Ainda o ‘Danço Congo’ de São Tomé e Príncipe


Incrível resistencia cultural! Eu tinha uma gravura antiga, do início do século 20, desenhada por um artista popular de São Tomé e Príncipe. Nela uma descrição detalhada de uma representação gráfica (uma delicada aquarela) de ‘Danço Congo’ para uma grande platéia aboletada num coreto. Pois bem, nesta representação de agora, já em 2010, percebo que os detalhes são os mesmos. O diabo que dança (um ator fantástico!) é idêntico ao da foto.

A gravura está no meu livro. Vou postá-la aqui para vocês:

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Mais Danço Congo

(Matéria extraída do blog (abra o link) da professora Marta M. Gomesda disciplina de História do Património inserida na área de Humanísticas – Turismo, dos Cursos Secundários Profissionalmente Qualificantes de São Tomé e Príncipe. O texto é de março de 2008.)

“Como o próprio nome diz, o Danço-Congo ou a Dança do Capitão, tem a sua origem no Congo, tendo sido introduzida na ilha de São Tomé pelos trabalhadores na era colonial.

Em São Tomé, teve a sua origem em Mutamba (uma das zonas da cidade de Neves). É típico do povo São-Tomense, em particular dos Angolares. As pessoas que expandiram esta dança, foram três pescadores, que se deslocavam na época da gravana, para diferentes locais da ilha, como Neves, S. dos Angolares, Porto Alegre e Malanza, a fim de fazer a «Chada» (secagem do voador panha).

Num belo dia os mesmos pescadores deslocaram-se à praia de Neves com o objectivo de fazer a «Chada», já lá dois dos tais tinham ido ao mar, ficando um dos tais em terra, a fim de fazer a fogueira e guardar o pescado já existente.

Na calada da noite, o pescador que estava na praia ouviu algo muito estranho, parecido com o som de música e muito barulho, aproximando-se cada vez mais, o homem amedrontando, pôs-se atrás de uns arbustos, e de lá observava tudo que o que se estava a passar: pessoas já mortas, dançavam e tocavam.

Faziam parte desta dança, nomeadamente: o feiticeiro, o bobo, o capitão, anzo mole, anzo canta, os tocadores e os figurantes, tocaram e dançaram até ao amanhecer.

Quando chegaram os outros dois companheiros do mar, o pescador que ficara, contou-lhes tudo que tinha presenciado, os outros duvidando do que ouviam, sugeriram que fosse só ao mar na noite seguinte. Ao anoitecer ficaram, os dois, responsáveis pela fogueira e pelo pescado. Assim, viram que o outro só falara a verdade, pois tudo aconteceu com todos os pormenores descritos. Retornando ao povoado contaram tudo o que haviam observado e nasceu o Danço Congo – assim diz a lenda. As personagens foram sempre as mesmas, o que difere é a maneira como tocam e dançam.

Esta história foi-nos dada a saber pelo Sr. Libiano Frota. Presidente do Danço Congo Mine-Carocel de Almeirim.

Segundo as informações colhidas pelo Presidente do Danço Congo Mine-Carrossel e das pesquisas feitas, a história processa-se da seguinte maneira: havia um homem que tinha uma fazenda e quatro filhos chamados de bobos.

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Um dia o fazendeiro morre e os seus quatro filhos sentindo-se incapazes para administrar a propriedade convidam o «capitão» a fazê-lo.

O capitão aceita e escolhe vários colaboradores entre os quais Logoso, que é o guarda da propriedade. Havia ainda dois anso cantá (anjos que cantão), guarda-costas do capitão; dois guias de frente; um barriga de danço e dois guias de tráz.

Certo dia o capitão resolveu realizar uma festa na fazenda e convidou os bobos, acompanhados de suas mulheres. De repente, Capitão pressentiu algo a rodear a fazenda e chamou os bobos para se certificarem do que se passava.

Após a verificação os mesmos viram-se obrigados a realizar uma cerimónia (ordena aos «anso cantá» para cantarem ainda mais) para conseguirem apanharem o feiticeiro e o seu ajudante zuguzugo (o feiticeiro era um homem com almas pecaminosas, primo do Pé-Pau), quando os irmãos conseguem apanhar o feiticeiro e o seu companheiro zuguzugo, o feiticeiro pede ajuda ao demónio, e à alma do seu primo falecido, para conseguir apoderar-se da empresa e matar o filho de Capitão cujo o nome é anso molê (anjo que morre).

Depois de apanharem o feiticeiro, que havia contactado com os seus amigos, ele demonstra todas as suas habilidades diabólicas na festa a fim de conseguir o pretendido.

Assim o feiticeiro consegue apoderar-se da empresa e matar o filho do Capitão. O Capitão revoltado com a morte do seu filho, vai a casa dos bobos para lhes pedir ajuda. Chegando lá, encontra as suas mulheres ao que o Capitão diz que veio tratar um assunto do seu interesse. Uma das mulheres ao ouvir leva o recado aos bobos dizendo «bá cuji unwan sunguê glave lumá, fina cú lôpa limpo» (vai responder um senhor muito bonito, fino estimado com roupas limpas).

Quando os bobos chegam, o capitão coloca-lhe todos os problemas, os bobos achando-se espertos propõem o seguinte: se queres que nós te ajudemos a tirar o feiticeiro da empresa temos que fazer um acordo e Capitão aceitou.

Então os bobos dizem ao capitão para se voltarem de costas uns para os outros para fazerem um acordo, que consistia no seguinte: tudo o que bobos dissessem, o capitão e os seus ajudantes têm que fazer, e o acordo foi aceite por todos.

Todos regressam à festa e vêem o que estava a acontecer. Os bobos passam a mandar na fazenda, mas quando vêem o feiticeiro e o seu ajudante vestidos de vermelho, correm ficando com medo.

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Então surge uma briga entre o feiticeiro e os bobos, saindo estes vencidos pelo feiticeiro. Os bobos vêem, então, um dos seus companheiros caído no chão, e que os outros se tinham ido embora. Novamente o feiticeiro retoma a sua luta.

Aqui um dos bobos que estava no chão, levanta-se para telefonar aos seus companheiros de modo a pedir ajuda. Ao levantar-se dois anso cantá (guarda costa do capitão) prende-o, dizendo que matou alguém, e ele responde que não, e como prova disso ele resolveu pegar nos dois anzos cantá para irem ao local do crime.

Ao se aproximarem encontram a espada do feiticeiro no chão com sangue. Os bobos olham para os dois anso cantá, questionando-o se ainda não acreditam neles, e que foi o feiticeiro que cometeu o crime.

A festa continua, embora a consternação do capitão, após a morte de anso molê. Os bobos não dando importância ao facto continuam a animar a festa com as suas actuações patéticas.

(de ter em atenção que o relato da mesma história em Povo Floga difere em alguns aspectos. Não nos podemos esquecer que com o passar do tempo se verificam algumas alterações. O que acima foi descrito, foi-nos contado pelo mestre do Danço Congo Mini-Carrossel)

Para a realização do Danço Congo são utilizados instrumentos tais como: os tambores Maria que é o maior de todos; Jaqueta, o médio e o Tabaque, o menor de todos; chocalhos; reco-reco; ferro e apito.

Quanto ao vestuário, temos a roupa do feiticeiro, do seu ajudante e a do pé-de-pau que são da cor vermelha, o Capitão usa umas vestes mais coloridas, ornamentadas de croché em torno da cintura, os restantes figurantes usam uma roupa uniforme, já as roupas de Bobos são todas esfarrapadas.

O Danço Congo Mini-Carrossel, teve o seu início no ano de 1973, como uma brincadeira, ou seja, um grupo de crianças durante às férias do ano lectivo, tocavam latas, plásticos e outros instrumentos improvisados. A ideia de formar um Danço Congo a sério foi do actual Presidente «Sr. Libiano Frota» que na altura tinha 30 anos de idade. A ideia foi aceite por todos, e assim se deu inicio ao Danço Congo Mini-Carrossel de Almeirim.

A escolha do nome constituiu um problema para o grupo. O nome Mini-Carrossel teve a sua origem no terraço que já existia no quintal do Presidente do grupo. Este terraço, agora encontra-se à berma da estrada.

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Inicialmente o grupo apresentava-se com instrumentos pouco adequados, nomeadamente latas, plásticos e as membras eram feitas a partir dos lenços e panos.

O Mini-carrossel de Almeirim, atingiu o seu auge na altura em que estava no poder o Sr. Presidente da República Doutor Manuel Pinto da Costa. Tendo assim oportunidade de participar em apresentações culturais em diversos países nomeadamente: Rússia (Moscovo), Espanha, Portugal e França.

As apresentações são feitas em lugares abertos, ou em terraços quando são chamados para actuar em festas de inauguração ou em festas de freguesias, festa da independência e quaisquer outras actividades que queiram a sua participação.

Segundo a entrevista feita com os membros do grupo, concluímos que os jovens e as crianças pouco ou nada sabem sobre o significado e a história de Danço Congo, os mesmos só lá estão por estar, isto é, por acharem piada. Nota-se pouco interesse por parte dos jovens e crianças são-tomenses, em particular de Almeirim. Assim não haverá pessoas capazes de dar continuidade ao Danço, o que terá como consequência futura o desaparecimento do mesmo. Como nos disse o Sr. Libiano Frota:

«se eu morresse agora, o Danço de Congo morreria no mesmo instante, isto porque os jovens só querem saber de jaca, safu, mangas, cartas e futebol, nada de Danço de Congo»

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Neste momento o grupo encontra-se com inúmeras dificuldades no que concerne aos instrumentos, equipamentos, e principalmente apoios financeiros.

O património de S. Tomé é vasto, nele podemos encontrar o património cultural, onde se insere o Danço Congo.

