Palmares, Mundaú, Cucaú e os cafundós do nego Judas Iscariotes #01

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A foto é do século 19, na Guiné Bissau. A casa ao fundo, contudo - garanto -  tem muito a ver com as construções descritas pelos cronistas como sendo as do Kilombo de Palmares.A foto é do século 19, na Guiné Bissau. A casa ao fundo, contudo – garanto – tem muito a ver com as construções descritas pelos cronistas como sendo as do Kilombo de Palmares. Foto: Agencia Geral do Ultramar Portugues

Palmares reloaded

Mais uma investigação dos autos do processo

Na crônica dos incidentes ocorridos em Palmares entre 1675 e 1680 há muita confusão entre os dados referentes aos ataques e expedições punitivas aos kilombos, repararam não? Claro. Ninguém repara mais nestas coisas.

Eu sei muito bem disto. Todo mundo acha que está cansado de saber a história do Kilombo de Palmares (desculpem escrever com ‘k’, mas a razão é pra lá justa: Liberaram o uso do ‘K’ no Brasil, sabiam?) e ficam mudando de canal toda hora que o assunto rola. Nada a ver esta sabichonice desavisada.

Aliás há e haverá um sem fim de porquês a serem sabidos nesta história. É que, cá entre nós – li muito sobre o tema hoje – acabei achando que sobre Palmares a gente não sabe mesmo é nada, chongas!

É que vocês, a gente, a maioria das pessoas lê, lê história, se ufana do país naquele ‘uh tererê’ nacionalista, futebolístico, mas no final não pergunta nada e então… babau! Se uma história for mal contada – e como a versão corrente desta história é esfarrapada! – vai acabar ficando por ali mesmo, na periferia do assunto, no ramerrão.

Quem se importa com uma história de escravos que ficaram fugidos, escondidos no mato – quiçá sem cachorro – sei lá, por quase um século? Ora, é como enredo de Escola de Samba. Qualquer história serve, não é não? O que importa é que o Samba empolgue a rapaziada da escola na Sapucaí?

O certo é que sinopses e sinopses de carnavalescos depois, ainda hoje ninguém sabe mesmo, à vera, como foi e o que ocorreu em Palmares. A descrição mais perto da verdade que eu vi – e poucos leram, eu sei – foi a do holandês João Blaer  que visitou a capital do reino africano na Serra da Barriga, por acaso abandonada, ali por volta de 1644 e a descreveu, nos deixando uma visão curiosamente semelhante à de qualquer reino africano, da área do Reino do Kongo, da época.

“…Este Palmares tinha meia milha de comprido e duas portas; a rua era da largura de uma braça, havendo ao centro duas cisternas, um pátio onde tinha estado a casa do seu rei e era presentemente um grande largo no qual o rei fazia exercício com sua gente; as portas destes palmares eram cercadas por duas ordens de paliçadas ligadas por meio de travessões…”

“…No interior das muralhas, alinhavam-se as cabanas …e em torno de uma praça maior que se fazia de mussamba, ou palácio do rei do quilombo. Em alguns arraiais encontravam-se igrejas, ou melhor, pequenas capelas toscas onde eram veneradas certas imagens de santos…haviam grandes armazéns de víveres, abastecidos excepcionalmente em épocas anormais…A casa do rei servia também de casa do conselho e de quartel. Tinha ele sua guarda pessoal, os seus ministros, muitas mulheres e grande número de escravos…”

 (Rocha Pombo, “História do Brasil” citando ao que parece, João Blaer)

 “…e ali encontramos um negro cheio de boubas em companhia de uma velha brasiliense, escrava da filha do rei, que nos disseram que nas vizinhanças ainda corriam outros negros, pelo que acampamos ali e com vinte homens batemos o mato, chegando á casa da filha do rei, que nela não estava, queimando-a.”

 (Doutor Alfredo de Carvalho, ‘Diário de operações da expedição de João Blaer”)

 Dos holandeses pouca coisa há até agora sabida ou traduzida. Ando esquadrinhando com a minha lupa os formidáveis detalhes dos quadros de Albert Eckhout e Franz Post. Sobraram-nos em profusão, contudo, calhamaços e mais calhamaços de dados de fontes oficiais portuguesas amontoados na Torre do Tombo em Lisboa.

