O Rei Nagô sem a pureza fica nu. Fechando a tampa do caldeirão da ‘nagoization’.


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Os Mendes, família nagô rica, no Rio de Janeiro do início do século 20

Os Mendes, família nagô rica, no Rio de Janeiro do início do século 20

As elitistas raízes fincadas no ‘axé’ do Candomblé do Rio e de Salvador, Bahia.

Rasgando a saia justa-Post#06

Raízes D’África

“Assumano, Alabá. Abaca, Tio Sani

E Abedé me batizaram na lei de mussurumi

Como vêem tenho o corpo cruzado e fechado

Carrego exé na língua, não morro envenenado

Viajei semana e meia daqui pro Rio Jordão

Lugar em que fui batizado com uma vela em cada mão

Cinco macota d’Angola me prepararam de berço

Enquanto Hilário Jovino me cruzou com sete terços

Mesmo assim, me considero um insigne mirim

Filho de cuemba não cai Ogum, Xangô, Alafim.”

(Samba de partido Alto de Aniceto do Império Serrano)

Seguindo o papo, primeiramente um fato inquestionável (embora seja sempre omitido):

O calcanhar de Aquiles da ideologia que preconiza a chamada ‘Supremacia nagô’ é o conceito ‘pureza étnica’, a eventual legitimidade, a suposta ‘superioridade‘ dos elementos de uma africanidade idealizada, contidos no culto do Candomblé Nagô, em detrimento de todos os outros elementos culturais porventura trazidos ou criados por africanos no Brasil que, tachados de impuros passaram a ser ignorados, desqualificados, considerados cultura africana ilegítima, passando a sofrer procedimentos de invizibilização sistematizados.

Negros ‘puro-sangue’ versus negros ‘vira-latas’.

Falando francamente é esta a essência do conflito ideológico expresso pela maquiavélica e artificial oposição que se criou entre o Nagô e Bantu no âmbito da cultura negra do Brasil. Um conflito de natureza claramente racista que a gente sabe muito bem a quem interessa, não é não?

Incrível! Como foi que esta imensa distorção se firmou? O que contribuiu para que ela se mantivesse assim tão inquebrantável durante os mais de 150 anos em que foi ‘fundada’. Conivência de muitos, aquiescência das próprias ‘vítimas’? Injusta e ‘esperta ignorância’ de doutos e incultos, todos fraternalmente mal intencionados? Vai saber! Bem… vocês já sabem muito bem do que estamos falando.

Esta generalizada ‘invisibilização’ de tudo que NÃO é nagô – cujo negativo impacto social e político, garanto a vocês, é enorme e ainda incalculável – tratando-se de uma espécie de ‘apagamento compulsório’ da cultura da maioria da população negra do Brasil (que, como já se pode atestar é oriunda, principalmente de certa parte da África, basicamente a área compreendida pela República de Angola atual), se processou em todos os níveis da sociedade brasileira.

(Bem sei que alguns minimizam a questão tachando-a de uma irrelevante disputa ‘Negro versus Preto’, algo como discutir o Sexo dos Anjos, como me disse alguém, mas vamos tentar enxergar as coisas mais profundamente).

 “Seguindo uma tradição estabelecida à longa data, desde o século XIX, Pais de Santo e Mães de Santo do Candomblé sempre mantiveram contatos regulares e relacionamentos – por vezes bem íntimos até – com a elite política. Como observa (Vivaldo da Costa Lima), estas estratégias devem ser analisados ​​sob a perspectiva de uma “ideologia de prestígio”.”

“…A partir dessas histórias entrelaçadas de viagens marítimas emerge o retrato de um grupo de abastados libertos Nagô, intimamente associada ao terreiro de Marcelina da Silva e unidos por laços de amizade, parentesco, e provavelmente de comércio, assim, que enviaram seus filhos para serem educados em Lagos…”

Esta rede de língua iorubá, certamente consciente de sua identidade nagô, continuou a estimular as relações sociais e culturais entre líderes religiosos da Bahia e os da Costa Oeste africana. Como afirmado pelo antropólogo (Vivaldo da Costa Lima), “a viagem à África por africanos livres e seus filhos era um elemento importante legitimador de prestigio e gerador de conhecimento e de poder econômico. “

(Luiz Nicolau Parés –Repensando a Nagôização do candomblé no século XIX”)

Com toda certeza, se esta ‘política de prestígio’ posta em prática pelo Candomblé baiano, principalmente por sua recorrência e pela constatação de que foi uma estratégia usada tanto em Salvador quanto no Rio de Janeiro, segundo um mesmo modus operandi, pode-se  quase afirmar que ela foi cuidadosamente articulada, provavelmente representando uma premissa fundamental da seita, uma regra fundadora que, neste caso teria sim premeditadas finalidades ideológicas corporativistas ou elitistas, visando muito mais a ascensão ou a promoção social de um seleto grupo de negros organizados como uma casta religiosa, perfil muito diferente da imagem vendida por aí de uma religião gregária, libertária, interessada na redenção de todos negros do Brasil.

E este é o ‘xis’ de nossa questão.

A história da fundação do Candomblé no Rio de Janeiro é esta:

…” Oba Saniya (o ‘Tio Sani’ de Aniceto do Império no partido alto aí de cima) e Bamboxe (que também possuía o titulo de Balé Xango), estiveram no Rio de Janeiro por volta de 1886 e se instalaram no bairro da Saúde, implantando o axé de suas respectivas casas. O terreiro fundado por Bamboxe, após seu retorno à Bahia, foi segundo contam, entregue ao renomado João Alabá (citado também no samba de Aniceto), que continuaria a tradição. No terreiro de João Alabá, Hilaria Batista de Almeida, Omo Oxum ( filha de oxum) conhecida por Tia Ciata, ocuparia o posto de Iyá Kekere ( Mãe Pequena).

“…Seguindo os passos de Oba Saniya e Bomboxe, Mãe Aninha (Iya Oba Biyi) faria inúmeras viagens da Bahia para o Rio de Janeiro…Durante esta estadia, Aninha iniciou algumas algumas iyawo e foi cercada das tias baianas mais proeminentes residentes na região a que Heitor dos Prazeres um dia chamou de Mini-África, e que ia da Praça Mauá e Pedra do Sal até a Cidade Nova.Por essa região se estendia a colônia baiana”

(Paulo Cesar Pereira de Oliveira em Samba Choro)

Este processo – que, como já atestamos aqui em outros posts foi iniciado na segunda metade do século 19, ali por volta de 1860 – de alguma forma se cristalizou, notadamente na área dos estudos acadêmicos mais convencionais, a partir dos quais a falsa – e velha – tese da ‘supremacia’ de um minoritário grupo étnico africano sobre os demais, foi estabelecida e legitimada – inclusive no âmbito institucional – influenciando equivocadamente políticas públicas, oficiais na área da Cultura, da Educação, etc. políticas estas que sedimentaram uma idéia de cultura e história do negro brasileiro, completamente diversa da realidade dos fatos, ideia que sobrevive até hoje, apesar do caráter de deslavada mentira que claramente representa.

