Segredo de três o diabo fez. O Wikileaks na peneira

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Abaixo a Memória Curta, por favor.

Alguns vídeos aos quais temos tido acesso via Wikileaks são bastante assustadores. Considero esta unânime e universal onda de solidariedade que o site tem recebido bem positiva sim, mas acho que um pouco de serenidade e ‘pé atrás’ nesta hora não faz mal a ninguém. Junto deste apoio, por enquanto irrestrito, não custa nada juntar também alguma dose de senso crítico.

Por exemplo: Este tipo de vídeo que faz explodir na nossa cara os  chamados  ‘efeitos colaterais’ das estúpidas guerras dos Estados Unidos, país transformado – não devemos esquecer – sob a anuencia da maioria das ‘Nações Unidas’ numa espécie de ‘Nação-Meganha’ do mundo, com tropas treinadas, equipadas e especializadas para realizar a ocupação de territórios e a posterior implantação de ‘UPPs’ no planeta inteiro, não são exatamente uma novidade.

Me lembro bem claramente ainda de colateralidades  similares desde a Guerra do Vietnam (‘Massacre de My Lai’) que demoravam um pouco mais para vazar, é verdade, mas que vazavam sim. O saudoso hebdomadário ‘O Pasquim’ cansou de nos conclamar no fim dos anos 1960 a ter vergonha na cara e protestar contra a odiosa covardia daquela guerra de David contra Golias.

E cá entre nós: Já vimos dezenas de vídeos como este do fuzilamento dos repórteres da Reuters, vazados para a imprensa convencional bem recentemente. São muito comuns os vazamentos das covardes burradas e mancadas das tropas americanas nas Guerras do Iraque e do Afeganistão – a expressão ‘fogo amigo’ , aliás, nasceu destes vazamentos, lembram?- a maioria das vezes, já no dia seguinte ao acontecido. A CNN já cansou de ‘explodir’ estes vídeos em p&b na nossa hoje já quase enfadada cara.

Desde a ‘queima de fogos’ de Colin Powell na operação ‘Tempestade no Deserto’ que demoliu pela primeira vez a Bagdá de Sadam Hussein, que as Guerras têm sido o ‘reality show’ mais recorrente e de maior audiência em nossa mídia ligeira.

Bem, daí surgiu o Wikileads

Muita coisa tem se falado e debatido sobre o assunto. Com jeito de paradigma quebrado, as questões levantadas pela prisão de Assange são a conversa mais ‘must’ do momento, mas a grande novidade do Wikileaks talvez sejam apenas estes inusitados vazamentos em cascata de documentos diplomáticos, segredos antes religiosamente guardados (geralmente protegidos por alguma lei constitucional), que só vinham à público – as vezes com intrigantes tarjas pretas censurando os trechos mais cabeludos – após a liberação sob um prazo legal de 15, 20 anos.

Logo, a quebra destes preceitos legais – o ato iconoclástico de Assange – que ocultavam de nós, vis mortais, para o bem ou para o mal, o conteúdo destes documentos diplomáticos oficiais, pode representar – ou não, como saber? – algum perigo de, como diante de um trem desembestado, sermos todos nós – e não só Assange e seu Wikileaks – atropelados por retaliações poderosas, pretextos e desculpas para censuras ditatoriais as mais diversas, de vários matizes (e nesta hora, não posso negar, me lembrei arrepiado dos planos de ‘Controle de Mídia’ alimentados pelo pessoal do Luiz Ignácio).

Se a cancela já foi quebrada é recomendável, portanto que se olhe para ambos os lados antes de atravessar os trilhos, não é não? Aos que não são suicidas sugiro que algumas questões sejam, por isto mesmo consideradas

A principal delas é que as informações contidas nos docs. diplomáticos vazados pelo Wikileaks carecem, na maioria das vezes é óbvio, de algum tipo de filtro ou laudo de especialistas (historiadores, analistas políticos, jornalistas, etc.) para poderem ser consideradas, realmente sérias ou relevantes.

A segunda questão é que as ilações e as eventuais opiniões de autoridades que se julgavam protegidas pela privacidade de seus procedimentos internos, são meramente circunstanciais, quase fofocas irrelevantes.  Diplomacia, como todo mundo sabe é jogo puro, pôquer, briga de foice no escuro e a escamoteação de trunfos e cartas, o blefe e a  dissimulação, além de outros artifícios, não representam necessariamente a verdade dos fatos, nem tampouco o jogo que está sendo, foi ou será, efetivamente jogado.

Nós mesmos, falamos mal horrores dos amigos – e até mesmo da nossa própria santa mãezinha – escondidos atrás do tapume de alguma intimidade fortuita, alguma privacidade garantida.  Todo mundo sabe que ‘segredo de três o diabo fez’.

