Provérbios Angolanos na Literatura Oral


Texto de Luís Kandjimbo (Ensaísta e crítico literário)

Um breve olhar sobre os provérbios angolanos, a partir de recolhas efectuadas entre os séculos XIX e XX.  in Revista de Bordo AUSTRAL (TAAG – Linhas Aéreas de Angola), Nº 45, Jul/Ago/Set 2003.

Autorização para reprodução do texto concedida por AUSTRAL em 11 de Fevereiro de 2004. (Extraído do blog de Gociante Patissa)

A literatura angolana sob a forma escrita sedimenta-se apenas no século XIX. Porém, a criação verbal oral é bem mais antiga. Remonta aos primórdios da própria comunicação humana. Por isso, qualquer definição de literatura angolana hoje, não pode perder de vista aquele segmento a que se chama oratura ou literatura oral. Trata-se de um acervo de textos orais que podem, presentemente, ser conservador com recurso à escrita.

Conscientes do seu valor andavam alguns autores do séc. XIX.

Não faz sentido ignorar tais aspectos, na medida em que eles traduzem muito mais do que isso. Revelam a coexistência de três tradições em que a literatura angolana se desenvolve. A mais antiga, a literatura oral ou oratura, é aquela que nos remete para os tempos imemoriais.Quando, nos anos 60, o linguísta ugandês Pio Zirimu forjou o termo oratura, decorria nas universidades de Makerere no Uganda, Nairobi no Quénia e Das-es-Salaam na Tanzânia, um debate sobre a hegemonia das línguas europeias.

Mais de quarenta anos passados, são muitos os defensores da ideia segundo a qual a oratura não é apenas uma vertente das literaturas modernas em África. Encerra em si as conotações de um sistema estético, um método e uma filosofia. (1)Mas, se tivéssemos que acompanhar os debates que se desencadearam em Angola sobre o uso das línguas locais e das suas literaturas orais, iríamos encontrá-los nos jornais publicados em Luanda no século XIX.

Tal era o vigor das reflexões que autores como Joaquim Dias Cordeiro da Matta e o suíço Héli Chatelain deixaram para a história valiosas recolhas.No entanto, a atitude assumida por Cordeiro da Matta não pode ser comparada com a de Héli Chatelain, na medida em que, no plano do conhecimento, o primeiro desenvolve uma análise a partir de uma visão endógena. O segundo é movido por um interesse fundamentalmente etnográfico e exógeno, além de ter pretendido, segundo Geraldo Bessa Víctor, “pavonear-se com o primeiro lugar, na ordem cronológica, à frente de autores de florilégios de provérbios angolenses, prémio a que em verdade não tinha jus.” (2)

Em todos os trabalhos de pesquisa realizados sobre a literatura oral angolana nos séculos XIX e XX, os provérbios ocuparam sempre um lugar de destaque. Merecem referências as seguintes obras:

Elementos Gramaticais da língua Nbundu (1864), de Saturnino de Sousa e Oliveira/Manuel Alves de Castro Francina; Kinbundu Grammar – Gramática Elementar do Kimbundu ou Língua de Angola (1888-1889), de Héli Chatelain; Philosophia Popular em Provérbios Angolenses, Jisabu, Jiheng’ele, Ifika ni Jinongonongo Josoneke mu Kimbundu ni Putu Kua mon’Angola (1891), de Cordeiro da Matta; A Collection of Umbundu Proverbs, Adages and Conundrums (1914), da West Central African Mission – A.B.C.F.M.; Missosso, volume I (1961), de Óscar Ribas; Selecção de Provérbios e Adivinhas em Umbundu (1964), do Padre José Francisco Valente; Sabedoria Cabinda – Símbolos e Provérbios (1968), do Padre Joaquim Martins; Filosofia Tradicional dos Cabindas (1969-1970), do Padre José Martins Vaz; Dizer Assim (versões em português de provérbios da língua Umbundu, 1986), de Costa Andrade; Ingana Ye Mvovo Mya Bakongo(provérbios e máximas dos Bakongo, 1998), de Miguel Barroso Kyala.No contexto plurilinguístico angolano, o provérbio tem diferentes designações.

Diz-se Olusapo na língua Umbundu; Omuhe ou Omuse em Niyaneka-humbi; Ingana em KikongoJisabu em Kimbundu; Ikuma ou Cikuma em Cokwe. (3)

Dentro da classificação de textos literários orais, o provérbio representa o tipo de textos que, apesar da sua autonomia, pode no entanto entrar na construção de outros textos. Constituindo uma categoria de um conjunto que inclui ditados e máximas, caracteriza-se pela brevidade, associando-se-lhe uma estética da transmissão de pensamentos, crenças, ideias, valores e sentimentos. No que à sua estrutura diz respeito, o provérbio é um texto sintético e de uma grande densidade semântica.

Um provérbio carrega sempre dois sentidos – literal e conotativo – implicando um significado secundário. A passagem do primeiro ao significado secundário, cuja coerência é possível detectar em determinadas circunstâncias, constitui o núcleo da sua beleza, justificando por isso o esforço de interpretação que ele exige.

A estrutura dos provérbios normalmente é bipartida, apresentando premissas em dois membros ou orações da frase, numa configuração aparentemente silogística.

Além do sentido literal e do sentido conotativo, há que referir o tema, isto é, a lição a reter, a síntese subjacente ao significado das palavras e de que se parte para a extracção da ideia, do valor, do pensamento, enfim o ensinamento moral ou filosófico. Ao incidirmos sobre o tema, estamos a dar destaque à natureza pedagógica dos provérbios, porque deste modo a eles se recorre para exprimir algo que diga respeito aos diferentes aspectos da vida.

O jurista angolano Moisés Mbambi, enquanto falante da língua umbundu, seleccionou um conjunto de provérbios contendo princípios jurídicos fundamentais do direito, expondo a sua interpretação no contexto do pensamento jurídico de origem ocidental, mais especificamente dos diversos ramos de direito. (4)

Com o elenco que se segue, exemplifico o exercício de interpretação dos provérbios (5) veículados em Umbundu, uma das línguas Bantu faladas em Angola.

– Ekepa kalilinasi l’ositu, omunu kavokendi lomwenho (o osso não é deitado fora com a carne, a pessoa não é sepultada com vida).

O osso está para a carne assim como a pessoa está para a vida. Este provérbio pode ser proferido quando se pretende ensinar ou elucidar alguém sobre a importância da relação existente entre a pessoa, as partes do seu corpo e a própria vida. A relação existencial que se observa nas duas orações do provérbio, permitem inferir a construção de uma metonímia, pois o valor da carne e da pessoa humana é aferido por uma das suas partes. É que não há carne sem osso, mas também não há vida humana sem pessoa.

– Ekova k’omanu, ochipa k’inhama (a pele humana caracteriza as pessoas, a pele dos animais tem um nome diferente).

Não se deve confundir a pessoa com os animais. Apesar da pessoa e os animais possuírem pele, há na sua aparência uma diferença essencial e profunda. O que permite distingui-los. Por isso, tendo em atenção a dignidade humana, não se pode maltratar as pessoas como se fossem animais. Se quiser ser tratado como pessoa, deve cuidar mais da higiene, para não se assemelhar a um animal. A metonímia observa-se aqui igualmente. A aparente semelhança das partes não pode ser critério para avaliar o todo de duas realidades distintas.

– Ekova liyetimba, olondunge k’utima (a pele cobre o corpo humano, o juízo – ou a responsabilidade moral – cobre o coração humano).

Do mesmo modo que o corpo revela o aspecto físico exterior, assim o grau de responsabilidade e integridade moral determinam o carácter da pessoa. O aspecto físico exterior não traduz o valor e responsabilidade morais de uma pessoa. Os homens não se medem pela estatura física. Antes pelo contrário, valem pela sua dimensão espiritual e interior.

– Onjimbo l’elungi, omunu l’onjo (o papa-formigas vive na cova, a pessoa habita uma casa).

Um animal como o papa-formigas vive em qualquer cova que encontrar, já a pessoa tem sempre uma casa. Enquanto as covas abundam na selva, os homens constróem as casas de acordo com as suas necessidades. Os animais não transformam a natureza como os homens. A dignidade da pessoa não se confunde com o modo de vida dos animais.

– K’ono kwatota, omanu valuka (secou a nascente do rio, as pesoas mudam de lugar).

Há uma relação de causa e efeito entre a existência de um rio e a constituição de aglomerados populacionais nas suas proximidades. A água é indispensável para a sedentarização dos homens e quando a fonte seca, parte-se à procura de outro lugar.

– Longa ochinhama, kukase omunu (alveja-se o animal, não se apedreja a pessoa).

O animal pode ser alvo de caça, mas a vida humana é sagrada e deve merecer respeito. A pessoa nem sequer deve ser apedrejada.

– Omunu nda ñgo wafa kami ondalu, ava vasyala vayota (a pessoa que morre não extingue o fogo, os vivos continuam a servir-se dele – o fogo).

Apesar da morte, que é uma contingência que afecta os homens, a vida prossegue com os vivos. A substituição e a sucessão são incontornáveis no mundo das relações sociais. A morte não põe termo à sobrevivência comunitária. Não há pessoas insubstituíveis.

