‘Guerreiro africano’ 1641. Quadro de Albert Eckhout


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Este ‘Guerreiro negro’ (quadro do holandes Albert Eckhout de 1641) tem um aspecto muito importante para nós brasileiros que é o fato de Eckhout – que o pintou segundo os relatos mais confiáveis no Brasil) ter tentado representar um africano real em Recife de 1641 que NÃO É UM ESCRAVO, mas um homem livre armado de lança, arco e flechas….

Com toda certeza, naquelas circunstancias este homem só poderia ser um guerreiro do Kilombo de Palmares, pelo menos da forma como estes eram imaginados na época. Com toda certeza também esta é a imagem mais próxima que se pode ter de um kilombola como foi Zumbi de Palmares, por exemplo, uma imagem historicamente muito mais fidedigna do que aquela cabeça de rei do Benin que colocaram aqui no Rio de Janeiro.

Rafael Crespo, meu parceiro nesta investigação é quem diz, complementando:

“A propósito desta tela (Guerreiro Negro), uma questão fica em aberto. Todos os catálogos e fontes apontam-no como feito no Brasil, em 1641. Como e em que circunstâncias pôde Eckhout realizá-lo? Não dispomos de dados sobre qualquer passage…m de Eckhout em África. Teria ele se baseado em trabalhos de Post que, no dizer de Sousa-Leão, poderia ter participado da expedição do Coronel Koin (1637) ou da do Almirante Jol (1641), que conquistou Angola e Moçambique, ou talvez mesmo de ambas? Tal suposição não parece descabida dado que existem sinais de uma possível colaboração entre pintores nassauianos. A tese encontra respaldo em Benisovich (Burlington Magazine – 1943, apud Teixeira Leite, 1967).”

Luiz Emygdio de Mello Filho (citado pelo Rapha) também diz:

“Será que este imponente guerreiro africano, com armas e trajes nobres, que o pintor rubricou sobre um dente de elefante – A. Eckhout, 1641, Brasil – teria sido registrado pelo artista numa hipotética viagem à África? Ou, de fato, foi real…izado em Maurícia, de Pernambuco, também dignitário africano em trajes e armas de hierarquia tribal? Faz parte com a tela da “Negra com criança” e a esta se une pelo pano da costa, elegante e bem laçado.”

Ao que eu concluo, dizendo:

“Minha tese me parece bem plausível: Eckhout ter idealizado um guerreiro de Palmares a partir de relatos, baseando-se é claro em referências estéticas as mais diversas, inclusive africanas ou mesmo indígenas, como a profusão de flechas e zagaias sugere.

Vejam aí vocês. Não é um Zumbi bem mais em conta para a nossa memória?

Spírito Santo

Abril 2011

‘Nobre Negão’ or 17’ century african nobleman


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons. (Retrato realizado pelo pintor holandês Albert Eckhout de D.Miguel de Castro, nobre do Reino do Kongo, durante uma viagem comercial à colônia portuguesa do Brasil. O quadro é do século 17 e pertence ao acervo do Museu Nacional da Dinamarca).

Retrato atribuído ao pintor holandês Albert Eckhout (uns atribuem a Jasper Becx) de D.Miguel de Castro, nobre do Reino do Kongo – ou do Nsoyo –  durante uma viagem comercial à colônia portuguesa do Brasil. O quadro é do século 17 e pertence ao acervo do Museu Nacional da Dinamarca).

17’ century african nobleman

A informação é surpreendente. Praticamente inédita. Para os mais empedernidamente crentes no primitivismo selvagem dos africanos nos idos do século 17, a notícia é mesmo i-na-cre-di-tá-vel.

Mas é fato. Modéstia à parte um achado historiográfico impressionante.

Corro atrás de evidências sobre este mistério há muitos anos, depois de ter lido em algum lugar, num texto de Câmara Cascudo, uma informação muito vaga sobre uma mítica embaixada que a rainha Nzinga Mbandi (Jinga) teria enviado ao Brasil, á época do domínio holandês.

A ausência total de qualquer outra referencia sobre o assunto – apenas ventilado por Câmara Cascudo num daqueles seus livros de folclore, quase como se fosse uma lenda colonial – sempre me intrigou, apaixonou.

Pensei na época, instigado: E se fosse verdade? Quantos paradigmas seriam quebrados acerca das relações entre africanos e europeus no âmbito das conflituosas relações intercontinentais no século 17?

Pois bem amigos, eu pesquisador leigo, bisbilhoteiro profissional, consegui provar com dados absolutamente cabais e inquestionáveis o fato perseguido:

Na década de 1640, em pleno domínio holandês no Brasil e em Angola, uma embaixada africana viajou até Recife sim. Veio comandada por um nobre africano e trouxe presentes (ouro, marfim, escravos, etc.) para o governador geral do Brasil holandês Maurício de Nassau. Nem ouse duvidar.

Tenho para comprovar a vocês esta sensacional descoberta nada mais nada menos que o retrato fiel do próprio embaixador angolano e de dois de seus servos com amostras de presentes trazidos para o dignatário holandês.

É tudo verdade, gente! Está atestado! Mesmo que você relute e não queira, vai ter que acreditar.

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Albert Eckhout juntamente com Franz Post, foram os principais artistas holandeses que, oficialmente fizeram parte ativa do grupo trazido por Maurício de Nassau no século 17, para fazer o registro artístico e documental da ocupação holandesa no Brasil no período entre 1640/1648).

Na crônica sobre este período, chama a atenção a hipótese de ter havido pelo menos uma grande viagem diplomática mandada ao Brasil (ao que tudo indica foram três), por iniciativa da Rainha Nzinga Mbandi do reino do Ndongo-Matamba a pedido de seu irmão o Rei do Kongo na época Nkanga a Lukeni (D. Garcia II), inimigos que eram de Portugal na época, com o objetivo de negociar com a Companhia das Índias Orientais e Ocidentais.

A inusitada viagem ocorrida, segundo as poucas fontes existentes em fevereiro de 1642 (provavelmente a única integrada e comandada por africanos registrada na história do colonialismo no período) foi bancada pela coroa holandesa que segundo pouquíssimos relatos, enviou especialmente da Europa um navio denominado ‘As armas de Dortrecht’ até o porto de Luanda e daí até Recife para depois seguir para Amsterdam, tendo como chefe da missão aquele que seria o tio dos dois soberanos africanos, o Conde de Nsoyo.

O reino do Nsoyo sempre fora associado ao do Kongo por laços de parentesco (geralmente governado por um tio do Rei do Kongo), com curtos períodos de cisão, por conta das regras de sucessão e divisão do poder e do território nos reinos da região, fundadas em laços de família (‘kandas’) com origens ancestrais remontando a fundação do reino hegemônico do Kongo por volta do ano 1300/1400).

Considerando-se o curto espaço de oito anos que este tipo de flagrante contou para que pudesse ser realizado (o tempo em que os holandeses tiveram acesso e controle da situação nestas colônias é historicamente bem restrito) é instigante a possibilidade deste D. Miguel de Castro – que um documento da época o designa como ‘rico comerciante’ – cuidadosamente vestido como um nobre holandês, chefe reconhecido desta, com toda certeza, rara missão ao Brasil, tenha sido na verdade alguém ligado diretamente à Nzinga Mbandi, quem sabe o próprio Conde de Nsoyo, seu tio.

