Musikfabrik e múltiplas linguagens

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Alunos do Musikfabik fabricam marimbas (xilofones) no ateliê da Uerj

Musikfabrik e múltiplas linguagens

Tema: Palestra para Canal Futura realizada em Teresópolis 02/Julho 2010 

(O texto expresso na verdade pela exibição do filme do projeto (veja o link) e por um curto e delicioso papo com a platéia de educadores negros renidos pela Futura, obviamente, não foi este mas para efeito de uma eventual publicação foi este o texto que enviei para os organizadores)

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Sob o curioso nome de Musikfabrik (ou ‘Fábrica Livre de Construção Musical e Outros  Estranhos Produtos do Som’) o músico e arte educador Spírito Santo idealizou em 1995 na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) uma oficina de arte que acabou virando um curso, o qual por conta do sucesso obtido, se transformou por fim numa espécie de projeto de extensão de fato, com inovadoras e especiais características, que já dura 15 anos (na verdade 20 anos neste ano Nota de 2015)

Aprendendo e ensinando, especializando-se na pesquisa e no exercício da linguagem musical aplicada como ferramenta pedagógica adaptada às mais variadas finalidades e circunstâncias o Musikfabrik a partir de então vem capacitando músicos, artesãos, musicoterapeutas, atores de teatro e circenses, arte educadores, educadores sociais, professores e diversos outros tipos de profissionais interessados na busca de novas maneiras de se inserir a música na educação, no trabalho, na inclusão de crianças e jovens, na vida social e cotidiana enfim. O método aplicado é a parte mais inusitada da pedagogia do Musikfabrik:

Aprende-se a partir do contato físico com a música, ou seja, todos os conteúdos (física  elementar – acústica, mecânica, etc. – além de história, etnologia, organologia, etc.) são  repassados durante o processo de criação e/ou recriação artesanal de instrumentos de música das mais variadas origens (alguns até mesmo inventados pelos alunos).

A partir de 1999 o projeto decidiu formar com alunos um grupo musical representativo de seu trabalho, mas que tivesse um perfil realmente artístico e não exatamente apenas ‘institucional’ como as bandas de projetos sociais mais convencionais.

Alexandre Gabeira formando do curso em Comunicação Social na Uerj em 2001, escolheu o Musikfabrik e as suas características acima descritas, como tema para o seu trabalho de fim de fim do curso de comunicação social na própria Uerj, flagrando um período especial desta fase do projeto.

Fábrica Livre de Construção Musical e outros estranhos Produtos do Som

Entreveros nas entrelinhas

Em 2001, mesmo ano da realização deste filme, a Uerj por intermédio de sua Sub-Reitoria de Extensão e Cultura (SR3) decidiu admitir o Musikfabrik oficialmente como um projeto de extensão de direito. Os detalhes inusitados desta experiência introduzida na universidade em 1995, iniciada, porém muito tempo antes, em meados da já distante década de 1970, pelo Grupo Musical Vissungo (do qual, como vimos o Musikfabrik é o legítimo sucessor) é especialmente emblemática neste momento quando, no ensejo da aplicação da lei 10.639 se admite enfim discutir, com alguma profundidade a intrínseca relação existente entre Cultura, Educação e exclusão sociorracial no Brasil.

Como se pode observar mais atentamente agora, grande parte dos enormes desafios estruturais que a Educação brasileira enfrenta hoje estão de algum modo relacionados à maneira como lidamos com questões ligadas à qualidade de nosso programas educacionais. Neste particular o papel de metodologias e tecnologias baseadas na inovação tem sido bastante ressaltado.

Há que se ressaltar do mesmo modo, contudo que no bojo destas inovações, o papel de dispositivos de linguagem ‘informais’, extraídos de nossa própria cultura – exatamente aqueles que foram, por tanto tempo, desqualificados e rejeitados pela academia convencional – deverão daqui para frente se tornar cruciais – ou mesmo decisivos.

A questão é antiga: Cultura e Educação são – ou deveriam ser – instancias aparentemente afins, uma quase reflexo da outra num curioso vice-versa, contudo, estranhamente (numa espécie de conflito de linguagem, falha de comunicação, um ‘problema de relação’, diríamos), costumam estar, completamente dissociadas entre si na prática.

O caso do Musikfabrik é particularmente significativo neste aspecto.