A lei do património, diz que devemos proteger, preservar e valorizar todo o património. Daqui decorre a necessidade de aproveitar o Danço Congo para a promoção do turismo nacional.

Para que o turismo se desenvolva a partir do Danço Congo, temos que, primeiramente fazer ressurgir os diversos grupos de Danço Congo, fazer também com que a população saiba da sua história, origem e de seu significado. Para tal é preciso sensibilizar a população no sentido de salvaguardar esta manifestação cultural.

Como sugestão para a divulgação de Danço Congo propomos o seguinte:

  • a existência de suporte documental, isto é, os escritores deviam dedicarem-se mais à escrita da história, não só de Danço Congo, mas também de todas as manifestações culturais;
  • a televisão São-tomense devia ter um espaço aberto para expor estas manifestações culturais (como já havia os programas «O Nosso Convidado, Segredo do Mestre e Raízes»);
  • o Estado devia actuar de forma mais activa e directa para a promoção destes grupos culturais.
  • Apelamos, também, à população em geral a respeitar os saberes e as tradições ancestrais como parte do património colectivo de uma nação, lançando campanhas de educação patrimonial, consciencializando as pessoas a valorizarem as suas tradições e o respeito pela diversidade cultural.

Já na etapa final deste trabalho, concluímos que o Danço Congo é uma das principais manifestações culturais de S. Tomé.

Mesmo a sua história não sendo de conhecimento de muitos a sua apresentação é de grande aceitação da população, isto é, nas representações vê-se uma grande afluência dos espectadores.

Pelas entrevistas realizadas, constatamos que hoje, em relação a antigamente, vários grupos têm vindo a desaparecer, ficando um número muito reduzido de grupos de Danço Congo. Este facto deve-se ao pouco apoio das entidades responsáveis pela área da cultura e também à morte dos mais velhos que não vêem nos mais jovens interesse em perpetuar este elemento cultural.

Deste modo apelamos aos jovens e à população em geral que trabalhem em conjunto no sentido de promover e desenvolver o Danço Congo.

Ajude-nos a melhorar o nosso trabalho, com as suas críticas, sugestões e correcções. Estamos à sua espera.”


Brazilian favela News. A feira atropelada


O caveirão vai à feira

Não vi, não sei quem viu, contei de ouvir falar

(O relato – e as fotos que o ilustram – foi escrito, a guisa de protesto por habitantes do Morro do Timbau, no Complexo de favelas da Maré, Rio de Janeiro. Ele descreve um grave incidente ocorrido lá, daqueles que ocorrem todo dia no submundo de nossa (in)segurança pública e nunca chegam aos jornais). A prova dee que ele realmente ocorreu é a narrativa por si mesma. Se você só acredita naquilo que saiu nos jornais, azar o seu. Acredite se quiser.

“Operação da Polícia Militar no Morro do Timbau, no Complexo de favelas da Maré acaba com feira e planta o terror entre feirantes e moradores”

“Na manhã dessa terça-feira, dia 1 de fevereiro de 2011, um blindado da Polícia Militar subiu o Morro do Timbau numa operação equivocada e aparentemente sem visar em momento algum garantia de segurança para as pessoas. O blindado subiu até a Praça mais alta da comunidade e nesta permaneceu até se movimentar e numa manobra desastrada derrubar, um muro.

Houve uma primeira troca de tiros com traficantes e em sua descida o veículo bateu na frente de um carro estacionado no local. Em vez de descer pelo caminho que subiu, o Policiais resolveram descer com o blindado pelo lado da Rua Nova Jerusalém, na qual, todas as terças há anos acontece a feira semanal da comunidade.

Na descida houve novamente uma troca de tiros e moradores e feirantes se esconderam dentro de casas e becos para se protegerem das balas. Mas o blindado desceu rumo à feira e todos tiveram que voltar a rua para ver o que estava acontecendo e tomar pé da situação. Mas os policiais não deram tempo para os feirantes pudessem tirar suas barracas. Os policiais deram ordem para os feirantes retirarem o resto de suas bancas e abrirem o caminho e logo em seguida o blindado abriu fogo em direção aos traficantes localizados em becos para cima do morro.

Assim, a Polícia, em vez de parar o blindado e proteger a Feira e a população, colocou a vida de feirantes e moradores em risco expondo-os no meio do fogo cruzado, coagidos tendo que obedecer às ordens violentas da Polícia de abrir o caminho e com a tentativa de salvar sua mercadoria.

Mas não tiveram a menor chance, pois o blindado avançou desabaladamente, passando por cima de todas as barracas e bancas da feira, derrubando produtos e equipamentos dos feirantes.

Estima-se que o total do prejuízo para os comerciantes esteja em torno de no mínimo R$ 3.000,00. Além de derrubar um muro e quatro carros terem sido perfurados por balas na lataria e nas janelas. Por muita sorte ninguém ficou ferido.

Após o caos deixado pelos Policiais, foram registrados diversos depoimentos dos feirantes”:

“_Sem o tráfico a polícia passa fome, por isso que fizeram isso, não ganharam o dinheiro. Era o que queriam com na operação !”_

“_Falaram se a gente não tirasse eles iam passar por cima, mas eles não deram tempo, o tiro tava comendo, o caveirão entrou e passou levando tudo. Meu prejuizo é de R$ 300,00!_”

“_Simplesmente eles vieram levando tudo, levou barraca ,levou lona, só não perdi mais porque vi eles chegando e tentei tirar o que pude, tenho prejuizo de R$120,00 contando com o meu dia de trabalho e sem contar com o perigo que a gente correu na hora, a gente tirando as coisa e eles atirando!_”

“_30 homens da polícia armados de fuzil e pistola e mais ou menos 50 feirantes com laranjas, verduras e cebola. Isso é um absurdo, perdi de R$ 80 a R$ 100, não só trabalho como também moro aqui, não aguento mais isso. Tem 3 meses que não venho trabalhar e quando chego é isso que acontece_”

“_ Olha minha filha foi bala para todos os lados, eles comecaram atirando estou tremendo até agora, aqui na minha barraca destruiu tudo você pode vê meu prejuizo perdi R$1.500 meu som esta todo quebrado, olha para o homem da barraca de remédios, o da barraca das verduras todos ficaram no prejuízo_”

“_Eu não perdi muita coisa, mas o pior é a falta de respeito, o perigo que todos passamos, toda semana é isso, o horário que a comunidade tá na rua isso acontece_”

Esse texto foi escrito por um grupo de pessoas que estavam no local na hora dos acontecimentos, as fotos tiradas por feirantes. Por questões de segurança todos que contribuíam com esse relato terão a garantia do anonimato.

Botswana Music – Ronnie on Mahlathini – Música de homem força da Natureza


Ronnie do Botswana e seu violão incrível

Ronnie do Botswana e seu violão incrível

Você sabia o nome deste homem? Nem eu (na verdade estou corrigindo este post agora, pois eu e todo mundo, iludidos pelo turbante pensávamos até que ele fosse uma mulher). Já sei: É Ronnie o nome dele. Catei agora no Google (alertado pelo amigo Lucio Branco) e, aparentemente, a pessoa que gravou o vídeo não achou relevante nos dizer o nome dele naquele momento.

E o que mais incrível: Acabo de saber, não só que ele é se chama Ronnie como achei vários outros vídeos dele e de outros músicos que, assim como ele são cultores do que parece ser uma técnica violinística típica da região (Botswana) que pode até ter nascido – vai saber? – da adptação da técnica de algum instrumento musical tradicional.

Apaga todo o resto, o que se viu/ouviu antes: Completamente absurdo isto aí que ele faz. Lembrei no ato do Richie Havens, aquele negão sem dentes de Woodstock 69, mas…coitado do Richie sem chance para ele. Lembrei também do Stanley Jordan, mas…chega perto. Fica faltando alguma coisa para chegar aos pés dele. O swing, a dinâmica…Que groove é este, mermão? Tem jeito não.  O dono da técnica dos dois é ele que faz a banda inteira escorrer de suas mãos como um milagre da multiplicaçao dos pães, dos peixes, do vinho.

Nunca vi…Sei lá. Vai saber como aparece algo assim? Enfim. Uma força da natureza cujo nome a gente, agora que sabe, precisa revelar (feito o Bola Sete).

Não pode ser. Assim é covardia, sô! E o curioso é que a técnica dele já vem com efeitos de mixagem, ‘chorus’, ‘reverber’, ‘crossover’, tudo ali à palo seco mesmo.

Atrás dele um orgulhoso colega ou discípulo (que aparece em outro vídeo tocando no mesmo estilo) E ele, lá para as tantas, desarmando aquele seu orgulhoso sorriso tímido, dá uma olhada protetora para trás, instantanea, só para conferir se ele, o discípulo, ainda está ali, bem, quietinho.

Ele, este Ronnie com jeito de músico tímido é uma força da natureza.

O Racismo orgulhoso de Monteiro Lobato


(Extraído de Wikipédia)

O Presidente Negro e outras histórias

Ayrton, desastrado cobrador da empresa Sá, Pato & Cia. sofre um acidente automobilístico na região de Nova Friburgo, no atual estado do Rio de Janeiro, e é resgatado pelo recluso professor Benson, que o leva para sua residência. Ali, ele trava contato com a grande invenção de Benson, o “porviroscópio”, um dispositivo que permite ver o futuro, e com Miss Jane, a bela e racional filha do cientista.

Através de Jane, Ayrton é posto a par da disputa pela Casa Branca nos Estados Unidos da América do ano 2228, onde a divisão do eleitorado branco entre homens (que querem reeleger o presidente Kerlog) e mulheres (que pretendem eleger a feminista Evelyn Astor), transforma o candidato negro, Jim Roy, no 88° presidente dos EUA.

