Favelas Cariocas, a solução final chegou: Rezem para seus santos padroeiros


Permitam-me primeiro evocar São Tomé nesta história.

Eu li, mas não confio muito em O Globo e muito menos na prefeitura, ambos (por razões turístico esportivas e comerciais óbvias) têm interesse em dourar a pílula das soluções mágicas para o problema das favelas.

Desta vez- oh, desfaçatez! – usaram até São Pedro como cúmplice involuntário, já que os desabamentos de encosta é que teriam possibilitado a prefeitura remover tanta gente. Cruel, sangue de fel este pessoal, não é não?

Mesmo assim convido-os à reflexão sobre o seguinte:

Vocês conseguem enxergar mesmo esta área toda evacuada?Afinal, 47 maracanãs é coisa pra caramba, são 392 mil quilômetros quadrados! Qualquer helicóptero – agora com São Tomé, o único em quem confio, dentro – pode confirmar. Eu, de antemão, duvido.

Segundo: estas 6.800 famílias que ‘vazaram’ e, supostamente foram ‘reassentadas’, foram para onde? Se 47 maracanãs foram evacuados e poucos conjuntos habitacionais (quase nenhum) foram construídos ainda, é lógico se admitir que outra área de proporções semelhantes tivesse sido ocupada em algum lugar, mas onde? Afinal, não há ‘Mister M’ que possa fazer 6.800 famílias desapareçam assim, diluídas numa cidade tão pequena quanto o  Rio de Janeiro.

Outra coisa intrigante é que de 2009 para cá, mesmo se considerarmos as dimensões bíblicas da tragédia de Nova Friburgo e Teresópolis, as maiores áreas de encostas desabadas mais próximas do município do Rio foram o Morro do Bumba em Niterói, (com cerca de 60 a 70 casas, se muito) e Angra dos Reis.

Ou seja, só mesmo somando tudo – o Estado do Rio de Janeiro inteiro – é que teríamos tantos maracanãs assim. Em suma: Não sei mesmo de onde surgiram estes ’47 maracanãs’ caídos ou evacuados no município do Rio. Não sei para onde foi parar tanta gente.

(Para achar, só evocando São Longuinho)

A solução Final, ao que parece está definida e em curso: As UPPs e o Exército espantam a bandidagem. São Pedro cumpre o resto do serviço fazendo desabar as encostas, que faz com que os favelados famílias sejam evacuados (ou mortos, tanto faz).

Só não nos disseram ainda se para o lugar onde estas pessoas vão, vai  existir tudo que elas não tinham na favela (inclusive moradia perto do trabalho).

Ah…mas isto para eles é um mero detalhe, não é não? Aliás, o nome do Instituto  que afeiriu e avalizou este truque de mágica já diz tudo:”Pereira Passos“. Pois não é ele o prefeito que no início do século 19 instituiu a remoção radical da população negra e pobre do centro da cidade com o seu paradigmático ‘Bota Abaixo’

(É. E o bom Pedro,até então, nem estava cooptado como o santo exterminador)

Agora, cá entre nós, esta da prefeitura quase comemorar o ensejo das tragédias, meio que assumindo que fica esperando, torcendo para que a chuva caia forte e derreta tudo, é de uma iniquidade sem tamanho, esta sim bem maior do que 47 maracanãs, sacrílega, criminosa até.

Vocês eu não sei, mas eu acho.

Spírito Santo

Janeiro 2011

Axe baba woman look


Brazilian Samba ‘Baianas’ (and white Barbie dolls)

(Veja o álbum completo neste link)

Nota: ‘Axé Babá’ – Conceito criado pelo autor para definir cultura negra falsificada, baseada em mistificações e chavões recorrentes, cada vez mais comum no Brasil.

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Nem precisa entender inglês. É isto aí que vocês pensaram mesmo.

Foi por estes dias quase pré-carnavalescos. Uma exposição exibia vistosos figurinos de baianas de várias escolas de Samba do Rio de Janeiro. Olhei e logo percebi que, curiosamente os manequins eram pequenas bonecas brancas (tipo barbie) de olhos azuis.

Bem, sabem como eu sou, certo? Estranhei, e o que é pior, maldei.

Inquirido por força do óbvio inusitado e ululante de personagens negras, símbolo de uma manifestação cultural tão arraigadamente africana (ou afro descendente, se preferirem) como escola de Samba, serem representadas por bonecas assim tão branquinhas, quase nórdicas, a pessoa que montava a exposição – ajudante do carnavalesco, autor da mostra –  afirmou, meio distraidamente:

_  “Brancas? Como assim?Ah sim…É que o foco são só as roupas!”

Incomodado, insisti com mais perguntas, agora daquelas bem mais cretinas:

_” Ué, mas ficou esquisito, não é não? Era só comprar bonequinhas negras, gente!”

E ele, saindo pela tangente, sorrindo amarelo:

_”É, mas acontece que não encontramos no mercado”

Eu, santo inquisidor, sem me fazer de rogado:

_”…Ou então pintava a carinha das bonecas, ora, qual seria o problema?”

Foi quando o assistente de carnavalesco, já pelas tamancas comigo, deu então o xeque mate dele:”Sim, sim, mas é que não tínhamos recursos”E eu, desistindo:

_”Ui! esta doeu!” (Pensei só, claro. Não falei não que era para não me aborrecer mais ainda com a empáfia joão-sem-braço dele).

Engraçado: Lembrei na horinha daquelas inflamadas feministas negras que andam espalhando por aí a sua ira, supostamente santa.

_”Salve mamãe Oxum! Eparrêi, Iansã!”_ Gritei, literalmente chamando alguma mãe, á caça de alguma proteção matriarcal.

Santa Mãe de Deus! Se estas irmãs estão ali comigo, torceria por um corretivo nele, no carnavalesco e seu assistenteMas não.

E vai que elas entram numa de querer escalpelar os pobres homens, com o perdão da palavra…cortar o saco…quer dizer…as ‘coisas’ deles (e eu ia querer me matar de remorso).

Daí, fazer o que? Os coitados escalpelados, emasculados iam ter que apelar para os amigos da não menos inflamada militancia anti homofóbica do Brasil que, numa campanha bombástica e multicolorida na orla da Zona Sul, levantaria a lebre – ou a bandeira – de que ataque foribundo das mulheres teria sido mesmo fruto de um enrustido preconceito delas contra os homens em geral – mesmo os homossexuais – e… pasmem!.. até mesmo aqueles que, reverentes e cabeças feitas num candomblé de esquina, adoram desfilar no Carnaval vestidos de baiana.

Fichas caídas: Bichas, bonecas barbies, Carnaval, feministas negras, algumas com cabelos alisados a escova progressiva, regressiva, reversiva, sei lá, já nem sei mais…

(E nós, os homens negros pobres heteros coitados, é que somos os crioulos doidos.)

Virgem Maria! Que enredo é este, mermão? Se continuar assim, vamos ter de rever todos os nossos conceitos sobre a cultura negra do Brasil.

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É, mas foi só um relance de pensamento maldoso, uma mera piração febril por que logo logo caí de novo na real.

Bem, foi daí, diante daquele quase carnavalesco desbundado me sorrindo amarelo, tão cheio de respostas esfarrapadas para tudo, como os olhos me fuzilando com aquela raiva contida dos pobres de espírito pegos com mão na botija, que só me restou dar o meu risinho mais maldoso sair pela tangente e ir embora, pensando comigo mesmo:

_” É…. O Brasil do Axé babá é mesmo isto tudo aí, baby!”

Spírito Santo

Janeiro 2011

(Não deixe de ver o álbum completo neste link):

Leia também (aprofundando um dos lados deste papo):African Womanist Clenora Hudson-Weems

A Síndrome do Gueto


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Foto: Escravidão século 19 – Biblioteca do Congresso dos EUA

Movimentos ‘Brancos’ ou Movimentos ‘Negros’? Teorizando sobre mazelas sociais indizíveis

Sei lá porque (acho que é um trauma do colégio interno ou da prisão), maior baixo astral, mas o fato é que sempre penso nisto e senti agora mesmo um impulso incontrolável de falar com alguém sobre o assunto.

O Gheto de Varsóvia é a referencia mais vívida e emblemática: Na circunscrição daquele espaço cercado pela polícia nazista, um microcosmos social transbordando de psicopatias e neuroses sobre as quais, até hoje, ninguém quer falar.

O clima é de urgência. Cada dia é um dia. Sabiam, mas agora ninguém sabe mais, exatamente como é ‘lá fora’, o que ocorre ‘lá fora’, a dimensão e a natureza terrível do que está por vir.

Os colaboracionistas com tarjas identificativas nos braços; uns servindo de polícia, controlando os próprios vizinhos, outros se ocupando do tráfego de carroças e pessoas, da distribuição de comida, todos pensando que vão conseguir se safar, salvar a si e a família pelo menos da fome e por isto fazem jogo das tropas de ocupação.

Políticos espertos (até alguns líderes religiosos) na pele de agentes comunitários ‘um-sete-uns’ criam ou dirigem instituições – muito parecidas com as ONGs modernas – que intermediam informações trocadas por indignas migalhas ou mesmo pela honra, pela moral, por valores que deveriam ser inegociáveis, enfim.

No fundo não passam de atenuadores de conflitos que cumprem apenas o papel de cobrir com ‘panos quentes’ a indignação e a ânsia de revolta que grassa o pensamento das pessoas.

O Gheto é isto: De um lado a submissão conformada da maioria e do outro a resistência louca de um punhado de insanos suicidas que pega em armas por alguma razão.

(E aqui o olhar servil e malvado do camponês denunciando o esconderijo de Che Guevara na selva da Bolívia é a lembrança mais pungente)

É que nestes casos denunciar os rebeldes vira uma mercadoria valiosa. Vale um queijo, um pouco de presunto, uma garrafa de vinho. Como condenar, censurar os que se submetem a isto, os que se aviltam para tentar sobreviver? Uns mais ardilosos e canalhas até que se dão bem. Chegam até a enriquecer um pouco – isto se considerarmos o pouco que é necessário para se sentir rico num ambiente miserável como este.

No fundo a maioria compactua, abaixa a cabeça e se submete. Nem se dá conta da eventual imoralidade de seus atos, da iniquidade de sua traição àqueles semelhantes que se rebelaram e que por isto irão, com toda certeza morrer.

Na verdade, a esta maioria, se lhe fosse dada a chance de escapar, não saberia nem mesmo para onde ir, porque ir, tão envolvida que está pela propaganda viva, pulsante nas coisas descritas pelo momento, pelo dia a dia.

_‘As coisas que são o que são e está acabado’_ É o que toda maioria diz.

Adaptada às circunstâncias, aprisionada em si mesma, a maioria presa fácil da Síndrome do Gueto.

Não lhe parece familiar este filme?

…Não. Não falo deste filme colorido de Hollywood. Falo daquele nosso filme íntimo real e brasileiro que está em cartaz num cinema bem perto de você.

(Pronto. Se já não sabia, você agora sabe muito bem do que estou falando. Podemos enveredar então pela outra ponta do assunto).

Enunciado completo da questão:
Entranhas da estranheza. Sintomatologia

Síndrome: Distúrbio ou doença – individual ou social – contingência irrecorrível, estado de coisas anormal, conjuntura aguda, quase inescapável, a qual um indivíduo ou um grupo social está acometido, caracterizada pela conjunção de um número determinado de fatores, especialmente articulados que, condenam o indivíduo e/ou o seu grupo a um destino indesejado e quase sempre inexorável. Exemplos:

  • Distúrbios ou doenças individuais: Aids (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida), Síndrome do pânico, distúrbios psicológicos ou neuro-químicos em geral, esquizofrenias, psicopatias diversas (Síndrome de Estocolmo, aquela do sequestrado tomado de admiração pelo sequestrador).
  • Distúrbios ou doenças sociais: Analfabetismo, carência alimentar (subnutrição), alienação cultural aguda (aculturação)… Racismo, etc.

Gueto: Espaço restrito, físico ou simbólico, para o qual foi alijado ou no qual, deliberadamente foi confinado um grupo social, que por este intermédio passou a ficar isolado, de um lado de seu meio social e/ou cultural original e, de outro lado, isolado também do convívio com a sociedade em geral, vista de forma ampla.

