Provérbios Angolanos na Literatura Oral


Texto de Luís Kandjimbo (Ensaísta e crítico literário)

Um breve olhar sobre os provérbios angolanos, a partir de recolhas efectuadas entre os séculos XIX e XX.  in Revista de Bordo AUSTRAL (TAAG – Linhas Aéreas de Angola), Nº 45, Jul/Ago/Set 2003.

Autorização para reprodução do texto concedida por AUSTRAL em 11 de Fevereiro de 2004. (Extraído do blog de Gociante Patissa)

A literatura angolana sob a forma escrita sedimenta-se apenas no século XIX. Porém, a criação verbal oral é bem mais antiga. Remonta aos primórdios da própria comunicação humana. Por isso, qualquer definição de literatura angolana hoje, não pode perder de vista aquele segmento a que se chama oratura ou literatura oral. Trata-se de um acervo de textos orais que podem, presentemente, ser conservador com recurso à escrita.

Conscientes do seu valor andavam alguns autores do séc. XIX.

Não faz sentido ignorar tais aspectos, na medida em que eles traduzem muito mais do que isso. Revelam a coexistência de três tradições em que a literatura angolana se desenvolve. A mais antiga, a literatura oral ou oratura, é aquela que nos remete para os tempos imemoriais.Quando, nos anos 60, o linguísta ugandês Pio Zirimu forjou o termo oratura, decorria nas universidades de Makerere no Uganda, Nairobi no Quénia e Das-es-Salaam na Tanzânia, um debate sobre a hegemonia das línguas europeias.

Mais de quarenta anos passados, são muitos os defensores da ideia segundo a qual a oratura não é apenas uma vertente das literaturas modernas em África. Encerra em si as conotações de um sistema estético, um método e uma filosofia. (1)Mas, se tivéssemos que acompanhar os debates que se desencadearam em Angola sobre o uso das línguas locais e das suas literaturas orais, iríamos encontrá-los nos jornais publicados em Luanda no século XIX.

Tal era o vigor das reflexões que autores como Joaquim Dias Cordeiro da Matta e o suíço Héli Chatelain deixaram para a história valiosas recolhas.No entanto, a atitude assumida por Cordeiro da Matta não pode ser comparada com a de Héli Chatelain, na medida em que, no plano do conhecimento, o primeiro desenvolve uma análise a partir de uma visão endógena. O segundo é movido por um interesse fundamentalmente etnográfico e exógeno, além de ter pretendido, segundo Geraldo Bessa Víctor, “pavonear-se com o primeiro lugar, na ordem cronológica, à frente de autores de florilégios de provérbios angolenses, prémio a que em verdade não tinha jus.” (2)

Em todos os trabalhos de pesquisa realizados sobre a literatura oral angolana nos séculos XIX e XX, os provérbios ocuparam sempre um lugar de destaque. Merecem referências as seguintes obras:

Elementos Gramaticais da língua Nbundu (1864), de Saturnino de Sousa e Oliveira/Manuel Alves de Castro Francina; Kinbundu Grammar – Gramática Elementar do Kimbundu ou Língua de Angola (1888-1889), de Héli Chatelain; Philosophia Popular em Provérbios Angolenses, Jisabu, Jiheng’ele, Ifika ni Jinongonongo Josoneke mu Kimbundu ni Putu Kua mon’Angola (1891), de Cordeiro da Matta; A Collection of Umbundu Proverbs, Adages and Conundrums (1914), da West Central African Mission – A.B.C.F.M.; Missosso, volume I (1961), de Óscar Ribas; Selecção de Provérbios e Adivinhas em Umbundu (1964), do Padre José Francisco Valente; Sabedoria Cabinda – Símbolos e Provérbios (1968), do Padre Joaquim Martins; Filosofia Tradicional dos Cabindas (1969-1970), do Padre José Martins Vaz; Dizer Assim (versões em português de provérbios da língua Umbundu, 1986), de Costa Andrade; Ingana Ye Mvovo Mya Bakongo(provérbios e máximas dos Bakongo, 1998), de Miguel Barroso Kyala.No contexto plurilinguístico angolano, o provérbio tem diferentes designações.

Diz-se Olusapo na língua Umbundu; Omuhe ou Omuse em Niyaneka-humbi; Ingana em KikongoJisabu em Kimbundu; Ikuma ou Cikuma em Cokwe. (3)

Dentro da classificação de textos literários orais, o provérbio representa o tipo de textos que, apesar da sua autonomia, pode no entanto entrar na construção de outros textos. Constituindo uma categoria de um conjunto que inclui ditados e máximas, caracteriza-se pela brevidade, associando-se-lhe uma estética da transmissão de pensamentos, crenças, ideias, valores e sentimentos. No que à sua estrutura diz respeito, o provérbio é um texto sintético e de uma grande densidade semântica.

Um provérbio carrega sempre dois sentidos – literal e conotativo – implicando um significado secundário. A passagem do primeiro ao significado secundário, cuja coerência é possível detectar em determinadas circunstâncias, constitui o núcleo da sua beleza, justificando por isso o esforço de interpretação que ele exige.

A estrutura dos provérbios normalmente é bipartida, apresentando premissas em dois membros ou orações da frase, numa configuração aparentemente silogística.

