Favelas Cariocas, a solução final chegou: Rezem para seus santos padroeiros


Permitam-me primeiro evocar São Tomé nesta história.

Eu li, mas não confio muito em O Globo e muito menos na prefeitura, ambos (por razões turístico esportivas e comerciais óbvias) têm interesse em dourar a pílula das soluções mágicas para o problema das favelas.

Desta vez- oh, desfaçatez! – usaram até São Pedro como cúmplice involuntário, já que os desabamentos de encosta é que teriam possibilitado a prefeitura remover tanta gente. Cruel, sangue de fel este pessoal, não é não?

Mesmo assim convido-os à reflexão sobre o seguinte:

Vocês conseguem enxergar mesmo esta área toda evacuada?Afinal, 47 maracanãs é coisa pra caramba, são 392 mil quilômetros quadrados! Qualquer helicóptero – agora com São Tomé, o único em quem confio, dentro – pode confirmar. Eu, de antemão, duvido.

Segundo: estas 6.800 famílias que ‘vazaram’ e, supostamente foram ‘reassentadas’, foram para onde? Se 47 maracanãs foram evacuados e poucos conjuntos habitacionais (quase nenhum) foram construídos ainda, é lógico se admitir que outra área de proporções semelhantes tivesse sido ocupada em algum lugar, mas onde? Afinal, não há ‘Mister M’ que possa fazer 6.800 famílias desapareçam assim, diluídas numa cidade tão pequena quanto o  Rio de Janeiro.

Outra coisa intrigante é que de 2009 para cá, mesmo se considerarmos as dimensões bíblicas da tragédia de Nova Friburgo e Teresópolis, as maiores áreas de encostas desabadas mais próximas do município do Rio foram o Morro do Bumba em Niterói, (com cerca de 60 a 70 casas, se muito) e Angra dos Reis.

Ou seja, só mesmo somando tudo – o Estado do Rio de Janeiro inteiro – é que teríamos tantos maracanãs assim. Em suma: Não sei mesmo de onde surgiram estes ’47 maracanãs’ caídos ou evacuados no município do Rio. Não sei para onde foi parar tanta gente.

(Para achar, só evocando São Longuinho)

A solução Final, ao que parece está definida e em curso: As UPPs e o Exército espantam a bandidagem. São Pedro cumpre o resto do serviço fazendo desabar as encostas, que faz com que os favelados famílias sejam evacuados (ou mortos, tanto faz).

Só não nos disseram ainda se para o lugar onde estas pessoas vão, vai  existir tudo que elas não tinham na favela (inclusive moradia perto do trabalho).

Ah…mas isto para eles é um mero detalhe, não é não? Aliás, o nome do Instituto  que afeiriu e avalizou este truque de mágica já diz tudo:”Pereira Passos“. Pois não é ele o prefeito que no início do século 19 instituiu a remoção radical da população negra e pobre do centro da cidade com o seu paradigmático ‘Bota Abaixo’

(É. E o bom Pedro,até então, nem estava cooptado como o santo exterminador)

Agora, cá entre nós, esta da prefeitura quase comemorar o ensejo das tragédias, meio que assumindo que fica esperando, torcendo para que a chuva caia forte e derreta tudo, é de uma iniquidade sem tamanho, esta sim bem maior do que 47 maracanãs, sacrílega, criminosa até.

Vocês eu não sei, mas eu acho.

Spírito Santo

Janeiro 2011

Axe baba woman look


Brazilian Samba ‘Baianas’ (and white Barbie dolls)

(Veja o álbum completo neste link)

Nota: ‘Axé Babá’ – Conceito criado pelo autor para definir cultura negra falsificada, baseada em mistificações e chavões recorrentes, cada vez mais comum no Brasil.

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Nem precisa entender inglês. É isto aí que vocês pensaram mesmo.

Foi por estes dias quase pré-carnavalescos. Uma exposição exibia vistosos figurinos de baianas de várias escolas de Samba do Rio de Janeiro. Olhei e logo percebi que, curiosamente os manequins eram pequenas bonecas brancas (tipo barbie) de olhos azuis.

Bem, sabem como eu sou, certo? Estranhei, e o que é pior, maldei.

Inquirido por força do óbvio inusitado e ululante de personagens negras, símbolo de uma manifestação cultural tão arraigadamente africana (ou afro descendente, se preferirem) como escola de Samba, serem representadas por bonecas assim tão branquinhas, quase nórdicas, a pessoa que montava a exposição – ajudante do carnavalesco, autor da mostra –  afirmou, meio distraidamente:

_  “Brancas? Como assim?Ah sim…É que o foco são só as roupas!”

Incomodado, insisti com mais perguntas, agora daquelas bem mais cretinas:

_” Ué, mas ficou esquisito, não é não? Era só comprar bonequinhas negras, gente!”

E ele, saindo pela tangente, sorrindo amarelo:

_”É, mas acontece que não encontramos no mercado”

Eu, santo inquisidor, sem me fazer de rogado:

_”…Ou então pintava a carinha das bonecas, ora, qual seria o problema?”

Foi quando o assistente de carnavalesco, já pelas tamancas comigo, deu então o xeque mate dele:”Sim, sim, mas é que não tínhamos recursos”E eu, desistindo:

_”Ui! esta doeu!” (Pensei só, claro. Não falei não que era para não me aborrecer mais ainda com a empáfia joão-sem-braço dele).

Engraçado: Lembrei na horinha daquelas inflamadas feministas negras que andam espalhando por aí a sua ira, supostamente santa.

_”Salve mamãe Oxum! Eparrêi, Iansã!”_ Gritei, literalmente chamando alguma mãe, á caça de alguma proteção matriarcal.

Santa Mãe de Deus! Se estas irmãs estão ali comigo, torceria por um corretivo nele, no carnavalesco e seu assistenteMas não.

E vai que elas entram numa de querer escalpelar os pobres homens, com o perdão da palavra…cortar o saco…quer dizer…as ‘coisas’ deles (e eu ia querer me matar de remorso).

Daí, fazer o que? Os coitados escalpelados, emasculados iam ter que apelar para os amigos da não menos inflamada militancia anti homofóbica do Brasil que, numa campanha bombástica e multicolorida na orla da Zona Sul, levantaria a lebre – ou a bandeira – de que ataque foribundo das mulheres teria sido mesmo fruto de um enrustido preconceito delas contra os homens em geral – mesmo os homossexuais – e… pasmem!.. até mesmo aqueles que, reverentes e cabeças feitas num candomblé de esquina, adoram desfilar no Carnaval vestidos de baiana.

Fichas caídas: Bichas, bonecas barbies, Carnaval, feministas negras, algumas com cabelos alisados a escova progressiva, regressiva, reversiva, sei lá, já nem sei mais…

(E nós, os homens negros pobres heteros coitados, é que somos os crioulos doidos.)

Virgem Maria! Que enredo é este, mermão? Se continuar assim, vamos ter de rever todos os nossos conceitos sobre a cultura negra do Brasil.

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É, mas foi só um relance de pensamento maldoso, uma mera piração febril por que logo logo caí de novo na real.

Bem, foi daí, diante daquele quase carnavalesco desbundado me sorrindo amarelo, tão cheio de respostas esfarrapadas para tudo, como os olhos me fuzilando com aquela raiva contida dos pobres de espírito pegos com mão na botija, que só me restou dar o meu risinho mais maldoso sair pela tangente e ir embora, pensando comigo mesmo:

_” É…. O Brasil do Axé babá é mesmo isto tudo aí, baby!”

Spírito Santo

Janeiro 2011

(Não deixe de ver o álbum completo neste link):

Leia também (aprofundando um dos lados deste papo):African Womanist Clenora Hudson-Weems

A Síndrome do Gueto


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Foto: Escravidão século 19 – Biblioteca do Congresso dos EUA

Movimentos ‘Brancos’ ou Movimentos ‘Negros’? Teorizando sobre mazelas sociais indizíveis

Sei lá porque (acho que é um trauma do colégio interno ou da prisão), maior baixo astral, mas o fato é que sempre penso nisto e senti agora mesmo um impulso incontrolável de falar com alguém sobre o assunto.

