Cine Diáspora – Em cartaz um cinema africano que nos diz respeito

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O cineasta angolano Henrique Narciso “Dito”

O jovem cineasta angolano Henrique Narciso ‘Dito’ autor dos hits ‘Assaltos em Luanda’ e  ‘A Guerra do Kuduro‘.

Angola é aqui!

Ando impressionado com a qualidade dos filmes africanos que o amigo Aristóteles Kandimba (o ‘Totti Angola’ do Facebook) me trouxe de Amsterdam, Holanda. Emocionante presente de Natal.

Refletindo assim na hora da emoção, fiquei me perguntando o que se há de fazer para incrementar a exibição destes filmes por aqui, inserindo-os na cena de Cinema Negro brasileiro atual que tem mostrado hoje em dia até certa vitalidade em um ou outro concorrido festival.

Afinal em se tratando de cultura popular, de música, de cinema e de tudo o mais… Angola É aqui!

Fiquei achando … sei lá…que talvez haja uma boa razão aí para se debater – nós os mais interessados – se isto pode ter relação com certas dificuldades que fazem de nós – com as magras exceções sabidas – ainda hoje, com toda a suposta robustez econômica do país refletida num mercado cinematográfico de milhões e milhões de expectadores ávidos, ainda atores e criadores subalternos de um mercado – como tudo, aliás, no Brasil – dominado inteiramente por agentes (produtores, diretores, divulgadores, pareceristas, captadores) integrantes de uma elite… com licença da má palavra… totalmente ‘branca’.

E podem estar certos de que a abordagem que proponho aqui não tem nada de ingênua ou recorrente.

Também acho – na verdade tenho certeza – que, considerando todas as facilidades que se tem hoje para fazer cinema em qualquer parte do mundo, a agilidade e a plasticidade impressionante das novas mídias digitais, o que falta mesmo a isto que estou chamando de ‘Cinema Negro’ no Brasil – entre um ou outro ‘cala-te boca’– talvez seja foco e ideologia. Ou seja, a culpa é , em grande medida, nossa mesmo.

(Pronto. Falei.)

Aliás, concordo também, por outro lado e seguindo o mesmo raciocínio, que esta conversa de ‘Cinema Negro’ também é bem discutível. Cinema em ‘Preto&Branco’ todo mundo sabe o que é mas…’Cinema Negro’ o que viria ser?

Mas explico: Não é racismo não – pelo menos da minha parte.

Falo em linguagem figurada, gente. Falo ‘negro’ assim como arquétipo, símbolo, ícone de nossa miséria material e emocional, esta que gostaríamos que fosse expressa assim, na veia, sem papas na língua.

Fossem vocês velhos cascudos e escolados como eu e também se recordariam, empolgados, de que já tivemos sim um Cinema Popular no sentido estrito da palavra. Um cinema um tanto tosco é verdade, meio italianado, metido à neo-realista, mas pujante e libertário, no qual não se discriminava pessoas pela cor tanto quanto se discrimina agora. Meninos, eu vi!

Que culpa tenho eu, mero comentarista do que vejo por aí, se em pleno século 21 ainda cabe ao negro representar o indesejado papel de eterno povo pobre oficial do Brasil?

E é deste povo, melhor dizendo, das histórias dramas e mazelas dele, contadas realmente por ele mesmo, que estou falando. Um Cinema mais ‘do Brasil’ e menos novela de celebridades da TV Globo, filmada em película. Menos fundamentalismo espírita – tudo com todo respeito e no bom sentido é claro – menos filmes caça níqueis como ‘Nosso Lar’ e mais a bagunça irreverente de ‘Casa da Mãe Joana’.

(E de novo a imagem orgulhosa do bom Jeferson De, com os itens mais radicais do Dogma tornados agora ingredientes de uma Feijoada mais light) empunhando seu troféu de Gramado, a foto da galerinha do ‘Cinco vezes 02’ não menos valorosa, desfilando pelo tapetão de Cannes, de novo são flagrantes enganosos que toldando os olhos dos mais desavisados, fazem com que um ou outro entre vocês me julgue – até  com certa razão, admito – um reclamante de barriga cheia.).

Mas não me estranhem tanto assim não, gente. Por favor. Tenho lá as minhas razões.

Luzes! Cruzes! Em Angola também se faz cinema?

Se você ainda não sabe disto está na hora de rever os seus conceitos.

Antes de agora – e exatamente como vocês – só sabia coisas muito esparsas sobre cinema angolano – ou mesmo africano – Comecei a me inteirar sobre o assunto há apenas dois anos atrás, para ser exato. Conheci um tico mínimo desta cinematografia em 2008, no primeiro festival do Centro Afro-Carioca de Cinema do Zózimo Bulbull e da Biza Viana, onde José Gamboa com seu filme ‘Herói’ representava Angola.

Fiquei desde aquela época com a impressão de que a produção cinematográfica angolana era mesmo incipiente, amadora como a nossa aqui (bem entendido na área deste ‘Cinema Negro’ a que estou me referindo) subalterna das estruturas de criação, direção e etc. controladas pelas mãos dos ‘brancos’ (portugueses no caso) de sempre.

Nem cogitei me informar sobre as cinematografias dos outros países africanos da área de influencia da Europa portuguesa.

A própria constituição da agenda de filmes  convidados para o festival do Centro Afro-Carioca de Cinema, me induzia a isto, pois, tanto naquele primeiro ano como nas versões seguintes – com exceção talvez de um ou outro filme caribenho – muito mais ênfase parecia ser dada ao cinema da África mais ao Norte.