Esta subjugação do grupo confinado neste gueto, neste espaço de exclusão, se dá por força de dispositivos do mesmo modo físicos, concretos (tal como muros ou cercas de contenção, repressão policial, etc.) ou simbólicos, mentais (tais como campanhas sistemáticas de difamação, privação de acesso à educação formal, procedimentos segregacionistas abertos ou dissimuladas, racismo, etc.).

Muito eficientes ao longo do tempo, estes dispositivos, geralmente impostos por um grupo social hegemônico por força de forte pressão psicológica e expedientes culturais subliminares os mais diversos, muitas vezes acabam sendo até mesmo tolerados, aceitos – ou passam despercebidos – por aqueles que, expostos a eles durante muito tempo, acabam subjugados por muitas gerações.

Síndrome do Gueto: Estado mental ou comportamental manifestado por indivíduos submetidos às condições gerais e especiais acima citadas, principalmente no campo de suas relações psico-sociais e culturais, marcadas indelevelmente pelas consequências nefastas do prolongado isolamento ao qual o grupo está ou esteve submetido.

Espécie de circulo vicioso, este estado de coisas impede ou dificulta aos indivíduos destes grupos (e até mesmo às associações de indivíduos criadas para defender seus interesses) a compreensão da natureza complexa de seus problemas, a ponto de dificultar o encontro de soluções eficientes que possam efetivamente romper o estado de coisas estabelecido, tornando estes indivíduos ou grupos, presas fáceis, quase cúmplices da manutenção ininterrupta de seu estado de subjugação.

Tratando-se de um estado de coisas de natureza social, embora anômalo, ou seja, do ponto de vista das regras básicas do conceito Humanidade, um estado de coisas injusto, a Síndrome do Gueto pode ser vista como sendo uma nítida política de exclusão social, deliberada, perpetrada por certos grupos ou classes sociais contra os outros, com o intuito de subjugá-los, justificando, plenamente o ensejo e o direito dos grupos prejudicados, por meio do estudo meticuloso de sua condição de excluídos, de buscar estratégias (que são a princípio políticas já que, em casos mais agudos, até mesmo estratégias para-militares ou violentas podem ser necessárias) para quebrar o jugo dos hegemonistas.

Exemplos emblemáticos de grupos sociais afetados pela Síndrome do Gueto ao longo da história:

  • Hebreus ou Judeus subjugados por egípcios no tempo dos faraós
  • Indigenas norte-americanos – e sul americanos – e africanos de diversas etnias subjugados pelos colonizadores brancos nas Américas e na África nos século 18 e 19, confinados em reservas ou territórios militarmente controlados
  • Fazendas de escravos nas Américas (como as de algodão nos EUA ou as do ciclo do café brasileiro)
  • Judeus aprisionados em guetos de criados pelos nazistas na segunda guerra mundial (como o Gueto de Varsóvia)
  • Emigrantes contidos em bairros de deserdados (como o velho Harlen de Nova York), etc.
  • Populações aprisionadas em Guetos e ‘bantustões’ implantados pelo governo racista da África do Sul durante o regime do Apartheid (como Soweto)
  • Palestinos subjugados pelo estado israelense na faixa de Gaza
  • Euro-muçulmanos subjugados – e massacrados- por sérvios e croatas na partilha nacionalista da ex-Iuguslávia.
  • Negros e nordestinos alijados para morar em ‘Morros’, ‘Favelas’, ‘Comunidades’e ‘Complexos’ de pobres no Rio de Janeiro, Brasil

O conceito, portanto está lançado. Este é, pois o tema proposto: a análise meticulosa da natureza desta síndrome em todas as suas nuances e melindres, afim de que se escape da armadilha estratégica que o combate ao racismo no Brasil parece estar confinado.

A luta contra o renitente racismo à brasileira estaria de algum modo, comprometida, travada por esta síndrome? Toco no assunto só de relance abaixo.

Anos de chumbo. A clausura impregnada em nós

Nos tão bem lembrados – e em certa medida saudosos – anos 70, a questão só assumiu contornos de emergência revolucionária para uns poucos. Lutar contra a ditadura era uma necessidade indiscutível e inadiável sim, prioridade absoluta para aquela parcela bem pensante de nossa sociedade, mas lutar contra o racismo não.

Tabu embutido no discurso da esquerda brasileira o tema foi, ora discretamente omitido, ora desestimulado com veemência, tratado como uma questão menor, ‘reacionária’ até, que só serviria mesmo para… ‘atrasar’ a luta.

Refletindo já a visão distorcida – que, aliás, predomina sobre o assunto até hoje – sendo a maior parte desta camada ‘bem pensante’ composta por pessoas auto declaradas ‘brancas’ (ninguém parava para pensar – ou fingia não saber – porque diabos a sociedade brasileira estava dividida assim).

O fato é que a discussão sobre o racismo era considerada, francamente secundária, ‘superestrutural’ como se dizia, quase um estorvo diante das grandes e sagradas questões nacionais.

(Não devia ser assim, mas pimenta nos olhos dos outros sempre foi refresco).

Como estaria se dando em Cuba e em outras mais longínquas plagas, o socialismo tão ansiado, assim que implantado por aqui, naturalmente se incumbiria de anular as eventuais e prosaicas (residuais para muitos) divergências raciais.

Justiça social total e automática. Esta era a utopia que parecia a verdade mais líquida e certa deste mundo. Dá até angústia pensar hoje em dia na solidão dos minguados velhos militantes negros da ocasião, calejados de exemplos frustrados desde a mal ajambrada abolição da escravatura.

Melancólicas lembranças daquele malhar em ferro frio do pessoal do Teatro Experimental do Negro nos anos 40/50, dos vetustos senhores da Frente Negra Brasileira dos anos 30, ingênuos quase comunistas, quase integralistas, vendo uma após outra as gerações de negros, filhos, netos, passarem a juventude inteira sem referências ideológicas válidas, curtindo a incômoda sensação de que, para vencer a barreira quase invisível do racismo o jeito mesmo era buscar uma saída individual, sem tocar publicamente no problema, sublimando-o na subserviente crença de que, estudando o negro chegaria ‘’.

_’Lá onde?’_ Pensavam e esbravejavam minguados rebeldes como Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Olímpio Marques dos Santos e uns poucos outros mais.

Eu mesmo, jovem militante subalterno de algumas poucas lutas puramente sociais, tomado por esta mesma negação do problema racial que não via ou não queria ver, me ressentia calado da subestimação com que as lideranças tratavam do problema que eu, mesmo sem assumir frontalmente, percebia estar grudado em nós como craca em casco de navio, enrustido em todas as relações que se estabeleciam entre as pessoas no Brasil, independentemente delas serem da ‘esquerda’ ou da ‘direita’.

Líamos o mesmo Karl Marx, mas, entendíamos marxismos diferentes. Como nas teses originais do alemão, inspiradas que foram na realidade européia, a questão do racismo não aparecia claramente expressa, os mais brancos de nós interpretavam o racismo como sendo uma espécie de problema cultural apenas subjacente, estritamente brasileiro, passível de fácil remédio com programas sócio educacionais pontuais.

Nós, os mínimos – embora mal letrados – quase marxistas negros do pedaço, não nos arvoraríamos jamais de, aquela altura dos acontecimentos, corrigir semelhantes filigranas nas teses do ‘mestre’ do materialismo dialético.

A chapa estava quente demais. As pessoas morriam de verdade, envolvidas naquela aventura. Amargavam as dores todas da cadeia, da tortura. Perdida de antemão, sabemos agora, contudo que aquilo era luta mesmo, luta à vera, gritariam para nós nas assembléias, se ousássemos levantar a voz para propor qualquer aprofundamento da questão.

Contudo, o exemplo mais candente da relevância deste ressentimento era facilmente perceptível na condição subalterna a que eram relegados os gatos pingados negros da ‘organização’.

Para ‘Uns‘ tarefas subalternas, posições subalternas até num simples ‘comício relâmpago’, práticas nas quais os ‘Outros‘ (às vezes – pasmem! – vestindo ternos de ‘tweed’ em pleno verão carioca) nas portas das fábricas faziam os prolixos discursos incitando greves contra os ‘patrões exploradores da mais valia operária’ enquanto que os  ‘Uns‘, disfarçados de mendigos, operários ou camelôs, entravam mudos e saiam calados, fazendo a ‘segurança da ação’, prontos a, se fosse o caso, segurar o trem pesado da repressão.

(Desnecessário se dizer no caso quem eram ‘uns’ e quem eram os ‘outros’).

Para cada tempo um fundo sentimento
Ser negro naqueles anos de chumbo

Fortes, intrínsecas e renitentes as premissas básicas do Racismo à brasileira já apareciam ali, claríssimas, só os cegos (os que não queriam ver) não viam. O símbolo mais evidente do caráter doentio desta renitência podia ser simbolizado por aqueles militantes ‘revolucionários’ que, sabia-se à boca pequena, quando ainda não ingressos na clandestinidade, mantinham empregadas domésticas em suas próprias casas.

Dizem até que alguns contratavam discretas arrumadeiras diaristas para limpar os ‘aparelhos’, limitando-se apenas a tratá-las como ‘iguais’, vez por outra as brindando com pequenos regalos e exortações à conscientização de seu papel de escravas dos ‘outros’ (por suposto, nunca ‘deles’).

Talvez tenha sido por isto que aquele renovado Movimento Negro dos anos 70, aparentava já na sua origem, aquela forte vocação ‘Black is beatifull’, curtindo mais Lhuter King do que Malcom X, tendendo mais para o fashion ‘Black Power’ do que para o enfático ‘O Negro no Poder’.

Subestimando por julgar arcaica e ‘out‘ cultura dos nossos avós sambistas, alguns de nós ignoravam ou repudiavam do mesmo modo, o caráter francamente racista da ‘juventude branca’ de esquerda, que de forma vanguardista propunha uma revolução social rumo a uma sociedade sem classes.

‘Renegar o velho‘, ‘renegar o branco‘, estas eram as palavras de ordem subentendidas em algumas de nossas falas. E daí como consequência o efeito terrível: Aculturados, misturamos assim alhos com bugalhos.

Foi incrível, mas cega pela aversão ao racismo renitente e enrustido dos ‘movimentos brancos‘, esta parte mais proeminente da militância negra parece que foi perdendo também o sentido de sua luta, o foco de seus próprios interesses sociais mais evidentes, ao negar – como uma pequeno-burguesia destas bem egoístas e chinfrim– o eterno sonho da revolução social, mesmo quando ela já estava sendo feita, exatamente por exemplares sociedades negras contemporâneas, aquelas mesmas antepassadas diretas dos negros do Brasil (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau).

(Aliás, quem por aqui se importava com Nelson Mandela na década de 70?)

Zumbi por certo, nestas horas, se revolvia no túmulo ultrajado por ter seu revolucionário nome evocado em vão (isto sem se falar no mesmo revolver do corpo do Oswaldão do Araguaia).

As ideias de libertação sócio racial, na luta de todos para todos (do vitorioso ideário do ANC de Mandela), acabaram assim trocadas pelas contidas ideias de ascensão social individual, segundo um modelo de luta calcado no que havia de mais aparente no comportamento de uma minoria negra, que reivindicava direitos civis nos EUA.

A mal disfarçada tentativa de criar aqui uma classe média negra, uma elite negra, uma casta de intermediários entre os milhões de negros pobres e a hegemonia branca – como se pode ver ainda hoje – claramente era (como o é ainda) totalmente improvável no contexto de uma população afro-descendente tão numerosa quanto tão meticulosamente segregada como a nossa.

Assim como uma maioria equivocadamente se julgando minoria, pensando como minoria (como se dava, por razões bem menos prosaicas em Varsóvia), esta minúscula liderança negra foi facilmente inviabilizada e corrompida, cooptada enfim como qualquer ‘panelinha’ social oportunista.

Pois foi assim que a Síndrome do Gueto, se apossando sorrateiramente daquelas nossas mentes mais vadias e românticas, que sonhavam em sozinhas chegar ‘lá’, nos levou a este deu no que deu.