O Gheto de Varsóvia é a referencia mais vívida e emblemática: Na circunscrição daquele espaço cercado pela polícia nazista, um microcosmos social transbordando de psicopatias e neuroses sobre as quais, até hoje, ninguém quer falar.

O clima é de urgência. Cada dia é um dia. Sabiam, mas agora ninguém sabe mais, exatamente como é ‘lá fora’, o que ocorre ‘lá fora’, a dimensão e a natureza terrível do que está por vir.

Os colaboracionistas com tarjas identificativas nos braços; uns servindo de polícia, controlando os próprios vizinhos, outros se ocupando do tráfego de carroças e pessoas, da distribuição de comida, todos pensando que vão conseguir se safar, salvar a si e a família pelo menos da fome e por isto fazem jogo das tropas de ocupação.

Políticos espertos (até alguns líderes religiosos) na pele de agentes comunitários ‘um-sete-uns’ criam ou dirigem instituições – muito parecidas com as ONGs modernas – que intermediam informações trocadas por indignas migalhas ou mesmo pela honra, pela moral, por valores que deveriam ser inegociáveis, enfim.

No fundo não passam de atenuadores de conflitos que cumprem apenas o papel de cobrir com ‘panos quentes’ a indignação e a ânsia de revolta que grassa o pensamento das pessoas.

O Gheto é isto: De um lado a submissão conformada da maioria e do outro a resistência louca de um punhado de insanos suicidas que pega em armas por alguma razão.

(E aqui o olhar servil e malvado do camponês denunciando o esconderijo de Che Guevara na selva da Bolívia é a lembrança mais pungente)

É que nestes casos denunciar os rebeldes vira uma mercadoria valiosa. Vale um queijo, um pouco de presunto, uma garrafa de vinho. Como condenar, censurar os que se submetem a isto, os que se aviltam para tentar sobreviver? Uns mais ardilosos e canalhas até que se dão bem. Chegam até a enriquecer um pouco – isto se considerarmos o pouco que é necessário para se sentir rico num ambiente miserável como este.

No fundo a maioria compactua, abaixa a cabeça e se submete. Nem se dá conta da eventual imoralidade de seus atos, da iniquidade de sua traição àqueles semelhantes que se rebelaram e que por isto irão, com toda certeza morrer.

Na verdade, a esta maioria, se lhe fosse dada a chance de escapar, não saberia nem mesmo para onde ir, porque ir, tão envolvida que está pela propaganda viva, pulsante nas coisas descritas pelo momento, pelo dia a dia.

_‘As coisas que são o que são e está acabado’_ É o que toda maioria diz.

Adaptada às circunstâncias, aprisionada em si mesma, a maioria presa fácil da Síndrome do Gueto.

Não lhe parece familiar este filme?

…Não. Não falo deste filme colorido de Hollywood. Falo daquele nosso filme íntimo real e brasileiro que está em cartaz num cinema bem perto de você.

(Pronto. Se já não sabia, você agora sabe muito bem do que estou falando. Podemos enveredar então pela outra ponta do assunto).

Enunciado completo da questão:
Entranhas da estranheza. Sintomatologia

Síndrome: Distúrbio ou doença – individual ou social – contingência irrecorrível, estado de coisas anormal, conjuntura aguda, quase inescapável, a qual um indivíduo ou um grupo social está acometido, caracterizada pela conjunção de um número determinado de fatores, especialmente articulados que, condenam o indivíduo e/ou o seu grupo a um destino indesejado e quase sempre inexorável. Exemplos:

  • Distúrbios ou doenças individuais: Aids (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida), Síndrome do pânico, distúrbios psicológicos ou neuro-químicos em geral, esquizofrenias, psicopatias diversas (Síndrome de Estocolmo, aquela do sequestrado tomado de admiração pelo sequestrador).
  • Distúrbios ou doenças sociais: Analfabetismo, carência alimentar (subnutrição), alienação cultural aguda (aculturação)… Racismo, etc.

Gueto: Espaço restrito, físico ou simbólico, para o qual foi alijado ou no qual, deliberadamente foi confinado um grupo social, que por este intermédio passou a ficar isolado, de um lado de seu meio social e/ou cultural original e, de outro lado, isolado também do convívio com a sociedade em geral, vista de forma ampla.

Esta subjugação do grupo confinado neste gueto, neste espaço de exclusão, se dá por força de dispositivos do mesmo modo físicos, concretos (tal como muros ou cercas de contenção, repressão policial, etc.) ou simbólicos, mentais (tais como campanhas sistemáticas de difamação, privação de acesso à educação formal, procedimentos segregacionistas abertos ou dissimuladas, racismo, etc.).

Muito eficientes ao longo do tempo, estes dispositivos, geralmente impostos por um grupo social hegemônico por força de forte pressão psicológica e expedientes culturais subliminares os mais diversos, muitas vezes acabam sendo até mesmo tolerados, aceitos – ou passam despercebidos – por aqueles que, expostos a eles durante muito tempo, acabam subjugados por muitas gerações.

Síndrome do Gueto: Estado mental ou comportamental manifestado por indivíduos submetidos às condições gerais e especiais acima citadas, principalmente no campo de suas relações psico-sociais e culturais, marcadas indelevelmente pelas consequências nefastas do prolongado isolamento ao qual o grupo está ou esteve submetido.

Espécie de circulo vicioso, este estado de coisas impede ou dificulta aos indivíduos destes grupos (e até mesmo às associações de indivíduos criadas para defender seus interesses) a compreensão da natureza complexa de seus problemas, a ponto de dificultar o encontro de soluções eficientes que possam efetivamente romper o estado de coisas estabelecido, tornando estes indivíduos ou grupos, presas fáceis, quase cúmplices da manutenção ininterrupta de seu estado de subjugação.

Tratando-se de um estado de coisas de natureza social, embora anômalo, ou seja, do ponto de vista das regras básicas do conceito Humanidade, um estado de coisas injusto, a Síndrome do Gueto pode ser vista como sendo uma nítida política de exclusão social, deliberada, perpetrada por certos grupos ou classes sociais contra os outros, com o intuito de subjugá-los, justificando, plenamente o ensejo e o direito dos grupos prejudicados, por meio do estudo meticuloso de sua condição de excluídos, de buscar estratégias (que são a princípio políticas já que, em casos mais agudos, até mesmo estratégias para-militares ou violentas podem ser necessárias) para quebrar o jugo dos hegemonistas.

Exemplos emblemáticos de grupos sociais afetados pela Síndrome do Gueto ao longo da história:

  • Hebreus ou Judeus subjugados por egípcios no tempo dos faraós
  • Indigenas norte-americanos – e sul americanos – e africanos de diversas etnias subjugados pelos colonizadores brancos nas Américas e na África nos século 18 e 19, confinados em reservas ou territórios militarmente controlados
  • Fazendas de escravos nas Américas (como as de algodão nos EUA ou as do ciclo do café brasileiro)
  • Judeus aprisionados em guetos de criados pelos nazistas na segunda guerra mundial (como o Gueto de Varsóvia)
  • Emigrantes contidos em bairros de deserdados (como o velho Harlen de Nova York), etc.
  • Populações aprisionadas em Guetos e ‘bantustões’ implantados pelo governo racista da África do Sul durante o regime do Apartheid (como Soweto)
  • Palestinos subjugados pelo estado israelense na faixa de Gaza
  • Euro-muçulmanos subjugados – e massacrados- por sérvios e croatas na partilha nacionalista da ex-Iuguslávia.
  • Negros e nordestinos alijados para morar em ‘Morros’, ‘Favelas’, ‘Comunidades’e ‘Complexos’ de pobres no Rio de Janeiro, Brasil

O conceito, portanto está lançado. Este é, pois o tema proposto: a análise meticulosa da natureza desta síndrome em todas as suas nuances e melindres, afim de que se escape da armadilha estratégica que o combate ao racismo no Brasil parece estar confinado.