Além do sentido literal e do sentido conotativo, há que referir o tema, isto é, a lição a reter, a síntese subjacente ao significado das palavras e de que se parte para a extracção da ideia, do valor, do pensamento, enfim o ensinamento moral ou filosófico. Ao incidirmos sobre o tema, estamos a dar destaque à natureza pedagógica dos provérbios, porque deste modo a eles se recorre para exprimir algo que diga respeito aos diferentes aspectos da vida.

O jurista angolano Moisés Mbambi, enquanto falante da língua umbundu, seleccionou um conjunto de provérbios contendo princípios jurídicos fundamentais do direito, expondo a sua interpretação no contexto do pensamento jurídico de origem ocidental, mais especificamente dos diversos ramos de direito. (4)

Com o elenco que se segue, exemplifico o exercício de interpretação dos provérbios (5) veículados em Umbundu, uma das línguas Bantu faladas em Angola.

– Ekepa kalilinasi l’ositu, omunu kavokendi lomwenho (o osso não é deitado fora com a carne, a pessoa não é sepultada com vida).

O osso está para a carne assim como a pessoa está para a vida. Este provérbio pode ser proferido quando se pretende ensinar ou elucidar alguém sobre a importância da relação existente entre a pessoa, as partes do seu corpo e a própria vida. A relação existencial que se observa nas duas orações do provérbio, permitem inferir a construção de uma metonímia, pois o valor da carne e da pessoa humana é aferido por uma das suas partes. É que não há carne sem osso, mas também não há vida humana sem pessoa.

– Ekova k’omanu, ochipa k’inhama (a pele humana caracteriza as pessoas, a pele dos animais tem um nome diferente).

Não se deve confundir a pessoa com os animais. Apesar da pessoa e os animais possuírem pele, há na sua aparência uma diferença essencial e profunda. O que permite distingui-los. Por isso, tendo em atenção a dignidade humana, não se pode maltratar as pessoas como se fossem animais. Se quiser ser tratado como pessoa, deve cuidar mais da higiene, para não se assemelhar a um animal. A metonímia observa-se aqui igualmente. A aparente semelhança das partes não pode ser critério para avaliar o todo de duas realidades distintas.

– Ekova liyetimba, olondunge k’utima (a pele cobre o corpo humano, o juízo – ou a responsabilidade moral – cobre o coração humano).

Do mesmo modo que o corpo revela o aspecto físico exterior, assim o grau de responsabilidade e integridade moral determinam o carácter da pessoa. O aspecto físico exterior não traduz o valor e responsabilidade morais de uma pessoa. Os homens não se medem pela estatura física. Antes pelo contrário, valem pela sua dimensão espiritual e interior.

– Onjimbo l’elungi, omunu l’onjo (o papa-formigas vive na cova, a pessoa habita uma casa).

Um animal como o papa-formigas vive em qualquer cova que encontrar, já a pessoa tem sempre uma casa. Enquanto as covas abundam na selva, os homens constróem as casas de acordo com as suas necessidades. Os animais não transformam a natureza como os homens. A dignidade da pessoa não se confunde com o modo de vida dos animais.

– K’ono kwatota, omanu valuka (secou a nascente do rio, as pesoas mudam de lugar).

Há uma relação de causa e efeito entre a existência de um rio e a constituição de aglomerados populacionais nas suas proximidades. A água é indispensável para a sedentarização dos homens e quando a fonte seca, parte-se à procura de outro lugar.

– Longa ochinhama, kukase omunu (alveja-se o animal, não se apedreja a pessoa).

O animal pode ser alvo de caça, mas a vida humana é sagrada e deve merecer respeito. A pessoa nem sequer deve ser apedrejada.

– Omunu nda ñgo wafa kami ondalu, ava vasyala vayota (a pessoa que morre não extingue o fogo, os vivos continuam a servir-se dele – o fogo).

Apesar da morte, que é uma contingência que afecta os homens, a vida prossegue com os vivos. A substituição e a sucessão são incontornáveis no mundo das relações sociais. A morte não põe termo à sobrevivência comunitária. Não há pessoas insubstituíveis.

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(1) Ver Ngugi wa Thiong’o, Penpoints, Gunpoints and Drums. Towards a critical theory of the arts and the state in Africa, Oxford, Claredon Press, 1998, pp. 103-128.
(2) Geraldo Bessa Víctor, Ensaio crítico sobre a primeira colecção de provérbios angolenses, Lisboa, 1975, p.23.
(3) Ver António Fonseca, Contribuição ao estudo da literatura oral Angolana, Luanda, INALD, 1996, p. 52.
(4) Moisés Mbambi, O Direito Proverbial entre os Ovimbundu, Comunicação apresentada ao Colóquio do FENACULT, 1989.
(5) Ver José Francisco Valente, Selecção de Provérbios e Adivinhas em Umbundu, Instituto de Investigação de Angola, 1964.

A faxina de Zumbi sem Palmares


Foto: Guilherme Pinto/ Agência O Globo

                                                   Máscara-retrato do Rei  (Oba) Oni

Máscara de bronze de Oba Oni com 36 cm de altura (tamanho de uma cabeça humana normal) da coleção do Ife Museum, Nigéria .

Salvando as aparencias

Nem todas as anuais lavagens simbólicas das baianas do reciclado Bloco Filhos de Ghandi local, poderiam dar conta da limpeza desta mistificação tão bem intencionada que foi a criação do Monumento à Zumbi de Palmares na Praça Onze, centro do Rio de Janeiro.