Além deste existem outros retratos também realizados pelo mesmo Eckhout, por ocasião da mesma viagem, com as figuras descritas como sendo dois ‘servos’ de D.Miguel de Castro, do mesmo modo vestidos com roupas holandesas, um portando um cesto decorado que deve conter ouro e o outro com uma enorme peça de marfim.

image

Servos do embaixador congolês D. Miguel de Castro, na viagem à Recife e Amsterdam em 1642. Estas duas telas, um trítipico (existe uma terceira tela com uma mulher) é atribuída a Jasper Becx (não existe confirmação de sua presença na comitiva de Nassau) mas pode ser também, provelmente de Albert Eckout. Existem ainda controvérsias. O servo com a presa de elefante chamaria Diego Bemba.

Curiosa também é a informação – algo improvável a nosso ver – pelo menos segundo uma das fontes consultadas – de que a roupa holandesa dos personagens teria sido vestida na ocasião (ou mesmo aplicada na imagem posteriormente) apenas para compor uma peça de propaganda, com finalidades aculturativas)

Na pesquisa suplementar que ora realizo sobre os instigantes incidentes desta viagem – com a providencial ajuda do amigo angolano Aristóteles Kandimba, que residia na época, coincidentemente em Amsterdam, Holanda a poucos minutos da cidade portuária de Dortrecht, origem provável do navio que transportou o embaixador africano, o mais surprendente é a quase total ausência de dados ou documentos sobre tão inusitado fato histórico além dos que eu mesmo consegui encontrar.

As razões inacreditáveis deste formidável incidente histórico ter ficado oculto e obscurecido, quase desconhecido por tantos séculos é quase inexplicável. No caso da historiografia brasileira, tão pouco ciosa – quase displicente – diante das estreitas relações entre a história angolana e a brasileira isto é até explicável, mas o que dizer da historiografia mundial.

Pode ser que existam, mas nem mesmo em John Tornthon, emérito e arguto historiador da universidade da Pensylvania especializado neste período histórico empolgante, encontrei notícias ou mesmo a mais vaga referencia acerca deste fato, agora facilmente comprovado por meio da descoberta das telas de Eckhout.

Não consegui ainda relacionar o homem retratado por Albert Eckhout com o mandatário do reino do Nsoyo (que, como já disse, os primeiros indícios dão conta de ser tio da rainha Nzinga). Contudo o fato deste homem ter sido identificado com um nome português – D. Miguel de Castro– prática comum apenas entre membros da aristocracia da região (reinos do Kongo, Matamba, Ndongo, Nsoyo, etc) na qual Nzinga Mbandi era conhecida também como D.Ana De Souza e seu irmão Nkanga a Lukeni como D. Garcia II, é evidente que algum título importante neste contexto o embaixador retratado por Eckhout possuía, nada impedindo que ele pudesse ser realmente o mandatário do Nsoyo.

Falta também estabelecer, o que a informação inicial (da qual não possuo a fonte primária) não esclarece, se foi mesmo verdade que o navio ‘As Armas de Dortrecht’ seguiu para Amsterdam, para onde D.Miguel de Castro teria seguido afim de negociar interesses comerciais e militares da rainha Nzinga Mbandi e de seu irmão, Nkanga a Lukeni, com os – com certeza – acachapados executivos da Companhia das Índias Ocidentais.

O que qualquer um de nós não daria para encontrar dados mais detalhados, um diário de bordo, uma notícia fortuita qualquer de negros africanos andando pelas ruas de Amsterdam do século 17, algo emocionante sobre esta insuperável aventura histórica, sem precedentes conhecidos?

Contudo, desmontando em parte este meu pessimismo investigativo,  Rapahel Crespo, um amigo do facebook me escreve agora mesmo, num comentário surpreendente:

“Trata-se do retrato de um enviado do Rei do Congo, na categoria de embaixador, com a missão de rogar a Maurício de Nassau que interviesse no sentido de dirimir divergências que mantinha com o Régulo de Sonho, na embocadura do Congo. Enviaram para tanto o Rei do Congo, Garcia II (também referido como Garcia IV), e o Soba de Sonho, Daniel Silva, também chamado pitorescamente Conde de Sonho, aproximadamente na mesma época, seus delegados com presentes e mensagens quer para Nassau, quer para o Príncipe de Orange, quer para a direção da Companhia das Índias.

Há citações de que trouxeram os emissários do Rei um presente de 600 escravos, sendo uma terça parte para o Príncipe, outra para o Conde de Nassau e uma terceira parte para a Compania das Índias. Os emissários do Régulo de Sonho, chegados ao Recife em dezembro de 1642, eram três, e seus nomes ficaram registrados: Miguel de Castro, Bastião Manduba e Antônio Fernandes cada qual com um criado.

Trouxeram de presente seis escravos. Dos três, o primeiro seguiu para Holanda e os outros regressaram à África, em maio de 1643. Quanto aos enviados do Rei não há relatos que tenham ido à Holanda. Sobre sua chegada ao Recife existe referência à data de 12 de Maio de 1643 – ”

( “Albert Eckhout – Pintor de Maurício de Nassau no Brasil 1637/1644” – Clarival do Prado Valladares – Livroarte Editora)

E isto sem falar que esta época é exatamente o período onde floresce o Kilombo de Palmares no mesmo Recife onde esta inusitada embaixada africana aportou. Conterraneos já se sabe, mas haveriam parentes do embaixador D. Miguel de Castro em Palmares? Sabe-se já com alguma certeza que os escravos de Palmares em sua maioria não eram escravos comuns, mas prisioneiros de guerra, alguns até aristocratas como presumo que fossem as famílias e a dinastia de líderes denominados todos – como Nkanga a Lukeni de … ‘Nkanga a Nzumbi’.

E imaginem o meu prazer, quase infantil em ter podido comprovar, pelo menos parcialmente esta história eletrizante que tão pouca gente tinha ouvido falar?

Orgulhoso que estou – com toda razão, convenhamos – como detetive precursor, só espero que os historiadores profissionais ou amadores que vão a partir de agora seguir as pistas deste furo de reportagem histórico (na acepção da palavra) não se esqueçam de citar as fontes que os precederam (Roberto Correia, o historiador português que citou em seu blog  a viagem e o nome do navio, o pintor Albert Eckhout que retratou o embaixador com seus ‘servos’ e principalmente eu, Spírito Santo que futriqueiro de nascença que sou segui as duas pistas até conseguir estabelecer os incríveis vínculos entre as duas informações a ponto de comprová-las (sem esquecer do velho folclorista Câmara Cascudo, é claro, o primeiro a levantar esta lebre da Rainha Jinga, pelo menos para mim… e ao moço Raphael Crespo que tantos detalhes mais acrescentou a esta formidável história).

Uhhú!

E nem se atrevam! Se omitirem nossos créditos eu evoco as pragas do Criative Commons contra vocês ou…melhor ainda, os esconjuro com as pragas daquela ‘bruxa de Holanda’ que adora a vassoura dos direitos autorais mais radicais, dos danos morais, federais, estas coisas.