A alegria dos negros, contudo, dura pouco. Incapazes de aceitar esportivamente a derrota, os brancos (agora novamente unidos) elaboram uma “solução final” para o “problema negro”, muito mais sutil e eficaz do que aquela elaborada por Hitler para os judeus, pouco mais de uma década e meia após o lançamento do livro de Lobato.

O choque das raças

“Gestado” (segundo a própria expressão de Lobato) em apenas três semanas em meados de 1926, “O Choque das Raças” foi escrito e pensado por seu autor como um cartão de visitas ao mercado editorial estadunidense, um cartão que lhe daria em troca “um saco de dólares”[1]. Lobato havia sido nomeado adido comercial no consulado brasileiro em Nova York, e antes de assumir o posto, conforme explicou em carta ao amigo Godofredo Rangel, teve uma “idéia-mãe. Um romance americano isto é, editável nos Estados Unidos(…). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco“.[2]

“O Choque das Raças” reunia, portanto, uma “visão do futuro” nos moldes das obras de crítica social do escritor britânico H. G. Wells e as idéias sobre superioridade racial, degeneração e eugenia defendidas pelo psicólogo e físico amador francês Gustave Le Bon, cujos livros L’Homme et les Sociètes, Evolução da Força e Evolução da Matéria Lobato conhecia de longa data[3]. A obra faz ainda uma rápida referência ao “perigo amarelo”, prevendo que por volta de 3527 os “mongóis” teriam substituído a raça branca na Europa.

Longe, contudo, de configurar uma estratégia de marketing isolada, pensada apenas para conquistar o público estadunidense e um “saco de dólares”, as idéias racistas defendidas por Lobato em sua obra o acompanhavam desde pelo menos 1900, quando leu L’Homme et les Sociètes (1881) de Le Bon, alentada obra em dois volumes onde o autor afirma que os seres humanos foram criados desigualmente, que a miscigenação é um fator de degeneração racial e que as mulheres, brancas ou negras, são inferiores até mesmo quando comparadas aos homens de “raças inferiores“.

Após a leitura, Lobato diz ter sentido-se “transformado em um montão de ruínas”[4], tamanho foi o abalo sofrido por sua “catolicidade caseira”[4]. Embora tenha tentado descobrir uma alternativa à “teoria científica” da desigualdade das raças, através da leitura de Comte e Spencer, Lobato parece ter deixado convencer-se pelas idéias de Le Bon. Nos anos seguintes, livros dos poligenistas Hyppolite Taine e Ernest Renan, figuras influentes no racialismo do século XIX, tornaram-se importantes fontes de referência para o escritor, que inclusive recomendava sua leitura aos amigos.

Numa carta de 1905 endereçada ao amigo Tito, Lobato declara ser impossível “civilizar” e “corrigir” o povo brasileiro, “devido ao fatalismo das inclinações, dos pendores, herdados com o sangue e depurados pelo meio”. Ele conclui que apenas uma injeção de “sangue da raça mais superior” (ou seja, a emigração oriunda de países europeus) asseguraria o futuro do país. Nesta mesma carta, ele chama de “patriota” ao brasileiro que se casasse com “italiana ou alemã”[5].

Em 1908, talvez ecoando uma célebre declaração do Conde de Gobineau (que certa feita havia chamado os cariocas de “macacos”), Lobato confidenciou ao amigo Godofredo Rangel que a miscigenação criara uma classe de “corcundas de Notre Dame” nos subúrbios do Rio de Janeiro, declaração que trazia implícita uma crítica aos intelectuais da época, segundo os quais haveria um “padrão de beleza grega” entre a população mulata da cidade. Lobato advoga ainda a adoção de um esquema de segregação racial para o Brasil, nos moldes do então vigente nos EUA e a imigração de europeus para consertar a “anti-Grécia” carioca.[6]

A partir de 1914, Lobato começou a publicar suas idéias sobre as “raças” brasileiras em livros e na grande imprensa, basicamente opondo o caboclo, “espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela”[7](e que mais tarde seria simbolizado pelo personagem Jeca Tatu), ao mulato, que, embora também fosse mestiço, possuía certa “superioridade racial” graças ao “sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos”[8]

Não deixa de ser irônico que, justamente depois de destruir publicamente a imagem do caboclo, Lobato tenha sido obrigado a passar a fazer apologia do mesmo, após a reação de importantes segmentos da elite brasileira quando da republicação de “Velha Praga” no livro de contos “Urupês“, em 1918. Acusado de vilipendiar o povo brasileiro, Lobato embarcou nas idéias higienistas então em voga, chegando a afirmar em carta que estava convencido de que “o Jeca Tatu é a única coisa que presta neste país”[2].

O problema do Jeca deixara de ser sua origem mestiça, e sim um problema sanitário que seria resolvido com o enfrentamento das endemias rurais. Foi Cornélio Pires, profundo conhecedor do caipira paulista que mostrou, na sua obra “Conversas ao pé do Fogo”, que Lobato só conhecera o caipira caboclo e o generalizando como se todos os caipiras fossem como o caboclo. Como diria Lobato em O Problema Vital (1919), “O Jeca não é assim, está assim”.

Todavia, como bem o prova “O Presidente Negro”, Lobato não havia renunciado inteiramente às suas antigas influências racistas. Ou, o que pode dar uma idéia do seu oportunismo, reciclou-as imaginando que assim seria mais fácil angariar a simpatia (e os dólares) do mercado editorial estadunidense.

Livros e uísque

Lobato tinha planos ambiciosos para sua estadia nos Estados Unidos (onde residiu por quatro anos). Um deles era a criação da Tupy Publishing Company, uma editora que transformaria “editores e editados” em milionários. Precedido em sua chegada a Nova York por um telegrama da agência noticiosa United Press que citava O Choque das Raças e até falava de uma “provável edição inglesa”[2], Lobato especulava em dezembro de 1926: “Minhas esperanças estão todas na América. Mas o ‘Choque’ só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida“.[1]

Mas, ao menos no tocante aos seus planos literários e editoriais, a experiência estadunidense revelou-se um imenso fiasco. Em setembro de 1927, depois de ouvir inúmeras negativas, Lobato escreveu para Godrofredo Rangel com uma sinceridade chocante: Meu romance não encontra editor. Falhou a Tupy Company. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros. Os originais estão com o Isaac Goldberg para ver se há arranjo. Adeus, Tupy Company![2]

A reação indignada dos “cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas” que haviam recusado-se a publicar o “ovo de escândalo”, conforme confidenciou um mês depois ao amigo Gastão Cruls, não abalou a confiança de Lobato. Segundo ele, um sexto editor havia entusiasmado-se com a obra e queria inclusive que ele ampliasse a “matéria de exasperação” (leia-se “incitamento ao ódio”) para forçar uma proibição policial. Fazendo uma alusão bem-humorada a Lei Seca então vigente, pelas contas de Lobato isto valeria “um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra ‘bootlegued’ com o ‘whisky’ e outras implicâncias dos puritanos”[1].

Por seus precedentes, o impacto negativo não deveria ter sido uma grande surpresa. O retrato sombrio pintado por Lobato de uma sociedade estadunidense segregacionista, era tão acintoso e aético que mesmo seus amigos, como Godofredo Rangel e o sanitarista Artur Neiva, que haviam lido a obra ainda no Brasil, sequer responderam aos pedidos de sugestões feitos por ele. De um ponto de vista político e ideológico, o comprometimento com o O Choque teria sido demasiado. Todavia, ao retornar definitivamente ao Brasil em 1931, confrontado com a questão de se não teria carregado demais nas tintas, Lobato declarou: “não tenho de mudar nada em ‘O Presidente Negro’. A América que eu retratei em meu livro é exatamente a mesma América que eu encontrei lá”.[9]

Um exercício de futurologia

Num ensaio publicado por Nola Kortner Alex em março de 1996[10], discutiu-se o caráter “presciente” da obra de Lobato, no momento em que o general negro Colin Powell surgia como um possível pré-candidato à presidência dos Estados Unidos da América. A conclusão de Alex é que apesar do desfecho grotesco e do tom pessimista que permeia a obra, “O Presidente Negro” parece menos distante da realidade em fins do século XX do que no início dele. Alex cita como provas disso os massacres tribais em Ruanda, a “limpeza étnica” na Bósnia, a construção de um muro separando os Estados Unidos do México e até mesmo o fim de políticas afirmativas e de ajuda às mães adolescentes.

Alex, por sua vez, conclui dizendo que “para o estudante de política americana bem como para o estudante de literatura e cultura brasileiras, todavia, uma leitura atenta do romance presciente de Monteiro Lobato delineia uma situação que faz com que o leitor recue da idéia de um homem negro como candidato para o mais alto posto nos Estados Unidos”[10].

Uma sugestão de leitura parecida é, de alguma forma, retomada no prefácio de Marcello Sacco à sua tradução do romance em italiano, onde se afirma que o texto de Lobato, para lá das intenções reais do autor empírico, pode ser lido como um paradoxo swiftiano ou uma distopia ao estilo de Huxley e Orwell[11].

