Zumbi Oswaldão: Imortal e invisível

Só a imortalidade da lenda anulará a invisibilidade imposta ao herói da guerrilha do Araguaia

Eu sei que você vai dizer que nunca ouviu falar deste cara, que não foi do seu tempo ou que você não acompanhava direito esta história de guerrilha do Araguaia. Mas considere apenas o seguinte: Com esta bagagem histórica aí, como é que uma pessoa ia poder ficar invisível e anônima a este ponto?

Vivemos ainda sob um governo integrado por este mesmo pessoal ligado à chamada ‘esquerda revolucionária’. Há uma penca de ex-guerrilheiros aí, famosíssimos, popularíssimos, indenizadíssimos e o pobre do Oswaldão aí, neste quase ostracismo?

Certo. Dá pra encontrar dados sobre ele na internet como eu achei. Até um livro, objeto da resenha que republico abaixo foi feito, mas não se trata disto. Se trata de entender como – e porque – a memória de figuras gigantes de nossa história como esta,  ficam sempre na margem entre a fama e a invisibilidade.

Que parte de nossa memória se quer apagar?

Afinal, Oswaldão não foi apenas mais um guerrilheiro nas selvas do Araguaia. Oswaldão comandou um dos dois batalhões, talvez tenha sido – não se esclarece isto ainda direito – o principal comandante militar daquela guerrilha trágica.

Hoje, depois de ver um blog sobre os invisíveis militantes da esquerda brasileira mortos pela ditadura, sugerido pelo amigo Ras Adauto de Berlim, me bateu este grilo na cabeça.

Seria nojenta a constatação, mas será impressão minha ou até mesmo a auto intitulada valorosa esquerda revolucionária do Brasil, de algum modo pratica ou respalda – pela omissão – a invisibilidade dos negros ou ‘não brancos’ mortos pela ditadura?

Lembrei do Mendes Fradique, pseudônimo de um jornalista brasileiro dos anos 20, integralista, refinado satirizador dos costumes burgueses, que escreveu um impagável livro de humor (o exemplar que eu tinha, um rato ‘amigo’ surrupiou) chamado ‘História do Brazil pelo méthodo confuzo‘. Nele numa jogada modernista criou um falso índice das ‘suas‘ falsas obras no qual uma das citadas é a seguinte:

Página tal: “História da Inglaterra sem as suas páginas negras. Obs: Exemplar em branco”

O Brasil de alma branca um dia há de ficar transparente.

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OSVALDÃO, O GUERRILHEIRO IMORTAL

(Extraído do blog “A Trincheira” de Bruno Ribeiro)

‘Acabei de comprar, na minha querida Livraria Pontes, a biografia de Osvaldo Orlando da Costa, escrita por Bernardo Joffily. O livro é tão bom que já estou quase terminando a leitura. Leitura, aliás, que recomendo vivamente aos freqüentadores deste botequim virtual. Osvaldão e a Saga do Araguaia (Expressão Popular, 128 págs., R$ 12,00) narra a história de um herói esquecido, mas cujo exemplo de vida perdura até hoje, através de quem o conheceu e conviveu com ele. Apesar de limitado, devido à falta de informações precisas, o livro é bem interessante.
.
Osvaldão foi um dos 69 guerrilheiros que tombaram na selva amazônica do Pará, lutando contra as tropas da Ditadura – no episódio que ficou conhecido como Guerrilha do Araguaia (1972-1975). Foi o maior e mais organizado movimento de resistência contra o regime militar no Brasil. Para combatê-lo, as Forças Armadas mobilizaram um efetivo de 5 mil homens (algumas fontes falam em até 20 mil soldados!). Os guerrilheiros, porém, mais habituados à selva – estavam instalados ali desde 1967 – deram muito trabalho e impuseram duas derrotas humilhantes ao Governo, antes de serem eliminados.

Conta Joffily que nos terreiros de terecô (religião mestiça de índio que se assemelha à umbanda na região do Amazonas), toda entidade que baixa diz que Osvaldão é imortal e, portanto, continua vivo, nas entranhas da floresta. O povo da região dizia também que o guerrilheiro tinha o poder de se transformar em pedra, árvore a até mesmo em bicho, para afugentar ou despistar o inimigo. Estas histórias, naturalmente, eram frutos da imaginação dos moradores da área.