Nenhuma orquestra de ogans de Candomblé, toques de batás, de runs, de rumpis, de lés, de ilus, de nenhum tambor yoruba, nenhum banquete de ebós–iguarias em alguidadares de puro barro, ofertados piamente à todos os orixás do panteão. Nenhum ponto para Ogum, Xangô, Oxossi, limparia a barra-karma de uma estátua de um negro rei jêje-yoruba, condenado a ser na terra do racismo sem palmeiras, o símbolo mais pomposo e equivocado da negritude nacional.

Nada adiantará. Nem Bopes, nem UPPs, câmeras de segurança, caveirões. A horda de jovens e velhos racistas-nazistas de plantão estará sempre, anualmente a postos para, na calada da noite, emporcalhar a cabeça de bronze do homem de suásticas ou pintá-la de branco como máscara de carnaval, simbolizando a hedionda recorrência do nosso racismo covarde e abjeto na busca nostálgica pela hegemonia do mal, amém.

Limpeza eterna parece ser a sina dos faxineiros de Zumbi.

Vivo dizendo: A representação iconográfica falseada do negro tem sido desde que o Brasil existe, um comportamento de natureza quase psicótica dos nossos artistas. Como ocorre, aliás, em todos os setores de nossa cultura envolvidos com a representação imagética, historiográfica, etc. do povo do Brasil, o racismo impregnado profundamente na alma de nossa elite intelectual (formada, por motivos óbvios por pessoas majoritariamente auto-identificadas como ‘brancas’) tem cumprido com fidelidade canina a sua missão de ser mecanismo de omissão, mascaramento, invisibilização ou ocultação de tudo que se refere à herança cultural dos africanos no Brasil, numa relação de baixa-estima anti-nacionalista (o ‘complexo de vira-latas’ que Nelson Rodrigues propôs), realmente patológica.

Lavagem cerebral?

Parece incrível, mas neste Brasil Fake tropical a negação de uma parte de nós mesmos, de forma renitente é sempre o que predomina. Somos um projeto imagético de uma nação sem negros – ou com negros fashion que só podem ser mostrados enquanto portadores passivos de uma cultura negra tutelada, exótica, embranquecida, idealizada, mistificada enfim, totalmente afastada de nossa real formação de nação constituída de povos diversos, como se fosse possível a um país ser representado sem a face real de parcela tão esmagadora de sua população.

Foi o que aconteceu – como não podia deixar de ocorrer – com a ‘cara’ de Zumbi.

Faxina étnica?

Mas há sim uma faxina possível, cada vez mais plausível que é a luta pelo restabelecimento da verdade histórica sobre Zumbi e seu Palmares real.

Muitos já se deram conta, por exemplo, de que a estátua da cabeça que representa Zumbi de Palmares na Praça Onze no Rio de Janeiro, na verdade não passa de uma réplica muito ampliada de uma cabeça de bronze da cidade de Ife, Nigéria, aproximadamente do século 12, representando a cabeça do Rei Oni (Oba Oni). Oba Oni?

Algum orixá desconhecido? Claro que não! Você sabia disto? Pois fique logo sabendo:

“…Na estátua de Brasília, Zumbi aparece como homem comum, sem quaisquer adereços ou símbolos, apenas um rosto humano, sem grandes idealizações. No centro do Rio de Janeiro, o mesmo Zumbi aparece representado de forma totalmente diferente. Sem os traços que caracterizam o homem comum e real da estátua de Brasília, o Zumbi do Rio se aproxima das formas ideais de uma entidade africana, e aparece despido de personalidade num rosto que evoca nobreza real, com sua coroa de contas de vidro.. “

Revista ‘História” 09/09/2007

Curiosamente como se viu – na verdade, como já disse e apesar das exceções, este é um equívoco recorrente no Brasil quando se trata da representação da cultura do negro – esta cabeça e Ifé foi mesmo usada como modelo para a estátua de Zumbi de Palmares, líder quilombola de ascendencia, muito provavelmente angola-conguesa e não yoruba-nigeriana como a imagem sugere. O professor-doutor da Uerj e artista plástico Roberto Conduru escreveu a respeito na revista África um insinuante texto, atribuindo ao sociólogo Darcy Ribeiro a ‘culpa’ por esta equivocada homenagem a Zumbi representado aqui pela cabeça de Oba Oni.

…”Idealizado por políticos locais e representantes do movimento negro (o vereador José Miguel foi o autor do projeto de lei e grande batalhador pela construção do monumento  (nota minha), o monumento a Zumbi dos Palmares deveria ocupar inicialmente um espaço no Largo da Carioca, no centro do Rio de Janeiro, onde chegou a ter a pedra fundamental lançada em 1982.

No ano seguinte, os organizadores da homenagem decidiram transferir o projeto para o Parque do Flamengo, mas o monumento acabou finalmente erigido, em 1986, perto da antiga Praça Onze, um dos berços do samba e local emblemático da cultura afro-descendente no Rio de Janeiro. Na visão da historiadora Mariza Soares, essa homenagem a Zumbi feita de concreto armado e metal é o “símbolo maior” de uma “tentativa de monumentalização da negritude” empreendida pela administração de Leonel Brizola, que governou o estado do Rio de Janeiro entre 1983 e 1987.

Junto com o Sambódromo e a escola Tia Ciata, o monumento forma um complexo que visa, em seu conjunto – segundo Mariza Soares –, à “comemoração da negritude”.

