O Baú no Boné / Memória #01

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Ruínas dos fundos da velha cadeia do presídio da Ilha Grande, Rio de Janeiro, Brasil.

Ruínas dos fundos da velha cadeia do presídio da Ilha Grande, Rio de Janeiro, Brasil, onde o Tio em 1969 honrosamente morou, por longos meses.

(Siga esta emocionante série nos posts #02 e #03)

Lei Saraiva-Cotegipe ou Lei dos Sexagenários.

Regula a extinção gradual do elemento servil

D. Pedro II, por Graça de Deus e Unânime Aclamação dos Povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil: Fazemos saber a todos os Nossos súditos que a Assembléia Geral Decretou e nós queremos a Lei seguinte:

§10º São libertos os escravos de 60 anos de idade, completos antes e depois da data em que entrar em execução esta lei, ficando, porém, obrigados a titulo de indenização pela sua alforria, a prestar serviços a seus ex-senhores pelo espaço de três anos.

§11º Os que forem maiores de 60 e menores de 65 anos, logo que completarem esta idade, não serão sujeitos aos aludidos serviços, qualquer que seja o tempo que os tenham prestado com relação ao prazo acima declarado.

———–

Hoje remexi, freneticamente, meus miolos. Os tenho remexido muito, ultimamente, por uma razão óbvia: Não se fica sessentão duas vezes e, para mim, faltam (escrevia então em 2007) apenas alguns míseros e derradeiros dias. Dá até se pra contar as horas que faltam para que eu seja enfim, livre de qualquer censura.

Foram caixas e caixas reviradas, papéis amarelados, amarfanhados, fotos, jornais antigos, pedaços do meu tempo, registrado em mídias remotas demais para caberem no limitado baú de memórias, onde mantenho guardadas, protegidas dentro do meu boné, todas as minhas vividas emoções. Gigantesco H.D. de minh’alma.

(Fico impressionado o quanto pode ser compulsivo o hábito de escrever, esta sanha maluca de se colecionar lembranças, ora banais, ora incômodas, perpetuando instantes flagrados, sabe-se lá porque, e depois esquecidos, amontoados em malas, armários, porões e sótãos empoeirados, como parentes finados, embalsamados)

Os ácaros e as traças, quase tão velhos quanto eu, saíram resmungando o sossego de anos, perdido para sempre. Cheguei mesmo a lamentar os fragmentos microscópios de minha alma, que se esvaíram com a partida destes micróbios, portadores de ínfimos pedaços de minhas emoções perdidas.

É com toda esta nostalgia que inicio aqui esta série alfarrábica, partilhando com vocês – com a liberdade de fazer o que bem entendo, assegurada pela lei acima assinalada – alguns fragmentos destas memórias, entre as quais esta que flagra a intensidade do momento em que eu, uma criança ainda, nos meus 21 anos inconclusos, algemado num caminhão militar que descia pela estradinha de uma montanha para o meu mais temido destino de rebelde de causa perdida. O presídio da ilha Grande.

Pois é. Quem diria. Poesia numa hora dessas?

————

A Chegada

A ilha.

Um destróier ancorado ao largo

A ilha.

A estrada enrolada na montanha

Um precipício do princípio ao fim

Um vale claro

Um ‘colégio interno’

plantado no meio,

no centro exato do paraíso

O inferno embrulhado em papel crepom

Ilha Grande, RJ / 1969

(Alguns poucos anos depois este meu poema foi publicado no caderno cultural do combativo jornal ‘A Tribuna da Imprensa’)

Spírito Santo

2007

(ainda me assinando Antônio José do…)

Siga esta emocionante série nos posts #02 e #03



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~ por Spirito Santo em 02/01/2011.

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