Abdias: O Exu revoltado no Kalunga-Orum

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Abdias menino (upload de Elisa Larkin com intervenção de Spírito Santo)

Abdias menino (upload de Elisa Larkin com intervenção de Spírito Santo)

E o  velho-novo Abdias então se fez Abnoite para entrar na história.

“O que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas ao negar-se não renuncia: é também um homem que diz sim desde seu primeiro movimento”

(Albert Camus – ‘L’Homme Revolté”)

Li muito Abdias do Nascimento ali pelos meados dos anos 70. Depois de amargar uma prisão por ter me insurgido romanticamente contra as injustiças sociais ‘genéricas’. Eu estava nesta época descobrindo que, além de ser pobre, ser negro também era um problema crucial ao qual eu, e minha rebeldia atávica estávamos irremediavelmente envolvidos, atados e que eu precisava entender logo o que fazer para sobreviver são e lúcido no meio disto tudo, antes de me perder por algum caminho sem volta.

(Os trechos todos em itálico a seguir são do livro ‘O negro revoltado’ de Abdias do Nascimento –  GRD, 1968 –  baseado e contendo os anais do I Congresso nacional do Negro, realizado no Rio de Janeiro entre 26 de Agosto e 4 de Setembro de 1950, organizado por Abdias, Guerreiro Ramos e Edison Carneiro.)

Já dizia ele nos Abdias:

 “Duas correntes mais significativas sobressaíram (no congresso): A maioria, constituída do povo negro, pessoas destituídas de títulos acadêmicos ou honoríficos; e do outro lado, os que se auto intitulavam ‘homens de ciência”. A camada popular e o grupo dos ‘cientistas’, ao final do congresso, se chocaram violentamente.”

Depois me esqueci do Abdias. Fui. Mergulhei em novas experiências aprofundadoras, na opção pelo filtro fantástico da Arte, que ampliando a minha visão de mundo, avançando para a lógica cultural das revoluções africanas que me instigavam a lutar com as armas da canção eu fui, porque não?

E elas, as revoluções dos poetas e músicos africanos, fervilhavam mesmo, aqui e ali (menos aqui) explodiam, vitoriosamente e enchiam de esperança e certezas a minha ansiedade para ser logo uma pessoa menos irrelevante, menos banal e conformada nesta vida. Doce presunção juvenil.

…Miscigenação nunca foi sinônimo de ausência de preconceito. Daniel Guerin, um francês que estudou a situação do negro norte-americano, anota que ‘quase todos os negros americanos – 80%, calcula-se) são, na verdade, mulatos’ está aí destruído o mito de que a mistura de raças é contraprova do racismo.

O imperativo fusiológico, as condições sócio-econômicas, levaram o português ao comercio sexual com a negra. Nada prova a favor de sua índole ser isenta de preconceitos. Os resultados deste processo biológico aí estão à face de quem quiser ver:Um simulacro de democracia racial elevado à categoria de tabu, fetiche…”

Me lembro claramente de ter estado junto do Abdias do Nascimento, em eventos do Movimento Negro durante esta época. Num deles, na praça de alimentação do Shoping Center da Gávea, durante um show do grupo Vissungo, Abdias me apareceu lá para as tantas dançando glorioso, vestido de Exu das Sete Encruzilhadas, com uma capa vermelha esvoaçante assustando a empáfia militante de uma garotada radical negro-careta que achava que a causa tinha que ser carrancuda para se dar ao respeito.

Na hora gostei, mas só agora me dou conta de que Abdias sabia muito bem o valor que a cultura tem como estratégia de luta contra iniqüidades como o Racismo, por exemplo. Afinal – que distraído eu era! – Abdias, Guerreiro Ramos e Aguinaldo Camargo (outra grande figura, intelectual e ator fantástico) faziam, exatamente isto nos anos 40, 50, 60 como Teatro Experimental do Negro.

