O Racismo orgulhoso de Monteiro Lobato

(Extraído de Wikipédia)

O Presidente Negro e outras histórias

Ayrton, desastrado cobrador da empresa Sá, Pato & Cia. sofre um acidente automobilístico na região de Nova Friburgo, no atual estado do Rio de Janeiro, e é resgatado pelo recluso professor Benson, que o leva para sua residência. Ali, ele trava contato com a grande invenção de Benson, o “porviroscópio”, um dispositivo que permite ver o futuro, e com Miss Jane, a bela e racional filha do cientista.

Através de Jane, Ayrton é posto a par da disputa pela Casa Branca nos Estados Unidos da América do ano 2228, onde a divisão do eleitorado branco entre homens (que querem reeleger o presidente Kerlog) e mulheres (que pretendem eleger a feminista Evelyn Astor), transforma o candidato negro, Jim Roy, no 88° presidente dos EUA.

A alegria dos negros, contudo, dura pouco. Incapazes de aceitar esportivamente a derrota, os brancos (agora novamente unidos) elaboram uma “solução final” para o “problema negro”, muito mais sutil e eficaz do que aquela elaborada por Hitler para os judeus, pouco mais de uma década e meia após o lançamento do livro de Lobato.

O choque das raças

“Gestado” (segundo a própria expressão de Lobato) em apenas três semanas em meados de 1926, “O Choque das Raças” foi escrito e pensado por seu autor como um cartão de visitas ao mercado editorial estadunidense, um cartão que lhe daria em troca “um saco de dólares”[1]. Lobato havia sido nomeado adido comercial no consulado brasileiro em Nova York, e antes de assumir o posto, conforme explicou em carta ao amigo Godofredo Rangel, teve uma “idéia-mãe. Um romance americano isto é, editável nos Estados Unidos(…). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco“.[2]

“O Choque das Raças” reunia, portanto, uma “visão do futuro” nos moldes das obras de crítica social do escritor britânico H. G. Wells e as idéias sobre superioridade racial, degeneração e eugenia defendidas pelo psicólogo e físico amador francês Gustave Le Bon, cujos livros L’Homme et les Sociètes, Evolução da Força e Evolução da Matéria Lobato conhecia de longa data[3]. A obra faz ainda uma rápida referência ao “perigo amarelo”, prevendo que por volta de 3527 os “mongóis” teriam substituído a raça branca na Europa.

Longe, contudo, de configurar uma estratégia de marketing isolada, pensada apenas para conquistar o público estadunidense e um “saco de dólares”, as idéias racistas defendidas por Lobato em sua obra o acompanhavam desde pelo menos 1900, quando leu L’Homme et les Sociètes (1881) de Le Bon, alentada obra em dois volumes onde o autor afirma que os seres humanos foram criados desigualmente, que a miscigenação é um fator de degeneração racial e que as mulheres, brancas ou negras, são inferiores até mesmo quando comparadas aos homens de “raças inferiores“.

Após a leitura, Lobato diz ter sentido-se “transformado em um montão de ruínas”[4], tamanho foi o abalo sofrido por sua “catolicidade caseira”[4]. Embora tenha tentado descobrir uma alternativa à “teoria científica” da desigualdade das raças, através da leitura de Comte e Spencer, Lobato parece ter deixado convencer-se pelas idéias de Le Bon. Nos anos seguintes, livros dos poligenistas Hyppolite Taine e Ernest Renan, figuras influentes no racialismo do século XIX, tornaram-se importantes fontes de referência para o escritor, que inclusive recomendava sua leitura aos amigos.

Numa carta de 1905 endereçada ao amigo Tito, Lobato declara ser impossível “civilizar” e “corrigir” o povo brasileiro, “devido ao fatalismo das inclinações, dos pendores, herdados com o sangue e depurados pelo meio”. Ele conclui que apenas uma injeção de “sangue da raça mais superior” (ou seja, a emigração oriunda de países europeus) asseguraria o futuro do país. Nesta mesma carta, ele chama de “patriota” ao brasileiro que se casasse com “italiana ou alemã”[5].