Mas o próprio Osvaldão conhecia e respeitava as lendas brasileiras e foi graças à lenda do Curupira que ele teve a idéia de inverter as solas das botinas usadas pelos guerrilheiros e, assim, confundir os soldados – que seguiam as pegadas no sentido contrário e acabavam caindo em armadilhas e emboscadas.

Osvaldo Orlando da Costa era um negro de quase dois metros de altura e 100kg. Nascido na cidade de Passa Quatro (MG), radicou-se no Rio de Janeiro, onde foi campeão de boxe pelo Botafogo e chegou a ser tenente do Exército. Engenheiro formado em Praga, na Checoslováquia, era inteligente, gostava de dançar e tinha um bom humor inconfundível. Em meados dos anos 60, sua aguçada sensibilidade social levou-o ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Quando os militares deram o golpe e passaram a perseguir e exterminar militantes de esquerda, Osvaldão foi o primeiro a se alistar nas fileiras revolucionárias e o primeiro a chegar à região do Araguaia, onde atuou como garimpeiro e mariscador, para não levantar suspeitas.

Sua disciplina e coragem levaram-no a ser comandante do Destacamento B – cargo que exerceu até o fim da guerra (terminada exatamente com seu assassinato, em janeiro de 1975). Osvaldão foi o último a guerrilheiro a cair. Faminto, sem armas e sem munição, doente e nu, foi surpreendido numa roça de milho por um grupo de soldados. Quem atirou, porém, foi um mateiro de nome Arlindo Piauí, contratado pelo Exército por ser conhecedor da área. Morto com uma bala de espingarda no coração, o gigante negro foi amarrado a um helicóptero, pelos pés, e exibido como um troféu à população pobre, que o apoiava. Depois, teve a cabeça cortada. Seus restos mortais nunca foram encontrados. Ele tinha 34 anos.

Assassinado – assassinado sim, porque estava desarmado no momento do encontro – Osvaldão não teve tempo de esboçar reação ou dizer uma última palavra. O corpo tombou na direção de um remanso e o sangue tingiu o rio. Por conta disso, Marcos Quinan e Eudes Fraga gorjeiam que “o Araguaia é um rio que sente dor, pois desce ferido e sem memória na direção norte”. Apesar das inúmeras tentativas de apagar o nome de Osvaldão da história, ele figura ao lado de Zumbi, Solano Trindade, Patrice Lumumba, Martin Luther King e de tantos outros heróis negros que dedicaram suas vidas à uma causa coletiva..

Leia também:

A propósito do Araguaia, de Sandra Negraes Brisolla e

O fio da história entre Che Guevara e Osvaldão, de Roger Normando

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Spirito Santo

Março 2011

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~ por Spirito Santo em 04/03/2011.

9 Respostas to “Zumbi Oswaldão: Imortal e invisível”

  1. tem mais que razão. É a cegueira provocada pelo sol”

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  2. A constatação é grave. Muito mais do que no aspecto meramente cultural a invisibilização é um conceito chave de nosso racismo. A rigor todo e qualquer indivíduo (ou grupo) negro que se torne proeminente em nossa sociedade, que não possa ser declarado ou maquiado como se branco fosse será, invariavelmente lançado ao ostracismo mais absoluto.

    É comum a gente se dar conta disto agora analisando o passado mais remoto do Brasil, mas o caso do Oswaldão prova que a prática – esquizofrênica a mais não poder – continua viva.

    Mais que nunca é preciso dar luz a esta cegueira do Brasil irreal.

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  3. Reblogged this on Mamapress and commented:
    É preciso de saber da história recente do Brasil. De todos os fatos.

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  4. NÃO CONHECIA ESSE GUERREIRO…………

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  5. TAMBÉM NÃO CONHECIA A HISTÓRIA BRILHANTE DESSE GUERREIRO…

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  6. Que bom ouvir isto de alguém tão próximo a ele. Acho que o tempo da glória merecida do Oswaldão como grande brasileiro que foi, um dia chegará. Ele me lembra o João Cândido, o valente timoneiro da Revolta da Chibata, que herói gigante que foi amargou o ostracismo até pouco tempo atrás para estar hoje sendo reverenciado por todos nós como símbolo do amor á pátria Brasil.

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  7. Convivi com Oswaldão e toda sua familia.Familia essa de pessoas integras .Aqui na minha cidade, onde ele nasceu, è reverenciado. Oswaldão foi um homem alem do seu tempo

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  8. É. Êta ivisibilidade!

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  9. muito interesante Spirito, eu nao conhecia ele muito bem.

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