Saudades de Yemanjá

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1199481682_yemaja_3_mulher_na_aguaLeo Souza-http://search.creativecommons.org

Da primeira vez, a mais pura emoção.

Foi, com certeza, em alguma praia distante, na zona oeste do Rio de Janeiro que eu, adolescente ainda, me enlevei com os meus primeiros tremores e sensações inebriantes, daquele romantismo ingênuo dos plenos de esperança.

A imagem era sempre a difusa aparição, quase fantasmagórica de uma mulher desenhada à luz do luar, imaginada morena e linda, longos cabelos negros, envolta em véus brancos, tranlúcidos e se encaminhando para o mar, por entre a espuma das ondas e as brumas da noite.

Fantástica, imaginava-a virando, abruptamente um peixe desses grandes, liso e longilíneo, como um golfinho talvez, peixe de lenda que, desaparecendo no horizonte entrevisto por entre as luzes de uma outra praia distante e vizinha, logo a nossa frente, sumia para sempre da minha confusa realidade juvenil, para habitar – como até hoje habita – os meus sonhos mais inesquecíveis, por serem os mais felizes.

O dia da aparição estava sempre acertado: De 31 de dezembro para o Um de janeiro de todo ano. Rito de passagem.

Não me lembro de foguetório na praia nesta época. Os fogos esparsos subiam dos quintais e dos terraços das casas e prédios da orla, em morteiros tímidos, estilhaçados apenas um pouco mais acima, no céu, em partículas verdes, brancas e vermelhas.

Um pouco depois, havendo experimentado já os carinhos de uma ou outra clone da mulher-peixe dos meus sonhos, mas, apesar disto ainda, estranhamente envolto pelo clima emocionante da festa da virada do ano, comecei a caçar a compreensão daquele enlevo todo que vinha, deduzi rapidamente, de um contexto de mágicas e encantamentos bem mais complexo.

Não era apenas o enlevo de estar virando homem. Era o encantamento de estar virando gente, concluí.

A mulher era a encarnação, o arquétipo de Yemanjá impresso em mim, nascido das muitas imagens e gravuras que vi ao longo da vida, uma curiosa deusa africana do Candomblé e da Umbanda, esta, a Umbanda, uma religião sincrética – moderna por assim dizer – que envolvia também cultos indígenas e tantos outros mitos ‘exóticos’, deste nosso misterioso Brasil, religião da qual minha mãe era devota fervorosa.

Vinha daí, portanto, o biótipo da mulher de longos cabelos, uma cafusa – e quiçá confusa – mistura de tudo aquilo que me parecia do bom e do melhor de se olhar e de se amar – coisa que Freud, ou qualquer outro Pai de Santo, facilmente, explicaria.

“O MITO – Iemanjá, deusa do amor e da beleza, esposa e mãe,

Rainha dos Sete Mares, chama-se em iorubá Yevê omo ejá – mãe cujos filhos são peixes – e tem como “tarefa” ajudar os namorados, as mulheres, aqueles que têm filhos e a todos que a respeitam e dependem das águas onde ela mora”.

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O tempo voou até a década seguinte. Rebelde, virei um chato ateu de carteirinha e sublimei por uns tempos a linda Yemanjá mítica da minha adolescência, trocando-a pela Revolução Popular Marxista-Leninista lida em mal traçadas linhas, enquanto vivia apaixonado pela Senhora Liberdade, mãe coragem do “Dia que virá”.

Contudo, volúvel como sou, o enlevo com a virada para o dia Um de Janeiro e a minha Deusa Cafusa, não tardei a perceber, apenas dormia eternizado em minha memória de velho menino carente.

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“Na década de 40, surgiu no Rio de Janeiro uma nova maneira de comemorar o revéillon, quando diversos adeptos passaram a deitar nas águas da baía da Guanabara, na travessia Rio-Niterói, oferendas a Iemanjá. E mesmo assim o faziam muito discretamente, quando a barca já estava no meio da baía.

Uma década depois, um conhecido pai-de-santo do Rio, “Paizinho”, chefe de um terreiro de Umbanda, organizou uma luxuosa procissão, da praia do Leme até o Posto 6, no outro extremo da praia de Copacabana, onde uma multidão incalculável de “fiéis” começaram (sic) a dançar ao som dos atabaques, homenageando a Rainha do Mar”.

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Foi já só ali pelos anos 80 que me lembro de ter voltado ao hábito de passar na praia a virada do ano. A festa, nesta época, havia assumido proporções de um gigantesco e formidável evento popular, tomando todas as praias do Rio de Janeiro.

Dia de Yemanjá e Dia da Confraternização Universal, duas chances em uma, para os homens de boa vontade poderem exercer, em toda a plenitude, sua humanidade essencial.