…A iconografia de Zumbi não proveio de Alagoas, estado no qual estão localizados os remanescentes do Quilombo de Palmares, ou de outra parte do Brasil. Darcy Ribeiro se apropriou da forma de uma escultura pertencente ao acervo do Museu Britânico, deslocou-a para outro continente, mandou ampliá-la de 36 centímetros para três metros, fundiu-a em 800 quilos de bronze e a instalou numa das principais vias públicas da cidade do Rio de Janeiro.”

Roberto Conduru – Revista História n°20   

Na verdade já se sabe hoje em dia que não era nada impossível a missão de descobrir senão a verdadeira fisionomia, pelo menos uma imagem bem aproximada de Zumbi de Palmares. E convenhamos que não se soube disto antes por pura incúria e descaso de nossa historiografia acadêmica no trato do tema ‘O negro no Brasil’.

Aliás, a iconografia sobre Palmares de certo modo, considerando-se o caráter remoto da época (sec.17) é até bastante profusa. Em grande parte ela foi brilhantemente realizada pelos pintores holandeses trazidos para o Brasil por Maurício de Nassau, exatamente para este fim: produzir uma iconografia do chamado Brasil holandês

Entre estes artistas destacou-se Albert Eckhout , a quem são atribuídas muitas imagens de negros não-escravos em Pernambuco, entre elas um guerreiro negro estilizado e uma impressionante retrato de um misterioso e arrogante negro rebelde, armado de espada, pintura ainda sem identificação do autor, mas com todos os elementos de ter sido pintada por Eckhout  no Brasil  (veja mais posts sobre o assunto neste mesmo blog)

Máscara de cobre de Oba lufan com 36 cm de altura (tamanho de uma cabeça humana normal) da coleção do Ife Museum.

Além das aparencias

Entre estas cabeças encontradas, atualmente expostas no Ife Museun (depois de resgatadas do Museu Britânico que durante muitos anos teve em seu acervo peças saqueadas durante a invasão britânica à Nigéria no século 19), existe esta outra, sem o elmo (cujas incisões de encaixe aparecem nitidamente na foto) que os especialistas afirmam ser do Rei Lufan.

Oba Lufan (‘Oba’ em yoruba significa, literalmente, ‘rei’,’ chefe’), curiosa e provavelmente é o mesmo personagem venerado no candomblé brasileiro sob o nome de  ‘OxaLufan, corroborando, pelo menos em parte, a tese atribuída a Pierre Verger de que muitos – senão todos – os orixás do panteão do candomblé brasileiro, foram na verdade reis e figuras importantes de povos da região de Ife e Oyó (onde reinou ‘Sangò’/Xangô’) que se tornaram célebres a ponto de serem eternizados, ou venerados pela história oral das pessoas de sua nação, sob a forma de  orixás (palavra da língua yoruba ‘orisa’ que significa, literalmente ‘imagem’, ícone’, por extensão‘santo’)

As incisões na peça, muito comuns na arte escultórica de Ife (cuja função parece ter sido a de perpetuar a memória dos reis por meio de retratos tridimensionais e bastante fiéis deles (como ocorreu com os quadros de pintores da renascença européia) podem  denotar  que o personagem usava barba e bigode (da mesma forma que o Rei Oni-‘Zumbi’) além de portar na cabeça, provavelmente uma espécie de elmo ou capacete cerimonial.

Oba Lufan, como se comprova após a identificação desta sua cabeça-retrato (leia mais em “African Art’ de Frank Willet) foi um dos mais importantes reis do Reino de Ife. A ele é atribuída inclusive a introdução deste estilo escultórico naturalista pouco comum no resto da África, onde estilos inquietantemente ‘modernistas’, estilizados enfim, predominam até hoje em dia.

O estilo naturalista de Ifé – que, a se julgar pelos estudos do ‘pai da história’ Heródoto pode ter tido a mesma origem do naturalismo escultórico grego:  o  antigo Egito. parece ter evoluído de origens bastante remotas, quem sabe no âmbito de sucessivas migrações para o oeste de povos que formaram muitas outras civilizações pelo caminho – entre estas o Reino de Ifé, – povos estes oriundos de regiões mais ao leste do continente como a Núbia e o Egito talvez.). Nesta mesma provável rota migratória encontraremos também a impressionante arte escultórica em bronze do Benin (ex Dahomey)

Um estudo evolutivo desta técnica escultórica pode ser feito em parte, com a comparação meticulosa entre peças de épocas mais remotas, sempre caracterizadas pela representação naturalista de reis e rainhas, em terracota, bronze, cobre, e às vezes em épocas mais recentes, em madeira.

Irmã da cabeça do Rei (Oba) Lufan é linda a estátua do rei Rei (Oba) Oni. Ela é altiva e impressionante como uma esfinge ou um faraó, mas ela evoca uma majestade, uma realeza exageradamente fantástica, irreal.  Esta verdade que não quer calar é que me inquieta: No fundo no fundo o que temos tanto a ver assim com a nobreza orgulhosa de Ifé?

ObaOni não é Zumbi, ObaLufan não é uma entidade mística. A cosmogonia de uma única seita religiosa – o Candomblé – não dá conta de explicar e representar a cultura de um país inteiro, de origens e influências tão diversas, tão diferentes desta Nigéria-fake que impinjiram a nós, mesmo que fosse apenas no âmbito desta nossa negritude tão fugidia quanto relativa.

