Mundaú, Cucaú e os cafundós do nego Judas Iscariotes #02

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"Negra", Albert Eckhout, Recife 1641

“Negra”, Albert Eckhout, Recife 1641

(Você, provavelmente já viu este quadro, mas não se ligou nos detalhes.)

Arco sem pua, a história do rei é que está nua

Tudo ainda por ser revelado acerca de Ganga Zumba, talvez o primeiro ‘Zumbi’

 “…Notável alvoroço que causou a visita daqueles bárbaros, porque vinham despidos e apenas com as partes naturais cobertas: traziam uns as barbas em tranças e outros com postiças barbas e bigodes, e outros raspados e sem mais nada; todos corpulentos e robustos, armados de aços e flechas trazendo somente uma arma de fogo. Vinha a cavalo um dos filhos do rei por trazer ainda aberta a ferida de uma bala que na peleja recebera.”

“…Todas as pessoas de família do rei e de seus cabos de guerra foram restituídas, ficando com o governador tão somente dois negros para cuidarem do filho mais velho do rei Gangazuma que se achava impossibilitado de viajar…”

(Pedro Paulino da Fonseca – “Memórias dos feitos que se deram durante os primeiros anos de guerra com os negros quilombolas de Palmares…”)

Todos os textos deste período não são, portanto explícitos a ponto de que se possa afirmar, ou mesmo sugerir que o rei Ganga Zumba estava entre os presos ou  tampouco entre os membros da comitiva que negocia a rendição. É lícito se supor, portanto que ele não participa, pessoalmente de nenhuma fase dos eventos do acordo, o que é surpreendente sendo ele o rei inconteste do Kilombo, destinatário até de cartas de dissuasão enviadas de Lisboa pelo próprio rei de Portugal.

Portanto, até ser dado como morto por envenenamento na ‘reserva’ de Cucaú, ninguém sabe, efetivamente do paradeiro de Ganga Zumba nesta época. Os textos que afirmam a sua participação nas negociações para o acordo ou a rendição parecem falar apenas por suposição, a maioria sugerindo vagamente que ele, Ganga Zumba, estaria ‘nas matas de palmares’, de onde recebia emissários dos portugueses.

Afinal, tendo um filho ‘mais velho’ e outro mais novo em condições de, supostamente representá-lo numa negociação de paz de tão grave importância para o Reino de Palmares, havemos de, apelando para a mais simples lógica supor que Ganga Zumba, este misterioso rei a quem todos se referem, mas que não aparece em nenhum dos eventos descritos, nem nos mais decisivos, já teria idade algo avançada, talvez um pouco além de 65 anos (nascido, por esta hipótese por volta de 1613, Ganga Zumba seria africano, mais precisamente angolano, com toda certeza).

(Eu costumo chamar – de forma ainda impertinente – a dinastia a que ele, Ganga Zumba teria feito parte de ‘Nkanga a Nzumbi’ –‘Zumbi’ para os íntimos- uma espécie de soba de uma série com funções reais, militares e sacerdotais semelhantes à dos sobas do antigo Reino do Kongo, depois que este foi influenciado pelo catolicismo português.)

De todo modo é difícil se imaginar um rei de terceira idade pelejando de espada e pistola nas mãos pelas matas da Serra da Barriga. É bem mais lúcido imaginarmos que o guerreiro ferido na perna, a quem se atribuía esta fibra e coragem guerreira fosse este filho (ou sobrinho) ‘mais velho’ do rei.

É mesmo possível que os incidentes de 1677 tenham pegado a comunidade kilombola em plena crise pela sucessão deste velho rei Ganga Zumba, de quem este filho ou sobrinho ‘mais velho’ seria o sucessor natural, o novo ‘Zumbi’. Não é improvável inclusive que tão propício momento tenha sido aproveitado pelos traidores de plantão para dar o seu golpe decisivo no velho rei.

O certo é que não existe a rigor nem mesmo qualquer prova de que ele, Ganga Zumba tenha sido sequer consultado a respeito dos termos da rendição, que afirmam ter sido pedida por ele (as fontes falam que foram enviados emissários, mas absolutamente não provam se estes realmente estiveram com Ganga Zumba e se tiveram bom termo em suas ameaças e intimações).

“…(O governador D. Pedro de Almeida) …’mandou um alferes doutrinado na disciplina d’aquelles desertos, e dissesse aos negros, que ficava preparando Fernam Carrilho para voltar e destruir as pequenas relíquias que tinham ficado…”

(Cons. Drummond, “Relação das guerras que fez à palmares…” Torre do Tombo)

Seis filhos do rei Ganga Zumba estariam entre os presos e mortos segundo este relato, um número bem alto, convenhamos.

