O incrível Nzinga Mbemba e a inauguração do Kongo católico

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Mais pílulas da história do antigo Reino do Kongo e de Angola para vocês

Eu sei. Eu sei. Você é daqueles que só concebem africanos de tanga e arco e flecha na mão…ou ornamentados como pais de santo de candomblé. Eu sei também que no colégio você só estudou – assim mesmo bem por alto – a história dos reis de Portugal. D. Manoel, o venturoso, por exemplo, você lembra vagamente quem foi, não é não? Aquele papo de Escola de Sagres, caravelas, grandes navegações, aquelas coisas que o caolho do Camões poetava em melosos versos, tentando nos convencer acerca do que nos era ou não nos era preciso.

E nem precisava porque a gente acabou esquecendo, confundindo quase tudo mesmo.

Então está bem. Vamos apagar esta parte da história que pouco nos valeu. Quem sabe se o que você vai ler a partir de agora lhe seja muito mais preciso? Afinal, provavelmente você tem muito mais de angolano do que português, muito mais de dono do que de freguês e está quinhentos anos atrasado no conhecimento do que que há de mais seu.

Se liga então, veja e leia a…

Nzinga Mbemba no papel de Dom Afonso l do Kongo

Conheça então a provável e incrível história do imponente nobre da imagem idealizada.

(Parcialmente extraído de ‘Mãe Negra” de Basil Davidson)

“Esforçou-se (o Manikongo Nzinga a Mbemba, batizado como D.Afonso) também por ladear o monopólio marítimo dos Portugueses e estabelecer relações diretas com o outro ‘europeu importante’ de que os portugueses lhe haviam levado notícia: o Papa de Roma. D. Manuel, de início, não se mostrou avesso a tal intenção: O aparecimento em Roma de uma embaixada congolesa refletir-se-ia necessariamente num aumento de prestigio dos descobridores portugueses.

Sugeriu, portanto, que o seu irmão do Congo enviasse uma missão a Roma, explicando cuidadosamente que doze nobres, acompanhados de seis criados, seria o numero adequado. Um dos filhos de Afonso, bastizado com o nome de D. Henrique, e que estava a ser educado num seminário português deveria chefiar esta missão, e como embaixador dirigir-se ao Papa em latim. D. Manuel pediria ao Papa que sagrasse bispo o príncipe Henrique.

Tudo isto, por mais improvável que hoje possa parecer, veio a verificar-se com pouca demora. Trazendo presentes de marfim, peles raras e finos textis de ráfia do Congo – e sendo acompanhada até Lisboa trezentos pesos e vinte cativos que os capitães portugueses haviam escolhido, a missão chegou a Portugal e foi enviada por terra para Itália, atravessando os Alpes e descendo lentamente até Roma, onde chegaria são e salva em 1513. Com ela seguia o príncipe Henrique, que tinha então 18 anos de idade.

Cinco anos mais tarde, no dia 5 de Maio de 1518, Henrique do Congo era elevado à dignidade de bispo mediante a proposta formal de quatro cardeais. Dois dias antes, o papa Leão X promulgara uma bula neste sentido: ‘Vindimus quae super Henrici”.

Três anos mais tarde ou seja, 1521 Henrique regressava a sua terra natal. Parece ter morrido em 1535, pouco ou nada tendo conseguido realizar. Como o seu povo – e como o seu notável pai – Henrique foi vítima de uma contradição impossível. O regimento pressupusera que a ‘missão civilizadora’ e o ‘comercio’ caminhariam placidamente de mãos dadas, realidade que desde o início se opunham diametral e até violentamente, sendo ao final o comercio o grande vencedor.”

Fragmentos da história flagrada

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente. Existem fortes indícios de ter sido ele o jovem que alguns documentos chamam de ‘Kassuta”, filho de Nzinga Nkuwu, sequestrado (ou levado voluntariamente) numa caravela de Diogo Cão para Lisboa onde ficou por cerca de dois anos aprendendo, compulsoriamente acredita-se, todos hábitos e maneirismos da cultura lusitana.

Ele, Nzinga a Mpemba, um usurpador que ocupa o lugar do pai Nzinga Nkuwu por meio de um golpe apoiado por jesuítas, era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava, como se viu, ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga a Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder.

É neste contexto que ele Nzinga a Mbemba chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

“…Mui poderoso e alto príncipe e Rei meu irmão, beijando as reais mãos de vossa alteza, lhe faço saber que a míngua que tenho de algumas coisas para a igreja me fazem  importunar vossa alteza, o que porventura não fazia se tivesse um navio, que tendo as mandaria trazer ás minhas custas..”

(Do rei do Kongo Nzinga Mbemba `D. Manoel de Portugal, insinuando o desejo de ter caravelas ou a tecnologia para as construir, recurso terminantemente recusado pela mui esperta coroa portuguesa).

É assim também que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos com aqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum á sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga a Mbemba aposta no aprofundamento de sua trágica ligação com Portugal, processo este que, como se sabe, dramaticamente culminou com a abjeta traição de Portugal, representando o início da sujeição daquela região da África ao jugo europeu e o mergulho de todo o continente nas trevas do escravismo colonial, período ao qual o historiador Basil Davidson chamou de ‘Os anos de provação’ da região do Kongo, a República Popular de Angola atual.

“Mui poderoso e excelente rei de Manicongo, nós enviamos a vós Simão da Silva, fidalgo de nossa casa, pessoa de que muito confiamos…muito o rogamos que o ouçais, e lhe deis inteira fé e crença em tudo o que de nossa parte vos dizer…”

(Do rei D. Manoel I de Portugal para Nzinga Mbemba, rei do Kongo em carta datada entre 1512 e 1540)

Spirito Santo

Abril 2011

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~ por Spirito Santo em 02/04/2011.

Uma resposta to “O incrível Nzinga Mbemba e a inauguração do Kongo católico”

  1. o pintor alemão Matthias Grünewald fez uma pintura do santo negro São Maurício coincidentemente na mesma época da visita dos congoleses na europa http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mathis_Gothart_Gr%C3%BCnewald_011.jpg

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