De que nos vale uma imagem que como uma cortina de seda branca, ora tolda a visão da selva úmida de onde vieram os africanos que habitam em nós, ora revela uma quantidade enorme de pirâmides de papel e mistificações grosseiras? De que nos vale acreditar nas mentiras cordiais ditas sobre estes mesmos quase africanos em que nos tornamos, ao longo desta nossa história ainda tão obscurecida pelas sombras do racismo de aparências e desaparecimentos que nos governa? De que nos adianta assim, cordatos, submissos – ainda hoje escravos de nós mesmos – aceitarmos estas belas fantasias enganosas, no fundo no fundo inventadas pelos ‘brancos’?

De que nos adianta, enfim mentirmos sobre nós mesmos (e digo nós TODOS, pretos e brancos assumidos deste Brasil)?

Afinal, tanto como o triste alferes mineiro (na verdade um português), Zumbi de Palmares (na verdade um angolano) é um herói brasileiro d’a gema’ não é mesmo…ou não?

Vergonha na cara e faxina na alma é do que precisamos. Uma lavagem nacional sem senhor algum a nos ditar onde está o nosso destino ou qual será o nosso bom fim.

Deixarmos de ser falsos brancos para sermos francos, isto sim.

Spírito Santo

Junho 2011

Grupo Vissungo e Grupo Maria Déia: O futuro de novo


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Tem jeito não: As sombras do Passado sempre se dissipam com as luzes do futuro

Vejam o emocionante e.mail que acabam de me repassar:

” Em 21/06/11 05:18, allguitars escreveu: “Caros amigas e amigos do Memorial Lélia Gonzalez, O Grupo Vissungo de jurassico nunca teve nada! Nao imitavam Stevie Wonder nem Bob Marley quando outros, que nunca se importaram com a identidade negra, preferiram uma alternativa comercial gringa colorida velha associada ao “desbunde”, segundo a vontade das multinacionais!

O Grupo Vissungo tinha os olhos e ouvidos no futuro – Antonio Espirito Santo e seus companheiros são verdadeiros heróis da cultura negra brasileira, quando disserem esses nomes tirem o chapéu!

Aqueles músicos foram capazes de salvar memorias importantíssimas e inseri-las em composições de perfil muito avançado para a época, onde a imprensa mentia e a maioria dos jornalistas da critica (assim como os intelectuais financiados pelos orgaos oficiais para “escrever” a historia da Musica Brasileira) não sabia distinguir um acorde de la’ menor de um outro de do’ maior.

Distante milhares de quilometros do Brasil sinto a grande emoção de ver o retorno do Grupo Vissungo à cena musical. Um abraço aos colegas do Grupo Vissungo!”

Maestro Alberto Chicayban ex-Grupo Maria Déia

Udine – Italia”

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Me lembro claramente dos shows que fizemos em mil novecentos e setenta e tal com o duo (que para mim era um trio) Grupo Maria Déia no Teatro Guaira em Curitiba. Éramos, os dois grupos de jovens musicos, referencias e exemplos do que havia de novo e promissor na música popular do Brasil no meio das então ‘feras’, ‘monstros sagrados’ de nossa tão criativa MPB, como Ivan Lins, Gonzaguinha, João Bosco, Aldir Blanc, envolvidos e organizados nós todos em torno da SOMBRAS, entidade que promovia shows Brasil afora numa encarniçada luta pela moralização dos direitos autorais no Brasil, luta que culminou com a criação do, infelizmente hoje famigerado ECAD.

O grupo Maria Déia (Chico Moreira e Alberto de Castro Chicayban) de que eu me lembro, propunha uma música nordestina com sabores modernos, algo judaicos, bascos-brasileiros, árabe-ibéricos, algo assim tão indefinível e inusitado para as plateias de então, quanto o som do seu irmão Grupo Vissungo, que de sua parte fazia uma abordagem musicalmente não menos moderna, da música negra mais afundada nos recônditos cafundós dos preconceitos de nossa arcaica e recorrente cena musical comercial daquele Brasil de chumbo.

O Vissungo fazia – e faz – música negra em vários sentidos, africana, lusa, rural, urbana, diaspórica, universal, não menos impregnada em nós, em nossas origens e nossa descendencia, a ser traduzida em modernidade para escapar das amarras do folclorismo paralisante que mantinha – e de certo modo ainda mantém – a rica musica dos negros do Brasil, ora no gueto escuro das cozinhas e terreiros ‘para inglês ver’, ora no também gueto dos norte americanismos fake-pops do mainstream de ocasião.

Musica de negros para todos.

O bom e velho amigo Alberto Chicayban fala, portanto do que viu e viveu, daquela nossa vontade – agora quase imortal – de sacudir a mediocridade que, jovens de então, nos sufocava e inspirava uma música sem fronteiras bobas. Bom demais saber que velhos na idade – a terceira já de nossas vidas – ainda somos os mesmos jovens e não vivemos submissos como nossos pais (e muito menos como nossos filhos). Muito além dos sabiás, bom demais saber que a juventude gorgeia como passarinhos em nós – como lá – aquelas mesmas canções de um futuro cheio de palmeiras e franca liberdade.

Abraço caloroso no Alberto Chicayban!

