Vadico Dançou. Alguém aí sabe quem é o autor das músicas de Noel Rosa?

Só os pianos fortes derretem o sebo das lembranças

Me ocorreu ontem à noite, ouvindo na Internet o piano instigante do amigo Antônio Saraiva, gloriosamente terçando teclas numa rádio de Buenos Aires.

Algo a ver – as proporções devidas bem guardadas – com certo fabuloso  pianista brasileiro injustamente desconhecido até hoje. Lembrei da figura e num zás trás encontrei o vinil que havia garimpado dele num destes sebos de outrora e que guardo com muito carinho até hoje.

(É o tal sebo das lembranças)

Juntaram  o nome à pessoa?Não?

A capa do Vinil – bem modesta e prosaica até para o ouro que contêm – está aí em cima, pra não dizerem que menti. O som a gente um destes ouve por aí (ou por aqui).

Pois é. São coisas do Brasil.  Saibam então, apenas como dica, que uma penca enorme das mais sensacionais melodias de Sambas de nossa música popular são de autoria deste quase  desconhecido músico, curiosamente de ascendência italiana,  registrado que foi num cartório de São Paulo, terra onde nasceu, sob o nada sambístico nome de Oswaldo Gogliano.

Só quando se  esclarece melhor a história, atentando para o apelido artístico da genial figura, gravado na capa do vinil lá em cima é que a memória – pelo menos de alguns – se desanuvia um tico.

_ Ah, já sei! Não é aquele parceiro do Noel Rosa?”

Isto! É bem por aí, mas é pouco ainda. Parem. Se liguem. Prestem bem atenção. Vadico é muito mais. Ele não é ‘apenas’ o parceiro de Noel Rosa. Ele é simplesmente o autor das músicas atribuídas a Noel Rosa, que foi sempre – embora genial sim, vamos reconhecer – ele sim, apenas o letrista.

Brasil de ‘ostracistas’

Esta exagerada atribuição de uma obra tão impressionante e significativa para a nossa música popular apenas àquele parceiro que, circunstancialmente ficou mais famoso – entre outras distorções e mistificações –  é um desvio clássico, crasso mesmo na história de nossa música popular. Ao que parece o caso de Vadico é, a este respeito, emblemático.

(E paro por aqui. Se continuar pensando nisto, me aborreço.)

Deixo vocês então com a breve biografia de Vadico escrita em 1956 pelo já atento poético e diplomático Vinícius de Moraes, na própria contracapa deste vinil clássico (o qual não dou, não vendo, não empresto).

O que? Antonio Saraiva? Ah, este é mais fácil de se encontrar. Nem é preciso mais gravar disco na Continental nem Vinícius de Moraes pra nos apresentar. Basta linkar aqui, ali ou acolá.

( Aliás, falando nisto, eu e Saraiva vamos ter que dar um jeito de linkar o Vadico nesta rede também. Se os ostracistas de plantão disserem que fomos nós, saltamos de banda e negamos tudo… até a morte.)

Dançando com Vadico”

O disco

Nem todo mundo sabe que a extraordinária voga alcançada pelo imortal Noel Rosa, na última década, voga que atingiu tôdas as classes, em todo o País, deve-se em parte à música de seu maior parceiro, o nosso grande Vadico.

Oswaldo Gogliano, como é seu nome, achava-se então nos Estados Unidos, inteiramente alheio ao fato de que sambas seus com letra de Noel como ‘Feitiço da Vila’, ‘Conversa de Botequim’, ‘Cem Mil Réis’, ‘Provei’, ‘Pra que mentir’, ‘mais um Samba Popular’, ‘Quantos Beijos’ e ‘Tarzan, Filho do Alfaiate” (sobretudo os pimeiros e ainda ‘Feitio de Oração’, cuja música é de parceria), o juntavam enormemente ao prestígio social justamente conquistado pelo poeta da Vila Isabel.