Spírito Santo

Abril 2011

Hugo Sukman e a Bossa Velha


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(Na foto João Gilberto – com um jeitão de Ivon Cury – e o espertíssimo Tom Jobim, fazendo pose de garotões de nouvelle vague, bossa nova sei lá, uma novidadice colonizada destas por aí)

Brasil: Sistema recorrente, cultura popular excludente.

Não resisto. Tenho que dar uma de Tinhorão reciclado: Hugo Sukmam, crítico de música popular, falando coisas facilmente questionáveis e, no mínimo discutíveis agora mesmo na Globo News  sobre a Bossa Nova ser uma espécie de ‘depuração (ui!)’, ‘sofisticação’ (ai!) do Samba. Escrevi no meu livro o quanto acho isto uma abobrinha elitista sem tamanho ou fundamento.

Esta suposta ‘sofistificação’ do Samba não foi feita, de modo algum por este pessoal da Bossa Nova, este mito branco-ipanemense, fruto de muita arrogancia, esperteza mercadológica e cortesia com chapéu alheio.

Esta modernização do Samba (na verdade um fenômeno recorrente desde o início do século, comum a qualquer gênero de musica popular urbana, de qualquer lugar do mundo), já era feita, urdida por um montão de gente comum, ‘gente humilde’, músicos ‘do povo’ (como Suckman quase diz)  ‘sambistas ou não, em geral, entre os quais Geraldo Pereira, Ciro Monteiro, Moacir Santos, Monsueto Menezes e tantos outros em boates, gafieiras e no rádio dos anos 50 e 60.

Vamos combinar que esta dicotomia entre música ‘negra’ primitiva‘, selvagem‘, ‘empírica‘, ‘primária‘ e pouco sofisticada versus  música ‘branca’ ‘fina‘, ‘mais educada‘, refinada enfim, é um preconceito dos mais baratos, grosseiro mesmo. Burro. Ora, nunca existiu esta divisão de classe – ou de ‘raça‘ – na música de povo nenhum nem na cultura de quem quer que seja.

Ocorre que esta elitezinha esperta – como faz, aliás, até hoje por aí, nas Lapas da vida – pescou a idéia da modernidade que surgia e vendeu o peixe como se fosse ela a pescadora, para levar a fama.

Trancaram a novidade num apartamento, sairam com ela para fazer pose na praia chic e cunharam um rótulo modernoso, tomando o cuidado de excluir nos becos sem saídas e sem garrafas, sabe-se lá como, a rapaziada mais da ralé, aquela que fermentou e que, realmente criou a ‘nova onda’.

(Só pra se ter uma idéia, um dos principais gênios desta modernidade musical, o maestro e arranjador Moacir Santos, amargou o mais pesado dos ostracismos por aqui (teve que viver no exterior) até à morte, sendo resuscitado só há poucos anos por dois músicos fans (Mario Adnet e Zé Nogueira) no antológico CD ‘Ouro Negro‘.)

A turma do samba envergonhado metido a ‘cool jazz’ de branco  (pois sim! Como se o jazz já não fosse música negra) se apropriou mesmo foi de um fenômeno musical que outros, muitos outros músicos inventaram antes deles.

O que Hugo Sukman fala – num discurso enviezado, gaguejado por ser pisado em ovos, quase subliminar – é que a classe média do Rio de Janeiro – do Brasil, digamos assim – não se sentia…ops!… ‘representada‘ no Samba convencional, no Samba popular afro-brasileiro e daí teria sido… necessário que esta ‘jovem geração’ – justo esta, formada por ‘eleitos’ sabe-se lá por quem – de criadores forjasse a tal da Bossa Nova.

‘por aqui’,  saturado deste discurso malandro, esta auto-mitificação recorrente deste pessoal, eu mesmo já havia pinçado no meu livro uma fala identica – quase literalmente repetida por Hugo Suckman agora –  de Tom Jobim arrotando presunção numa entrevista, citada antes de mim em ‘Sambeabá, o Samba que não se aprende na escola’ de Nei Lopes. Diz Tom, batendo nesta nota só:

_” O autêntico Samba negro é muito primitivo…. Já a Bossa Nova é calma e contida. Ela conta uma história, tentando ser simples, séria e lírica… “queremos torná-la (a música do Samba) tranquila para que ela possa entrar nos estúdios de gravação.” …”Pode-se dizer que a Bossa Nova é o Samba limpo, depurado… E aí o problema é saber como compor sem perder o balanço.” (grifos do autor)

Pura pretensão elitista – ou mesmo racista quando associa, diretamente, os conceitos negro e primitivo ou mesmo negro e sujo, impuro -, nesta espécie de manifesto bossanovista, como se pode observar claramente, Antônio Carlos Jobim omitia (ao que parece, deliberadamente) o fato de que vários autores – negros e ‘primitivos’ em sua maioria- já haviam inserido no Samba, muito tempo antes dele, a calma, a simplicidade, a seriedade, a tranquilidade e o lirismo (marcas evidentes da obra de Angenor de Oliveira, o Cartola, por exemplo).”

Ai, como dói a empáfia arcaica e tão pouco intelectualizada deste pessoal, que esquece que a mentira – ou o exagero – sempre tem perna curta.

Pobre Samba meu…

Spírito Santo

Abril 2011

Fumu’Kêto quer dizer mulher que manda


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Mulher soba- etnia Luena – região do Dilolo e Alto Zambeze (Angola) -Foto de Elmano Cunha e Costa -Instituto de Investigacao Cientifica Tropical, Arquivo Historico Ultramarino, Lisboa.

Afinal, seriam ou não felizes as belas mulheres do Fela Kuti?

Promessa é dívida. Na animada conversa que se seguiu à postagem feita por Toti Angola no facebook de um mosaico com lindas e felizes mulheres do suposto harém do músico nigeriano Fela Kuti, a opinião mais recorrente das mulheres participantes dizia respeito à ojeriza que a maioria sentia pela poligamia.

No contexto de minhas empolgadas ponderações, aludindo ao fato de que a questão não podia ser compreendida assim, de forma tão simplista ou peremptória, me lembrei de um livro da época do Portugal salazarista que eu havia lido nesta minha eterna pesquisa sobre cultura angolana. O precioso livro, escrito por um dileto  e meticuloso funcionário da agencia do ultramar português, mostrava exatamente o quanto esta questão é marcada por buracos bem ‘mais em baixo’.

Melhor que apenas opinar, resolvi compartilhar então o trecho do livro que toca mais diretamente neste ponto nevrálgico do assunto, ressaltando um aspecto mais importante para mim, que é aquele relacionado ao equívoco fatal no qual a gente sempre acaba caindo quando perde de vista o contexto em que uma prática social, cultural, humana enfim deve ser inserida, antes de ser tachada de reacionária, odiosa ou execrável.

Vejam vocês mesmas – e mesmos – como quem cochicha rabo espicha:

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Dizia o tuga:

…”Entre algumas tribos internadas da Luanda e do Moxico, existem ainda sobados femininos (“fumaquetos”); no entanto o poder é exercido pelo marido (“Mussunda”) como seu primeiro ministro ou conselheiro.