Spírito Santo

Junho 2011, Brasil

Siga o Rabo do Foguete. Queime as pestanas e descubra a sua batata antes que ela também queime


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Os rabos cada vez mais presos de nossas velhas coligações governistas

Dito e feito: É nas festas de São João que as batatas assam. Algumas até queimam, viram carvõesinhos incomíves.

Tão sufocados de propaganda estávamos que só agora, com esta história de Sigilo Eterno podemos perceber o quanto o esquema criado por Paulo Cesar Farias na campanha para a eleição do governo Collor é idêntico aos outros esquemas posteriores: um lobbista ‘testa de ferro’ com carta branca garantida pelo presidente, as vezes ocupando um cargo ministerial estratégico, intermedia negócios escusos entre certos próceres do partido no governo e a iniciativa privada com as mais inconfessáveis intenções.

Ao que tudo indica o modelo de gestão fraudulenta de Collor/PC Farias foi simplesmente copiado por algumas prefeituras de alguns partidos, aperfeiçoado e generalizado pelo PT à nível nacional a partir de 2002, estando em pleno vigor até hoje,  incríveis 19 anos anos depois!

Além de suas raízes coloniais -lusitanas mesmo, diríamos- existem raizes stalinistas na ladroagem oficial, proto-revolucionárias como os chamados ‘esquemas de finança’ dos partidos de esquerda desde a revolução russa e a guerra civil espanhola, mas só a conivencia escusa, um conluio entre todos os envolvidos e grande parte do eleitorado explica a longevidade impressionante deste nosso chamado ‘fosso ético’.

Pegue o controle remoto e volte o DVD de nossa história recente, toda collorida de esquisitices político- partidárias, inquéritos, batidas e operações da Polícia Federal. Vá pulando de replay em replay e se apavore como eu. Brinque com o fogo. Mije-se todo de medo (ou de tanto pular a fogueira). Verifique como as coisas sujas se assemelham – ou como as semelhanças se sujam, tanto faz se é vice ou se é versa.

Replay 01:

“…O governo Fernando Collor passou à História como sinônimo de corrupção. Da eleição (1989) ao impeachment (1992), a gangue que ocupou o Poder Executivo naquele período arrecadou US$ 1 bilhão com achaques, mutretas e golpes, segundo cálculos da Polícia Federal. A máquina de roubar ficou conhecida como Esquema PC, uma referência ao nome do tesoureiro da campanha presidencial de Collor, Paulo César Farias. Como é sabido, com exceção de PC Farias, até hoje nenhum dos integrantes daquele grupo (empresários, políticos e autoridades) foi condenado em última instância pelos crimes cometidos. Collor, por exemplo, foi absolvido de todas as acusações, incluindo a de corrupção... O próprio Paulo César acabou sendo condenado por dois crimes, digamos, menores: falsidade ideológica (ele abriu contas bancárias com nomes falsos) e evasão de divisas. Só foi parar na cadeia, onde passou dois anos, porque fez a besteira de fugir do país. O correto, portanto, seria refazer a frase da abertura deste artigo: o governo Collor passou à História como sinônimo de corrupção e também de impunidade.”

Lucas Figueiredo http://www.conjur.com.br/2006-jun-28/eu_sou_criminoso_pc_farias

Lembrou destas meigas cenas? Não acredito que já as esqueceu. Elas não se parecem incrivelmente com as cenas a seguir? Não? Ah…fala sério. Você não me parece tão cego assim a ponto de não ver o que está diante do seu nariz.

Replay 02:

“O relatório final da Polícia Federal sobre o Mensalão do Governo Lula – um calhamaço de 332 páginas, produzido por ordem do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, relator do processo do Mensalão – revela que o esquema foi financiado com dinheiro público, beneficiou mais pessoas, como o segurança pessoal do ex-presidente Lula, Freud Godoy, e que o publicitário Marcos Valério influenciava completamente o governo petista. As informações são da revista Época, que teve acesso ao documento e explica que “o mensalão, como já demonstravam as investigações da CPI dos Correios e do Ministério Público e agora se confirma cabalmente com o relatório da PF, consiste no mais amplo (cinco partidos, dezenas de parlamentares), mais complexo (centenas de contas bancárias, uso de doleiros, laranjas) e mais grave (compra maciça de apoio político no Congresso) esquema de corrupção já descoberto no país”.

Antonio Carlos Lacerda é correspondente internacional do pravda.ru. no brasil. e-mail:- jornalistadobrasil@hotmail.com

A imprensa ontem mesmo manifestava a preocupação do juiz relator do processo do mensalão, Joaquim Barboza com relação ao risco de, por uma manobra protelatória dos dois únicos acusados que ainda tem mandatos (João Paulo Cunha e Valdemar Costa Neto), única razão do inquérito ainda permanecer no STF, renunciarem aos cargos para forçar o caso passar para a primeira instancia da justiça convencional e voltar a estaca zero, o que significaria a prescrição…eterna.