Sim Sinhô!

…”Martiniano Eliseu do Bonfim foi um membro muito influente dos candomblés da Bahia, desde os fins do século XIX. Nina Rodrigues a ele já se referia, sem mencionar-lhe o nome, como um valioso informante:

Martiniano:

– “Todo o mundo pensa que eu tenho muito dinheiro mas desde que o Dr. Nina Rodrigues morreu, não tive mais um emprego regular”.

(O candomblé da Bahia em 1930- Vivaldo da Costa Lima)

O Brasil-afro é mesmo esta carroça enfeitada de penduricalhos kitsh, se pretendendo uma sociedade moderna. O chato é esta doída sensação ‘ai meu lombo!’, a impressão de que nós, ‘os outros’, é que somos os cavalos, os jegues, os burros que puxam o veículo que transporta a tralha.

Alguns mais renitentes, diante da constatação de que uma farsa foi mesmo urdida neste assunto da ‘supremacia nagô’ esbravejam contra os doutos, culpando-os por tudo. Eu mesmo passei um bom tempo achando que o racismo recorrente da ‘Academia Branca do Brasil’ explicava tudo. Para mim uma série de doutores a partir de Nina Rodrigues, teria construído sozinha, pedra por pedra, tese sobre tese, esta mistificação academica da ‘supremacia’ nagô e seu elitismo militante. Pois sim. O que dizer quando se lê as entrelinhas de algo assim:

…”Mãe Aninha tinha contatos com o presidente brasileiro Getúlio Vargas e ministro chefe da casa Civil Oswaldo Aranha, bem como com outros ministros e diplomatas. Bernardinho de ‘Bate Folha “foi grande amigo de Juracy Magalhães, que foi governador da Bahia em 1934 e pessoa fundamental para a criação de um clima político relativamente confortável para o Candomblé.

(Paulo Cesar Pereira de Oliveira em “Samba Choro”)

Pelas pesquisas que fiz para o meu livro – que não tem nas partes em que toca neste assunto, vale ressaltar, a menor intenção de ‘denegrir’, ‘queimar’ o filme do Candomblé – pude perceber que estas ‘relações ideológico-diplomáticas’ se deram também, de forma bem intensa no Rio de Janeiro, notadamente no âmbito da chamada ‘Pequena África’, onde esta ‘diplomacia’ era representada e tocada pelas articuladíssimas figuras muito badaladas da colônia baiana do Rio na época, como Hilário Jovino (pernambucano, oficial da Guarda Nacional) e a afamadíssima Tia Ciata (na verdade Hilária Baptista da Silva, cujo marido João Baptista era o chefe de gabinete do Chefe de Polícia da capital durante o governo Wenceslau Bras).

Na verdade, quanto mais nos aproximamos das mumunhas mais intrincadas do assunto, mais incongruencias encontramos e o processo de montagem da farsa da ‘Supermacia Nagô’ mais vai se revelando. Uma destas mumunhas, das mais cabulosas é a maneira absolutamente recorrente com que se atribui a personalidades desta colônia baiana a invenção de praticamente tudo que o negro carioca – e o baiano – criou.

“…Foi também muito importante nesta ‘política de prestígio’ da seita do Candomblé carioca, o famoso e mui influente pai de santo ‘Abedé’ (também citado por Aniceto e, como os outros de origem e crença curiosamente muçulmana), na porta de cujo terreiro se podia ver aos sábados, carros e mais carros estacionados. É que sábado era dia das seções mais concorridas, aquelas que atraíam as mais ‘chics’ celebridades da Capital da República, entre elas muitos políticos importantes…”

“…As funções na casa de Sua Majestade Abedé eram permitidas pela polícia, em vista de ser ali uma sociedade de Ciências Ocultas, com organização de sociedade civil, sendo (…) os seus estatutos aprovados pela polícia” para a prática “da religião e danças africanas”. Isto porque Abedé era o único pai-de-santo com diploma de doutor em Ciências Ocultas, concedido por uma universidade norte-americana.

(Francisco Guimarães (‘Vagalume’) em ‘Na Roda do Samba’. Rio de Janeiro, 1933)

Em todas as teses, livros e artigos, a rigor em praticamente tudo que se escreveu até hoje sobre a cultura do negro nestes dois importantes centros brasileiros, o genio de algum membro desta elite negro-nagô-baiana aparecerá. Ao que tudo indica, os vínculos estreitos desta ‘afro-elite’, desta casta pós yoruba com a aristocracia branca de Salvador e do Rio de Janeiro acabou reservando-lhe o direito de representar o papel de ‘cultura oficial’ do negro brasileiro, o que é, sobre todos os termos, uma lamentável e inaceitável distorção.

“…”Os grandes candomblés na casa de Sua Majestade Abedé …se recomendavam pela gente escolhida que os freqüentava e nos dias de tais funções, era de ver a grande fileira de automóveis naquela rua, sendo alguns de luxo e particulares na sua maioria. Era gente de Copacabana, Botafogo, Laranjeiras, Catete, Tijuca, São Cristóvão, enfim gente da alta roda que ali ia render homenagens a seu Pai Espiritual.”

Para dar uma idéia do prestígio de Sua Majestade Abedé, Vagalume arremata com a informação de que, numa festa que deu em setembro de 1930, compareceu até o filho do presidente da República, Washington Luís.”

Bem, não foi preciso ser muito atento para observar que pelo menos quatro dos principais líderes religiosos introdutores do Candomblé no Rio de Janeiro, citados no antológico samba de Aniceto (Assumano, Alabá, Tio Sani e Abedé) eram assumidamente muçulmanos, adeptos de uma religião com muitos seguidores na África a partir do século 14 ou 15, mas sem nenhuma relação direta com as religiões ‘puramente negro-africanas’ alegadas pelos crentes da ‘Supremacia Nagô’.

“A Drª. em história comparada da UFRJ, Juliana Barreto Farias, em seu livro Cultura, identidade e religião afro-brasileiras na cidade do Rio de Janeiro -1870-1930: cenários e personagens, traça um esboço biográfico bastante interessante sobre Assumano (o mesmo citado por Aniceto do Império no samba de partido alto aí em cima):

“Filho de Muhammad Salim e Fátima Faustina Mina Brasil, negros vindos da Costa da África, Assumano, “uma figura impressionante de preto”- nas palavras do compositor e escritor Almirante – morava na rua Visconde de Itaúna, dizia trabalhar no comércio e dar consultas em sua residência, inclusive para pessoas conhecidas na sociedade carioca da época, como é o caso do jornalista e escritor Medeiros e Albuquerque…”

E esta é a perna curta desta inverdade antológica.