Finalmente, a terceira questão – e esta bem mais séria – é que, para não sermos pegos de surpresa, precisamos estar atentos sobre em que os métodos de acesso usados pelo Wikileaks (delação anônima de funcionários insatisfeitos ou acesso a dados sigilosos por meio da atuação de hackers) vão influir na liberdade e, principalmente na credibilidade da informação que circula pela rede mundial de computadores, na nossa liberdade de expressão em fim.

Neste aspecto o Wikileaks realmente abre uma janela interessante para se refletir sobre as idiossincrasias desta nossa tão alardeada Democracia Moderna, hoje tão afeita a criação de frentes de denúncia e campanhas de combate à novas ‘Socio-Fobias‘ sofridas por discutíveis minorias, mas que, a rigor, pouca importância parece estar dando à ‘Liberdadefobia’ de uma maneira geral (a atropelada liberdade das Maiorias), denotando uma tendencia cada vez mais comum de poderosos líderes de não menos poderosas nações, negligenciarem descaradamente o direito irrevogável das pessoas, de populações inteiras, à saúde, à educação, à moradia decente, à alimentação, à vida civilizada enfim.

Ao que tudo indica, com o sistema e a ideologia capitalista se tornando processos hegemônicos, a chamada ‘Democracia dos Povos’ ficou sendo um anseio muito mais imponderável, quase improvável. A inegável eficiência econômica do Capitalismo (e o respectivo fracasso, neste aspecto, do Socialismo) não significou – e ao que parece jamais significará – garantia alguma de bem estar irrestrito e felicidade geral para a maioria das pessoas da Terra.

Com a alma vendida ao Diabo, as pessoas em geral se tornaram muito mais submissas e conformadas do que no tempo da Guerra Fria, quando o chamado ‘Mundo Livre’ vendia o peixe de que era a única panacéia para a Liberdade e a Prosperidade da humanidade.

É que tinha muita gente que dizia Não.

Hoje em dia, por mais irônico que possa parecer, muito mais do que Paz e Concórdia, o que nos têm faltado mesmo parece ser o Conflito, o Questionamento e (para usar um chavão odiado por quem está no poder) o Confronto entre as classes e as pessoas,  a Guerra Santa, a Jihad irrestrita e laica dos que nada tem contra os que têm tudo e querem cada vez mais.

Pode até ser uma reação violenta. Como poderia ter dito Nelson Mandela,  a violencia não é desejável não, mas já que é assim, porque não?

(Bem… a não ser que você não considere violencia um míssil transformar em farelo uma família iraquiana inteira, crianças, velhos, mulheres…).

Simples assim.

(E não julguem que isto é marxismo requentado não. É que por uma lei prosaica da natureza – da física mais propriamente, se me bem entendem – nada se move do lugar quando todos estão acomodados, cooptados e submissos como temos estado nestes últimos anos).

O maior sentido, o mais revolucionário aspecto suscitado pelo advento bombástico do site Wikileaks talvez seja, por tudo isto, um sinal remoto, equívoco e ambíguo ainda  de que está chegando a hora de começarmos a nos rebelar, verdadeiramente contra alguma coisa que a nem sabemos ainda direito o que é.

Rebeldes sem causa e sem bandeira somos, disto já sabemos, mas… até quando?

Até algum Natal destes aí, entre os muitos que virão, tomara.

Spírito Santo
Dezembro 2010

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~ por Spirito Santo em 15/12/2010.

2 Respostas to “Segredo de três o diabo fez. O Wikileaks na peneira”

  1. É Allison, mas é exatamente aí que mora o perigo, achar que existe alguma instancia de poder com capaciadde de isenção e lisura para arbitrar o que é ou deixa de ser liberdade de expressão. Esta conversa de ‘grande mídia’ esconde, exatamente esta armadilha. Os eventuais equívocos da mídia só podem ser arbitrados por nós, os leitores consumidores. Ainda mais agora que, com a Internet podemos atuar e ser contra livremente, com quase tanto poder quanto os potentados da imprensa. O caso Wikileaks é a prova de que não existe poder da ‘Grande Mídia’ algum, existe é interesse de gorvernos em limitar a nossa liberadde de expressão (como fazem com Assange) em benefício próprio. É o que eu acho.

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  2. Só uma questão para reflexão: É preciso entender a grande mídia na situação de institucionalização de um poder. Mesmo sendo nós a favor da liberdade de expressão, temos noção que esta não nos é fornecida pela grande mídia, ao contrário, é antagônica a democratização dos meios de comunicação e tem suas relações com o que se convencionou chamar o AI-5 Digital, que anda pelo Congresso.

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