Black Diaspora awake! International year for people of African Descent

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Fiat lux sobre a afrodescendencia de todos nós

Tá bom. Eu sei que todos vocês já sabem: A ONU, por intermédio da UNESCO declarou 2011 como sendo o Ano de NOSSA afrodescendencia.

Existe contudo uma interessante ambiguidade semantica (e ideológica) embutida no conceito ‘afro-descendencia’. Dois argutos bons amigos do facebook, comentando posts sobre o assunto, fizeram interessantes questionamentos acerca disto. Se referindo às informações contidas neste link  referentes a novas evidencias encontradas de que os fluxos migratórios originados na África geraram TODOS os seres humanos, e analisando o cartaz oficial da campanha, Antonio Saraiva, por exemplo propõe:

“Sei o que significa e representa a proposta do cartaz mas como relacioná-la com essa informação (a do link)?

Ao que eu respondi:

Mora na idiosincrasia. Pra que rimar lugar e cor?

Lendo ao pé da letra é uma redundancia braba sim. Se TODOS somos afrodescendentes, o ano é da humanidade, ora! Mas as coisas não correram como esta natureza certinha do nosso imaginário queria.

Trouxeram gente da África num ritmo alucinante com a escravidão (os fluxos naturais deviam durar milhões de anos) e criaram esta dicotomia entre ‘uns’ e ‘outros’, com os ‘outros’ (os africanos) segregados lá por conta do mar, e segregados aqui por causa da escravidão, além dos traços genéticos que pouco se caldearam – ou se caldeiam – por conta do racismo (somos mistos si pero no tanto así. Quem não é?). Enfim, tem muita gente que acabou ficando com uma cultura muito mais parecida com a cultura original da África do que com a cultura dos europeus, e por aí a coisa foi se ‘idiossincraziando‘ cada vez mais.

Lógico que eles deviam dizer “International year for AFRICAN DIASPORA people, mas é aquela história: Já demoraram tanto a reconhecer o fato óbvio de que a origem dos humanos é comum, imagina quanto não vão demorar para entender que há diversidade cultural a ser aceita e considerada também…

O ser humano, segundo um cara sábio destes aí “é uma doença mental que deu na cabeça de um macaco.

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João DaSilva, o outro faceamigo também de certo modo  se refere a mesma ambiguidade comentando o link que postei no facebook sobre a mesma campanha da Unesco:

  “Concordo com o q vc disse, mas meu pto era outro: chamo atenção para o fato d q ‘considerar-se de ascendência africana’ é diferente d ‘descender geneticamente de africanos’. Há muitas maneiras d considerar-se d ascendência africana. A genética é uma delas.

Muita gente d ascendência genética africana não se considera; certamente muita gente q se considera d ascendência africana não o é geneticamente. Isso na verdade é uma velha discussão antropológica, remetendo a teorias d parentesco e organização social evolucionistas di século XIX (tanto d teóricos racistas qto d teóricos q combateram o racismo em sua época).

Pra colocar um exemplo, candomblecistas se consideram d ascendência africana – isso, mesmo qdo não tem geneticamente nada a ver com africanos, como no candomblé da Argentina e da Inglaterra. Eles não usam o discurso d ascendência genética ‘diluída’, apenas o discurso d ascendência mítico-cultural (o mesmo q cristãos usam para se definir como ‘o povo d Jesus’). Do pto d vista da antropologia, um discurso [e tão mítico qto o outro (mas veja q para mim – para antropólogos – ‘mítico’ não é sinônimo d ‘falso’, muito pelo contrário, mitos expressam uma verdade.

Uma verdade criada, claro, mas sempre uma verdade). Acho q centrar o discurso em uma ascendência genética, pura e simplesmente, acaba se tornando uma forma d negar q as Américas (principalmente, mas não apenas) são tão culturalmente africanas qto são culturalmente européias. talvez mais próximas da África q da Europa (e sempre é bom lembrar aqui q do pto d vista antropológico das teorias d parentesco e organização social q referi acima, Europa e África nem são tão distintas assim…). Claro, o mais ‘correto’ – o menos ambíguo, ao menos – seria se referir a ume vento histórico, a diáspora africana, como vc falou. Pq isso englobaria tanto cultura qto genética, ao menos potencialmente.”

————

Ao que eu responderia:

Preclaros amigos,

O foco de iniciativas como esta não é exatamente a identidade racial das pessoas, não se trata de afirmar o quanto as pessoas são negras ou brancas. O foco é como eu disse, a questão da origem, no aspecto geográfico, espacial mesmo do termo. A maneira de caracterizar isto de forma que as pessoas todas entendam é que não é uma coisa fácil.

