatório da Imprensa em 2005)

Vadico Dançou. Alguém aí sabe quem é o autor das músicas de Noel Rosa?


Só os pianos fortes derretem o sebo das lembranças

Me ocorreu ontem à noite, ouvindo na Internet o piano instigante do amigo Antônio Saraiva, gloriosamente terçando teclas numa rádio de Buenos Aires.

Algo a ver – as proporções devidas bem guardadas – com certo fabuloso  pianista brasileiro injustamente desconhecido até hoje. Lembrei da figura e num zás trás encontrei o vinil que havia garimpado dele num destes sebos de outrora e que guardo com muito carinho até hoje.

(É o tal sebo das lembranças)

Juntaram  o nome à pessoa?Não?

A capa do Vinil – bem modesta e prosaica até para o ouro que contêm – está aí em cima, pra não dizerem que menti. O som a gente um destes ouve por aí (ou por aqui).

Pois é. São coisas do Brasil.  Saibam então, apenas como dica, que uma penca enorme das mais sensacionais melodias de Sambas de nossa música popular são de autoria deste quase  desconhecido músico, curiosamente de ascendência italiana,  registrado que foi num cartório de São Paulo, terra onde nasceu, sob o nada sambístico nome de Oswaldo Gogliano.

Só quando se  esclarece melhor a história, atentando para o apelido artístico da genial figura, gravado na capa do vinil lá em cima é que a memória – pelo menos de alguns – se desanuvia um tico.

_ Ah, já sei! Não é aquele parceiro do Noel Rosa?”

Isto! É bem por aí, mas é pouco ainda. Parem. Se liguem. Prestem bem atenção. Vadico é muito mais. Ele não é ‘apenas’ o parceiro de Noel Rosa. Ele é simplesmente o autor das músicas atribuídas a Noel Rosa, que foi sempre – embora genial sim, vamos reconhecer – ele sim, apenas o letrista.

Brasil de ‘ostracistas’

Esta exagerada atribuição de uma obra tão impressionante e significativa para a nossa música popular apenas àquele parceiro que, circunstancialmente ficou mais famoso – entre outras distorções e mistificações –  é um desvio clássico, crasso mesmo na história de nossa música popular. Ao que parece o caso de Vadico é, a este respeito, emblemático.

(E paro por aqui. Se continuar pensando nisto, me aborreço.)

Deixo vocês então com a breve biografia de Vadico escrita em 1956 pelo já atento poético e diplomático Vinícius de Moraes, na própria contracapa deste vinil clássico (o qual não dou, não vendo, não empresto).

O que? Antonio Saraiva? Ah, este é mais fácil de se encontrar. Nem é preciso mais gravar disco na Continental nem Vinícius de Moraes pra nos apresentar. Basta linkar aqui, ali ou acolá.

( Aliás, falando nisto, eu e Saraiva vamos ter que dar um jeito de linkar o Vadico nesta rede também. Se os ostracistas de plantão disserem que fomos nós, saltamos de banda e negamos tudo… até a morte.)

Dançando com Vadico”

O disco

Nem todo mundo sabe que a extraordinária voga alcançada pelo imortal Noel Rosa, na última década, voga que atingiu tôdas as classes, em todo o País, deve-se em parte à música de seu maior parceiro, o nosso grande Vadico.

Oswaldo Gogliano, como é seu nome, achava-se então nos Estados Unidos, inteiramente alheio ao fato de que sambas seus com letra de Noel como ‘Feitiço da Vila’, ‘Conversa de Botequim’, ‘Cem Mil Réis’, ‘Provei’, ‘Pra que mentir’, ‘mais um Samba Popular’, ‘Quantos Beijos’ e ‘Tarzan, Filho do Alfaiate” (sobretudo os pimeiros e ainda ‘Feitio de Oração’, cuja música é de parceria), o juntavam enormemente ao prestígio social justamente conquistado pelo poeta da Vila Isabel.