Considerando-se também que, a esta altura as autoridades já possuíam a identidade da maioria dos parentes do Rei, obtidos evidentemente nos interrogatórios aos presos (duzentos segundo uma fonte) como seria o nome dos filhos (dois, sendo um o ‘mais velho’) que, supostamente desceram para Recife? Os dois que se entregam – seriam na verdade os mesmos como parece ser mais provável – que já haviam sido presos?

Quantos filhos teria o rei Ganga Zumba efetivamente se, além disto considerarmos que, segundo um dos relatos, pelo menos quatro haviam sido mortos nas refregas de 1677? Neste caso seria necessário identificar quem seriam os dois filhos que, no ato do acordo se dirigiram à Recife, o que lhe aumentaria a prole para oito filhos, apenas considerando os homens.

Há também uma controvérsia mais complexa ainda que é a possibilidade de alguns dos homens identificados nos documentos como sendo os muitos filhos do rei, serem na verdade seus sobrinhos. A evidencia fica mais provável quando se conhece as regras particulares de organização da família tradicional bakongo, origem sócio-cultural mais evidente da sociedade palmarina, na qual pelas regras de ‘kanda’, os sobrinhos (filhos da irmã do rei) é que aparecem proeminentemente na linha de sucessão, sendo por isto mesmo considerados como sendo filhos, do mesmo modo que os  filhos naturais do rei.

Outra curiosidade é que este citado ‘filho mais velho’ do rei (que como vimos bem poderia ser um sobrinho), aquele que chega a cavalo porque está ‘ferido na perna’, no ato da confirmação do acordo de Cucaú, após as comemorações pela obtenção da paz, é largado quase que sozinho na cidade, supostamente sob a guarda do governador geral afim de se ‘restabelecer do ferimento’. A hipótese deste filho ser na verdade a mesma pessoa que ficou ferida e largou as armas pelo caminho (aquele que todas as fontes afirmaram que seria o próprio rei) pode muito bem ser aventada.

Os questionamentos são muitos: Se os integrantes da comitiva estavam livres e o Rei em condições de negociar, já que o ferido era na verdade o seu filho mais velho, porque ele não aparece na comitiva que vai para o acordo nem aparece no rol dos presos?

Ganga Zona, o nego safado Judas Iscariotes

Alcagüete merece cacete. Ninguém se deu conta, mas foi ele sim.

O paradeiro de Ganga Zona também é estranho e não sabido desde a escaramuça em que um grupo de desgarrados quilombolas presos testemunharam que era ele quem os comandava quando o grupo foi interceptado na mata e derrotado.

Os textos são, portanto do mesmo modo omissos em apontar o suposto irmão do rei, Ganga Zona entre os quilombolas que se rendem e tampouco o identifica entre presos. Ganga Zona, segunda pessoa mais importante em Palmares segundo todas as fontes – uma espécie de ‘segundo rei’ segundo uma destas fontes – simplesmente teria desaparecido totalmente dos relatos nesta fase, para só aparecer, logo em seguida ao acordo, já como aliado incondicional das autoridades de Recife – contra  Zumbi e os demais quilombolas rebelados nas matas – o que nos faz supor que ele estaria já mancomunado com os dos portugueses desde o início.

(Na verdade, um destes vagos e apócrifos relatos afirma que no ato solene, o Te Deum mandado celebrar em Recife em honra do suposto acordo, Ganga Zona e, pelo menos um de seus filhos são batizados e adotam nomes portugueses, ambos passando a usar o sobrenome ‘De Souza de Castro’, copiado de Ayres de Souza de Castro, o governador anterior, tido a partir daí como padrinho oficial dele, Ganga Zona.)

Estes fatos truncados (a falta de pistas e citações sobre onde estaria Ganga Zona durante os eventos iniciais relacionados ao acordo) são muito estranhos também porque ele, Ganga Zona passou a ser, logo em seguida, como se viu, o mais entusiástico apoiador do acordo, trabalhando pelo cumprimento dele, sintomaticamente sob as ordens diretas do ex governador Ayres de Souza de Castro.

 Curioso também um dos textos afirmar que a família do rei Ganga Zumba virou ‘quinto do rei’ (ou seja, butim, ‘comissão’) e outro dizer que ‘todas as pessoas de família do rei  foram ‘restituídas’ (ou seja, libertadas).