 “…Aos 22 de janeiro de 1676 (Manoel Lopes Galvão no comando) deram a uma populosa cidade de mais de 2.000 casas (no mínimo 6.000, talvez mais de 7.000 habitantes), bem guarnecida, e depois de mais de suas horas de renhida peleja com valor de parte a parte, puzeram os nossos fogo a algumas casas, que sendo de madeira e palha, arderam velozmente, tornado medonho o sítio…”

“…Ao longo desta distancia de cinco léguas o (kilombo) de Aroturene; e logo para a parte do leste dois mocambos chamados o das Tabocas; e destes ao noroeste quatorze léguas o de Dambrabanga, e ao norte deste oito léguas a Cerca chamada Subupira; e ao norte desta seis léguas a Cerca real chamada do Macaco; a oeste desta cinco léguas o o mocambo do Osenga, e nove léguas da nossa povoação de Serinhaém para noroeste a Cêrca do Amaro; vinte e cinco léguas das Alagoas o palmar de Andalakituche, irmão do Zambi…”

 (Conselheiro Drummond, “ relação das guerras que se fez aos palmares…”)

Curiosamente, uma descrição do Conselheiro Drummond, baseada na “Relação das guerras feitas aos Palmares…” encontrada na torre do Tombo, narra uma expedição 23 de setembro ou 21 de Novembro de 1675, com texto quase literalmente idêntico- e outras filigranas – com ligeiras variações na quantidade de presos  para mais em relação uma suposta expedição em 22 de janeiro de 1676 (ambas com comando atribuído a Manoel Lopes). Muito provavelmente estas duas expedições estão sobrepostas e foram apenas uma, com datas confundidas.

Outra suposta expedição em 1677 (Fernão Carrilho) tem, contudo dados também muito idênticos, com pequenas variações (muitos comandantes são presos e o rei foge ferido na perna, desta vez por uma flecha). O mais sintomático é que as três descrevem, de maneira incrivelmente idêntica o fato do rei Ganga Zumba ter sido ferido e ficado coxo, o que, cá entre nós, é uma ‘bandeira’ enorme. Uma pinta clara de armação ou engodo.

Incrível, mas os fatos repetidos, ao que parece, simplesmente copiados uns dos outros, em diferentes relatos são quase que rigorosamente iguais dando-nos a impressão – ou quase certeza – de que duas das três expedições, na verdade jamais aconteceram. O que é mais grave é que o fato traz também muitas e sérias dúvidas sobre a veracidade de todos os outros dados e documentos portugueses avaliados até então.)

“... A maioria dos historiadores afirma que a tropa de Carrilho em 1676 matou muitos, mas não menciona o número de mortos, a não ser a de uma escrava que acompanhava a mãe do rei, que nem viva ‘nem morta apareceu’”

O rei Gangazuma conseguiu escapar com vida ao combate e fugiu para o mocambo do Amaro, bem no interior, deixando em mão dos inimigos a sua espada e uma pistola dourada…”

(Mario Martins de Freitas, citando o Mestre de Campo D. João de Souza em 1677/79, referindo-se às escaramuças anteriores ao tratado de Cucaú e à suposta rendição de Ganga Zumba:)

 “…Depois deste encontro queimaram os nossos mais alguns mocambos, e nestes prenderam-se vinte e seis negros, matando-se alguns, entre os quais dois chefes, sendo um deles sobrinho de Gangazuma, e o ouro irmão do Bangola; também prenderam a mulher do Ganga Zona, com dois filhos mestiços.”

 (Pedro Paulino da Fonseca – “Memórias dos feitos que se deram durante os primeiros os primeiros anos de guerra com os negros Kilombolas de Palmares…”)

 Fuçando ainda mais se pode deduzir que a morte de mais e mais parentes (neste caso acima um sobrinho que é chefe de mocambo) de Ganga Zumba, fato muito recorrente em todos os relatos, percebemos entre outras coisas que existe um núcleo de poder de natureza familiar bem determinada, que reveza os seus membros no comando de Palmares, segundo regras semelhantes as que estavam em vigor nos reinos africanos similares, principalmente os da área bakongo (Kongo, Nsoyo, Ndongo, Matamba, Loango, Nsundi, etc…).