“…Outro fundamento da revolta é algo que ultrapassa o desprêzo da pele preta: Trata-se do esmagamento da cultura trazida pelo africano, cujos valores foram sumariamente proscritos de nosso complexo espiritual-cultural. Numa conferencia na ABI, patrocinada pelo TEN, Katherine Dunham teve a oportunidade de afirmar judiciosamente que a mais sensível das formas de privação e esbulho é essa que provoca a inanição espiritual resultante do seccionamento dos liames da origem e da tradição..”

Fui, já nesta rota de esquecimento, lançando o Abdias naquela prateleira das inspirações essenciais, porém já superadas, lendo que estava agora as teses mais antenadas com a idéia da cultura como arma política, em obras de artistas-guerrilheiros como Amílcar Cabral e Agostinho Neto, ouvindo Rui Mingas e José Carlos Schwartz , não menos guerreiros, cantando o orgulho das revoluções africanas recém vencidas.

Sim. Foi assim que fui me desavindo daquele movimento negro dos 70 que, presunçosamente tentava superar o ‘velho’ Abdias e seus companheiros da geração dos anos 50. Um ‘novo MN’ que começava a ratear naquele seu arrivismo norte-americanista, namorado já por aquela esquerda meio sindicalista, pseudo-socialista, mas também racista ainda em seu pequeno-burguesismo de vanguarda auto proclamada que por fim, logo depois da anistia em 1979, acabou por engulir o movimento negro todo como um picolé de chocolete que se dilui melento, se derrete, transformado que foi em manancial de quadros para o PT e outros partidos de esquerda (e depois até mesmo de diretita) num melê de entidades negras subalternas de dar dó.  A luta contra o racismo era secundária, a prioridade era por a esquerda no poder, diziam eles.

“… Integração social assim compreendida não deve, pois, ser confundida com o embranquecimento compulsório, o desaparecimento do negro e da negritude nos quadros étnicos de uma maioria predisposta à tragá-los.

Extinguem o negro manipulando o regime emigratório, na imposição de um estado permanente de miséria, na hipertrofia da miscigenação, como valor mais alto de nossa civilização. Não resta a menor dúvida: é o fim da raça negra no Brasil.

A integração não-racista que pregamos é outra. Corresponde à abertura de oportunidades reais de ascenção econômica, política, cultural, social, para o negro, respeitando-se a sua origem africana…”

E o que diremos nós nestas nossas Abnoites?

Hoje pela manhã, comovido, pensando na morte deste mestre de muitos de nós, reli os textos dele. Incrível como o seu agudo pensamento ficou cravado em nós. Abdias é lâmina de fio perene. Enquanto houver racismo no Brasil a sua voz estará cortando os ouvidos dos cínicos.

Imperativo repetir para vocês o Abdias dos anos 50 (ano do I Congresso do Negro do Rio de Janeiro) e o mesmo negro revoltado de sempre no ano de 1968, plena ditadura militar, refletindo sobre estes mais de 20 anos de luta quase solitária contra os iníquos e mais sórdidos que insistem em desconversar o racismo.

“A posição de certos negros lembra o personagem do romancista Ralph Ellison: O homem invisível (Invisible Man). Trata-se da história de certo negro que tentou não ser visto pelos outros, já que sua côr negra lhe trazia coação, perseguição, discriminação, enfim, todos os sofrimentos. Tornando-se invisível estaria resolvido o problema. Perdendo a identidade deixava de ser realidade para os olhos dos outros, não sofreria mais. Ele seria o não-ser, o não-existente, para os outros. Não previra, porém, que ninguém – nem o negro – consegue não existir existindo.

Agora ele quer ser percebido, quer tornar-se realidade para os outros. Ilumina sua habitação de negro pobre, mas nada consegue, nada ocorre, nada se modifica. A luz só o ilumina para ele próprio, já que resolveu o problema para si mesmo, sem procurar resolvê-lo para sua gente de forma coletiva.

O problema continua: ninguém existe só e isolado de sua comunidade. Somos seres em relação. Transitivos. E isto é válido para para os membros de uma família, de um povo, das nacionalidades, da comunidade humana. Este é o sentido de nossa revolta.”

Quem de nós não conhece um invisible man (ou invisible woman) assim?