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(1) Ver Ngugi wa Thiong’o, Penpoints, Gunpoints and Drums. Towards a critical theory of the arts and the state in Africa, Oxford, Claredon Press, 1998, pp. 103-128.
(2) Geraldo Bessa Víctor, Ensaio crítico sobre a primeira colecção de provérbios angolenses, Lisboa, 1975, p.23.
(3) Ver António Fonseca, Contribuição ao estudo da literatura oral Angolana, Luanda, INALD, 1996, p. 52.
(4) Moisés Mbambi, O Direito Proverbial entre os Ovimbundu, Comunicação apresentada ao Colóquio do FENACULT, 1989.
(5) Ver José Francisco Valente, Selecção de Provérbios e Adivinhas em Umbundu, Instituto de Investigação de Angola, 1964.

A faxina de Zumbi sem Palmares


Foto: Guilherme Pinto/ Agência O Globo

                                                   Máscara-retrato do Rei  (Oba) Oni

Máscara de bronze de Oba Oni com 36 cm de altura (tamanho de uma cabeça humana normal) da coleção do Ife Museum, Nigéria .

Salvando as aparencias

Nem todas as anuais lavagens simbólicas das baianas do reciclado Bloco Filhos de Ghandi local, poderiam dar conta da limpeza desta mistificação tão bem intencionada que foi a criação do Monumento à Zumbi de Palmares na Praça Onze, centro do Rio de Janeiro.

Nenhuma orquestra de ogans de Candomblé, toques de batás, de runs, de rumpis, de lés, de ilus, de nenhum tambor yoruba, nenhum banquete de ebós–iguarias em alguidadares de puro barro, ofertados piamente à todos os orixás do panteão. Nenhum ponto para Ogum, Xangô, Oxossi, limparia a barra-karma de uma estátua de um negro rei jêje-yoruba, condenado a ser na terra do racismo sem palmeiras, o símbolo mais pomposo e equivocado da negritude nacional.

Nada adiantará. Nem Bopes, nem UPPs, câmeras de segurança, caveirões. A horda de jovens e velhos racistas-nazistas de plantão estará sempre, anualmente a postos para, na calada da noite, emporcalhar a cabeça de bronze do homem de suásticas ou pintá-la de branco como máscara de carnaval, simbolizando a hedionda recorrência do nosso racismo covarde e abjeto na busca nostálgica pela hegemonia do mal, amém.

Limpeza eterna parece ser a sina dos faxineiros de Zumbi.

Vivo dizendo: A representação iconográfica falseada do negro tem sido desde que o Brasil existe, um comportamento de natureza quase psicótica dos nossos artistas. Como ocorre, aliás, em todos os setores de nossa cultura envolvidos com a representação imagética, historiográfica, etc. do povo do Brasil, o racismo impregnado profundamente na alma de nossa elite intelectual (formada, por motivos óbvios por pessoas majoritariamente auto-identificadas como ‘brancas’) tem cumprido com fidelidade canina a sua missão de ser mecanismo de omissão, mascaramento, invisibilização ou ocultação de tudo que se refere à herança cultural dos africanos no Brasil, numa relação de baixa-estima anti-nacionalista (o ‘complexo de vira-latas’ que Nelson Rodrigues propôs), realmente patológica.

Lavagem cerebral?

Parece incrível, mas neste Brasil Fake tropical a negação de uma parte de nós mesmos, de forma renitente é sempre o que predomina. Somos um projeto imagético de uma nação sem negros – ou com negros fashion que só podem ser mostrados enquanto portadores passivos de uma cultura negra tutelada, exótica, embranquecida, idealizada, mistificada enfim, totalmente afastada de nossa real formação de nação constituída de povos diversos, como se fosse possível a um país ser representado sem a face real de parcela tão esmagadora de sua população.

Foi o que aconteceu – como não podia deixar de ocorrer – com a ‘cara’ de Zumbi.

Faxina étnica?

Mas há sim uma faxina possível, cada vez mais plausível que é a luta pelo restabelecimento da verdade histórica sobre Zumbi e seu Palmares real.

Muitos já se deram conta, por exemplo, de que a estátua da cabeça que representa Zumbi de Palmares na Praça Onze no Rio de Janeiro, na verdade não passa de uma réplica muito ampliada de uma cabeça de bronze da cidade de Ife, Nigéria, aproximadamente do século 12, representando a cabeça do Rei Oni (Oba Oni). Oba Oni?

Algum orixá desconhecido? Claro que não! Você sabia disto? Pois fique logo sabendo:

“…Na estátua de Brasília, Zumbi aparece como homem comum, sem quaisquer adereços ou símbolos, apenas um rosto humano, sem grandes idealizações. No centro do Rio de Janeiro, o mesmo Zumbi aparece representado de forma totalmente diferente. Sem os traços que caracterizam o homem comum e real da estátua de Brasília, o Zumbi do Rio se aproxima das formas ideais de uma entidade africana, e aparece despido de personalidade num rosto que evoca nobreza real, com sua coroa de contas de vidro.. “

Revista ‘História” 09/09/2007

Curiosamente como se viu – na verdade, como já disse e apesar das exceções, este é um equívoco recorrente no Brasil quando se trata da representação da cultura do negro – esta cabeça e Ifé foi mesmo usada como modelo para a estátua de Zumbi de Palmares, líder quilombola de ascendencia, muito provavelmente angola-conguesa e não yoruba-nigeriana como a imagem sugere. O professor-doutor da Uerj e artista plástico Roberto Conduru escreveu a respeito na revista África um insinuante texto, atribuindo ao sociólogo Darcy Ribeiro a ‘culpa’ por esta equivocada homenagem a Zumbi representado aqui pela cabeça de Oba Oni.

…”Idealizado por políticos locais e representantes do movimento negro (o vereador José Miguel foi o autor do projeto de lei e grande batalhador pela construção do monumento  (nota minha), o monumento a Zumbi dos Palmares deveria ocupar inicialmente um espaço no Largo da Carioca, no centro do Rio de Janeiro, onde chegou a ter a pedra fundamental lançada em 1982.

No ano seguinte, os organizadores da homenagem decidiram transferir o projeto para o Parque do Flamengo, mas o monumento acabou finalmente erigido, em 1986, perto da antiga Praça Onze, um dos berços do samba e local emblemático da cultura afro-descendente no Rio de Janeiro. Na visão da historiadora Mariza Soares, essa homenagem a Zumbi feita de concreto armado e metal é o “símbolo maior” de uma “tentativa de monumentalização da negritude” empreendida pela administração de Leonel Brizola, que governou o estado do Rio de Janeiro entre 1983 e 1987.

Junto com o Sambódromo e a escola Tia Ciata, o monumento forma um complexo que visa, em seu conjunto – segundo Mariza Soares –, à “comemoração da negritude”.

…A iconografia de Zumbi não proveio de Alagoas, estado no qual estão localizados os remanescentes do Quilombo de Palmares, ou de outra parte do Brasil. Darcy Ribeiro se apropriou da forma de uma escultura pertencente ao acervo do Museu Britânico, deslocou-a para outro continente, mandou ampliá-la de 36 centímetros para três metros, fundiu-a em 800 quilos de bronze e a instalou numa das principais vias públicas da cidade do Rio de Janeiro.”

Roberto Conduru – Revista História n°20   

Na verdade já se sabe hoje em dia que não era nada impossível a missão de descobrir senão a verdadeira fisionomia, pelo menos uma imagem bem aproximada de Zumbi de Palmares. E convenhamos que não se soube disto antes por pura incúria e descaso de nossa historiografia acadêmica no trato do tema ‘O negro no Brasil’.

Aliás, a iconografia sobre Palmares de certo modo, considerando-se o caráter remoto da época (sec.17) é até bastante profusa. Em grande parte ela foi brilhantemente realizada pelos pintores holandeses trazidos para o Brasil por Maurício de Nassau, exatamente para este fim: produzir uma iconografia do chamado Brasil holandês

Entre estes artistas destacou-se Albert Eckhout , a quem são atribuídas muitas imagens de negros não-escravos em Pernambuco, entre elas um guerreiro negro estilizado e uma impressionante retrato de um misterioso e arrogante negro rebelde, armado de espada, pintura ainda sem identificação do autor, mas com todos os elementos de ter sido pintada por Eckhout  no Brasil  (veja mais posts sobre o assunto neste mesmo blog)

Máscara de cobre de Oba lufan com 36 cm de altura (tamanho de uma cabeça humana normal) da coleção do Ife Museum.

Além das aparencias

Entre estas cabeças encontradas, atualmente expostas no Ife Museun (depois de resgatadas do Museu Britânico que durante muitos anos teve em seu acervo peças saqueadas durante a invasão britânica à Nigéria no século 19), existe esta outra, sem o elmo (cujas incisões de encaixe aparecem nitidamente na foto) que os especialistas afirmam ser do Rei Lufan.