Nestes mesmos povos, a mulher soba é quem escolhe o homem para ser seu marido, podendo, porém ter outros, não só na aldeia onde reside, como também nas aldeias distantes e como seus representantes.

Estes segundos homens são considerados ‘amantes’, e, como tal reconhecidos pelo verdadeiro marido.

Devemos salientar, no entanto que estes vestígios de poliandria se manifestam também em mulheres não sobas, mas que, de uma maneira geral vão rareando. Por outro lado, tendem a desaparecer os vestígios de ginecocracia, sendo muito raros os sobados femininos.

Entre os “maiacas” (povo de “Muata Ianvua”) existe também a mulher chefe, não podendo, no entanto, exercer a poliandria propriamente dita. Escolhe um marido (“mussunda”) com quem vive na aldeia da capital, até que dele tenha dois filhos. Em isto acontecendo, este primeiro marido é, por assim dizer, reformado, indo reger uma aldeia ou povo distante. A mulher chefe escolhe então outro marido que será, por sua vez, substituído nos mesmos termos.

O seu marido não pode exercer a poligamia…”

(Capitão Ivo de Cerqueira: “Vida Social Indígena Na Colônia de Angola – usos e costumes”. Divisão de Publicações e biblioteca- Agencia Geral das Colônias. Lisboa/ 1957)

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 Que fique claro antes de mais nada que isto não é – ou era- de modo algum um hábito cultural fortuito, uma exceção à regra das práticas sócio-culturais angolanas, pelo menos nesta região (sul). O amplo contexto em que esta prática se dá – ou se deu – é muito bem aprofundado por este raro e surpreendente relato do diligente funcionário portugues, que insere a questão feminina nestas sociedades, sutilmente matriarcais como sendo a chave estrutural mais antiga e fundamental .

É fácil constatar isto observando a estruturação da família da maioria dos povos dali. É o mesmo Capitão Ivo de Cerqueira do alto de seus bigodes curvos – sei lá se os tinha – quem diz:

“…A família gentílica, de uma maneira geral, compõe-se dos seguintes membros:

1º -Chefe –‘Epata’ – ‘Século’ (tio), etc, sob o ponto de vista social; ‘Tata (pai), tratamento familiar, por antonomásia.

2º – Mãe;

3º- Seus irmãos uterinos;

4º seus sobrinhos, filhos das irmãs uterinas;

5º Seus primos, filhos das irmãs uterinas da mãe.

Os filhos de um indivíduo pertencem à família da mulher que os deu à luz. Enquanto pequenos, os pai os irá sustentando. Quando adultos, fixarão residência na aldeia da mãe sob a tutela dos tios maternos, de quem devem herdar o vínculo e os haveres.

O Pai não tem, de resto, autoridade alguma sobre os filhos, podendo, quando muito repreendê-los,se cometem pequenas faltas. Em caso de delitos graves ou mesmo danos, que devam ser reparados, é por eles responsável o tio materno, que castigará os delinqüentes conforme as circunstancias.”

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Juro por Deus que quando li isto entendi perfeitamente certos aspectos da minha infancia cercada de mulheres tias mandonas, todas vindas da roça, ciosas em mandar em mim e me proteger na ausência involuntária do meu pai e apesar da minha mãe. Um contexto de mulheres mandando que sempre vejo com muita frequencia no relato da infancia de muitos dos meus amigos, mesmo os que tinham pais vivos.

Fumu’Kêto!

(E a propósito – não espalhem para ninguém não, viu? – mas ando utilizando com algum sucesso elementos desta estrutura peculiar da família angolana tradicional, que é evidentemente muito antiga, secular mesmo, como artifício metodológico para identificar funções e características pessoais dos personagens mais importantes da saga do Kilombo de Palmares (uma sociedade que a julgar pelos poucos indícios confiáveis, foi inaugurada por uma mulher africana).

Nganga Zona, um destes personagens, por exemplo, que vinha a ser segundo presumo, irmão da mãe do rei Nganga Nzumba (que seria, simplesmente o título nobiliárquico Nkanga Nzumbi), teria sido portanto o ‘século’ (tio) no âmbito da família, aquele que detinha o mando na comunidade, com algumas prerrogativas para indicar ou sugerir o sucessor do velho rei.

Boa parte dos conflitos que redundaram na morte por envenenamento do velho Nganga Nzumba (nos quais este ‘tio’ Nganga Zona aparece claramente para mim como tendo sido o mandante) muito provavelmente se deram por questões ligadas à sucessão do velho rei, questões estas que, com alguma certeza estavam relacionadas ao caráter matrilinear daquela sociedade tipicamente angolana

Alguma desobediencia aos preceitos tradicionais estabelecidos em suma, se traduzindo em conflitos que fragilizando a integridade da rede de kilombos, teria facilitado a organização de forças invasoras (com as quais o ‘tio’ Nganga Zona, também teria colaborado) culminando com a morte em combate do Nkanga Nzumbi da vez (Zumbi‘) aquele que ficou registrado na história como tendo sido o último rei-herói do kilombo aquele que, segundo as rígidas regras de sucessão e herança por linha colateral feminina seria o filho da irmã do velho rei e, portanto o sucessor legal.

Tudo talvez desencadeado pelo não cumprimento dos direitos remotos e ancestrais de uma poderosa mulher, certo?

Divaguei. Eu sei. Mas não me tomem como doido não.  A história torta que contaram para a gente é que talvez seja pirada, alienada, fantasiada talvez do que nunca teria sido. Afirmo como kota que sou: Tudo que eu falei um dia destes comprovarei.

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O fato é que, não sei vocês, mas para mim a mera hipótese do homem africano – ou o homem ‘negro’, por extensão – ser, necessária e atavicamente machista por conta de sua cultura ancestral, cai totalmente por terra à luz destes relatos.

Ao que tudo indica tanto o feminismo militante – quanto o machismo renitente – expresso por certos grupos do movimento negro, não têm nada a ver com a África real, devendo ser mais facilmente atribuído a uma exposição destes grupos ao convívio e influencias tipicamente pequeno-burguesas da chamada sociedade anglo-saxônica ou judaica cristã ocidental.

Aparentemente há muito mais modernidade nos modos de lidar com esta questão na cultura dos povos angolanos mais…’tradicionais’, mais ‘primitivos’ digamos assim, do que nesta nossa presunçosa cultura de moderninhos debatedores das páginas de ‘descolados’ sites feito o facebook.

Perdidos na busca de uma modernidade vazia que – sem nenhum juízo de valor – não diz respeito, de modo algum, à nossa suposta cultura ancestral africana, andamos envoltos numa ignorância imperdoável, ouvindo o galo desta modernidade vadia cantar, mas sem saber onde.

Alienados envolvidos em “coisas de branco’ (no mal sentido, claro) como diriam – aí sim com certa dose de razão – a negadinha mais radical.

Tuala Kumoxi!

NOTA IMPERDÍVEL: Nos comentários abaixo deste post há um profícuo debate entre este Titio que vos fala (um leigo de tudo, como vocês sabem) e um pós doutor antropólogo de Brasília que se assina João da Silva, mas que soube depois se chamar na verdade Adolfo (não me disse o sobrenome)

O Debate é um excelente exercício de aprofundamento do assunto, do seu aspecto, digamos assim, mais antropológico, deixando entrever resquícios bem curiosos de teorias algo discutíveis da parte de nossa academia (representada aqui pelo DrAdolfo ‘João da Silva”). Não deixem de ler!