Em 1908, talvez ecoando uma célebre declaração do Conde de Gobineau (que certa feita havia chamado os cariocas de “macacos”), Lobato confidenciou ao amigo Godofredo Rangel que a miscigenação criara uma classe de “corcundas de Notre Dame” nos subúrbios do Rio de Janeiro, declaração que trazia implícita uma crítica aos intelectuais da época, segundo os quais haveria um “padrão de beleza grega” entre a população mulata da cidade. Lobato advoga ainda a adoção de um esquema de segregação racial para o Brasil, nos moldes do então vigente nos EUA e a imigração de europeus para consertar a “anti-Grécia” carioca.[6]

A partir de 1914, Lobato começou a publicar suas idéias sobre as “raças” brasileiras em livros e na grande imprensa, basicamente opondo o caboclo, “espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela”[7](e que mais tarde seria simbolizado pelo personagem Jeca Tatu), ao mulato, que, embora também fosse mestiço, possuía certa “superioridade racial” graças ao “sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos”[8]

Não deixa de ser irônico que, justamente depois de destruir publicamente a imagem do caboclo, Lobato tenha sido obrigado a passar a fazer apologia do mesmo, após a reação de importantes segmentos da elite brasileira quando da republicação de “Velha Praga” no livro de contos “Urupês“, em 1918. Acusado de vilipendiar o povo brasileiro, Lobato embarcou nas idéias higienistas então em voga, chegando a afirmar em carta que estava convencido de que “o Jeca Tatu é a única coisa que presta neste país”[2].

O problema do Jeca deixara de ser sua origem mestiça, e sim um problema sanitário que seria resolvido com o enfrentamento das endemias rurais. Foi Cornélio Pires, profundo conhecedor do caipira paulista que mostrou, na sua obra “Conversas ao pé do Fogo”, que Lobato só conhecera o caipira caboclo e o generalizando como se todos os caipiras fossem como o caboclo. Como diria Lobato em O Problema Vital (1919), “O Jeca não é assim, está assim”.

Todavia, como bem o prova “O Presidente Negro”, Lobato não havia renunciado inteiramente às suas antigas influências racistas. Ou, o que pode dar uma idéia do seu oportunismo, reciclou-as imaginando que assim seria mais fácil angariar a simpatia (e os dólares) do mercado editorial estadunidense.

Livros e uísque

Lobato tinha planos ambiciosos para sua estadia nos Estados Unidos (onde residiu por quatro anos). Um deles era a criação da Tupy Publishing Company, uma editora que transformaria “editores e editados” em milionários. Precedido em sua chegada a Nova York por um telegrama da agência noticiosa United Press que citava O Choque das Raças e até falava de uma “provável edição inglesa”[2], Lobato especulava em dezembro de 1926: “Minhas esperanças estão todas na América. Mas o ‘Choque’ só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida“.[1]

Mas, ao menos no tocante aos seus planos literários e editoriais, a experiência estadunidense revelou-se um imenso fiasco. Em setembro de 1927, depois de ouvir inúmeras negativas, Lobato escreveu para Godrofredo Rangel com uma sinceridade chocante: Meu romance não encontra editor. Falhou a Tupy Company. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros. Os originais estão com o Isaac Goldberg para ver se há arranjo. Adeus, Tupy Company![2]

A reação indignada dos “cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas” que haviam recusado-se a publicar o “ovo de escândalo”, conforme confidenciou um mês depois ao amigo Gastão Cruls, não abalou a confiança de Lobato. Segundo ele, um sexto editor havia entusiasmado-se com a obra e queria inclusive que ele ampliasse a “matéria de exasperação” (leia-se “incitamento ao ódio”) para forçar uma proibição policial. Fazendo uma alusão bem-humorada a Lei Seca então vigente, pelas contas de Lobato isto valeria “um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra ‘bootlegued’ com o ‘whisky’ e outras implicâncias dos puritanos”[1].

Por seus precedentes, o impacto negativo não deveria ter sido uma grande surpresa. O retrato sombrio pintado por Lobato de uma sociedade estadunidense segregacionista, era tão acintoso e aético que mesmo seus amigos, como Godofredo Rangel e o sanitarista Artur Neiva, que haviam lido a obra ainda no Brasil, sequer responderam aos pedidos de sugestões feitos por ele. De um ponto de vista político e ideológico, o comprometimento com o O Choque teria sido demasiado. Todavia, ao retornar definitivamente ao Brasil em 1931, confrontado com a questão de se não teria carregado demais nas tintas, Lobato declarou: “não tenho de mudar nada em ‘O Presidente Negro’. A América que eu retratei em meu livro é exatamente a mesma América que eu encontrei lá”.[9]

Um exercício de futurologia

Num ensaio publicado por Nola Kortner Alex em março de 1996[10], discutiu-se o caráter “presciente” da obra de Lobato, no momento em que o general negro Colin Powell surgia como um possível pré-candidato à presidência dos Estados Unidos da América. A conclusão de Alex é que apesar do desfecho grotesco e do tom pessimista que permeia a obra, “O Presidente Negro” parece menos distante da realidade em fins do século XX do que no início dele. Alex cita como provas disso os massacres tribais em Ruanda, a “limpeza étnica” na Bósnia, a construção de um muro separando os Estados Unidos do México e até mesmo o fim de políticas afirmativas e de ajuda às mães adolescentes.

