Cine Diáspora:Africa is here! (Post #02)

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Jorge António, cineasta portugues com forte atuação em Angola

Jorge António, cineasta portugues com forte atuação em Angola

Angola filmes is coming soon!

Alto lá! No Brasil também se faz ‘Cinema Negro’

Enquanto isto no Brasil, ainda agora mesmo, em plena saída vitoriosa de nossa ‘retomada’ cinematográfica, os negros – este negro-povo de que tenho falado, bem entendido – estão lá na tela sim, mas ainda muito raramente atrás das câmeras, mandando, optando por uma estética, por histórias e abordagens menos autorizadas, menos ‘chapa branca’.

Vocês assistiram àqueles filmes do Cacá Diegues? Viram ‘Ganga Zumba’, viram ‘Quilombo’? Pois então, me digam: O que era aquilo? Era um cinema ‘branco’ olhando o negro de longe, enviezadamente, com filtros de sinhozinho bonzinho e sabe-tudo contando a história negra ideal. Pois é. Parece que há um problema político, ideológico e conceitual aí, um problema cultural redundando num problema artístico.

O que temos aqui, convenhamos, talvez seja um Cinema Negro ainda meio ‘escravo’, ainda confuso sucedâneo da farsa da democracia racial, além de ser muito auto complacente para com suas  deficiências técnicas, ainda bastante evidentes.

Cacá Diegues (o nosso ‘Jorge António’ sim, mas quanta diferença!) com a produção do ‘Cinco vezes Favela 02’ se redimiu das ‘bombas’ (‘filmes ruins’ no meu tempo de coroa cinéfilo) do tanto de pieguice paternalista que introjetou nos seus filmes ‘negros’ anteriores.

Cacá – que tem lá suas razões e qualidades – veio de uma casta da elite artística do Brasil dos anos 60/70, tão bem intencionada quanto equivocada em seu vanguardismo esteticamente arrogante.

No entanto, bato palmas para ele pelo ato de desprendimento que foi reconhecer que é necessário que existam filmes feitos pelos ‘Outros’ falando de si mesmos. Ocorre que, como o de hoje, estes ‘cacá-diegues’ da vida sempre existiram e continuam mandando no cinema nacional.

Se bem me lembro, inclusive, a presença do negro no ‘Cinema Novo’ deles sempre foi uma alegoria meio fantástica, idealizada formada por personagens negros estereotipados, tristes e ‘pai-joões’, quando não passavam de mártires, os mais sofridos e devotados cristãos deste mundo, morrendo chorosos no tronco para nos salvar.

Bem, isto já deu, certo? Mas falta fazermos também a nossa parte.

Faltam muitos rolos de filmes, léguas ainda para a gente chegar lá. Falta avançar na arregimentação de aliados mais profissionais, parceiros mais financeiros e técnicos  do que palpiteiros ideológicos; catando todas as cavacas da inexperiência, mas avançando rumo à independência criativa, mãe da originalidade e da inovação.

(Pois não foi, exatamente assim que aquela garotada branca do Cinema Novo dos anos 60 – Cacá Diegues e Barretão entre eles – fez? E não é, do mesmo modo, isto que a garotada negra de Angola está fazendo? Então?)

Sim: Em Angola também se faz cinema

E este é o grande barato da nossa descoberta

É muito significativo – estimulante mesmo – a gente perceber nos filmes do portuga  Jorge António que na música popular urbana de Angola (principalmente a música ‘de intervenção’ como dizem, o equivalente à nossa ‘canção de protesto’) há sobretudo artistas populares, a maioria oriunda de extratos mais pobres da população.

Enquanto que aqui no Brasil, durante a nossa luta similar (contra a Ditadura) o que houve foi uma espécie de elite social (‘brancos’, como se sabe) ocupando todos os postos chave de nossa cultura, tendo inclusive – e até hoje – (um pouco como predadores sociais, sejamos francos) obtido vantagens de toda ordem – inclusive financeiras com esta atitude, supostamente ‘libertária’.

José Carlos Schwartz, a voz do povo, excelente documentário também de Jorge António, sobre a trajetória heróica do músico José Carlos Hans Schwartz, guerrilheiro e pai da moderna música guineense é um exemplo candente desta diferença ideológica fundamental entre o nosso Cinema Popular domado e o Cinema inquieto e  independente destas jovens nações africanas.

Este sentimento de honesta e desinteressada insurgência, aliás, expresso de forma pungente nestes três filmes africanos é como que uma chama mantida sempre acesa a animar este invejável cinema de gente tão parecida conosco, um cinema interessado em ser motor de arte, prazer e consciência, num pan-africanismo muito salutar – para nós verdadeiramente inspirador – porque nos remete à uma diáspora africana mais nossa ‘parente’, com a qual nós brasileiros, queiramos ou não temos muito mais intimidade comovida do que curiosa estranheza.