Spirito Santo

Abril 2011

As linguas humanas nasceram na África, diz ‘Science’. Ué? Mas não nasceram na Torre de Babel?


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( ‘Torre de babel’, óleo de Pieter Bruegel)

Deve ser por isto que já tem etnolinguista brasileiro dizendo que não! Que não! Que a fala humana não nasceu na África não!

“Segundo o Antigo Testamento (Gênesis 11,1-9), torre construída na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes. A decisão era fazê-la tão alta que alcançasse o céu. Esta soberba provocou a ira de Deus que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.

Este mito é, provavelmente, inspirado na torre do templo de Marduk, nome cuja forma em hebraico é Babel ou Bavel e significa “porta de Deus”. Hoje, entende-se esta história como uma tentativa dos povos antigos de explicarem a diversidade de idiomas. No entanto, ainda restam no sul da antiga Mesopotâmia, ruínas de torres que se ajustam perfeitamente à torre de Babel descrita pela Bíblia”

                            (http://www.historiadomundo.com.br)

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Não esperaram nem a notícia esquentar e já nos chegam as restrições. ‘Etonolinguística‘ é uma lista da internet que eu sigo por dever de ofício (sou bisbilhoteiro profissional), mas pouco leio porque me parece um grupo de indigenistas “pouca prática” que julgam que a etnolinguística se resume a estudar linguas… indígenas do Brasil, de preferencia línguas mortas, faladas por meia dúzia de almas.

Sempre espero que pinte algum trabalho sobre kimbundo, umbundo, línguas africanas que informam uma parte do português do Brasil (mais do que qualquer língua indígena daqui), mas nada.

Agora, quando um estudo publicado na conceituada revista científica ‘Science‘ dá conta de que a fala  humana começou a se desenvolver a partir da África- o que é uma obviedade ululante, já que já se sabe que o ser humano nasceu lá – um etnolinguista brasileiro estrila, antes mesmo de ler direito a interessante teoria.

Como assim? Vale perguntar. Porque não na África?

E olha só que meigo:

A matéria saiu ontem em O Globo, mas eu já falava para a esposa em casa:

_” Aposto que o Ali Kamel não vai deixar barato”

Pronto: Bingo! Não deu outra. Nem 24 hs. Também O Globo de hoje, uma dupla de articulistas do time kamelista (um antropólogo da Ufrj e um sociólogo das Fiocruz replicam, mais uma vez a requentada pesquisa do geneticista mineiro Sergio Pena da Ufmg) que lida às avessas, supostamente prova que os negros do Brasil tem o DNA mais europeu do que africano, querendo, evidentemente desqualificar qualquer pleito por ações afirmativas baseadas na constatação evidente de que há racismo no Brasil.

(Veja a matéria de O Globo aqui)

E mais: A matéria tendenciosa de o Globo aparece já, hoje mesmo no site do Ministério daSaúde (via blog da Dilma)

Veja a repercussão no site governamental

Ay caramba! Já linkei ontem o Ali Kamel com o Exército Brasileiro (Bibliex) que publicou (com a nossa grana) o ‘best seller dele ‘Não somos racistas’. Agora linko uma matéria da ‘praia‘ editorial também kamelista (mais um líbelo anti cotas raciais) com o… Ministério da Saúde (e …espera lá…da saúde porque?) do mesmo Governo do Brasil.

Gentem! Pirei? Será que eu estou vendo coisas, esquizofrenicamente imaginando teorias da conspiração?

Mas calma aí: O Ali Kamel não um cara de direita? Mais calma ainda: O governo da Dilma não é de Esquerda? Mas…não, não, não me queimem a mufa: Nós, os brasileiros afinal, somos ou não somos racistas?

_” Estão me cafundindo!” _ diria Mussun, meu assessor de incongruencias reveladas.

Bem leiam aí o argumento do tal linguísta e durmam com um barulho destes

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(Extraído da lista de internet ‘Etnolinguística)

“Obrigado, Felippe, por compartilhar conosco a matéria da Folha. Este é outro assunto lingüístico que está circulando amplamente na imprensa no momento. Por exemplo, no NYTimes:

(Veja matéria original aqui)

Como (ex-)jornalista, eu acho lamentável o tratamento que os principais jornais brasileiros dão a tais assuntos. A Folha, em particular, é geralmente mal informada, extremamente superficial, e seus artigos tendem a ter este tom de embasbacamento acrítico frente ao cientista.

O NYTimes teve pelo menos o cuidado de entrevistar lingüistas — incluindo o Brian Joseph, um dos principais nomes da lingüística histórico-comparativa. Ótimo que a Folha tenha entrevistado um geneticista, mas seus palpites sobre lingüística histórico-comparativa no Brasil deveriam ter sido calibrados pela opinião de algum lingüista da área.

Um dos principais senões da ‘teoria’, para mim, é que parece basear-se na idéia de que a mudança lingüística se dá unidirecionalmente, em direção à simplificação no tamanho dos inventários fonológicos, quando, de fato, exemplos do contrário são comuns. Mesmo línguas estreitamente aparentadas podem diferir substancialmente na quantidade de fonemas (por exemplo, o português — em contraste com o espanhol — adquiriu uma série inteira de vogais nasais, a partir de vogais orais seguidas por consoantes nasais, geralmente em coda, que deixaram de ser pronunciadas como tais).

Mudanças na organização silábica podem levar ao desenvolvimento de séries completas de consoantes — como quando seqüências do tipo Cw e Cj resultam em séries de consoantes labializadas e palatalizadas, etc. — ou vogais, ou a tonogênese, etc.

Ou seja, para usar a linguagem da Folha, a teoria não parece ‘bater’ com o que se tem aprendido com o estudo do desenvolvimento histórico interno das famílias lingüísticas.

Mas estas são apenas observações ligeiras de alguém que ainda não leu detidamente o artigo da Science. Para uma resenha mais qualificada (de fato, um parecer) sobre o artigo, demonstrando algumas de suas limitações, dêem uma olhada no seguinte link:”

—————

Viram só? O cara nem leu direito o artigo desta que é uma conceituadíssima revista, referencia mundial no assunto e já sai questionando com meia duzia de conceitozinhos cabulosos.

Se presunção e arrogancia matasse… E, afinal de contas, porque será que ele questiona a teoria assim tão ressentidamente? Será que é só porque este salto qualitativo da humanidade se deu na África?

Estranho, não é não?

Spírito Santo

Abril 2011

Plantão de Bobagens 01 e 02


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Tá legal. É abobrinha sim, mas vejam bem: É recheada!

No ar:

O Plantão de Bobagens

(sempre sob o patrocínio da inconseqüência e da absoluta falta do que dizer)

Bobagem número 1

O orgulho

Aquele que reflete:

_” O orgulho é como colesterol. Tem o bom e o ruim. O bom é aquele orgulho que te salva da depressão absoluta, aquilo que se chama de auto estima, amor próprio, instinto de sobrevivência, essas coisas. Você toma bordoadas da vida, enfrenta a má sorte, a má fase e segue de pé, catando cavaca mas sem se estabacar no chão.