Oba Lufan (‘Oba’ em yoruba significa, literalmente, ‘rei’,’ chefe’), curiosa e provavelmente é o mesmo personagem venerado no candomblé brasileiro sob o nome de  ‘OxaLufan, corroborando, pelo menos em parte, a tese atribuída a Pierre Verger de que muitos – senão todos – os orixás do panteão do candomblé brasileiro, foram na verdade reis e figuras importantes de povos da região de Ife e Oyó (onde reinou ‘Sangò’/Xangô’) que se tornaram célebres a ponto de serem eternizados, ou venerados pela história oral das pessoas de sua nação, sob a forma de  orixás (palavra da língua yoruba ‘orisa’ que significa, literalmente ‘imagem’, ícone’, por extensão‘santo’)

As incisões na peça, muito comuns na arte escultórica de Ife (cuja função parece ter sido a de perpetuar a memória dos reis por meio de retratos tridimensionais e bastante fiéis deles (como ocorreu com os quadros de pintores da renascença européia) podem  denotar  que o personagem usava barba e bigode (da mesma forma que o Rei Oni-‘Zumbi’) além de portar na cabeça, provavelmente uma espécie de elmo ou capacete cerimonial.

Oba Lufan, como se comprova após a identificação desta sua cabeça-retrato (leia mais em “African Art’ de Frank Willet) foi um dos mais importantes reis do Reino de Ife. A ele é atribuída inclusive a introdução deste estilo escultórico naturalista pouco comum no resto da África, onde estilos inquietantemente ‘modernistas’, estilizados enfim, predominam até hoje em dia.

O estilo naturalista de Ifé – que, a se julgar pelos estudos do ‘pai da história’ Heródoto pode ter tido a mesma origem do naturalismo escultórico grego:  o  antigo Egito. parece ter evoluído de origens bastante remotas, quem sabe no âmbito de sucessivas migrações para o oeste de povos que formaram muitas outras civilizações pelo caminho – entre estas o Reino de Ifé, – povos estes oriundos de regiões mais ao leste do continente como a Núbia e o Egito talvez.). Nesta mesma provável rota migratória encontraremos também a impressionante arte escultórica em bronze do Benin (ex Dahomey)

Um estudo evolutivo desta técnica escultórica pode ser feito em parte, com a comparação meticulosa entre peças de épocas mais remotas, sempre caracterizadas pela representação naturalista de reis e rainhas, em terracota, bronze, cobre, e às vezes em épocas mais recentes, em madeira.

Irmã da cabeça do Rei (Oba) Lufan é linda a estátua do rei Rei (Oba) Oni. Ela é altiva e impressionante como uma esfinge ou um faraó, mas ela evoca uma majestade, uma realeza exageradamente fantástica, irreal.  Esta verdade que não quer calar é que me inquieta: No fundo no fundo o que temos tanto a ver assim com a nobreza orgulhosa de Ifé?

ObaOni não é Zumbi, ObaLufan não é uma entidade mística. A cosmogonia de uma única seita religiosa – o Candomblé – não dá conta de explicar e representar a cultura de um país inteiro, de origens e influências tão diversas, tão diferentes desta Nigéria-fake que impinjiram a nós, mesmo que fosse apenas no âmbito desta nossa negritude tão fugidia quanto relativa.

De que nos vale uma imagem que como uma cortina de seda branca, ora tolda a visão da selva úmida de onde vieram os africanos que habitam em nós, ora revela uma quantidade enorme de pirâmides de papel e mistificações grosseiras? De que nos vale acreditar nas mentiras cordiais ditas sobre estes mesmos quase africanos em que nos tornamos, ao longo desta nossa história ainda tão obscurecida pelas sombras do racismo de aparências e desaparecimentos que nos governa? De que nos adianta assim, cordatos, submissos – ainda hoje escravos de nós mesmos – aceitarmos estas belas fantasias enganosas, no fundo no fundo inventadas pelos ‘brancos’?

De que nos adianta, enfim mentirmos sobre nós mesmos (e digo nós TODOS, pretos e brancos assumidos deste Brasil)?

Afinal, tanto como o triste alferes mineiro (na verdade um português), Zumbi de Palmares (na verdade um angolano) é um herói brasileiro d’a gema’ não é mesmo…ou não?

Vergonha na cara e faxina na alma é do que precisamos. Uma lavagem nacional sem senhor algum a nos ditar onde está o nosso destino ou qual será o nosso bom fim.

Deixarmos de ser falsos brancos para sermos francos, isto sim.

Spírito Santo

Junho 2011

Grupo Vissungo e Grupo Maria Déia: O futuro de novo


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Tem jeito não: As sombras do Passado sempre se dissipam com as luzes do futuro

Vejam o emocionante e.mail que acabam de me repassar:

” Em 21/06/11 05:18, allguitars escreveu: “Caros amigas e amigos do Memorial Lélia Gonzalez, O Grupo Vissungo de jurassico nunca teve nada! Nao imitavam Stevie Wonder nem Bob Marley quando outros, que nunca se importaram com a identidade negra, preferiram uma alternativa comercial gringa colorida velha associada ao “desbunde”, segundo a vontade das multinacionais!

O Grupo Vissungo tinha os olhos e ouvidos no futuro – Antonio Espirito Santo e seus companheiros são verdadeiros heróis da cultura negra brasileira, quando disserem esses nomes tirem o chapéu!

Aqueles músicos foram capazes de salvar memorias importantíssimas e inseri-las em composições de perfil muito avançado para a época, onde a imprensa mentia e a maioria dos jornalistas da critica (assim como os intelectuais financiados pelos orgaos oficiais para “escrever” a historia da Musica Brasileira) não sabia distinguir um acorde de la’ menor de um outro de do’ maior.

Distante milhares de quilometros do Brasil sinto a grande emoção de ver o retorno do Grupo Vissungo à cena musical. Um abraço aos colegas do Grupo Vissungo!”

Maestro Alberto Chicayban ex-Grupo Maria Déia

Udine – Italia”

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Me lembro claramente dos shows que fizemos em mil novecentos e setenta e tal com o duo (que para mim era um trio) Grupo Maria Déia no Teatro Guaira em Curitiba. Éramos, os dois grupos de jovens musicos, referencias e exemplos do que havia de novo e promissor na música popular do Brasil no meio das então ‘feras’, ‘monstros sagrados’ de nossa tão criativa MPB, como Ivan Lins, Gonzaguinha, João Bosco, Aldir Blanc, envolvidos e organizados nós todos em torno da SOMBRAS, entidade que promovia shows Brasil afora numa encarniçada luta pela moralização dos direitos autorais no Brasil, luta que culminou com a criação do, infelizmente hoje famigerado ECAD.

O grupo Maria Déia (Chico Moreira e Alberto de Castro Chicayban) de que eu me lembro, propunha uma música nordestina com sabores modernos, algo judaicos, bascos-brasileiros, árabe-ibéricos, algo assim tão indefinível e inusitado para as plateias de então, quanto o som do seu irmão Grupo Vissungo, que de sua parte fazia uma abordagem musicalmente não menos moderna, da música negra mais afundada nos recônditos cafundós dos preconceitos de nossa arcaica e recorrente cena musical comercial daquele Brasil de chumbo.

O Vissungo fazia – e faz – música negra em vários sentidos, africana, lusa, rural, urbana, diaspórica, universal, não menos impregnada em nós, em nossas origens e nossa descendencia, a ser traduzida em modernidade para escapar das amarras do folclorismo paralisante que mantinha – e de certo modo ainda mantém – a rica musica dos negros do Brasil, ora no gueto escuro das cozinhas e terreiros ‘para inglês ver’, ora no também gueto dos norte americanismos fake-pops do mainstream de ocasião.

Musica de negros para todos.

O bom e velho amigo Alberto Chicayban fala, portanto do que viu e viveu, daquela nossa vontade – agora quase imortal – de sacudir a mediocridade que, jovens de então, nos sufocava e inspirava uma música sem fronteiras bobas. Bom demais saber que velhos na idade – a terceira já de nossas vidas – ainda somos os mesmos jovens e não vivemos submissos como nossos pais (e muito menos como nossos filhos). Muito além dos sabiás, bom demais saber que a juventude gorgeia como passarinhos em nós – como lá – aquelas mesmas canções de um futuro cheio de palmeiras e franca liberdade.

Abraço caloroso no Alberto Chicayban!

Spírito Santo

Junho 2011, Brasil

Siga o Rabo do Foguete. Queime as pestanas e descubra a sua batata antes que ela também queime


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Os rabos cada vez mais presos de nossas velhas coligações governistas

Dito e feito: É nas festas de São João que as batatas assam. Algumas até queimam, viram carvõesinhos incomíves.

Tão sufocados de propaganda estávamos que só agora, com esta história de Sigilo Eterno podemos perceber o quanto o esquema criado por Paulo Cesar Farias na campanha para a eleição do governo Collor é idêntico aos outros esquemas posteriores: um lobbista ‘testa de ferro’ com carta branca garantida pelo presidente, as vezes ocupando um cargo ministerial estratégico, intermedia negócios escusos entre certos próceres do partido no governo e a iniciativa privada com as mais inconfessáveis intenções.

Ao que tudo indica o modelo de gestão fraudulenta de Collor/PC Farias foi simplesmente copiado por algumas prefeituras de alguns partidos, aperfeiçoado e generalizado pelo PT à nível nacional a partir de 2002, estando em pleno vigor até hoje,  incríveis 19 anos anos depois!

