Ainda o ‘Danço Congo’ de São Tomé e Príncipe

Incrível resistencia cultural! Eu tinha uma gravura antiga, do início do século 20, desenhada por um artista popular de São Tomé e Príncipe. Nela uma descrição detalhada de uma representação gráfica (uma delicada aquarela) de ‘Danço Congo’ para uma grande platéia aboletada num coreto. Pois bem, nesta representação de agora, já em 2010, percebo que os detalhes são os mesmos. O diabo que dança (um ator fantástico!) é idêntico ao da foto.

A gravura está no meu livro. Vou postá-la aqui para vocês:

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Mais Danço Congo

(Matéria extraída do blog (abra o link) da professora Marta M. Gomesda disciplina de História do Património inserida na área de Humanísticas – Turismo, dos Cursos Secundários Profissionalmente Qualificantes de São Tomé e Príncipe. O texto é de março de 2008.)

“Como o próprio nome diz, o Danço-Congo ou a Dança do Capitão, tem a sua origem no Congo, tendo sido introduzida na ilha de São Tomé pelos trabalhadores na era colonial.

Em São Tomé, teve a sua origem em Mutamba (uma das zonas da cidade de Neves). É típico do povo São-Tomense, em particular dos Angolares. As pessoas que expandiram esta dança, foram três pescadores, que se deslocavam na época da gravana, para diferentes locais da ilha, como Neves, S. dos Angolares, Porto Alegre e Malanza, a fim de fazer a «Chada» (secagem do voador panha).

Num belo dia os mesmos pescadores deslocaram-se à praia de Neves com o objectivo de fazer a «Chada», já lá dois dos tais tinham ido ao mar, ficando um dos tais em terra, a fim de fazer a fogueira e guardar o pescado já existente.

Na calada da noite, o pescador que estava na praia ouviu algo muito estranho, parecido com o som de música e muito barulho, aproximando-se cada vez mais, o homem amedrontando, pôs-se atrás de uns arbustos, e de lá observava tudo que o que se estava a passar: pessoas já mortas, dançavam e tocavam.

Faziam parte desta dança, nomeadamente: o feiticeiro, o bobo, o capitão, anzo mole, anzo canta, os tocadores e os figurantes, tocaram e dançaram até ao amanhecer.

Quando chegaram os outros dois companheiros do mar, o pescador que ficara, contou-lhes tudo que tinha presenciado, os outros duvidando do que ouviam, sugeriram que fosse só ao mar na noite seguinte. Ao anoitecer ficaram, os dois, responsáveis pela fogueira e pelo pescado. Assim, viram que o outro só falara a verdade, pois tudo aconteceu com todos os pormenores descritos. Retornando ao povoado contaram tudo o que haviam observado e nasceu o Danço Congo – assim diz a lenda. As personagens foram sempre as mesmas, o que difere é a maneira como tocam e dançam.

Esta história foi-nos dada a saber pelo Sr. Libiano Frota. Presidente do Danço Congo Mine-Carocel de Almeirim.

Segundo as informações colhidas pelo Presidente do Danço Congo Mine-Carrossel e das pesquisas feitas, a história processa-se da seguinte maneira: havia um homem que tinha uma fazenda e quatro filhos chamados de bobos.

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Um dia o fazendeiro morre e os seus quatro filhos sentindo-se incapazes para administrar a propriedade convidam o «capitão» a fazê-lo.

O capitão aceita e escolhe vários colaboradores entre os quais Logoso, que é o guarda da propriedade. Havia ainda dois anso cantá (anjos que cantão), guarda-costas do capitão; dois guias de frente; um barriga de danço e dois guias de tráz.

Certo dia o capitão resolveu realizar uma festa na fazenda e convidou os bobos, acompanhados de suas mulheres. De repente, Capitão pressentiu algo a rodear a fazenda e chamou os bobos para se certificarem do que se passava.

Após a verificação os mesmos viram-se obrigados a realizar uma cerimónia (ordena aos «anso cantá» para cantarem ainda mais) para conseguirem apanharem o feiticeiro e o seu ajudante zuguzugo (o feiticeiro era um homem com almas pecaminosas, primo do Pé-Pau), quando os irmãos conseguem apanhar o feiticeiro e o seu companheiro zuguzugo, o feiticeiro pede ajuda ao demónio, e à alma do seu primo falecido, para conseguir apoderar-se da empresa e matar o filho de Capitão cujo o nome é anso molê (anjo que morre).

Depois de apanharem o feiticeiro, que havia contactado com os seus amigos, ele demonstra todas as suas habilidades diabólicas na festa a fim de conseguir o pretendido.

Assim o feiticeiro consegue apoderar-se da empresa e matar o filho do Capitão. O Capitão revoltado com a morte do seu filho, vai a casa dos bobos para lhes pedir ajuda. Chegando lá, encontra as suas mulheres ao que o Capitão diz que veio tratar um assunto do seu interesse. Uma das mulheres ao ouvir leva o recado aos bobos dizendo «bá cuji unwan sunguê glave lumá, fina cú lôpa limpo» (vai responder um senhor muito bonito, fino estimado com roupas limpas).