A luta contra o renitente racismo à brasileira estaria de algum modo, comprometida, travada por esta síndrome? Toco no assunto só de relance abaixo.

Anos de chumbo. A clausura impregnada em nós

Nos tão bem lembrados – e em certa medida saudosos – anos 70, a questão só assumiu contornos de emergência revolucionária para uns poucos. Lutar contra a ditadura era uma necessidade indiscutível e inadiável sim, prioridade absoluta para aquela parcela bem pensante de nossa sociedade, mas lutar contra o racismo não.

Tabu embutido no discurso da esquerda brasileira o tema foi, ora discretamente omitido, ora desestimulado com veemência, tratado como uma questão menor, ‘reacionária’ até, que só serviria mesmo para… ‘atrasar’ a luta.

Refletindo já a visão distorcida – que, aliás, predomina sobre o assunto até hoje – sendo a maior parte desta camada ‘bem pensante’ composta por pessoas auto declaradas ‘brancas’ (ninguém parava para pensar – ou fingia não saber – porque diabos a sociedade brasileira estava dividida assim).

O fato é que a discussão sobre o racismo era considerada, francamente secundária, ‘superestrutural’ como se dizia, quase um estorvo diante das grandes e sagradas questões nacionais.

(Não devia ser assim, mas pimenta nos olhos dos outros sempre foi refresco).

Como estaria se dando em Cuba e em outras mais longínquas plagas, o socialismo tão ansiado, assim que implantado por aqui, naturalmente se incumbiria de anular as eventuais e prosaicas (residuais para muitos) divergências raciais.

Justiça social total e automática. Esta era a utopia que parecia a verdade mais líquida e certa deste mundo. Dá até angústia pensar hoje em dia na solidão dos minguados velhos militantes negros da ocasião, calejados de exemplos frustrados desde a mal ajambrada abolição da escravatura.

Melancólicas lembranças daquele malhar em ferro frio do pessoal do Teatro Experimental do Negro nos anos 40/50, dos vetustos senhores da Frente Negra Brasileira dos anos 30, ingênuos quase comunistas, quase integralistas, vendo uma após outra as gerações de negros, filhos, netos, passarem a juventude inteira sem referências ideológicas válidas, curtindo a incômoda sensação de que, para vencer a barreira quase invisível do racismo o jeito mesmo era buscar uma saída individual, sem tocar publicamente no problema, sublimando-o na subserviente crença de que, estudando o negro chegaria ‘’.

_’Lá onde?’_ Pensavam e esbravejavam minguados rebeldes como Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Olímpio Marques dos Santos e uns poucos outros mais.

Eu mesmo, jovem militante subalterno de algumas poucas lutas puramente sociais, tomado por esta mesma negação do problema racial que não via ou não queria ver, me ressentia calado da subestimação com que as lideranças tratavam do problema que eu, mesmo sem assumir frontalmente, percebia estar grudado em nós como craca em casco de navio, enrustido em todas as relações que se estabeleciam entre as pessoas no Brasil, independentemente delas serem da ‘esquerda’ ou da ‘direita’.

Líamos o mesmo Karl Marx, mas, entendíamos marxismos diferentes. Como nas teses originais do alemão, inspiradas que foram na realidade européia, a questão do racismo não aparecia claramente expressa, os mais brancos de nós interpretavam o racismo como sendo uma espécie de problema cultural apenas subjacente, estritamente brasileiro, passível de fácil remédio com programas sócio educacionais pontuais.

Nós, os mínimos – embora mal letrados – quase marxistas negros do pedaço, não nos arvoraríamos jamais de, aquela altura dos acontecimentos, corrigir semelhantes filigranas nas teses do ‘mestre’ do materialismo dialético.

A chapa estava quente demais. As pessoas morriam de verdade, envolvidas naquela aventura. Amargavam as dores todas da cadeia, da tortura. Perdida de antemão, sabemos agora, contudo que aquilo era luta mesmo, luta à vera, gritariam para nós nas assembléias, se ousássemos levantar a voz para propor qualquer aprofundamento da questão.

Contudo, o exemplo mais candente da relevância deste ressentimento era facilmente perceptível na condição subalterna a que eram relegados os gatos pingados negros da ‘organização’.

Para ‘Uns‘ tarefas subalternas, posições subalternas até num simples ‘comício relâmpago’, práticas nas quais os ‘Outros‘ (às vezes – pasmem! – vestindo ternos de ‘tweed’ em pleno verão carioca) nas portas das fábricas faziam os prolixos discursos incitando greves contra os ‘patrões exploradores da mais valia operária’ enquanto que os  ‘Uns‘, disfarçados de mendigos, operários ou camelôs, entravam mudos e saiam calados, fazendo a ‘segurança da ação’, prontos a, se fosse o caso, segurar o trem pesado da repressão.

(Desnecessário se dizer no caso quem eram ‘uns’ e quem eram os ‘outros’).

Para cada tempo um fundo sentimento
Ser negro naqueles anos de chumbo

Fortes, intrínsecas e renitentes as premissas básicas do Racismo à brasileira já apareciam ali, claríssimas, só os cegos (os que não queriam ver) não viam. O símbolo mais evidente do caráter doentio desta renitência podia ser simbolizado por aqueles militantes ‘revolucionários’ que, sabia-se à boca pequena, quando ainda não ingressos na clandestinidade, mantinham empregadas domésticas em suas próprias casas.

Dizem até que alguns contratavam discretas arrumadeiras diaristas para limpar os ‘aparelhos’, limitando-se apenas a tratá-las como ‘iguais’, vez por outra as brindando com pequenos regalos e exortações à conscientização de seu papel de escravas dos ‘outros’ (por suposto, nunca ‘deles’).

Talvez tenha sido por isto que aquele renovado Movimento Negro dos anos 70, aparentava já na sua origem, aquela forte vocação ‘Black is beatifull’, curtindo mais Lhuter King do que Malcom X, tendendo mais para o fashion ‘Black Power’ do que para o enfático ‘O Negro no Poder’.

Subestimando por julgar arcaica e ‘out‘ cultura dos nossos avós sambistas, alguns de nós ignoravam ou repudiavam do mesmo modo, o caráter francamente racista da ‘juventude branca’ de esquerda, que de forma vanguardista propunha uma revolução social rumo a uma sociedade sem classes.

‘Renegar o velho‘, ‘renegar o branco‘, estas eram as palavras de ordem subentendidas em algumas de nossas falas. E daí como consequência o efeito terrível: Aculturados, misturamos assim alhos com bugalhos.

Foi incrível, mas cega pela aversão ao racismo renitente e enrustido dos ‘movimentos brancos‘, esta parte mais proeminente da militância negra parece que foi perdendo também o sentido de sua luta, o foco de seus próprios interesses sociais mais evidentes, ao negar – como uma pequeno-burguesia destas bem egoístas e chinfrim– o eterno sonho da revolução social, mesmo quando ela já estava sendo feita, exatamente por exemplares sociedades negras contemporâneas, aquelas mesmas antepassadas diretas dos negros do Brasil (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau).

(Aliás, quem por aqui se importava com Nelson Mandela na década de 70?)

Zumbi por certo, nestas horas, se revolvia no túmulo ultrajado por ter seu revolucionário nome evocado em vão (isto sem se falar no mesmo revolver do corpo do Oswaldão do Araguaia).

As ideias de libertação sócio racial, na luta de todos para todos (do vitorioso ideário do ANC de Mandela), acabaram assim trocadas pelas contidas ideias de ascensão social individual, segundo um modelo de luta calcado no que havia de mais aparente no comportamento de uma minoria negra, que reivindicava direitos civis nos EUA.

A mal disfarçada tentativa de criar aqui uma classe média negra, uma elite negra, uma casta de intermediários entre os milhões de negros pobres e a hegemonia branca – como se pode ver ainda hoje – claramente era (como o é ainda) totalmente improvável no contexto de uma população afro-descendente tão numerosa quanto tão meticulosamente segregada como a nossa.