O isolamento político de uma geração inteira de hoje maduros líderes negros que, animados naquela época pelas emocionantes palavras de ordem dasMarchas para Zumbi, se empenharam no vão intento de ser a antítese perfeita e acabada da esquerda ‘branca’, acabando mesmo como tributários subalternos das plataformas pretensamente esquerdistas do PT (e de outros partidos menores, também supostamente de esquerda) tendo que amargar hoje as lamúrias tardias de um ou outro líder-orixá caído na lama, dentre os poucos que…chegaram ‘‘.

Como, ao que supomos, ficou provado, não bastava mesmo ser negro e favelado.  Seja lá qual fosse a revolução de cada um, o dístico rebelde nunca poderia ser apagado:

_ ‘hay siempre que endurecerse sin perder a ternura – e a ética, a vergonha na cara – jamás.’

(Melancólicas e tardias constatações, reconheço. E é por isto que peço tempo. Depois o papo segue de onde parou, num outro post ou até onde esta penosa conversa nos levar.)

Spírito Santo
Abril 2010

(Hoje, 2019, infelizmente não consegui mudar uma vírgula)

Favela Forever. A modernização do ‘escravo de ganho’ e suas perdas eternizadas


Ilustação Jean Baptiste Debret + Mônica Imbuzeiro (O Globo)

…”O Escravo poderia realizar diversos trabalhos na cidade, poderia ser engraxate, comerciante, barbeiro, etc. Vivia solto, e o que era feito para que ele não fugisse? Uma parte do que ele arrecadava com o seu trabalho era dele, e outra ficava com seu dono, o que é chamado de “escravo de ganho”… Existia também o aluguel de escravos, onde o dono disponibilizava a outrem o trabalho de seu escravo por um determinado período, em troca de um pagamento… “

(Marise Magalhães Olímpio)

Impressionante!

O Brasil tem coisas que contando – fora dele – ninguém acredita. O grau de anestesiamento, a indiferença – ou a alienação – da maioria das pessoas é tanta que a imprensa, o governo, as chamadas ‘elites organizadas’ enfim, nem precisam mais usar de expedientes, ‘panos quentes’ ou sutilezas. A iniquidade é expressa assim mesmo, na maior ‘cara de pau’, com todas as letras, nenhum pudor, nenhuma vergonha.

É como se a nossa sociedade fosse mesmo estúpida e ignorante, arcaica a ponto de se orgulhar disto, como aqueles caipiras ricos do Alabama, ou os neo-fascistas do ‘Tea Party’, estes racistas aí dos mais truculentos. Num país normal – até mesmo em terras de racismo institucionalizado – uma matéria destas como a que acabo de ler em ‘ O Globo’, causaria justa e imediata indignação, mesmo nas pessoas mais reacionárias ou menos sensatas.

Ora, bastou juntar a foto que ilustrava a reportagem de hoje, 23 de Janeiro de 2010, com uma gravura do Jean Baptiste Debret de meados do século 19, em plena escravidão (cujo cenário, aliás, reparem, parece ser o de um dos muitos morros de nossa cidade) .

As imagens juntas assim, dizem tudo!

Observem lendo este link que o mesmo discurso (que, ao que parece é oficial) já era difundido há muitos meses atrás, como peça de propagadanda das UPPs.

Lendo a matéria então, o cinismo escorre pelas linhas do texto como enchente na Serra. Deus do céu! Se fosse um garoto favelado como um destes aí – desculpem a franqueza – não ia ter jeito não: Ia mandar bala na cara desta gente.

“PM ajuda ex-traficantes a buscar emprego formal

O Globo

RIO — O projeto de pacificação de favelas previa a retomada do território que antes era dominado por traficantes armados. O que as Unidades de Polícia Pacificadora não imaginaram é que acabariam também fazendo um trabalho inédito de recursos humanos (‘recursos humanos’…Ah, ah ah, ah,ah!) junto a ex-integrantes do tráfico. Abandonados pelos chefes das facções, esses criminosos sem passagem pela polícia e com idade entre 16 e 25 anos começaram a buscar emprego com a ajuda da PM , que antes era seu principal inimigo (Ah, ah ah, ah,ah!), mostra reportagem de Marcelo Dutra, publicada neste domingo pelo O GLOBO. Dezenas desses pequenos traficantes estão conseguindo emprego com carteira assinada, como motoboys, pedreiros, comerciários, porteiros e em estacionamentos privados (Ah, ah ah, ah,ah!) .

—Ou a gente arruma um emprego ou tomba ou vai em cana. O império acabou. Perdemos, vou fazer o quê? — disse um dos novos trabalhadores ao repórter Marcelo Dutra.

Ex-traficante conta que venda de drogas não garante mais sustento em áreas de UPPs

Num primeiro momento, com o pedido informal de alguns comandantes de UPP, esses ex-soldados do tráfico foram encaminhados a estacionamentos (Ah, ah ah, ah,ah!) . Como a maior parte não tem carteira de habilitação, trabalha como operador de tráfego. Mas outros foram trabalhar em portarias de prédios, como motoboys, ajudantes de obra e pedreiros. Os nomes dos ex-soldados do tráfico e seus parentes estão mudados nesta reportagem. Contudo, suas histórias, locais de moradia e idades permanecerão inalterados.

Tiago, de 18 anos, um jovem da Tabajaras, até o ano passado exercia a função de “endolador” (embalador) de cocaína. Foram quatro anos a serviço do crime, o que lhe garantia uma renda mensal de não menos de R$ 3 mil. Hoje, ele trabalha numa obra na região, carregando sacos de cimento. Ganha em média R$ 500 por mês (Ah, ah ah, ah,ah!) .

— Eu queria muito ser bombeiro. Mas acho que agora não dá mais, né?— diz Tiago. — É que bombeiro ajuda os outros. Não quero mais nada com a vida errada. Pedi ajuda aos homens (PMs) e eles me deram uma chance (Ah, ah ah, ah,ah!) . Estou dentro da lei agora e vou ajudar minha família.

No Andaraí, Pedro, de 17 anos, diz que também vigiava a movimentação da favela, mas evitava pegar em armas. Numa comunidade, corre mais risco de vida quem está armado.

— Sempre que acontecia uma parada errada (tiroteio) aqui, tombava um que estava armado. Eu não dava esse mole. Só ficava na espreita — diz ele, que trabalha carregando caixas numa loja na Tijuca.

Os erros de português e as gírias são comuns aos jovens que trabalhavam para o tráfico. Segundo a PM, a maior parte desse grupo lançado à força no mercado de trabalho não tem sequer o primário completo. Muitos são analfabetos. A faixa etária vai de 16 a 25 anos e eles não têm qualquer qualificação profissional. Há seis meses comandando a UPP da Tabajaras, o capitão Renato Senna diz que todos esses fatores dificultam muito obter um emprego. Mas os que conseguem trabalho têm demonstrado determinação incomum (Ah, ah ah, ah,ah!).”

As sujas entrelinhas

O que a matéria diz é o seguinte: Olha aqui, Não vamos te dar educação, Não vamos te dar casa, Não vamos te dar lazer, Não vamos te dar saneamento básico, Não vamos te dar porra nenhuma.

Te damos este biscate aí de carregador de saco de cimento, dia após dia, com um salário miserável que dará apenas para te manter vivo. Se você não quiser entrar nesta e se meter a besta de tentar escapar deste esquema, cometendo qualquer ilicitude, nós vamos te caçar, te prender ou te matar.

É pegar ou largar. Esta é a única lei na qual você tem que estar dentro.

‘Favela Forever’

Como diria o meu amigo Saraiva, o projeto do governo, a política pública adotada para o problema da exclusão social no Rio de Janeiro e, quiçá no Brasil é manter tudo como está para sempre: Favela forever’.

(Desculpem as risadinhas que inseri nas entrelinhas da matéria. É que não resisti ao humor negro explícito nela)

Perdemos aqui, totalmente a noção do perigo.

Bem, galera, concordo que foi mal rir tanto desta verdadeira tragédia social, mas vejam bem: estava rindo mesmo era de de raiva, tá?

Em tempo: (mais risadas)

Eureca!O prefeito do Rio Eduardo Paes acabou com as favelas numa penada. Nas novas placas de obras de seu governo, as favelas ganharam um eufemístico nome de matar de rir: “ASSENTAMENTOS PRECÁRIOS INFORMAIS”. Agora, nos docs. oficiais favela se chamará ‘API’.

Isto me lembrou o tempo em que pelo mesmo motivo mudaram o nome das favelas para ‘Comunidades Carentes’, que depois viraram apenas comunidades. Daí surgiram os grandes conglomerados chamados, não menos eufemísticamente de Complexose a palavra favela voltou a baila.

Estes caras são pândegos!

Spírito Santo

Janeiro 2011

Malangatana para sempre


Malangatana2

Nos anos 70, o simbólico em nós que, mesmo aqui no Brasil, sonhavamos com libertação da África, era ilustrado pelos quadros do Malangatana. É curioso que num dos seus obituários (veja neste link) o articulista portugues algo ressentido, o descreva, logo ele, um artista combatente da causa da independencia de Moçambique como tendo ‘nascido português numa vila Moçambicana’ tentando negar-lhe, até na morte, a nacionalidade africana. Doença de tolos.

Malangantana nunca morrerá. Quem morreu foi o colonialismo.

“O pintor moçambicano Malangatana morreu aos 74 anos, esta madrugada, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, vítima de doença prolongada, segundo a direcção do hospital.

Foi nomeado pela UNESCO Artista pela Paz (Foto: Carlos Lopes/arquivo)

O pintor, de 74 anos, encontrava-se internado há vários dias naquele estabelecimento hospitalar.

Malangatana vendeu os primeiros quadros há 50 anos e com o dinheiro arranjou uma casa e foi buscar a família para Maputo. Meio século depois, morreu um homem do mundo, um amigo de Portugal e um dos moçambicanos mais famosos.

Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 6 de junho de 1936 em Matalana, uma povoação do distrito de Marracuene, às portas da então Lourenço Marques, hoje Maputo. Foi pastor, aprendiz de curandeiro (tinha uma tia curandeira) e mainato (empregado doméstico).

A mãe bordava cabaças e afiava os dentes das jovens locais (uma moda da altura), o pai era mineiro na África do Sul. Com a mãe doente e um pai ausente, Malangatana foi viver com o tio paterno e estudou até à terceira classe. Aos 11 anos começou a trabalhar porque já era “adulto” e podia fazer tudo, de cuidador de meninos a apanha-bolas no clube de ténis.

Mais do que um pintor

Nos últimos 50 anos foi também muito mais do que pintor. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Fez experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado, da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência.

Ainda que o seu lado político seja o menos conhecido, Malangatana chegou a estar preso, pela PIDE, acusado de pertencer à então FRELIMO, sendo libertado ao fim de 18 meses, por não se provar qualquer vínculo à resistência colonial.

Na verdade Malangatana viveu parte da sua adolescência junto dos colonos portugueses, os mesmos que o iniciaram na pintura, primeiro o artista plástico e biólogo Augusto Cabral (morreu em 2006) e depois o arquitecto Pancho Guedes.

Augusto Cabral era sócio do Clube de Ténis, onde trabalhava um tio do pintor. “Um apanha-bolas nas partidas de ténis era um tal Malangatana Ngwenya (crocodilo), que, no fim de uma tarde de desporto, se acercou de mim para me pedir se, por acaso, eu não teria em casa um par de sapatilhas velhas que lhe desse”, contou Augusto Cabral em 1999.

O pintor iria “nascer” nessa noite, quando Malangatana foi a casa de Augusto Cabral e o viu a pintar um painel. “Ensine-me a pintar”, pediu. E Augusto Cabral deu-lhe tintas, pincéis e placas de contraplacado. “Agora pinta”, disse ao jovem, ao que este perguntou: “pinto o quê?”. “O que está dentro da tua cabeça”, respondeu Augusto Cabral.

O jovem viria a ter também o apoio de outro português, o arquiteto Pancho Guedes, que lhe disponibilizou um espaço na garagem de sua casa de Maputo e lhe comprava dois quadros por mês, a preços inflacionados. Em poucos meses Malangatana quis fazer uma exposição e foi, para espanto confesso de Augusto Cabral, um enorme sucesso.