Até então uma vaga proposta, ainda sem nome na ocasião, com algum viés ‘construtivista’ (um modismo teórico na década de 1990), em condições normais e a princípio, o Musikfabrik poderia ter sido visto no momento de sua inserção na universidade, como uma ação cultural curiosa e inusitada, cheia de novidades interessantes no que diz respeito à oxigenação, ao lançamento de alguma luz sobre problemas socio-pedagógicos importantes, no campo do que se chama hoje de ‘múltiplas linguagens’ (na época falava-se em ‘múltiplas inteligências’, o que pode significar a mesma coisa). Uma experiência típica de extensão universitária propriamente dita (identificada, aliás com o espírito das correntes acadêmicas mais avançadas da época).

No entanto, mesmo observando a eventual índole progressista destas correntes acadêmicas na época, considerando-se que, nem mesmo a questão das Cotas Raciais na Educação havia ainda sido realmente posta em discussão, o fato é que, por razões de algum modo previsíveis, a proposta Musikfabrik não foi assimilada facilmente como uma inovação em si, não sendo nem mesmo associada, de algum modo à Arte Educação ou a questões educacionais mais recorrentes.

Para escapar desta armadilha do contexto a proposta tinha, portanto que contornar importantes e complicados entreveros:

Pra começar, num ambiente tipicamente elitista, o currículo da experiência carregava em si o ‘estigma’ de ser uma ação calcada na cultura ‘tradicional’ brasileira (categoria na qual, de forma reducionista, se classifica o artesanato e a música ‘popular’) e – o que é pior – profundamente voltada para a pesquisa e a difusão da chamada ‘Cultura Afro-Brasileira (aspecto que, só agora com uma lei específica o Estado brasileiro começa a admitir como sendo fundamental à evolução de nossa Educação)

Estes dois fatores, à luz da citada arrogância elitista e dos preconceitos ainda hoje típicos de certos setores de nossa academia, desqualificariam todas as eventuais qualidades metodológicas inovadoras da proposta, lançando-a no limbo, no gueto onde se costuma isolar manifestações culturais deste tipo: O lugar do negro, o ‘folclore’ residual e ‘primitivo’, o ‘objeto’ – e nunca o ‘sujeito’- de estudo’.

Foram estas algumas das sutis entrelinhas que envolveram o processo de inserção do Musikfabrik na Uerj de sua implantação acidental em 1995 até a sua aceitação como projeto de extensão de fato em 2001.

Musikfabrik graduando

Para começar, as experiências anteriores informavam que a entrada de uma proposta de semelhantes características num ambiente universitário, naturalmente – embora sub-repticiamente – racista, por mais hospitaleira que estivesse sendo a acolhida, atrairia algum tipo de reticência. Na verdade os preconceitos eram inúmeros e tiveram que ser meticulosamente identificados e avaliados um a um, passo a passo.

O desafio de ser assimilado por um contexto (a universidade) que era, ao mesmo tempo, hospitaleiro e hostil (receptivo ao conteúdo original e moderno da proposta, porém reticente quanto a determinados aspectos de sua estética, de sua forma, foi ironicamente o fator mais positivo, o mais estimulante de todo o processo, aquele que abriu de vez o caminho para que a experiência escapasse das travas do meio.

(É bastante provável que no curso da aplicação da lei 10.639, no ensejo da identificação de metodologias adequadas à presente realidade, as novas demandas político pedagógicas surgidas no processo tenham que se valer de experiências culturais menos convencionais como neste caso.)

O primeiro ‘insight’ – político estratégico pode-se dizer – do Musikfabrik foi de início não deixar transparecer, explicitamente, nada de ‘tradicional’, ‘popular’ ou ‘afro-negro’ na denominação do projeto. Vem daí, desta tática sutil a escolha do germânico e sonoro nome ‘Musikfabrik’ (fábrica de música).

Vem daí também a escolha de um dístico ambiguamente  ‘construtivista’ (‘fabrica livre de construção musical e outros estranhos produtos do som’), ao contrário de outras enfáticas – e neste caso ingênuas porque panfletárias – declarações de militância sócio racial.

Cuidava-se também neste caso, de ocultar um aspecto que, curiosamente também causava certa ojeriza na clientela universitária típica: A relaçao intrínseca da metodologia com técnicas de trabalho manual, artesanal, funções normalmente associadas ao trabalho de serviçais subalternos – negros no caso – o vício traumático e renitente da aversão ao trabalho físico, (‘desqualificado‘, ‘inferior‘) em relação ao trabalho intelectual (‘especializado’, ‘superior’), um resquício evidente de nossas relações sociais no tempo da escravidão.