Assim como uma maioria equivocadamente se julgando minoria, pensando como minoria (como se dava, por razões bem menos prosaicas em Varsóvia), esta minúscula liderança negra foi facilmente inviabilizada e corrompida, cooptada enfim como qualquer ‘panelinha’ social oportunista.

Pois foi assim que a Síndrome do Gueto, se apossando sorrateiramente daquelas nossas mentes mais vadias e românticas, que sonhavam em sozinhas chegar ‘lá’, nos levou a este deu no que deu.

O isolamento político de uma geração inteira de hoje maduros líderes negros que, animados naquela época pelas emocionantes palavras de ordem dasMarchas para Zumbi, se empenharam no vão intento de ser a antítese perfeita e acabada da esquerda ‘branca’, acabando mesmo como tributários subalternos das plataformas pretensamente esquerdistas do PT (e de outros partidos menores, também supostamente de esquerda) tendo que amargar hoje as lamúrias tardias de um ou outro líder-orixá caído na lama, dentre os poucos que…chegaram ‘‘.

Como, ao que supomos, ficou provado, não bastava mesmo ser negro e favelado.  Seja lá qual fosse a revolução de cada um, o dístico rebelde nunca poderia ser apagado:

_ ‘hay siempre que endurecerse sin perder a ternura – e a ética, a vergonha na cara – jamás.’

(Melancólicas e tardias constatações, reconheço. E é por isto que peço tempo. Depois o papo segue de onde parou, num outro post ou até onde esta penosa conversa nos levar.)

Spírito Santo
Abril 2010

(Hoje, 2019, infelizmente não consegui mudar uma vírgula)

Favela Forever. A modernização do ‘escravo de ganho’ e suas perdas eternizadas


Ilustação Jean Baptiste Debret + Mônica Imbuzeiro (O Globo)

…”O Escravo poderia realizar diversos trabalhos na cidade, poderia ser engraxate, comerciante, barbeiro, etc. Vivia solto, e o que era feito para que ele não fugisse? Uma parte do que ele arrecadava com o seu trabalho era dele, e outra ficava com seu dono, o que é chamado de “escravo de ganho”… Existia também o aluguel de escravos, onde o dono disponibilizava a outrem o trabalho de seu escravo por um determinado período, em troca de um pagamento… “

(Marise Magalhães Olímpio)

Impressionante!

O Brasil tem coisas que contando – fora dele – ninguém acredita. O grau de anestesiamento, a indiferença – ou a alienação – da maioria das pessoas é tanta que a imprensa, o governo, as chamadas ‘elites organizadas’ enfim, nem precisam mais usar de expedientes, ‘panos quentes’ ou sutilezas. A iniquidade é expressa assim mesmo, na maior ‘cara de pau’, com todas as letras, nenhum pudor, nenhuma vergonha.

É como se a nossa sociedade fosse mesmo estúpida e ignorante, arcaica a ponto de se orgulhar disto, como aqueles caipiras ricos do Alabama, ou os neo-fascistas do ‘Tea Party’, estes racistas aí dos mais truculentos. Num país normal – até mesmo em terras de racismo institucionalizado – uma matéria destas como a que acabo de ler em ‘ O Globo’, causaria justa e imediata indignação, mesmo nas pessoas mais reacionárias ou menos sensatas.

Ora, bastou juntar a foto que ilustrava a reportagem de hoje, 23 de Janeiro de 2010, com uma gravura do Jean Baptiste Debret de meados do século 19, em plena escravidão (cujo cenário, aliás, reparem, parece ser o de um dos muitos morros de nossa cidade) .

As imagens juntas assim, dizem tudo!

Observem lendo este link que o mesmo discurso (que, ao que parece é oficial) já era difundido há muitos meses atrás, como peça de propagadanda das UPPs.

Lendo a matéria então, o cinismo escorre pelas linhas do texto como enchente na Serra. Deus do céu! Se fosse um garoto favelado como um destes aí – desculpem a franqueza – não ia ter jeito não: Ia mandar bala na cara desta gente.

“PM ajuda ex-traficantes a buscar emprego formal

O Globo

RIO — O projeto de pacificação de favelas previa a retomada do território que antes era dominado por traficantes armados. O que as Unidades de Polícia Pacificadora não imaginaram é que acabariam também fazendo um trabalho inédito de recursos humanos (‘recursos humanos’…Ah, ah ah, ah,ah!) junto a ex-integrantes do tráfico. Abandonados pelos chefes das facções, esses criminosos sem passagem pela polícia e com idade entre 16 e 25 anos começaram a buscar emprego com a ajuda da PM , que antes era seu principal inimigo (Ah, ah ah, ah,ah!), mostra reportagem de Marcelo Dutra, publicada neste domingo pelo O GLOBO. Dezenas desses pequenos traficantes estão conseguindo emprego com carteira assinada, como motoboys, pedreiros, comerciários, porteiros e em estacionamentos privados (Ah, ah ah, ah,ah!) .

—Ou a gente arruma um emprego ou tomba ou vai em cana. O império acabou. Perdemos, vou fazer o quê? — disse um dos novos trabalhadores ao repórter Marcelo Dutra.

Ex-traficante conta que venda de drogas não garante mais sustento em áreas de UPPs

Num primeiro momento, com o pedido informal de alguns comandantes de UPP, esses ex-soldados do tráfico foram encaminhados a estacionamentos (Ah, ah ah, ah,ah!) . Como a maior parte não tem carteira de habilitação, trabalha como operador de tráfego. Mas outros foram trabalhar em portarias de prédios, como motoboys, ajudantes de obra e pedreiros. Os nomes dos ex-soldados do tráfico e seus parentes estão mudados nesta reportagem. Contudo, suas histórias, locais de moradia e idades permanecerão inalterados.

Tiago, de 18 anos, um jovem da Tabajaras, até o ano passado exercia a função de “endolador” (embalador) de cocaína. Foram quatro anos a serviço do crime, o que lhe garantia uma renda mensal de não menos de R$ 3 mil. Hoje, ele trabalha numa obra na região, carregando sacos de cimento. Ganha em média R$ 500 por mês (Ah, ah ah, ah,ah!) .

— Eu queria muito ser bombeiro. Mas acho que agora não dá mais, né?— diz Tiago. — É que bombeiro ajuda os outros. Não quero mais nada com a vida errada. Pedi ajuda aos homens (PMs) e eles me deram uma chance (Ah, ah ah, ah,ah!) . Estou dentro da lei agora e vou ajudar minha família.

No Andaraí, Pedro, de 17 anos, diz que também vigiava a movimentação da favela, mas evitava pegar em armas. Numa comunidade, corre mais risco de vida quem está armado.

— Sempre que acontecia uma parada errada (tiroteio) aqui, tombava um que estava armado. Eu não dava esse mole. Só ficava na espreita — diz ele, que trabalha carregando caixas numa loja na Tijuca.

Os erros de português e as gírias são comuns aos jovens que trabalhavam para o tráfico. Segundo a PM, a maior parte desse grupo lançado à força no mercado de trabalho não tem sequer o primário completo. Muitos são analfabetos. A faixa etária vai de 16 a 25 anos e eles não têm qualquer qualificação profissional. Há seis meses comandando a UPP da Tabajaras, o capitão Renato Senna diz que todos esses fatores dificultam muito obter um emprego. Mas os que conseguem trabalho têm demonstrado determinação incomum (Ah, ah ah, ah,ah!).”

As sujas entrelinhas

O que a matéria diz é o seguinte: Olha aqui, Não vamos te dar educação, Não vamos te dar casa, Não vamos te dar lazer, Não vamos te dar saneamento básico, Não vamos te dar porra nenhuma.

Te damos este biscate aí de carregador de saco de cimento, dia após dia, com um salário miserável que dará apenas para te manter vivo. Se você não quiser entrar nesta e se meter a besta de tentar escapar deste esquema, cometendo qualquer ilicitude, nós vamos te caçar, te prender ou te matar.