O que é preciso ter esperteza para entender é que o formidável processo histórico que ensejou a expansão do Islamismo África negra à dentro (e se toque aí pessoal: os muçulmanos nas Cruzadas tomaram parte da Europa também) ocorreu ao mesmo tempo em que o Catolicismo europeu se expandia via Reino do Kongo, para a área invadida e posteriormente dominada pelos portugueses.  É obvio se deduzir, portanto que por esta simples constatação, todas as culturas africanas transladadas para o Brasil – e as suas respectivas religiões – já chegaram aqui ‘resignificadas’ (‘contaminadas’, como querem os puristas) carecendo de sentido afirmações do tipo:

“…as formas congo-angolanas, chegadas ao Brasil (estariam) já muito influenciadas pelo catolicismo, e com sua historicidade bastante diluída.”

(O grande Nei Lopes, dia destes em seu blog)

Como argumentamos exaustivamente aqui, é sobre estas premissas algo discutíveis – a fraca tese da ‘pureza’ yoruba – que se assenta toda a ideologia da ‘Supremacia Nagô’ que consideramos de certo modo, nociva à emancipação da maioria dos negros do Brasil, um flagrante e importante entrave na luta contra o Racismo á brasileira muito mais por conta do pecado original do elitismo na qual foi fundada, mas também pelo caráter deletério de sua pretensa hegemonia religiosa ou cultural.

Para irmos aos finalmentes – ou para o fim provisório – desta conversa, (e já falamos nisto, de leve, no post anterior) admitamos enfim que, se as religiões bantu podem ser consideradas ‘impuras’ e desafricanizadas por terem sido ‘contaminadas’ pelo Catolicismo, as religiões ‘sudanesas’ (a ‘nagô’, no caso) também são, do mesmo modo ‘impuras’ e desafricanizadas (atentem, por favor, que neste caso a pecha se refere à África Negra), pois, foram ‘contaminadas’ pelo islamismo.

Ora, se os elementos mais animistas e primitivos das culturas africanas que informam a cultura brasileira – os tais que seriam ‘puramente africanos’ (como os sacrifícios de animais, a possessão de ‘espíritos’, etc.) não podem mais ser, claramente identificados – ou pelo menos atribuídos aos bantu ou aos nagô, precisamente – a questão nova que se apresenta para a nossa discussão passa a ser, pois, definir quais elementos constitutivos da negritude brasileira são mais relevantes ou pertinentes, se os Afro-Muçulmanos (que, como atestamos aqui marcam profundamente o Candomblé) ou se os Afro-Católicos (que, como todo mundo sabe, marcam todo o resto, maioria esmagadora de nossa população negra, de todo o sudeste brasileiro, pelo menos e todo o resto da Diáspora americana).

Zero a zero. Empate. Fim de jogo: ‘Pureza étnica’ alguma as duas correntes religiosas afro-negras têm.

Edison Carneiro, seated in chair, holding picture of Mãe Aninha- Photo by Ruth Landes 1938

Edison Carneiro, seated in chair, holding picture of Mãe Aninha- Photo by Ruth Landes 1938

É por estas e outras que o que você lerá agora terá que ser entendido também nas entrelinhas:

“…A fim de garantir a segurança e a liberdade para Candomblé proposta pelo II Congresso Afro-Brasileiro, em janeiro de 1937, Edson Carneiro organizou  a União das seitas afro-Brasileiras, que substituiria a polícia no controle de atividades religiosas.

A USAB foi inaugurada com o apoio formal do governador Juracy Magalhães e incluiu 67 terreiros entre os aproximadamente 100 existentes na época (ou seja, 33 foram expurgados, considerados “impuros”). De acordo com Roger Bastide, a USAB preconizava o que Couto Ferraz, em seguida, denominou de “O retorno para a África, unificando as casas tradicionais em busca da “pureza primitiva dos cortes africanas”, em detrimento e com a exclusão de práticas sincréticas, particularmente aquelas que envolvessen os chamados ‘caboclos’(assemelhada a uma das ‘linhas’ do que chamamos hoje de ‘Umbanda”).”

(Luiz Nicolau Parés -“Repensando a Nagôização do candomblé no século XIX”)

Sacaram? Não? Edison Carneiro e outros próceres de nossa negritude na década de 1930, estabeleceram a censura oficial de tudo que não se enquadrasse dentro do conceito estabelecido como sendo ‘pureza nagô’. Não. Vocês não leram errado. Este artifício oficialista, de acordo com os interesses das elites brancas da Bahia (e do Brasil) foi estabelecido como decisão formalizada nos anais do II Congresso Afro-Brasileiro de 1937.

Estaria aí um dos nós ideológicos do nosso sempre elitista Mov. Negro do Brasil que até hoje é ‘nagoista a mais não poder? Seria por isto que a defesa dos aspectos mais fakes e comprovadamente deletérios (ideologicamente falando, claro) do Candomblé tem sido sempre tão ferrenha quanto cega?

É.  A saia já puída e rota vai ficando cada vez mais justa. Vamos cuidar para que ela não rasgue bem no meio do salão.

E venha cá, meu rei: É lícito se supor então que um mito tão antigo e tão arraigado em nossa alma brazuca, é um atributo  muito questionável de nossa ainda incerta brasilidade. Se é mesmo assim, vamos combinar: Se há tanta discussão a respeito de nossa inefável negritude, só pode ser porque, evidentemente algumas respostas a esta candente questão ainda estão na África e, pelo menos nestes aspecto, brasileiros ‘da gema’ mesmo, ainda não somos de jeito nenhum.

E mais: Se a virulencia poderosa deste mito da ‘Supremacia Nagô’, como vimos, tem mesmo a sua gênese ligada, umbelicalmente ao colonialismo inglês (The Lagos-Salvador Conection, lembram-se?) , que tal se esmiuçá-lo considerando-o uma instituação de alcance muito mais abrangente do que o Brasil? Que tal considerar a possibilidade dele ter ‘contaminado’ TODA a nossa adorada Diáspora com a sua fake face pintada de negro para inglês ver?

Bem. Por enquanto é tudo que me arrisco a dizer. Fecho então a tampa desta série deixando vocês refletindo sobre as alentadas considerações de Luiz Nicolau Parés a seguir, que são para mim o golpe final, mortal, sem mesericórdia nesta desmascarada farsa da ‘Pureza’ ou da ‘Supremacia Nagô’.

Vade retro! Pé de pato mangalô três vêis! Chega de caô caô!

