A Iconografia da Barbárie

Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está protegido sob uma licença Criative Commons

BARBÁRIE TAMBÉM É CULTURA

Estamos apresentando hoje um tema que apesar de, enquanto peça de humor, não ter a menor graça, nos ajudará sem dúvida nenhuma a compreender, definitivamente, porque talvez devêssemos começar a nos livrar logo (além da hipocrisia, do cinismo e de outras manias sub-urbanas) de algumas expressões outrora tão jocosas e pitorescas  – ó jocosidade brasileira hoje tão efêmera!-  tais como, por exemplo, ‘Bárbaro!’ (quando nos referíamos a uma coisa tão boa, que chegava a ser fantástica) ou a gauchíssima “Barbaridade!” (com um sentido mais ou menos igual, só que exagerando mais ainda), ou mesmo “Sinistro!” (algo assim como ‘Incrível!’, ‘Pra lá de bom’!), ou mesmo “Terror”, ‘Horror‘, ‘Alucinante‘ e outras palavrinhas;

É que que, ditas assim, no calor de uma conversa sadia e sem compromisso, estas palavras podem agora assustar alguns desavisados, estressados, como estamos ficando nós todos hoje em dia -principalmente os cariocas – que de hilários piadistas de plantão, antes cuca-frescas profissionais, nos tornamos pilhas de nervos, literalmente perdidos como cegos em tiroteio, ouvindo a briga de foice no escuro, abaixando aqui e ali a cada zás das foices (vai que uma delas é a daquela ‘velha dama‘ que nos quer a todos, um belo dia, em sua fria companhia?).

Coisa de louco!

Vamos nessa então sem fazer muito estardalhaço, enquanto vivos estamos (o episódio de hoje aliás, passa ao largo destas palavras que não se deve mais sequer ousar falar).

Escrito no já distante 4 de Janeiro de 2004 e publicado em 2005 (nesta versão de 2010 há uma brevíssima atualização), num jornal on line chamado ‘Observatório da Imprensa‘, leiam o candente tema da escuridão jornalística, do ‘apagão‘ imagético, do ‘branco‘ da nossa antes tão corajosa e impoluta mídia, enfim sobre a ausência de imagens que a barbaridade real (até demais) destes nossos dias vai nos legar para o futuro (que, se recuarmos à 2004, nada mais é do que este inquietante presente). Com vocês então:

A Iconografia da Barbárie
Mídia e imagem popular no Brasil

Como um filme mal editado, a Mídia no Brasil começa a sofrer, em muitos aspectos as consequências da ausência de imagens que reflitam o que realmente acontece nas entranhas de nossas grandes cidades, principalmente no interior dos enormes bolsões de exclusão e miséria ainda hoje chamadas, com certo descaso semântico, de ‘comunidades carentes‘.

Que efeitos estas circunstancias produzirão num futuro mais imediato, sobre o acervo de imagens da vida contemporânea de nossas grandes cidades, principalmente Rio e São Paulo; sobre a iconografia de nossa alma urbana em suma?

Que falta estas imagens farão á compreensão de nossa realidade, aquela compreensão tão necessária á formulação de políticas que estimulem nosso desenvolvimento?

Para início de conversa, pode-se supor talvez que, entre outras razões, a circunstância desta nossa carência de imagens reais do cotidiano, foi recentemente instalada pela violenta e absoluta rejeição que os traficantes de drogas – e as diversas outras modalidades de bandidos que hoje infestam o nosso Brasil — passaram a sentir pela imprensa em geral, principalmente por aqueles setores voltados para o registro de imagens, em coberturas jornalísticas que, por força do enorme aguçamento da violência urbana, passaram rapidamente a assumir a condição de cobertura de guerra.

Havia já na moderna iconografia jornalística do Brasil (na filmografia inclusive), por conta dos renitentes (embora sutis) mecanismos de afirmação do nosso elitismo, um certo manto de invisibilidade que encobria, por exemplo, a trágica vida nas favelas, invisibilidade esta encoberta pela criação de uma imagem, idílica, romântica, do favelado cordial, pitoresco e submisso, dominado por meia dúzia de contraventores fuleiros e desorganizados, imagem que talvez nada mais fosse do que uma espécie de projeção de como os intelectuais de nossa iníqua classe média, gostariam que os favelados efetivamente fossem:

Seres miseráveis porém, conformados, bem humorados, e inofensivos.

Foi justamente quando este manto de hipocrisia jornalística parecia se dissipar, que a síndrome Tim Lopes se abateu, de forma definitiva sobre esta arriscada forma de se fazer imprensa no Brasil.

Produzindo sub-repticiamente o registro, flagrando os delitos, o modus operandi da bandidagem, num contexto que já poderia ser descrito, sem nenhum exagero, como um típico estado de guerra, com dois lados empenhados em verdadeiras batalhas de morte; auxiliando (ou sendo utilizada) na produção de certo tipo de retratos do submundo que, por sua contundência, acabavam por se transformar em provas e atos de denúncia direta contra indivíduos de alta periculosidade, nossa imprensa talvez só tenha se dado conta dos enormes riscos – jornalísticos e humanos- contidos nesta sua temerária estratégia, quando Tim Lopes foi barbaramente trucidado por Elias Maluco.

O fato é que, no afã de cumprir – talvez açodadamente – sua função de caçadora de notícias, a imprensa de nossas grandes cidades, passou a divulgar, de maneira muito sistemática, certos segredos estratégicos cruciais para a estabilidade do crime organizado esquecendo-se de que estava envolvida na cobertura de uma guerra e que, neste caso, não poderia autorizar jamais, que seus correspondentes penetrassem, sem apoio policial ou militar, nas linhas inimigas.