O cerne da proposta é o aspecto diásporico da dispersão de gente africana provocada pelo tráfico…’negreiro’, mas poucos conhecem ou entendem este conceito: Diáspora.

É que, pelo fato dos africanos que vieram como escravos para as Américas terem sido, quase totalmente os com fenótipo caracterizadamente ‘negro’ a discussão passou a confundir (por ingenuidade ou má intenção) fenotipia com genética. A discussão aliás é bem cansativa, porque parece com aquelas velhas discussões sobre o sexo dos anjos, o ovo e a galinha, etc.

A antropologia convencional não dá conta de explicar estas coisas porque ela, a antropologia clássica, tanto quanto o tema ‘cultura afro-brasileira’ (ou ‘afro-americana’, tanto faz) são instancias muito ideologizadas. No Brasil esta ambiguidade ideológica é aguda demais por causa da natureza, do mesmo modo aguda, de nosso racismo.

Então toda esta discussão sobre mitificação e/ou mistificação cai num enorme buraco negro. É claro que uma coisa é um mito criado ou fundado lentamente por uma sociedade ou comunidade para explicar algo muito remoto de sua evolução histórica ou cultural (como o Candomblé, por exemplo), mas tem a ‘outra’ coisa: É claro que isto é diferente de um mito inventado por um grupo social isolado (uma classe social, uma elite hegemonica, por exemplo) com um objetivo determinado, uma má intenção (como o racismo à brasileira) de excluir socialmente pessoas.

Existem, pois, Mitos e ‘Mitos’.

Todo mito é inventado, claro, mas a boa antropologia me parece aquela que estuda a fundo e tenta explicar as intenções ideológicas por trás destas invenções, separando joio de trigo.

É muito complicado de entender isto, mas convenhamos que a invenção das raças (da raça ‘negra’, por exemplo) foi um mito criado pelos europeus com as abjetas finalidades que a gente conhece. Uma ideologia malsã baseada no pretexto da diferença fenotípica.

Em contraposição a isto, a este mito (falso) a única ideologia possível ainda é a desconstrução, do mesmo modo ideológica do mesmo mito: no caso, a afirmação da pertinencia cultural de valores reconhecidamente africanos (‘negros’) na formação dos modos de ser das sociedades americanas, valores estes que, por conta do racismo ainda continuado, costumam ser omitidos, desclassificados, distorcidos.

A escravidão e o racismo criaram esta relação entre fenotipia e genética (‘negro’, ‘branco’, índio’…) a favor da esperta supremacia de classes sociais hegemônicas. Ao que parece, o discurso inverso (o da inexistência de raças) começa a ser usado agora com a mesma finalidade (manter o status quo). Esta talvez seja a principal fronteira da luta anti racista no Brasil. Gilberto Freire versus Chank Anta Diop, sacaram?

Infelizmente (felizmente, melhor dizendo) o discurso que predomina por ser mais lógico, mais ‘natural’ não é o da ‘diluição genética’, da ‘mestiçagem’, da ‘exclusão dos extremos’. Esta bandeira é falsa e impertinente, reacionária até.

Acho que vamos ter que ser cada vez mais objetivos. Existe cultura negra no Brasil e nas Américas sim. A razão não é genética, óbvio. A razão foi a exclusão continuada de um grupo social fenotipicamente negro-africano. Mas se não tivesse havido escravidão e racismo, ainda assim haveria cultura negro-africana porque há concentração do fenótipo negro na África.

E este não é um problema de nossa humanidade. Problema é, como sempre, o racismo que nos atravanca o desenvolvimento com igualdade entre os fenotipicamente diferentes.

Do ponto de vista da natureza não há, necessariamente conflito na diversidade. Nada demais que existam negros, brancos, índios, ‘meio brancos’, ‘meio negros’, ‘meio-índios’. Este temido conflito entre raças, ‘não brancos’ versus ‘brancos’, é que é sim um mito no mau sentido (uma premissa falsa), uma mentira deslavada.

A Democracia plena (conceito embutido na exaltação desta cultura diaspórica africana) resolverá completamente este medo ‘branco’.

Spirito Santo

Julho 2011

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~ por Spirito Santo em 16/07/2011.

Uma resposta to “Black Diaspora awake! International year for people of African Descent”

  1. encontrei uma serie de documentarios da tv americana PBS falando da historia e da situação atual dos negros na america latina:http://www.pbs.org/wnet/black-in-latin-america/

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