“…Como Ade Ajayi (1961) e John Peel (2000) têm argumentado de forma convincente, este nacionalismo (yoruba) teve suas raízes no movimento missionário e era essencialmente cristão (especialmente protestante). De fato, os primeiros mentores intelectuais da identidade «cultural» iorubá foram sacerdotes cristãos, muitos deles educados na Serra Leoa, mas na virada do século, em Lagos, este movimento foi realizado principalmente por jornalistas em uma campanha defendendo a africanidade ou pureza racial negra.

Como resultado, uma elite negra burguesa – incluindo muitos Aku, Nagô e retornados Lucumi da Serra Leoa, Brasil e Cuba, respectivamente – começou a reafirmar a sua dignidade de «raça-nação», cultivando a língua iorubá, adotando modos de vestir africanos, coletando conhecimento ancestral na forma de provérbios, contos e poesia, a compilação de narrativas históricas da tradição oral e «nem sequer começou a encontrar mérito em alguns aspectos da religião tradicional» (Peel 2000, p. 279) 10.

(Luiz Nicolau Parés –“Repensando a Nagôização do candomblé no século XIX”)

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Spírito Santo

27 de Agosto 2011 (64 anos de vida normal)

Animê Nagô e Vingança Bantu: A saga da ‘nagôization’ continua.


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Oiá e Iansã (entre os Nagôs), Sobô (jejes), Matamba (angolas), Nunvurucoma buva (congos), Bamburucema (bantos em geral. Divindade do Rio Oiá (Niger).

Legenda original da imagem (http://terreirodeumbanda.wordpress.com/2010/06/03/iansa/): Oiá e Iansã (entre os Nagôs), Sobô (jejes), Matamba (angolas), Nunvurucoma buva (congos), Bamburucema (bantos em geral. Divindade do Rio Oiá (Niger).

Pimenta – com dendê – nos olhos dos outros é refresco

Você sabe o que é Mangá, não sabe? São historias em quadrinhos japonesas que depois de alegrarem a infância de muita gente como filmetes de TV (‘Animês‘) nos anos 80, assumiram o caráter de mania de adolescentes Cult por filmes de arte – e quadrinhos – mais bem cuidados, a partir do anos 90. Mangá: estilo de desenho do japonês, pronto. Portanto Mangá e Animês não são um rito de uma seita. Animê é apenas cinema de animação, estiloso, mero entretenimento sadio.

Foi muito providencial. Um jovem intelectual negro da Bahia no facebook postou dias atrás um filme de animação denominado ‘IANSAN’. O interessante filme foi desancado, odiado, quase cuspido, severamente criticado pelo jovem por sua – segundo ele – iconoclastia anti-nagô (assista logo abaixo). Mas o filme – excelente por sinal – é apenas um Mangá pós moderno que conta com grande beleza plástica (e sem pudores moralistas  vãos) um drama urbano diretamente baseado numa lenda clássica do candomblé, que supostamente está na raiz do mito definidor do orixá Iansã segundo o panteão nagô:

A traição de Ogum por seu irmão Xangô, tendo como pivô Iansã.

“uma agressão aos Orixás, ao candomblé, ao povo negro colocar Oxóssi como estrupador e Iansã como uma vádia (sic), sem falar Ogum como um delinquente, um crime. Na primeira vez em que vi fiquei chocado com tamanho desrespeito. E o pior os Orixás se tornaram brancos e chineses (sic), que eles mesmo tenham piedade de quem fez esse filme DANTESCO.

Temos que provocar um grande debate. Me sinto mal, pois escrevo para crianças livros cuja temática é o candomblé com base nos PCNS e na lei 10639/2003, além de fazer consultória para a Secretária de Educação da Bahia, e ver a forma deletéria e vulgar que esse artista trata uma religião milenar que sustentou a alma e esperança do povo negro durante esses quintos anos de dominação.

Vejo o candomblé como uma força política contra-hegemonica na luta pela igualdade e pela liberdade e assistir esse filme nos faz ter a convicção como a cultura negra é desrespeitada e filipendiada (sic) pelos que dizem fazer aluzação (sic) a matriz siginificativa na colonização das almas desse país. Faz-se necessário repudiarmos tal incongruência.

Eu, vara curta, cutucando o jovem, também no facebook:

“…Desculpe a franqueza, mas você é que me preocupa.

O vídeo é uma surpreendente obra de arte. Belíssimo e muito bem realizado. Te agradeço por tê-lo compartilhado. Arte é isto aí. Reler, retrabalhar, resignificar. O adeptos do Candomblé deviam mesmo é se orgulhar dos mitos e lendas que constituem o conjunto de signos de sua crença terem inspirado um trabalho de tão alto padrão estético.

Aquilo lá não é religião. Muito menos é cultura negra. É cultura apenas. É simplesmente um filme. Aqueles lá não são orixás do Candomblé. A única coisa que os identifica assim são os nomes. O artista apenas se baseou numa lenda que, em sendo lenda é também pura ficção.

Alguém inventou os mitos do Candomblé também, esta coisa de Oxóssi ‘ser’ isto, Xangô ‘ser’ aquilo, Iansã ser ‘assim’, alí pelos meados do século 19. Ao inventar devem ter desagradado outras pessoas, dos quais seus mitos foram extraídos para serem resignificados. Faz parte da invenção das religiões.

Creia-se ou não se creia nele, o Candomblé também não passa de pura invenção. Ficção religiosa. Dogmas.

O que me preocupa mesmo é saber que você, pensando assim de forma tão proselitista, escreve para crianças e presta assessoria para uma secretaria de educação disseminando uma visão tão fechada sobre cultura negra.

Você trabalha com fundamentos ideológicos muito problemáticos: Primeiro é esta sua crença na ‘supremacia nagô’, acreditando tão piamente na hegemonia do Candomblé como matriz cultural de todos os negros do Brasil, o que é um equívoco grave em cujo debate tem muita gente empenhada exatamente agora. Sabe porque? Porque corremos o risco de perder uma grande chance de levantar e contar a nossa história real, por nós mesmos, aferrados a esta versão tão…branca dos fatos.

O segundo é este dogmatismo religioso, esta incompreensão do que seja cultura e liberdade de expressão de verdade, clamando para que se debata – e, quiçá até se censure – uma obra de arte apenas por razões rasamente morais. Um perigo isto aí! O país anda cheio de gente querendo censurar as coisas, numa tendencia ao obscurantismo muito preocupante.

