O velho cemitério dos ‘Pretos Novos’

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Sinistro!

Eu ministrava em 1995 uma oficina do Musikfabrik no prédio quase ao lado (Centro Cultural José Bonifácio) na época em que apareceram ossos de gente em meio ao entulho de uma obra (uma reforma de piso) na casa da Mercedes (que dá esta entrevista aqui neste link).

Embora houvesse inúmeros relatos sobre a localização do cemitério dos ‘Pretos Novos’ (a região toda do Valongo, por conta do grande fluxo de africanos que passou por ali, é um formidável sítio arqueológico) esta pequena parte do cemitério foi encontrada por acaso. O enorme descaso, verdadeiro desprezo quê ainda hoje se tem pela história do negro no Brasil explica tudo.

Num destes relatos que li horrorizado, o intendente da Corte Paulo Fernandes Viana dava conta das queixas de moradores do entorno com relação ao cheiro de carniça que exalava do local (um pântano). O trecho mais horroroso do relato era a descrição que o intendente fazia dos vestígios de ossadas de corpos semi-sepultos expostas ao céu aberto, já que muitos dos escravos mortos eram simplesmente ‘desovados’ no local por seus donos ou responsáveis, sem nenhum traço de humanidade, como se fossem meros dejetos lançados num lixão.

“O Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira
Rio de Janeiro: uma nova ordem na cidade

Limpeza do pântano do Valongo

Ofício emitido ao juiz do crime do bairro da Sé pelo intendente geral da Polícia, Paulo Fernandes Viana, no qual pede a limpeza de um pântano localizado nos fundos das casas da rua nova de São Joaquim. Este pântano, além de “nocivo à saúde pública”, se tornou um cemitério de negros novos, dada a “ambição dos homens do Valongo” que querem evitar a despesa de enterrá-los. O “charco” sujava o bairro e a cidade, e, portanto, deveria ser aterrado, com entulho e terra dos terrenos vizinhos. Notifica ainda os “negociantes que recolherem pretos no Valongo para que nunca mais se atrevam a lançar por ali cadáveres” e ordena que se recolham os corpos para, através das marcas neles, se reconheçam de quais armazéns vieram e se imponham as penas aos culpados para acabar de vez com aquele “mal”.

( se você tiver estômago, leia o documento completo aqui)

O nome ‘Preto Novos’, embora existissem muitas ossadas de crianças no local, não se referia exatamente a idade dos mortos, mas aos escravos ‘recém chegados’, que adoeceram na travessia e morriam no desembarque.

Sinistro!

Spírito Santo

Fevereiro 2011

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Leia também:Passeio por outro Rio: O cemitério dos ‘Pretos Novos’


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~ por Spirito Santo em 08/02/2011.

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