Nas pinturas, nessa altura e sempre, Matalana, onde nasceu e cresceu e onde frequentou a escola da missão suíça de até à segunda classe. Menino pastor, agricultor, caçador de ratos com azagaia, viria a estudar só mais um ano. Fica-lhe Matalana no pincel, a opressão colonial, a guerra civil. A paz reflecte-se numa pintura mais otimista e nos últimos anos foi um carácter mais sensual que a caracterizou.

E sempre o quotidiano. “Há sempre um manancial de temas a abordar. São os acontecimentos do mundo, às vezes tristes, outras alegres, e eu não fico indiferente. Seja em Moçambique, ou noutra parte do mundo, a dor humana é a mesma”, disse numa entrevista à Lusa, ainda recentemente.

Já homem, com a pintura como profissão, confessou ao jornalista Machado da Graça que sentia grande aproximação com os artistas portugueses desde os anos 70, quando foi pela primeira a Portugal, como bolseiro da Gulbenkian.

O legado de Malangatana

Entre 1990 a 1994 foi deputado da FRELIMO e ao longo de décadas ligado a causas sociais e culturais. Foi um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique, dinamizador do Núcleo de Arte, colaborador da Unicef e arquiteto de um sonho antigo, que levou para a frente, a criação de um Centro Cultural na “sua” Matalana.E exposições, muitas, em Moçambique e em Portugal mas também mundo fora, na Alemanha, Áustria e Bulgária, Chile, Brasil, Angola e Cuba, Estados Unidos, Índia. Tem murais em Maputo e na Beira, na África do Sul e na Suazilândia, mas também em países como a Suécia ou a Colômbia.

Contando com as obras em museus e galerias públicas e em colecções privadas, Malangatana vai continuar presente praticamente em todo o mundo, parte do qual conheceu como membro de júri de bienais, inaugurando exposições, fazendo palestras, até recebendo o doutoramento honoris causa, como aconteceu recentemente em Évora, Portugal.

Foi nomeado Artista pela Paz (UNESCO), recebeu o prémio Príncipe Claus, e de Portugal levou também a medalha da Ordem do Infante D.Henrique. Em Portugal morreria também o pastor, mainato e pintor. Malangatana. Valente.

LUSA – 05.01.2011

NOTA:

Aos familiares, amigos e povo de Moçambique a solidaridade do MOÇAMBIQUE PARA TODOS na perda da figura de um moçambicano íntegro, amigo de seu amigo.”

Fernando Gil

MACUA DE MOÇAMBIQUE

SAMBA fake e SAMBA de fato


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Os oito Batutas

(Este post é baseado em trechos do livro, denominado ‘Do Samba ao Funk do Jorjão’, cuja idéia central é esmiuçar e desconstruir alguns dos mitos, supostamente, criados em torno da história do Samba – enquanto uma espécie de síntese da cultura do negro brasileiro, em geral – mitos estes que, como ocorre com muitas outras ficções antropológicas montadas no Brasil, foram construídos por criativas comunidades de intelectuais, ao longo do tempo e com intenções, quase sempre, muito bem medidas.

Embora tenham sido baseados, claramente, em premissas equivocadas, infundadas ou mesmo deliberadamente falsas, infelizmente, estes mitos foram se cristalizando até se tornarem verdades absolutas, oficiais, por força de sua insistente reiteração (principalmente por certas vias acadêmicas).

Ao que parece, na maioria dos casos, a principal função destas mistificações, é dar sustentação a certos paradigmas da excludente sociedade brasileira, entre os quais aquele que tenta estabelecer – sempre sem afirmar – a existência de uma espécie de hierarquia cultural (ou mesmo intelectual), entre as raças ou classes no Brasil, que daria alguma legitimidade a desigualdade social predominante.

Dentre estes eletrizantes mitos, o mais curioso talvez seja o do ‘Berço do Samba’, que parece tentar comprovar – na verdade, de forma extremamente sutil – a velha tese racista de Nina Rodrigues sobre uma improvável supremacia dos negros bahianos (‘sudaneses‘ supostamente maioria étnica na Bahia) sobre os demais (negros ‘Bantu‘, vindos de Angola para as fazendas de café do Vale do Rio Paraíba do Sul, certamente, maioria étnica no Rio de Janeiro e na região Sudeste é parte do Mordeste desde, pelo menos, o início do século 18, por razões logísticas, ligadas aos interesses do tráfico de escravos.

Entre outras fontes, recorri para esta parte do trabalho, aos escritos (em notas assinaladas) de Nei Lopes – que gentilmente assina o prefácio do livro em sua primeira edição, além de Muniz Sodré e Sérgio Cabral, o pai, entre outros  especialistas brasileiros.

Com vocês então:

O Mito do ‘berço do Samba

Não deu no jornal:
O dia em que um Samba foi cantado na Mangueira…pela primeira vez


…’Quem cantou foi Eloy Anthero Dias, o ‘Mano Eloy’, um personagem legendário do samba carioca. Morador de Madureira, na época, Mano Elói viria a fundar mais tarde pelo menos três escolas de samba (Prazer da Serrinha, Deixa Malhar e Império Serrano). Foi ainda, segundo dizem, um respeitado pai-de-santo e, durante muitos anos, destacou-se como líder sindical dos estivadores do cais do porto.

‘…Mano Eloy cantou primeiramente na casa de Tia Fé e depois para os integrantes do Pérolas do Egito. Era um samba do tipo partido alto em que se repetia o refrão e improvisavam-se versos. O refrão dizia apenas o seguinte: ‘O padre diz Miseré Misereré nobis’. Em seguida, vinham as quadras improvisadas, quase sempre relacionadas com as circunstâncias em que o samba era cantado, Carlos Cachaça lembrou-se que, numa delas, Mano Elói brincava com a dona da casa, inventando versos como “amanhã vou na casa de Tia Fé”, rimando com “vou tomar ‘café’ ‘.

O Samba de Partido Alto cantado por Eloy, principalmente pelo fato de usar uma rima com ‘café’, poderia ter algum remoto parentesco com o famoso ‘Batuque na Cozinha’ que, por sua vez, já havia sido um conhecido Lundu de letra africana, meio cabalística, bastante famoso na Corte Imperial como ‘Lundu do Pai Zuzé’ (este sim, matriz evidente do famoso e posterior ‘Batuque na Cozinha’ (assinado por João da Bahiana).

Lundu do Pai Zusé (domínio público – século 19)

‘Batuque na cozinha , Sinhá num qué
Pru causa da crioula do Pai Zusé

Auê, Zambi…
Zique…pá , Zique…pá , Zique…pá , Zique…pá …
_ Cadê pirigurê? (caxinguelê)…’

Batuque na Cozinha (João da Bahiana, século 20)

‘Batuque na cozinha a Sinhá num qué
Por causa do batuque eu queimei meu pé….

Eu fui na cozinha pra pegá cebola
E o branco com ciúme de uma tal crioula

Deixei a cebola, peguei na batata
E o branco com ciúme de uma tal mulata…’

O Rancho ‘Verde e Rosa’

Existem muitos outros aspectos curiosos, instigantes mesmo, naquela primeira audição de Samba na casa da bahiana Tia Fé, na Mangueira dos idos de 1910, protagonizada, pelo ilustre visitante Eloy Anthero Dias, um encantado Carlos Cachaça, e o pessoal do rancho ‘Pérolas do Egito’, muitos deles talvez futuros integrantes do ‘bloco dos Arengueiros’, segundo consta, o núcleo formador da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira. Embora eles sejam considerados hoje em dia fatos consumados e estabelecidos, que tal dar uma olhada neles, sob outro ponto de vista?

Para começo de conversa, há na crônica sobre as origens do Samba, um inexplicável exagero na hora de se falar desta impressionante figura que foi Eloy Anthero Dias, o Mano Eloy. O que se vê invariavelmente legendado em sua história, na época em que cantou pela primeira vez um Samba na Mangueira, é a sugestão de que ele era um ‘bamba, exímio sambista, jongueiro, pai de santo e macumbeiro’, cheio de super poderes, um verdadeiro ‘Superman’ negro.

Ocorre que este surpreendente Mano Eloy (com certeza um nome que merece mais notoriedade do que lhe dão os especialistas em Samba), pelos dados até agora disponíveis, devia estar, no máximo, com 22 anos na ocasião descrita por Carlos Cachaça (que seria mais novo ainda que Eloy).

…Há 30 anos que Eloy Anthero Dias (agora aos 43 anos) …faz parte do Samba- essa dança que encanta e embala. Durante este tempo, inúmeros sambas fez ele, inclusive ‘Miserê’, ‘Não vou lá no candomblé,’ ‘Moro na roça’, e ‘B com A’, estes tiveram retumbante sucesso’ .

(Trecho de biografia de Eloy publicada pelo jornal ‘A Rua’, na ocasião em que foi eleito o primeiro cidadão Samba do carnaval carioca, em 1936)

Estando há cerca de sete anos no Rio de Janeiro e havendo ingressado no chamado mundo do Samba com cerca de 18 (portanto há apenas quatro anos antes desta sua ida à Mangueira), Eloy devia ser aquela altura, astuto sim, despachado, descolado; um jovem prodígio até mas, experiente com certeza ele não poderia ser. Não havia bagagem de vida, cabedal. Havia muito chão ainda para o futuro ‘bamba’ percorrer.

‘... Sambista nascido em Engenheiro Passos, no estado do Rio de Janeiro em 1888 e falecido em 1971, na cidade do Rio – para onde viera com 15 anos de idade- (…) Mano Elói tornou-se o pioneiro do registro de cânticos rituais afro-brasileiros. Nesse ano, com o Conjunto Africano, gravou um ponto de Exu, dois de Ogum e um de Iansã. Seu companheiro nessa empreitada foi o já referido Amor. O pioneirismo dos sambistas Amor e Mano Elói deve-se ao fato de eles terem levado para o disco verdadeiros cânticos rituais, executados e interpretados como autênticos pontos de macumba, com atabaques e tudo o mais’.

O fato é que, por alguma estranha razão, ligada talvez ao inusitado da situação (quem sabe talvez o fato de ter sido um desconhecido ‘estrangeiro’ de Oswaldo Cruz, o verdadeiro introdutor do Samba, no tradicionalíssimo reduto da ‘Estação Primeira’), nossos estudiosos acabaram deixando sugeridas na biografia de um Eloy ainda mal saído da adolescência, qualidades que ele evidentemente só iria ter muitos anos depois.

A precocidade de Eloy (a quem também Nei Lopes, de certo modo, atribui a introdução do samba na Mangueira, sob a forma de rodas de Batucada e de Pernada) e de outros grandes mestres do Samba, era bastante comum naquela época, quando os conceitos adolescência ou juventude eram um tanto diferentes do que são nos dias de hoje.

Mesmo neste caso há de se convir, no entanto que, se referindo àquela ocasião, os dotes posteriormente atribuídos a Mano Eloy eram certamente exagerados.

Deu até no ‘Fantástico‘:
O Quintal e a Sala da Tia Ciata

O outro aspecto, este mais instigante ainda, é que, se é fato realmente que na Mangueira de 1910 não havia ainda algo que se parecesse com o ‘Samba de Partido Alto’ trazido por Eloy (fato que explicaria a surpresa do menino Carlos Cachaça) a enfática afirmação da maioria dos estudiosos de que o Samba nasceu na Praça Onze, nos quintais das tais ‘Tias Bahianas’, pode não passar mesmo de um mito, um episódio, de novo, exagerado pela bibliografia.

Se as adjacências da Praça Onze fossem realmente o lugar onde se localizava o ‘berço do Samba’, porque cargas d’água o Morro da Mangueira, tão perto dali, seria o último a saber, o único reduto a não participar da construção desta grande novidade que, em 1910 já deveria estar em franca e notória gestação?

Talvez tenha sido porque o que se irradiava da Cidade Nova para o Morro da Mangueira, não era ainda, definitivamente, Samba, e sim Rancho Carnavalesco.