O sujeito que tem o bom orgulho sabe que tem atributos para insistir, continuar a viver. É o cara que tem energia interior, perseverança porque acredita em si mesmo, nas poucas, mas fundamentais, qualidades do seu ser.”

O que ouve:

_ “E o mau orgulho?”

Aquele que reflete:

_” Ora, o mau é o falso orgulho. É que orgulho mesmo, de verdade, só existe um. Acho que é como colesterol também. Acho que um dos dois devia ter outro nome. O mau orgulho é aquele que serve de capa, de camuflagem para a insegurança, pro recalque. É um dos sentimentos mais baixos que um ser humano pode sentir, sabia? Um horror.

O mau orgulho é aquele traço de caráter que faz o sujeito ser intolerante, prepotente, autoritário. Sabe os ditadores? Pois é. São portadores potenciais de mau orgulho. O sujeito não tem coragem de enfrentar os desafios da vida, se expor, competir. É um fraco. Tem como principal meio de vida, principal estratégia, colar em alguém que ele imagina que tem os atributos que ele pensa que não tem. É como um parasita. Sabe? Gruda na árvore e fica ali, sugando a seiva que a outra elaborou com tanto esforço, até secar a coitada, até morrerem os dois.

O portador do mau orgulho, na verdade, é um covarde, um doente, meio psicótico. Sofreu um trauma qualquer na infância, uma dificuldade assim mais forte, geralmente uma rejeição e pronto, em vez de superar o percalço, enfrentar o problema, decide fugir por um desvio, buscar um atalho.”

O que ouve:

_ Atalho? Mas e daí? Que mal há em cortar o caminho?”

Aquele que reflete:

_” Ah. Pensa, cara! Você vai descobrir que o problema é que o atalho do mau orgulhoso é maquiavélico, se baseia em ser uma sombra, um duas caras, sabe como é? Ou então ele te persegue e passa como um trator por cima de você, te atropela sem nenhuma hesitação. Ele pode ser um cara muito nocivo, sabia? Porque, ele é basicamente um egoísta. Quer um exemplo?

O mau orgulhoso tem pavor que a sua personalidade insegura seja percebida por alguém. O que ele faz? Fica autoritário, não deixa ninguém falar. Os bom-orgulhosos mais experientes sabem como agir nestes casos, largam ele de mão, falando sozinho mas, os menos avisados, geralmente mau orgulhosos também, se juntam em torno dele como mariposas na lâmpada, criando as condições para ele exercer sua prepotência.

Você pode não saber mas, grandes flagelos sociais já foram perpetrados por verdadeiras hordas de malucos mau orgulhosos. O racismo, o Nazismo, essas coisas, geralmente são gerados na cabeça de um doido desses. O cara foi chamado de feio, de orelhudo no colégio e pronto. Guarda aquela mágoa á vida inteira, é capaz de almejar obstinadamente a presidência da república só para poder provar que os “Orelhas de Abano” são superiores a todos os outros. O cara pode mandar exterminar todos os “Orelhas Pequenas” só por causa desta sua covardia infantil.”

O que ouve:

_“ Você tá maluco!”

Aquele que reflete:

_” Tá bom. Vai dizer que você nunca teve um amigo, um conhecido assim? Uma namorada,? Um chefe? Eles te levam a loucura, cara. São críticos agressivos, especialistas em descobrir seu pontos fracos para minar sua auto-estima. Para quem é religioso, são como o diabo tentando convencer Deus a fazer algumas maldades. Tudo pra te espezinhar, te diminuir, sim, por que, o maior temor deles é ter que se defrontar com um bom orgulhoso que tope a briga e acabe descobrindo sua fraqueza.

O mal é que os bons orgulhosos costumam ter uma generosidade enorme, bem babaca e acabam sendo compreensivos demais, perdoando as armações desses malucos. Senão, não ia ter jeito, haveriam guerras majestosas entre os orgulhosos dos dois lados.
Pode crer.”

Bobagem número 2

Um urso do Baú.

O filho de um conhecido do Raul Seixas me contou uma cena antológica que, talvez não tenha sido registrada por ninguém ligado ao assaz mitológico artista.

No auge de sua dramática decadência de viciado em todas as drogas do mundo, Raul vivia muito em Miguel Pereira, interior do Rio, onde ele e um de seus parceiros tinham casa. Dizem que Raul vivia bêbado, perambulando pela cidade como um mendigo, e tinha que ser sempre recolhido pela mulher ou algum amigo, emborcado numa calçada qualquer, a qualquer hora do dia ou da noite.

Num desses dias, ele surrupiou um casaco de peles da sogra (um vison, penso eu) vestiu aquilo e saiu bêbado pelas ruas de Miguel Pereira. Os vira-latas da rua, vendo aquele enorme, estranho e peludo bicho cambaleante, atacaram Raul em bando, como uma matilha de lobos atacando um urso.

Morderam loucamente o casaco, até destroçá-lo, fazendo-o em tiras completamente. Deixaram o urso lá, prostrado, vencido, arfando aquele bafo de caverna que os ursos tem e saíram pela rua latindo eufóricos, vitoriosos.

Raul ao que parece saiu incólume. Sabe-se lá porque Deus sempre protege os bêbados e as crianças.

Da reação da sogra, pouco se soube (fazer o sinal da cruz antes de imaginar)

A cena, presenciada apenas por poucas pessoas e rigorosamente verdadeira (apesar do seu aspecto totalmente surrealista) talvez seja uma das mais fiéis representações daquela alma insólita e genial que foi o Raulzito. Bons tempos nos quais os malucos tinham beleza.

(E esta não foi uma bobagem clássica; na acepção da palavra.)

Por hoje é só.

(O plantão de Bobagens pode voltar a qualquer momento, em seu horário normal ou em edição extraordinária.)

Spírito Santo

Abril 2011

Musikfabrik e múltiplas linguagens


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Alunos do Musikfabik fabricam marimbas (xilofones) no ateliê da Uerj

Musikfabrik e múltiplas linguagens

Tema: Palestra para Canal Futura realizada em Teresópolis 02/Julho 2010 

(O texto expresso na verdade pela exibição do filme do projeto (veja o link) e por um curto e delicioso papo com a platéia de educadores negros renidos pela Futura, obviamente, não foi este mas para efeito de uma eventual publicação foi este o texto que enviei para os organizadores)

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Sob o curioso nome de Musikfabrik (ou ‘Fábrica Livre de Construção Musical e Outros  Estranhos Produtos do Som’) o músico e arte educador Spírito Santo idealizou em 1995 na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) uma oficina de arte que acabou virando um curso, o qual por conta do sucesso obtido, se transformou por fim numa espécie de projeto de extensão de fato, com inovadoras e especiais características, que já dura 15 anos (na verdade 20 anos neste ano Nota de 2015)

Aprendendo e ensinando, especializando-se na pesquisa e no exercício da linguagem musical aplicada como ferramenta pedagógica adaptada às mais variadas finalidades e circunstâncias o Musikfabrik a partir de então vem capacitando músicos, artesãos, musicoterapeutas, atores de teatro e circenses, arte educadores, educadores sociais, professores e diversos outros tipos de profissionais interessados na busca de novas maneiras de se inserir a música na educação, no trabalho, na inclusão de crianças e jovens, na vida social e cotidiana enfim. O método aplicado é a parte mais inusitada da pedagogia do Musikfabrik:

Aprende-se a partir do contato físico com a música, ou seja, todos os conteúdos (física  elementar – acústica, mecânica, etc. – além de história, etnologia, organologia, etc.) são  repassados durante o processo de criação e/ou recriação artesanal de instrumentos de música das mais variadas origens (alguns até mesmo inventados pelos alunos).