Alex, por sua vez, conclui dizendo que “para o estudante de política americana bem como para o estudante de literatura e cultura brasileiras, todavia, uma leitura atenta do romance presciente de Monteiro Lobato delineia uma situação que faz com que o leitor recue da idéia de um homem negro como candidato para o mais alto posto nos Estados Unidos”[10].

Uma sugestão de leitura parecida é, de alguma forma, retomada no prefácio de Marcello Sacco à sua tradução do romance em italiano, onde se afirma que o texto de Lobato, para lá das intenções reais do autor empírico, pode ser lido como um paradoxo swiftiano ou uma distopia ao estilo de Huxley e Orwell[11].

Em 2008, a coincidência de dois pré-candidatos, um negro (Barack Obama) e uma mulher branca (Hillary Clinton) disputando a Casa Branca contra um candidato branco, despertou novamente a atenção da mídia brasileira para “O Presidente Negro”. O livro ganhou nova edição da Editora Globo e, em algumas resenhas foi citado que Lobato teria previsto o surgimento da internet, graças a um diálogo de Ayrton com Miss Jane sobre o ano de 2228:

– Ainda havia jornais neste tempo?
– Sim, mas jornais nada relembrativos dos dias de hoje. Eram radiados e impressos em caracteres luminosos num quadro mural existente em todas casas.[12]

O autor também fala do “teletrabalho“: “em vez de ir todos os dias o empregado para o escritorio e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritorio. Em suma: trabalhar-se-á á distancia“.[12]

Outra das previsões de Lobato (a expansão crescente da raça amarela) já era, na verdade, uma preocupação dos europeus ao tempo em que o livro foi escrito. Tratava-se apenas de reconhecer, conforme diz Miss Jane, que o amarelo vencerá o branco europeu por dois motivos muito simples: come menos e prolifera mais.[12]

Finalmente, a idéia central por trás da divisão do eleitorado branco em homens e mulheres parece ter surgido em Lobato como um último resquício de suas leituras de Le Bon. Em 2228, Miss Elvin, mentora da candidata Evelyn Astor, publica um livro denominado Simbiose Desmascarada, onde denuncia que a mulher não era a “fêmea natural do homem”, mas que este havia “repudiado” a sua fêmea original em época remota e que o “pobre animal” (palavras de Lobato) havia se extinguido. As mulheres seriam as fêmeas de um povo anfíbio, cujos machos, naturalmente, foram massacrados pelos machos humanos numa espécie de versão pré-histórica do “Rapto das Sabinas“.

Referências

  1. a b c Cartas escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1959. Vol. 1, p. 189.
  2. a b c d A barca de Gleyre. Quarenta anos de correspondência literária entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel. São Paulo: Brasiliense, 1950. Literatura Geral. Obras Completas, XXII, 2 v.
  3. FRAIZ, P. O racismo em Monteiro Lobato: um estudo de O choque das raças ou O presidente negro in “Pensar e Dizer”, Rio de Janeiro, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1991:287.
  4. a b José Bento Monteiro Lobato. Conferências, Artigos e Crônicas. São Paulo: Brasiliense, 1964, p. 221.
  5. Cartas Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1964: 75-77.
  6. A barca de Gleyre. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133.
  7. LOBATO, José Bento Monteiro. Velha Praga in Urupês, 1918. Publicado originalmente in “O Estado de São Paulo“, 1914.
  8. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1971. p.231-256.
  9. LOBATO, Monteiro. O Presidente Negro ou O Choque das Raças: Romance Americano do Ano 2228. São Paulo: Brasiliense, 1964, p. viii.
  10. a b ALEX, Nola Kortner. Prescient Science Fiction: Monteiro Lobato’s “O Presidente Negro” after 70 Years. Annual Joint Meetings of the Popular Culture Association/American Culture Association. Las Vegas, 25-28 de março de 1996.
  11. Lobato, Monteiro. Il presidente nero, edizioni Controluce, Nardò 2008
  12. a b c LOBATO, Monteiro. O Presidente Negro. São Paulo: Brasiliense, 1979 (13ª edição).
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~ por Spirito Santo em 22/02/2011.

Uma resposta to “O Racismo orgulhoso de Monteiro Lobato”

  1. Pois é, eu já havia lido esse registro do Wikipedia sobre este livro, principalmente quando d questão da retirada dos livros de Lobato das escolas. Entramos naquele problema que vc bem aborda. embora racista, tirá-los das escolas sem a devida discussão e debate sobre o tema seria uma atitude autoritária. Creio ser um desgaste tão grande, atualemente, dedicar-se tanto às experiências científicas provando diferenças de caráter e comportamento baseado em raças humanas.

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