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…” Em 1957, D. Hélder Câmara, arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, “assombrado com o crescente prestígio da festa de Iemanjá, resolveu trazer para a rua, como no tempo das antigas procissões, a imagem e o culto da Virgem”, lembra o escritor António Callado, que assistiu a esse encontro de duas religiosidades.

Continuo com Callado:

Afinal de contas, Nossa Senhora, que jesuítas espanhóis das missões do Sul chamavam La Conquistadora, emigrara para o Brasil, com seu filho, antes dos deuses e deusas da África. Assim dia 31 de Dezembro de 1957, fez tirar a Virgem da igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, para que desfilasse em procissão nocturna pelas praias (…). O que aconteceu – meninos, eu vi – é que Iemanjá acolheu a Virgem como rainha que recebe cumprimentos de outra rainha. Houve até mesmo, em todo o percurso, uma troca de fiéis, quer dizer, gente saindo no préstito católico para ir tomar uma bençãozinha à beira-mar e mães-de-santo que subiam à calçada de mosaico para fazer o pelo-sinal e se ajoelhar à passagem da outra soberana”.

Até 1964, quando D. Hélder foi transferido para a Arquidiocese de Olinda e Recife, o culto às rainhas continuou a ser praticado por católicos e umbandistas. Com a saída de D. Hélder, o campo ficou livre para estes últimos.

Meu reencontro com ela

Para mim, o dia deste meu retorno à praia na festa da virada do ano foi quase tão mágico quanto foi aquele primeiro 31 de janeiro do passado, naquela prainha da Zona Oeste.

De longe, ainda no calçadão de Copacabana, dava para se ver amontoados de chamas de velas bruxuleando. Vultos de branco, muitos, alguns com turbantes, dançavam e dançavam, frenéticos, como sombras trêmulas de uma convenção de feiticeiros.

Eletrizado tirei os sapatos e avancei pela areia, ansioso. Aqui e ali, em covas abertas na areia para afastar o vento, mais e mais velas e ramos de lírios brancos, e garrafas de champagne barato ou sidra cereser. Bastava lançar um leve olhar em torno para se ver a areia coberta por centenas de lírios e rosas, como se tivesse havido uma chuva de flores, uma tempestade de bem-aventurança.

A multidão de feiticeiros habitava tendas provisórias, como as de um acampamento de beduínos no deserto, armadas com bambus e lonas velhas de caminhão – ou mesmo lençóis brancos, destes de dormir – eram organizadas, internamente, quase ao modo de Casas de Santo ou terreiros de umbanda, do qual elas eram as réplicas possíveis.

Protegidos da chuva eventual por meio de uma ponta de lona, à guisa de varanda, os ogãs de cada terreiro avançado, batiam seus tambores possuídos por todas as coisas boas que a música consegue incutir em nós. Impossível ficar alheio ao apelo místico dos atabaques, as varetas de aquidavi, como varinhas de condão imantadas, levando as equédis e as yaôs à dança extasiada, quase endiabrada que chamaria cada orixá às suas obrigações no terreiro, à sua missão de trazer paz à praia e ao mundo.

Aqui e ali uma mãe ou um pai de santo, incorporados por alguma preta véia, algum caboclo justo e vingativo, aconselhando fiéis hirtos de medo e de fé. Os passantes mais discretos, também contritos, tomavam passes e aceitavam ser defumados por incensos e aspergidos em mágicos banhos de descarrego, sacudidos, severamente, com molhos de arruda.

O ambiente, já à esta altura, se encontrava então completamente tomado por pessoas de todas as classes sociais que, ali, como que irmanadas por uma estranha força de vontade, como que movidas por um sentimento de povo de verdade, sem qualquer tipo de preconceito, iniquidade ou diferença, faziam daquilo a mais perfeita definição de Festa Democrática.

É aí, na boca da meia-noite-em- ponto de algum relógio, que o espoucar mais intermitente dos primeiros fogos, avança para o foguetório amplo, franco, geral e irrestrito, e a gente entra, com água até os joelhos, naquele mar de abrolhos, coalhado que está de barquinhos azuis carregados das mil e tantas oferendas, devidas por nós todos à Yemanjá.

Não há como errar o presente: A maioria das oferendas está ligada a suposta vaidade exacerbada, aos hábitos hedonistas de nossa deusa, tais como espelhos, pentes, gargantilhas, baton e frascos de perfume.

Coisas de mulher.

No fim, era só ficar ali, bêbado, com olhar maravilhado, perdido naquele mar de esperanças místicas que explodem ainda um pouco mais, vão rareando, rareando, até, já quase de manhãzinha, irem se extinguindo como a espuma de uma onda qualquer, escorregando na areia, de volta para o mar.