E este ‘Bangola’, quem seria? A expressão significaria o mesmo que ‘Rey’ ou soba? Instigante demais a semelhança entre esta palavra (retirando-lhe o prefixo ‘ba’) e ‘Ngola’, título dos sobas dos reinos de Matamba e Ndongo na mesma época, entre os quais a mais afamada foi a Rainha Nzinga Mbandi. Neste caso o preso seria também irmão do Gangazona, cuja mulher aliás – que era branca- está entre os presos nas escaramuças, junto com os dois filhos mulatos do Ganga Zona)

A desagregação e o degredo incerto da família do rei

O paradeiro desconhecido de todos após os ataques:

 “…Cativaram (prenderam) o Acaiuba com dois filhos do rei, um macho chamado Zambi e outro por nome Acainene (que uma outra fonte diz ser o nome da rainha-mãe e não de um suposto filho do rei), e entre netos e sobrinhos que se cativaram, seriam 20; pareceo (pereceu) também o Tuculo filho também do rei, grande corsario e o Pacassa, grandes senhores entre elles, o rei…se retirou fugindo, tão arrojadamente que largou uma pistola dourada, e a espada que usava; e foi vez geral que uma flecha o ferira com o ferro…

 (Conselheiro Drummond, “Da ‘Relação das guerras que se fizeram à Palmares…’)

 “…Alguns militares afirmam ter morrido no ataque á Subupira ‘um irmão do seu intitulado rei (Ganga Zumba), que era o terror dos moradores de Porto Calvo”.  (Que alguns dados dão conta se chamar Ganga ‘Muiza’.)

(Ivan Alves Filho – “Memorial dos Palmares”)

 Na intrincada rede de relações familiares que aparece embaralhada nos relatos, existe também a hipótese de Ganga Zona ser na verdade, cunhado de Ganga Zumba, o que faria mais sentido se formos considerar as regras tradicionais de sucessão nobiliárquica oriundas da cultura bakongo, a qual a cultura palmarina – na ausência total de outra referencia – forçosamente devia se reportar. Nela o ‘tio’ também era – e é – quase rei.

O fato é que, a julgar pelo cruzamento dos dados de todas as fontes a que se teve acesso, praticamente toda a família real de Palmares – com exceção do rei Ganga Zumba – foi aprisionada e feita refém ou morta em 1677. A lista de parentes de Ganga Zumba presos ou mortos é muito extensa, pois, se conta nela no mínimo 20 pessoas (uma fonte chega a indicar que este número de 20 diria respeito apenas aos filhos e netos do rei, sendo o número total muito maior).

Esta informação será importante mais adiante (este post terá duas partes) quando tentarmos identificar quem são os personagens que, supostamente teriam descido da Serra da barriga para negociar os termos de uma rendição.

“…E como num numero de prisioneiros se descobrisse um negro por nome Mateus Ndambi e a mulher deste, Magdalena Angola, ambos de avançada idade que se diziam sogros de um dos filhos do rei, …mandou-os que se fossem embora para os seus que ficaram dispersos pelo palmares e que lhes dissessem que esperassem por eles e seus soldados…”

…”e outros prisioneiros por que se soube que comandava-os o Ganga Zona (irmão do rei) negro poderoso e tido no Palmares como rei também, o qual, desesperado da resistência e do aperto,que por da sua má sorte e infelicidade, para evitar o perigo certo.”

 (Pedro Paulino da Fonseca – “Memórias dos feitos que se deram durante os primeiros os primeiros anos de guerra com os negros Kilombolas de Palmares…”)

O trecho demonstra que, pelo menos até o ataque de Fernão Carrilho, Ganga Zona não parecia ser um traidor – e creiam, ele realmente o foi… pelo menos que se soubesse. Esta é a principal constatação deste post

“…e lhes apresyonou duzentos negros a rainha, e dous de seus filhos do Rey, matando-lhe quatro filhos e seu mestre de campo, e alguns potentados, largando o Rey as armas por escapar…”