Me arrepio também quando percebo que o ensejo tão nobre da lei 10639/2003 em de lançar luz sobre a cultura real do negro do Brasil pode vir a servir apenas para legitimar mistificações antigas, gerando material didático reiterativo de farsas históricas (como a ‘Supremacia Nagô’ por exemplo) e educadores tão aferrados ao pior que o pensamento brasileiro e sua academia oficializou sobre o negro e sua cultura…”

O mais contraditório é que o jovem intelectual baiano, supostamente descendente de gente nagô como se diz, mais abominou no filme foi exatamente o que os inventores do Candomblé fizeram com as crenças dos outros no século 19.

Pois vejam só que incrível: O  animê -nagô (a lenda negra representada por personagens branco-amarelos – nipônicos de olhos arregalados) cai como uma luva  neste nosso papo sobre as mumunhas e idiossincrasias do tal mito da ‘Supremacia Nagô’.

Quem com ferro fere…

É que gastamos muita lábia aqui nesta série– e mais ainda gastaremos – tentando provar que, não só a tal ‘supremacia nagô’ é uma coisa urdida, inventada não muito inocentemente, como também o Candomblé, sistema de mitos onde ela, a ‘nagôcracia’ se assenta e sustenta, não tem lá esta pureza toda que alega ter, sendo na verdade – tanto quanto o filme da Iansan, uma  espécie de resignificação de ritos e cultos de outras origens e de outras etnias que não os yoruba, resultando numa seita voltada prioritariamente para dar sustentação à ascensão social de um pequeno grupo de negros em detrimento de todos os outros.

E é aí que mora o perigo 

Resumindo: Pode haver tudo, mas pureza é o que não há, de jeito nenhum no Candomblé. Nem étnica nem estética há e – o tal perigo visto olho no olho –  muito menos uma ética socialmente elogiável.

Sei que escandalizo os fiéis de ambos os lados – e quem me conhece sabe que acho que escandalizar só um pouquinho, engorda e faz crescer, tem lá as suas qualidades como meio de estimular debates -, mas do ponto de vista de sua criação (ou fundação, melhor dizendo) me referindo exclusivamente ao aspecto religioso da seita, o Candomblé não tem diferença alguma da famigerada Igreja Universal do Reino de Deus ou de qualquer outra seita hegemonicamente predestinada a servir para manter as coisas em sociedade, exatamente como estão. Religiões ‘domadas’, ‘autorizadas’, diria mais francamente.

Calma, gente. Eu explico.

Ora, se a IURD do bispo Macedo me aparece como uma seita fundada para extorquir dinheiro dos fiéis, eu a abomino, veementemente. Se o Candomblé me aparece agora, nos textos abalizados que tenho lido como uma seita voltada, originalmente para dividir negros, cultural e religiosamente em ‘puros’ e ‘impuros’, mantendo os ‘outros’ negros à margem das vantagens advindas da relação dos líderes da seita com a classe dominante (branca) eu a abomino também, mais veementemente ainda porque sou negro. Esta circunstancia me ofende e constrange.

Aliás, e a propósito, quem não sabe fique sabendo que o fundador da IURD Edir Macedo é egresso da Umbanda e do Candomblé. Em meio a uma conversa sobre isto, um motorista de táxi me confidenciou certa vez que a irmã de Macedo é Mãe de Santo de Candomblé até hoje. Não é uma lenda urbana. É fácil de encontrar nas aparências de um culto evangélico da IURD diversos ritos pirateados da Umbanda, no ensejo de ‘roubar’ fiéis desta e do Candomblé também. As seções de Descarrego são só um dos exemplos.

Acreditem se quiserem. Vocês podem até concordar com a tática, achar que a criação de uma classe média negra vivendo acima de um mar de milhões e milhões de negros pobres ou miseráveis, é uma lei bacana da natureza. Eu não acho justo.

Você não precisa ser um socialista libertário, mas convenhamos que a função social da invenção da seita do Candomblé mais evidente, foi servir de anteparo entre os interesses da maioria dos negros deste país, escolhidos para serem excluídos, preteridos e postos ‘no seu lugar’ (e nem importa mais se estes preteridos são majoritariamente bantu ou não) e os interesses da classe dominante racista que, como todo mundo sabe, é branca.

Ora, vocês viram num post anterior: Até com o tráfico de escravos em Lagos e Salvador, esta elite ligada à construção do Candomblé esteve envolvida nos últimos anos da escravidão. Ela, esta inusitada aristocracia negra, africana, enriqueceu assim.

(Se você acha isto tolerável, perdoável não tenho realmente mais nada a lhe dizer. Você nem precisa continuar a ler este post. Pode parar por aqui).

O fato é que há muitos elementos de prova de que, no aspecto cultural se construiu em torno desta seita tornada artificialmente hegemônica, supremacista enfim, uma versão absolutamente inverídica da Cultura Negra real – e da História também – do Brasil. Esta quantidade formidável de mistificações interesseiras acabou por ser, por razões obvias, corroborada por diversas formas de legitimação, desde as acadêmicas e institucionais até as resignificações perpetradas por diversos agentes culturais e/ou religiosos, a maioria por pura ignorância, fruto do fundamentalismo religioso característico deste tipo de seita.

A quantidade de aspectos a necessitar de urgente revisão por terem se tornado farsas cristalizadas, oficializadas, é enorme. Além dos riscos ideológicos, o impacto destes conhecimentos equivocados tornados ‘cultura oficial’ do negro do Brasil, se transformando em arcabouço de todas as sistematizações, ações e intenções futuras da lei 10639/2003, por exemplo pode trazer contornos dramáticos para esta nossa situação.

(E se querem saber, eu acho chato para caramba ter que explicar isto, exatamente para as ‘vítimas’. Crença religiosa à parte, todos os envolvidos diretamente com a questão, se fossem realmente cultos, já deviam saber da necessidade urgente de se rever isto aí. É um caso típico em que a versão não corresponde, em nada aos fatos.)

Ai a inefável pureza religiosa. Quanta hipocrisia lançada em seu santo nome!

_”Eparrei, Iansã!”

Comida pouca, meu ebó primeiro.

Na invenção do Candomblé o propósito de criar uma elite negra.

Falando mais sério ainda agora:

Espero que a esta altura do debate – este já é, sei lá, o quinto post que escrevo sobre este assunto- já esteja claro que não tenho a menor intenção de ‘denegrir’ os preceitos sagrados da seita do Candomblé. E muito menos de religiões evangélicas como a IURD.

Não tenho o menor interesse em colocar os méritos das religiões em questão.  Sejam elas quais forem. Coloco em questão sim o caráter ético, ideológico do papel social desempenhado pelas religiões como um todo, focando o Candomblé em especial.

Aliás, as religiões em geral só me interessam mesmo do ponto de vista filosófico, do quanto de valores humanitários, do conjunto de saberes que esta ou aquela doutrina contém. Preocupa-me a liberdade do homem, pouco me importa se ele é branco ou preto, ou mesmo amarelo de olhos esbugalhados como os bonequinhos do tal Animê.