Voltei muitos anos mais à praia de meus delírios de virada de ano. Saía da areia sempre revigorado de esperanças e orgulho de ter participado da grande emoção de, sinceramente, abraçar as mais remotas e estranhas pessoas pelas ruas, impelido apenas pela emoção gerada pela força pujante de nossa cultura, nossa moderna tradição, vocacionada para a mais dionisíaca e incomparável das paixões: Almejar – e desejar para todos – a plenitude, o nirvana, a paz universal, embriagado, no colo de uma linda mulher de sonho chamada Yemanjá.

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‘… A partir de 1957, mais que o futebol e o Carnaval, a festa da passagem do ano, dedicada a Iemanjá, passou a ser o maior acontecimento de massas no Brasil. Fenômeno recente, a solenidade à deusa das águas em pouco tempo alastrou-se a todo território brasileiro, inflacionando-se nos países limítrofes do Sul do Continente e, até, já retornando à sua África ancestral como produto made in Brazil. Em Portugal, nas praias da linha de Cascais e na costa da Caparica, também já se ouvem os primeiros toques dos atabaques saudando a sereia rainha do mar…’

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Neste 2008 – como aliás nos últimos anos – não fui mais à qualquer praia de sonho. Na última vez que fui, tive que proteger com um guarda-chuva o meu bebê, que viera conhecer num carrinho cheio de fraldas a sua segunda mãe Yemanjá. Vândalos estúpidos, lançavam rojões uns contra os outros, na linha do chão, como se empunhassem revólveres. Um pouco antes da meia-noite a praia estava totalmente intransitável e não havia, sequer uma tenda de umbanda, pois o culto a Yemanjá havia sido banido daquele dia 31 em nome de diversas ordens e posturas municipais, entre as quais a proteção aos lucros do turismo e o desprezo que certas rodas da elite professam contra a cultura tradicional do Brasil.

Soube pelos jornais que a música oficial da festa deste ano, foi o batidão de Funk eletrônico de um famoso DJ carioca. Mesmo não sendo, exatamente, um tradicionalista, torci o nariz. É que senti uma bruta saudade dos tambores, das varetas de aquidavi me endiabrando a alma.

(Senti saudades mesmo foi de Yemanjá.)

Entediado, assisti pela TV a burocrática e recorrente explosão cronometrada de fogos de artifícios. Tentei, juro por Deus, encontrar alguma diferença transcendental entre o foguetório do Rio de Janeiro e o de Sidney, Austrália, ou mesmo entre o foguetório da China e o da Quinta Avenida, Nova York e não consegui ver diferença alguma (talvez seja porque esta, de ficar medindo foguetório, não é mesmo a minha praia.)

_”Seis…cinco…quatro…três…dois…um”… Foi como porre de cerveja quente. Odiei.

Neste mesmo fatídico reveillon de 2008, soube que traficantes dos morros da zona Sul do Rio, ao que se supõe, lançaram rajadas de tiros de fuzil para o alto, indiferentes à multidão na praia, atingindo algumas pessoas, entre as quais uma morreu.

Pelo menos a trilha sonora de Funk pesadão foi adequada às cenas de horror que devem ter rolado no calçadão.

Nada a ver com paz e fraternidade, convenhamos.

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Foi, com certeza, em alguma praia distante, na zona oeste do Rio de Janeiro, que eu, adolescente ainda, me enlevei com os meus primeiros tremores e sensações inebriantes, daquele romantismo ingênuo dos plenos de esperança.

Saudoso, pensei em voltar, no ano que vem, à praia dos sonhos do meu passado, na Zona Oeste. Um amigo de fé, no entanto, me alertou desolado:

_”Ih…Pode esquecer. Não existe mais a tal praia. Foi assoreada pela poluição da baía de Guanabara. Hoje ela é um extenso lamaçal negro. E como fede!”

Não tem importância, problema nenhum. Não me queixo. Sempre que durmo, até hoje, sonho com ela, a minha deusa cafusa Yemanjá. Ainda tenho, guardadas em seu colo, todas as oferendas de esperanças, que em nome dela mesmo despejei no mar. Quando me faltam alegrias, corro lá e me extasio todo, sem nenhum remorso.

_”Salve Yemanjá!”_

Spírito Santo

Janeiro 2008

Notas:
Os textos destacados são todos de Duda Guennes Jornal do Comercio – Recife

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~ por Spirito Santo em 28/12/2010.

Uma resposta to “Saudades de Yemanjá”

  1. Textão. Sem palavras. Mais do que bonito de bom. De belo. De tudo de bom.
    Tem me incentivado a escrever, do jeito quer gosto de escrever. Direto sem muita retórica.
    Passa no meu blog e comenta.

    Abração!

    Curtir

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