A partir de 1999 o projeto decidiu formar com alunos um grupo musical representativo de seu trabalho, mas que tivesse um perfil realmente artístico e não exatamente apenas ‘institucional’ como as bandas de projetos sociais mais convencionais.

Alexandre Gabeira formando do curso em Comunicação Social na Uerj em 2001, escolheu o Musikfabrik e as suas características acima descritas, como tema para o seu trabalho de fim de fim do curso de comunicação social na própria Uerj, flagrando um período especial desta fase do projeto.

Fábrica Livre de Construção Musical e outros estranhos Produtos do Som

Entreveros nas entrelinhas

Em 2001, mesmo ano da realização deste filme, a Uerj por intermédio de sua Sub-Reitoria de Extensão e Cultura (SR3) decidiu admitir o Musikfabrik oficialmente como um projeto de extensão de direito. Os detalhes inusitados desta experiência introduzida na universidade em 1995, iniciada, porém muito tempo antes, em meados da já distante década de 1970, pelo Grupo Musical Vissungo (do qual, como vimos o Musikfabrik é o legítimo sucessor) é especialmente emblemática neste momento quando, no ensejo da aplicação da lei 10.639 se admite enfim discutir, com alguma profundidade a intrínseca relação existente entre Cultura, Educação e exclusão sociorracial no Brasil.

Como se pode observar mais atentamente agora, grande parte dos enormes desafios estruturais que a Educação brasileira enfrenta hoje estão de algum modo relacionados à maneira como lidamos com questões ligadas à qualidade de nosso programas educacionais. Neste particular o papel de metodologias e tecnologias baseadas na inovação tem sido bastante ressaltado.

Há que se ressaltar do mesmo modo, contudo que no bojo destas inovações, o papel de dispositivos de linguagem ‘informais’, extraídos de nossa própria cultura – exatamente aqueles que foram, por tanto tempo, desqualificados e rejeitados pela academia convencional – deverão daqui para frente se tornar cruciais – ou mesmo decisivos.

A questão é antiga: Cultura e Educação são – ou deveriam ser – instancias aparentemente afins, uma quase reflexo da outra num curioso vice-versa, contudo, estranhamente (numa espécie de conflito de linguagem, falha de comunicação, um ‘problema de relação’, diríamos), costumam estar, completamente dissociadas entre si na prática.

O caso do Musikfabrik é particularmente significativo neste aspecto.

Até então uma vaga proposta, ainda sem nome na ocasião, com algum viés ‘construtivista’ (um modismo teórico na década de 1990), em condições normais e a princípio, o Musikfabrik poderia ter sido visto no momento de sua inserção na universidade, como uma ação cultural curiosa e inusitada, cheia de novidades interessantes no que diz respeito à oxigenação, ao lançamento de alguma luz sobre problemas socio-pedagógicos importantes, no campo do que se chama hoje de ‘múltiplas linguagens’ (na época falava-se em ‘múltiplas inteligências’, o que pode significar a mesma coisa). Uma experiência típica de extensão universitária propriamente dita (identificada, aliás com o espírito das correntes acadêmicas mais avançadas da época).

No entanto, mesmo observando a eventual índole progressista destas correntes acadêmicas na época, considerando-se que, nem mesmo a questão das Cotas Raciais na Educação havia ainda sido realmente posta em discussão, o fato é que, por razões de algum modo previsíveis, a proposta Musikfabrik não foi assimilada facilmente como uma inovação em si, não sendo nem mesmo associada, de algum modo à Arte Educação ou a questões educacionais mais recorrentes.

Para escapar desta armadilha do contexto a proposta tinha, portanto que contornar importantes e complicados entreveros:

Pra começar, num ambiente tipicamente elitista, o currículo da experiência carregava em si o ‘estigma’ de ser uma ação calcada na cultura ‘tradicional’ brasileira (categoria na qual, de forma reducionista, se classifica o artesanato e a música ‘popular’) e – o que é pior – profundamente voltada para a pesquisa e a difusão da chamada ‘Cultura Afro-Brasileira (aspecto que, só agora com uma lei específica o Estado brasileiro começa a admitir como sendo fundamental à evolução de nossa Educação)

Estes dois fatores, à luz da citada arrogância elitista e dos preconceitos ainda hoje típicos de certos setores de nossa academia, desqualificariam todas as eventuais qualidades metodológicas inovadoras da proposta, lançando-a no limbo, no gueto onde se costuma isolar manifestações culturais deste tipo: O lugar do negro, o ‘folclore’ residual e ‘primitivo’, o ‘objeto’ – e nunca o ‘sujeito’- de estudo’.

Foram estas algumas das sutis entrelinhas que envolveram o processo de inserção do Musikfabrik na Uerj de sua implantação acidental em 1995 até a sua aceitação como projeto de extensão de fato em 2001.

Musikfabrik graduando

Para começar, as experiências anteriores informavam que a entrada de uma proposta de semelhantes características num ambiente universitário, naturalmente – embora sub-repticiamente – racista, por mais hospitaleira que estivesse sendo a acolhida, atrairia algum tipo de reticência. Na verdade os preconceitos eram inúmeros e tiveram que ser meticulosamente identificados e avaliados um a um, passo a passo.

O desafio de ser assimilado por um contexto (a universidade) que era, ao mesmo tempo, hospitaleiro e hostil (receptivo ao conteúdo original e moderno da proposta, porém reticente quanto a determinados aspectos de sua estética, de sua forma, foi ironicamente o fator mais positivo, o mais estimulante de todo o processo, aquele que abriu de vez o caminho para que a experiência escapasse das travas do meio.

(É bastante provável que no curso da aplicação da lei 10.639, no ensejo da identificação de metodologias adequadas à presente realidade, as novas demandas político pedagógicas surgidas no processo tenham que se valer de experiências culturais menos convencionais como neste caso.)

O primeiro ‘insight’ – político estratégico pode-se dizer – do Musikfabrik foi de início não deixar transparecer, explicitamente, nada de ‘tradicional’, ‘popular’ ou ‘afro-negro’ na denominação do projeto. Vem daí, desta tática sutil a escolha do germânico e sonoro nome ‘Musikfabrik’ (fábrica de música).

Vem daí também a escolha de um dístico ambiguamente  ‘construtivista’ (‘fabrica livre de construção musical e outros estranhos produtos do som’), ao contrário de outras enfáticas – e neste caso ingênuas porque panfletárias – declarações de militância sócio racial.