Sem alterar em nada a ideologia e os seus conteúdos originais, a proposta ganhou assim trânsito mais fluente no ambiente universitário, já que passava a ser identificada – pelo menos no nome – como uma experiência culturalista não radical ou mesmo despolitizada, no sentido sócio racial do termo.

Musikfabrik doutorando

O segundo ‘insight’, mais político ainda, foi o empenho na arregimentação, no âmbito da própria universidade, de aliados estratégicos com os quais as características metodológicas mais importantes da proposta, puderam ser traduzidas, debatidas, minimamente sistematizadas e fundamentadas, de modo a poderem ser de algum modo compreendidas e reconhecidas do ponto de vista destes agentes acadêmicos (a rigor afinados com o pensamento hegemônico da academia convencional). Tentava-se cumprir deste modo a vocação precípua de um projeto de extensão de fato para conquistar território, reconhecimento e legitimidade nos campi.

É neste aspecto em especial que o caráter linguístico da estratégia do Musikfabrik pode ser mais bem compreendido, ressaltando-se que, sendo este fator estritamente metodológico, o que vale para uma linguagem – no caso a linguagem musical – guardadas as devidas proporções, vale rigorosamente para todas as outras. As analogias entre esta experiência linguística e outras experiências de arte educação, por estas constatações, podem ser bastante diretas.

Música – e mais estritamente – Música Afro Brasileira (marca indelével da proposta do Grupo Vissungo, antecessor do Musikfabrik) percebemos durante o processo, que era um conceito tratado de forma muito demarcada, quase dicotomizada em relação a outros tipos de ‘música’, quando saía do campo da Cultura (território supostamente livre da criação humana) para o da Educação (território restrito do saber ali constituído como norma culta).

Assim, os conservatórios e as faculdades de música de forma radical, passavam – e na verdade, segundo vários relatos de alunos universitários do Musikfabrik, ainda passam – a formular os seus programas e metodologias, a partir de um conceito de Música inteiramente decalcado, imitado, ‘macaqueado’ no que se convencionou julgar como sendo música… na Europa . Uma abordagem aculturada, elitista no mal sentido, envergonhada portanto e bastante impertinente.

Não é fortuito se observar também que isto ocorre, quase que da mesma maneira, com outras linguagens não sacralizadas, como a Literatura Oral e a Medicina Tradicional, por exemplo sugerindo que o ensejo de se aplicar conteúdos relacionados à cultura negra em nossa educação convencional, de forma sistematizada como a lei 10.639 preconiza, exigirá que muito esforço sócio pedagógico seja empreendido ainda.

E esta pode ser uma das chaves da questão porque a cultura – aqui entendida como sendo um sistema de linguagens interconectáveis – diz respeito, rigorosamente a saberes construídos e praticados por todas as pessoas, todos os seres humanos, independente de sua condição ‘racial’, social, ou qualquer outra instância ou classificação artificialmente construída. Tudo no âmbito vasto da cultura humana pode ser, portanto apreendido, sistematizado e posteriormente transformado em Ciência ou Norma Culta.

(É curioso – embora providencial – que no caso da referida lei 10.639, uma constatação tão óbvia como esta, tenha que ser implementada por força de um dispositivo federal.)

Quando nos damos conta de que na formação cultural da sociedade brasileira, inúmeras outras culturas que não as da Europa compareceram em grande – e, às vezes, imensa medida como no caso da cultura africana – o problema do anacronismo dos nossos processos de ensino-aprendizagem aparece mais nítido ainda: A dicotomia criada – um falso dilema, convenhamos entre Sabedoria Tradicional e Educação Formal – o foi como instrumento de exclusão social, uma forma de, ao desqualificar a cultura de uns (no caso a maioria) tornar hegemônica a cultura de outros (no caso a minoria mandante). Um problema colonial, anacrônico demais para uma sociedade que se pretende emergente, moderna.

Os detalhes deste inusitado processo aqui sucintamente descrito, sugerindo maneiras diferentes – e menos maniqueístas ou simplistas – de se abordar e transmitir as bases elementares de alguns conteúdos educacionais mais recorrentes (história, física elementar, educação ambiental, etc) por meio de metodologias tradicionais ou não, extraídas da herança cultural africana trazida para o Brasil, é enfim a modesta contribuição que o Musikfabrik pode dar a este debate sobre múltiplas linguagens aplicadas na educação.

“Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos”
(‘Duquesa em ‘Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll)

SpíritoSanto
(Músico e arte educador)
02 de Julho de 2002/ notas em Julho de 2010

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~ por Spirito Santo em 14/04/2011.

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