“… Depois de retirados os quintos (a comissão) de El-rei, que recaíram sobre a mulher, filhos e netos do rei Ganga Zumba, e de dois moleques para Fernão Carrilho, que nada mais quis.”

(Pedro Paulino da Fonseca – “Memórias dos feitos que se deram durante os primeiros anos de guerra com os negros quilombolas de Palmares…”)

De todo modo, a maioria das fontes confirma que, de algum modo todos da família do rei porventura capturados foram efetivamente libertados. É curioso, contudo e observar que nenhum documento fala da chegada do rei, vindo das matas, para Cucaú com o resto dos seus que haviam escapado da refrega de 1677. As notícias de Cucaú só reportam uma suposta conspiração de lugares-tenentes.

“…Começaram desde logo as defecções entre a gente de Ganga zuma. Vários chefes se reuniram secretamente e planejaram o envenenamento do soba negro e dentre eles se destacaram João Mulato, Canhongo, Amaro e Gaspar, apesar da relutância de Gangazona, irmão do rei e fiel aos termos do acordo de paz

(Mario Martinsde Freitas, “O Reino negro de Palmares, Ed.Bibliex, 1988)

“. ..Que se reduza (Zumbi) à obediência das nossas armas buscando o seu tio Gangazona para viver na mesma liberdade com toda a sua família que goza o dito seu tio que foi só o homem que soube guardar a sua palavra…”(segundo se depreende, diz Martins, esta ordem foi feita por intermédio do régulo Gangazona, que a fez chegar por um de seus homens a o rei ‘Zambi’)

 (Bando de Manoel Lopes em 6 de Março de 1680 – citado pelo Barão de Studart – apud Historia do Brasil de Rocha Pombo)

E se este homem ferido que ficou detido pelos portugueses fosse mesmo o próprio o ‘Zumbi’ ‘da vez’? Como teria ele escapado da suposta armadilha de Ganga Zona e dos portugueses, largado só em um quarto, vigiado provavelmente por soldados?

“…Cativaram (prenderam) o Acaiuba com dois filhos do rei, um macho chamado Zambi…”

E vejam que incrível: Um destes textos oficiais, lançado como agulha em palheiro no meio dos calhamaços da Torre do Tombo, dá a este rei ferido na perna em combate, cabalmente o nome exato de ‘Zambi’, mesmo nome de um dos filhos aprisionados do rei no incidente de 1677!

..Ahí foi ferido de bala o general das armas Zambi, negro de singular valor, grande animo, Constancia admirável e inimigo capital dos brancos; ficou vivo, porém aleijado de uma perna…”

(Expedição primeira de D.Pedro de Almeida e cap. Mor Manoel Lopes Galvão em descrição de Pedro Paulino da Fonseca)

Seria ele o Zumbi, o Nkanga a Nzumbi mais afamado, aquele não se entregou jamais e comandou a segunda saga palmarina que, gloriosa só termina no alvorecer do século seguinte?

Eletrizante investigação!

————-

Pois é. Bem mais de 300 anos atrás. Os documentos do inquérito estão velhos, amarfanhados, mofados e frios… tombados. As traças deles berram ainda as mesmas mentiras polidas que as autoridades infiéis e corruptas queriam que nós, na posteridade delas, acreditássemos. São papéis que sofreram também a surra inclemente – e não menos infiel- das releituras e recriações de doutos e não doutos historiadores (entre eles eu). Mas eles, os papéis nos falam sempre algo mais nas suas entrelinhas.

Bem sei. A verdade absoluta jamais será desvendada, mas a história sobrevive mesmo é destas nossas dúvidas quase vãs.

Neste particular, em se tratando de Brasil, pelo menos eu estou cansado de ser enganado… Vocês não?

E como este caso nunca será encerrado mesmo, fica aqui o mais que improvável fim.

Spírito Santo

Maio 2011
(Leia o post #01 aqui)

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~ por Spirito Santo em 30/05/2011.

3 Respostas to “Mundaú, Cucaú e os cafundós do nego Judas Iscariotes #02”

  1. Daniel,

    Você tem mais imagens ou informações com detalhes sobre indumentária bakongo no século 17/18, ou mesmo outros detalhes similares?

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  2. …O que prova em parte as minhas especulações. Como a tela está assinada como se fosse sido feita no Brasil, a hipótese de ser uma mulher uma quilombolaou, no mínimo uma negra com regalias de mulher livre, fica bem forte.

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  3. Essa mulher retrata por albert eckhout é do povo banto Bakongo pois a cesta e chapéu usada por ela era tipico daquele povo. muitos escravos que viviam no quilombo dos palmares eram bakongos

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