É pegar ou largar. Esta é a única lei na qual você tem que estar dentro.

‘Favela Forever’

Como diria o meu amigo Saraiva, o projeto do governo, a política pública adotada para o problema da exclusão social no Rio de Janeiro e, quiçá no Brasil é manter tudo como está para sempre: Favela forever’.

(Desculpem as risadinhas que inseri nas entrelinhas da matéria. É que não resisti ao humor negro explícito nela)

Perdemos aqui, totalmente a noção do perigo.

Bem, galera, concordo que foi mal rir tanto desta verdadeira tragédia social, mas vejam bem: estava rindo mesmo era de de raiva, tá?

Em tempo: (mais risadas)

Eureca!O prefeito do Rio Eduardo Paes acabou com as favelas numa penada. Nas novas placas de obras de seu governo, as favelas ganharam um eufemístico nome de matar de rir: “ASSENTAMENTOS PRECÁRIOS INFORMAIS”. Agora, nos docs. oficiais favela se chamará ‘API’.

Isto me lembrou o tempo em que pelo mesmo motivo mudaram o nome das favelas para ‘Comunidades Carentes’, que depois viraram apenas comunidades. Daí surgiram os grandes conglomerados chamados, não menos eufemísticamente de Complexose a palavra favela voltou a baila.

Estes caras são pândegos!

Spírito Santo

Janeiro 2011

Malangatana para sempre


Malangatana2

Nos anos 70, o simbólico em nós que, mesmo aqui no Brasil, sonhavamos com libertação da África, era ilustrado pelos quadros do Malangatana. É curioso que num dos seus obituários (veja neste link) o articulista portugues algo ressentido, o descreva, logo ele, um artista combatente da causa da independencia de Moçambique como tendo ‘nascido português numa vila Moçambicana’ tentando negar-lhe, até na morte, a nacionalidade africana. Doença de tolos.

Malangantana nunca morrerá. Quem morreu foi o colonialismo.

“O pintor moçambicano Malangatana morreu aos 74 anos, esta madrugada, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, vítima de doença prolongada, segundo a direcção do hospital.

Foi nomeado pela UNESCO Artista pela Paz (Foto: Carlos Lopes/arquivo)

O pintor, de 74 anos, encontrava-se internado há vários dias naquele estabelecimento hospitalar.

Malangatana vendeu os primeiros quadros há 50 anos e com o dinheiro arranjou uma casa e foi buscar a família para Maputo. Meio século depois, morreu um homem do mundo, um amigo de Portugal e um dos moçambicanos mais famosos.

Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 6 de junho de 1936 em Matalana, uma povoação do distrito de Marracuene, às portas da então Lourenço Marques, hoje Maputo. Foi pastor, aprendiz de curandeiro (tinha uma tia curandeira) e mainato (empregado doméstico).

A mãe bordava cabaças e afiava os dentes das jovens locais (uma moda da altura), o pai era mineiro na África do Sul. Com a mãe doente e um pai ausente, Malangatana foi viver com o tio paterno e estudou até à terceira classe. Aos 11 anos começou a trabalhar porque já era “adulto” e podia fazer tudo, de cuidador de meninos a apanha-bolas no clube de ténis.

Mais do que um pintor

Nos últimos 50 anos foi também muito mais do que pintor. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Fez experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado, da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência.

Ainda que o seu lado político seja o menos conhecido, Malangatana chegou a estar preso, pela PIDE, acusado de pertencer à então FRELIMO, sendo libertado ao fim de 18 meses, por não se provar qualquer vínculo à resistência colonial.

Na verdade Malangatana viveu parte da sua adolescência junto dos colonos portugueses, os mesmos que o iniciaram na pintura, primeiro o artista plástico e biólogo Augusto Cabral (morreu em 2006) e depois o arquitecto Pancho Guedes.

Augusto Cabral era sócio do Clube de Ténis, onde trabalhava um tio do pintor. “Um apanha-bolas nas partidas de ténis era um tal Malangatana Ngwenya (crocodilo), que, no fim de uma tarde de desporto, se acercou de mim para me pedir se, por acaso, eu não teria em casa um par de sapatilhas velhas que lhe desse”, contou Augusto Cabral em 1999.

O pintor iria “nascer” nessa noite, quando Malangatana foi a casa de Augusto Cabral e o viu a pintar um painel. “Ensine-me a pintar”, pediu. E Augusto Cabral deu-lhe tintas, pincéis e placas de contraplacado. “Agora pinta”, disse ao jovem, ao que este perguntou: “pinto o quê?”. “O que está dentro da tua cabeça”, respondeu Augusto Cabral.

O jovem viria a ter também o apoio de outro português, o arquiteto Pancho Guedes, que lhe disponibilizou um espaço na garagem de sua casa de Maputo e lhe comprava dois quadros por mês, a preços inflacionados. Em poucos meses Malangatana quis fazer uma exposição e foi, para espanto confesso de Augusto Cabral, um enorme sucesso.

Nas pinturas, nessa altura e sempre, Matalana, onde nasceu e cresceu e onde frequentou a escola da missão suíça de até à segunda classe. Menino pastor, agricultor, caçador de ratos com azagaia, viria a estudar só mais um ano. Fica-lhe Matalana no pincel, a opressão colonial, a guerra civil. A paz reflecte-se numa pintura mais otimista e nos últimos anos foi um carácter mais sensual que a caracterizou.

E sempre o quotidiano. “Há sempre um manancial de temas a abordar. São os acontecimentos do mundo, às vezes tristes, outras alegres, e eu não fico indiferente. Seja em Moçambique, ou noutra parte do mundo, a dor humana é a mesma”, disse numa entrevista à Lusa, ainda recentemente.

Já homem, com a pintura como profissão, confessou ao jornalista Machado da Graça que sentia grande aproximação com os artistas portugueses desde os anos 70, quando foi pela primeira a Portugal, como bolseiro da Gulbenkian.

O legado de Malangatana

Entre 1990 a 1994 foi deputado da FRELIMO e ao longo de décadas ligado a causas sociais e culturais. Foi um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique, dinamizador do Núcleo de Arte, colaborador da Unicef e arquiteto de um sonho antigo, que levou para a frente, a criação de um Centro Cultural na “sua” Matalana.E exposições, muitas, em Moçambique e em Portugal mas também mundo fora, na Alemanha, Áustria e Bulgária, Chile, Brasil, Angola e Cuba, Estados Unidos, Índia. Tem murais em Maputo e na Beira, na África do Sul e na Suazilândia, mas também em países como a Suécia ou a Colômbia.

Contando com as obras em museus e galerias públicas e em colecções privadas, Malangatana vai continuar presente praticamente em todo o mundo, parte do qual conheceu como membro de júri de bienais, inaugurando exposições, fazendo palestras, até recebendo o doutoramento honoris causa, como aconteceu recentemente em Évora, Portugal.

Foi nomeado Artista pela Paz (UNESCO), recebeu o prémio Príncipe Claus, e de Portugal levou também a medalha da Ordem do Infante D.Henrique. Em Portugal morreria também o pastor, mainato e pintor. Malangatana. Valente.

LUSA – 05.01.2011

NOTA:

Aos familiares, amigos e povo de Moçambique a solidaridade do MOÇAMBIQUE PARA TODOS na perda da figura de um moçambicano íntegro, amigo de seu amigo.”

Fernando Gil

MACUA DE MOÇAMBIQUE

SAMBA fake e SAMBA de fato


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Os oito Batutas

(Este post é baseado em trechos do livro, denominado ‘Do Samba ao Funk do Jorjão’, cuja idéia central é esmiuçar e desconstruir alguns dos mitos, supostamente, criados em torno da história do Samba – enquanto uma espécie de síntese da cultura do negro brasileiro, em geral – mitos estes que, como ocorre com muitas outras ficções antropológicas montadas no Brasil, foram construídos por criativas comunidades de intelectuais, ao longo do tempo e com intenções, quase sempre, muito bem medidas.

