100 anos do Natal da Chibata

O contexto era algo parecido com o clima que vivemos agora.

A cidade do Rio de Janeiro vivia ainda um clima de periódicas revoltas populares, entre as quais a mais famosa foi a Revolta da Vacina.

O processo denominado ‘Bota Abaixo’, caracterizado pela expulsão em massa da população mais pobre que habitava o que é hoje o centro comercial da Cidade do Rio de Janeiro, com a demolição de todas as suas habitações – ação governamental que está na raiz do desenfreado processo de favelização (leia no link) atual – se concretiza com a inauguração da ‘Avenida Central’ (hoje Av.Rio Branco) e inúmeros prédios estilosos entre os quais um Teatro Municipal bordado ouro. O mote propagandístico do ‘Bota Abaixo’ era:

O Rio civiliza-se!

Em 1910, sob o pretexto da repressão aos marujos da Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto, o’ Almirante Negro‘, o governo aprisiona populares ‘desocupados‘, operários e motorneiros de bonde grevistas, capoeiristas, prostitutas, etc. qualquer pessoa incômoda ao regime e, simplesmente aprisiona um grande grupo delas num navio cargueiro que as levaria para o degredo e a morte nas selvas do Acre.

João Cândido com mais 17 companheiros, por força de protestos da embaixada inglesa (João havia feito um curso de especialização em Liverpool e fizera amigos entre a oficialidade da armada de lá), são presos na Ilha das Cobras, onde a maioria foi assassinada asfixiada por ácido fênico lançado á cela para simular um acidente. Só João Cândido e um companheiro chamado ‘Pau da Lira’, sobreviveram.

Os presos civis seriam entregues a chamada ‘Missão Rondon’ para cumprirem – sem julgamento algum – trabalhos forçados na selva. Muitos morreram de doenças ou comidos por bichos. No grupo de prisioneiros estavam seis ou sete líderes da Revolta da Chibata que o comandante recebeu ordens de fuzilar  sumariamente em alto mar.

Na peça teatral (veja o texto integral neste link) que escrevi narrando estes fatos horrorosos, típicos do sistema de terrorismo de estado vigente naquela época, há a narração verídica do diário de bordo do famigerado navio mausoléu:

Trecho da peça teatral ‘EXUCHIBATA” escrita em 1994 por este vosso criado

...Voz (do capitão do navio ‘Satélite’ que há 100 anos atrás, em dezembro transportou degredados – ‘vagabundos’ e ‘desocupados’- e marinheiros para as selvas do Acre). narra o texto sem nenhuma emoção particular:

Narrador: ( em off )

_ …”A partida do porto do Rio de Janeiro, foi a 25 de Dezembro, pelas onze horas da noite. A descarga do navio iniciou por volta da meia noite de 24 e terminou por volta das 22 horas do dia 25 e, ato contínuo se deu o embarque do pessoal para os porões que estavam imundos, devido ao carregamento de açúcar bruto…Nestas condições partimos, levando 105 ex-marinheiros, 292 vagabundos, quarenta e quatro mulheres e cinquenta praças do Exército.

No dia 26, adoeceu um dos nossos foguistas. Fiz subir um dos prisioneiros afim de substituir o doente. Este denunciou que nos porões se tramava uma revolta, comandada pelo ex-marinheiro Hernani Pereira dos Santos, vulgo “Sete”. No dia 27. Com os inquéritos, alguns marinheiros foram algemados.

No dia 1 de janeiro, quando entrava o ano de 1911, estávamos já fora da barra e me afastei da costa para serem fuzilados seis homens, o que fizeram às duas horas da manhã porém dois, sendo um o “Chaminé”, se atiraram ao mar, morrendo afogados, visto que estavam com os pés amarrados.

No dia 2 de janeiro, às 23 horas, foram fuzilados mais dois marinheiros. Ao todo foram mortos 9 bandidos que conduzíamos…

No dia 3 de Fevereiro, foram entregues ao Capitão Rondon, duzentos homens, conforme ordem do governo. Os restantes, teriam que descer com eles, deixando-os pelas margens do rio. Os seringueiros, ao longo do rio, iam pedindo homens e assim, no mesmo dia, ficamos livres das garras de tão perversos bandidos.”

Navio “Satélite”

Rio de Janeiro, 5 de Março de 1911

Diário de bordo do Capitão Carlos Brandão Storry

—————–

Que a verdadeira Paz esteja com todos – inclusive com os mais  ‘perversos bandidos‘ – nestes 100 anos da Revolta da Chibata.

Spírito Santo
24 de Dezembro 2010

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~ por Spirito Santo em 24/12/2010.

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