Além de suas raízes coloniais -lusitanas mesmo, diríamos- existem raizes stalinistas na ladroagem oficial, proto-revolucionárias como os chamados ‘esquemas de finança’ dos partidos de esquerda desde a revolução russa e a guerra civil espanhola, mas só a conivencia escusa, um conluio entre todos os envolvidos e grande parte do eleitorado explica a longevidade impressionante deste nosso chamado ‘fosso ético’.

Pegue o controle remoto e volte o DVD de nossa história recente, toda collorida de esquisitices político- partidárias, inquéritos, batidas e operações da Polícia Federal. Vá pulando de replay em replay e se apavore como eu. Brinque com o fogo. Mije-se todo de medo (ou de tanto pular a fogueira). Verifique como as coisas sujas se assemelham – ou como as semelhanças se sujam, tanto faz se é vice ou se é versa.

Replay 01:

“…O governo Fernando Collor passou à História como sinônimo de corrupção. Da eleição (1989) ao impeachment (1992), a gangue que ocupou o Poder Executivo naquele período arrecadou US$ 1 bilhão com achaques, mutretas e golpes, segundo cálculos da Polícia Federal. A máquina de roubar ficou conhecida como Esquema PC, uma referência ao nome do tesoureiro da campanha presidencial de Collor, Paulo César Farias. Como é sabido, com exceção de PC Farias, até hoje nenhum dos integrantes daquele grupo (empresários, políticos e autoridades) foi condenado em última instância pelos crimes cometidos. Collor, por exemplo, foi absolvido de todas as acusações, incluindo a de corrupção... O próprio Paulo César acabou sendo condenado por dois crimes, digamos, menores: falsidade ideológica (ele abriu contas bancárias com nomes falsos) e evasão de divisas. Só foi parar na cadeia, onde passou dois anos, porque fez a besteira de fugir do país. O correto, portanto, seria refazer a frase da abertura deste artigo: o governo Collor passou à História como sinônimo de corrupção e também de impunidade.”

Lucas Figueiredo http://www.conjur.com.br/2006-jun-28/eu_sou_criminoso_pc_farias

Lembrou destas meigas cenas? Não acredito que já as esqueceu. Elas não se parecem incrivelmente com as cenas a seguir? Não? Ah…fala sério. Você não me parece tão cego assim a ponto de não ver o que está diante do seu nariz.

Replay 02:

“O relatório final da Polícia Federal sobre o Mensalão do Governo Lula – um calhamaço de 332 páginas, produzido por ordem do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, relator do processo do Mensalão – revela que o esquema foi financiado com dinheiro público, beneficiou mais pessoas, como o segurança pessoal do ex-presidente Lula, Freud Godoy, e que o publicitário Marcos Valério influenciava completamente o governo petista. As informações são da revista Época, que teve acesso ao documento e explica que “o mensalão, como já demonstravam as investigações da CPI dos Correios e do Ministério Público e agora se confirma cabalmente com o relatório da PF, consiste no mais amplo (cinco partidos, dezenas de parlamentares), mais complexo (centenas de contas bancárias, uso de doleiros, laranjas) e mais grave (compra maciça de apoio político no Congresso) esquema de corrupção já descoberto no país”.

Antonio Carlos Lacerda é correspondente internacional do pravda.ru. no brasil. e-mail:- jornalistadobrasil@hotmail.com

A imprensa ontem mesmo manifestava a preocupação do juiz relator do processo do mensalão, Joaquim Barboza com relação ao risco de, por uma manobra protelatória dos dois únicos acusados que ainda tem mandatos (João Paulo Cunha e Valdemar Costa Neto), única razão do inquérito ainda permanecer no STF, renunciarem aos cargos para forçar o caso passar para a primeira instancia da justiça convencional e voltar a estaca zero, o que significaria a prescrição…eterna.

Replay 03

“O senador Fernando Collor (PTB-AL) defendeu na manhã desta quinta (16) a manutenção do sigilo eterno de documentos oficiais do governo como forma de evitar o que classificou de “oficialização do WikiLeaks” no país, fazendo referência ao site sueco que ficou famoso por vazar na internet documentos secretos da diplomacia dos Estados Unidos. Presidente da Comissão de Relações Exteriores e responsável por comandar o debate do projeto que trata da caso, Collor usou a “segurança do Estado e da sociedade” como argumento para justificar sua posição favorável a sucessivas renovações dos sigilos de documentos oficiais considerados ultrassecretos.”

http://g1.globo.com/politica/noticia/2011/06/collor-defende-sigilo-eterno-e-fala-de-seguranca-do-estado-e-da-sociedade.html

O projeto original que trata do acesso a informações públicas – a ser alterado por Dilma agora- foi assinado por Fernando Henrique Cardoso. Contudo, FHC ontem mesmo já lançava as suas pulgas de desconfiança nas nossas orelhas, sugerindo que assinou sem saber em detalhes, exatamente do que se tratava:

”_ …Não fui pressionado nem pelo Itamarati nem pelo Exército. Uma coisa, contudo é certa, alguém colocou aquilo na minha mesa, sem passar pela Casa Civil”

Pense bem. Force a sua cuca e crie algum juízo ao menos sobre o fato: O que significaria ‘Segurança do Estado e da Sociedade’ para um indivíduo de má reputação tão notória quanto Fernando Collor de Mello (é…aquele mesmo lá de cima) até agora único Supremo Ladrão da República flagrado com a mão na botija?

Replay 04

“A presidente Dilma Rousseff deve passar a defender, junto ao Senado, uma mudança no projeto que trata do acesso a informações públicas, dessa vez para manter a possibilidade de sigilo eterno para documentos oficiais. Segundo a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, o governo vai se posicionar assim para atender a reivindicação dos ex-presidentes Fernando Collor (PTB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), integrantes da base governista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.”

http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5183850-EI7896,00-Jornal+Dilma+cede+a+Collor+e+Sarney+por+sigilo+eterno+de+dados.html

Ui! Já sei da historinha das coligações e alianças com o ‘mal que vem para o bem’, do princípio da ‘governabilidade‘, patati patatá, mas sempre que vejo estes nomes juntinhos assim, tão agarradinhos em seus não-brios de curriola de sócios do Brasil, me dá urticária. Como arde, gente!

Replay 05

“A discussão sobre documentos sigilosos tem como base um projeto enviado ao Congresso pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2009. No ano passado, a Câmara aprovou o texto com uma mudança que limitava a uma única vez a possibilidade de renovação do prazo de sigilo, o que fixaria um prazo máximo de 50 anos para a divulgação de documentos classificados como ultrassecretos. …O governo havia cogitado promover um evento para marcar o fim do sigilo eterno, que seria sancionado por Dilma sancionaria em 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A votação do projeto vem sendo adiada repetidas vezes. Na semana passada, Dilma almoçou com a bancada do PTB no Senado, ocasião em que Collor teria exposto argumentos contrários ao fim do sigilo.”

http://www.jornal.d24am.com/noticias/politica/dilma-quer-manter-sigilo-eterno-para-documentos-oficiais/26310

Replay 06

“Estão fazendo uma confusão, porque vi recentemente que estavam incluindo no sigilo [de documentos] violações aos direitos humanos”, afirmou Dilma. “Não há sigilo nenhum nos demais [casos], porque para alguém não abrir [os documentos], depois de 25 anos, tem que fazer uma justificativa a uma comissão.” De acordo com a presidenta, a justificativa precisa ser fundamentada e ser aceita. “No que se refere aos direitos humanos, nem com fundamentação [o sigilo será aceito]”, disse Dilma… “Então, onde está o sigilo nisso?”

http://www.informacaopublica.org.br/node/1596

Daí, eu saindo do cinema já meio assustado, fiquei matutando: Hum…Tá, tá, mas quem estava falando em ‘direitos humanos’ aqui? Eu não. Você estava? Falei o tempo inteiro de impunidade eterna, de rabo preso, cumplicidade com falcatruas, estas coisas. Logo quem está fazendo confusão não somos, exatamente nós os ‘alheios a tudo’, os – também como sempre – ingênuos de marré de si, os últimos a saber, estas coisas de babacas de carteirinhas que temos sido nós, o eleitorado do Brasil (se bem que cá entre nós, não saber de nada talvez seja a melhor posição numa hora destas).

Queria ser um mosquitinho nesta hora (ou um marimbondinho de fogo) O que será que o Elle disse no ouvidinho Della, meu Deus? Ai este cheirinho de rabo preso! Ai este foguinho saido do rabo de foguete que ella assumiu. Fumaça que dá bem a medida do quanto no Brasil uma teoria da conspiração quase sempre, nunca é tão delirante assim. Quem vai saber, mas claro que Collor de Mello deve ter falado de outro tipo ‘direitos’ (ou ‘tortos’, sei lá), ao pé do ouvidinho dela.