Embora tenham sido baseados, claramente, em premissas equivocadas, infundadas ou mesmo deliberadamente falsas, infelizmente, estes mitos foram se cristalizando até se tornarem verdades absolutas, oficiais, por força de sua insistente reiteração (principalmente por certas vias acadêmicas).

Ao que parece, na maioria dos casos, a principal função destas mistificações, é dar sustentação a certos paradigmas da excludente sociedade brasileira, entre os quais aquele que tenta estabelecer – sempre sem afirmar – a existência de uma espécie de hierarquia cultural (ou mesmo intelectual), entre as raças ou classes no Brasil, que daria alguma legitimidade a desigualdade social predominante.

Dentre estes eletrizantes mitos, o mais curioso talvez seja o do ‘Berço do Samba’, que parece tentar comprovar – na verdade, de forma extremamente sutil – a velha tese racista de Nina Rodrigues sobre uma improvável supremacia dos negros bahianos (‘sudaneses‘ supostamente maioria étnica na Bahia) sobre os demais (negros ‘Bantu‘, vindos de Angola para as fazendas de café do Vale do Rio Paraíba do Sul, certamente, maioria étnica no Rio de Janeiro e na região Sudeste é parte do Mordeste desde, pelo menos, o início do século 18, por razões logísticas, ligadas aos interesses do tráfico de escravos.

Entre outras fontes, recorri para esta parte do trabalho, aos escritos (em notas assinaladas) de Nei Lopes – que gentilmente assina o prefácio do livro em sua primeira edição, além de Muniz Sodré e Sérgio Cabral, o pai, entre outros  especialistas brasileiros.

Com vocês então:

O Mito do ‘berço do Samba

Não deu no jornal:
O dia em que um Samba foi cantado na Mangueira…pela primeira vez


…’Quem cantou foi Eloy Anthero Dias, o ‘Mano Eloy’, um personagem legendário do samba carioca. Morador de Madureira, na época, Mano Elói viria a fundar mais tarde pelo menos três escolas de samba (Prazer da Serrinha, Deixa Malhar e Império Serrano). Foi ainda, segundo dizem, um respeitado pai-de-santo e, durante muitos anos, destacou-se como líder sindical dos estivadores do cais do porto.

‘…Mano Eloy cantou primeiramente na casa de Tia Fé e depois para os integrantes do Pérolas do Egito. Era um samba do tipo partido alto em que se repetia o refrão e improvisavam-se versos. O refrão dizia apenas o seguinte: ‘O padre diz Miseré Misereré nobis’. Em seguida, vinham as quadras improvisadas, quase sempre relacionadas com as circunstâncias em que o samba era cantado, Carlos Cachaça lembrou-se que, numa delas, Mano Elói brincava com a dona da casa, inventando versos como “amanhã vou na casa de Tia Fé”, rimando com “vou tomar ‘café’ ‘.

O Samba de Partido Alto cantado por Eloy, principalmente pelo fato de usar uma rima com ‘café’, poderia ter algum remoto parentesco com o famoso ‘Batuque na Cozinha’ que, por sua vez, já havia sido um conhecido Lundu de letra africana, meio cabalística, bastante famoso na Corte Imperial como ‘Lundu do Pai Zuzé’ (este sim, matriz evidente do famoso e posterior ‘Batuque na Cozinha’ (assinado por João da Bahiana).

Lundu do Pai Zusé (domínio público – século 19)

‘Batuque na cozinha , Sinhá num qué
Pru causa da crioula do Pai Zusé

Auê, Zambi…
Zique…pá , Zique…pá , Zique…pá , Zique…pá …
_ Cadê pirigurê? (caxinguelê)…’

Batuque na Cozinha (João da Bahiana, século 20)

‘Batuque na cozinha a Sinhá num qué
Por causa do batuque eu queimei meu pé….

Eu fui na cozinha pra pegá cebola
E o branco com ciúme de uma tal crioula

Deixei a cebola, peguei na batata
E o branco com ciúme de uma tal mulata…’

O Rancho ‘Verde e Rosa’

Existem muitos outros aspectos curiosos, instigantes mesmo, naquela primeira audição de Samba na casa da bahiana Tia Fé, na Mangueira dos idos de 1910, protagonizada, pelo ilustre visitante Eloy Anthero Dias, um encantado Carlos Cachaça, e o pessoal do rancho ‘Pérolas do Egito’, muitos deles talvez futuros integrantes do ‘bloco dos Arengueiros’, segundo consta, o núcleo formador da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira. Embora eles sejam considerados hoje em dia fatos consumados e estabelecidos, que tal dar uma olhada neles, sob outro ponto de vista?

Para começo de conversa, há na crônica sobre as origens do Samba, um inexplicável exagero na hora de se falar desta impressionante figura que foi Eloy Anthero Dias, o Mano Eloy. O que se vê invariavelmente legendado em sua história, na época em que cantou pela primeira vez um Samba na Mangueira, é a sugestão de que ele era um ‘bamba, exímio sambista, jongueiro, pai de santo e macumbeiro’, cheio de super poderes, um verdadeiro ‘Superman’ negro.

Ocorre que este surpreendente Mano Eloy (com certeza um nome que merece mais notoriedade do que lhe dão os especialistas em Samba), pelos dados até agora disponíveis, devia estar, no máximo, com 22 anos na ocasião descrita por Carlos Cachaça (que seria mais novo ainda que Eloy).

…Há 30 anos que Eloy Anthero Dias (agora aos 43 anos) …faz parte do Samba- essa dança que encanta e embala. Durante este tempo, inúmeros sambas fez ele, inclusive ‘Miserê’, ‘Não vou lá no candomblé,’ ‘Moro na roça’, e ‘B com A’, estes tiveram retumbante sucesso’ .

(Trecho de biografia de Eloy publicada pelo jornal ‘A Rua’, na ocasião em que foi eleito o primeiro cidadão Samba do carnaval carioca, em 1936)

Estando há cerca de sete anos no Rio de Janeiro e havendo ingressado no chamado mundo do Samba com cerca de 18 (portanto há apenas quatro anos antes desta sua ida à Mangueira), Eloy devia ser aquela altura, astuto sim, despachado, descolado; um jovem prodígio até mas, experiente com certeza ele não poderia ser. Não havia bagagem de vida, cabedal. Havia muito chão ainda para o futuro ‘bamba’ percorrer.

‘... Sambista nascido em Engenheiro Passos, no estado do Rio de Janeiro em 1888 e falecido em 1971, na cidade do Rio – para onde viera com 15 anos de idade- (…) Mano Elói tornou-se o pioneiro do registro de cânticos rituais afro-brasileiros. Nesse ano, com o Conjunto Africano, gravou um ponto de Exu, dois de Ogum e um de Iansã. Seu companheiro nessa empreitada foi o já referido Amor. O pioneirismo dos sambistas Amor e Mano Elói deve-se ao fato de eles terem levado para o disco verdadeiros cânticos rituais, executados e interpretados como autênticos pontos de macumba, com atabaques e tudo o mais’.

O fato é que, por alguma estranha razão, ligada talvez ao inusitado da situação (quem sabe talvez o fato de ter sido um desconhecido ‘estrangeiro’ de Oswaldo Cruz, o verdadeiro introdutor do Samba, no tradicionalíssimo reduto da ‘Estação Primeira’), nossos estudiosos acabaram deixando sugeridas na biografia de um Eloy ainda mal saído da adolescência, qualidades que ele evidentemente só iria ter muitos anos depois.

A precocidade de Eloy (a quem também Nei Lopes, de certo modo, atribui a introdução do samba na Mangueira, sob a forma de rodas de Batucada e de Pernada) e de outros grandes mestres do Samba, era bastante comum naquela época, quando os conceitos adolescência ou juventude eram um tanto diferentes do que são nos dias de hoje.

Mesmo neste caso há de se convir, no entanto que, se referindo àquela ocasião, os dotes posteriormente atribuídos a Mano Eloy eram certamente exagerados.