Nem todo mundo sabe tão pouco, que enquanto se processava casualmente essa injustiça, debruçado anos a fio sobre o piano de sua casa em Hollywood, tal como o conheci nas boas noites em que ia visitá-lo, estudava, sem parar, harmonia, contraponto, fuga, composição, orquestração sob a orientação de seu mestre Castelnuovo-Tedesco, grande da música contemporânea.

Esta vocação vem de longe. Desde menino, em São Paulo onde nasceu, o único horizonte de Vadico foi a pauta musical. Mas como é fatal para todo sambista que se preza, a experiencia carioca seria um fator determinante na formação  do seu talento popular.

Em 1932, numa gravação para a Odeon, Vadico e Noel encontraram-se pela primeira vez. E é curioso lembrar que o último Samba da dupla, ‘Pra que mentir’, surgiu sem que Noel, já falecido, conhecesse a música que Vadico fez para a sua letra.

Foi em 1939 que Vadico partiu para Nova York, integrando a Orquestra de Romeu Silva, para exibições na Feira Mundial daquela cidade. De lá, em 1940, o compositor seguiu para Hollywood por conta própria como faz sempre na vida. Nove anos depois a bailarina negra Katherine Dunham devia conhecê-lo e  convidá-lo para reger seus espetáculos de ballet expressionista pelo mundo inteiro. Em sua companhia fez as duas Américas e depois a Europa.

Andou por muitos países e viu muitos povos. Escreveu muita coisa inédita. No Chile regeu os ‘Chôros’ e outras composições de sua autoria coma Orquestra Sinfônica de Santiago. Em São Paulo tomou a batuta da Orquestra de Concertos para dirigir seu ‘ Prelúdio e Fuga’. A partir de 1954 fixou-se no Brasil, onde fica trançando entre as capitais paulista e carioca.

Foi sem dúvida uma ótima idéia da Continental gravar êste disco de grandes Sambas para dançar, com Vadico ao piano.

O piano de vadico é dança pura. A experiência estrangeira- que muito serviu para enriquecer os meios de expressão harmônica do sambista de ‘Feitiço da Vila’ e atualmente dos esplêndisos ‘Prece’, ‘Coração, Atenção!’ e ‘Revolta’ (com Marino Pinto); ‘Antigamente’ (com Jarbas Mello) e ‘Guanabara’ (com Aloísio de Oliveira), – não lhe deformou, em absoluto a sensibilidade brasileira, de que ele é um dos maiores defensores e intérpretes, dentro de nossa música popular.

Usando, além de piano, pistão, clarinete, saxe-tenor, trombone, contrabaixo, violão elétrico, bateria e quatro ritmistas na execução do eterno ‘Agora é Cinzas’, de Bide e Marçal e ‘Minha Cabrocha’, de Lamartine babo (‘acrescidos nos demais sambas de um saxe-alto e de um saxe-barítono’) Vadico conseguiu efeitos de grande originalidade como o solo a três vozes (clarinete, violão elétrico e piano) dos Sambas ‘Aos pés da Santa Cruz’ de Marino Pinto e Zé da Zilda e ‘Vai-te Embora’, de Nonô e Francisco Mattoso, sendo que neste último é interessante notar o desenho melódico do saxe-barítono duas oitavas abaixo.

Zezinho (Jorge Delphino Filho), responsável pela parte cantada, é figura que já dispensa apresentação. Carioca do Estácio iniciou-se em música em 1942, aqui no Rio, gravando na Continental, com Vadico, e ‘Não Sobra Um Pedaço’ de Bororó.

Todos  os frequentadores do extinto ‘Vogue’ lembram-se certamente da simpática figura de Zézinho, pois o talentoso cantor ali atuou de 1951 a 1955.”

Vinícius de Moraes /1956

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Spírito Santo

Dezembro 2010


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~ por Spirito Santo em 19/12/2010.

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