Pensando bem acho por isto mesmo que todas as religiões se parecem em seu fundamentalismo necessariamente dogmático, sendo criações do mesmo arquetípico pensamento humano mais ou menos ancestral, como se todas elas viessem do mesmo pequeno grupo de homens das cavernas, temerosos do mistério insondável para eles  que eram os fenômenos majestosos desta nossa gigantesca Terra Mater.

(E por acaso, cabe frisar, muito provavelmente este homem das cavernas era um negão)

Ora, quem não sabe que, do ponto de vista filosófico para qualquer religião as coisas são o que são e está acabado? Quem não sabe que nelas o crente acredita e pronto, não lhe cabendo questionar ou discutir o que quer que seja?

Inútil pensar, portanto em hierarquizar religiões, elegendo umas ‘superiores’ às outras, tentar agregar supostos valores civilizatórios ‘mais’ elevados numa religião em detrimento dos valores das outras. Ora, isto é papo de etnocentrista (racista) europeu do século 19. E se liguem: Isto sempre tem no fundo no fundo intenções deletérias, nem sempre obscuras.

Então, batendo de frente e tentando quebrar o mito desta suposta ‘pureza nagô’, vamos lendo então estes dados abaixo.

A influência do mundo muçulmano no Candomblé e na Umbanda

Autoria de alguém do “Templo Espiritual Caboclo Pantera Negra”. E não me caia na asneira de dizer que isto é uma… retaliação umbandista.

“Bem, sabemos que a cultura africana foi fortemente influenciada pelos muçulmanos. Há diversas obras, principalmente a de Roger Bastide (in o Candomblé da Bahia) e José Beniste (in Orun Aiye), que afirmam que o sistema oracular de Ifá advém dos muçulmanos.

Há autores que refutam essa idéia (Wande Abimbola, p. ex.) com os quais concordo, pois acredito que houve, sim, uma simbiose entre formas oraculares: o Darb ar-Raml (árabe) e o Opele (nagô), unindo as duas formas de geomancia. Muitos costumes muçulmanos passarem a fazer parte do culto afro-brasileiro. O uso do turbante por homens e mulheres é um dos mais visíveis.

Foi introduzido pelos muçulmanos na África, que desconheciam essa indumentária. Esse costume acabou sendo trazido para o Brasil. O uso da roupa branca e a sexta-feira ser sagrada (consagrada a Oxalá) foram outros costumes muçulmanos trazidos ao Brasil.

Para os muçulmanos a sexta-feira é um dia para se rezar em congregação, assim como o sábado para os judeus e o domingo para os cristãos. Infelizmente o Brasil é uma país cujos habitantes não apreciam muito o estudo da história. Pouco se fala sobre os malês (negros muçulmanos escravizados) e a revolução que realizaram na Bahia. Não se fala sobre a influência que os cultos afro-brasileiros sofreram deles. O culto Omolokô, por exemplo, advém, essencialmente dos malês. Assumano (muçulmano) Sau Adio (um malê) faz parte da linhagem desse culto.

 “Raízes da África.”

(Aniceto do Império Serrano)

“Assumano, Alabá. Abaca, Tio Sani

E Abedé me batizaram na lei de mussurumi

Como vêem tenho o corpo cruzado e fechado

Carrego exé na língua, não morro envenenado

Viajei semana e meia daqui pro Rio Jordão

Lugar em que fui batizado com uma vela em cada mão

Cinco macota d’Angola me prepararam de berço

Enquanto Hilário Jovino me cruzou com sete terços

Mesmo assim, me considero um insigne mirim

Filho de cuemba não cai Ogum, Xangõ, Alafim.”

————–

Gobineau, que na década de 1860 era o ministro da França no Brasil, escreveu um relatório político para o governo francês, onde diz que todos os africanos muçulmanos eram minas, denominação que no Rio de Janeiro e outras regiões do sul do Brasil significava qualquer africano que não fosse bantu ou qualquer um que tivesse embarcado entre a costa do Senegal e os Camarões.

Ele também menciona que um bom número dos africanos muçulmanos de Salvador, aos se tornarem livres, regressavam à Africa, mas que outros preferiam emigrar para o Rio de Janeiro.

Quarenta anos mais tarde, João do Rio confirmaria a informação de Gobineau: muitos dos muçulmanos do Rio de Janeiro provinham da Bahia. É possível que quisessem não apenas ficar longe de seus antigos donos, mas também escapar de constrangimentos pessoais, da desconfiança e das perseguições que se seguiram às revoltas das primeiras quatro décadas do século XIX.

A historiadora Andréa Nascimento afirma que “na cidade do Rio de Janeiro, alguns cultos de origem afro-brasileira eram conhecidos popularmente pelo nome de Macumba, e os grandes responsáveis pelo culto da Macumba Carioca eram os negros muçulmanos, hauças e malês que se misturavam nos candomblés da cidade…

A questão dos jinn (gênios), o uso de fórmulas mágicas de cura, os riscos nas tabuinhas, a prática da astrologia e da numerologia, o uso de talismãs etc. são frutos dessa grande miscigenação que houve no Brasil. Isso também aconteceu e acontece na África.”

Pureza nagô? Já sei: Vão dizer agora que o islamismo afinal é uma religião, ‘puramente’ negro africana (e isto não é bem assim) de nível elevado e que a influencia dela nesta misturinha do Candomblé seria até honrosa. Tá. Sei, sei…Seria isto mesmo? Hum…Como assim? E as outras influencias que guardei na manga? Que saber mais sobre isto ou já me riscou do seu caderninho?

_Beijo do magro. Daqui a pouco a gente volta!

Spírito Santo

Agosto 2011

‘Spirito Santo ‘ponto com’: É Nóis! Balanço de 4 anos de blog


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Vi lá no motor de busca do meu blog:

Quem diria! Quatro anos de blog. A série sobre o mito da ‘Supremacia Nagô”, só como exemplo, está batendo a média de 120 acessos dia. Para um bloguinho assim como o meu isto é best seller, mermão!

Mais de 3.000 acessos por mês é uma audiência bem razoável para um escriba de rede. Sei que tem blogs aí com milhões de acessos, mas e daí? Meu sitiozinho – ou o “meu lote”, como diz o Nei Lopes – está dando uns bons cestos de jabuticaba.

Uhúuu!

Tirando os clicks casuais, acidentais, estes de adolescentes espinhentos procurando ‘bundas de negras gostosas’ (acreditem, tenho muitos clicks destes nas minhas listas diárias) é um número bem bacana de gente ligada nos assuntos que abordo (basicamente, cultura negra, musica e política brasileira). No geral se esta tem sido a média e leitores-dia, independentemente do tema da matéria, percebe-se que tópicos ligados à cultura negra do Brasil e da África – principalmente a cultura da Diáspora-  estão despertando bastante interesse.