Replay 03

“O senador Fernando Collor (PTB-AL) defendeu na manhã desta quinta (16) a manutenção do sigilo eterno de documentos oficiais do governo como forma de evitar o que classificou de “oficialização do WikiLeaks” no país, fazendo referência ao site sueco que ficou famoso por vazar na internet documentos secretos da diplomacia dos Estados Unidos. Presidente da Comissão de Relações Exteriores e responsável por comandar o debate do projeto que trata da caso, Collor usou a “segurança do Estado e da sociedade” como argumento para justificar sua posição favorável a sucessivas renovações dos sigilos de documentos oficiais considerados ultrassecretos.”

http://g1.globo.com/politica/noticia/2011/06/collor-defende-sigilo-eterno-e-fala-de-seguranca-do-estado-e-da-sociedade.html

O projeto original que trata do acesso a informações públicas – a ser alterado por Dilma agora- foi assinado por Fernando Henrique Cardoso. Contudo, FHC ontem mesmo já lançava as suas pulgas de desconfiança nas nossas orelhas, sugerindo que assinou sem saber em detalhes, exatamente do que se tratava:

”_ …Não fui pressionado nem pelo Itamarati nem pelo Exército. Uma coisa, contudo é certa, alguém colocou aquilo na minha mesa, sem passar pela Casa Civil”

Pense bem. Force a sua cuca e crie algum juízo ao menos sobre o fato: O que significaria ‘Segurança do Estado e da Sociedade’ para um indivíduo de má reputação tão notória quanto Fernando Collor de Mello (é…aquele mesmo lá de cima) até agora único Supremo Ladrão da República flagrado com a mão na botija?

Replay 04

“A presidente Dilma Rousseff deve passar a defender, junto ao Senado, uma mudança no projeto que trata do acesso a informações públicas, dessa vez para manter a possibilidade de sigilo eterno para documentos oficiais. Segundo a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, o governo vai se posicionar assim para atender a reivindicação dos ex-presidentes Fernando Collor (PTB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), integrantes da base governista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.”

http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5183850-EI7896,00-Jornal+Dilma+cede+a+Collor+e+Sarney+por+sigilo+eterno+de+dados.html

Ui! Já sei da historinha das coligações e alianças com o ‘mal que vem para o bem’, do princípio da ‘governabilidade‘, patati patatá, mas sempre que vejo estes nomes juntinhos assim, tão agarradinhos em seus não-brios de curriola de sócios do Brasil, me dá urticária. Como arde, gente!

Replay 05

“A discussão sobre documentos sigilosos tem como base um projeto enviado ao Congresso pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2009. No ano passado, a Câmara aprovou o texto com uma mudança que limitava a uma única vez a possibilidade de renovação do prazo de sigilo, o que fixaria um prazo máximo de 50 anos para a divulgação de documentos classificados como ultrassecretos. …O governo havia cogitado promover um evento para marcar o fim do sigilo eterno, que seria sancionado por Dilma sancionaria em 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A votação do projeto vem sendo adiada repetidas vezes. Na semana passada, Dilma almoçou com a bancada do PTB no Senado, ocasião em que Collor teria exposto argumentos contrários ao fim do sigilo.”

http://www.jornal.d24am.com/noticias/politica/dilma-quer-manter-sigilo-eterno-para-documentos-oficiais/26310

Replay 06

“Estão fazendo uma confusão, porque vi recentemente que estavam incluindo no sigilo [de documentos] violações aos direitos humanos”, afirmou Dilma. “Não há sigilo nenhum nos demais [casos], porque para alguém não abrir [os documentos], depois de 25 anos, tem que fazer uma justificativa a uma comissão.” De acordo com a presidenta, a justificativa precisa ser fundamentada e ser aceita. “No que se refere aos direitos humanos, nem com fundamentação [o sigilo será aceito]”, disse Dilma… “Então, onde está o sigilo nisso?”

http://www.informacaopublica.org.br/node/1596

Daí, eu saindo do cinema já meio assustado, fiquei matutando: Hum…Tá, tá, mas quem estava falando em ‘direitos humanos’ aqui? Eu não. Você estava? Falei o tempo inteiro de impunidade eterna, de rabo preso, cumplicidade com falcatruas, estas coisas. Logo quem está fazendo confusão não somos, exatamente nós os ‘alheios a tudo’, os – também como sempre – ingênuos de marré de si, os últimos a saber, estas coisas de babacas de carteirinhas que temos sido nós, o eleitorado do Brasil (se bem que cá entre nós, não saber de nada talvez seja a melhor posição numa hora destas).

Queria ser um mosquitinho nesta hora (ou um marimbondinho de fogo) O que será que o Elle disse no ouvidinho Della, meu Deus? Ai este cheirinho de rabo preso! Ai este foguinho saido do rabo de foguete que ella assumiu. Fumaça que dá bem a medida do quanto no Brasil uma teoria da conspiração quase sempre, nunca é tão delirante assim. Quem vai saber, mas claro que Collor de Mello deve ter falado de outro tipo ‘direitos’ (ou ‘tortos’, sei lá), ao pé do ouvidinho dela.

(E a caveira ex-gorda do pobre ex-rico PC Farias– o arquivo morto – deve estar chocoalhando, no túmulo, exalando o bafo gelado a sua sede… eterna por vingança)

Falava-se muito também de ‘teoria da conspiração’, tentando desqualificar aquelas denúncias todas (ai, ai! Tão michurucas diante das de hoje em dia!), quando o PC Farias morreu assassinado sabe-se lá por quem. Se você acreditou no laudo do Badan Palhares, tudo bem, respeito a sua babaquice (com todo respeito), mas vai ficar acreditando em tudo como corno sabido até quando? Estás ganhando alguma coisa com isto, para fingir que não sabe, que não viu e que tem raiva de quem viu?