“…Era intenção de D.Pedro de Almeida levar para Portugal e depositar aos pés de El Rei a desgraçada família  do rei Ganga Zuma e sobre os seus sofrimentos obter novos louros e honras. Para este fim recebeu ordem Fernão Carrilho para levar as presas do quinto de El-rei (‘mulher, filhos e netos do rei Gangazumba’) para Recife, onde, em praça pública foi recebido pelo governador e seus auxiliares de governo e pelo povo, com extremas demonstrações de regozijo e alegria, e pomposas festas adredemente preparadas

(Mario Martins de Freitas, ” O Reino negro de Plamares’, Ed.Bibliex 1988)

Ora, este documento parece atestar, de forma quase inquestionável, que os prisioneiros – a família do rei no caso- foi levada à Recife como troféu, em data previamente determinada.  A descrição desta exibição pública dos prisioneiros bate com as outras descrições que afirmam que o mesmo grupo  era formado por quilombolas que  ‘se renderam’ por aceitarem uma proposta de paz, por eles mesmos solicitada.

Numa estranhíssima confusão se fica sabendo então que o dilema crucial passa a ser escolher apenas uma entre as seguintes opções: OU o destacamento de Kilombolas que chega para ‘negociar’ a rendição depois da refrega de 1677 era composto por parentes do rei que NÃO haviam sido presos, OU (o que parece ser mais factível) todos os parentes estavam efetivamente aprisionados e foram levados para Recife por Fernão Carrilho, seguindo as ordens de D.Pedro de Almeida (o governador geral recém empossado) sendo talvez esta suposta negociação uma farsa política urdida por alguém ou distorcida por equivocadas releituras, posteriormente elaboradas por cronistas e historiadores.

O fato é que fica patente que praticamente TODA a família real de Palmares (mãe, filhos, talvez a irmã, sobrinhos e netos de Ganga Zumba foi capturada, quem sabe também o próprio rei) ou morta. É também curioso este fato da família inteira – talvez meia centena de pessoas – ter sido surpreendida assim, simplesmente por um ataque súbito. É muito forte a impressão de que o ataque deve ter contado com algum tipo de ajuda interna, alguma traição no meio da cúpula palmarina, quem sabe?

…” O rei Gangazuma, por se julgar, com a própria experiência, incapaz de resistir a outros assaltos, ou receiando da adversa fortuna, ou por outras intenções que não podemos descortinar, aceitou a proposta de D.Pedro; e aos 18 de junho, em um sábado, à tarde, véspera do dia em que na paróquia de Recife se fazia a festa de Santo Antônio de Lisboa, entrou na praça o alferes que havia ido naquela comissão, trazendo em sua companhia dois filhos do rei e mais dez negros dos mais importantes daqueles Kilombos, que vinham na forma proposta se prostar aos pés de D. Pedro, enviados pelo rei Gangazuma para que, em seu nome lhe rendessem vassalagem,”

(Mario Martins de Freitas, ” O Reino negro de Plamares’, Ed.Bibliex 1988)

Ora ora! Não existe rei Ganga Zumba algum na lista dos membros da suposta delegação palmarina.

Há muitas outras incongruências nos relatos. Se a maioria das pessoas da família do rei e mais seus cabos de guerra estavam presos quem são os ‘dois filhos do rei e mais dez negros dos mais importantes daqueles Kilombos’ que teriam descido para fechar o acordo?

Esta é a principal pergunta que não quer calar: Seriam elas as mesmas pessoas que estavam presas e foram simplesmente levadas como troféus para Recife em hora politicamente propícia? Há algo de muito estranho também no fato deste filho do rei – ‘o mais velho’, como dizem as fontes – ter ficado retido em Recife quando todos os reféns foram libertados para serem concentrados nas terras de Cucaú.

Preso? Morto? Foi resgatado? Teria conseguido fugir? Se não, que fim teria levado o tal  filho ‘mais velho’ do rei?

Humm!

(E como este caso talvez nunca seja encerrado… fui, mas volto logo num segundo e – quiçá – derradeiro post sobre este formidável assunto)

(Aliás  vocês podem acessar o post #02 aqui mesmo neste link)

Spírito Santo

Maio 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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~ por Spirito Santo em 30/05/2011.

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