Em 2008, a coincidência de dois pré-candidatos, um negro (Barack Obama) e uma mulher branca (Hillary Clinton) disputando a Casa Branca contra um candidato branco, despertou novamente a atenção da mídia brasileira para “O Presidente Negro”. O livro ganhou nova edição da Editora Globo e, em algumas resenhas foi citado que Lobato teria previsto o surgimento da internet, graças a um diálogo de Ayrton com Miss Jane sobre o ano de 2228:

– Ainda havia jornais neste tempo?
– Sim, mas jornais nada relembrativos dos dias de hoje. Eram radiados e impressos em caracteres luminosos num quadro mural existente em todas casas.[12]

O autor também fala do “teletrabalho“: “em vez de ir todos os dias o empregado para o escritorio e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritorio. Em suma: trabalhar-se-á á distancia“.[12]

Outra das previsões de Lobato (a expansão crescente da raça amarela) já era, na verdade, uma preocupação dos europeus ao tempo em que o livro foi escrito. Tratava-se apenas de reconhecer, conforme diz Miss Jane, que o amarelo vencerá o branco europeu por dois motivos muito simples: come menos e prolifera mais.[12]

Finalmente, a idéia central por trás da divisão do eleitorado branco em homens e mulheres parece ter surgido em Lobato como um último resquício de suas leituras de Le Bon. Em 2228, Miss Elvin, mentora da candidata Evelyn Astor, publica um livro denominado Simbiose Desmascarada, onde denuncia que a mulher não era a “fêmea natural do homem”, mas que este havia “repudiado” a sua fêmea original em época remota e que o “pobre animal” (palavras de Lobato) havia se extinguido. As mulheres seriam as fêmeas de um povo anfíbio, cujos machos, naturalmente, foram massacrados pelos machos humanos numa espécie de versão pré-histórica do “Rapto das Sabinas“.

Referências

  1. a b c Cartas escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1959. Vol. 1, p. 189.
  2. a b c d A barca de Gleyre. Quarenta anos de correspondência literária entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel. São Paulo: Brasiliense, 1950. Literatura Geral. Obras Completas, XXII, 2 v.
  3. FRAIZ, P. O racismo em Monteiro Lobato: um estudo de O choque das raças ou O presidente negro in “Pensar e Dizer”, Rio de Janeiro, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1991:287.
  4. a b José Bento Monteiro Lobato. Conferências, Artigos e Crônicas. São Paulo: Brasiliense, 1964, p. 221.
  5. Cartas Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1964: 75-77.
  6. A barca de Gleyre. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133.
  7. LOBATO, José Bento Monteiro. Velha Praga in Urupês, 1918. Publicado originalmente in “O Estado de São Paulo“, 1914.
  8. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1971. p.231-256.
  9. LOBATO, Monteiro. O Presidente Negro ou O Choque das Raças: Romance Americano do Ano 2228. São Paulo: Brasiliense, 1964, p. viii.
  10. a b ALEX, Nola Kortner. Prescient Science Fiction: Monteiro Lobato’s “O Presidente Negro” after 70 Years. Annual Joint Meetings of the Popular Culture Association/American Culture Association. Las Vegas, 25-28 de março de 1996.
  11. Lobato, Monteiro. Il presidente nero, edizioni Controluce, Nardò 2008
  12. a b c LOBATO, Monteiro. O Presidente Negro. São Paulo: Brasiliense, 1979 (13ª edição).

Ô ‘Escurinho’ Ziraldo… que merda é essa?


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Camisetas Ziraldo Fotocolagem de Spírito Santo

Eureca! Gilberto Freire é Flicts.

Escurinho  e direitinho como é (seria o sol de Caratinga?) o festejado cartunista Ziraldo Alves Pinto devia estar se achando um magnânimo caucasiano quando desenhou a camiseta deste bloco aí de cima , se declarando numa nota, franco defensor da tese do jornalista neo-racista Ali Kamel que prega que nós, os brasileiros “Não somos racistas”.

(O desenho do Ziraldo é o de baixo, o de cima é uma traquinagem minha mesmo)

“Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista” (Ziraldo, explicando o conceito da camiseta)

Ora, nada mais irritantemente racista do que este sofisma cínico. Se não fôssemos racistas – ou se, pelo menos não houvesse alguma controvérsia a respeito – não seria necessário ficar negando isto assim, tão insistentemente, a toda hora com estas já tortas e roucas trombetas de Apipucos.

(Ou bem não se sabe o que é racismo ou não se tem espelho em casa: das duas uma)

Onde há fumaça (pode até ser um prosaico churrasco) e cheiro de queimado – óbvio – há fogo. A melhor solução é apagá-lo, controlá-lo e não fingir que o incêndio – ou o churrasco – é na casa do vizinho e não nos diz respeito.

Parece conversa de gente temerosa de que, ao perder os anéis o populacho em fúria lhes leve também os dedos. Como aristocracia com culpa no cartório ouvindo a ‘Marselhesa’ tocando no rádio ao longe e já de pernas bambas, diante dos pesadelos dando o trailer estrelado pela lâmina fria da guilhotina.

Calma gente! Calma Ziraldo! Na boa.

Não é, mas se fosse para nós, os supostamente ‘poucos‘ negros ressentidos deste país, sairmos por aí de catanas em riste, cobrando os nossos históricos direitos, na marra, você Ziraldo, escurinho como é, entraria nas cotas e por certo escaparia.

…Mas isto já é outra história (é que me esqueci até que já é quase Carnaval)

Die farbe von Herr Müllman

Está bem vou fazer de conta então que sou um destes gringos recém chegados para o ‘tríduo momesco’ (o enredo é bem batido e recorrente, vou logo avisando. Até eu, carnavalesco apenas de plantão, devo confessar.)

O gringo (vamos chamá-lo de Herr Müllman, está bem ?) desembarca e dá logo de cara com  com uma camisa destas aí, do bloco ‘Que Merda é Esta’ (e ele mesmo, surpreso se pergunta):

_”Was ist diese cheise?”

O que ele deduz da imagem? Ah! É claro que ele tira a conclusão mais simples deste mundo (e nisto o Ziraldo é fera, tremendo comunicador): Um coroa branco, sessentão, de terno e gravata, abraçado à uma jovem negra…desculpem, ‘mulata’… seminua significa o que? Que o Brasil é a terra da mais pura sacanagem, claro! Do Turismo Sexual mais deslavado e que o nosso mètier cultural mais especializado é a prostituição, sendo que neste particular as nossas negras…desculpem, as nossas ‘mulatas’…são as mais supimpas prostitutas.

Peguei pesado? Patrulhei o cara? Ta bom. Me dêem então uma tradução menos semiótica, mais inofensiva para o prosaico desenho dele.

E saibam que não me custa nada ponderar minhas colocações: Mark Twain, por exemplo, para mim não era racista coisíssima nenhuma quando escrevia nigger em seus romances. Quem chamava os negros da América assim, cheios de ódio eram os racistas do Sul. Mark Twain, minha gente – se liga, rapaziada! – criava personagens, nos contava com muita verve e picardia como eram as coisas naqueles tempos ainda de escravidão. Não se pode condenar o mensageiro pelo lado detestável da má notícia. Vivo repetindo isto por aí.

Lembrem-se: O Brasil é que era _ e é racista _ o Picapau do Sítio do Lobato não era branco nem negro: era amarelo.

É duro repetir tudo de novo, malhar o ferro frio da ignorância, da preguiça mental de gente digna da sapiência rala de verdadeiros Jecatatus.

Daí vem uns e outros – não se sabe se ingênuos ou maliciosos – naturalmente macaqueando o caso do Mark Twain – dizendo: _”Monteiro Lobato era racista!” _”Monteiro Lobato era racista!” só porque o escritor, de algum modo símbolo de minha – e talvez até da sua – infância, da infância de tanta gente enfim, colocou na boca de um personagem seu a palavra ‘Macaca’ (se referindo à Tia Anastácia).

Monteiro Lobato já morreu. Quem manda aqui sou eu… ou seja, nós todos, livres para lê-lo ou não lê-lo ao nosso bel prazer.

Menos detratores! Menos aprendizes de censores! É do que a literatura – e a cultura – brasileira mais precisa. Quem sabe aí que Monteiro Lobato, em certa época, foi o único admirador e incentivador do grande escritor negro – e anti-racista – Lima Barreto? Lobato se tornou o editor de Lima, se transformando no principal responsável pela nossa posteridade conhecer a vigorosa obra de um dos nossos maiores romancistas.

(E aqui num parentese essencial Ana Maria Gonçalves meio que me repreende respondendo a um comentário meu a um texto bem bacana que ela fez – e super lido na rede –  sobre o mesmo assunto- leia no link– ) Bem, a controvérsia é tão instigante que, se você leu a Ana Maria antes de ler este post aqui,  me fará a gentileza de ler o comentário que fiz lá,  respondendo ao pertinente questionamento dela)

“Ana,

Nem sei se você vai chegar a ler este comentário de tantos que este excelente post seu gerou. O fato é que vim aqui após um dos seus leitores ler um post meu sobre este mesmo assunto e me linkar com o seu.

Brilhante. Confesso que fiquei bastante tocado com as cartas de Lobato e o seu racismo orgulhoso. Receio até que o seu leitor me tenha linkado aqui por conta da defesa que fiz do direito de Monteiro Lobato de ter aquelas odiosas opiniões racistas que tinha, defesa a qual, mesmo profundamente tocado pelas suas informações eu reafirmo.

É que não considero seguro promover nenhum tipo de censura oficial, formal, institucional de qualquer opinião, seja ela qual for. São muitos os fatores envolvidos neste tipo de decisão e as informações odiosas contidas nos livros de Lobato (e não estou falando das crianças que o leram ou lerão) precisam existir também, a elas precisamos ter amplo acesso também para formarmos juízo de valor, inclusive, contra o veneno contido nelas.

Não concordaria, por exemplo que o desenho não menos odioso da camiseta do Ziraldo fosse pribido pela censura (como a palavra ‘merda’ contida nela foi). Do mesmo modo acho justamente condenável o que ele e o pessaol do Pasquim fizeram censurando e cometendo o assassinato cultural do Simonal.

O que eu gostaria mesmo é que as crianças do Brasil se vissem livres das eventualmente perniciosas idéias racistas contidas na obra de Monteiro Lobato, por conta da consciencia de todos nós, educadores e não educadores, na crença de que ele precisa ser lido, contextualizado e criticado, inserido enfim num processo educacional no qual todos possam aprender a ser livres para discernir, até poderem decidir se serão racistas ou não, progressistas ou não, segundo a sua própria consciencia.