Deu até no ‘Fantástico‘:
O Quintal e a Sala da Tia Ciata

O outro aspecto, este mais instigante ainda, é que, se é fato realmente que na Mangueira de 1910 não havia ainda algo que se parecesse com o ‘Samba de Partido Alto’ trazido por Eloy (fato que explicaria a surpresa do menino Carlos Cachaça) a enfática afirmação da maioria dos estudiosos de que o Samba nasceu na Praça Onze, nos quintais das tais ‘Tias Bahianas’, pode não passar mesmo de um mito, um episódio, de novo, exagerado pela bibliografia.

Se as adjacências da Praça Onze fossem realmente o lugar onde se localizava o ‘berço do Samba’, porque cargas d’água o Morro da Mangueira, tão perto dali, seria o último a saber, o único reduto a não participar da construção desta grande novidade que, em 1910 já deveria estar em franca e notória gestação?

Talvez tenha sido porque o que se irradiava da Cidade Nova para o Morro da Mangueira, não era ainda, definitivamente, Samba, e sim Rancho Carnavalesco.

É o que se pode deduzir pela lógica dos fatos, principalmente se destacarmos o emblemático detalhe da reunião na qual Eloy cantou o seu seminal Partido Alto, ter ocorrido, exatamente, na sede de um rancho, o ‘Pérolas do Egito’.

Pelo visto, era mesmo das bandas do Estácio e, principalmente, da roça de Oswaldo Cruz e adjacências (Morro da Serrinha) que chegavam os novos ingredientes, para engrossar o caldo do Samba que a esta altura, já estava borbulhando, quase no ponto, ali por volta de 1910 / 20.

De todo modo, mesmo sem se saber exatamente quem influenciava quem, a lista de precursores, Pais e Mães do Samba na época, pode ser bem mais extensa – e variada – do que aparece na bibliografia oficial:

...’De todas as tias, a mais famosa e a mais importante foi Tia Ciata (…) em cuja casa os pesquisadores asseguram ter nascido o samba carioca. Seu verdadeiro nome era Hilária Batista de Almeida, uma mulata muito bonita, que chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1870, com 20 anos de idade. Instalada no Rio, Tia Ciata passou a ganhar a vida com um tabuleiro de quitutes baianos na rua Sete de Setembro.’

Talvez seja mais razoável se deduzir, portanto, que sendo a palavra Samba, por esta ocasião, talvez uma forma ainda genérica para se designar ‘Chulas de negro’ ou, simplesmente ‘Música de negro’, o que fermentava no quintal da Tia Ciata na verdade – e eventualmente chegava até no Morro da Mangueira, sem atrair muito a atenção do povo de lá – não era exatamente o Samba definitivo mas sim, uma das muitas formas de Samba que pipocando aqui e ali na cidade, disputavam uma hegemonia que estava para se cristalizar a qualquer momento.

O tal ‘berço do Samba’ poderia estar aquela altura, em qualquer lugar. Não havia uma estrela guia apontando para a ‘Cidade Nova’, como muitos especialistas em Samba insistiram é insistem em afirmar de forma enfática.

Contudo, embora sendo um exagero muito oportuno e providencial, pode não ter sido tão gratuita assim a eleição da área da atual Praça Onze, por parte de nossos intelectuais, como o berço oficial do Samba.

Nas primeiras décadas do século 20 (num fluxo que, se inicia na segunda metade do século anterior) o lugar já se configurara como uma verdadeira colônia bahiana, congregando emigrados baianos (e pernambucanos) de diversos tipos, inclusive personalidades do candomblé emergente e até mesmo alguns alufás maometanos, mal vistos em Salvador desde os tempos da última revolta dos Malês (1835)

Situada ali, bem perto do centro da cidade propriamente dita, do centro mundano incrementado pela recente criação do boulevard parisiense que era a Avenida Central, no qual se situavam os ‘points’ da intelectualidade carioca, esta colônia bahiana se prestava maravilhosamente bem – embora de forma simplista – como representação simbólica, uma espécie de microcosmo da cultura típica – idealizada – dos negros africanos na capital federal.

Ao que tudo indica, no entanto, a julgar pelo que nos demonstram certos antecedentes da história do Samba, este pessoal da Bahia estava muito mais ligado mesmo é na afirmação por aqui, de suas próprias tradições culturais, trazidas do nordeste, entre as quais preponderavam o candomblé e os Ranchos (Pastoris ou Lapinhas), principal paixão cultural destes bahianos, manifestação de inspiração portuguesa, colonial portanto.

‘… Carlos Cachaça não guardou na memória o ano em que ouviu samba pela primeira vez em Mangueira, lembrando-se apenas de que foi no tempo do Rancho Pérolas do Egito, tudo indicando, portanto, ter sido antes de 1910. Mas não se esqueceu das circunstâncias em que o fato se deu… ‘

Aliás, pode se considerar por isto mesmo – e com certa propriedade até – que, ao que parece, houve uma curiosa subestimação – ou mesmo omissão – do caráter essencialmente lusitano da herança cultural trazida por estes grupos de bahianos para a Corte do Rio de Janeiro, herança que possui traços muito evidentes na cultura primordial do Morro da Mangueira, como bem nos demonstra o ambiente encontrado por Mano Elóy, nos idos de 1910, quando lá introduziu o gosto pelo chamado Samba de fato.

A implantação destas tradições luso-bahianas no âmbito da cultura urbana do Rio de Janeiro foi, inclusive, o motivo de muitas disputas e demandas internas, entre os principais líderes desta colônia nordestina, das quais a mais empolgante talvez tenha sido a que poderia ser chamada de A demanda dos Hilários, desentendimento ocorrido entre Hilária Batista de Almeida, a famosa Tia Ciata e Hilário Jovino Ferreira, segundo dizem o introdutor do Rancho no carnaval carioca, na disputa pela criação de um destes grupos.

A referida disputa, de certo modo, separou os bahianos em duas facções rivais: A da Cidade Nova (Tia Ciata) e da Gamboa (Hilário Jovino)

Além da eventual opção preferencial pelo Rancho Carnavalesco, a julgar por algumas entrelinhas, contidas nos muitos relatos existentes sobre o assunto, o tipo de Samba praticado na casa da Tia Ciata – a bem da verdade um reduto de certa elite negra, composta por geniais músicos e compositores profissionais, além de funcionários públicos bem sucedidos (o marido de Ciata, o médico João Batista da Silva, era chefe de gabinete do chefe de polícia do Governo de Wenceslau Braz) talvez fosse uma forma de Samba um tanto esnobe, impregnada ainda dos maneirismos estéticos dos diversos gêneros de música européia que andaram em voga no fim do Império, tais como o Schotisches, a Polka e a Mazurka.

Embora fosse daquela mesma geração, Pixinguinha não era exatamente um homem de Samba. Ele próprio contou que, nas festas descritas por Donga, não ia para o quintal: _ ’Eles (os sambistas) faziam seus sambas lá no quintal e eu os meus choros na sala de visitas. As vezes eu ia no terreiro fazer um contracanto com a flauta mas não entendia nada de samba’.

No mesmo artigo, Sérgio Cabral comenta também que, um tal de Marinho que Toca, um cavaquinista, foi quem ensinou Donga a batida do Samba (provavelmente numa das festas na casa de Ciata), ou seja, já naquela altura, do mesmo modo que Pixinguinha, seu companheiro no grupo ‘Os Oito Batutas’, Donga também não era ainda muito chegado ao ritmo do qual, logo depois, seria incensado como o suposto ‘inventor’ (pelo menos em gravações) .

O que se fazia na casa da Tia Ciata, portanto, era certo tipo de samba negro sim, mas, de certo modo, um tanto ‘aculturado’, que já fora chamado antes de ‘Lundu’ e tentava agora descolar de si o nome de ‘Maxixe’, com o qual a mídia da época já ameaçava batizá-lo de vez, uma espécie de ‘Bossa Nova da Belle Èpoque’, em suma.