A ênfase era para Burkina Faso, Ghana, Costa do Marfim, Nigéria, Senegal, com filmes em sua maioria oriundos das ex-colônias francesas e inglesas, um cinema negro sim, mas um tanto estrangeiro demais para mim, um negro do Brasil filho de uma capichaba bem da roça e de um mineiro de Diamantina, de sete costados.

Parecia perfeitamente normal isto acontecer, mas era também uma estranha e familiar dicotomia, muito parecida com a que ocorre no estudo da cultura negra do Brasil em geral, onde tudo de africano que nos é mais familiar, a cultura da África de expressão portuguesa costuma ser – e por razões ainda mal explicadas – subestimado, posto de lado como uma irmã feiosa que a gente não quer apresentar para os amigos.

Seguramente – pensei – os países africanos de ‘expressão portuguesa’, apesar destas óbvias e indiscutíveis similaridades culturais com o Brasil, não tinham ainda, infelizmente uma cinematografia á altura do porte do evento.

Mas não, não era bem isto, esta suposição aparentemente tão evidente não era assim tão fácil de se explicar. E olhem que eu, já familiarizado com o problema em outras áreas (com a música e com a literatura africana ocorre estas mesmas estranhas restrições) só me dei conta de que isto ocorre também com cinema, agora mesmo, por estes dias vendo os filmes que Totti me presenteou.

O certo é que foi desarmado de preconceitos que assisti aos três excelentes filmes com grande curiosidade. Animado, surpreso mesmo com a qualidade técnica e a propriedade dos temas abordados por eles, saí logo pinçando em outros links do Google trailers e resenhas de muitos mais, inclusive matérias sobre um recente festival nacional de cinema ocorrido em Luanda.

Pois bem, saibam vocês que o cinema angolano caminha bem a passos largos para estar bem longe de ser incipiente. Sobretudo, ao que se pode deduzir pelas matérias e trailers que vi, já é muito popular e potencialmente até bastante promissor em médio prazo, do ponto de vista financeiro, já que a população das principais cidades angolanas parece estar muito mobilizada como platéia cinéfila.

“Depois da fase em que a produção cinematográfica em Angola registou um interregno de cerca de 16 anos, eis que, no início do ano 2000, surge uma geração de jovens cuja coragem e determinação foram preponderantes para o “ressurgimento” do cinema, feito no país, por angolanos. Henrique Narciso “Dito” foi um dos precursores deste movimento, juntamente com Francisco Cáfua, Bijú Garizim e Olson Manuel. O ano de 2005 marcou o início de uma nova página no audiovisual do país, quando estes realizadores lançaram os seus primeiros filmes. Amigos, foram-se apoiando num caminho que foi feito com enormes dificuldades.”

Esta eletrizada platéia, aliás, já consome avidamente entretenimento de ficção do Brasil que, por enquanto  se limita a exportar para lá as mais babacas e branquelas novelas da TV Globo, mas pode ser que um dia destes – porque não? – a ficha caia e se enxergue lá uma enorme faixa de mercado para o intercâmbio de filmes brasileiros mais densos, inclusive os de ‘Cinema Negro’, daqui para lá (e vice versa).

O Kilombo de lá é mais embaixo

Como quase nunca há por aqui no Brasil, há no contexto desta jovem cinematografia afro-lusitana uma espécie de entusiastas ‘brancos’, militantes da causa artística negro-africana, no sentido integral do termo.

Uma destas figuras elogiáveis é o abnegado cineasta (documentarista) português Jorge António que tem se dedicado a formar técnicos, diretores, atores em Angola, sendo ele mesmo um autor de peso, com filmes que naturalmente inspiram os demais cineastas do país, uma nova e promissora geração que tem nele um exemplo de ponta.

Com efeito Jorge António acaba de vencer com seu documentário Angola, histórias da música Popular o Festival Internacional de Cinema de Luanda. Cônscio de seu papel social ele acaba de recusar o prêmio de melhor documentário no festival citado, declarando enfaticamente que não o merecia ‘por não ser um angolano nato’ e doando todo o valor em dinheiro para a formação de mais cineastas e técnicos de cinema no país.

Cinema de gente destemida e  desassombrada este de Angola.

A firmeza ideológica dos músicos africanos (tema do filme de Jorge António, um panorama sobre a música popular angolana com ênfase no engajamento político de seus músicos e compositores) sua fidelidade às raízes e maneiras artísticas tradicionais, sempre vistas com um olho no futuro (como no caso do emblemático grupo ‘Ngola Ritmos’) a relação tão intensa entre arte e militância empreendida por eles, sem, contudo abrir mão da excelência artística impregna todo o filme e devia inspirar e mobilizar o pessoal daqui.

Logo, nada mais lógico do que enquadrar como faço o moderno cinema angolano neste conceito de ‘Cinema negro’ que propusemos acima. Buscando inspiração nele.

O fato é que precisamos reconhecer que talvez estejamos  atrasados mesmo em relação a eles, no nosso ainda submisso cineminha de fundo de quintal, abordando timidamente temas batidos no eixo Favela, Candomblé, Paz & Amor.

( leia AQUI o post #02 desta matéria)

Spírito Santo

Dezembro 2010

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~ por Spirito Santo em 30/12/2010.

Uma resposta to “Cine Diáspora – Em cartaz um cinema africano que nos diz respeito”

  1. “ As pessoas precisam de perceber que para fazer sucesso no mundo do cinema ou da ficção no nosso país, é necessário reproduzir para o grande ecrã (tela grande) a nossa realidade em vez de importar as realidades, culturas, histórias e valores de outros povos. Temos de destacar as nossas linguagens, as nossas histórias. Porque o angolano gosta de ver as cenas do seu quotidiano reproduzidas no cinema.

    Se assim for, seja qual for o preço cobrado por sessão, as pessoas irão encher as salas”

    (Henrique Narciso “Dito”, Realizador de cinema)

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