Na Teletela de Orwell

Esta ojeriza pela utilização judicial ou comercial de imagens de seu cotidiano, foi crescendo lentamente no meio dos traficantes, ao mesmo tempo em que ia se formando no Brasil, a exemplo do que já ocorria no resto deste nosso globalizado mundo, uma espécie de sociedade “Big Brother”, com a privacidade de cada cidadão (sempre em nome da segurança de todos), sendo controlada por milhares de câmeras e microfones ocultos, gerando em todas as pessoas de bem, uma sensação de contraditória insegurança.

Perdendo o controle da situação e abandonado a imparcialidade (condição difícil, mas essencial à imprensa também em situações de guerra) os jornalistas (fotógrafos, principalmente) passaram a ser vistos como ‘chisnoves‘, espiões em potencial, se transformando, na ótica dos traficantes, em bolas da vez, vítimas preferenciais de mortes exemplares, assassinatos emblemáticos, quase culturais, como efetivamente aconteceu com o hoje mítico Tim Lopes.

É por esta, entre outras razões, que hoje existem apenas lendas, relatos orais do que acontece realmente no interior de um complexo de favelas.

Circula também, a bem da verdade, certo tipo de imagem bem próxima do real (talvez um tanto glamurizada demais) que anda sendo expressa por aí em bons filmes e telefilmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens.

Desde que o controle violento dos traficantes sobre os espaços mais carentes da cidade se agudizou no entanto, rigorosamente nenhuma imagem real – principalmente noturna – pôde ser gerada ou trazida para fora do contexto onde foi produzida (neste ponto um novo preâmbulo com uma pergunta que não quer calar: Haverá uma iconografia autorizada pelas ‘milícias’?).

Outro aspecto importante é que, ao mesmo tempo em que a enorme popularização de máquinas, meios e equipamentos para o registro de imagens virava um fenômeno de consumo no Brasil, o crescente interesse das, agora escaldadas, empresas jornalísticas (principalmente emissoras de TV) pela aquisição das impactantes imagens desta guerra, passou a ser orientado no sentido de racionalizar, ou mesmo anular, todos custos operacionais e humanos diretos, comprando imagens geralmente produzidas por outro interessante personagem de nossas selvagens cidades: O bravo e indefectível “cinegrafista amador”.

É, com efeito, esta conjuntura que acaba por estimular, se não o surgimento, pelo menos a afirmação deste tipo de ‘profissional’ de imprensa, safo, ágil, clandestino, biscateiro especializado na documentação de solenidades comunitárias, batizados, festas de casamento, bailes Funk, etc. indivíduos que, transformados numa espécie de paparazzi de mazelas e tragédias urbanas, logo se transformaram em incansáveis caçadores de qualquer imagem inusitada que tenha interesse jornalístico especial (e o conseqüente valor comercial) – exceto é claro aquelas cuja obtenção signifique o risco da vida ou a certeza da morte.

Ninguém sabe…ninguém viu.

Está se criando por conta disso tudo, uma extensa área de sombra na iconografia de nossas grandes cidades, um apagão provocado pela falta de registros gráficos (fotografia, cinema, TV) retratando o dia á dia, o bem e o mau viver dessa gente, ou até mesmo o que acontece nos espaços públicos onde vivem ou circulam estes milhões de pessoas que o Brasil rico e remediado, hoje já meio apavorado, teima em esconder.

Infelizmente este vazio, muito provavelmente, só poderá ser preenchido um dia, pela pesquisa ou coleta de imagens privadas, registradas por aqueles mesmos cinegrafistas amadores em festas comunitárias, casamentos, álbuns de família, etc. imagens aleatórias, cifradas, censuradas por severíssimas leis ‘do silêncio’, geradas que serão pelas mais vagas motivações e fortuitos interesses , sobre as quais não podemos ainda sequer prever a estética e os conteúdos que conterão porque, serão reflexo da visão estreita, da visão possível, obtida através de um ângulo bem fechado, de dentro destas comunidades, que se tornaram trágicas cidadelas da invisibilidade.

Parece óbvio, pelo menos nos aspectos abordados até aqui, que esta situação só poderá provocar a curto prazo, a confrontação na mídia brasileira de duas iconografias contraditórias mas não excludentes:

Uma hegemônica, que voltará a ser imaginada ou idealizada pelos habituais profissionais criadores de imagens (fotógrafos e cineastas principalmente), segundo sua exclusiva visão estética e ideológica, alimentada por seu interesse comercial evidente e aquela outra, produzida pelos próprios habitantes das tais comunidades carentes (inclusive os traficantes e integrantes de ‘milícias’), anárquica, espécie de iconografia autofágica, movida por códigos de linguagem e conteúdos absolutamente imprevisíveis mas de valor sociológico muito maior.

Não é difícil se concluir portanto que na falta de outras, estas imagens quase endoscópicas ou tomográficas de nossa sociedade, serão essenciais à compreensão de nossas doenças sociais mais graves, pistas vagas porém, quiçá únicas, para almejarmos talvez alguma cura no futuro.

Extrair e compreender as imagens retidas no interior destas nossas cidadelas de invisibilidade será uma tarefa jornalística urgente daqui para a frente. Sem elas não haverá antropologia possível no futuro. Quem sobreviver verá. O melhor cego é aquele que quer ver.

Spírito Santo

Rio, 4 de Janeiro de 2004
(publicado em Observatório da Imprensa em 2005)

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s