Brasil de fato bantu

Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Rugendas:Caminho que leva ao Arraial do Tijuco (Diamantina, MG) seculo 19…”Ho, ho, ho! Caiu o mito da supremacia nagô”

Inventei este refrão de samba enredo aí só para zoar os críticos e me divertir.

É que…Ah, ah, ah!.. Cansei de ser chamado de maluco, inculto, estúpido e analfabeto quando falava , já ali pelos anos 70, baseado nas pesquisas do Grupo Vissungo pelo interior do país, que a cultura negra do Brasil é, majoritariamente bantu.

Esta eficiente linguísta Yeda Pessoa de Barros que vocês lerão logo abaixo, aliás, é praticamente a única academica brasileira do ramo linguística a estudar em profundidade os VISSUNGOS, cantos bantu dos negros escravos mineradores da periferia de Diamantina, MG, terra de meu pai, oriundos da região africana ocupada hoje, em grande parte por Angola, provavelmente da área do que é hoje as províncias de  Huambo, Benguela (porto principal de translado de escravos angolanos para o Brasil no século 19) e adjacencias.

Como no Brasil, por razões que Yeda coloca bem claramente como sendo um muito pouco doutoral etnocentrismo, recorrente de nossos filólogos academicos (etnocentrismo este que já identificamos e abordamos aqui em vários outros posts) se montou uma imensa bibliografia calcada em meras conjecturas e mistificações que afirmavam, irresponsavelmente uma discutível supremacia nagô-yoruba em nossa cultura (um vício academico-racista instilado em nossa universidade – podemos afirmar hoje com toda certeza – pela controversa, embora seminal etnologia eugenista de Nina Rodrigues no fim do século 19).

Um alívio para nós que os estudos etnológicos brasileiros, relacionados a imensa contribuição africana na formação de nossos modos de ser e viver, sejam reencaminhados a seus mais corretos trilhos.

Para mim alívio pessoal e regozijo porque, cá entre nós…Nada como rir por último.

Minas só, não. O Brasil é bantu.

(Matéria original  em Quilombo.com.br )

Por volta de novembro de 2002, os confrades Falabella e Lasmar, do Instituto Histórico e Geográfica de Minas Gerais – IHGMG, enviaram-me matéria publicada no Jornal do Brasil, onde pude ter notícia da maravilhosa pesquisadora e etnolinguista baiana Yeda Pessoa de Castro.

Currículo nacional e internacional para acadêmico nenhum botar defeito, Yeda, no dizer da jornalista Eliane Azevedo, explodiu a polêmica: “o idioma que se fala no Brasil não é europeu. Trata-se de um português africanizado – uma extraordinária convergência entre o banto (grupo etnolingüístico da África meridional) e a língua de Camões.

”No encontro entre as línguas africanas e o português arcaico, em lugar de surgir um conflito, houve um nivelamento, um processo de africanização”, garante a ex-diretora do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e integrante do Comitê Científico Brasileiro do Projeto Rota do Escravo, da Unesco.

Yeda não poupa filólogos e estudiosos acadêmicos para apontar que só o preconceito etnocêntrico fez com que palavras que garante ser banto, como mocotó e moranga, tenham atribuição indígena nos dicionários. E que só se estudou a cultura iorubá porque era um povo que tinha escrita[4]. ”Chegou-se a um estereótipo de que os iorubás eram superiores. Zumbi dos Palmares era banto, mas, no filme de Cacá Diegues, os palmarinos falam iorubá, quando não havia um deles ainda no Brasil”, argumenta, furibunda[5]. A tese de Yeda está exposta no recém-lançado Falares africanos na Bahia (Topbooks, 368 págs.) – que o colunista do Jornal do Brasil Millôr Fernandes classifica como sua ”atual bíblia”.

Yeda tem mesmo total razão.

Segundo números tabulados por Maurício Goulart[6], o maior pico de sudaneses ocorreu em 1720, 60,22% da população negra, quando começou a decrescer velozmente ante o crescimento dos bantus que chegaram a ser 86,41% em 1790, contra apenas 13,59% de sudaneses. 