Reconhecer e admitir esta inegável familiaridade com a África lusitana – com Angola, principalmente – assumir este parentesco estético e emocional irrevogável (quase que um ele perdido de nossa  ‘brasilidade’ ) claramente expresso nos filmes aqui citados será uma grande força para a nossa cultura no futuro.

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Acabei de assistir anteontem, mais emocionado ainda, ao terceiro e último destes filmes. Este denominado ‘Batuque, a alma de um povo’ (de  Julio Sivão Tavares) versa curiosamente sobre um gênero de música e dança muito nosso conhecido (o ‘Batuque’ do título, que lá em Cabo Verde se chama ‘Batuko’). O melhor de tudo foi descobrir que o filme confirma quase tudo que concluí sobre o Batuque (um dos ritmos matrizes de nosso Samba) em pesquisas anteriores que fiz aqui no Brasil, sem falar nas outras incríveis descobertas.

O ‘Batuko‘ Caboverdiano é uma manifestação puramente feminina na qual um grupo faz uma eletrizante levada rítmica batucada em almofadas de couro (?) encaixadas nas coxas das mulheres, enquanto que solistas reboladoras se revezam numa coreografia inteiramente concentrada nas bundas (e a inquietante semelhança com as mulheres dançarinas do nosso censurado funk ‘Proibidão’ daqui – sem a lascívia – é total).

Numa outra versão, chamada de ‘Finason’, de andamento mais lento que o das moças – o Batuko já se mostra em quase tudo semelhante ao Jongo tradicional do Brasil (o autêntico, não este tombado para Ministério-da-Cultura-ver) em seu aspecto de disputa de versos improvisados.

A descoberta mais constrangedora, contudo talvez tenha sido a de constatar que os lugares das locações, bairros pobres ou mais do que pobres dos três países africanos mostrados nos filmes (Luanda em Angola, Ilha de Santiago em Cabo Verde e Bissau na Guiné Bissau) são quase que bairros de classe média perto de nossos bairros-favelas.

A sensação que se tem olhando a ordem e a limpeza, a pobreza digna, altiva mesmo dos africanos destes locais remotos nos dá a nítida impressão de que nossos pobres pretos daqui habitam o mais horroroso e fedorento caos, cidadelas imersas na mais medieval das barbáries.

Me impressionei muito também com o nível cultural e educacional do povo destes lugares, principalmente dos angolanos, onde todos os músicos entrevistados são mais articulados às vezes, do que muitos antropólogos (brancos ou pretos) que temos por aqui.

Ação! Por um Cinema da África mais nossa vizinha

Diáspora Movie is coming soon!

Fora isto, a coisa vai avançando no Brasil sim. Já temos até negros estudando cinema, atores negros fabulosos, aqui e ali pontificando em filmes de todos os tipos, mas vamos combinar: É pouco ainda. Falta o controle da produção, no que diz respeito a isto que eles chamam de ‘nicho de mercado’.

Faltam os ‘filmes de negão’, se bem me entendem, mais e mais ‘filmes de negão’ baseados em nossa cultura real e não – e isto não posso me omitir em falar – nesta negritude pomposa, pseudo-acadêmica que insistimos em exibir por aí, como membros de uma nobreza africana falida, aristocrática, que nem na África existe mais.

(E isto ainda assim tomando muito cuidado para não sermos cooptados por interesses governistas e eleitorais de ocasião)

E vejam bem: Não se trata apenas de ‘pintar’ de preto, encher os filmes de negros. Pinçar uma cota de negrinhos artistas aqui e ali como ‘ação afirmativa‘, num cotismo banal e fora de hora, controlado e desajeitado que seria, além de inconsequente, constrangedor.

Este não é absolutamente o lance proposto aqui. Trata-se de buscar o essencial de nossa cultura popular (com ênfase nesta nossa brasileiríssima África omitida), trata-se de quebrar o calcanhar de Aquiles deste elitismo artístico e cultural tão brasileiro que nos paralisa e invadir, ocupar o território ainda baldio de coisas nossas, que aí sim, seriam com propriedade contadas por nós mesmos (além de continuarem a ser contadas pelos ‘outros‘ também, claro).

Invadir sim, mas com capacitação e méritos profissionais inegáveis, indiscutíveis, com excelência e rigor cultural e artístico, sem esta prática ‘caída’ de achar que em terra de cego quem tem um olho pode ser rei. Não basta ser negro. Tem que ser do ramo, que ser realmente o melhor naquilo que diz saber fazer.

Falo de produzir filmes com o jeitão de ser e viver de nossa população ‘de cor’ e colocar na tela. Para um país do porte e do volume de população negra que somos, para o Brasil tão negro-mulato inzoneiro que vendemos para o exterior, o que temos feito em termos de projetar a nossa imagem ‘real’ é ridículo, irrisório.

Mesmo nos tempos áureos de nossa cinematografia mais industrializada – na fabulosa era da Atlântida, da Vera Cruz – a presença proeminente do negro (do povo, por suposto), participando e influindo esteticamente – às vezes até na produção – era bem maior do que hoje.