É o que se pode deduzir pela lógica dos fatos, principalmente se destacarmos o emblemático detalhe da reunião na qual Eloy cantou o seu seminal Partido Alto, ter ocorrido, exatamente, na sede de um rancho, o ‘Pérolas do Egito’.

Pelo visto, era mesmo das bandas do Estácio e, principalmente, da roça de Oswaldo Cruz e adjacências (Morro da Serrinha) que chegavam os novos ingredientes, para engrossar o caldo do Samba que a esta altura, já estava borbulhando, quase no ponto, ali por volta de 1910 / 20.

De todo modo, mesmo sem se saber exatamente quem influenciava quem, a lista de precursores, Pais e Mães do Samba na época, pode ser bem mais extensa – e variada – do que aparece na bibliografia oficial:

...’De todas as tias, a mais famosa e a mais importante foi Tia Ciata (…) em cuja casa os pesquisadores asseguram ter nascido o samba carioca. Seu verdadeiro nome era Hilária Batista de Almeida, uma mulata muito bonita, que chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1870, com 20 anos de idade. Instalada no Rio, Tia Ciata passou a ganhar a vida com um tabuleiro de quitutes baianos na rua Sete de Setembro.’

Talvez seja mais razoável se deduzir, portanto, que sendo a palavra Samba, por esta ocasião, talvez uma forma ainda genérica para se designar ‘Chulas de negro’ ou, simplesmente ‘Música de negro’, o que fermentava no quintal da Tia Ciata na verdade – e eventualmente chegava até no Morro da Mangueira, sem atrair muito a atenção do povo de lá – não era exatamente o Samba definitivo mas sim, uma das muitas formas de Samba que pipocando aqui e ali na cidade, disputavam uma hegemonia que estava para se cristalizar a qualquer momento.

O tal ‘berço do Samba’ poderia estar aquela altura, em qualquer lugar. Não havia uma estrela guia apontando para a ‘Cidade Nova’, como muitos especialistas em Samba insistiram é insistem em afirmar de forma enfática.

Contudo, embora sendo um exagero muito oportuno e providencial, pode não ter sido tão gratuita assim a eleição da área da atual Praça Onze, por parte de nossos intelectuais, como o berço oficial do Samba.

Nas primeiras décadas do século 20 (num fluxo que, se inicia na segunda metade do século anterior) o lugar já se configurara como uma verdadeira colônia bahiana, congregando emigrados baianos (e pernambucanos) de diversos tipos, inclusive personalidades do candomblé emergente e até mesmo alguns alufás maometanos, mal vistos em Salvador desde os tempos da última revolta dos Malês (1835)

Situada ali, bem perto do centro da cidade propriamente dita, do centro mundano incrementado pela recente criação do boulevard parisiense que era a Avenida Central, no qual se situavam os ‘points’ da intelectualidade carioca, esta colônia bahiana se prestava maravilhosamente bem – embora de forma simplista – como representação simbólica, uma espécie de microcosmo da cultura típica – idealizada – dos negros africanos na capital federal.

Ao que tudo indica, no entanto, a julgar pelo que nos demonstram certos antecedentes da história do Samba, este pessoal da Bahia estava muito mais ligado mesmo é na afirmação por aqui, de suas próprias tradições culturais, trazidas do nordeste, entre as quais preponderavam o candomblé e os Ranchos (Pastoris ou Lapinhas), principal paixão cultural destes bahianos, manifestação de inspiração portuguesa, colonial portanto.

‘… Carlos Cachaça não guardou na memória o ano em que ouviu samba pela primeira vez em Mangueira, lembrando-se apenas de que foi no tempo do Rancho Pérolas do Egito, tudo indicando, portanto, ter sido antes de 1910. Mas não se esqueceu das circunstâncias em que o fato se deu… ‘

Aliás, pode se considerar por isto mesmo – e com certa propriedade até – que, ao que parece, houve uma curiosa subestimação – ou mesmo omissão – do caráter essencialmente lusitano da herança cultural trazida por estes grupos de bahianos para a Corte do Rio de Janeiro, herança que possui traços muito evidentes na cultura primordial do Morro da Mangueira, como bem nos demonstra o ambiente encontrado por Mano Elóy, nos idos de 1910, quando lá introduziu o gosto pelo chamado Samba de fato.

A implantação destas tradições luso-bahianas no âmbito da cultura urbana do Rio de Janeiro foi, inclusive, o motivo de muitas disputas e demandas internas, entre os principais líderes desta colônia nordestina, das quais a mais empolgante talvez tenha sido a que poderia ser chamada de A demanda dos Hilários, desentendimento ocorrido entre Hilária Batista de Almeida, a famosa Tia Ciata e Hilário Jovino Ferreira, segundo dizem o introdutor do Rancho no carnaval carioca, na disputa pela criação de um destes grupos.

A referida disputa, de certo modo, separou os bahianos em duas facções rivais: A da Cidade Nova (Tia Ciata) e da Gamboa (Hilário Jovino)

Além da eventual opção preferencial pelo Rancho Carnavalesco, a julgar por algumas entrelinhas, contidas nos muitos relatos existentes sobre o assunto, o tipo de Samba praticado na casa da Tia Ciata – a bem da verdade um reduto de certa elite negra, composta por geniais músicos e compositores profissionais, além de funcionários públicos bem sucedidos (o marido de Ciata, o médico João Batista da Silva, era chefe de gabinete do chefe de polícia do Governo de Wenceslau Braz) talvez fosse uma forma de Samba um tanto esnobe, impregnada ainda dos maneirismos estéticos dos diversos gêneros de música européia que andaram em voga no fim do Império, tais como o Schotisches, a Polka e a Mazurka.

Embora fosse daquela mesma geração, Pixinguinha não era exatamente um homem de Samba. Ele próprio contou que, nas festas descritas por Donga, não ia para o quintal: _ ’Eles (os sambistas) faziam seus sambas lá no quintal e eu os meus choros na sala de visitas. As vezes eu ia no terreiro fazer um contracanto com a flauta mas não entendia nada de samba’.

No mesmo artigo, Sérgio Cabral comenta também que, um tal de Marinho que Toca, um cavaquinista, foi quem ensinou Donga a batida do Samba (provavelmente numa das festas na casa de Ciata), ou seja, já naquela altura, do mesmo modo que Pixinguinha, seu companheiro no grupo ‘Os Oito Batutas’, Donga também não era ainda muito chegado ao ritmo do qual, logo depois, seria incensado como o suposto ‘inventor’ (pelo menos em gravações) .

O que se fazia na casa da Tia Ciata, portanto, era certo tipo de samba negro sim, mas, de certo modo, um tanto ‘aculturado’, que já fora chamado antes de ‘Lundu’ e tentava agora descolar de si o nome de ‘Maxixe’, com o qual a mídia da época já ameaçava batizá-lo de vez, uma espécie de ‘Bossa Nova da Belle Èpoque’, em suma.

O que se pode afirmar com certeza é que a receita de Samba tentada na casa da Tia Ciata, foi uma experiência de fusão musical que, pelo menos como Samba, não vingou.

A receita que o caldeirão não conseguiu cozinhar (ou o cozido que não apeteceu a negrada, ao ‘populacho’); uma forma de Samba que, não prevalecendo, foi se diluindo, amarelando com o tempo, abafada pela batucada avassaladora que o povo negro da Roça, liderado pelo enorme poder de sedução e persuasão de figuras como Eloy Anthero, veio trazendo para as ruas da antiga Corte.

Ao que nos parece, portanto, o Samba definitivo, aquele que emergindo por volta de 1920, se apossa rapidamente da cidade, só começa a tomar forma mesmo, quando o Jongo e outros ‘batuques’ instalados nas roças e morros atrasadas da periferia, começaram a se espalhar, como água pura – via cais do porto talvez – por esta cidade já irremediavelmente partida ao meio por uma imensa e simbólica ‘Avenida Central’ que, separando a população entre ‘brancos’ e ‘crioulos’; remediados e desvalidos, parte também nossa música popular urbana em duas vertentes culturais quase inconciliáveis, que só se encontrariam para desfilar no Carnaval.

Reproduz-se assim, como num samba enredo improvável, o quadro de intenso apartheid que havia sido instalado na cidade do Rio de Janeiro por seu prefeito, o ‘smart’ Pereira Passos, em 1906.

Por este viés, pode-se compreender também, e com maior rigor e clareza, a natureza de uma certa polêmica que opunha de um lado, o ‘samba’ ‘Pelo Telefone’ (aquele filho dileto do ‘Maxixe’) e de outro, o ‘Samba de Partido Alto’ (o filho legítimo da ‘Chula Raiada’) aquele que enfim, logo em seguida, açambarcaria de vez o título de Samba de fato.

Num definitivo depoimento divulgado no livro de Muniz Sodré ‘ Samba o dono do corpo’, Donga afirma enfático que a melodia de ‘Pelo Telefone’ foi copiada de um tema folclórico, muito popular na ocasião no qual ele inseriu versos, encomendados ao jornalista Mauro de Almeida, conhecido como “Vagalume”.

O que conhecemos como o primeiro Samba gravado, não seria portanto nenhuma novidade. Na verdade nem o nome de ‘composição’ original mereceria porque, não passava de uma simples paródia (coisa que, aliás, segundo o mesmo Donga, era bastante comum naquela ocasião). Podemos deduzir então que “Pelo Telefone’, era uma chula-paródia, em ritmo de Maxixe que, algum esperto produtor (Fred Figner, da Casa Edison ou o próprio Donga), detectando o grande apelo comercial da palavra, resolveu batizar de ‘Samba’.

É sintomático inclusive que, começando provavelmente a ser elaborado em 1910, este ’Samba de fato’ tenha tido que esperar quase 20 anos mais para ocupar, no carnaval, o lugar que as marchas, lundus e maxixes ocuparam, durante as duas primeiras décadas do século 20.

…O primeiro rancho carnavalesco em Mangueira chamava-se Pérolas do Egito, criado antes de 1910, ano em que surgiram o Guerreiro da Montanha e um outro cujo nome Carlos (‘Cachaça’) esqueceu, mas que teria sido formado pelos moradores do alto do morro. Mais tarde, nasceu o Príncipe da Floresta, o mais famoso rancho de Mangueira, que adotou as cores verde e rosa.”

Os negros Mangueirenses, no mesmo momento em que tentavam forjar a difícil mistura entre seus candomblés e macumbas com as dolentes marchinhas das Lapinhas, dos Pastoris e dos Ranchos dos lusitanos, devem ter ficado mesmo encantados com a astúcia e a picardia africana, angolana, contida nos ‘Sambas de Partido Alto’ trazidos por Mano Eloy.

Segundo alguns autores, foi neste exato momento, quase em 1910, que eles, os Mangueirenses (junto com o pessoal da vizinha Praça Onze), foram irremediavelmente contaminados pelo vírus daquele Samba jongado que vinha da Roça ‘atrasada’.

Nascia o Samba de Fato. Seu berço? Alguma fazenda de café do Vale do rio Paraíba do Sul, provavelmente. Ou, quem sabe? Algum pátio de aldeia, próximo à Luanda, Angola. De certo apenas isto:

O nosso velho Samba não nasceu na Praça Onze…E muito menos na Bahia.

Spirito Santo
Novembro 2008

NTEKA, a música


Baixe ou ouça a música Neste link

(Matéria publicada originalmente em Overmundo.com.br em 11/6/2008)

Música descendente

Foi a a primeira experiência do Musikfabrik com adolescentes, ali por volta de 1993 num Ciep (escola pública) localizada no Sambódromo do Rio. O prazo era curto e o material nenhum. A única idéia que acabou sendo possível foi a de construir xilofones com ripas de caixote, achadas por aí, no lixo.

De todos os garotos, a maioria habitantes de favelas do entorno, só um – um menino refugiado angolano chamado Luciano Nteka – se interessou em construir algo.

Naquela escala ensejada pelas ripas velhas que dispúnhamos, ele criou uma melodia vinda, sabe-se lá de que recôndito de sua alma, deixando a garotada abestalhada com aquele som que saía, literalmente, do nada.

(o mais incrível era que o menino Luciano, o africano,  nunca tinha visto uma marimba na vida).

Impressionante!