(E a caveira ex-gorda do pobre ex-rico PC Farias– o arquivo morto – deve estar chocoalhando, no túmulo, exalando o bafo gelado a sua sede… eterna por vingança)

Falava-se muito também de ‘teoria da conspiração’, tentando desqualificar aquelas denúncias todas (ai, ai! Tão michurucas diante das de hoje em dia!), quando o PC Farias morreu assassinado sabe-se lá por quem. Se você acreditou no laudo do Badan Palhares, tudo bem, respeito a sua babaquice (com todo respeito), mas vai ficar acreditando em tudo como corno sabido até quando? Estás ganhando alguma coisa com isto, para fingir que não sabe, que não viu e que tem raiva de quem viu?

Eu, de minha parte acho de muito mau gosto viver num país que precisa, vira e mexe, ser analisado, investigado assim por delegados e médicos legistas, defendido por juízes-advogados de porta de xadrez e ministros-consultores ‘um-sete-uns’.

No português claro isto é formação de quadrilha ou bando, gente! Isto não é nem de longe um governo não. Isto é Máfia. Se é pra viver num país assim, é melhor eleger logo para o governo do Brasil aquele pessoal do C.S.I. (‘Crime Scene Investigation’) da rede de TV CBS. Os capítulos da série de ladroagens e assassinatos, aqueles corpos já apodrecidos, autopsiados, dissecados à lupa, pelo menos – mesmo os já vistos – têm muito mais glamour do que este lodoçal republicano que nos engolfa até o pescoço.

Ai que sufoco!

Spírito Santo

Junho 2011

Sorry Europa, mas na Música Pop o ‘pulo do gato’ é africano


African alls Stars - Cover

African alls Stars - Cover

É. Só esta resenha, uma mera ‘palinha’ já diz quase tudo.

O livro – uma das minhas bíblias desde 1990 quando o amigo-aluno do Ghana Kwame Opoku (eu, na época, ainda morando lá em Viena) gentilmente me presenteou – é um clássico dos clássicos.

(É. Maluquice para os  incréus de mim e os desafetos ‘sabe-tudos’ que me perseguem, mas euzinho, afro-brasileiro, leigo de quase tudo, tive sim um aluno de  marimba que era…africano do Ghana. Pode?)

…Aluno não, porque na verdade – Kwame, advogado na sede da ONU de Viena, filho de uma família nobre de Akra, havia estudado um pouco de piano num liceu da ex-colônia inglesa, estas coisas e, bem mais velho que eu, me ensinou muito sobre música africana, me abrindo toda a sua coleção de música tradicional e pop de todo o continente em fitinhas k7 e fitas VHS que me dava ao fim de cada aula, durante um lanche maravilhoso com banana frita com canela por cima, prosaico manjar dos céus. Figuraça.

Bem, foi Kwame, como disse quem me deu este mais que precioso livro.

Falo do profuso music-book: “African all stars – The pop music of a Continent’, de Chris Stapleton e Chris May (editado por ‘Paladin Grafton Books – London 1987)

Músico ou não-músico, quem não leu precisa ler urgentemente para entender como é que a banda toca, ou seja, quais são os grandes segredos estruturais da melhor musica pop internacional.

…”Western music generally accentuates melody and harmony, keeping the rhythm to a simplistic, time-keeping role. In Africa, no such separates existing: horns, keyboard and stringed instruments are exploited their for rhythmic potential, while many instruments which Western would considerers exclusively percussive, such as talking drums or bells, are tuned for different pitches and increase the melody feel of the music.

African music’s concept of timing is also completely different from that of Westerns music, which generally sticks to one common beat, say 4/4 or ¾. In Africa, a bell player in a percussion group will keep the time-line while the rest of the ensemble creates a complex interplay of different beats, from 3/4 to 6/8 , and 6/8 for 2/4, all at same time. “

Sacou? Não? Então leia abaixo na minha até que razoável tradução:

—————

“…A música ocidental geralmente, acentua a melodia e a harmonia, mantendo o ritmo com uma função simplista, básica, voltada apenas para a marcação do tempo.

Na África, não se separa estas duas coisas: Sopros, teclado e instrumentos de cordas são explorados também pelo seu potencial rítmico, enquanto muitos instrumentos que são considerados no ocidente como sendo exclusivamente de percussão, como tambores falantes ou cowbells e blocks, são ajustadas para diferentes frequências para aumentar a sensação melódica da música.

Na música africana o conceito ‘Tempo’ (ou mesmo  ‘Timming’ ) também é completamente diferente do conceito ocidental, que geralmente se fixa na manutenção de um ‘beat’ comum, único, 4/4 ou 3/4 , etc.

Na África, um tocador de cowbell em um grupo de percussão vai manter a linha do tempo básico (o ‘clic’, o ‘beat’), enquanto que o resto do conjunto vai criar uma complexa interação de batidas diferentes, a partir de 3 / 4  para 6/8, e  6/8 para 2/4, todos ao mesmo tempo”…

(Ao que digo eu: Gerando a vulgarmente chamada poliritmia, a conjugação harmonica de nossos jeitos de ser, todos eles, em um).

Sacou agora?

Canto a pedra sempre e, se preciso for posso até provar tim tim por tim tim: O conceito ‘Música Pop’, tal como o conhecemos, esta coisa da música impregnada no nosso dia a dia, provavelmente nasceu junto com a escravidão, no embalo da dispersão, como vírus, de certos valores culturais africanos indeléveis pelas Américas todas (a Diáspora africana), com cantigas ativas (e escalas e ritmos) específicas para nascer, para viver, para trabalhar, para amar, para casar, para crescer e para morrer , e a respectiva explosão por aqui desta musica socializada, coletiva, feita para ser trilha sonora da nossa vida em todos os momentos dela, no walkman da alma dela, espetada como um pen drive nela, até o fim.

Enfim o lado bom que toda coisa ruim tem.

African all stars – The pop music of a Continent. Ou – nas entrelinhas que eu ressaltei de enxerido que sou – de como a música de um continente pode ter se espalhado pelo planeta inteiro.

Spírito Santo

Junho 2011

Fake muslim man – Nobre negão #02


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Homem negro com ramo de oliva -Século 17 -Tela atribuída a Albert Eckhout

E assim  no passo a passo deste museu vamos acabar virando experts neste assunto

Já conhecia este novo quadro que o incansável leitor-pesquisador Daniel Jorge me apresentou ontem. Eu já tinha uma cópia dele no conjunto de quadros com personagens negros retratados por pintores europeus em época próxima à Renascença que ando colecionando e comentando por aqui. Descartei-o da pesquisa exatamente por que achei que a figura era de um muçulmano, de algum lugar da África do Norte e portanto fora do foco bantu da minha coleta.

Ledo engano.

Realmente, à primeira vista o homem parece mesmo não ser da África ‘de baixo’, mas instigado pela questão proposta pelo Daniel (‘…encontrei uma pintura atribuida a Albert Eckhout mostrando um africano que aparentemente não é um banto”)  observando agora, mais atentamente certos detalhes (coisa fundamental em iconologia) eu diria que as aparências, realmente me enganaram.

Para começar, o quadro é apenas ‘atribuído’ ao Eckhout. Não há nenhuma prova, portanto de que seja realmente dele. Aliás, precisamos começar a considerar que a quantidade de retratos não assinados atribuídos pelos especialistas à Albert Eckhout é um pouco recorrente demais. É estranho que não se encontrem outros pintores a quem atribuir estas imagens. É bem provável que eles existissem em grande quantidade pois a África passa a ser nesta época um tema muito atraente.

A única descrição de especialista escrita no site onde está a imagem que Daniel me enviou agora, contudo diz textualmente o seguinte:

“Retrato de um homem negro, coroado de louros, segurando um ramo de oliveira na mão.

 “Este quadro precisa ser visto relacionado às três imagens que podem ser encontradas no Museu de Kunst, em Copenhague, “um homem negro do Congo em um grande chapéu ‘,’ Um homem negro do Congo, com um gabinete decorado” e “Um homem negro do Congo, com presas de elefante ‘. Todas as três obras são, tradicionalmente, atribuídas a Albert Eckhout, e estão listadas no catálogo raisonné por T. Thomsen (Albert Eckhout, Copenhagen, 1938, p. 26, 28, 29, 99, 169, figs. 12-14).

Especialista: Mark MacDonnell

Ou seja: A expertise  de MacDonnell associa o quadro àqueles que a gente já conhece (Figs. 1, 2 e 3 do post anterior), mas não define, claramente  a origem étnica do homem.

Tomando gosto por mais esta investigação, destaquei então os seguintes detalhes na minha própria ‘expertise‘ para vocês:

1- Observei que o detalhe que nos faz julgar que o homem não é um indivíduo de alguma etnia bantu, é, unicamente o turbante que ele usa. Mas se formos reparar mais aguçadamente, vocês descobrirão – tão surpresos quanto eu – que no pano que faz às vezes de turbante há uma barra de franjas muito pouco africanas, com letras aparentemente em latim ou grego, parecendo muito mais do que um pano de turbante africano, uma pequena toalha de cozinha ou um pano de pratos europeu, colocado ocasionalmente na cabeça do homem, exclusivamente para compor a imagem. O turbante seria, pois, falso, usado apenas como uma peça de composição de uma fantasia.

