Brasil da dama e seus dois escravos

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            Brasil simbólico de ontem e de hoje: Sinhá ‘quase’ branca e seus dois escravos,um submisso e reverente,  o  outro rebelde e debochado.

Cadeira de arruar – Brasil, Século 19

Sempre volto a esta foto anônima, hoje tão famosa, fascinado com  a irreverencia emblemática de um dos escravos. Acho incrível esta diferença na postura dos dois homens.

Se repararem bem, o da cartola – displicente e abusado – está encarando a camera, meio que tirando  um sarro do fotógrafo que – duvido que não – deve ter pedido uma pose formal que o outro fez mas que este não quiz fazer de jeito nenhum. Reparem como o outro chega a tirar a cartola, num puxa saquismo de certo modo compulsório sim, mas de doer.

Ao que o amigo Antonio Saraiva, comentou, cuidadoso:

“De toda forma, se a foto é espontânea ou não (e foi preservada) revela duas possibilidades de atitudes humanas. Também no contexto da época poderia significar uma mensagem subliminar ou explícita da situação e comportamento dos escravos”

Eu, respondendo, enfatizando a rebeldia do abusado:

…”Isto. Mas o mérito é do encartolado que quebrou o esquema deixando este pequeno indício para nós aqui na posteridade dele.

As fotos desta época eram rígidamente posadas, até por conta da lentíssima velocidade de abertura do diafragma que exigia poses imóveis dos retratados (aliás, até hoje a gente faz isto, mesmo não sendo mais necessário)

A pose da senhora (que, vejam só, nem é tão branca assim)  e do reverente ‘puxa-saco’ são por isto mesmo claramente estudadas. A do outro é que está totalmente fora do do contexto, nos dizendo tudo sobre o que ele vê de ridículo em toda a situação. Ele parece mesmo estar pensando:

_ “Que pose que nada. Posar é o cacete! Acaba logo com esta patuscada! “

Spírito Santo

Maio de 2011

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~ por Spirito Santo em 01/05/2011.

3 Respostas to “Brasil da dama e seus dois escravos”

  1. A historiadora Lilia Schwarcz tenta fazer num site da internet (depois eu volto com o endereço) uma abordagem iconográfica de fotos do tempo da escravidão no Brasil, mas infelizmente a nossa historiografia tem problemas muito graves também aí. Para começar as fotos conhecidas e mais significativas deste período, foram feitas por estrangeiros (como Victor Frond) por exemplo.

    A produção fotográfica deste aspecto de nossa sociedade é extremamente pobre, formada basicamente por imagens de estúdio, encomendadas em sua maioria por donos de escravos.

    Não me surpreenderia se um dia destes a gente descobrisse que muitas das fotos mais realistas (flagrantes jornalísticos) certamente tiradas por muitos fotógrafos brasileiros – além dos estrangeiros citados – tenham sido, simplesmente desprezadas, censuradas, omitidas como muitos outros dados etnológicos, por nossa historiografia academica ou, digamos, ‘oficial’ tão briosa na ocultação do ‘cadáver’ de nossas mazelas sociais recorrentes.

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  2. A historiadora Lilia Schwarcz tenta fazer num site da internet (depois eu volto com o endereço) uma abordagem iconográfica de fotos do tempo da escravidão no Brasil, mas infelizmente a nossa historiografia tem problemas muito graves também aí. Para começar as fotos conhecidas e mais significativas deste período, foram feitas por estrangeiros (como Victor Frond) por exemplo.

    A produção fotográfica deste aspecto de nossa sociedade é extremamente pobre, formada basicamente por imagens de estúdio, encomendadas em sua maioria por donos de escravos. Não me surpreenderia se um dia destes a gente descobrisse que muitas das fotos mais realistas (flagrantes jornalísticos) certamente tiradas por muitos fotógrafos brasileiros – além dos estrangeiros citados – tenham sido, simplesmente desprezadas, censuradas, omitidas como muitos outros dados etnológicos, por nossa historiografia academica ou, digamos, ‘oficial’ tão briosa na ocultação do ‘cadáver’ de nossas mazelas sociais mais recorrentes.

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  3. Excelente a contribuição do cartolado! É um ótimo indício para revermos ou confirmarmos hipóteses de novos-velhhos comportamentos!

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