Nem todo mundo sabe tão pouco, que enquanto se processava casualmente essa injustiça, debruçado anos a fio sobre o piano de sua casa em Hollywood, tal como o conheci nas boas noites em que ia visitá-lo, estudava, sem parar, harmonia, contraponto, fuga, composição, orquestração sob a orientação de seu mestre Castelnuovo-Tedesco, grande da música contemporânea.

Esta vocação vem de longe. Desde menino, em São Paulo onde nasceu, o único horizonte de Vadico foi a pauta musical. Mas como é fatal para todo sambista que se preza, a experiencia carioca seria um fator determinante na formação  do seu talento popular.

Em 1932, numa gravação para a Odeon, Vadico e Noel encontraram-se pela primeira vez. E é curioso lembrar que o último Samba da dupla, ‘Pra que mentir’, surgiu sem que Noel, já falecido, conhecesse a música que Vadico fez para a sua letra.

Foi em 1939 que Vadico partiu para Nova York, integrando a Orquestra de Romeu Silva, para exibições na Feira Mundial daquela cidade. De lá, em 1940, o compositor seguiu para Hollywood por conta própria como faz sempre na vida. Nove anos depois a bailarina negra Katherine Dunham devia conhecê-lo e  convidá-lo para reger seus espetáculos de ballet expressionista pelo mundo inteiro. Em sua companhia fez as duas Américas e depois a Europa.

Andou por muitos países e viu muitos povos. Escreveu muita coisa inédita. No Chile regeu os ‘Chôros’ e outras composições de sua autoria coma Orquestra Sinfônica de Santiago. Em São Paulo tomou a batuta da Orquestra de Concertos para dirigir seu ‘ Prelúdio e Fuga’. A partir de 1954 fixou-se no Brasil, onde fica trançando entre as capitais paulista e carioca.

Foi sem dúvida uma ótima idéia da Continental gravar êste disco de grandes Sambas para dançar, com Vadico ao piano.

O piano de vadico é dança pura. A experiência estrangeira- que muito serviu para enriquecer os meios de expressão harmônica do sambista de ‘Feitiço da Vila’ e atualmente dos esplêndisos ‘Prece’, ‘Coração, Atenção!’ e ‘Revolta’ (com Marino Pinto); ‘Antigamente’ (com Jarbas Mello) e ‘Guanabara’ (com Aloísio de Oliveira), – não lhe deformou, em absoluto a sensibilidade brasileira, de que ele é um dos maiores defensores e intérpretes, dentro de nossa música popular.

Usando, além de piano, pistão, clarinete, saxe-tenor, trombone, contrabaixo, violão elétrico, bateria e quatro ritmistas na execução do eterno ‘Agora é Cinzas’, de Bide e Marçal e ‘Minha Cabrocha’, de Lamartine babo (‘acrescidos nos demais sambas de um saxe-alto e de um saxe-barítono’) Vadico conseguiu efeitos de grande originalidade como o solo a três vozes (clarinete, violão elétrico e piano) dos Sambas ‘Aos pés da Santa Cruz’ de Marino Pinto e Zé da Zilda e ‘Vai-te Embora’, de Nonô e Francisco Mattoso, sendo que neste último é interessante notar o desenho melódico do saxe-barítono duas oitavas abaixo.

Zezinho (Jorge Delphino Filho), responsável pela parte cantada, é figura que já dispensa apresentação. Carioca do Estácio iniciou-se em música em 1942, aqui no Rio, gravando na Continental, com Vadico, e ‘Não Sobra Um Pedaço’ de Bororó.

Todos  os frequentadores do extinto ‘Vogue’ lembram-se certamente da simpática figura de Zézinho, pois o talentoso cantor ali atuou de 1951 a 1955.”