Como foi penoso descobrir, por outro lado que o que de mais moderno se pode falar sobre o assunto anti-racismo, em grande medida continua a ser o que ele, ardorosamente já trombeteava lá naqueles remotos anos 40 e 50.  Como é desanimador perceber o quanto ainda estamos longe de nos entender e superar esta questão insidiosa do racismo, este marco de nossa anti-democracia que envenena e engolfa em ódio afetividades e sentimentos.

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Fotos (uploads) de Elisa Larkin do Nascimento

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Autobiografia

EITO que ressoa no meu sangue

Sangue do meu bisavô pinga da tua foice

Foice da tua violação

ainda corta o grito da minha avó

LEITO de sangue negro

Emudecido no espanto

Clamor de tragédia não esquecida

Crime não punido nem perdoado

Queimam minhas entranhas

PEITO pesado ao peso da madrugada de

                                                    Chumbo

Orvalho de fel amargo

Orvalhando os passos de minha mãe

Na oferta compulsória de seu peito

PLEITO perdido

Nos desvãos de um mundo estrangeiro

Libra…escudo…dólar…mil-réis

Franca adormecida às serenatas de meu pai

Sob cujo céu minha eseprança teceu

Minha adolescência feneceu

E minha revolta cresceu

 (Abdias do Nascimento em “ Axés do sangue e da esperança (okiris)”-Edições Achiamé/Rioarte, escrito em Bufallo, EUA em 1981)

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(Para quem ainda não sabe, ‘Kalunga‘ para os povos da Angola atual e seus milhões dedescendentes no Brasil é o meio líquido, um lugar mítico e impreciso, volátil, que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos. ‘Orun‘, pelo que imagino é coisa parecida para os yorubas e para os adeptos do Candomblé no Brasil. Para as duas palavras o sentido de ‘Céu‘ ou mesmo ‘Paraíso‘, cai muito bem.)

Spírito Santo

Maio 2011

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~ por Spirito Santo em 25/05/2011.

3 Respostas to “Abdias: O Exu revoltado no Kalunga-Orum”

  1. Um dos melhores descendentes da mae Africa, continente que fez questao de honrar e carregar publicamente consigo a vida inteira. Um exemplo de indignacao perante injusticas contra os povos de todo o planeta. Um exemplo de coerencia e dignidade. Dificilmente serah superado pelos seus compatriotas afrodescendentes mas sua luta deixa-os mais cientes e orgulhosos da sua africanidade.

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  2. Adro,
    “Raça e classe não se contradizem”, claro. Só permita-me ressalvar que não é exatamente pela natureza da luta – que se é de todos é o bom combate – que isto ocorre, mas porque a substancia de uma é a causa (o Racismo) e a substancia da outra é o efeito (a exclusão social), duas instancias que não se misturam mesmo.

    A afirmação dos que ainda hoje subestimam esta luta – e olha que eles são muitos e estão as vezes bem próximos de nós – não passava de um sofisma. O sentido exato da denuncia da inexistencia de contradição entre raça e classe se tornou necessário porque alguns, mesmo os de esquerda, no calor daqueles anos das solidárias teses de Florestan Fernandes, boa parte da esquerda enfim, propunha na verdade e de algum modo a subalternidade da luta contra o racismo diante das lutas ‘superiores do proletariado”. Abdias entre outros méritos bradou até corrigir a tese crassamente torta.

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  3. Florestan Fernandes, contemporâneo também de Abdias do Nascimento, contribui com a formulação de que raça e classe não se contradizem, sequer se confrontam no Brasil, uma vez que, afirma: a luta antirracista é uma luta de todos. A partir disso, e da intervenção do próprio Florestan, aprovamos em 1986 e 1987 esses conceitos no PT, constiuindo setoriais de produção teórica e elaboração de políticas específicas e gerais para a luta antirracista. O PCdoB também articulou organicamente muitos militantes sociais proletários ou não.
    O tempo não para. As lutas continuam.
    Abdias e Florestan como Paulo Freire, souberam nos dizer que as tarefas essenciais para os de baixo no Brasil serão obra dos próprios, posto que mesmo a revolução agrária e a revolução democrática foram procrastinadas pela Burguesia.

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