2- O ramo de louro coroando a cabeça do homem – uma prática como se sabe tipicamente greco-romana, relacionada grosso modo às festas em honra ao deus Dionísio– bem como o galho de oliveira em sua mão (no qual há, inclusive azeitonas verdes) sugerem que o local onde a imagem pintada foi possivelmente algum país mediterrâneo, sendo a hipótese mais  provavel a Itália renascentista.

3- As roupas do homem também, num reluzente veludo verde característico, principalmente pelos enfeites em debruns que lhes demarcam os ombros – embora não sendo possível definir de que país seriam por ser muito pequeno o trecho de tela onde ele aparece, são seguramente do figurino de nobres de alguma parte da Europa colonialista.

4- Os brincos e o colar do homem – e neste caso é recomendável observar os brincos e o colar do outro quadro analisado (o do homem rebelde com a espada) com seu acento claramente étnico, africano sim como os do outro, demonstram por sua vez que o homem retratado pode não ser um africano qualquer, um mero ‘assimilado’ vestido de europeu, parecendo mais ser alguém importante, um nobre africano em visita à Europa.

5- Por fim, o sorriso sugestivo do homem, associado a fato do pano de pratos na cabeça, imitando propositalmente um turbante, o ramo de oliveira a guisa de laurel, e os demais elementos inusitados todos, sugerem  sim uma cena jocosa, proposta talvez pelo próprio pintor durante uma ocasião festiva, num local onde as oliveiras são comuns (daí a minha aposta num cenário renascentista-mediterrâneo).

Considerando-se a falta de notícias de que Albert Eckhout tenha pintado na Itália (pelo menos na mesma época em que esteve no Brasil) aposto fortemente, portanto numa pintura realizada em algum ponto da Itália (Veneza quem sabe) retratando um homem da nobreza africana – provavelmente da área do Kongo, o que era recorrente nesta primeira metade do século 17 – e no fato do pintor não ser o Eckhout , talvez alguém da mesma escola, de quem os especialistas, infelizmente não se registraram o nome.

O estilo, a propósito lembra um pouco o do pintor flamengo Peter-Paul Rubens (1577-1640) grande mestre que criou uma escola pictórica muito influente na Europa do século 17, influindo fortemente na obra de vários outros pintores, flamengos como ele no período, entre os quais o próprio Albert Eckhout.

De resto podemos afirmar já que a lista de quadros de homens negros proeminentes, oriundos, a maioria deles da área do antigo Reino do Kongo nesta época é bem extensa (se vocês acompanharam a série até aqui, sabem que já localizamos cerca de 7 ou 8 retratos fiéis destas pessoas).

Esta profusão de dados iconográficos, retratos de uma época tão remota de nossa história, nos demonstra cabalmente que as iniciativas e esforços diplomáticos empreendidos por estes mandatários africanos, no sentido de também fazer parte, de algum modo, da ordem internacional vigente até então, muito além da dedicação ao comercio de escravos, único laço com a Europa, a eles atribuído ou reconhecido pela história oficial, foi bem mais complexa do que se imaginava – em sua dimensão política principalmente.

Enfim, muitas controvérsias e revelações neste assunto tão salpicado de lances reveladores. Elas, as controvérsias serão sempre muito bem vindas neste nosso mais do que empolgante debate.

Spírito Santo

Junho 2011

Nollywood, o cinema ‘cult-trash’ de Enugu, Nigeria


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Nolywood. Foto de Pieter Hugo

Nolywood. Foto de Pieter Hugo

por Federica Angelucci

Nollywood  é considerada a terceira maior indústria cinematográfica do mundo, lançando para o mercado de home vídeo aproximadamente 1 000 filmes por ano.

Tal abundância é possível porque os filmes são realizados em condições que fariam a maioria dos diretores chorar os produtores de filmes  independentes ocidentais. Os filmes de Nollywood são produzidos e comercializados no espaço de uma semana: O equipamento é de baixo custo, scripts são muito básicos, os atores escalados no dia do tiroteio, e são personagens locais, da “vida real”. Apesar do improvisado processo de produção, os filmes fascinam o público.

Na África, filmes de Nollywood são um raro exemplo da auto-representação da mídia de massa.

O continente tem uma rica tradição de contar histórias que foi expressa já de maneira abundante, através da ficção oral e escrita, mas nunca foi veiculada através da mídia de massa antes.

Os filmes contam histórias que fazem refletir sobre a vida de seu público: as estrelas são os atores locais; incumbidos de confrontar o espectador com situações familiares de romance, comédia, feitiçaria, corrupção, prostituição. A narrativa apela para o dramalhão, sem chance para finais felizes o fim édos filmes é sempre trágico. A estética é forte, violenta, excessiva, nada é dito, tudo é gritado.

Em suas viagens pela África Ocidental, Pieter Hugo fecou intrigado com este estilo inusitado, especilaizado na construção de um mundo ficcional onde todos os dias elementos da realidade e da ficção se misturam.

Ao pedir a uma equipe de atores e assistentes para recriar os mitos e símbolos de  Nollywood como se estivessem em sets de filmagem, Hugo acabou crioando uma realidade até verossímil.

Sua visão dos resultados do mundo interpretado pela indústria cinematográfica local em uma galeria de imagens alucinantes é inquietante.

Como num jogo, os quadros da série retratam situações bem surreais, mas que poderiam ser reais porque estão enraizadas no imaginário simbólico local. As fronteiras entre documentário e ficção tornam-se muito fluídas e ficamos em dúvida se a nossa percepção daquele mundo ireal reflete, na verdade realidade.

—————–

Texto Federica Angelucci (Tradução Spírito Santo. Colaboração Aristóteles Kandimba, Ras Adauto e Maria Cristina Romão, que ‘cantaram a pedra’ no facebook)

A face de Zumbi – A luz e a sombra do kilombo: Uma iconologia palmarina


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Homem negro com espada. 1640-1648 -autor deconhecido (talvez Albert Echout)

Homem negro com espada”, pintura flamenga de autor desconhecido (descrição oficial holandesa)“Óleo sobre tela Coleção do  Sr. e Sra. S. Nijstad, de Den Haag, esta pintura poderosa de um homem orgulhoso é cheia de enigmas. “

Retrato falado: Modelo bom é modelo vivo

Verdades nuas e mentiras cruas na iconografia do Brasil holandês.

Um arguto e simpático leitor chamado Daniel Jorge, me mandou diversas informações numa série de comentários que fez aos posts que ando escrevendo – meio que sofregamente confesso – sobre uma provável iconologia parcial da história o Kilombo de Palmares oculta há séculos por mui estranhas razões.

Tudo começou com uma nota que inseri no meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão’ acerca de uma misteriosa embaixada enviada pela Rainha Jinga (Nzinga Mbandi) e o seu provável irmáo, soberano do Reino do Kongo na década de 40 do século 17 ao chamado Brasil holandês, fato, aliás -e entre outros – solenemente ignorado pela historiografia  brasileira,  por aquelas razões aí de cima, as quais talvez só Freud explique.

A pista era muito tênue, mas eu apostei nela e me dei bem.

Pincei a informação numa breve notinha num site de um pesquisador de história angolana Helder Duarte e de um velho livro do folclorista Câmara Cascudo que sugeria o acontecimento da tal embaixada, descrita por ele como se fosse uma espécie de lenda colonial.

Não era. É um fato histórico de alta relevância, pra lá de importante para a nossa saga brasileira, paradigmático mesmo porque pode alterar em 360 graus quase tudo que a historiografia oficial do Brasil, descaradamente diz sobre o Kilombo de Palmares e o contexto da época

As descobertas e os indícios – que vão se confirmando com uma rapidez impressionante – são fantásticos. Primeiro, confirmando cabalmente que a embaixada (ou embaixadas) ocorreu mesmo (tenho inclusive o nome do navio cedido pelos holandeses de uma delas: ‘As Armas de Dortrecht’.

Encontrei o retrato do embaixador congolês, cujo nome português era D. Miguel de Castro  (todos os membros da aristocracia congolesa tinham nomes ‘cristãos’, inclusive a Jinga (Nzinga Mbandi) que se chamava também Ana de Souza).

D. Miguel (a fig. 1 do mosaico que fiz com a série de imagens aqui comentadas, está vestido impecavelmente à holandesa, numa tela de um conjunto de três, já que haviam duas outras com os servos de D.Miguel de Castro, do mesmo modo vestidos com roupas holandesas (fig 2 e 3) – atribuídas ao fabuloso pintor Albert Eckhout, integrante da comitiva de artistas que Maurício de Nassau trouxe ao Brasil, entre os quais o mais famoso ficou sendo Franz Post.

(A bem da verdade a atribuição das telas á Albert Eckhout nada tem de definitiva, pois alguns especialistas atribuem estas mesmas telas a outro pintor flamengo: Jasper Beckx. Resta confirmar a estada de Jasper na comitiva de seis pintores trazidos por Maurício de Nassau  (dos quais só ficaram notórios o paisagista Franz Post e o mui citado  Albert Eckhout) posto que as telas sugerem fortemente por sua temática, o período da dominação holandesa em Recife, Brasil)

Daí, feito sangria desatada – ou rastilho de pólvora aceso – a coisa evoluiu muito. Já com  o concurso de dois colaboradores de peso, Aristóteles Kandimba (que, além de angolano residia em Amsterdam, Holanda) e Rafael Cortes, um desgarrado aluno do Musik fabrik que, fã ardoroso de Eckhout, me apareceu magicamente com comentários brilhantes e – Oh, glória! – o livro “Albert Eckhout. Pintor de Maurício de Nassau no Brasil 163/1644”, do crítico de arte brasileiro Clarival do Prado Valladares com TODAS as telas atribuídas ao Eckhout feitas em Recife no início da década de 1640, em excelentes reproduções.