Cuidava-se também neste caso, de ocultar um aspecto que, curiosamente também causava certa ojeriza na clientela universitária típica: A relaçao intrínseca da metodologia com técnicas de trabalho manual, artesanal, funções normalmente associadas ao trabalho de serviçais subalternos – negros no caso – o vício traumático e renitente da aversão ao trabalho físico, (‘desqualificado‘, ‘inferior‘) em relação ao trabalho intelectual (‘especializado’, ‘superior’), um resquício evidente de nossas relações sociais no tempo da escravidão.

Sem alterar em nada a ideologia e os seus conteúdos originais, a proposta ganhou assim trânsito mais fluente no ambiente universitário, já que passava a ser identificada – pelo menos no nome – como uma experiência culturalista não radical ou mesmo despolitizada, no sentido sócio racial do termo.

Musikfabrik doutorando

O segundo ‘insight’, mais político ainda, foi o empenho na arregimentação, no âmbito da própria universidade, de aliados estratégicos com os quais as características metodológicas mais importantes da proposta, puderam ser traduzidas, debatidas, minimamente sistematizadas e fundamentadas, de modo a poderem ser de algum modo compreendidas e reconhecidas do ponto de vista destes agentes acadêmicos (a rigor afinados com o pensamento hegemônico da academia convencional). Tentava-se cumprir deste modo a vocação precípua de um projeto de extensão de fato para conquistar território, reconhecimento e legitimidade nos campi.

É neste aspecto em especial que o caráter linguístico da estratégia do Musikfabrik pode ser mais bem compreendido, ressaltando-se que, sendo este fator estritamente metodológico, o que vale para uma linguagem – no caso a linguagem musical – guardadas as devidas proporções, vale rigorosamente para todas as outras. As analogias entre esta experiência linguística e outras experiências de arte educação, por estas constatações, podem ser bastante diretas.

Música – e mais estritamente – Música Afro Brasileira (marca indelével da proposta do Grupo Vissungo, antecessor do Musikfabrik) percebemos durante o processo, que era um conceito tratado de forma muito demarcada, quase dicotomizada em relação a outros tipos de ‘música’, quando saía do campo da Cultura (território supostamente livre da criação humana) para o da Educação (território restrito do saber ali constituído como norma culta).

Assim, os conservatórios e as faculdades de música de forma radical, passavam – e na verdade, segundo vários relatos de alunos universitários do Musikfabrik, ainda passam – a formular os seus programas e metodologias, a partir de um conceito de Música inteiramente decalcado, imitado, ‘macaqueado’ no que se convencionou julgar como sendo música… na Europa . Uma abordagem aculturada, elitista no mal sentido, envergonhada portanto e bastante impertinente.

Não é fortuito se observar também que isto ocorre, quase que da mesma maneira, com outras linguagens não sacralizadas, como a Literatura Oral e a Medicina Tradicional, por exemplo sugerindo que o ensejo de se aplicar conteúdos relacionados à cultura negra em nossa educação convencional, de forma sistematizada como a lei 10.639 preconiza, exigirá que muito esforço sócio pedagógico seja empreendido ainda.

E esta pode ser uma das chaves da questão porque a cultura – aqui entendida como sendo um sistema de linguagens interconectáveis – diz respeito, rigorosamente a saberes construídos e praticados por todas as pessoas, todos os seres humanos, independente de sua condição ‘racial’, social, ou qualquer outra instância ou classificação artificialmente construída. Tudo no âmbito vasto da cultura humana pode ser, portanto apreendido, sistematizado e posteriormente transformado em Ciência ou Norma Culta.

(É curioso – embora providencial – que no caso da referida lei 10.639, uma constatação tão óbvia como esta, tenha que ser implementada por força de um dispositivo federal.)

Quando nos damos conta de que na formação cultural da sociedade brasileira, inúmeras outras culturas que não as da Europa compareceram em grande – e, às vezes, imensa medida como no caso da cultura africana – o problema do anacronismo dos nossos processos de ensino-aprendizagem aparece mais nítido ainda: A dicotomia criada – um falso dilema, convenhamos entre Sabedoria Tradicional e Educação Formal – o foi como instrumento de exclusão social, uma forma de, ao desqualificar a cultura de uns (no caso a maioria) tornar hegemônica a cultura de outros (no caso a minoria mandante). Um problema colonial, anacrônico demais para uma sociedade que se pretende emergente, moderna.

Os detalhes deste inusitado processo aqui sucintamente descrito, sugerindo maneiras diferentes – e menos maniqueístas ou simplistas – de se abordar e transmitir as bases elementares de alguns conteúdos educacionais mais recorrentes (história, física elementar, educação ambiental, etc) por meio de metodologias tradicionais ou não, extraídas da herança cultural africana trazida para o Brasil, é enfim a modesta contribuição que o Musikfabrik pode dar a este debate sobre múltiplas linguagens aplicadas na educação.

“Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos”
(‘Duquesa em ‘Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll)

SpíritoSanto
(Músico e arte educador)
02 de Julho de 2002/ notas em Julho de 2010

BRIC A BRAC – África agora também é BRICs


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Orgulho Africano

Entre outras conclusões possíveis (as idiossincrasias do capitalismo entre elas) esta do orgulho africano é digna de ampla comemoração por parte de todo homem e mulher, negro ou branco que sofreu, direta ou indiretamente as ofensas e agruras da escravidão e do racismo.

O ingresso da África do Sul no grupo de países economicamente emergentes no mundo (BRICs) é a pá de cal derradeira no colonialismo clássico, aquele que gerido por países da Europa representou durante séculos e séculos, à custa dos nosso sangue, nosso suor e nossas lágrimas a poderosa Ordem Economica Mundial .

Os ‘brancos’ donos do mundo cairão de sua pose hoje, 14 de Abril de 2011

“Orgulho africano” era o nome de um hino da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) que eu cantava junto com os parceiros do Grupo Vissungo em memoráveis shows que mobilizavam a rapaziada negra e antiracista nos anos 70 e 8o.

As melodias destes hinos, em plena refrega da luta anticolonial, eram inteligentemente tiradas de hinos das missões religiosas que já pululavam por lá, em África. A letra, pregava o panafricanismo e a união de todos os africanos contra o colonialismo.

Cantemos mais uma vez pois:

“Sinto-me orgulhoso de ser africano

meus antepassados todos nasceram aqui

Filhos legítimos do mundo-rainha

Minha África ei oiê!

_Moçambique ôie!

_Oiê, Oiê!

_Guiné Bissau ôie!

_Oiê, Oiê!

_Angola ôie!

_Oiê, Oiê!

_Tanzânia ôie!

_Oiê, Oiê!

_África do Sul ôie!

_Oiê, Oiê!

_Zimbabwe ôie!

_Oiê, Oiê!

_Namíbia ôie!

_Oiê, Oiê!

_Nigéria ôie!

_Oiê, Oiê!

_Costa do Marfim ôie!

_Oiê, Oiê!

_Cabo Verde ôie!

_Oiê, Oiê!

_Porto Príncipe ôie!
_Oiê, Oiê!

_Senegal ôie!
_Oiê, Oiê!

“Sinto-me orgulhoso de ser africano

meus antepassados todos nasceram aqui

Filhos legítimos do mundo-rainha

Minha África ei oiêêê…!”

Spírito Santo

Abril 2011