Ele nunca mais largou o Musikfabrik nos anos seguintes. Foi um dos primeiros monitores capacitados pelo projeto. Em todas as marimbas construídas ele tocava aquela mesma melodia.

Os demais alunos manifestavam uma atração inexplicável por aquele tema musical e não sossegavam enquanto não o aprendiam também, viciados que ficavam talvez, ávidos em se impregnar daquele som que emanava de simples ripas de madeira, um som de savana africana que, nem de longe eles sabiam o que significava, mas… sentiam.

Foi assim que o pequenino tema criado pelo menino Luciano (a linha de marimba grave em que se apoia o longo tema que compus) se tornou uma espécie de, mantra, hino, trilha sonora de rito de passagem, para todos os alunos do Musikfabrik.

Perdemos contato com ele ali por volta de 2001, a esta altura já adulto, imaginamos que tenha retornado com a família para Luanda com o fim da guerra civil, a derrota da Unita e a morte de Jonas Savimbi.

Ontem fui lá no dicionário e descobri: Nteka em kimbundo, língua dos antepassados de Luciano quer dizer descendente.

Tudo a ver com o sentido que aquele som teve para a afirmação do menino, a ascendência emocional dele se revelando, vinda de dentro dele mesmo.

Memória genética, mistério insondável, daqueles que é melhor deixar quieto.

Agora – deixei para o final – a grata surpresa: Sabem porque postei – de novo – esta matéria hoje? É que a mágica dos deuses da Internet fizeram cair aqui no blog hoje este email sensacional:

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Luciano NTEKA Miguel Enviado em 05/01/2011 às 12:00

“Adivinha só quem é… Sim sou eu mesmo o próprio Luciano Nteka da “velha guarda” do MUSIKFABRIK directo de Angola. Parabéns pelo projecto quem vai sempre crescendo com a forca de todos os amigos e amantes da música artesanal. Força professor”

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Falar o que numa hora destas?

Vão lá, vão. Escutem a música que está tudo lá.

‘NTEKA’

Ficha técnica

Composição: Spírito Santo (sobre tema base de Luciano Nteka)
Kalimba solo’- Spírito Santo

Marimba base e cuíca solo – Umberto Alves (in memorian)
Guitarra solo – Nobru Pederneiras
Percussão (caixa e pratos)- Eber Freitas
Baixo- Bira Reis
Percussão (tambores) – Luizão Bastos
Técnicos de gravação- Ricardo Calafate & Ricardo Cidade
Estúdio ‘Uzina’ – RJ

Spirito Santo

Janeiro 2011

Angola: Povo Bakongo para brasileiros principiantes


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Madona bakongo

Madona bakongo

Os Bakongo ontem e hoje

Situando brasileiros na conversa:

A enorme influência dos africanos no Brasil, todo mundo sabe,  se deu por força do tráfico de escravos. O que é preciso entender  e prestar mais atenção é que este processo maciço de transferencia de gente da África para cá, estava diretamente determinado pela localização geográfica dos centros de comercio e das feitorias implantadas por Portugal em suas colônias, em meio a um processo de ocupação de posições no litoral do Oceano Atlântico,  a partir da invasão do Kongo no fim do século 15.

É lógico se supor portanto que, excetuando-se a quase irrisória vinda de gente da Costa dos Escravos ( yorubas, ganenses, daomeanos, etc. sudaneses segundo se dizia ao tempo de Nina Rodrigues) para a Bahia, a história do negro brasileiro começa – e como poderemos ver mais tarde, continua – com a vinda de negros desta parte do que hoje conhecemos com Angola.

O povo que habitava estas regiões – notadamente o chamado Reino do Kongo – é conhecido como BaKongo cujo predomínio territorial e espírito independentista, meio que moldou toda a história da região até, pelo menos o século 17. A influência cultural deste interessante povo – notadamente no espaço destes dois séculos – ajudou a moldar também o que é a cultura angolana atual, com fortes relações – fundamentais mesmo – com o que chamamos de Cultura Negra no Brasil moderno.

Este simples detalhe cronológico determina, portanto que, os incidentes ocorridos no Brasil no período em que os BaKongo eram importantes lá na África – nos séculos 16 e 17 , com episódios como o  Kilombo de Palmares, por exemplo – têm intrínseca ligação com a história e a cultura dos BaKongo.

Ou seja – para os desavisados – nas bases reais de nossa formação cultural afro-negra (e observem que não estou falando de religião), quase não há sombra de Yoruba ou ‘axé babá’ na parada.

(Ao que parece alguém está inventando e nos vendendo uma outra história).

Este fato simplório torna óbvia a afirrmação de que não se pode, sequer entender estes episódios se não conhecemos a história africana da qual eles dizem respeito, a qual eles correspondem diretamente enfim.

No intuito de ajudar a corrigir este ‘mico’ antológico do negro do Brasil que ignora, solenemente a maioria do que foi dito acima, nada mais urgente então do que – só pra início de conversa –  conhecer algo sobre nossos irmãos bakongo.

Se ligua aí kandandu!

( Matéria extraída do artigo “Crivação histórico-política 1975 1993 na sexta-feira sangrenta”)

Por: Jose Luquissa

“A Angola comemorou, o 11 de Novembro passado, os seus trinta e dois anos de independência. Um terço de século durante o qual este país viveu na dor.

 

Canadá/Calgary – Eu até sou Benguelense, mais propriamente do Lobito, ou melhor da Canata, bairro suburbano onde nascerem grandes figuras que hoje fazem a malha do tecido intelectual Angolano. Por outro lado, também foi o bairro dos tais que se intitulam originários do Lobito, os Kamutangres.

Contudo, não posso deixar de enaltecer o meu apreço e admiração aos Angolanos da etnia Bakongo, (os Mucongos). Os Bakongo, um grupo Bantu, que se estende desde o Congo (Brazzavile), parte do Congo Democrático e parte norte de Angola, possuem uma identidade própria, que os distingue dos demais povos e que ao mesmo tempo os identifica como africanos, juntando-se aos Yoruba da Nigéria, os Ashanti do Gana, os Nyangas do Gabao, Os Ovambos da Namibia, os Zulu da África do Sul, e outros tantos que se espalham pela África dentro.

A minha admiração se curva pela maneira sólida em como estes têm sabido manter inalterável a sua integridade etnolinguística. Durante os anos do processo de colonização e até os dias de hoje, esse grupo étnico angolano, tem sido alvo de insultos e certa discriminação, renegados ao escalão inferior, o que me leva concluir que manter esta integridade não tem sido fácil ou simplesmente mero acaso.

O reino do Congo , era o mais estruturado dentre os demais reinos que constituem hoje a nação Angolana. Era composto por províncias que eram dirigidas por aristocratas (Sumu), que dependiam directamente do rei (Ntotila). Para além de uma economia organizada, cujos produtos incitaram as trocas comerciais com os portugueses, onde já utilizavam moedas, (Libongo e Nzimbo), eles eram detentores de uma cultura rica, sólida e inabalável.

O Bacongo é um povo temente a Deus e já possuía seus profetas entre Kimpa Vita (D. Beatriz), Simão Kimbangu (igreja kimbanguista) e Simão Toco (igreja tocoista), e muito mais, para além dos profetas menores, como Simão Padi, André Matshoha e outros, numa forma de religião organizada.

Ignorar o Mucongo, significa tão-somente apagar uma parte integrante da história de Angola . O povo Bakongo transborda no seu exterior fortes sinais de rejeição a presença e ocupação portuguesa. Sendo o primeiro a ter contacto com os portugueses e que com eles estiveram mais tempo, não assimilaram os modos de vida destes e resistiram a submeter-se a eles.

Foram eles os primeiros Angolanos a desencadear uma acção militar activa contra o colonialista português através Álvaro Tulante Buta em 1913, seguido de Mbianda Ngunga. Muito mais tarde, o surgimento dos movimentos no norte centro e sul que levaram a independência de Angola em 1975.

Os Bakongo conservam seus hábitos e costumes até aos nossos dias. Fruto de um ensinamento que vem passando de geração a geração e tende em continuar, pese embora as congruências do nosso país em relação os valores culturais e a preservação das nossas origens.

Estes valores aliados a sua renitente acção contra a presença portuguesa, ocasionou um distanciamento dos portugueses dos Bakongo, que passaram a chamar-lhe de terroristas, gerando assim uma aparência negativa dos povos deste grupo étnico, aparência essa que foi acentuada pelos assimilados e servidores dos interesses portugueses, vinculando-lhe actos desgastantes, o mesmo que se verifica ate os dias de hoje infelizmente.

Um pouco diferente, os povos Ambundu e Ovimbundu, sobretudo, foram deixando-se levar pelos Portugueses em quase todos os seus estilos de vida e permitiram com tamanha leviandade a presença destes em seus territórios, submetendo-se avidamente as suas ordens, quão obedientes e submissos.

Em protesto a ocupação de suas terras cultiváveis, os Bakongo recusavam-se a trabalhar para os portugueses em suas próprias terras, o que levou aos portugueses empregaram trabalhadores Ovimbundu. Em função disto os Bakongos viam nos ovimbundu de cúmplices dos portugueses, por isso, a quando da insurreição armada de 1961, estes trabalhadores não foram poupados.

Para além de serem obrigados a trabalhar como escravos e humilhados, os Ambundu e Ovimbundu viram suas mulheres violadas e desonradas, servindo de objeto de prazer dos Portugueses, dali se justifica a mestiçagem gerada nas regiões de Luanda Malange, Kuanza Norte e Sul, Huambo, Bié, Benguela e Huíla. Os portugueses aproveitavam-se do seu poderio abusava das mulheres desde as escravas as lavadeiras sem grandes resistências.

Para os Bakongo, o casamento sempre teve um valor altíssimo, relações conjugais deviam obedecer os procedimentos, onde regras e princípios eram seguidos a risca, o que não convinha nem era motivador aos portugueses. Por outro lado, as próprias mulheres detinham uma conduta moral, que hoje não se vê o mesmo índice de mestiçagem nas regiões do Uíje, Cabinda e Zaire .

Até aos nossos dias, essa cultura se mantém, pois, exige-se, ou ao menos tende-se a exigir a responsabilidade aos jovens nos relacionamentos amorosos, em que o envolvimento familiar é imprescindível.

O casamento dentro do ciclo étnico é seguido entre a maioria dos Africanos, europeus, asiáticos, latinos, árabes e outras raças, embora com algumas excepções, isto demonstra como é importante conservar os valores culturais. Se os Bakongo também optaram em casar entre membros da sua etnia, ilustra assim o interesse que eles tinham e têm na preservação dos seus valores.

Durante os anos 50 e 60, sobretudo após a independência dos Congos, mais de meio milhão (500.000) de Bakongo, fugidos da repressão colonial, seguiram para aqueles países vizinhos em especial o Congo Democrático (ex-Zaire). Onde num mesmo ambiente cultural os angolanos fortificaram seus laços com os irmãos do outro lado e levados pela forte cultura enriqueceram-se daquilo que presença colonial Belga e Francesa não havia tanto interferido como a portuguesa.

Outros tantos jovens foram enviados pelos seus pais, ao longo deste anos para aquelas terras da mesma etnia, para prosseguirem seus estudos, dada a ausência de instituições escolares em altura nas suas regiões. Acabando muitos deles a sua formação em Universidade Francesas e Belgas. Ao passo que os filhos dos Ambundu e Ovimbundu que mais se encostavam aos portugueses eram encaminhados para os liceus e escolas coloniais e universidades em Portugal .

Para além de não haver escolas onde se podia aprender o português, lá nas aldeias onde estavam concentradas as populações, também a forte “enraização” a língua kikongo não reservava espaço para a aprendizagem da língua do colono. Nos Congos onde estes se refugiaram, havia uma situação diferente proporcionando a aprendizagem das línguas oficiais daquela país, o francês e o lingala.

Depois da independência, que todos esperávamos ser uma mar-de-rosas, aqueles angolanos de raiz, voltaram para sua terra, onde ao invés de se sentirem-se em casa, passaram a ser baptizados de primeiro, Retró, depois Zazá, mais tarde Langa-Langa e agora, simplesmente Zairense. Alias não se esperava que os nosso irmãos vindos dos Congos voltassem a falar fluentemente a lingua portuguesa.