A nota estranha é que, apesar dos apelos e a mobilização de leitores lançados numa verve propositalmente instigadora, provocativa, visando sempre estimular o debate, o feedback de leitores, tem sido pífio. Quase ninguém se dispõe a debater coisíssima alguma – quando o papo é sério – e os poucos debatedores que se animam a interagir, geralmente comparecem apenas com comentários elogiosos e estimulantes. Fica sempre a impressão de estarmos falando sempre para os mesmos interessados, o que já me inspirou a criação de vários grupos específicos de facebook.

Tem jeito não. Na rede como na vida, as pessoas se organizam em tribos, panelinhas, igrejinhas bem restritas.

Um segredo revelado: Este blog foi criado em 17/02/2007 motivado, principalmente por uma desagradável constatação pessoal: Quase não havia na internet conteúdos sérios sobre cultura negra, tema pelo qual sou apaixonado desde bem novo.

Ocorria que as perguntas que eu formulava em português no Google, sobre estes assuntos, quase sempre só me retornavam material de baixíssima qualidade e dois tipos de tratamento: Posts e imagens de chavões sobre o tema – não raro com viés racista, escatológico ou excessivamente calcado em religião – ou posts bem intencionados, porém pobres de  fundamentação, baseados na pura reiteração de mistificações as mais diversas.

Comecei escrevendo na internet no site Observatório da Imprensa. Parei de colaborar lá depois de uma pauta que propus, criticando acidamente as estrepolias corruptas do PT às vésperas da eleição do segundo mandato do Lula, ter sido, meio que censurada (sério! Era impensável, considerado maluquice falar apontar estas coisas naquele tempo ainda de ilusão petista, hoje com casa quase caída …‘avisar a gente avisou’, digo hoje saboreando o chiste do prato frio).

Infelizmente esta censura politicamente correta existe ainda hoje por aí, em vários sites jornalísticos e até mesmo numa rede de blogueiros ‘ baba-ovo’ do PT bem rançosos (Ih!…já fui muito chingado por esta gente), mesmo com as evidencias de corrupção do PT e de seus aliados em geral pululando todo dia por aí.

Bem, mas isto é outra história.

Do Observatório da Imprensa  passei para o interessantíssimo e estimulante site Overmundo, no qual continuei nesta ‘missão’ de inserir conteúdos sobre cultura negra e racismo na rede. O Overmundo para mim foi uma escola. Nem foi uma convivência harmoniosa, mas foi a base deste meu blog aqui, já que foi lá que pude exercitar uma maneira de escrever mais coloquial, ousando aqui e ali alguma diatribe, na busca de um formato mais adequado à internet.

Lá no Overmundo a participação dos leitores e colaboradores, o caráter assumido de site colaborativo como se diz, era exercido de forma radical e o estímulo à pesquisa de linguagem era realmente formidável de se fazer, embora certos temas, como racismo por exemplo fossem pontos nevrálgicos, tratados meio como tabu. Os colaboradores (brancos e classe média em sua esmagadora maioria, como era comum na internet da época por razões socio economicas já sabidas), sofriam de certa dificuldade para lidar com temas menos …politicamente corretos.

Tinham uma propensão renitente para rejeitar, agressivamente as denúncias ou mesmo a simples menção de que havia sim o racismo no Brasil – e a conseqüente ‘censura’ a posts que tocavam fundo neste assunto era sempre sutil. Isto nunca podia ser exatamente explicitado e denunciado, mas era sempre permanente e muito incômodo.

Havia também um problema no site (comum a quase todos os sites colaborativos da época) que era uma espécie  de dogmatismo editorial que balizava e monitorada radicalmente a exigência expressa de que os colaboradores só falassem, no caso do Overmundo , de temas referentes á cultura ‘do Brasil’, o que num veículo tão francamente planetário como a Internet, sempre me pareceu um anacronismo estranho, quase xenófobo. Sugeriam nas normas de conduta do site que esta era uma exigencia contratual, já que  site havia sido bancado pelo MinC, mas parecia ser mesmo uma intenção algo ingênua de criar um mundinho nacionalista novo, porém com porteira.

Meus posts avançando sobre as sempre citadas, mas nunca aprofundadas relações culturais entre África e Brasil, por exemplo, eram um pouco mal vistos por seu suposto ‘estrangerismo‘  panafricanista. Sempre afirmava que era impossível falar de cultura negra do Brasil sem falar em África, mas acho que a justificativa nunca foi exatamente compreendida, embora se falasse muito de cultura norte americana por lá.

Com frequencia eu era sutilmente ‘admoestado’ pelos moderadores por conta destes ‘deslizesinternacionalistas, além de o ser também por conta questões ligadas à direito de imagem, uma área que está hoje bem mais relaxada do que era na época, quando havia um medo pânico do site ser processado por ferir os direitos autorais de algum fotógrafo mais tremendão.

Esta foi, aliás, a principal razão de ter decidido criar uma página pessoal, idéia que os moderadores mais radicais do Overmundo me sugeriam, meio a título de pirraça tipo, ‘a porta de saída é a serventia da casa’.  O Overmundo, contudo, vamos combinar, foi mesmo a minha mais que excelente escola de escrevinhador da internet. No dia em que percebi que tinha mais leitores na minha página pessoal do que no Overmundo, pedi o meu boné, embora volte lá, confesso que saudoso, de vez em quando.

No processo, de 2007 até aqui, à medida que os temas chave foram sendo identificados, passando a usar o método de fazer perguntas ao Google em inglês ou outra língua qualquer, os conteúdos começaram a aparecer, abrindo-se um mundo de boas fontes sobre o tema no Brasil e denotando uma verdade constrangedora: Havia mesmo algum racismo ‘de conteúdos’ na internet do Brasil. Certos temas não apareciam porque ninguém os postava e tinham que ser  inseridos na rede para passarem a estar disponíveis nas buscas de todo mundo.

E desleixo, incúria intelectual, claro, já que na profusão de teses de mestrado ou textos mais pretensiosos que estavam na rede, nos trabalhos de algum fôlego investigativo que encontrávamos, a mesma característica rasa dos conteúdos predominava. Um círculo vicioso, pois, já que sem fontes confiáveis como se poderia gerar conteúdo de qualidade?

Então, antes de qualquer coisa uma satisfação: Os conteúdos sobre cultura negra estão aparecendo muito mais na internet hoje. São ainda recorrentemente baseados em chavões e mistificação muito questionáveis, mas estão aí, para serem lidos e vistos e podem ser debatidos e questionados. Ao clicar uma pergunta no Google, mesmo em portugues, já se tem já bastante material sobre o tema ‘Cultura Negra’ ( aliás gosto muito de saber que aparecem nestas pesquisas muito material que o blogeiro aqui postou, principalmente imagens já que, surpreendentemente, percebemos que havia também– e ainda há – uma espécie de racismo imagético na internet brasileira na qual imagens sobre coisas referentes á cultura negra, à negritude, tanto daqui quanto da África eram muito rarefeitas).