O que se pode afirmar com certeza é que a receita de Samba tentada na casa da Tia Ciata, foi uma experiência de fusão musical que, pelo menos como Samba, não vingou.

A receita que o caldeirão não conseguiu cozinhar (ou o cozido que não apeteceu a negrada, ao ‘populacho’); uma forma de Samba que, não prevalecendo, foi se diluindo, amarelando com o tempo, abafada pela batucada avassaladora que o povo negro da Roça, liderado pelo enorme poder de sedução e persuasão de figuras como Eloy Anthero, veio trazendo para as ruas da antiga Corte.

Ao que nos parece, portanto, o Samba definitivo, aquele que emergindo por volta de 1920, se apossa rapidamente da cidade, só começa a tomar forma mesmo, quando o Jongo e outros ‘batuques’ instalados nas roças e morros atrasadas da periferia, começaram a se espalhar, como água pura – via cais do porto talvez – por esta cidade já irremediavelmente partida ao meio por uma imensa e simbólica ‘Avenida Central’ que, separando a população entre ‘brancos’ e ‘crioulos’; remediados e desvalidos, parte também nossa música popular urbana em duas vertentes culturais quase inconciliáveis, que só se encontrariam para desfilar no Carnaval.

Reproduz-se assim, como num samba enredo improvável, o quadro de intenso apartheid que havia sido instalado na cidade do Rio de Janeiro por seu prefeito, o ‘smart’ Pereira Passos, em 1906.

Por este viés, pode-se compreender também, e com maior rigor e clareza, a natureza de uma certa polêmica que opunha de um lado, o ‘samba’ ‘Pelo Telefone’ (aquele filho dileto do ‘Maxixe’) e de outro, o ‘Samba de Partido Alto’ (o filho legítimo da ‘Chula Raiada’) aquele que enfim, logo em seguida, açambarcaria de vez o título de Samba de fato.

Num definitivo depoimento divulgado no livro de Muniz Sodré ‘ Samba o dono do corpo’, Donga afirma enfático que a melodia de ‘Pelo Telefone’ foi copiada de um tema folclórico, muito popular na ocasião no qual ele inseriu versos, encomendados ao jornalista Mauro de Almeida, conhecido como “Vagalume”.

O que conhecemos como o primeiro Samba gravado, não seria portanto nenhuma novidade. Na verdade nem o nome de ‘composição’ original mereceria porque, não passava de uma simples paródia (coisa que, aliás, segundo o mesmo Donga, era bastante comum naquela ocasião). Podemos deduzir então que “Pelo Telefone’, era uma chula-paródia, em ritmo de Maxixe que, algum esperto produtor (Fred Figner, da Casa Edison ou o próprio Donga), detectando o grande apelo comercial da palavra, resolveu batizar de ‘Samba’.

É sintomático inclusive que, começando provavelmente a ser elaborado em 1910, este ’Samba de fato’ tenha tido que esperar quase 20 anos mais para ocupar, no carnaval, o lugar que as marchas, lundus e maxixes ocuparam, durante as duas primeiras décadas do século 20.

…O primeiro rancho carnavalesco em Mangueira chamava-se Pérolas do Egito, criado antes de 1910, ano em que surgiram o Guerreiro da Montanha e um outro cujo nome Carlos (‘Cachaça’) esqueceu, mas que teria sido formado pelos moradores do alto do morro. Mais tarde, nasceu o Príncipe da Floresta, o mais famoso rancho de Mangueira, que adotou as cores verde e rosa.”

Os negros Mangueirenses, no mesmo momento em que tentavam forjar a difícil mistura entre seus candomblés e macumbas com as dolentes marchinhas das Lapinhas, dos Pastoris e dos Ranchos dos lusitanos, devem ter ficado mesmo encantados com a astúcia e a picardia africana, angolana, contida nos ‘Sambas de Partido Alto’ trazidos por Mano Eloy.

Segundo alguns autores, foi neste exato momento, quase em 1910, que eles, os Mangueirenses (junto com o pessoal da vizinha Praça Onze), foram irremediavelmente contaminados pelo vírus daquele Samba jongado que vinha da Roça ‘atrasada’.

Nascia o Samba de Fato. Seu berço? Alguma fazenda de café do Vale do rio Paraíba do Sul, provavelmente. Ou, quem sabe? Algum pátio de aldeia, próximo à Luanda, Angola. De certo apenas isto:

O nosso velho Samba não nasceu na Praça Onze…E muito menos na Bahia.

Spirito Santo
Novembro 2008

NTEKA, a música


Baixe ou ouça a música Neste link

(Matéria publicada originalmente em Overmundo.com.br em 11/6/2008)

Música descendente

Foi a a primeira experiência do Musikfabrik com adolescentes, ali por volta de 1993 num Ciep (escola pública) localizada no Sambódromo do Rio. O prazo era curto e o material nenhum. A única idéia que acabou sendo possível foi a de construir xilofones com ripas de caixote, achadas por aí, no lixo.

De todos os garotos, a maioria habitantes de favelas do entorno, só um – um menino refugiado angolano chamado Luciano Nteka – se interessou em construir algo.

Naquela escala ensejada pelas ripas velhas que dispúnhamos, ele criou uma melodia vinda, sabe-se lá de que recôndito de sua alma, deixando a garotada abestalhada com aquele som que saía, literalmente, do nada.

(o mais incrível era que o menino Luciano, o africano,  nunca tinha visto uma marimba na vida).

Impressionante!

Ele nunca mais largou o Musikfabrik nos anos seguintes. Foi um dos primeiros monitores capacitados pelo projeto. Em todas as marimbas construídas ele tocava aquela mesma melodia.

Os demais alunos manifestavam uma atração inexplicável por aquele tema musical e não sossegavam enquanto não o aprendiam também, viciados que ficavam talvez, ávidos em se impregnar daquele som que emanava de simples ripas de madeira, um som de savana africana que, nem de longe eles sabiam o que significava, mas… sentiam.

Foi assim que o pequenino tema criado pelo menino Luciano (a linha de marimba grave em que se apoia o longo tema que compus) se tornou uma espécie de, mantra, hino, trilha sonora de rito de passagem, para todos os alunos do Musikfabrik.

Perdemos contato com ele ali por volta de 2001, a esta altura já adulto, imaginamos que tenha retornado com a família para Luanda com o fim da guerra civil, a derrota da Unita e a morte de Jonas Savimbi.

Ontem fui lá no dicionário e descobri: Nteka em kimbundo, língua dos antepassados de Luciano quer dizer descendente.

Tudo a ver com o sentido que aquele som teve para a afirmação do menino, a ascendência emocional dele se revelando, vinda de dentro dele mesmo.

Memória genética, mistério insondável, daqueles que é melhor deixar quieto.

Agora – deixei para o final – a grata surpresa: Sabem porque postei – de novo – esta matéria hoje? É que a mágica dos deuses da Internet fizeram cair aqui no blog hoje este email sensacional:

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Luciano NTEKA Miguel Enviado em 05/01/2011 às 12:00

“Adivinha só quem é… Sim sou eu mesmo o próprio Luciano Nteka da “velha guarda” do MUSIKFABRIK directo de Angola. Parabéns pelo projecto quem vai sempre crescendo com a forca de todos os amigos e amantes da música artesanal. Força professor”

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Falar o que numa hora destas?

Vão lá, vão. Escutem a música que está tudo lá.

‘NTEKA’

Ficha técnica

Composição: Spírito Santo (sobre tema base de Luciano Nteka)
Kalimba solo’- Spírito Santo

Marimba base e cuíca solo – Umberto Alves (in memorian)
Guitarra solo – Nobru Pederneiras
Percussão (caixa e pratos)- Eber Freitas
Baixo- Bira Reis
Percussão (tambores) – Luizão Bastos
Técnicos de gravação- Ricardo Calafate & Ricardo Cidade
Estúdio ‘Uzina’ – RJ

Spirito Santo

Janeiro 2011