Digo TODAS para não dizer…quase todas,  porque vivo achando por aí muitas telas holandesas de autor desconhecido – como esta aí de cima – as quais, pela época, o estilo, os fortes indícios de terem sido pintadas no Brasil, podem muito bem ser atribuídas à Eckhout)

Rato véio e chafurdador que sou desde sempre, encontrei na internet logo em seguida, uma tela de uma mulher de meia idade, vestida também à holandesa (fig 7) e com um suvenir de ouro a ser entregue á alguém.

A anonimidade do autor do quadro desanimava, mas o estilo, para mim já familiar do pintor, além do contexto lógico expresso pelas roupas holandesas da mulher, e o objeto ofertado me davam a forte impressão de que o quadro devia fazer parte daquela mesma série que dizem ter sido pintada por Eckhout em Recife.

E não parou por aí a série de descobertas por que dias depois mesmo Daniel Jorge me apareceu com mais esta:

“Existe tambem uma ótima pintura do século 17 retratando um africano, comerciante de escravos ” (veja de novo, com zoom ou lupa se possível, a incrível imagem principal que ilustra este post).

Quase pirei. Na imagem – com certeza a mais impressionante de todas – o mesmo estilo a mesma época assinalada na descrição oficial do museu e o mesmo detalhismo perfeccionista, quase neurótico (veja a tradução a baixo) da arte de Albert Eckhout, pintor ‘verista’ de Nassau.  Um quadro que  instiga mesmo inúmeros mistérios.

Homem negro com espada”, pintura flamenga de autor desconhecido (descrição oficial holandesa)

“Óleo sobre tela Coleção do  Sr. e Sra. S. Nijstad, de Den Haag, esta pintura poderosa de um homem orgulhoso é cheia de enigmas. A identidade do pintor é desconhecida, assim como a identidade do homem no retrato e sua função.

Ele por vezes tem sido descrito como um comerciante de escravos, em virtude de sua espada e ar ameaçador. Suas roupas e os brincos são de origem ocidental, enquanto a sua espada e broche podem ser portugueses…

Sem perder tempo, larguei tudo que tinha a fazer para, instigado que fiquei para enveredar por esta nova trilha ou pista. Fui logo dando uma boa futucada naquele site onde Daniel havia encontrado a imagem. Já sabia da exposição Black is beautifull (realizada em 2008 pelo Museu Nacional de Amsterdam no Rijksmuseum de umas matérias sobre ele que achei do Brasil, mas não tinha visto todo o site original que é fabuloso.

Parti para traduzir alguns textos – que são excelentes – e escrevi por fim, no mesmo embalo esta matéria – mais uma, ufa! – para vocês sobre o tema que é (já deu para vocês notarem)  apaixonante demais.

A verdade infeliz, é que à medida que se vai descobrindo e revelando estas imagens, a gente vai confirmando que – desculpe insistir – a historiografia brasileira – não só a oficial, mas infelizmente toda ela – passou batida por esta iconografia riquíssima por razões bem esquisitas.

Como nunca se deram conta disto? De qualquer ângulo que as observemos estas descobertas são impressionantes.

Porque os indícios candentes que elas sugerem não foram esmiuçados por quem de direito (aqueles que, se julgam ‘cientistas’ sociais)?

Como vocês devem saber, os pintores holandeses que vieram com Nassau foram contratados para fazer – e brilhantemente fizeram – obras de valor etnológico inestimável no caso dos retratos, quase que únicos em sua época.

Nesta busca, na medida em que me deparava com certezas estimulantes, como por exemplo, conseguir provar com os retratos do embaixador do Kongo, que uma embaixada angolana ou congolesa – africana portanto – realmente esteve aqui.

Pelo menos uma destas viagens de angolanos, num total presumido de três, ocorreu na época de Nassau e seguiu de Recife para Amsterdam, bancadas pela Cia das Índias Ocidentais) Há registros de uma Te Deum ou missa oficiada numa catedral em Amsterdam em honra desses embaidores do Kongo. No mais fiquei  com muitas dúvidas que me instigam mais ainda como se vê.

Tenho a impressão, por exemplo, que o retrato de D. Miguel de Castro (Fig 1) e os outros dois de seus servos (Fig 2 e 3 ), que não estão assinados tudo indica que são, mas podem não ser de Eckhout.

Percebi também, contudo que cinco destes quadros que encontramos (entre os quais este que Daniel me mandou posterormente) parecem ser do mesmo pintor, realizados na mesma época e no mesmo local (a cidade de Recife no Brasil holandês).

Mosaico Eckhout - Upload Spirito Santo

Mosaico Eckhout – Upload Spirito Santo

Mitos e iconoclastias, fantasmas e fantasias

A fabricação dos ‘zoombies’ (aqueles dos filmes norte-americanos)

No conjunto de imagens que analizei (vejam todas na ilustração acima) há também tapeçarias atribuídas à Eckhout (fig. 6, 8 e 9) com outros indícios do mesmo modo esclarecedores.

Observem por exemplo o elmo na cabeça de uma rainha que desfila de rede por uma selva bruxuleante é o mesmo que está repetido em muitas imagens de autores diferentes.

Daniel percebeu que o mesmo elmo era o indício forte de que a figura foi copiada de um desenho do século anterior, que retrata uma suposta rainha de Ouidá (‘Oiudah’/’Ajudá’) de pé portando na cabeça o tal ‘elmo real‘.

(Nota em 2019: A propósito pude constatar recentemente, que a recorrente presença deste estranho elmo real tinha uma explicação bem prosaica: era nada mais nada menos do que cópias do elmo papal, inserido nas imagens para simbolizar talvez,  a aliança (ou ingerência) do Vaticano sobre aquelas futuras colônias)

O mesmo elmo descrito acima, observei de minha parte, encimava também a cabeça de uma imagem do rei do Kongo D.João I, o ‘D. João da Selva’ ou da ‘Silva‘ (na verdade o manikongo Nzinga a Mbemba, filho de Nzinga Nkuwu, anfitriões bakongo de Diogo Cão no século 16. A repetição recorrente do tal elmo, em contextos geográficos e históricos tão distantes quanto a fortaleza de Ajudá (Forte de “Oiudah“, no Dahomey, hoje Benin) e o Reino do Kongo em seus primórdios colonialistas,  nos indica que as tapeçarias podem não ter lá este valor etnológico todo, não passando mesmo de meras idealizações mirabolantes, interesssadas em ressaltar o exotismo da África mítica, ‘para inglês ver’, uma deformação da fidedignidade dos quadros da safra anterior.

(Com efeito uma das fontes pesquisadas sugere que as tais tapeçarias foram encomendadas por Nassau para pagar dívidas contraídas pela Cia. das Índias Ocidentais com a Alemanha.)

O mesmo, contudo não ocorre com os retratos da fase anterior. Eles são ao que tudo indica cópias fiéis de modelos vivos, pessoas que realmente existiram.

No caso da mulher de meia idade com o relicário de ouro na mão (Fig. 7), chamou muito a minha atenção, além do estilo inconfundível e similar ao dos outros retratos que documentam a embaixada do rei do Kongo à Recife, o fato dela estar também vestida à holandesa.

É muito provável, portanto que o retrato desta mulher, uma aristocrata congolesa certamente, faça parte do conjunto de telas atribuídas a Eckhout realizadas por ocasião da embaixada.

A única certeza que não se tem é se os quadros todos foram feitos aqui, ou na estada da comitiva em Amsterdam. Presumo que tenham sido feitos aqui sim, pois não há registros da estada de Eckhout na Holanda no mesmo período em que esteve aqui, sabe-se inclusive que os quadros desta série foram presenteados por Nassau ao príncipe da Dinamarca, logo após a saída dos holandeses do Brasil.

A hipótese de estes retratos serem de autoria do mesmo pintor  – todos sem assinatura – embora apenas três sejam atribuídos á Eckhout– , é factível e lança uma luz surpreendente sobre a figura deste último retrato (o que encima este post). Mas os outros são, do mesmo modo inquietantes como este, por exemplo:

Mulher Africana, Eckhout. (descrição original holandesa)

“O cenário é a costa brasileira em meio a plantas e flores nativas. Ela pode ser identificada como africana pelo tecido da saia, seu chapéu e sua cesta, que são típicos do povo Bakongo. Suas jóias e vaso são de origem européia. Estudiosos europeus ficaram fascinados com a cor da pele clara do bebê Africano sugerindo que as crianças africanas, provavelmente cresciam ficando progressivamente mais escuras.”