Vinícius de Moraes /1956

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Spírito Santo

Dezembro 2010


Funk na cadeia! População apoia a prisão de funkeiros


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População apoia a prisão de funkeiros ‘proibidões’

Cala-te boca

Segundo pesquisa no jornal O Globo on line que eu acabo de acessar, mais de 80% das pessoas abominam o Funk ‘proibidão’, e apoiam a prisão dos funkeiros simplesmente por praticarem este tipo de manifestação (curiosamente é quase o mesmo índice de aprovação do presidente Lula da Silva).

Tem gente que não está nem aí, mas para mim o precedente é gravíssimo.

Excetuando-se a censura da ditadura militar, a criminalização e a repressão oficial e sistemática de uma prática cultural – só existiu (assim mesmo de forma bem menos direta do que o que ocorre hoje) com a perseguição às manifestações culturais de escravos e ex escravos (à prática do Candomblé e do Samba) na Corte do Rio de Janeiro e em Salvador, Bahia nos anos seguintes à abolição da escravatura.

Tem gente que se esqueceu (ou não liga), mas a alegação das autoridades da época era, rigorosamente a mesma: ‘feiticeiros‘ candoblecistas e sambistas ‘desocupados faziam apologia ao crime e incitavam a desordem e a violência nas ruas.

Constragedoramente constato agora mesmo que não se conhece nenhuma enquete (cartas de leitores de jornais, etc) que tivesse atestado naquele final do século 19 que a população apoiava as prisões de sacerdotes e sambistas e todos aqueles atos repressivos que, se sabe hoje, eram atitutes ditatoriais, truculentas, racistas e inaceitáveis para cidadãos de bom senso.

Hoje a população (a maioria de forma tristemente anônima, como no caso desta pesquisa) endossa e apoia a repressão à cultura de um grupo. O mais curioso é que o endosso mais enfático à esta repressão vem de setores culturais supostamente intelectuais e esclarecidos, entre eles o de algumas pessoas que se dizem fervorosas defensores da cultura popular – e da cultura negra em especial –  da liberdade de expressão e outras bandeiras de ocasião. Alegam estes, de forma francamente intolerante que a música praticada pelos funkeiros dos ‘proibidões’ é de baixa qualidade ou que, nem mesmo música é.

_”Cadeia para eles!” _ vociferam.

(Ih… esqueci de dizer que truculentos de outrora também diziam que Samba era ‘música que não prestava’, que era lixo cultural, ou – oh, arcaica coincidencia! – que ‘nem musica era‘.)

Ou seja, se um grupo considera a música do outro imperfeita, ruim ou políticamente incorreta endossa-se a prisão do artista pela polícia ou pelo exército.

Se vivo fosse, Victor Jara, aquele artista que antes de ser morto pela ditadura chilena teve as mãos fraturadas (tocava violão) concordaria com isto? Geraldo Vandré, aquele trágico autor daquela inofensiva canção tornada hino de guerra pela ditadura militar concordaria com isto?

Ah…já sei o que dirão: Que absurdo! Que exagero! Comparar reles funkeiros com heróis da canção popular universal!

Sei não.

Apenas um opinião pessoal, mas é lamentável que pleno século 21 exista gente atraída por esta onda neo-obscurantista que nos ronda. Maioria silenciosa, que vai se formando motivada não se sabe ainda por que ou por quem, não dá mais para sermos ingênuos de achar que esta gente é apenas ignorante ou cega.

Se alguém aí souber onde isto vai dar me avise. Musico e compositor que ainda sou – e pretendo ser por mais um pouco – preciso saber qual é a linha politicamente correta, autorizada, carimbada e permitida para, se for o caso me calar (tenho trauma de cadeia) ou peitar.

(Peitarei sim, claro, por pura teimosia, mas avisado e com um pé atrás, sabem como é… dói menos).

Veja os números da pesquisa de O Globo:

“Você concorda com a prisão de MCs dos chamados funks ‘proibidões’?

SIM, pois estas músicas fazem apologia ao tráfico e incitam ao crime= 83.60%

NÃO, as letras apenas refletem uma realidade das comunidades de baixa renda=14.98%

NÃO SEI =1.42%

Spírito Santo
Dezembro 2010