Quando os bobos chegam, o capitão coloca-lhe todos os problemas, os bobos achando-se espertos propõem o seguinte: se queres que nós te ajudemos a tirar o feiticeiro da empresa temos que fazer um acordo e Capitão aceitou.

Então os bobos dizem ao capitão para se voltarem de costas uns para os outros para fazerem um acordo, que consistia no seguinte: tudo o que bobos dissessem, o capitão e os seus ajudantes têm que fazer, e o acordo foi aceite por todos.

Todos regressam à festa e vêem o que estava a acontecer. Os bobos passam a mandar na fazenda, mas quando vêem o feiticeiro e o seu ajudante vestidos de vermelho, correm ficando com medo.

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Então surge uma briga entre o feiticeiro e os bobos, saindo estes vencidos pelo feiticeiro. Os bobos vêem, então, um dos seus companheiros caído no chão, e que os outros se tinham ido embora. Novamente o feiticeiro retoma a sua luta.

Aqui um dos bobos que estava no chão, levanta-se para telefonar aos seus companheiros de modo a pedir ajuda. Ao levantar-se dois anso cantá (guarda costa do capitão) prende-o, dizendo que matou alguém, e ele responde que não, e como prova disso ele resolveu pegar nos dois anzos cantá para irem ao local do crime.

Ao se aproximarem encontram a espada do feiticeiro no chão com sangue. Os bobos olham para os dois anso cantá, questionando-o se ainda não acreditam neles, e que foi o feiticeiro que cometeu o crime.

A festa continua, embora a consternação do capitão, após a morte de anso molê. Os bobos não dando importância ao facto continuam a animar a festa com as suas actuações patéticas.

(de ter em atenção que o relato da mesma história em Povo Floga difere em alguns aspectos. Não nos podemos esquecer que com o passar do tempo se verificam algumas alterações. O que acima foi descrito, foi-nos contado pelo mestre do Danço Congo Mini-Carrossel)

Para a realização do Danço Congo são utilizados instrumentos tais como: os tambores Maria que é o maior de todos; Jaqueta, o médio e o Tabaque, o menor de todos; chocalhos; reco-reco; ferro e apito.

Quanto ao vestuário, temos a roupa do feiticeiro, do seu ajudante e a do pé-de-pau que são da cor vermelha, o Capitão usa umas vestes mais coloridas, ornamentadas de croché em torno da cintura, os restantes figurantes usam uma roupa uniforme, já as roupas de Bobos são todas esfarrapadas.

O Danço Congo Mini-Carrossel, teve o seu início no ano de 1973, como uma brincadeira, ou seja, um grupo de crianças durante às férias do ano lectivo, tocavam latas, plásticos e outros instrumentos improvisados. A ideia de formar um Danço Congo a sério foi do actual Presidente «Sr. Libiano Frota» que na altura tinha 30 anos de idade. A ideia foi aceite por todos, e assim se deu inicio ao Danço Congo Mini-Carrossel de Almeirim.

A escolha do nome constituiu um problema para o grupo. O nome Mini-Carrossel teve a sua origem no terraço que já existia no quintal do Presidente do grupo. Este terraço, agora encontra-se à berma da estrada.

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Inicialmente o grupo apresentava-se com instrumentos pouco adequados, nomeadamente latas, plásticos e as membras eram feitas a partir dos lenços e panos.

O Mini-carrossel de Almeirim, atingiu o seu auge na altura em que estava no poder o Sr. Presidente da República Doutor Manuel Pinto da Costa. Tendo assim oportunidade de participar em apresentações culturais em diversos países nomeadamente: Rússia (Moscovo), Espanha, Portugal e França.

As apresentações são feitas em lugares abertos, ou em terraços quando são chamados para actuar em festas de inauguração ou em festas de freguesias, festa da independência e quaisquer outras actividades que queiram a sua participação.

Segundo a entrevista feita com os membros do grupo, concluímos que os jovens e as crianças pouco ou nada sabem sobre o significado e a história de Danço Congo, os mesmos só lá estão por estar, isto é, por acharem piada. Nota-se pouco interesse por parte dos jovens e crianças são-tomenses, em particular de Almeirim. Assim não haverá pessoas capazes de dar continuidade ao Danço, o que terá como consequência futura o desaparecimento do mesmo. Como nos disse o Sr. Libiano Frota:

«se eu morresse agora, o Danço de Congo morreria no mesmo instante, isto porque os jovens só querem saber de jaca, safu, mangas, cartas e futebol, nada de Danço de Congo»

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Neste momento o grupo encontra-se com inúmeras dificuldades no que concerne aos instrumentos, equipamentos, e principalmente apoios financeiros.

O património de S. Tomé é vasto, nele podemos encontrar o património cultural, onde se insere o Danço Congo.

A lei do património, diz que devemos proteger, preservar e valorizar todo o património. Daqui decorre a necessidade de aproveitar o Danço Congo para a promoção do turismo nacional.