   DÉCADA SUDANÊS

% S/TOT

BANTU

% S/ TOT

TOTAL

MÉDIA ANO    
1701-1710

83,700

54.46

70,000

45.54

153,700

15,370

1711-1720

83,700

60.22

55,300

39.78

139,000

13,900

1721-1730

79,200

54.14

67,100

45.86

146,300

14,630

1731-1740

56,800

34.20

109,300

65.80

166,100

16,610

1741-1750

55,000

29.71

130,100

70.29

185,100

18,510

1751-1760

45,900

27.10

123,500

72.90

169,400

16,940

1761-1770

38,700

23.51

125,900

76.49

164,600

16,460

1771-1780

29,800

18.47

131,500

81.53

161,300

16,130

1781-1790

24,200

13.59

153,900

86.41

178,100

17,810

1791-1800

53,600

24.19

168,000

75.81

221,600

22,160

1801-1810

54,900

26.62

151,300

73.38

206,200

20,620

TOTAIS

605,500

32.01

1,285,900

67.99

1,891,400

189,140

Méd/Década

55,045

32.01

116,900

67.99

171,945

17,195

Mas não é só. Duas questões há a acrescentar: a) os números acima provavelmente abranjam também São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Mato Grosso e não apenas as Minas, onde é provável que o número de sudaneses fosse menor ainda; b) no caso de Minas, não só os pretos eram em maioria bantu, como os próprios brancos, mormente os chamados de “ilhéus”, cuja maioria, na verdade vinha de Angola, Moçambique e outras possessões bantos da África, de onde conheciam as línguas por serem naturais ou moradores de longa data nessas colônias portuguesas.

Neste sentido, não nos esqueçamos de que hoje não é mais mera tese de que o povo brasileiro, até a descoberta das Minas, falava quase que exclusivamente a língua geral. Assim, no outro lado da moeda, mais uma vez acertou na mosca a maravilhosa etnolinguista: “(…) o africano adquiriu o português como segunda língua e foi o principal responsável pela difusão da língua portuguesa em território brasileiro”[7]. Evidente que convivendo com os portugueses em Angola e Moçambique, esses bantus tinham pelo menos alguma noção do português, quando não o falavam correntemente.

[4] Yorobás não tinham escrita coisa nenhuma. Como ensina Yeda, islamizados que eram, só faziam copiar textos do alcorão em língua e caracteres árabes. 
[5] O filme de Cacá Diegues teve que ser redublado, tirando-se-lhe a língua yorubá. 
[6] Estimativa de Maurício Goulart, in Devassa da Devassa, de Keneth Maxwel, 1995, 4ª Impressão, pgs. 290/291. 
[7] Falares Africanos na Bahia, pg. 78.
Anúncios

~ por Spirito Santo em 15/05/2011.

4 Respostas to “Brasil de fato bantu”

  1. por falar em bantos, existe uma gravura interessante do Jean Baptiste Debret no arquivo da biblioteca nacional intitulado ´´Negro feiticeiro´´ provavemente de origem banto:http://consorcio.bn.br/slave_trade/iconografia/debret/icon001.jpg

    Curtir

  2. Negarra,

    Pois é. A mim, ser um caçador destas coisas me fez um bem enorme. Com certeza saber o que somos, seja o que for que sejamos, é um alimento espiritual inestimável. É viver a vida com um sentido claro do que ela é. Só refletindo sobre uma das razões deste ser uma alimento fundamental para a anossa alma, eu posso afirmar que esconder, omitir, falsear o que realmente somos tem sido uma das estratégias mais usadas pelo sistema racista que nos governa. Desmontar esta farsa da ‘supremacia nagô’ (que eu – fiquei pasmo ao descobrir agora que não – julgava ser uma distorção academica exclusivamente brasileira) é um dos pilares de nossa libertação. Estou certíssimo disto.

    Curtir

  3. Spirito, gostei muito de ler est artigo. Dentro das comunidades espirtuais nos EUA, ve o mesmo supremacia Yoruba. E parece que as unicas pessoas discutindo isso são as praticantes de Palo (que em certos casos são também practicantes de Santeria!) Fora do foro religioso, infelizmente os negros americanos não discutem com muito frequencia os nossos origens. Como a maioria do povo negro, não importa onde estamos na planeta, estamos muito mais preocupados com a sobrevivencia que a conversa de historia, herancia, cultura, etc. é o campo dos intellectuais a maioria dos quais não são negros e não tem o interesse dos negros na mão.

    Estes assuntos são importantes espiritualmente e psicologicamente. Temos raizes e para melhor elevar os nossos ancestrais e os futuros geracoes, temos que saber de onde vinhamos.

    Curtir

  4. Lembrei-me da Lélia Gonzalez. Que sempre repetia que aqui no Brasil o que se fala é o “pretuguês”. Valeu Spírito.

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: