Noruega ou Brasil? Afinal onde estará Canaã, a terra prometida?


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O 19 definitivamente é mesmo o século que não acabou.

Essa política provou ser catastrófica para o Brasil e outros países que institucionalizaram ou facilitaram uma mistura de raças entre asiáticos/europeus /africanos. O Brasil se firmou firmemente como um país de segundo mundo com um nível extremamente pobre de coesão social.
Os resultados são evidentes e manifestados num alto grau de corrupção, baixa produtividade e um eterno conflito entre várias ‘culturas’ competindo, enquanto a miríade de ‘sub-tribos’ criadas (preto, mulato, mestiço, branco) paralisa qualquer esperança de sequer alcançar o mesmo nível de produtividade e igualdade de, por exemplo, Escandinávia, Alemanha, Coreia do Sul e Japão.
Vendo a falta de coesão social do Brasil, e a produtividade média do brasileiro médio, é evidente que uma aproximação similar na Europa seria devastadora e retardante nacionalmente, sem mencionar que seria um grave crime (genocídio) em contribuir de qualquer maneira para a aniquilação, desconstrução e genocídio dos povos indígenas que são nórdicos por definição”.
(Trechos da página 1123 do manifesto de 1500 páginas atribuído ao maluquete noruegues Andres Bhering Breivik)

Você leu o Romance ‘Canaã’ de Sílvio Romero?

Graça Aranha
” Nascido em 1868, ficou conhecido como uns dos primeiros fundadores da ABL, mesmo sem ter publicado nenhum livro. Obra mais conhecida: Canaã. Esta conhecida como o primeiro romance brasileiro ideológico. Foi um dos grandes influênciadores do pré-modernismo na literatura brasileira. A primeira edição de Canaã foi editada na França em 1901 e lançado no Brasil em 1902″

É de cabelos em pé que compartilho este trecho de resenha do romance com vocês:

…”A mesma ordem de idéias, de indistinção entre raça e cultura ou de subordinação desta àquela, é a que vamos encontrar nas páginas de Canaã, de Graça Aranha, mas não em registro monódico, como em Sílvio Romero e Euclides da Cunha.

Por se tratar de um romance de idéias, elas ali aparecem em registro polifónico, dialeticamente contrapostas umas às outras. A defesa da causa racista fica por conta de Lenz (personagem do romance), jovem imigrante alemão cuja figura foi talhada pelo figurino nietzschiano, e que é secundado nisso, com menor veemência, pelo brasileiro Paulo Maciel, um juiz municipal bovaristicamente inconformado com a vida de província e descrente do futuro de sua pátria. A refutaçao do racismo incumbe a outro imigrante alemão, Milkau, cuja voz solitária tem a vantagem de ser a do protagonista do romance e seu principal foco narrativo.

Ainda que não chegue a falar em termos explícitos dos arianos tão estimados por Sílvio Romero, Lenz estava pensando implicitamente neles quando, numa noite de insônia pouco depois de sua chegada ao Espírito Santo, tem uma visão dos “batalhadores eternos” da “antiga Germânia” desembarcando em terras brasileiras, “com sua áspera virgindade de bárbaros”, para nelas fundar “um novo império” e as cobrir com os seus “corpos brancos”.

A idolatria de Lenz pela “tendência imperial, a fibra belicosa, a expansão universal, a tenacidade, o gênio militar, a disciplina” dos seus compatriotas teuto-arianos se faz acompanhar, como não poderia deixar de ser, de um completo desdém pela inferioridade racial dos povos não-arianos e, principalmente, dos mestiços.

No brasileiro ele vê tão-só um híbrido incapaz de progresso, com o que se mistura, num mesmo estereótipo, a noção de progresso como fruto da capacidade genésica ou criativa do homem com a idéia subliminar de o híbrido ou mestiço humano ser pouco ou de todo infecundo, esdrúxula inferência zoológica que, louvado em Broca, Sílvio Romero parece ter também perfilhado.

Por não acreditar Lenz que sobre a mestiçagem ou “fusão com espécies radicalmente incapazes (…) se possa desenvolver a civilização”, tem ele como ponto pacífico que o “problema social para o progresso de uma região como o Brasil, está na substituição de uma raça híbrida, como a dos mulatos, por europeus”; a imigração tem para ele, portanto, menos o sentido de um encontro e interpenetração de culturas diferentes que de uma política de tabula rasa em que uma cultura superior vem erradicar totalmente uma cultura inferior para substituí-la.”

(Leia aqui, na íntegra o excelente artigo Canaã: o horizonte racial de José Paulo Paes de onde extraí a alentado trecho da resenha de Canaã.)

Brrruuu! Um romance de terror?

Você não viu nada semelhante a isto, este pensamento crítico-racista sobre os males da sociedade brasileira – igual a fala do personagem Lenz  do Graça Aranha -agora mesmo sendo divulgado por aí, prato feito da imprensa internacional?

É isto mesmo! Parece que foi o Lenz que escreveu o manifesto do Andres Bhering Breivik. O pensamento de um é o focinho do outro. Cuspido e escarrado, gente!

O texto de Breivik – página 1123 das suas 15180 páginas mórbidas – é quase uma cópia reciclada do texto de Graça Aranha (Breivik como o personagem Lenz), seguido por Gilberto Freire quando inventou a farsa da Democracia Racial (extraída das falas do personagem também alemão – o patrão bonzinho –  Milkau).

Gente…me deu um medão danado…estou tremendo até agora enquanto escrevo, ao descobrir a semelhança esquisita entre os dois textos um do século…19 outro do 21, projetando coisas bárbaras para ás vésperas do século…22!

Será que quem escreveu aquilo lá, por ele, leu este romance ‘Canaã’? Será que leu Sílvio Romero? Leu Nina Rodrigues? Leu Gilberto Freire? Será que há mesmo uma direita literária, acadêmica, um pensamento intectual de viés ideológico barrigudo de hegemonias, conspirando incansavelmente, urdindo barbaridades contra os ‘não-brancos’ impuros e ‘infiéis’ do Brasil, um neo-neo-nazismo integralista, uma AlQuaeda branca se reciclando por todo o sempre –  ainda hoje, portanto – como uma hidra grego-baiana de mil cabeças?

Quem será que orientou esta parte do manifesto do doido de Oslo, meu Deus? Teria sido um doido brasileiro? Ou seria um insano  portugues? De Graça Aranha a Andrés Breivik – repetindo assustado – já se vão mais de um século, pessoal! É  longa demais a gestação destes podres ovos de serpente, não acham não?

(Esta indefesa suspeição de que foi alguém dentre nós me assusta muito, se querem saber.)

Spírito Santo

Julho 2011

O mito da ‘Supremacia nagô’ revelado #02


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Apoteose dos orixás

Rasgando a ‘Saia-Justa’ – Post # 02

 (Leia aqui a parte #01 deste post)

“Nina Rodrigues percebeu pela primeira vez a predominância sudanesa na Bahia, no que foi confirmado por Artur Ramos.

Este destacou no grande grupo a predominância dos iorubas, também chamados nagôs (embora esse nome seja normalmente estendido a outras etnias) da Nigéria, dos gegés (ewes) do Daomé, dos minas da costa norte-guineana, além dos tapas, bornus e galinhas; identificou a presença importante dos hauçás do noroeste da Nigéria, de influência muçulmana, a qual marcou também os fulas (mais claros, de origem berbere-etiópica) e os malês (ou mandingas, de tradição guerreira, considerados altivos e perigosos pelos lusos, que lhes atribuíam feitiçarias).

Entre os sudaneses originários da costa da Guiné, amplamente predominantes como vimos, a presença comum da língua pertencente ao grupo lingüístico ioruba talvez explique a predominância dos elementos dessa cultura em nosso candomblé e nas influências negras de nossa linguagem.”

(Texto atribuído à Clóvis Moura – “História do negro do Brasil”. Editora Atica, 1992)

Também quase nada disto é verdade.

Não eram predominantemente yoruba os negros oriundos do Golfo da Guiné. Nem mesmo eram em maioria os negros do Norte da África.

E isto é uma falácia clássica, fruto do atraso dos estudos sobre assunto no século 19. O erro seria totalmente previsível neste caso, já que, ao que parece, as fontes usadas por Juarez Tadeu são, incrivelmente, todas elas pinçadas deste remoto passado das Ciências Sociais, a maioria tiradas aliás, de um único livro: o caquético, racista e eugenista ‘Os Africanos no Brasil’ de Nina Rodrigues.

O livro – filho único de mãe solteira – do médico legista Nina Rodrigues  para quem não sabe, foi publicado em Paris em 1906 – a incríveis 105 anos atrás! – e só em 1933 foi traduzido por aqui. O alfarrábio tinha como uma de suas motivações principais, provar as teses eugenistas de Nina acerca a inferioridade mental e psíquica do negro, tese calcada nas pesquisas de Giusepe Lombroso que pensava – e julgava ter provado – o mesmo sobre os ‘inferiores’ calabreses e sicilianos do sul da Itália.

As informações contidas em ‘Os Africanos no Brasil’, nasceram, portanto irremediavelmente contaminadas pelas ‘científicas‘ teses racistas de sua época e se transformaram, depois da década de 1940 em mero lixo conceitual para as Ciencias Sociais modernas.

Os estudos modernos mais avançados já nos dão conta de que o que havia no Golfo da Guiné (Forte de ‘Ouidah’ ou São Sebastião de Ajudá) no Reino do Dahomey, era na verdade um grande entreposto propriedade da metrópole portuguesa, um ‘supermercado colonial’, uma praça de negócios para venda de negros no atacado, onde se concentravam escravos de várias procedências, entre os quais predominavam (por razões comerciais e logísticas evidentes logo estabelecidas) escravos da colônia portuguesa mais próxima e acessível: o Reino do Kongo (parte da atual Angola), com negros embarcados no Reino do Nsoyo (Sonho) na costa do Kongo, já que Portugal passou a ser já no século 16 o maior fornecedor, o mais organizado controlador do complexo negócio.

É óbvio se supor também que as demais metrópoles (como a Inglaterra, por exemplo) transferiam escravos para as suas respectivas colônias, sendo esta, com certeza a razão para que os Estados Unidos da América, por exemplo, terem tido tão poucos escravos oriundos da áfrica bakongo (e de outros ramos bantu) e muito mais ‘sudaneses’, escravos da costa noroeste como yoruba, Ewe, Haussá, Ashanti.

O mesmo se pode dizer da França, com grande número de escravos oriundos de etnias Uolof e Mandinga do Senegal e Guiné Bissau, além de gente da Costa do Marfin, etc. e quase nenhuma gente bantu.

Havia sim uma lógica no mercado, no comércio escravista, como há em qualquer outro negócio. É quase imbecil supor e afirmar que não haveria, em se tratando de um negócio tão bem sucedido durante séculos, comparável hoje ao comercio internacional de petróleo.

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“Havia sudaneses em outros pontos do Brasil, mas talvez houvesse uma predominância banto no centro-sul e no norte. Artur Ramos indica como pontos iniciais de entrada das várias nações bantos os mercados de escravos de Pernambuco (extensivos a Alagoas), Rio de Janeiro (servindo a Minas e São Paulo) e Maranhão.

Entre os povos desse grupo, os mais importantes no Brasil foram os cabindas do Congo, os banguelas de Angola, junto com muxcongos e rebolos, e os negros de Moçambique que Spix e Martius chamaram de macuas e angicos.

A intensificação do tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII, em função da mineração, multiplicou a presença de grupos originários da Costa da Mina e de Angola; no século XIX, até 1850, entrou também um número considerável de bantos da costa de Moçambique.

Do ponto de vista cultural, a influência dominante da cultura ioruba explica-se também pela sua predominância já na própria África, na região do golfo da Guiné, estendendo-se segundo Édison Carneiro até o interior do Sudão.

Sua civilização mais adiantada surpreendeu os primeiros europeus, pelos trabalhos em bronze que faziam no reino do Benim. “A religião, a organização política e os costumes sociais de Ioruba davam o modelo a uma vasta zona.“

E de novo Juarez estende para limites totalmente improváveis e exagerados a ocorrencia da tal inexplicada ‘cultura yorubá’ que, ao que parece ele próprio inventou para fins de valorizar o seu exercício sacerdotal no âmbito de sua crença religiosa.

(Vamos combinar: Como se dá com a cultura de qualquer povo, a cultura dos yoruba real devia ser – e com certeza é – bem mais complexa e diversificada do que o Dr. Juarez, simplificada e evasivamente sugere).

Como já dissemos os EWE do Benin NÃO eram e nunca foram Yoruba. São EWE, ora! Outra cultura, outro povo. Esta afirmação totalmente desprovida de fundamentação ou argumentos, solta no ar assim sem mais nem menos de que Ewe e Yoruba são assim, la même chose, junta e misturada, nos intriga em suas intenções.

Afinal a tal… ‘cultura yorubá’ seria mais adiantada por quê? Esta assertiva estaria baseada exatamente em que parametros? São bastante emblemáticas neste caso as intenções tendenciosas do texto e da ideologia estreita que Juarez Tadeu dissemina.

Vai entender porque?

Ora, ‘surpreender os europeus’ – no sentido de atrair a sua ‘admiração’ – seria algum valor em si em se tratando de culturas tão diferentes e ainda mais, quando sujeitas à invasão e escravização destes mesmos europeus ‘superiores’ como foi o caso das culturas africanas? Não éseria uma posição muito ‘baba ovo’ não, gente?

Um modelo branco-europeu de cultura seria o modelo ideal de excelência civilizatória válido para os negros – e brancos – de nosso país? Ora se esta era a ideologia de Nina Rodrigues, todos devíamos saber que eram – e são – idéias declaradamente racistas,  CONTRA nós todos. Visavam desqualificar a cultura negra de uns inventando a supremacia suposta da cultura de outros, com interesses de dominação ideológica dos africanos e seus descendentes bem definidos por parte dos brancos ‘superiores’.

Quem não sabia?

Não é isto que podemos deduzir facilmente? Ora…Basta ler Nina Rodrigues por inteiro e refletir sobre o que se leu.

O que está escrito lá (em tortas entrelinhas) por Juarez Tadeu  baseando-se em Nina Rodrigues é, portanto o seguinte:

_ O branco europeu colonialista e escravista é o padrão da mais suma relevância como civilização para os negros da África e do Brasil. A cultura negra mais aproximada desta… excelência intelectual euro-caucasiana é a cultura yoruba.

Você concorda com isto? Pois é isto que está dito, embutido nas entrelinhas do discurso dele, como estava no de Nina Rodrigues, discípulo dileto de Gobineau, Lombroso e Chamberlain, tias-velhas próceres da sistematização teórica do eugenismo e do racismo do século 19 que deram como cria os totalitarismos todos dos anos 30 e 40 do século seguinte, o nazismo, os fascismo, o franquismo, o salazarismo

Ora, isto, na base da troça e como diria o Odorico Paraguassu,  é ‘eurocentrismo puxasaquista’ descarado, constrangedor até.

Os brasileiros – negros e brancos – deviam é se envergonhar de ficar endossando idéias assim tão falsas, tão colonizadas, tão submissas diante da cultura dominante do antes e do hoje em dia de nós todos.

Eu me envergonho.

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“Os negros de Ioruba eram principalmente agricultores, mas os seus tecelões, os seus ferreiros, os seus artistas em cobre, ouro e madeira já gozavam de merecida reputação de excelência. Não havia abundância de animais de caça, mas a pesca, nos rios, nos lagos e no mar, rendia muito.

Todas estas ‘qualidades’ eram e são comuns a todas as demais culturas da África, como eram aliás comuns a esta época, comuns á maioria dos povos do mundo.

Criavam-se animais de subsistência – cabras, carneiros, porcos, patos, galinhas e pombos. O cavalo era conhecido havia muitos séculos, devido ao contato com os árabes; o fundador do reino de Ioruba representava-se, nos mitos, montado num corcel.”

Vários dos deuses africanos cultuados no Brasil (só no Candomblé) são procedentes de algumas de suas brilhantes cidades, como Oió. Os nomes de alguns de seus reinos, como Ala Kêtu e ljexá, continuam como designativos de ritos de candomblé.

Quanto aos bantos de Angola, tinham uma agricultura mais primitiva, praticada pelas mulheres, enquanto os homens criavam gado. Diferentemente dos iorubas e outros sudaneses, que usavam tecidos de pano, os negros das margens do Zambeze e das elevações de Benguela vestiam-se de cascas de árvores (como o fariam no quilombo de Palmares); mais para o sudoeste, porém, usavam vestimentas de couro, possuindo hábitos de caçadores e armas de ferro.”

No claro intuito de… denegrir os bantu, mais que tolices gratuitas, o Dr Juarez apela aqui para inverdades flagrantes, irresponsáveis, quase infantis até – e aí observamos que estas, as de agora, não são mais palavras de Nina Rodrigues, como nos fazia parecer o recorte apressado da facecomentarista Destemida Yara’. Estas são palavras originais do Dr. Juarez.

É isto: Foram as meramente arbitrárias opiniões do próprio Dr. Juarez que a gente andou lendo até agora, mal alinhavadas pela leitura também afobada e oportunista do já em si mesmo racista de carteirinha Nina Rodrigues, que jamais afirmou senão a ‘supremacia sudanesa’, assim no geral, no contexto da África, destacando esta suposta ‘supermacia nagô’ apenas no Brasil, assim mesmo à luz de uma exígua pesquisa de campo, restrita a Salvador e sua periferia, pouco se aproximando do reconcavo mais profundo.

Em suas outras implicações, as ‘ideias’ do Dr. Juarez Tadeu me pareceram tão despropositadas e desprovidas de razoabilidade que me abstenho de continuar a comentá-las.

Para encerrar, importa dizer, contudo é que, por razões meramente sócio culturais (que de modo algum são ou foram ideológicas) o povo negro do Brasil, descendente de escravos africanos no Brasil NÃO É, com toda certeza adepto ou seguidor apenas do Candomblé. Em sua esmagadora maioria e pelas óbvias razões acima informadas, este povo negro – e o todo povo brasileiro por suposto – pratica valores culturais muito distantes desta chamada algo vaga ‘cultura yorubá’.

Fundida, imiscuída e informada que foi – e é – por todas as influencias gerais a que foi exposta no tempo e no espaço (influencias inclusive européias, embora em menor monta), bem como Yoruba, Shona  e do Inhambane (moçambicanas), do kimbundo, do Umbundo, (angolanas) etc., a Cultura africana no Brasil é muito mais complexa, diversa e poderosa do que este recorte reducionista proposto pelo Dr. Juarez e seus iguais seguidores, além de ser, neste mesmo sentido decisiva na constituição geral da cultura brasileira como um todo.

Enfim, conforme prometi o trabalho de ler e comentar com mais profundidade as idéias emblemáticas do Dr. Juarez está cumprido. Dizendo o mais francamente possível, este texto que li é de nível mais baixo ainda do que eu poderia supor, com um padrão de superficialidade surpreendente para o currículo que o Dr. Juarez, um especialista em comunicação social de alto nível, como tive a oportunidade de saber seguindo-o na internet.

(Li também com apreço, como disse acima, um outro texto dele (o programa de um curso de viés antropológico) bem interessante, embora não verse sobre este mesmo assunto que comento longamente aqui, texto este também disponível na internet (veja o link). Cheguei mesmo a pensar lendo estas e outras coisas do Dr Juarez Tadeu que o texto exposto pela ‘Destemida Yara’ fosse na verdade… de outra pessoa.

Não era.

Sei lá… O Dr. Juarez pelo menos podia ter tentado embasar melhor os seus velhos argumentos copiados do Nina Rodrigues, sobre esta antiga falácia da ‘supremacia nagô’, com alguma pesquisa suplementar. Mesmo na internet – como faço com muita frequencia – ele ia encontrar razões para duvidar de muitas destas informações que anda difundindo abertamente por aí.

Afora os descuidos que, presumo terem orientado o texto comentado aqui, penso que a explicação mais em conta para tamanha carga de impropriedades, num assunto tão caro a nós todos – como é o caso da cultura dos africanos no Brasil – só se justifica pela ignorância que grassa o nosso meio comum e o descaso cínico com que os meios acadêmicos mais convencionais – nos quais o Dr. Juarez de algum modo está inserido – tratam o assunto, entregue a sanha de aventureiros e ao deslumbramento de ingênuos caçadores de autoestima racial.

—————

Acho lamentável me ver obrigado a dizer isto tudo assim, falar tão açodadamente estas coisas que poucos dizem por aí (sei lá porque) quase solitariamente, sem mais receio algum de estar sendo injusto ou mesmo equivocado porque são coisas velhas já, que devíamos estar ‘carecas de saber’.

Engambelados por ‘mui amigos’ doutores ‘brancos’ incultos por um lado e por ‘negros’ doutores do mesmo modo incultos e coniventes com a dominação e o racismo de outro, ao que parece ‘Axé babacas’ não sou eu nem você.

Axé babacas estamos sendo todos nós.

Spirito Santo

Julho 2011

(Nota: “Estar numa ‘saia justa” diz-se no Rio de Janeiro quando se está numa situação inusitadamente comprometedora)

“Rasgando a Saia Justa”: Siga a série abrindo estes links:
Post # 01, Post #02, Post #03, Post # 04 , Post#05, Post# 06

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O mito da ‘Supremacia nagô’ revelado #01


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Mapa da Nigéria

No destaque em amarelo a área real de expansão da cultura yoruba. Como se vê ela ocupa, historicamente, apenas cerca de 10% do território nigeriano que tem, como se sabe, diversas outras etnias.

Rasgando a ‘Saia-Justa’ – Post # 01

Creiam. Não é uma conversa boba, irrelevante, mesmo sendo mais uma vez surgida no Facebook (a gente quase não nota, mas os posts do facebook nem sempre são conversa banal de mesa de botequim virtual).

A moça que detona o post-matriz que inspira esta réplica tem o instigante pseudonimo de Destemida Yara. Penso que ela talvez seja uma jovem negra destas aí, encantadas com bobos sofismas clássicos de supremacia racial de uns sobre os outros, como este lançado por um Dr. negro chamado Juarez Tadeu de Paula cuja ficha corrida (excelente por sinal) pode ser conhecida logo abaixo:

Juarez Tadeu de Paula, sacerdote da tradição Iorubá. Ogam e jornalista, formado na PUC. Mestrado na Universidade de São Paulo.

No seu encantamento – aliás muito comum entre alguns negros finos e chics do Brasil – “Destemida Yara’ desfralda – de novo, ai meu Deus! – a surrada bandeira daSupremacia Nagô.

Ora, ora. Este é um mito clássico de nossa negritude mais fashion. Tema-tabu que só os mais malucos se arvoram mexer, uma verdadeira casa de marimbondos conceitual. Doido por estes assuntos que sou, quando li fui logo dizendo:

_ Tô dentro!

Não por maluquice, claro. Mais por achar que nesta praia tenho um tantinho de coisas a dizer. Sério.

E não é mesmo uma briga para se desprezar. O tema eu afirmo – e já repeti várias vezes – é decisivo para se compreender certos meandros escuros do Racismo à Brasileira.

Ele faz parte de nosso racismo mais íntimo e contraditório, aquele de nóis contra nóis mesmos,  de negros contra negros – com os ‘pardos-mestiços’ todos no bolo, jogando contra –  na maquiavélica armadilha que separando uns dos outros no exíguo espaço de nossa simbólica senzala, faz com que o ‘sinhô’ continue sempre mandando em paz.

Na Casa Grande como na vida, quem divide é quem impera.

Neste post podem caber então: Brancos racistas ou indiferentes; ‘mulatos’ e ‘pardos mestiços’ envergonhados de serem confundidos com ‘negões’ comuns e negros clássicos, meio aristocráticos querendo ocupar um degrauzinho superior (também acima dos ‘negões comuns’, claro) neste melê afrodescendente que é a nossa estratificação social tão detestada por certos malucos ‘noruegueses’ daqui e de lá, burgueses pequenos em suas manias de viver numa ‘área vip’ social.

(Estranho, mas ao que parece o problema é que, a vera mesmo, ninguém aqui quer ser negão, não é não?)

A forma deste post, feito após a leitura atenta de um único texto no blog do Dr. Juarez Tadeu é a de um debate normal (um pouco inflamado, como me apetece, é verdade).

Peço então, desde já perdão aos leitores pela ênfase e a franqueza ácida que, às vezes acho ser a única arma de persuasão válida. Uso desta ênfase sempre quando me vejo diante de ideias que considero imperdoavelmente nocivas, venenosas, como estas que vi no texto em questão.

Li outras coisas do Dr. Juarez para não correr o risco de ser leviano. Um destes textos (que vou linkar em algum momento aí em baixo) encontrei ideias que me pareceram bem mais lúcidas e melhor embasadas nos fatos, embora possa ter identificado nelas a mesma intenção de exagerar a importância dos yoruba na formação de nossa cultura.

Esta intenção nada furtiva, clara mesmo no pensamento geral do religioso Dr. Juarez, parece que o faz misturar, perigosamente a sua devoção religiosa com a história e a antropologia dos africanos no Brasil, aproximando-as do pensamento torto e arcaico de correntes muito atrasadas, calcadas num pensamento já superado desde o século 19 e que, na verdade são racistas numa dimensão tão sutil quanto venenosa.

É isto que me instiga a debater, contrapor com algumas poucas e boas entrelinhas de pesquisador marrento.

Portanto, vai aqui a ressalva: Nada há de pessoal nesta longa resenha. É só o calor da verve de um escriba afoito, velho e já impaciente, refletindo acerca de um texto que considerei equivocado, de um importante intelectual de nossa negritude, entre os poucos que temos.

Com vocês então a fala do Dr. Juarez revista e comentada.

“A maioria dos negros destinados ao Sul e ao Sudeste pertencia à etnia banto, majoritária no centro-sul da África. Para a região Nordeste predominou o tráfico de Iorubas, negros oriundos da Guiné e das proximidades da Nigéria (noroeste da África).”

Isto, rigorosamente não é verdade.

Os negros yorubas não são maioria em nenhum caso. Pela maioria de dados que pude observar, negros da África do Norte vindos como escravos para o Brasil, entre estes gente yoruba, foram predominantes apenas na cidade de Salvador e suas adjacências, junto com alguns negros de  plagas vizinhas à costa da Nigéria atual  (‘Ewe – ou jêjes’ – e Keto do Ghana e de parte do Benin, entre outros)

Contudo, como vários estudos atuais já apontam é claramente predominante sim a presença de negros bantu também no reconcavo baiano como vários autores, ainda na década de 1930 já assinalavam. Isto é uma evidencia que pode ser facilmente constatada quando se estuda a cultura popular deste Recôncavo, com amplos exemplos de traços bantu, principalmente aqueles ligados a cultura dos kimbundo e dos umbundo de Angola, ambas com uma cultura ancestral comum, originária de um povo chamado Bakongo, de passado civilizatório tão rico e importante quanto o dos povos da África do Norte.

(E isto não é supremacia coisíssima alguma. Isto foram as circunstâncias históricas que determinaram. Completamente inútil negar.)

Estudando o assunto para o meu livro (‘Do Samba ao Funk do Jornal”) encontrei várias e enfáticas referencias do então ‘folclorista’ Souza Carneiro, arguto e ignorado pesquisador baiano (pai de Edson Carneiro, este sim muito famoso) que no seu formidável – e hoje raro –  livro ‘Mitos Africanos no Brasil’ já denunciava em 1937 a farsa da tal ‘supremacia nagô’, discorrendo sobre a intensa e ampla dispersão da cultura bantu no recôncavo de sua Bahia de Todos os Santos.

Basta citarmos as duas maiores e mais importantes manifestações culturais mundanas, ‘de rua’, da cidade de Salvador para se atestar isto: A Capoeira e o Samba de Roda

E Juarez segue:

“A maioria dos iorubás falam a língua iorubá (iorubá: èdèe Yorùbá ou èdè). Vivem em grande parte no sudoeste do país; também há comunidades de iorubás significativas no Benin, Togo, Serra Leoa, Cuba e Brasil.

Os iorubás são o principal grupo étnico nos estados de Ekiti, Kwara, Lagos, Ogun, Ongo, Osun, e Oyo. Um número considerável de iorubas vive na República do Benin, ainda podendo ser encontradas pequenas comunidades no campo, em Togo, Serra Leoa, Brasil e Cuba.”

Não conheço nenhuma evidência, nunca vi em nenhum mapa étnico dos muitos que já tive a oportunidade de estudar, nada sobre a existência de grupos yoruba fora do litoral da Nigéria e suas adjacências, durante o período colonial mais remoto.

Como as fronteiras coloniais não servem de parâmetro nestes casos, sabe-se que os yoruba ocupavam, além de um pequena parte do que é hoje a Nigéria, apenas uma parte menor ainda do que também é hoje a República do Benin (antigo reino do Dahomey) onde predominam, entre outros grupos, os ‘Ewe’ conhecidos por aqui como se sabe, como ‘Jêjes’ , uma pequena área de que é hoje a Ghana (área dos Keto) e o Togo modernos.

(Veja os mapas acima e abaixo)

Ocorre que, ao que se sabe, a cultura religiosa dos Ewe, que ocupavam como já disse o que é hoje o Ghana e parte do antigo  Dahomey (Benin) é a matriz não do Candomblé, exatamente mas do Vodu haitiano e da religião aparentada a este conhecida como aCasa das Minas’, do Maranhão, ambas um tanto diversas do Candomblé baiano, embora com algumas similaridades perfeitamente compreensíveis, tanto pela proximidade geográfica das duas culturas na África (há uma pequena parte do território yoruba nas fraldas do Benin) quanto pelas interfaces ocorridas entre estes grupos culturais já aqui no Brasil e nas Américas.

Na verdade e a rigor, é preciso conhecer mais profundamente a configuração destes diversos reinos da costa noroeste africana no passado (século 17 e 18, basicamente) para se entender toda esta história.

É preciso, sobretudo considerar também que o Candomblé não é uma religião ‘pura’, no sentido de ter estado ou estar imune às influencias do meio, neste caso no âmbito de sua invenção no Brasil do fim século 19, uma realidade bem diversa de seu ambiente original africano, com a franca exposição às inúmeras influencias ‘exóticas’, fruto de sua convivência com outras práticas religiosas de outras etnias de negros escravos e libertos, entre elas traços do islamismo dos ‘malês’ e até mesmo de um ou outro indesejável e estigmatizado traço do catolicismo português (ai, ai! As anáguas brancas e as ceroulas de babado dos santos deste Candomblé me fazem pensar tanto nisto!)

Mapa da costa noroeste da África atual com a parte aproximada de onde, provavelmente vieram escravos ‘sudaneses’ para o Brasil acentuada em amarelo. Assinalada com círculo vermelho a pequena área de ocorrência da chamada ‘cultura yorubá’ segundo o mapa que inseri mais acima

Não é lícito, portanto se afirmar que os yoruba eram o mais ‘avançados’ dos povos da região dividida com os Ewe, os Haussá, os Ashanti, os Ibo (que aliás são do ramo bantu) e tantos outros povos; nem mesmo é correto julgar que  os povos da região fossem um saco de gatos cultural, com uma suposta ‘supremacia’ yorubana como Juarez sugere.

O que ocorria, claro é que a pequena área de ocorrência da cultura yoruba tinha na época fronteiras não muito claras, incompatíveis com a também suposta delimitação das fronteiras destes reinos aparentados ou vizinhos (Huassá, Ewe, Keto, Yoruba, Ashanti, Dahomey ou Benin, etc.), demarcadas como se sabe por cronistas e cartógrafos europeus.

Esta ‘proeminencia yoruba’ em região tão extensa da África como o Dr. Juarez Tadeu sugere é, pois, com toda certeza no mínimo exagerada – inverídica, diria eu sem medo de errar – uma mentira cabeluda, como se diz, quase sem nenhum fundamento senão a sua clara intenção de ‘forçar a barra’ e disseminar a mistificação da supremacia de um grupo étnico sobre os outros.

Vai Juarez!

“A maioria dos iorubás é cristã, com os ramos locais das igrejas Anglicana, Católica, Pentecostal, Metodista, e nativas de que são adeptos.

 O islamismo inclui aproximadamente um quarto da população iorubá, com a tradicional religião iorubá respondendo pelo resto. Os iorubás têm uma história urbana que data de 500 d.C. As principais cidades iorubás são Lagos, Ibadan, Abeokuta, Akure, Ilorin, Ogbomoso, Ondo, Ota, Shagamu, Iseyin, Osogbo, Ilesha, Oyo e Ilé-Ifè.”

A afirmação é claramente um exagero muito mal fundamentado também. Ora, se a maioria dos yoruba é cristã (católica e evangélica) e o islamismo é adotado por ¼ da população, é preciso esclarecer (já que Juarez omite) não só que ‘religião yorubá’ é esta, como também qual é o percentual real e objetivo de adeptos que seguem este ‘yorubalismo’, que a julgar pelos dados parciais informados pelo próprio, deve ser um número ínfimo de nigerianos.

(Vale insistir: Afinal o que é que o Dr. Juarez chama de ‘cultura yorubá’?)

Seria uma corrente religiosa algo parecida com o nosso Candomblé? Mas o Candomblé, gente, não passava de uma seita religiosa, uma apenas entre as muitas que existiam naquela região africana da época colonial ou mesmo existe hoje no Brasil. Seria o mesmo que se falar de uma suposta supremacia de uma ‘cultura evangélica’, uma ‘cultura católica’, umacultura islamica’, ‘judaica’, sei lá mais qual entre tantas seitas e religiões de nosso vasto mundo, o que costuma ser, quase sempre despropósito antropológico sem tamanho)

A informação é, pois, toda ela um sofisma claro, mera propaganda enganosa.

Mas Juarez não se cala:

“A questão da procedência dos africanos para o Brasil tornou-se bastante complexa, principalmente no tocante aos povos e etnias que forneceram os maiores contingentes de escravos.

A complexidade decorre da mentalidade colonialista dos portugueses que, não considerando o negro um ser humano, pouca importância davam a assinalar de maneira precisa, nos seus registros e documentos, as diversas culturas, línguas e grupos étnicos dos africanos capturados.

Ao contrário, estendiam a povos radicalmente distintos um mesmo nome, ou generalizações completamente sem fundamento.

Atualmente a antropologia tem revisto muito do que se escreveu sobre as origens culturais da massa escrava, no começo deste século, restando ainda muitos pontos a esclarecer.”

Tudo com jeito de falsidade deliberada. Nada disto tem fundamento, de modo algum. Esta ‘indefinição’ da procedência dos escravos, embora predomine por ignorância, nos meios acadêmicos mais atrasados e no senso comum do Brasil – por conta, exatamente da disseminação destas mistificações – não é absolutamente um fato comprovável.

É perfeitamente possível hoje – e já o é há bastante tempo – identificar a origem dos escravos que vieram, não só para o Brasil como para todas as outras partes das Américas (nós mesmos publicamos há pouco tempo na internet um mapa de fonte idônea com dados cabais acerca disto, mapa este baseado obviamente em dados históricos válidos).

Por outro lado, também não é verdade que a mentalidade colonialista portuguesa – ou de qualquer outra metrópole escravista – tenha sido tão amadora, desleixada e irresponsável.

As atividades ligadas ao tráfico de escravos, bem como o seu translado e a definição das áreas e das ocupações laborais as quais os mesmos seriam destinados, se configuravam numa atividade econômica complexa, altamente planejada por todas as metrópoles europeias envolvidas, com leis e expedientes de reserva de mercado, inclusive.

Algumas guerras comerciais ou militares foram empreendidas com o propósito efetivo de regular as relações internacionais neste sentido, em momentos em que o choque entre estes interesses afetavam o equilíbrio de forças, a ordem econômica mundial.

Consideremos apenas como referencia que o sistema de trabalho escravo  e o tráfico de mão de obra cativa era simplesmente a mais importante, organizada e bem sucedida atividade econômica da época.

Por esta óbvia razão, pelas circunstâncias estratégicas e logísticas desta ordem escravista, é que podemos com toda segurança afirmar que é plenamente possível, não só identificar de onde, quando e em que circunstâncias saíram todos os escravos da África, em todas as épocas do tráfico – mesmo em seu início no século 16 – como é possível também saber para onde, exatamente eles foram levados, em todas as épocas.

Os meios para se obter estas informações – embora rareiem no Brasil por razões sabidas que não cabe aqui avaliar – são vastos, tanto bibliográficos quanto por meio de registros iconográficos ou, até mesmo pelo cruzamento de dados historiográficos com relatos etimológicos, musicológicos, etc. extraídos da cultura oral destes escravos – e de nós, seus descendentes – cultura esta marcada fortemente por traços ancestrais presentes em nossa cultura ainda hoje, tanto lá na África quanto aqui na Diáspora americana.

Como exemplo, já tivemos a oportunidade de demonstrar em outros posts e matérias na internet que os holandeses, por exemplo, à época  de seu domínio em Angola e, no Brasil no século 17, realizaram em pinturas veristas, registros etnológicos profusos, quase precisos e por isto mesmo, inestimáveis, da cultura e dos jeitos de ser dos escravos bantu que em esmagadora maioria viviam em Recife, Porto Calvo e adjacências, além de Paramaribo, no Suriname.

Em suma e infelizmente, há também aqui fortes indícios de que este tópico do texto do Dr. Juarez Tadeu, como vários outros autores nesta linha, parece ter a triste função de confundir e embaralhar de forma grosseira informações e fatos históricos perfeitamente estabelecidos que dão conta de que, NÃO foi predominante de modo algum, a vinda de escravos yoruba para o Brasil.

Em nenhuma época. Ponto.

Fala mais, Juarez:

“A tradição historiográfica reúne, a grosso modo, os negros em dois grandes grupos étnicos: os bantos (ou bantus), da África equatorial e tropical, da região do golfo da Guiné, Congo e Angola, planaltos da África oriental e costa sul-oriental; e os sudaneses, predominantes na África ocidental, Sudão egípcio e na costa setentrional do golfo da Guiné.

Não há nenhuma prova definitiva da predominância de um desses grupos na composição dos negros vindos para o Brasil, embora se afirme normalmente que a maioria era de bantos.

Entretanto, as tradições culturais de alguns grupos sudaneses, como os iorubas da Nigéria, são amplamente predominantes nas heranças africanas da cultura brasileira.”

Como já dissemos enfaticamente acima, por razões históricas sobejamente conhecidas e comprovadas HÁ SIM plenas condições documentais para se afirmar, com absoluta certeza que escravos bantu da África astral, notadamente de Angola, vieram em esmagadora maioria para o Brasil.

Contudo, a afirmação de que as tradições culturais de alguns grupos sudaneses predominaram é totalmente incabível, arbitrária e absurda.  Aliás a expressão ‘sudanesa’ – deve-se frisar fortemente – é uma classificação muito imprecisa e arcaica, superada, pelo menos desde a década de 1940.

O mesmo já se pode dizer hoje em dia da própria expressão Bantu, que se refere na verdade a uma variedade muito extensa e diversa de grupos étnicos, unidos apenas por seus traços linguísticos comuns.

Esta improvável ‘predominancia’  yoruba é arbitrária. Primeiro porque não me parece que haja cultura yorubana fora do âmbito restrito da religião, já que, como já dissemos, Cultura é uma instância sociológica infinitamente mais ampla do que isto. Como é fácil se observar, numa mesma cultura podem conviver – e quase sempre convivem – inúmeras seitas e religiões.

Segundo porque esta suposta ‘predominancia’ ou ‘supremacia’ nagô se dá talvez apenas no campo das aparências, referendadas pela eleição do Candomblé como religião oficial do negro pelas elites intelectuais – brancas e negras – do Brasil.

Entre outros motivos, este mito da aparente e ilusória ‘predominancia Yoruba’  talvez tenha se dado por ter sido o Candomblé estruturado como a única instância mítico-religiosa sistematizada (do ponto de vista eurocêntrico, diga-se) e acessível à classe média negra – e a certos setores da classe média branca também – entre as quais instâncias acadêmicas e demais estruturas de poder social com poder de mando real.

O Candomblé é, pois (pelo menos para mim), uma religião lícita sim como tantas outras, mas do ponto de vista ideológico, talvez seja a que mais se projetou por ter sido aquela que mais se adequou, a que melhor serviu para atender – submetida, dócil, assimilada – aos interesses das camadas hegemônicas da sociedade brasileira, nesta sua tão original estratificação baseada na desigualdade com o ônus reservado sempre para uma maioria estigmatizada, posta ‘em seu lugar’ por categorizações fenotípicas ou…epidérmicas.

Candomblé seria, pois, uma religião negra de grande pujança em seu simbolismo estético teatral e grande apelo artístico (obviamente inventado no processo), porém, infelizmente inserida politicamente (no contexto de uma população negra assolada por tanta exclusão social e racismo) como uma religião domada, ‘chapa branca’, no ensejo de servir como base ideológica para a manutenção do status quo, uma farsa providencial para as tensas relações sócio raciais no Brasil.

Talvez tenha chegado a hora de encarar estas pertinentes suposições de frente.

(Se quiser respirar, respire aqui que eu sigo logo mais à frente. Pegue o link)

Spírito Santo

Julho 2011

(Nota: Estar numa “saia justa’ diz-se no Rio de Janeiro quando se está numa situação inusitadamente constrangedora, como esta de ter que criticar assim, em público um quase  ‘membro da família’)

“Rasgando a Saia Justa”: Siga a série abrindo estes links:
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Wodaabe-Bororo. A beleza mora na diversidade


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Mulheres escolhem amantes em concurso de beleza no Saara

Calma, calma! Espera lá. Galera gay se aquiete! Segurem a franga!

Eles não são, definitivamente  ‘veadinhos‘, bichas loucas, saltitantemente provando que a “humanidade é gay desde seus primórdios”. Não é bem por aí. Se algo eles têm a provar é que a beleza mora mesmo na diversidade e as aparências que nos enganam, não podem servir assim, tão displicentemente de pretexto para a agitação destas bandeiras afobadas que tremulam por aí.

Cá entre nós, com civilidade e ternura, um pouco de homofobia também pode ser cultura. Porque não?

Eles não são também integrantes de um carnavalesco ‘bloco das piranhas’, marmanjos machões zoando a condição feminina com o melhor do nosso brasileiro bom humor eventual. É. Eles não tem quase nada a ver com o Brasil.

Desta galera aí – que tem história antiga ‘para mais de metro‘ – vieram para o Brasil uns poucos, um número irrisório. Durante um tempo, gente mais mulata era chamada por aqui de ‘negro fula‘ (de  ‘fulani’).  A cor da nossa cara com ódio também vem do nome deles: “Fulo de raiva’, sacaram?

Portanto vamos lá, sem frescura ou viagem nas asas da fantasia. O ‘pão-pão queijo-queijo’, o ‘timtim por timtim’ eu extraí de resenhas da wikipedia e da BBC (abra o link) autora de um dos muitos vídeos dos wodaabe que circulam por aí.

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“Os Wodaabe (Fula: Woɗaaɓe) ou Bororo são um pequeno subgrupo do grupo étnico Fulani . Eles são tradicionalmente nômades, pastores de gado e comerciantes na região do Sahel, oriundos das migrações que se estenderam do sul do Níger, no norte da Nigéria, nordeste do Camarões, e na região oeste do República Centro Africana. A população Wodaabe foi estimada em 1983 em 45.000 indivíduos. Eles são conhecidos por sua beleza (homens e mulheres), seus trajes elaborados e suas ricas cerimônias culturais.

O Wodaabe falam a língua Fula e não usam nenhuma linguagem escrita. Na língua Fula, woɗa significa “tabu”, e Woɗaaɓe significa “povo do tabu”. Às vezes a palavra é traduzida como “aqueles que respeitam os tabus”, numa referência para o isolamento desta da cultura mais ampla dso fulas o que sugere sua afirmação de que eles, os Wodaabe, mantêm tradições “mais antigas” que seus vizinhos fulas.

Em contrapartida, os demais fulas, bem como outros grupos étnicos da região se referem às vezes aos Wodaabe como “Bororo“, um nome algo pejorativo, traduzido para inglês como “Fulani do gado“, significando “aqueles que habitam em campos de gado” (por extensão, pastores).

A fertilidade trazida pela chuva no deserto do Saara é comemorada com um concurso de beleza incomum, em que homens pintam o rosto e usam roupas especiais para impressionar juízas mulheres.

Os participantes do concurso são julgados de acordo com parâmetros vistos em muitas competições do tipo: altura, forma física, simetria facial e bons dentes. Os homens pintam os rostos e dançam por horas tentando impressionar as juízas, que podem escolher amar seus preferidos entre os competidores.

O ritual, chamado Gerewol, foi filmado pelo programa Human Planet da BBC e tem várias significados, segundo a antropóloga dinamarquesa Mette Bovin, que trabalha com os Wodaabe desde os anos 70.

O vermelho, que cobre o rosto dos participantes, é associado a sangue e violência e por isso só é usado em ocasiões especiais. O amarelo, usado por alguns dançarinos para criar detalhes no rosto, é a cor da mágica e da transformação.

O preto usado nos lábios e nos olhos é escolhido por ser o oposto do branco, que representa a morte. O batom é feito com ossos queimados de uma espécie de garça, associada pelos Wodaabe à expressividade.

“Ter charme –ou seja, expressividade e carisma– é algo muito valorizado em um jovem rapaz”, diz Bov.

Ao fim da apresentação, cada juíza escolhe seu vencedor e pode decidir tê-lo como amante, mesmo que ambos já tenham parceiros. Os vencedores são lembrados por anos após o concurso.

“Você dança o Gerewol para ganhar uma amante, mesmo que isso signifique roubar a esposa de alguém”, diz Djao, que conheceu a segundo mulher, Tembe, em um concurso anterior.

“Você pode casar com ela ou ter um romance com ela.”

Segundo a diretora do programa da BBC, Tuppence Stone, não há nenhum estigma ligado ao fato de que as pessoas quebram os votos do casamento temporariamente ou permanentemente durante o Gerewol.

“Os primeiros votos maritais na cultura Wodaabe são feitos quando o noivo e a noiva são muito jovens, então o Gerewol é uma chance para o amor”, diz ela.

Os Wodaabe não são polígamos, então para casar com um novo parceiro é preciso deixar o anterior.

Períodos de seca, conflitos e a recente insurgência da Al Qaeda no Norte da África fizeram com que essa antiga tradição seja raramente praticada.

Os clãs filmados pela BBC vivem em pequenos grupos nômades na fronteira entre o Chade e o Níger. Este foi o primeiro Gerewol para este grupos após seis anos de seca.

Apenas quando há água suficiente para centenas de pessoas no mesmo lugar, clãs Wodaabe isolados se reúnem.”

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Spírito Santo

Julho 2011

Black Diaspora awake! International year for people of African Descent


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Fiat lux sobre a afrodescendencia de todos nós

Tá bom. Eu sei que todos vocês já sabem: A ONU, por intermédio da UNESCO declarou 2011 como sendo o Ano de NOSSA afrodescendencia.

Existe contudo uma interessante ambiguidade semantica (e ideológica) embutida no conceito ‘afro-descendencia’. Dois argutos bons amigos do facebook, comentando posts sobre o assunto, fizeram interessantes questionamentos acerca disto. Se referindo às informações contidas neste link  referentes a novas evidencias encontradas de que os fluxos migratórios originados na África geraram TODOS os seres humanos, e analisando o cartaz oficial da campanha, Antonio Saraiva, por exemplo propõe:

“Sei o que significa e representa a proposta do cartaz mas como relacioná-la com essa informação (a do link)?

Ao que eu respondi:

Mora na idiosincrasia. Pra que rimar lugar e cor?

Lendo ao pé da letra é uma redundancia braba sim. Se TODOS somos afrodescendentes, o ano é da humanidade, ora! Mas as coisas não correram como esta natureza certinha do nosso imaginário queria.

Trouxeram gente da África num ritmo alucinante com a escravidão (os fluxos naturais deviam durar milhões de anos) e criaram esta dicotomia entre ‘uns’ e ‘outros’, com os ‘outros’ (os africanos) segregados lá por conta do mar, e segregados aqui por causa da escravidão, além dos traços genéticos que pouco se caldearam – ou se caldeiam – por conta do racismo (somos mistos si pero no tanto así. Quem não é?). Enfim, tem muita gente que acabou ficando com uma cultura muito mais parecida com a cultura original da África do que com a cultura dos europeus, e por aí a coisa foi se ‘idiossincraziando‘ cada vez mais.

Lógico que eles deviam dizer “International year for AFRICAN DIASPORA people, mas é aquela história: Já demoraram tanto a reconhecer o fato óbvio de que a origem dos humanos é comum, imagina quanto não vão demorar para entender que há diversidade cultural a ser aceita e considerada também…

O ser humano, segundo um cara sábio destes aí “é uma doença mental que deu na cabeça de um macaco.

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João DaSilva, o outro faceamigo também de certo modo  se refere a mesma ambiguidade comentando o link que postei no facebook sobre a mesma campanha da Unesco:

  “Concordo com o q vc disse, mas meu pto era outro: chamo atenção para o fato d q ‘considerar-se de ascendência africana’ é diferente d ‘descender geneticamente de africanos’. Há muitas maneiras d considerar-se d ascendência africana. A genética é uma delas.

Muita gente d ascendência genética africana não se considera; certamente muita gente q se considera d ascendência africana não o é geneticamente. Isso na verdade é uma velha discussão antropológica, remetendo a teorias d parentesco e organização social evolucionistas di século XIX (tanto d teóricos racistas qto d teóricos q combateram o racismo em sua época).

Pra colocar um exemplo, candomblecistas se consideram d ascendência africana – isso, mesmo qdo não tem geneticamente nada a ver com africanos, como no candomblé da Argentina e da Inglaterra. Eles não usam o discurso d ascendência genética ‘diluída’, apenas o discurso d ascendência mítico-cultural (o mesmo q cristãos usam para se definir como ‘o povo d Jesus’). Do pto d vista da antropologia, um discurso [e tão mítico qto o outro (mas veja q para mim – para antropólogos – ‘mítico’ não é sinônimo d ‘falso’, muito pelo contrário, mitos expressam uma verdade.

Uma verdade criada, claro, mas sempre uma verdade). Acho q centrar o discurso em uma ascendência genética, pura e simplesmente, acaba se tornando uma forma d negar q as Américas (principalmente, mas não apenas) são tão culturalmente africanas qto são culturalmente européias. talvez mais próximas da África q da Europa (e sempre é bom lembrar aqui q do pto d vista antropológico das teorias d parentesco e organização social q referi acima, Europa e África nem são tão distintas assim…). Claro, o mais ‘correto’ – o menos ambíguo, ao menos – seria se referir a ume vento histórico, a diáspora africana, como vc falou. Pq isso englobaria tanto cultura qto genética, ao menos potencialmente.”

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Ao que eu responderia:

Preclaros amigos,

O foco de iniciativas como esta não é exatamente a identidade racial das pessoas, não se trata de afirmar o quanto as pessoas são negras ou brancas. O foco é como eu disse, a questão da origem, no aspecto geográfico, espacial mesmo do termo. A maneira de caracterizar isto de forma que as pessoas todas entendam é que não é uma coisa fácil.

O cerne da proposta é o aspecto diásporico da dispersão de gente africana provocada pelo tráfico…’negreiro’, mas poucos conhecem ou entendem este conceito: Diáspora.

É que, pelo fato dos africanos que vieram como escravos para as Américas terem sido, quase totalmente os com fenótipo caracterizadamente ‘negro’ a discussão passou a confundir (por ingenuidade ou má intenção) fenotipia com genética. A discussão aliás é bem cansativa, porque parece com aquelas velhas discussões sobre o sexo dos anjos, o ovo e a galinha, etc.

A antropologia convencional não dá conta de explicar estas coisas porque ela, a antropologia clássica, tanto quanto o tema ‘cultura afro-brasileira’ (ou ‘afro-americana’, tanto faz) são instancias muito ideologizadas. No Brasil esta ambiguidade ideológica é aguda demais por causa da natureza, do mesmo modo aguda, de nosso racismo.

Então toda esta discussão sobre mitificação e/ou mistificação cai num enorme buraco negro. É claro que uma coisa é um mito criado ou fundado lentamente por uma sociedade ou comunidade para explicar algo muito remoto de sua evolução histórica ou cultural (como o Candomblé, por exemplo), mas tem a ‘outra’ coisa: É claro que isto é diferente de um mito inventado por um grupo social isolado (uma classe social, uma elite hegemonica, por exemplo) com um objetivo determinado, uma má intenção (como o racismo à brasileira) de excluir socialmente pessoas.

Existem, pois, Mitos e ‘Mitos’.

Todo mito é inventado, claro, mas a boa antropologia me parece aquela que estuda a fundo e tenta explicar as intenções ideológicas por trás destas invenções, separando joio de trigo.

É muito complicado de entender isto, mas convenhamos que a invenção das raças (da raça ‘negra’, por exemplo) foi um mito criado pelos europeus com as abjetas finalidades que a gente conhece. Uma ideologia malsã baseada no pretexto da diferença fenotípica.

Em contraposição a isto, a este mito (falso) a única ideologia possível ainda é a desconstrução, do mesmo modo ideológica do mesmo mito: no caso, a afirmação da pertinencia cultural de valores reconhecidamente africanos (‘negros’) na formação dos modos de ser das sociedades americanas, valores estes que, por conta do racismo ainda continuado, costumam ser omitidos, desclassificados, distorcidos.

A escravidão e o racismo criaram esta relação entre fenotipia e genética (‘negro’, ‘branco’, índio’…) a favor da esperta supremacia de classes sociais hegemônicas. Ao que parece, o discurso inverso (o da inexistência de raças) começa a ser usado agora com a mesma finalidade (manter o status quo). Esta talvez seja a principal fronteira da luta anti racista no Brasil. Gilberto Freire versus Chank Anta Diop, sacaram?

Infelizmente (felizmente, melhor dizendo) o discurso que predomina por ser mais lógico, mais ‘natural’ não é o da ‘diluição genética’, da ‘mestiçagem’, da ‘exclusão dos extremos’. Esta bandeira é falsa e impertinente, reacionária até.

Acho que vamos ter que ser cada vez mais objetivos. Existe cultura negra no Brasil e nas Américas sim. A razão não é genética, óbvio. A razão foi a exclusão continuada de um grupo social fenotipicamente negro-africano. Mas se não tivesse havido escravidão e racismo, ainda assim haveria cultura negro-africana porque há concentração do fenótipo negro na África.

E este não é um problema de nossa humanidade. Problema é, como sempre, o racismo que nos atravanca o desenvolvimento com igualdade entre os fenotipicamente diferentes.

Do ponto de vista da natureza não há, necessariamente conflito na diversidade. Nada demais que existam negros, brancos, índios, ‘meio brancos’, ‘meio negros’, ‘meio-índios’. Este temido conflito entre raças, ‘não brancos’ versus ‘brancos’, é que é sim um mito no mau sentido (uma premissa falsa), uma mentira deslavada.

A Democracia plena (conceito embutido na exaltação desta cultura diaspórica africana) resolverá completamente este medo ‘branco’.

Spirito Santo

Julho 2011

Cabeça de Nêgo é bomba acesa


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A neurótica negação da intrínseca negritude em nós

“Jornalista do GLOBO vai à Suécia cobrir evento sobre Bergman e acaba tendo de ficar nu diante de agentes de imigração – O Globo –10/07/2011

E mesmo um tema cheio de perguntas que não querem calar.

O Leonardo Lichote é um jornalista gente fina que escreve sobre música popular em O Globo. É quase certo que Linchote nem se deu conta disto, do hiato eletrizante contido em sua resposta diante da inesperada e impensável situação:

“…A abordagem foi seca, interrompendo meu caminho para o corredor de saída:

— ??????????? — foi o que entendi do que disse, em sueco, o homem uniformizado.”

E se ele se deu conta, a consciência disto não passou muito de uma sensação ruim, embora vaga, envergonhada apenas por ser inaceitável, inadmissível, nunca confessável.

 “…Estava no Aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, chegando de uma longa viagem que vinha do Rio, com escala em Paris. Cansado e surpreso, não tive presença de espírito para soltar um sorry?. Em vez disso, expressei minha incompreensão.

— Ãhn?!?

— English? — perguntou (o guarda sueco).

Confirmei que podíamos nos entender em inglês…”

O relato sobre um incidente ocorrido em sua mais recente viagem é emblemático desta coisa tão brasileira – e quase inconsciente em certos casos – de se incomodar por não ser – ou de pretender, ansiar ser – ‘branco’, ou mais claramente ainda: Não querer parecer negro de JEITO NENHUM.

“…Costumo dizer, brincando, que tenho um tipo físico (pele morena, olheiras marcadas, lábios grossos, cabelo ondulado, nariz largo) que me torna um visitante suspeito em qualquer país desenvolvido do mundo — apesar de ter um bisavô italiano (Lichote vem de Lichotti) e um avô louro de olhos azuis, descendente de austríacos.”

Olhos azuis?? Anh?

Não se iludam. Não me venham a esta altura de nossa história com os panos quentes do sigilo eterno sobre este assunto. Não me digam que estou procurando chifre em cabeça de cavalo. Nem me venham com aquelas exortações em cima do muro para que não se fale o santo nome da cor que temos, já que… raças não existem. Sei. Estou careca de saber sobre isto. Estas preleções dogmáticas cheias de sofismas e más intenções pseudo científicas me irritam. Afinal, porque nos devemos calar sobre isto?

Odeio tabus. Eles são sempre cínicos. Ora ora, somos o que somos uns assim outros assados, uns meio barro, outros meio tijolo e acho que disto devemos nos orgulhar integralmente, mas como diz o povo, em sua filosofia de botequim: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

E Lichote segue, mais constrangido ainda:

…”Dependendo do destino, posso ser visto como árabe, mexicano, turco, paquistanês, indiano e mesmo brasileiro. Afinal, em números absolutos, nossos turistas são os mais barrados nos aeroportos da Europa.

O agente perguntou de onde eu vinha. Já me sentia pouco à vontade — a brincadeira sobre meu tipo físico não me parecia mais tão engraçada…”.

“ …Apesar de ter um bisavô italiano (Lichote vem de Lichotti) e um avô louro de olhos azuis, descendente de austríacos de olhos azuis…” sim, sim, mas e o resto dos galhos da árvore genealógica – fala aí Lichote! – estes que o guarda sueco percebeu logo de cara? De onde teriam vindo – que diabos! – as marcas mais indeléveis deste Lichote tão não-europeu? Sendo o fenótipo do jornalista tão importante como gancho para a narrativa o que ficou faltando  o Lichote dizer?*

É  que, estranhamente para um jornalista experiente como é, Linchote parece que omitiu, diluiu esta parte  da narrativa num universo de ‘não brancos’ estrangeiros bem difuso, como se os seus estigmáticos traços físicos fossem um acidente genético fortuito, improvável e misterioso…além de incômodo.

É que a negação desta parte oculta, omitida de nós mesmos é uma espécie de fantasma genético desprezível, mais que marca estigma, um medo quase pânico, uma negrofobia que precisamos assumir e tirar do armário onde ela vive ainda hoje escrava (antes que ela, de algum modo mate a nossa alma… pelas costas).

É sim, mais normal do que parece esta negação da negritude entre nós. E ela é muitas vezes inconsciente. Este auto-desprezo quase sempre contido, inconfesso, arraigado em todos nós como cicatriz de chibata, só é tido como questionável, discutível, por que, ao que tudo indica, representa ainda um preconceito nacional, um tema no qual a maioria de nós acha melhor não tocar, melhor evitar como se evita remexer em velhas chagas.

Assim, contudo, sem bálsamo algum, a chaga vai seguindo aberta.

Sim, todos nós devíamos – ninguém é obrigado a isto, claro – assumir e encarar de vez esta piração nacional paralisante. Esta neurose coletiva que se abateu sobre o Brasil como uma espécie de castigo (será que foi porque sucumbimos à tentação, ao pecado original de tornar ‘natural’ no desenvolvimento de nossa sociedade, a prática abjeta da escravidão de nossos próprios semelhantes).

É provável sim, que a nossa auto-escravidão emocional, nesta sua sujeição de abolição impossível, tenha nos envenenado a todos, como uma comunidade em longa quarentena, acometida por uma psicopatia geral muito contagiosa.

Pense bem: Como manter um escravo sujeito à nossa vontade sem pensá-lo um ser inferior e desprezível? Impossível sujeitar aquele que julgamos realmente nosso semelhante, não é mesmo? Precisamos imaginá-lo uma espécie de animal apenas parecido conosco. Um primo genético meio distante, sub-humano, um homo imbecilis, porém domesticável.

Daí marcá-lo simbolicamente como ovelha negra de pesadelo, aquela ovelha insubmissa, que nos olha de rabo de olho e da qual, no fundo no fundo temos muito medo porque ela está sempre nos dizendo com os olhos que NÃO, que NÃO, que NÃO, jamais se submeterá.

“…O meu pastor não sabe que eu sei da arma oculta na sua mão”

Sejamos francos: Não é assim que muitos ainda hoje tratam as suas empregadas domésticas, as babás dos seus filhos? Não é assim, com hipócrita cordialidade de sorrisos congelados que tratamos os pedreiros, os pintores, os biscateiros, os faxineiros da favela mais próxima?

“…Se dermos o pé eles querem a mão….Se dermos o pé eles querem a mão…”-  Não é isto que pensamos na hora de pagar algum mísero trocado?

E se desprezamos, mesmo enrustidamente, os que se assemelham fisicamente à serviçais imaginários julgando-os seres vis por suposto – mesmo sabendo que eles não o são – como aceitar agora, diante de uma revista alfandegária num aeroporto qualquer da Europa, que para o bom observador guarda sueco existem partes da cara de um escravo visíveis, impressas, justamente na NOSSA cara, como um carimbo de ‘persona non grata’. Como se deu isto conosco?

— Ahn?!?

Estar diante deste espelho fiel, é como aceitar que um escravo qualquer, dos vários milhões que mantivemos subjugados ao nosso lado, por um deslize remoto de algum parente europeu, ‘maculou’ a nossa antes tão ‘ariana’ descendência, ‘contaminando’, como castigo de Cam bíblico, o nosso DNA?

Ai, ai! Quantas avós ‘de cor’ ocultas nas cartas de fundo de baú? Quantas fotos escondidas, borradas, retocadas, rasgadas, queimadas? Quanta rejeição por aquela pecha de ‘mulata lasciva que seduziu vovô” lançada sobre a imagem de alguma inocente e pacata bisavozinha do interior.

…Ou bisavozinho, claro.

Ai! E como dói quando a foto da bisavozinha, do bisavozinho, omitida como praga, como um bode na sala de estar, aparece assim impressa em nossa própria face, como uma xerox furtiva, mancha indelével de um pezinho na cozinha que  não esperávamos, que não queríamos ter, uma armadilha solerte do nosso DNA bastardo, maldito…Ai!

Difícil. Melhor mesmo é esquecer. Mais fácil apagar as marcas, maquiar, mascarar com pancake e eufemismos a alma visível e invisível desta nossa transatlântica feição.

Muitos ‘negros’ – tanto quanto os muitos ‘brancos’ e pelas mesmas razões – de algum modo tentam negar também os traços mais evidentes de sua fenotipia, de forma tão inconsciente às vezes, que este comportamento recorrente – apesar de ser sempre negado até à morte – pode muito bem ser reconhecido como uma neurose coletiva, algo assim de natureza tão psicossocial que deveria demandar campanhas públicas de esclarecimento e até mesmo, nos casos mais agudos, programas nacionais de acompanhamento psicoterapêutico.

Os exemplos são inúmeros. O caso do Lichote é apenas mais um exemplo banal, talvez até extemporâneo, mas como nos cai bem. Principalmente como lição.É por isto que de baixa autoestima étnica (cultural por suposto) os manicômios simbólicos e reais do Brasil estão cheios.

Mestiçagem, mistureba racial (ou emocional) é o cacete! Abaixo a auto negação de nossa alma afro-transatlântica.

Viva a diferença! Viva a diversidade nacional!

Spírito Santo

Julho 2011

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( E veja bem a parte melhor do papo: Lichote em pessoa lendo o post hoje mesmo vem, fala e diz o que faltou logo abaixo:)

“Olá, Spírito Santo. Lichote falando. Só para esclarecer que a questão de não informar os outros galhos da minha árvore passa muito mais pelo fato de eles se mostrarem óbvios na minha constituição física que por uma negação. Uma observação que não ataca seus argumentos, mas dá a eles outras matizes.

Abraço.”