Acho que a luta certa esta um pouco além de apenas suprimir o outro por algum tipo de força coercitiva.

Abs

E cá entre nós: mesmo sem saber muito sobre estas coisas, qual é o problema se relativizar isto tudo, pessoal? Pesar direito as sutilezas sórdidas de nosso racismo falsamente cordial? O simplismo, a impropriedade deste conceito tacanho de racismo que professam muitos negros e simpatizantes da luta anti-racista no Brasil, com esta meticulosa cata de ‘pelo em ovo’, este eterno buscar de ‘chifre em cabeça de cavalo’ é que acoberta, autoriza que o verdadeiro racismo viceje e prolifere (como este venenoso, dissimulado e virulento racismo direitista de Ali Kamel & Cia.)

Racismo não é uma bobagem. Racismo não é simples nem residual no Brasil. É câncer.

Repararam bem como o veneno pestilento pegou até o suposto ‘gente boa’ do Ziraldo, ‘Tio’ do ‘Pasquim’, ‘pai’ do ‘Pererê’, do ‘Tininim’, falando estas bobagens todas e desenhando estas ofensas tolas e ignorantes por aí, como se fosse a coisa mais inocente deste mundo?

Reparem também _ ô boca, a minha! – a curiosa composição social – étnica, por suposto – do bloco ‘Que Merda é esta?” desfilando por aí esta mensagem racista tão bem dissimulada. Bloco de maioria branca, pessoal. Vou logo dizendo na lata. Um destes blocos ‘de branco’ que pululando por aí, mostram para quem quiser ver o quanto a nossa sociedade ainda está dividida…até mesmo no Carnaval.

Alto lá! Antes de me tachar de ‘racista ao contrário’ (outro sofisma dos neo-racistas) entendam melhor o que digo.

Afinal, o Carnaval é sim democrático. Brancos e negros têm o mesmo direito de brincar nos blocos, patatiti patatá, mas…me expliquem uma coisinha só: como conseguem separar assim tão bem separadinhos tantos brancos num, dois, três, dezenas de blocos na zona sul do Rio? Tá… eu sei…tem um pretinho ou outro por ali, geralmente na bateria, mas qual é ‘véio’? Como conseguem fazer isto? Blocos de maioria esmagadora branca. Blocos de ‘maurícios’ (como disse um irônico amigo meu). Como fazem isto? Carnaval partido assim pode?

Bem sei. São perguntas que se quer calar.

Como estas coisas não são de hoje, me lembrei agora mesmo, no ato, de uma festa do Bonfim em Salvador, Bahia, da qual participei ali por volta dos anos 80…do século passado. Conhecemos na véspera uma rapaziada num botequim da Ladeira da Preguiça. Eram batuqueiros de caminhões. Altos papos, aquela confraternização baiano-carioca boa. Batuqueiros irmãos, por se assim dizer. Nós batuqueiros turistas, sem nada a perder. Não deu outra: Fomos convidados a subir nos caminhões deles na manhã seguinte.

Corremos o cortejo e fomos achando os amigos por ali. Eufóricos nos mandaram subir. Eufóricos subimos. Bem, reparamos que eles estavam atrás de uma corda, mas pensamos, irresponsavelmente:

“_E daí?”

Não houve tempo de dar mais do que umas poucas baquetadas. Uma mal encarada moça fina, nariguda como uma Maria Betânia mais clarinha, toda de branco, com empáfia evidente nos apontou o outro lado da corda.

“_ Como assim?!”_ pensamos de novo, cariocamente.

_”Ali! Ali é que é o lugar de vocês!”_ disse ela sem muita cerimônia.

“_ Atrás da corda?! Porque?! Que pachorra! Somos convidados!”_ pensamos.

(Devíamos ter perguntado a ela: “_Que merda é esta?”)

Descemos revoltados. Entramos em outro caminhão de outros amigos. De novo expulsos. Para encurtar a história, eu e Samuka, meu parceiro, fomos expulsos de três caminhões. No último, antes de descer, só de raiva, chegamos a afrontar uns fortões, maridos, noivos ou namorados das ‘rainhas brancas’ dos caminhões do Bomfim.

Não vi axé nenhum naquilo não.

Exagerei? Viajei, indo até na Bahia? Que nada! Se eu fosse escrever mesmo o que pensei quando vi o desenho do Ziraldo este post ia ficar impublicável.

Ziraldo, o equivocado, o redondamente enganado cartunista nacional, no ímpeto de macaquear Kamel, Freire e Monteiro Lobato (e sua simbólica macaca ‘pós colonial’) no fundo no fundo, pensa que o macaco – ou a macaca – é o outro, e que por isto pode ofendê-lo assim, sem mais nem menos e sem culpas.

Pode não.

E calma aí com a alegoria, pessoal! Neste carro alegórico não tem destaques. Macacos, que eu saiba, somos todos nós.

Sem querer ser grosso (mas já sendo) poderia repetir para o Ziraldo uma frase nada meiga que ouvi de uma moçoila branca destas aí quando eu, ainda um adolescente romântico ousei mandar-lhe um bobo galanteio. Disse ela pra mim, reagindo enojada, cheia de ódio:

_” Tu não se enxerga não, seu macaco?”

… Magoei. Jamais esqueci. Não achei aquilo nada Flicts não.

Spírito Santo
Fevereiro 2011

(Leia também o excelente texto  ‘O racismo de Monteiro Lobato‘ de Alex castro)


“Avisar a gente avisa” – Post…sei lá…perto de #10


Milícia de Campo Grande comprou fuzis do Complexo do Alemão

Segundo um agente da Draco, valor de cada arma seria de R$ 40 mil

Marcelo Bastos e Mario Hugo Monken, do R7
| 16/02/2011 às 10h35

A venda de drogas não é a única forma de aproximação dos milicianos de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, com os traficantes. Segundo policiais da Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais), homens ligados à principal liderança dos grupos paramilitares na região teriam comprado fuzis com criminosos do Complexo do Alemão, na zona norte carioca, como revela o chefe de inteligência, Jorge Gerhard.

– Já recebemos informações nesse sentido, sim. Não sabemos a quantidade exata, mas o valor pago por cada fuzil foi R$ 40 mil, parcelado, o que mostra que eles se relacionam. Sabemos também que eles recrutam ex-traficantes para trabalharem como seguranças nas favelas controladas por eles.

Os negócios entre milícia e tráfico foram provados durante uma operação da Draco em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, em dezembro de 2010, quando ligações telefônicas entre o grupo liderado por vereadores da cidade e traficantes do Alemão revelaram a negociação de armas.

Há alguns anos, no entanto, os milicianos do maior grupo da zona norte do Rio invadiram o morro do Dezoito, em Quitino, que era dominado pela mesma facção criminosa que dominava o Alemão. Em seguida, os paramilitares venderam a favela para o maior rival daquele grupo, em uma negociação estimada pela Draco em R$ 500 mil.

Gerhard disse acreditar que, em um futuro breve, a união entre os dois lados será intensificada e que os milicianos passarão a vender drogas com mais frequência. Assim, a única diferença entre milícia e tráfico será a presença de alguns agentes do Estado no controle dos negócios, como, políticos, policiais civis e militares, bombeiros e agentes penitenciários.

Recentemente, surgiram rumores de que o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar teria estabelecido uma aliança com milicianos presos na penitenciária federal de Campo Grande (MS). A suspeita surgiu após a apreensão de uma carta em que supostos membros de sua quadrilha acenam para o sequestro de autoridades e religiosos que só seriam libertados se a cúpula da milícia fosse solta.

Lucro e serviços explorados

Para a polícia do Rio, é difícil estimar os lucros obtidos pelos paramilitares. A única certeza é de que a cifra é milionária. Eles controlam serviços como centrais clandestinas de TV por assinatura, de internet banda larga ilegal, venda de botijões de gás, sobre a venda de imóveis, grilagem de terra e até sobre velórios, por meio de acordos com funerárias, além das taxas de segurança cobrada de comerciantes e moradores e controle sobre o transporte alternativo.

As mensalidades com gatos de TV a cabo e internet custam entre R$ 20 e R$ 30. Sobre os botijões de gás oriundos de depósitos clandestinos, os milicianos faturam de R$ 5 a R$ 7 por cada unidade vendida. Em áreas públicas invadidas, eles constroem imóveis e vendem como se fosse uma transação legal. Motoristas de Kombis e vans pagam mensalidades que variam de acordo com o faturamento.

Desarticulação

Apesar de as operações policiais tentarem desarticular as milícias, os paramilitares se rearticulam em pouco tempo e as atividades ilegais e lucrativas não são afetadas. O combate muda apenas o modo de atuação das milícias, que passam a agir de maneira mais discreta.

Na última sexta-feira (11), a PF (Polícia Federal) deflagrou a operação Guilhotina que resultou na prisão de 38 pessoas, entre elas 20 PMs e dez policiais civis. Alguns destes policiais eram ligados à milícia que atua nas comunidades da Roquete Pinto, Borgauto e praia de Ramos, na zona norte.

Spírito Santo – Curriculo resenha


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Pose do artista vistante da Uerj(Fotos de Francisco Moreira da Costa)

Spírito Santo & Musikfabrik:
Resenha

“Tambores em movimento”

Por Samuel Araújo
Diretor do Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ

Intelectual, ser político, artista, artesão, ponte antropofágica de fluxos incessantes entre África e diáspora, demiurgo no país dos bruzundangas, estas e tantas facetas e tais caberiam no ser humano aqui homenageado, também capaz do papo mais saboroso e suingado à mesa de bar, na Lapa de mitos e heróis, famosos e anônimos.