Há sim entre nós, aquele que de capitulação para com um mercado que, pra todos os efeitos continua nas mesmas mãos, sob o controle dos mesmos donos de antes – os ‘Barretões’ da vida – aboletados nas bancas de verbas, manejando liames de editais malandros, um mercado de cartas marcadas que, na prática, não dá mostras mesmo de estar interessado em deixar, de verdade, que todos falem por si mesmos, além da velha casta artística de sempre.

Corte final sem The End

Antes de vir ao Rio, com sua bagagem de filmes afro-lusitanos, Aristóteles Kandimba fez contato, ainda da Holanda, com o Centro Afro Carioca de Cinema, do mesmo modo que eu surpreso com a pequena presença de filmes da África de expressão portuguesa por aqui. Esta desencontro entre cinemas irmãos ainda desgarrados, no entanto breve breve se resolverá.

Pelo menos para muitos de nós, Angola já é e sempre terá que ser aqui.

Aguarde portanto um Diáspora Movie Festival total e irrestrito para breve, nas telas de algum cinema perto de você, num canto qualquer de um de nossos países – no daqui ou no de lá.

Angola Brazilian films is coming soon!

Spírito Santo

Dezembro 2010

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~ por Spirito Santo em 30/12/2010.

2 Respostas to “Cine Diáspora:Africa is here! (Post #02)”

  1. Poxa, Rafa… nem sei o que dizer. Nada a acrescentar. Muito gratificante saber que o trabalho está rendendo este retorno para você.

    Grande abraço!

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  2. meu caro, faz um recorte e já tens aí um manifesto para um festival de cinema da áfrica que nos representa. e que este festival seja um veículo, pedacinho menor que nos leve a algo maior, para que esta nossa áfrica possa emergir nas mentes, memórias, espíritos e corações da nossa gente, especialmente as de cor como eu e você.

    sem esta áfrica, tudo fica fake, como você já colocou, e não nos sentiremos fortes nunca. porque sem ela, não se internaliza, não se multiplica, não se mobiliza, porque simplesmente não faz sentido.

    já há tempos eu vinha discutindo com uma grande amiga minha sobre essa dicotomia bantu x nagô, e sempre falava empolgado da descoberta do seu blog e do vissungo, porque para mim significava que minhas ideias não eram loucas como já me fizeram crer os próprios companheiros de pele e luta. descobrir uma iniciativa como a tua, feita muito antes de eu nascer, firmava meus passos na direção do que eu acreditava.

    qual não é minha surpresa de ver, agora, como você está elaborando isso tudo, fazendo avançarem as ideias para outros campos e outras mídias, inclusive na crítica à cooptação do próprio movimento negro e tal. eu achava que era apenas fruto de ignorância, e agora entendo com mais clareza que, além da ignorância, houve mesmo uma intenção da antropologia de nos amarrar a algo que nunca nos diria respeito, e que portanto jamais nos serviria na emancipação, como um dia pudemos crer. até serve, mas é absolutamente insuficiente. e seus arautos, quase sempre baianos (nada contra eles, é só uma constatação), ao colocarem-se representantes da negritude brasileira, mais nos amarram que libertam. nessa, vou te dizer que pode ser que comecemos uma briga pesadíssima, e que temos de cuidar para não nos dividirmos ainda mais. temos que fazer como sempre foi a tradição bantu no brasil. infiltrar até não terem mais como nos tirarem. mas, dessa vez, não podemos deixar de nos nomear.

    em relação ao cinema, especifiamente, acho que ele ainda tem uma outra coisa interessante. muitas vezes achamos que o povo brasileiro não gosta de ler porque é ignorante, preguiçoso, um monte de asneiras. é claro que ler é importante. é uma ferramenta de poder no mundo em que vivemos. acontece que o erro clássico foi achar que, ao se alfabetizar alguém, essa pessoa passaria a fazer parte de uma cultura letrada, automaticamente, como se isso fosse inevitável. faz parte da crença de que as culturas letradas são superiores. acontece que em nossa memória cultural, somos um povo de cultura fortemente oral (por conta dos nossos índios, dos nossos pretos e, não nos esqueçamos, dos portugueses que eram invariavelmente analfabetos, pelo menos até o século 19). é por isso, muito mais do que por conta de não saber ler, que a televisão é tão importante para nós, e também por isso teve tanto estímulo para o seu desenvolvimento. pensando tudo isso, acho que começar o movimento pelo cinema significa não apenas seduzir um bom punhado de gente, mas também valorizar o aspecto da oralidade de nossa cultura, que diz respeito justamente a tudo isso que estamos buscando.

    como se dizia em angola na época da guerra colonial, “a ruta continua, a vitória és certa!”

    acreditando que ações como essa podem fazer de 2011 um ano muitíssimo melhor do que os 510 anteriores da história do nosso país, te deixo um abraço emocionado e desejo de boas festas,
    rafael.

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