Eu, de minha parte acho de muito mau gosto viver num país que precisa, vira e mexe, ser analisado, investigado assim por delegados e médicos legistas, defendido por juízes-advogados de porta de xadrez e ministros-consultores ‘um-sete-uns’.

No português claro isto é formação de quadrilha ou bando, gente! Isto não é nem de longe um governo não. Isto é Máfia. Se é pra viver num país assim, é melhor eleger logo para o governo do Brasil aquele pessoal do C.S.I. (‘Crime Scene Investigation’) da rede de TV CBS. Os capítulos da série de ladroagens e assassinatos, aqueles corpos já apodrecidos, autopsiados, dissecados à lupa, pelo menos – mesmo os já vistos – têm muito mais glamour do que este lodoçal republicano que nos engolfa até o pescoço.

Ai que sufoco!

Spírito Santo

Junho 2011

Sorry Europa, mas na Música Pop o ‘pulo do gato’ é africano


African alls Stars - Cover

African alls Stars - Cover

É. Só esta resenha, uma mera ‘palinha’ já diz quase tudo.

O livro – uma das minhas bíblias desde 1990 quando o amigo-aluno do Ghana Kwame Opoku (eu, na época, ainda morando lá em Viena) gentilmente me presenteou – é um clássico dos clássicos.

(É. Maluquice para os  incréus de mim e os desafetos ‘sabe-tudos’ que me perseguem, mas euzinho, afro-brasileiro, leigo de quase tudo, tive sim um aluno de  marimba que era…africano do Ghana. Pode?)

…Aluno não, porque na verdade – Kwame, advogado na sede da ONU de Viena, filho de uma família nobre de Akra, havia estudado um pouco de piano num liceu da ex-colônia inglesa, estas coisas e, bem mais velho que eu, me ensinou muito sobre música africana, me abrindo toda a sua coleção de música tradicional e pop de todo o continente em fitinhas k7 e fitas VHS que me dava ao fim de cada aula, durante um lanche maravilhoso com banana frita com canela por cima, prosaico manjar dos céus. Figuraça.

Bem, foi Kwame, como disse quem me deu este mais que precioso livro.

Falo do profuso music-book: “African all stars – The pop music of a Continent’, de Chris Stapleton e Chris May (editado por ‘Paladin Grafton Books – London 1987)

Músico ou não-músico, quem não leu precisa ler urgentemente para entender como é que a banda toca, ou seja, quais são os grandes segredos estruturais da melhor musica pop internacional.

…”Western music generally accentuates melody and harmony, keeping the rhythm to a simplistic, time-keeping role. In Africa, no such separates existing: horns, keyboard and stringed instruments are exploited their for rhythmic potential, while many instruments which Western would considerers exclusively percussive, such as talking drums or bells, are tuned for different pitches and increase the melody feel of the music.

African music’s concept of timing is also completely different from that of Westerns music, which generally sticks to one common beat, say 4/4 or ¾. In Africa, a bell player in a percussion group will keep the time-line while the rest of the ensemble creates a complex interplay of different beats, from 3/4 to 6/8 , and 6/8 for 2/4, all at same time. “

Sacou? Não? Então leia abaixo na minha até que razoável tradução:

—————

“…A música ocidental geralmente, acentua a melodia e a harmonia, mantendo o ritmo com uma função simplista, básica, voltada apenas para a marcação do tempo.

Na África, não se separa estas duas coisas: Sopros, teclado e instrumentos de cordas são explorados também pelo seu potencial rítmico, enquanto muitos instrumentos que são considerados no ocidente como sendo exclusivamente de percussão, como tambores falantes ou cowbells e blocks, são ajustadas para diferentes frequências para aumentar a sensação melódica da música.

Na música africana o conceito ‘Tempo’ (ou mesmo  ‘Timming’ ) também é completamente diferente do conceito ocidental, que geralmente se fixa na manutenção de um ‘beat’ comum, único, 4/4 ou 3/4 , etc.

Na África, um tocador de cowbell em um grupo de percussão vai manter a linha do tempo básico (o ‘clic’, o ‘beat’), enquanto que o resto do conjunto vai criar uma complexa interação de batidas diferentes, a partir de 3 / 4  para 6/8, e  6/8 para 2/4, todos ao mesmo tempo”…

(Ao que digo eu: Gerando a vulgarmente chamada poliritmia, a conjugação harmonica de nossos jeitos de ser, todos eles, em um).

Sacou agora?

Canto a pedra sempre e, se preciso for posso até provar tim tim por tim tim: O conceito ‘Música Pop’, tal como o conhecemos, esta coisa da música impregnada no nosso dia a dia, provavelmente nasceu junto com a escravidão, no embalo da dispersão, como vírus, de certos valores culturais africanos indeléveis pelas Américas todas (a Diáspora africana), com cantigas ativas (e escalas e ritmos) específicas para nascer, para viver, para trabalhar, para amar, para casar, para crescer e para morrer , e a respectiva explosão por aqui desta musica socializada, coletiva, feita para ser trilha sonora da nossa vida em todos os momentos dela, no walkman da alma dela, espetada como um pen drive nela, até o fim.

Enfim o lado bom que toda coisa ruim tem.

African all stars – The pop music of a Continent. Ou – nas entrelinhas que eu ressaltei de enxerido que sou – de como a música de um continente pode ter se espalhado pelo planeta inteiro.

Spírito Santo

Junho 2011