Do intelectual, que se autotraduz aos interlocutores por meio de linguagem polimorfa, abrangendo sons, gestos e escritas interpenetrantes, transborda a inquietude, a pesquisa densa e infinda dos mistérios dessa vida tão simultaneamente festiva quanto fúnebre, cantada em vissungos por trabalhadores escravos espalhados pelas áreas de garimpo das Minas Gerais, sob servidão forçada e iniqüidades que perduram mesmo após substituírem-se os grilhões de ferro e madeira por grilhões ideológicos de maior ou menor sutileza, até aqui, de estúpida eficácia.

Do ser político, a fibra de quem não se dobra ante o autoritarismo e violência dos verdugos de plantão, passando a outras gerações o exemplo de ser possível resistir ao mais aparentemente irresistível furor opressivo cultivando sensível e dignamente a semente mais tenra da verdade.

Mas há também o artista ou algo além do mesmo, pois fabrica seus instrumentos de trabalho, múltiplos tambores, xilofones, raspadores, arcos musicais, campânulas, laminofones que, em mãos de populações africanas escravizadas, aportaram ao Novo Mundo, e especificamente ao Brasil, povoando as Américas com sonoridades, ritmos e escalas que, explicitamente ou não, ainda podem ser ouvidos da terra batida em regiões remotas do interior do país aos estúdios de alta tecnologia e salas de espetáculo urbanas.

Estranho mistério este, que, aliás, só mesmo um Spírito Santo talvez pudesse nos desvendar: se os seus produtos sonoros, escalares e rítmicos ainda são perceptíveis hoje de modo indireto, em modos de entoação vocal, traços de afinação diferenciada da que se padronizou no Ocidente ou polifonias percussivas de tão clara ligação com modelos africanos, por que a grande variedade de instrumentos de procedência africana aqui chegados – por exemplo, os laminofones, como o registrado, entre outros artistas, pelo tenente inglês Henry Chamberlain, tocado por escravo, em pé e com cesto de lenha na cabeça, no Largo da Glória, Rio de Janeiro, em meados do século XIX, ou o instrumento de corda friccionada com arco registrado por Debret também no Rio oitocentista – teriam praticamente desaparecido do cotidiano brasileiro, com as raras exceções mais conhecidas pelos brasileiros contemporâneos como agogôs, atabaques ou cuícas?

Desse patrimônio, fustigado pela mesquinharia e ódio, surge imponente a cultura dos “africanos das Américas”, como diria o eminente músico senegalês Ali Farka Touré em recente documentário de Martin Scorcese sobre o blues.

Equivalente a um atestado de esquizofrenia social das elites brancas e europeizadas, plasmada por séculos de políticas de apartheid em alguns casos, de assimilação forçada em outros, o mesmo certamente se poderia dizer do samba – corrido, duro, de crioula, de quadra ou de enredo – do Recôncavo baiano às escolas de samba cariocas ou plantações de café paulista, samba que, filtrado e elevado a ícone no bairro de Padre Miguel, desperta em Spírito Santo, desde a infância, a inquietação vital em torno de seus tambores e sonoridades signos de uma história de resistência férrea ainda em curso.

A busca de referências familiares em atividade musical o leva inicialmente a identificar como laço mais próximo um tio, mestre de banda em Jerônimo Monteiro, no, imaginem, Espírito Santo. E é desse inquietar que se inicia um trajeto na vida, com escolhas determinadas, nem sempre fáceis, entre os imperativos da sobrevivência e, do lado quase sempre oposto, da expressão artística urgente, do estudo da diáspora africana em sua complexidade, do ato político certeiro e inegociável.

Primeiro passo? Compor sem apoio em instrumento melódico ou harmônico ou, como diria Guerra-Peixe, nosso mestre comum, em “tonalidade de tambores”, uma distinção infinitamente mais sutil de diferenciação entre sons que as possibilitadas pelo assim chamado sistema tonal europeu, presente de modo refinadamente estruturado em todas as manifestações percussivas africanas. Assim, sem sequer tocar violão, como lembra o próprio Spírito Santo, recebe aos 19 anos, o prêmio de melhor intérprete e a terceira colocação no 2º Festival Estudantil de Música, em 1968, por sua composição “Havia”.

Daí o impulso para novos passos em música, arregimentando como parceiro de caminhada seu irmão Luiz Antonio, o Lula, que se dedicaria ao cavaquinho, violão e contrabaixo, enquanto Spírito Santo de encarregaria da percussão e, a tempo, também de algum violão. No percurso, será fundamental a participação de ambos em grupo de teatro amador em Marechal Hermes, consolidando simultaneamente o compromisso em destacar a relação intrínseca e iníqua entre condição racial e as questões sociais em sua expressão artística e intelectual.

Início dos anos 70, era de chumbo grosso, assisto um ensaio doméstico do Sarará Miolo no sempre seminal Estácio, grupo vocal-instrumental, formado por cinco jovens, entre eles Spírito Santo e Lula, a interrogar a realidade dos negros e pobres com música vigorosa, embebida de história africana, com incisões de referências urbanas variadas. Impossível resistir à dança, ao movimento. O caminho se revelaria, porém, tortuoso, com querelas e impasses, afastamentos e reaproximações, vida que segue, exigindo, e simultaneamente dificultando, o engajamento do artista algo além do culto narcísico despolitizado.

Nem ainda terminada a turbulenta década, uma nova senda se abre a Spírito Santo pela leitura de O negro e o garimpo em Minas Gerais, clássico de Ayres da Matta Machado Filho sobre a cultura dos afro-descendentes trabalhadores da mineração, com indicações poucas, mas preciosas, sobre a música no contexto em questão. Vissungo, termo em dialeto quimbundo para certo tipo de cantiga associada aos africanos escravizados e seus descendentes, usada no trabalho como refúgio do humano, impulsiona à criação e nomeação de um novo grupo musical, também composto por jovens e talentosos músicos negros.

Inicialmente as referências documentais são limitadas, mas, a partir daí, será sempre ponto fundamental na trajetória do artista a pesquisa profunda e incessante, aliada à criatividade com foco embora sem limites, como arma de ativismo cultural, muito antes e muito além do politicamente correto de hoje, enxergando com clareza a trama perversa entre relações de produção e desigualdades raciais e sociais, não se superando um jamais sem o outro.

O grupo Vissungo se torna, então, passageiro de viagens incessantes entre a cidade do Rio de Janeiro e outros rincões do Sudeste, tendo como foco os muitos amálgamas da diáspora africana em solo brasileiro, os reprocessando em sua música e os levando prioritariamente às áreas suburbanas pobres, com escalas ecumênicas em locais à primeira vista díspares, como centros espíritas ou igrejas pentecostais.

E essa viagem passará ainda pela Europa e mais significativamente pela Áustria, onde há um encontro com referências até então inexploradas sobre a música africana, entre as quais técnicas de construção de instrumentos tradicionais africanos, que, para Spírito Santo, se tornam o cerne de nova exploração criativa e social, a oficina Musikfabrik.

Recebida institucionalmente pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com passagem temporária pela Fundição Progresso, o Musikfabrik tem aberto desde então as portas da criação de instrumentos e sonoridades inusitadas a inúmeros jovens, entre os quais muitos moradores de comunidades pobres do Rio de Janeiro, espalhando a chama de África e sua diáspora em sensibilidades despertas por seus sons em contínuo fluxo e refluxo.

Sem ter a pretensão de abordagem exaustiva de tão multifacetada trajetória, noto apenas, concluindo, que muito chão se cobriu desde os tambores de Padre Miguel, mas certamente ainda muito há de percorrer este Spírito Santo indomável, com membranas retesadas de amor e entrega, únicas forças eficazes na árdua reinvenção poética da epopéia humana.

Brazil Black Rio 1976- Post Total!


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A matéria é clássica (de autoria de Lena Frias no que talvez tenha sido o auge de sua carreira jornalística).

A partir da leitura desta matéria, muita coisa que acontece hoje em dia nas favelas do Rio, toda esta barbárie insana que nos acometeu e que agora, uma mal alinhavada unanimidade pensa ter sido resolvida com a mágica das UPPs, será com certeza melhor entendida.

Para começar, basta linkar – sem preconceitos babacas – a matéria de 1976 com a prisão dos funkeiros proibidões de agora.

Observem que o contexto era a mesma miséria e pobreza extremas do povo, maioria negra da população, pelo menos aqui no Rio de Janeiro. Ou seja, a população era rigorosamente a mesma, vivia em circunstancias semelhantes, mas hoje está engolfada neste inquietante turbilhão de violência, iniquidade e hipocrisia. A coisa ficou muito mais preta, como se pode notar.

É chato dizer, mas dá até saudade daquele tempo em que 15.000 negros comuns podiam se emperequetar e dançar Soul e Funk sem terem que virar bandidos ou alvo de bandidos, ou alvo de tiros da polícia, ou alvo de políticas cínicas e clientelistas, ou alvo enfim de uma exclusão social que já assumiu, há muito tempo a feição de genocídio.

Bons tempos aqueles!

(Na garimpagem facebuqueana agradecimentos à Dil Fonseca e Gabriel Importa e á Carlos Palombini. Fotos da matéria soltas por aí no facebook deste vosso criado)

Black Rio 1976 Total! Curtam aí:

(Clique na imagem do jornal e leia)


 

Pueris Ludus


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Spírito SantoSpírito SantoSpírito SantoSpírito SantoSpírito SantoSpírito SantoSpírito SantoSpírito SantoSpírito Santo

(Meninos órfãos ou  ‘de rua’ do abrigo ‘Airton Senna’ da prefeitura do Rio de Janeiro)

(Instruções de jogo para meninos)

Eu mesmo me caço
me apeno 

eu mesmo rígido júri
me condeno

me enlaço
me algemo

Mas é mágico o laço

Da forca trançada
a laçada desfaço
e escapo. 