Não seria o mesmo que chamar os Oshivambo (Ovambo) do Cunene regressados da Namíbia de Namibianos, ou os Nganguela do Kuando Kubango de Zambianos, ou mesmo os Baluba da Lunda Norte também de Zairense?. Primeiro, nenhum destes outros povos deu tanta dor de cabeça aos Tugas e depois os aspectos culturais destes não são tão enraizados como o dos Bakongo.

Desde o intelectual de mais alto gabarito, seja Doutor Juiz, Doutor Advogado, Professor Catedratico, o mais importante empresário, músico, artista, compositor, ou o simples cidadão Bakongo, para além de falar a sua língua, apresenta traços indicáveis da sua cultura. Uma identificação impar, única e exclusiva diferente do resto dos Angolanos.

Um certo amigo, disse-me que preferia identificar-se como Mukongo do que como angolano. Edificando-se como angolano, talvez suscitasse duvidas, mas como Mukongo, ninguém teria a capacidade moral de duvidar da sua identidade, seja do Zaire ou de Angola, sentia-se orgulhoso de ter uma identificação própria, sua original, não igualada nem imitada de alguém, apenas deixada pelos seus antepassados.

Ainda segundo ele, qualquer pessoa pode ser Angolano, um luso-tropical pode ser angolano, um desterrado de São Tome , Cabo-verde ou Guine, pode ser Angolano, um traficante de armas pode adquirir a nacionalidade Angolana, mas Mukongo, se nasce, não se fica, nem por força de qualquer constituição.

O orgulho deste povo, é sem dúvidas uma referência que deve ser mencionada, sem quaisquer tipo de concepções tribais, politicas ou qualquer que sejam. Aliás o Mucongo não é tribalista, mas sim vítima de uma crivação histórico-política, aconteceu em 1975 e aconteceu em 1993 na sexta-feira sangrenta. Um pouco antes, na década de 50 e 60, alguns bakongo que acompanharam o Profeta Simão Toco foram despojados algures no Rangel, área hoje conhecida de congoleses.

Este povo não tem a dignidade que merecia, razão pela qual muitos deles procura alguma dignidade fora do país. O Bakongo foi o primeiro Angolano a emigrar, e hoje temos o Angolano Bakongo, no parlamento da Suíça e aqui no Canadá em breve teremos um Angolano Bakongo no parlamento Canadiano. Para quem vai a honra, para os Angolanos ou para os Zairenses, ou simplesmente para os Bakongo?

Ao chegar a foz do rio Zaire, os primeiros que portugueses encontram foram os povos do reino Congo, a medida que iam por Angola a dentro e a sul na linha do litoral, é que foram encontrando os Reinos do Ndongo, Kassanje, Matamba, Benguela, Bailundo, Kuanhama, etc.

Estes grupos étnicos compartilham uma origem comum, e exibem uma continuidade no tempo, apresentam uma noção de história em comum e projectam um futuro como um só povo. Isto se alcança através da transmissão de geração em geração de uma linguagem comum, de valores, tradições e, em vários casos, instituições e organismo do aparelho da administração do estado têm o papel preponderante.

Por força da história, a divisão geográfica-lingüística foi aleatória. África foi fronteira da segundo os interesses dos ocupantes europeus, cortando linhas entre povos que tinham a mesma coabitação etno-linguistica. O exemplo dos Tutsi e os Hutus, no Rwanda e Burundi e parte da RDC, tambem se aplica aos Bakongo, os Kiocos, Ovambos, Ngaguelas sem excluir os Koisan.

Saber viver com este mal da história, deve ser uma tarefa que só geraria benefícios. Embora os factores culturas embrulham-se nos factores étnicos e políticos, não é necessário que um grupo étnico possua instituições próprias de governo ou forme uma estado independente. A soberania de uma nação não é definida pela etnia, mas se reflecte na necessidade de uma certa projecção social comum entre todas as etnias.”

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O Baú no Boné / Memória #03 – Final


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Na foto de 1968 eu numa entrevista que dei para Nina Chaves, colunista da coluna ‘Êle’ de O Globo depois de me destacar como intérprete e compositor num festival estudantil da TV Globo. Meses depois estava na cadeia.

Na foto de 1968 eu numa entrevista que dei para Nina Chaves, colunista da coluna ‘Êle’ de O Globo depois de me destacar como intérprete e compositor num festival estudantil da TV Globo. Besta de doer com o sucesso súbito, meses depois estava na cadeia.

(Leia posts #01 e #02 desta série aqui)

O Barbeiro, o Padre e Eu mesmo

Não fosse o choque, impactante como um soco no estômago, o momento da prisão teria sido até engraçado. Havíamos planejado, meticulosamente, a pichação. A palavra de ordem, sempre escolhida pela cúpula da organização, naquele dia seria aquela que já andáramos escrevendo o mês inteiro por aí:

‘abaixo a ditadura!”

A pouco tempo lançada (na passeata dos cem mil, talvez), a inscrição já era clássica na época (embora não fosse assim tão banal, para o pessoal de fora de nosso submundo, como parece ser hoje em dia). A próxima inscrição esta sim, pesava a barra só de ser ouvida. Já decidida pela org. ela exigiria muito mais cuidado e segurança. Culhões mesmo, diria, com todo o respeito:

SÓ A LUTA ARMADA DERRUBA A DITADURA!

O ‘Barbeiro’, por ser o mais velho de nós, foi quem comprou os frascos de spray: Preto e vermelho, o básico. A área que cobriríamos com nossa propaganda ia de Realengo à Bangu, passando por Padre Miguel, bairro onde eu morava. Fazíamos o levantamento na véspera, sempre no mesmo horário no qual faríamos a ação do dia seguinte. Era para conferir e cronometrar o horário das rondas que, na época, eram feitas por viaturas da polícia civil e jipes do exército (pontualíssimos), em horas alternadas, além de duplas de soldados da polícia militar, a pé ou a cavalo.

Verificamos ainda em Padre Miguel que o tempo entre as viaturas da polícia e o jipe do exército, era muito estreito para que pudéssemos pichar as ruas principais, mais visíveis. Decidimos ir até Bangu onde, ao virar na esquina da rua central, demos de cara com um choque da PM cheio de soldados, que estavam sendo distribuídos, em duplas, pelas ruas.

A tarefa rotineira de Agit-prop, expressão cifrada que, no jargão da época, significava ‘agitação e propaganda’ (basicamente, pichação, comícios-relãmpagos e panfletagens), teve que ser abortada. Não foi preciso discutir muito para que decidíssemos adiar a ação para a semana seguinte.

Éramos três: Eu, ali pelos meus 21 anos, o ‘Padre’ com 19 e o ‘’Barbeiro’, com 28. Voltamos a pé para Padre Miguel. ‘Padre’ (que de católico não tinha nada), era um menino muito branco e gordinho que, apesar de morar no Méier, parecia um estranho no nosso ninho suburbano, vítima perfeita para os marginais maconheiros, meus conhecidos de bairro,  que ficavam ali, no lado mais escuro de um prédio do conjunto habitacional, em frente ao ponto do ônibus, prontos para dar um bote num desavisado qualquer e arranjar alguns trocados.

Caía uma chuvinha fina, ali pelas quase 2 horas da manhã. Paramos no ponto do ônibus, portanto, apenas para dar cobertura e apoio moral para o ‘Padre’.  A viatura da polícia civil veio devagarinho, gelando de imediato a nossa espinha.  Não deu nem tempo de ver os maconheiros desaparecendo, subitamente, na escuridão da esquina, como raios sem clarão.

_ ‘Mão na cabeça!”_

Gritou um dos policiais, portando uma metralhadora INA, daquelas feinhas, com o pente reto, parecendo de brinquedo, que eles usavam orgulhosos como se fosse uma Kalashinikov.

Éramos um operário metalúrgico desempregado e estudante de curso supletivo (eu), um empalhador de cadeiras (‘o Padre’) e um barbeiro. Bolsos revirados, nenhuma carteira de trabalho à vista, claro, ainda mais assinada. Aquela hora da madrugada, à toa, perambulando pela rua, podíamos ser tudo, principalmente ‘serviço’ a ser apresentado na delegacia pelos policiais que, aquela altura dos acontecimentos, não haviam prendido ainda nenhuma alma bendita.

Éramos o que parecíamos ser: ’pés-de-chinelo’ presos por ‘vadiagem’, uma espécie de  não escrita ‘lei do passe’ do apartheid da antiga África do Sul, abrasileirada, que dava a chance dos policiais prenderem alguém, mesmo inocente e se redimirem com o delegado, para fazer jus às folgas nos dias seguintes, algo assim, rotineiro na época.

Nos trancaram na ‘caçapa’ e ficaram estacionados, sentados dentro da viatura, revistando, displicentemente, nossas carteiras. O mais gelado de todos era eu, porque sabia o que poderia acontecer  quando revistassem a minha carteira. E aconteceu:

_”  Pára! Pára! Esses caras são terroristas, pôrra!”_

Pularam da viatura como loucos, aos berros, mais em pânico do que nós, pobres diabos que ali, pasmos só pensávamos em não mover um músculo, não esboçar um gesto sequer que pudesse deixá-los mais nervosos.

Eu, que  usava uma capa de plástico cinza, vagabunda, era o mais visado. Era minha a carteira pivô daquele drama. O policial da metralhadora gaguejava, com a arma apontada para nós, histérico, a ponto de nos metralhar ali mesmo, a qualquer momento:

_” Revista eles de novo! Revista eles! Mão na cabeça! Mão na cabeça!’

Para eles, era como se fôssemos homens bomba, prestes a explodir, coisa que nem se sonhava que ia mesmo existir um dia, mas que eles, naquele desespero sem tamanho, acabavam de imaginar. Era esta a impressão que tinham de um terrorista: Pânico, terror, o nome ligado, diretamente, à pessoa.

Fácil de se entender: Enquanto ação estratégica contra a Ditadura, a luta armada apenas começava, naquela que era uma época de transição entre o perfil do revolucionário comunista, político idealista e intelectual, que a polícia política reconhecia desde os tempos de Vargas, para o chamado ‘Terrorista armado’, figura ainda mítica e lendária, militante das novas organizações que surgiram do racha do PCB e sobre as quais eles não tinham ainda nenhuma informação (na verdade nem sequer sabiam ainda se estas organizações realmente existiam, de verdade).

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Estávamos então, apenas iniciando o nosso treinamento paramilitar. Havíamos praticado tiro ao alvo no alto da Serra de Bangu, somente, três vezes. A primeira com uma velha garrucha enferrujada e outras duas com um pesado revólver 38, armas que o Barbeiro arranjou com um vizinho, sabe-se lá por meio de que desculpa esfarrapada.

Já havíamos recebido algumas tarefas de mais responsabilidade. Não comentávamos as tarefas uns dos outros, mas, pelo menos, eu já havia feito o mapa das imediações de um banco e das cercanias de uma unidade militar, provavelmente para servir de orientação para alguma ação prevista pela Org.

Naquela tarde, havíamos tido treinamento político ideológico. Estudávamos um livro do Wladimir Ilicht Lênin e eu, maníaco por escrever desde aquela ocasião, havia escrito, numa folha de caderno, o resumo de um trecho do livro, com interesse muito mais intelectual do que revolucionário. Foi esta folha, desdobrada, que o policial leu, assustado:

‘O ESTADO E A REVOLUÇÃO.

O ESTADO BURGUÊS DEVE SER DERRUBADO PELA VIOLÊNCIA.’

No dia seguinte, em nossas casas cercadas por grande aparato policial e militar (na minha, meus irmãos me contaram que chegaram a cercar todo o quarteirão) foi encontrado, como eles diziam, ‘farto material de natureza subversiva’.  Na casa do ‘Barbeiro’, que servia de aparelho para a organização na nossa área de atuação, acharam um mimeógrafo e um velho fuzil (além de mais fartura de material subversivo).

Leitor voraz, já naquela época, perdi ali naquela apreensão bombástica, toda a razoável biblioteca que já havia acumulado àquela altura. Entre outras ignorâncias recorrentes daquelas  ações truculentas, apreenderam o meu exemplar se ‘O Vermelho e o Negro’ de  Stendhal, achando que o ‘vermelho’ se referia a alguma subversão destas aí.