Contudo, com os demais quadros assinados por Eckhout (‘Guerreiro Negro‘ – fig. 5- e ‘Mulher Negra‘- fig. 4-) que não são retratos fiéis a um modelo vivo, alguns cuidados adicionais precisam ser tomados. Alguns críticos e analistas – brasileiros principalmente- insistem em afirmar sempre que as figuras de negros não escravos (coisa incomum na iconografia sobre a escravidão no Brasil) não foram retratadas no Brasil holandês.

Esta insistencia em afirmar sem provar por ‘a’ mais ‘b’ que as telas não se referem ao Brasil é quase neurótica em alguns casos. Encontrei verdadeiros laudos técnicos de botânica (no livro de Clarival do Prado Valladares) solicitados pelo autor para tentar provar, por exemplo que as palmeiras que aparecem nos quadros não pertenceriam à flora brasileira, o que retiraria os personagens negros das telas do contexto do Brasil, o que as descrições oficiais, holandesas, de todos os quadros, ao contrário,  já assumiam literalmente.

E a respeito de palmeiras, aliás, vamos combinar: A região do kilombo de nossa história, que existia no contexto destas mesmas paisagens de Recife se chamava exatamente…Palmares!

E ora ora, que se saiba, tecnicamente as descrições oficiais, originais de quadros desta importancia, são documentos históricos indiscutíveis. Quais foram as intenções que justificaram as tentativas de falseamento destes indícios? Vai saber.

A possibilidade, que já levantamos num post anterior pode ser fortemente corroborada também – no caso da ‘mulher negra’ – pelo cenário que parece ser uma praia de Recife e pelo detalhe riquíssimo do chapéu que Daniel Jorge, lendo a descrição oficial do quadro observou, ser um chapéu tipicamente bakongo, comum na época e que, neste caso estaria sendo usado por  uma mulher com todo o jeito de ser uma não escrava -com um filho ‘pardo’ – em plena capital do Brasil holandês!

O caso mais patológico destas omissões e falsificações brasileiras é da famosa tela denominada pela crítica de arte do Brasil como ‘Mameluco’ (geneticamente a mistura de branco com índio), uma ilustração que muitos conhecem por ser recorrente em livros de história nas partes relativas à invasão holandesa. Mas vejam que curiosa a descrição holandesa:

Mulato“, Eckhout (descrição oficial holandesa)

“Esta pintura de um mulato consta de uma série de onze imagens em que Albert Eckhout fez retratando os habitantes do Brasil. Juntos, eles mostram a hierarquia social na sociedade ao tempo do Governador-Geral Johan Maurits von Nassau-Siegen (1604 -1679).

A pintura de Eckhout é uma das primeiras representações de um mulato, o termo usado neste período para designar um indivíduo fruto de pais,  um branco e o outro negro. Embora o homem tenha cabelo crespo e lábios salientes, o bigode e a barba loira estão evidentes, enquanto seus olhos são castanho claro. Eckhout, assim, sugeriu uma mistura de pretos com brancos. “

Ora, como se vê, a descrição oficial da tela  (que, como seria normal, deveria ser diretamente referida sempre por fazer parte da obra) diz cabalmente o que o personagem descrito é, discorrendo inclusive sobre a intenção precípua do pintor de detalhar fielmente as características, digamos assim, étnicas da população recifense da época, ou seja, a existência já de miscigenação entre negros africanos e brancos portugueses no Brasil do século 17.

Mas me eximo aqui de especular qualquer coisa sobre esta talvez… maluquice eugenista de nossos doutos, distorcendo até a descrição oficial de uma tela do século 17. Só afirmo de resto que, quer queiram ou não queiram alguns, é bem provável que as telas se refiram ao Recife holandês sim. Os indícios que atestam isto nos aparecem em profusão.

É mas…e quem será este o negão marrento com a espada heim, gente! O retrato só falta falar.

Acho mesmo muito difícil, por exemplo, que ele seja como sugere a descrição holandesa, um mero ‘traficante escravos‘ ou mesmo que a tela tenha sido pintada  na África. Não se tem notícia de pintores holandeses em Angola ou em qualquer lugar da África portuguesa na época (a exceção é Olfer Drapper que, na verdade era um desenhista-gravurista e não fazia retratos).

É óbvio que o homem – que, curiosamente pelo coque e os brincos que usa pode ser confundido um pouco com – ops! – uma mulher de hoje em dia, só foi retratado por que era uma personalidade proeminente, muito importante no contexto social daquela época.

A guisa de apagar logo possíveis controvérsias posso mesmo assinalar que negros livres, aristocratas, sobas de reinos aliados, ou mesmo homens comuns a serviço dos europeus se esmeravam em se vestir como europeus, com suas fardas e casacas (como era o caso do ‘assimilado’ Henrique Diasfig 10 – por exemplo) e não da forma despojada, irreverente, displicente mesmo, como a que este homem altivo exibe no quadro.

Chama a nossa atenção, fortemente também – e observem como isto impressionou bastante quem faz a descrição original da tela – a expressão petulante e o soberano orgulho do retratado.

..Uma coisa é certa, porém: o pintor criou um retrato original de um homem negro formidável, senhor de si.”

E se ele for, como insinuo que seja um líder rebelde retratado em pleno Brasil holandes, em Recife mais precisamente, que atribuição ou função vocês dariam a ele senão a de um guerreiro não escravo, um líder rebelde, um chefe quilombola?

Pode ser que ele tenha sido até mesmo um importante líder quilombola. Porque não?

Não havia nenhum outro líder negro rebelde mais proeminente que Zumbi naquela época e naquele contexto. Seria este jovem rebelde um daqueles ‘Nkanga a Nzumbi, ‘Zumbis’ de Palmares (não se iluda. Eles foram vários entre 1620 e 1700) da nossa história real , tão carente de imagens de heróis verdadeiros?

Já pensaram? Seria esta mais uma descoberta do tio, daquelas, fantásticas?

Spirito Santo

Junho 2011

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Nota fortuita assaz esclarecedora, quase definitiva nesta referência:

Revta bras. zool., S Paulo 3(5) :249-326 28.vi.1985

ARTE E CIENCIA NO BRASIL HOLANDES~ THEATRI RERUM NATURALIUM BRASILIAE: UM ESTUDO DOS DESENHOS *
PETRONELLA J. ALBERTIN”

“Para uma melhor compreensão da problemática existente em torno dos desenhos, é indispensável tomar conhecimento das pessoas que trabalharam no Brasil, durante a estada de Maurício de Nassau, e que de um ou outro modo podem ter contribuído para a formação da coleção de desenhos do Theatrum.

As discussões sobre o número e a identidade dos artistas que se integra- ram à comitiva de Nassau ainda não chegaram a conclusões unânimes.

Com certeza podem ser somente aceitos os nomes de Albert Eckhout e Franz Post. Ambos são citados na “Lijste van de domistiquen ant hoff van Sijn Extie Johan Maurits van Nassau.. op den 1 Apdl 1643 genietende de vrije taefel” 5 (Lista dos   contratados que tinham acesso à mesa na corte de sua Excia. João Maurício de Nassau a 1 Abril 1643). Citados sob os números 15 e 16 encontram-se respectivamente “Elbert Eechout (e) Frans Post beijde met jongen” 6 (Elbert Eechout e Frans Post ambos com ajudantes) . No entanto, continua sendo intrigante o fato de Maurício de Nassau ter escrito, em carta ao Marquês de Pomponne, “dans mon service le temps de ma demeure au Brésil, six peintres, dont chacun a curieusemente peint à quoy ii estoit le plus capable . .. “.7

Esta passagem é tanto mais intrigante por a palavra “peintres” dar margem a diversas interpretações.

Sob esse termo geral, poderiam ser incluídos não somente artistas como Eckhout e Post, mas talvez também os cartógrafos e/ou os desenhistas de cunho mais científico como um astrólogo ou um botânico. Por Maurício de Nassau ter enfatizado que cada qual trabalhava “de acordo com sua capacidade ou especialidade”, poderia ser um argumento para aceitarmos que com “peintres”, de fato, não se deva entender somente artistas.

Albert Eckhout (Groningen cerca de 1610 – Groningen cerca de 1664)
Dos artistas que, com certeza, integraram a comitiva de Maurício de Nassau, de quem menos sabemos é Albert Eckhout.

Segundo os escassos e inseguros dados biográficos encontrados sobre sua pessoa, teria nascido em Groningen, onde também veio a falecer. Nada ainda é conhecido sobre sua obra antes de partida para o Brasil. Ainda não se sabe ao certo como se estabeleceu contato entre Maurício de Nassau e Albert Eckhout.

Segundo H. E. van Gelder é possível que tenham entrado em cantata através de Jacob van Campen, que trabalhava nos projetas para construção da Maurits- huis.
Albert Eckhout, provavelmente contratado como retratista, partiu junto coro Maurício de Nassau em 1636. Aqui dedicou-se a retratar seres humanos e animais. Durante sua estadia no além-mar fez muitos desenhos mais tarde Absorvidos na composição de seus quadros.

Das obras a ele atribuídas algumas se encontraIV no National Museet de Copenhague.lO As características do Trabalho de Eckhout são mais fáceis de analisar através de seus quadros em Copenhague, principalmente por meio das oito grandes telas, assinadas e datadas em 1643, nas quais é apresentada a população nativa do Brasil.”

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Junho 2011