Fácil, fácil:
o laço
eu mesmo desembaraço

————-

Cadafalso
parafuso confuso
no furo fundo sem fim
de nada a se fazer
de mim

Cada vez mais
fundo nada a se fazer
por mim

———-

Mas é mágico o laço: 

Da porta trancada
sem mais nem menos
eu mesmo posso

fazer o meu desapego

o meu desapeno

Fácil, fácil:
o braço
desembaraço
e com um aceno
me descondeno

Spírito Santo
Set 2008

O Horror na memória escrava:Limpeza do pântano do Valongo


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Crianças em navio negreiro real (cerca de 1840)

Crianças em navio negreiro real (cerca de 1840)

O Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira

Rio de Janeiro: Uma nova ordem na Cidade

Limpeza do pântano do Valongo

Conjunto documental: Registros de ordens e ofícios expedidos da Polícia aos ministros criminais dos bairros e comarcas da Corte e ministros eclesiásticos
Notação: códice 329, vol. 03
Data-limite: 1815-1817
Título do fundo ou coleção: Polícia da Corte
Código do fundo: ØE
Argumento de pesquisa: cidades, ordem pública
Data do documento: 9 de dezembro de 1815
Local: Rio de Janeiro
Folha(s): –

Ofício expedido ao Juiz do Crime[1] do Bairro da Sé[2]

Nos fundos da rua nova de São Joaquim[3] e fundos das casas novamente edificadas nos cajueiros há um pântano que além de nocivo a saúde pública[4] ainda de mais a mais é cemitério de cadáveres de negros novos[5], pela ambição dos homens de valongo[6] que para ali os lançam a fim de se forrarem a despesa de pagar cemitério.

[Desses] males vem da existência do dito [lago], um a perda do terreno, outro a facilidade de ali se conservarem cadáveres, e imundícies com que se [imputa] o bairro, e dele toda a cidade. Fica Vossa Mercê encarregado de fazer aterrar mandando no distrito de todo o seu bairro declarar ou por editais ou por notificações as obras que se fizerem de concertos que caliço e entulhos para ali se levem e de dias em dias os mande estender a enxada e assim mesmo vendo que terrenos vizinhos se podem tirar a terras para as pôr ali por meio de algumas carroças por [ajustes] cômodos de que me dará parte e logo ao mesmo tempo mande notificar a todos os negociantes que recolherem pretos no Valongo[7] para que nunca mais se atrevam a lançar para ali cadáveres [ilegível] de logo que se conheça que lhes os pertencem por marcas[8] e outras informações pagarem da cadeia trinta mil réis para se gastar no enxugamento, e melhoramento do mesmo charco.

Ordene ao seu escrivão que nos autos que fizer dos corpos ali achados se examinem todas as marcas que tiverem [ilegível] individualmente e por elas, nessas ocasiões, mandará proceder a exame nos livros das cargas dos escravos[9] para descobrir de quem sejam e a que armazéns vieram, de forma que por este meio se possa impor as penas, e que todos conheçam que devem a Polícia[10] este miúdo exame a fim de extinguir este mal de que Vossa Mercê irá dando contas, pois que esta providência é perene, e tem um trato sucessivo para não se dar por acabada sem que todo se enxugue o pântano, e desapareçam os fatos de contravenção: para o que lhe fica esta notada.

Deus Guarde a Vossa Mercê. Rio 9 de dezembro de 1815. = Paulo Fernandes Viana[11] = Senhor Juiz do Crime do Bairro da Sé


[1] Magistrado com competências semelhantes às do juiz de fora, no entanto restritas à esfera criminal. A ele, como aos juízes de fora, cabia realizar devassas sobre crimes acontecidos nos bairros (ou cidades) de sua jurisdição, visando a solucioná-los e a prender os culpados; executar as sentenças estabelecidas pelo intendente geral de Polícia da Corte (no período joanino, Paulo Fernandes Viana); e, especificamente no Brasil, cobrar as décimas, impostos cobrados aos proprietários de prédios urbanos.

Os juízes do crime que atuavam no Brasil seguiam o regimento dos ministros criminais de Lisboa, cujas atribuições eram as mesmas. Com a chegada da Corte, d. João criou mais postos de juiz do crime (alvará de 27 de junho de 1808), principalmente para o Rio de Janeiro, prevendo um incremento da criminalidade em decorrência do brusco e significativo aumento populacional que a cidade sofrera com o desembarque da família real e da Corte, e pretendendo incrementar a “segurança e a tranqüilidade de seus vassalos”. Cada juiz do crime respondia por um bairro ou freguesia, como a da Candelária, da Sé, de São José e de Santa Rita, por exemplo.

[2] O bairro ou freguesia da Sé compreendia a região ao redor da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, e limitava-se com o bairro de São José. Construída em 1570 como cumprimento de uma promessa, a Capela de Nossa Senhora da Expectação e do Parto foi doada pela Câmara, em 1589, aos carmelitas, que iniciaram a construção da atual igreja em 1761 – a sagração deu-se em 1770. Em 1808, com a chegada da família real, a Igreja foi convertida em Capela Real (mesmo que ainda incompletas as obras da fachada). No convento anexo foi instalada a rainha, d. Maria I e suas damas, e outros órgãos, como a Ucharia Real  e a Real Biblioteca.

A Capela Real foi palco da sagração de d. João VI em 1818 e do casamento de d. Pedro com d. Leopoldina em 1817, entre outros importantes eventos. Somente durante o primeiro reinado, já então denominada Capela Imperial, foram concluídas as obras. Foi sede episcopal durante todo o Império, e parte do período republicano, quando em 1977 foi terminada a nova Catedral Metropolitana. A partir de então passou a ser conhecida como a Antiga Sé (ou Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé).

[3] Hoje conhecida como avenida Marechal Floriano, uma das mais importantes e movimentadas do centro do Rio, nos tempos da corte joanina era dividida em duas: a rua estreita de São Joaquim (mais antiga) e a rua larga de São Joaquim (a mais nova). A rua estreita compreendia o trecho entre a antiga rua da Vala, hoje Uruguaiana, e a rua do Valongo, atual Camerino, e era conhecida na época por seus prostíbulos e malandros.

Anteriormente chamada de rua do Curtume, ganhou o novo nome em função da construção da Igreja de São Joaquim, que também motivou a abertura da nova rua, três vezes mais larga que a primeira, que ia da igreja em direção ao campo de Santana. A igreja, que deu nome a ambas ruas, abrigou o Seminário de São Joaquim, que no século XIX se tornou o Imperial Colégio de Pedro II, e foi demolida para o alargamento da rua estreita e para a junção das duas ruas antigas em uma só – que mantém o mesmo traçado até hoje.

[4] Logo que chegou ao Brasil, d. João criou dois cargos, duas autoridades sanitárias, encarregadas dos serviços de saúde pública na administração do reino: o Cirurgião-mor do Exército e o Físico-mor do Reino, que juntos (e com os seus delegados, juízes, escrivães, meirinhos, entre outros oficiais) formavam a Inspetoria Geral de Saúde Pública.

O Cirurgião-mor era responsável por todas as atividades relativas ao ensino e exercício da cirurgia – pelos sangradores, barbeiros, parteiras, dentistas, hospitais e médicos do exército. Ao Físico-mor cabiam as atividades concernentes ao ensino e exercício da medicina, questões relativas a médicos e pacientes, ao exercício da farmácia, aos droguistas, boticários e curandeiros, às epidemias e ao saneamento das cidades.

Esses profissionais eram encarregados de estabelecer uma política de saúde pública, principalmente através da atuação da Intendência de Polícia, no que tange às questões de saneamento e ordem pública, na melhoria da salubridade do ar e da cidade; e da atuação da própria Inspetoria, nas questões de vigilância sanitária dos estabelecimentos que comercializavam remédios e alimentos e no controle das práticas médicas.

Agem também no controle das epidemias, quer pela difusão das práticas de higiene, quer pela introdução da vacinação, principalmente para controlar doenças graves, como, por exemplo, a varíola e a febre amarela, que assolavam a população.

[5] Até fins do século XVIII, o comércio de escravos efetuava-se nas ruas estreitas da área central do Rio de Janeiro, sobretudo próximas ao Paço (hoje, Praça XV), concentrado no mercado da rua Direita. Até então os pretos novos – como eram chamados os escravos africanos recém-chegados – que sucumbiam no decorrer da longa e terrível viagem de travessia do Atlântico eram enterrados em um cemitério próximo ao Largo da Igreja de Santa Rita.

A penosa viagem, insalubre, sem condições mínimas de higiene e praticamente sem alimentação deixava muitos negros gravemente enfermos e muitos faleciam durante o percurso ou ao chegar em terras brasileiras. Os escravos que morriam ao chegar, ou já nos armazéns em decorrência da fome e das doenças, eram enterrados, ou melhor, lançados em covas rasas no cemitério a princípio improvisado, mas bastante duradouro do bairro de Santa Rita.

Quando o marquês do Lavradio ordenou a mudança do mercado de escravos para a rua do Valongo em 1770 (atual Camerino) e o desembarque dos navios para a área de mesmo nome às margens dos morros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, o antigo cemitério foi desativado e ressurgiu um novo cemitério dos pretos novos, maior e mais abandonado ainda do que o anterior, onde hoje é a rua Pedro Ernesto (antigamente chamou-se rua da Harmonia, caminho da Gamboa e rua do Cemitério). Com a crescente importação de escravos africanos, a região do Valongo e o cemitério só faziam aumentar, e por conta da pouca profundidade das covas, era possível ver os ossos saltando da terra e sentir o cheiro horrível que emanava do lugar, principalmente depois de chover, quando o terreno se tornava um alagadiço.