Transferidos para um quartel do exército, em São Cristóvão, bairro próximo ao centro do Rio, no dia seguinte, ouvimos pelas frestas do camburão, o delegado responsável pela nossa prisão, parar na redação de vários jornais para declarar-se o autor da prisão dos ‘chefes da subversão na zona rural do Rio de Janeiro’, um exagero absoluto.

Meses depois, uma de minhas tias, constrangida com o estigma que pairou sobre a família, jogou fora os recortes com as notícias da campanha de autopromoção do delegado, escrita em pequenas manchetes. Naquela época, um morador de subúrbio, ser preso, seja lá por que motivo fosse, era sempre vergonha para os parentes, suprema humilhação.

O estigma ganhava contornos mais intensos ainda, quando se sabia que o tal delegado (Haroldo de Matos), tinha o seu nome, diretamente, associado a um esquadrão da morte muito atuante nos subúrbios cariocas, conhecido como a famigerada ‘Invernada de Olaria’.

Um lado bom para a história: Por termos sido identificados, logo de saída, como militantes políticos, escapamos de uma eventual morte súbita e vexatória, como meros marginais, nas mãos daqueles carrascos de bandidos. Me lembro que as vítimas destas execuções ou assassinatos ‘seletivos‘- algumas, sabe-se lá, até completamente inocentes – apareciam trucidadas em terrenos baldios com um cartaz sobre o corpo escrito com o motivo da sentença de morte:

_ “Eu assaltei!” ou “Eu matei!”, “Eu estuprei!”…

A população com um instinto sádico consumia ávidamente os jornais populares, ‘A Luta Democrática’ e ‘O Dia’ que estampavam nas bancas, com estardalhaço estas fotos dantescas.

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Como estávamos preparados para o pior as cenas na delegacia, chegaram a ser emocionantes. Recebemos a solidariedade geral de um grupo de marginais e contraventores.

Um apontador de jogo de bicho, meu vizinho, ficou na mesma cela conosco, por alguns poucos minutos. Foi o tempo suficiente para que eu pudesse mandar por ele, um bilhete para minha mãe que, agindo rapidamente conseguiu descobrir que me entregariam para o Exército. Outra sorte grande: Sempre acreditei – com certa ingenuidade talvez –  que o fato de minha mãe saber onde eu me encontrava preso, me protegeu da eventualidade de morrer naquele quartel do exército.

Desconfiado de nossa rápida integração com aquela hospitaleira bandidagem, o delegado nos transferiu para uma cela separada, onde já estavam três prostitutas presas de madrugada fazendo trottoir. Também solidárias, elas nos deixaram o resto de um pacote de pão de forma que, amainou a nossa fome e nos acalmou o juízo. Já alta madrugada, para relaxar, fizemos uma bolinha com o celofane do pacote e batemos uma ‘linha de passes’, ali mesmo, os três sozinhos, com o moral alto, naquela nossa inesperada prisão ‘especial’.

Lá para as tantas, já de manhãzinha, o delegado entrou na cela para nos interrogar. Perguntou coisas vagas, quase estúpidas, sobre nossa ’ação subversiva’ e, esfregando as mãos com ansiedade sádica, manifestou um desgosto enorme de não poder nos ‘encher de porrada’, O fato de sermos presos ’políticos’, afeitos à jurisdição das forças armadas, o impedia. Éramos ‘reserva de mercado’ da Ditadura, deduzimos aliviados. Não se podia dar porrada no preso alheio.

(‘Terrorista’ alheio, melhor dizendo).

Foi assim, com este status, apesar de tudo, que fomos presos naquela noite chuvosa no fim do ano de 1968. Começou nisto a quase saga, sem muitas glórias, da minha prisão. Tirando um estranho e curto intervalo de liberdade (um mês, se muito), no qual pretenderam, nos usando como isca, pegar outros militantes, só fui libertado vindo do presídio da Ilha Grande, num dia qualquer de 1970, para depois de uma breve readaptação, reingressar na luta, de forma semi clandestina, até 1971.

A história deste mês livre, fugido de casa (oficialmente estávamos presos), assumindo a clandestinidade, me escondendo em trens noturnos, favelas, e outros covis remotos, procurando, inutilmente por asilo político para fugir do país, é um caso à parte, que posso contar uma hora destas. (o asilo político, por uma estranha ironia burguesa sempre nos foi recusado, por várias embaixadas. Aparentemente um operário metalúrgico negro, um empalhador de cadeiras e um barbeiro eram considerados seres medíocres demais para merecer refúgio político no exterior)

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1972, já livre da prisão há meses, foi ano da minha última relação com a organização, meu contato, um sujeito bem mais jovem que eu, aluno do famoso colégio estadual André Maurois, me pediu socorro para poder fugir do Brasil. Muitos militantes que eu conhecera, a maioria assim, de relance, me disse ele, já haviam sido presos, a maioria, haviam sido mortos em troca de tiros ou pela tortura.

Soube nesta época que a nossa misteriosa organização – a Var Palmares, segundo deduzi lendo o cabecário das enfadonhas apostilas de capacitação política que líamos por dever de ofício – reduzida à meia dúzia de militantes, à caça de uma rota de fuga, nunca havia sido composta por mais do que 150 pessoas. Loucos! Nos julgávamos um pequeno exército e não passávamos de um bando de ferozes idealistas, gatos pingados, magros, tensos, tristes e ‘brancaleônicos’.

Admirável juventude esta, da minha época.

O codinome modesto deste meu último contato (), escondia o sobrenome que parecia ser  de uma família importante da zona sul do Rio de Janeiro. Identifiquei-o num retrato de ‘procurado vivo ou morto’ que vi na estação da Central do Brasil, logo que ele, depois de ficar escondido em minha casa, com a sua também jovem companheira, por cerca de 15 dias, cruzou a fronteira do Uruguai, pulando dali para a Argentina, para nunca mais ser visto, pelo menos por mim.

Ter salvado a vida daqueles dois jovens companheiros – por onde andarão? – talvez tenha sido a única glória real da minha curta vida de revolucionário pé de chinelo. Meu codinome era Aníbal, tirado de um personagem que me apareceu do nada, num sonho, assim, sem pé nem cabeça.

Como o Aníbal dos livros de História, talvez eu quisesse mesmo é ser grande. Dores do crescimento, foram as que senti naqueles primeiros dias de prisão.

Eu recebendo o prêmio de Norma Blum 4 meses antes de entrar em cana

Eu recebendo o prêmio de Norma Blum 4 meses antes de entrar em cana

É desta época soturna – e destas dores – este prosaico poema.

Dias negros

Nos dias negros desta espera

eu te molho os cabelos de água limpa

e te promovo à ave de plumas benfazejas

(aquilo que temo invento morto no gosto de fumo dos meus beijos)

Nos dias negros, do ferro de minhas convicções

eu te prometo uma vida de milagres

e me esqueço da impassibilidade do tempo

que passa por nós em branco

Apesar do advento da mentira como mola mestra deste mundo

apesar da moda da infidelidade às coisas mais puras

estamos na época do amor e da morte

(a extrema-unção da dor está em nossa juventude)

Apesar dos dias negros

tu me deste a chance e a passagem

através da lágrima oca

que se transformará em saliva de sorriso

Apesar de tudo estarei nas curvas do teu corpo

ruminando auroras.

29/11/1971 (Ainda me assinando Antonio José do…)

Spírito Santo

Texto de 2007 atualizado em 01 Janeiro 2011

O Baú no Boné / Memória # 02


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Presídio da Ilha Grande. Grades da cadeia velha

O Habeas Data

(Leia aqui os posts # 01 e #03 desta emocionante série)

Entre os papéis remexidos por mim às vésperas de me tornar um sexagenário, alguns são cópias recentes. Os originais, no entanto, estão do mesmo modo que os outros, amarelados, empoeirados e amarfanhados em alguma caixa da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

É que, por força de uma medida judicial coletiva, tive acesso às cópias de parte do que escreveram e falaram sobre mim, nos autos de prisão e no processo que se seguiu, a partir de 1968. É o meu ‘Habeas Data’.

Durante a remoção para o presídio de segurança máxima da Ilha Grande no trajeto para Mangaratiba, numa ponte do Rio Guandu, os policiais batiam na lataria do veículo de transporte de presos gritando que seríamos lançados ao mar.

Nestes documentos fragmentados, aparece apenas um memorando dando conta de minha transferência para o presídio da ilha, mas,misteriosamente nenhum documento sobre a minha estada na Ilha Grande ou dando conta de meu regresso ao continente apareceu entre os docs. do Habeas Data.

Kafka perde. Monty Phyton também.

Foi como se, para eles, eu tivesse ficado por ali, danado para sempre e agora estivesse morto e enterrado por lá mesmo.

Danaram-se eles, isto sim. Apagados os rastros de minha saída e demolida a prisão, sou vivo e ao mesmo tempo sou Fantasma-que-anda. Posso estar agora em qualquer lugar, eu e minhas amargas, rígidas, porém vívidas, acridoces e rapaendurecidas lembranças.

Um Alfarrábio de 1969:

O fato é que a partir de 1971 quando fui liberado das agruras da cadeia e dos processos, virei, portanto, definitivamente um artista. Engajado como qualquer artista da época, porém, exercendo tranquilamente, o meu ofício de cantor compositor sem mais nenhum compromisso com a luta armada, com a qual aliás tive uma relação pra lá de fugaz e episódica.

Calma aí, galera! O tio jamais feriu ou matou alguém na vida. Muito mal deu uns tirinhos ou outros num treinamento brancaleônico daqueles que fazíamos no alto da Serra de Bangu.

Como se vê, contudo num dos alfarrábios de 1975 (veja abaixo) mesmo depois de livre de qualquer acusação desde 1971, os sádicos malucos da Polícia Federal me perseguiam ainda, até a esta época (e nos meus pesadelos mais pirados as vezes imagino que estão me perseguindo até hoje.  A gente fica paranoico para sempre com coisas doidas assim).

No Brasil, revolucionávamos a cultura do planeta com a música popular mais criativa que havia, desde os Beatles. Havia a censura, claro, mas e agora, hoje em dia?

Agora nem é mais necessário ao Sistema censurar nada. Pelo contrário, hoje nós mesmos censuramos o que é rebelde, o que é transgressor. Nós mesmos odiamos o que é novo, caímos de pau, violentamente sobre tudo que é, realmente, revolucionário. O ‘novo’ que nos dava ‘Alegria, alegria’, dá alergia na juventude senil de hoje em dia, conservadora, consumista e reacionária como que.

Na poesia com que vestíamos nossas canções, quase sempre falávamos de liberdade, de forma cifrada, metafórica, mas falávamos. Rimávamos amor e liberdade. Sempre. Liberdade política, cultural, sexual, qualquer liberdade que fosse ética, justa e positiva – sem hedonismos – para todos.

E nos esbordoávamos nesta atitude de jovens pra valer.

Hoje a ditadura está em nós.

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A vida era assim, como este poeminha meu da época que sacudindo as traças pincei do baú:

Mariinha

Tinha bunda de orquestra afinada
E peitos de pêssegos sossegados
não mordidos pêssegos de veludo

Tinha boca de lingüiças frescas
E olhos pesados e negros
olheiras fundas de tristezas anônimas carregadas

Tinha cabelos de cordas de cais
negros do óleo e da fumaça dos navios

Tinha, sobretudo,
pavios acessos nas pupilas como cadeeiros fiéis
numa escura caverna de morcegos vampiros

Só não tinha a marca
o vício estampado na testa
Semelhante passado de barras que se cruzam
Semelhante futuro de barras que se seguem
e que se aventuram
que se lascam de sofrer mas que se amam
que se lançam sem pestanejar no fogo
e se avermelham

Que se derretem
e se transformam
em outras barras
fundidas
mas, apesar de tudo
de ferro e de água.

Limpas

Spírito Santo

(Ainda me assinando Antônio José do…em Dezembro 1975.)

(Leia aqui os posts # 01 e #03 desta série)

Spírito Santo
1975/2011