Para que o turismo se desenvolva a partir do Danço Congo, temos que, primeiramente fazer ressurgir os diversos grupos de Danço Congo, fazer também com que a população saiba da sua história, origem e de seu significado. Para tal é preciso sensibilizar a população no sentido de salvaguardar esta manifestação cultural.

Como sugestão para a divulgação de Danço Congo propomos o seguinte:

  • a existência de suporte documental, isto é, os escritores deviam dedicarem-se mais à escrita da história, não só de Danço Congo, mas também de todas as manifestações culturais;
  • a televisão São-tomense devia ter um espaço aberto para expor estas manifestações culturais (como já havia os programas «O Nosso Convidado, Segredo do Mestre e Raízes»);
  • o Estado devia actuar de forma mais activa e directa para a promoção destes grupos culturais.
  • Apelamos, também, à população em geral a respeitar os saberes e as tradições ancestrais como parte do património colectivo de uma nação, lançando campanhas de educação patrimonial, consciencializando as pessoas a valorizarem as suas tradições e o respeito pela diversidade cultural.

Já na etapa final deste trabalho, concluímos que o Danço Congo é uma das principais manifestações culturais de S. Tomé.

Mesmo a sua história não sendo de conhecimento de muitos a sua apresentação é de grande aceitação da população, isto é, nas representações vê-se uma grande afluência dos espectadores.

Pelas entrevistas realizadas, constatamos que hoje, em relação a antigamente, vários grupos têm vindo a desaparecer, ficando um número muito reduzido de grupos de Danço Congo. Este facto deve-se ao pouco apoio das entidades responsáveis pela área da cultura e também à morte dos mais velhos que não vêem nos mais jovens interesse em perpetuar este elemento cultural.

Deste modo apelamos aos jovens e à população em geral que trabalhem em conjunto no sentido de promover e desenvolver o Danço Congo.

Ajude-nos a melhorar o nosso trabalho, com as suas críticas, sugestões e correcções. Estamos à sua espera.”


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~ por Spirito Santo em 27/02/2011.

10 Respostas to “Ainda o ‘Danço Congo’ de São Tomé e Príncipe”

  1. Pois é. É que, de um um modo ou de outro, a cultura sempre viaja na memória e na alma das pessoas. Este parece ser o sentido principal da palavra Diáspora.

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  2. Incrivel como se encontra em STP quase tudo cultural que se encontra nas diasporas africanas…ate’ lutas e dancas similares a capoeira.

    Vamos dar mais visibilidade a essas Ilhas.

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  3. […] de “incrível resistência cultural!”, Helder D'ava, um cidadão são-tomense, comentou: É pena que em S.T.P.(terra minha), tanto por parte das autoridades como das comunidades locais, […]

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  4. […] Congo as “unbelievable cultural resistance”, Helder D’ava, a Santomean citizen, commented [pt]: É pena que em S.T.P.(terra minha), tanto por parte das autoridades como das comunidades […]

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  5. Obrigado Sarita,
    Fiquei bem emocionado de ter podido repercutir a cultura de nossa diáspora.

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  6. Está a ser citado aqui!
    http://globalvoicesonline.org/2011/07/12/sao-tome-and-principe-traditions-culture-identity/

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  7. […] Congo as “unbelievable cultural resistance”, Helder D'ava, a Santomean citizen, commented [pt]: É pena que em S.T.P.(terra minha), tanto por parte das autoridades como das comunidades […]

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  8. S.T.P. São Tomé e Príncipe, “esta é a ditosa pátria minha amada”.

    Bem visto caro amigo, faço votos para que o seu trabalho não fique por aqui… é sempre um prazer e satisfação, elevar o bom nome do nosso país, pelas suas qualidades e atractividades que possui.
    força aí . Abraço grande..

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  9. Obrigado pela visita, Helder. Vamos fazendo a nossa parte divulgando as nossas coisas. Digo nossas porque vejo a cultura africana na diáspora como uma unicidade óbvia. Aqui o Brasil temos diversas manifestações extremamente semelhantes ao Danço Congo (sem dizer que temos aqui grande um ciclo de danças tradicionais chamadas de ‘Congadas’). O livreto catequético católico, ‘Os Doze Pares de França’, versando sobre as cruzadas, por exemplo foi e é ainda base para muitas danças dramáticas de afro-descendentes brasileiros.

    O importante é a gente cumprir a nossa parte divulgando isto. O resto, com ou sem a ajuda das autoridades, o tempo e a perseverança resolvem

    Grande abraço, parceiro!

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  10. S.T.P. São Tomé e Príncipe, “esta é a ditosa pátria minha amada”.

    antes quero felicitar pelo grande feito neste blog.
    A língua, cultura e património são a identidade de um povo/ uma nação.
    É pena que em S.T.P.(terra minha), tanto por parte das autoridades como das comunidades locais, estas actuações não são reconhecidas os seus potenciais valores, o que vem resultando no seu desaparecimento a cada dia que passa.
    S.T.P., um arquipélago vasto de culturas, de memórias e com tudo para sorrir. Terra do meu coração.

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