Na maior parte das vezes os corpos eram enterrados sem nenhum tipo de cerimônia religiosa ou rito funerário, e os ossos eram freqüentemente queimados para que cedessem lugar aos outros que constantemente chegavam, sem mencionar que há indícios que alguns negros chegavam ao cemitério ainda agonizando e morriam por lá mesmo. As reclamações dos moradores da região eram constantes e, apesar de protestos e reclamações, somente em 1863 o cemitério foi fechado. Atualmente há um sítio arqueológico no local, onde se realizam pesquisas sobre os escravos e a cultura africana com base nas descobertas feitas no antigo cemitério.

[6] Homens de valongo – assim eram também conhecidos os traficantes e negociantes de escravos africanos no Brasil, a maior parte deles portugueses ou africanos livres. No Brasil havia uma complexa estrutura de organização do comércio escravista, que envolvia comissários da alfândega, capitães dos navios, tropeiros, ciganos, ex-escravos e até mesmo ladrões, principalmente depois da transferência promovida pelo marquês do Lavradio ainda em fins do século XVIII da venda de escravos para a região do Valongo.

Anteriormente, os escravos eram vendidos nas ruas da área central da cidade, mormente nas proximidades do Paço, na rua São José e arredores (atual Praça XV). A região do Valongo (que compreende hoje as áreas da Saúde, Gamboa e Santo Cristo) abrigou o desembarque dos navios, e a comercialização dos escravos, nos mercados, trapiches e casas dos negociantes que se localizavam na rua de mesmo nome (hoje rua Camerino).

O comércio de escravos nesta época não era um negócio simples: exigia cuidados com higiene e alimentação dos recém-chegados (pretos novos) e transporte para os armazéns onde ficariam em exposição nos pátios à espera dos compradores (que freqüentemente fechavam negócio antes mesmo do navio aportar). Os escravos recusados ou que não tinham comprador certo deviam ajudar a atrair compradores, aparentando disposição e saúde, cantando e dançando músicas africanas. Durante o período em que vigorou o tráfico, essa foi uma das mais lucrativas atividades comerciais, que atraiu e enriqueceu muitos comerciantes, e mesmo depois da lei de 1831 que proibia o tráfico, muitos donos de armazéns continuaram a trabalhar na clandestinidade, mas em condições mais difíceis por conta da inspeção inglesa.

Os negociantes continuaram obtendo muito lucro, principalmente por conta do aumento do preço do escravo, mas a atividade se tornou mais arriscada. A partir de 1850, quando o tráfico é definitivamente extinto, o comércio interno continua a render grandes lucros, entretanto, parte dos comerciantes passa a dedicar seus capitais a outras atividades comerciais e a indústria.

[7] Em 1770 o marquês do Lavradio, vice-rei do Brasil, decidiu transferir o desembarque dos navios negreiros e o comércio de escravos da área central do Rio de Janeiro para a região mais afastada conhecida como Valongo. O mercado de escravos funcionava, então, na rua Direita, próximo à rua de São José, além de nas outras ruas estreitas do centro da cidade. Sua intenção ao promover a mudança do mercado para uma área praticamente rural, de chácaras e sítios, entre as atuais regiões da Saúde e da Gamboa, e de estabelecer o novo mercado de escravos na rua do Valongo (atual Camerino), era de evitar, principalmente aos olhos dos estrangeiros, nobres e recém-chegados que desembarcavam no Rio de Janeiro por onde atualmente é a Praça XV, um espetáculo triste de homens, mulheres e crianças seminus, em sua grande maioria fracos e doentes, em exposição à venda pelas ruas do centro.

Logo que o porto e o mercado foram transferidos para o Valongo, a população da área adensou, trapiches, armazéns, mercados, pequenos comércios e residências dos negociantes e traficantes de escravos cresceram nos arredores, pântanos foram aterrados e ruas abertas. Ao desembarcar dos navios, os negros africanos eram conduzidos aos armazéns e mercados onde eram alimentados, minimamente vestidos, recebiam cuidados de saúde e higiene (para se recuperarem da viagem das doenças e não morrerem), e separados, por idade, nacionalidade e sexo, homens de mulheres e crianças, sendo a maioria dos escravos do Valongo homens entre 13 e 24 anos.

A região começa a sofrer um pequeno declínio após a primeira tentativa de interrupção do tráfico em 1831, que se intensifica depois da lei de 1850 que efetivamente extingue o tráfico. Posteriormente, essa região ficou conhecida por ser habitada pela população mais pobre da cidade, que foi ao longo dos anos subindo os morros em busca de moradia, e pela grande concentração de negros (ex-escravos e seus descendentes), que mantinham vivas as tradições da cultura africana, até mesmo os dias de hoje.
[8] A escravidão se estabelece sobre o instituto da violência.

A dor era inerente à vida dos escravos e se faz presente ainda hoje nos documentos que dizem respeito a castigos, maus tratos e a principal forma de identificação dos negros: as marcas feitas a ferro quente. Havia três tipos de marcas, as da própria nação africana, culturais, que identificavam a comunidade de origem ou funcionavam como adorno, como desenhou Jean-Baptiste Debret em duas pranchas de Viagem pitoresca e histórica ao Brasil; as feitas pelos negociantes e proprietários, e as que serviam como punição, para que se reconhecesse quem fugiu ou cometeu algum delito.

Ao chegar ao porto de onde sairia o navio negreiro, ainda na África, os escravos eram marcados com as iniciais do traficante responsável por eles, e ao chegar ao Brasil, recebiam novas marcas, desta vez com as iniciais de seus proprietários. Essa prática se repetia quantas vezes fosse preciso, ou seja, a cada vez que o escravo fosse vendido, seria novamente marcado. Embora muitos deles já tivessem marcas de origem, as feitas pelos comerciantes tinham outro significado.

Elas se tornavam cicatrizes, quase sempre inalteráveis, que serviam para evitar fugas e, caso elas ocorressem, localizar mais facilmente o escravo. D. Manuel, rei de Portugal, foi um dos primeiros a institucionalizar a marca, no início do século XVI, utilizando-se primeiramente desse recurso nos escravos da Coroa. Outra marca comum era a cruz, gravada no peito dos cativos que haviam sido batizados. Embora algumas vezes vozes se levantassem contra essa agressão, ela somente se extinguiu por um curto momento, entre 1813 e 1818, por razões humanitárias, mas a prática logo foi restabelecida por necessidade de racionalização do negócio negreiro.

Os corpos eram marcados em lugares de fácil visualização, como peito, braço, ombros, no ventre, na coxa e até na face. Em 1741 Gomes Freire de Andrade, governador da capitania do Rio de Janeiro, instituiu que os escravos fugitivos seriam marcados com um F (de fugido) quando fossem encontrados, e seriam obrigados a usar doravante um cordão de estacas. Caso se apreendesse um escravo em fuga já com aquela marca F, este teria uma punição mais severa e exemplar, uma orelha cortada. As marcações a ferro quente como punição, bem como a mutilação, foram extintas com o Código Criminal do Império de 1832.

[9] Pessoa cativa, sem liberdade, que está sujeita a um senhor como sua propriedade. Desde o século XV, os portugueses realizavam o tráfico de escravos africanos. A atividade escravista, além de ser um dos empreendimentos mais lucrativos de Portugal, era também a principal fonte de mão-de-obra para o cultivo de diversas culturas no Império português. Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco foram os principais centros importadores de escravos africanos do Brasil. Apesar dos acordos entre Brasil e Inglaterra para interrupção do tráfico de escravos nas primeiras décadas do século XIX, este se intensificou e os escravos de origem africana continuaram a ser, durante o período joanino, a principal fonte de mão-de-obra utilizada na lavoura, no comércio e nas mais variadas atividades urbanas e rurais.

[10] Instituição criada pelo príncipe regente d. João, através do Alvará de 10 de maio de 1808, nos moldes da Intendência Geral de Polícia de Lisboa. A competência jurisdicional da colônia foi delegada a este órgão, concentrando suas atividades no Rio de Janeiro. Desde a sua criação, a Intendência manteve uma correspondência regular com as capitanias, criando ainda o registro de estrangeiros. Além da atividade policial, coube à instituição papel relevante na urbanização e nas obras públicas, atuando na secagem de pântanos, aterros, na pavimentação e conservação de ruas e caminhos e na construção de chafarizes, entre outros. A instituição teve, portanto, ampla, abrangendo assuntos desde segurança pública até questões sanitárias, incluindo a resolução de problemas pessoais relacionados a conflitos conjugais e familiares. Foi a estrutura básica da atividade policial no Brasil e influenciou os órgãos seqüentes.

[11] Desembargador e ouvidor da Corte, foi nomeado intendente geral de Polícia da Corte pelo alvará de 10 de maio de 1808. De acordo com o alvará, o intendente geral de Polícia da Corte do Brasil possuía jurisdição ampla e ilimitada, estando a ele submetidos os ministros criminais e cíveis, e cabendo a ele não somente questões de polícia, como investigações e combate ao crime, mas de ordem pública – controle da Ordem urbana, urbanização, saneamento, controle de pestes, manutenção de prédios, entre outros assuntos pertinentes à cidade.

Exercendo (Paulo Fernandes Viana) este cargo durante doze anos, atuou energicamente como uma espécie de ministro da segurança pública. Durante as guerras napoleônicas, dispensou atenção especial à censura de livros e impressos, com o intuito de impedir a circulação dos textos de conteúdo revolucionário. Tinha sob seu controle os ouvidores gerais, alcaides maiores e menores, corregedores, inquiridores, meirinhos e capitães de estradas e assaltos. Entre seus feitos, destaca-se a organização da Guarda Real da Polícia da Corte. Fernandes Viana foi destituído do cargo em fevereiro de 1821, por ocasião do movimento constitucional no Rio de Janeiro e retornou a Portugal com a Corte.

(Texto extraído, integralmente de : http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br)