Uhúuu 2!

O chato é quanto na pista de um detalhe qualquer sobre um tema, descubro que a única fonte existente sou eu mesmo, o que dá uma sensação bem esquisita de estar rodando feito um peru numa roda onde acabarei assado com batatas. Mas isto passa.

Gosto e me sinto recompensado de não precisar mais ter que garimpar tantos temas-tabu, para alimentar a restritíssima rede de conteúdos sobre este tema. Hoje o debate franco, bem profundo às vezes pode predominar, embora as pessoas tenham ainda uma relação muito passiva com o conhecimento que circula na internet. O tipo de interrelação que predomina ainda é aquele muito raso, eternizado pelo Orkut e baseado na mera rede de fofocas sobre amenidades. Poucos se deram conta, na verdade de que uma nova maneira de se escrever e ler textos, participar da geração de conteúdos está surgindo na Internet e que esta grande mãe-mídia tem uma dinâmica diferente das outras mídias do passado, como estas novas maneiras de se escrever textos e espalhar conhecimento, notícias além de bons…ou maus boatos.

Isto de uma nova mídia exigir nova escrita é mais ou menos óbvio, mas há também o fator da interatividade, do feedback que no caso da Internet é a novidade mais fundamental. A rapidez com que a relação entre o que se escreve e a reação dos leitores foi modificada radicalmente. Posso citar como exemplo o tamanho dos textos que já vão podendo ser mais densos e, no meu caso foram aumentando de tamanho lentamente, a medida em que eu ia percebendo que as pessoas podiam e qeriam ler textos maiores sim, desde que a linguagem fosse de algum modo dinâmica e ágil e o tema fosse novo e interessante.

Tem- se escrito muitos textos hoje em dia a partir de alentados comentários de leitores que levam os debates de certos assuntos muito mais longe dos que os suportes de mídias de texto mais convencionais, livros, revistas, etc. levavam. O tom coloquial, a criação de maneirismos de estilo, o uso da mescla com outras linguagens (como a música e o vídeo) num mesmo post, fazendo com que aquela argumentação pesada e pomposa, que era típica do linguajar academico e que predominava, quando os temas eram mais ‘sérios’, ‘cabeça’, passasse a ser banida da comunicação na rede, a rapidez do feedback virando a chave desta nova forma de distribuir conhecimento, tudo isto são sinais positivos de uma modernidade bem aí à mão, ao nosso inteiro dispor.

A este propósito, levantando algumas boas bolas com as pesquisas que faço (usando, aliás, quase que totalmente ferramentas de internet) tenho conseguido desenvolver aqui bons debates até na área acadêmica, carente mais que todas as áreas de conhecimento no Brasil de mais insight e ‘simancol‘, aferrada que está ao anacronismo aristocrático arrogante e lerdo-militante que é próprio do meio acadêmico mais tradicional.

Não conto não, mas algumas teses universitárias já se articularam lá com certos textos do bloguinho do leigo tio-kota aqui e andam sendo debatidas até em bancas de mestrado por aí. Vai entender!

É provável que com o adensamento das redes sociais como canais múltiplos, filtros de personalização de conteúdos, sintonia fina de anseios os mais inusitados de grupos muito diversos e originais, muito mais coisa possa ser feita a este respeito. Propondo novas formas de partilhar conhecimento, a democracia relativa gozada por todos nós na Internet hoje – pelo menos por enquanto – permite que, praticamente qualquer hiato, qualquer dúvida ou baixa taxa de existencia de conteúdos – como era o caso dos temas sobre cultura negra que mencionei no início – possa ser rapidamente sanada pela ação de um grupo organizado de escritores-leitores bem focados e preparados para abastecer a rede do que bem entender.

Então é isto aí. O bloguinho do tio-kota Spírito Santo acha que nestes 4 anos contribuiu bastante – e continuará contribuindo – para desatar nós e inserir gomos novos nesta grande rede das mãos dadas de todos nós .

Até o próximo post, galera amiga.

Spírito Santo

Agosto 2011

The Racist Scourge – O ‘Flagelo do Racismo’ saiu no New York Times


De brancos para brancos. O tema quase não sai por aqui, mas que dane: saiu no New York Times

por ROGER COHEN – Agosto 2011

(Roger Cohen , é colunista do ‘New Yok Times’)

Pouco depois que eu nasci meu pai se mudou da Grã-Bretanha de volta à sua terra natal, a África do Sul para se tornar reitor de uma escola de medicina para estudantes negros na Universidade de Witwatersrand. Os negros eram obrigados a viver apartados dos brancos, principal razão para meu pai ter deixado Joanesburgo pela primeira vez

Houve alguns problemas durante a sua estada. Ele dizia aos alunos que estava entregando a eles a responsabilidade pelos seus próprios assuntos. O que ajudou a resolver as coisas no campus. Fora do campus a história era diferente. Muito do tempo do meu pai era gasto com idas a delegacias de polícia para negociar a soltura de estudantes negros detidos sem motivo por policiais brancos estúpidos.

Uma vez ele chegou a ouvir um policial afrikaner zombar de uma jovem negra que estava prestes a ser diplomada em medicina: “Você pensa que é uma estudante inteligente, mas na verdade não passa de uma Kaffir (‘Cafre’),  insulto hoje passível de punição legal na África do Sul.

O racismo é o recurso da estupidez. Há muita gente estúpida no mundo. O apartheid sobreviveu durante quase meio século, um sistema baseado na visão de que os negros só são bons para trabalhar como cortadores de lenha ou para carregar água. Ele teve paralelo nos EUA, onde as leis Jim Crow vigoraram por quase um século.

Aquele foi o primeiro ano da minha vida com os estudantes negros Witwatersrand. Meu pai retornou com a família para a Inglaterra, mas regularmente voltávamos à África do Sul. Me lembro dos jacarandás, dos horizontes distantes, dos firmes pêssegos amarelados. A beleza que era abundante, mas uma sombra estava sempre à espreita. Foi assim que eu absorvi o racismo, como uma fisgada, um primeiro indício de um micróbio perigoso no sangue.

Essas coisas é que formam a gente. Os judeus na África do Sul tendiam a ver os negros como um grande anteparo contra sua própria perseguição, embora estivessem mais engajados do que a maioria na tentativa de quebrar o sistema. É um pensamento grotesco este, mas se você está ocupado perseguindo dezenas de milhões de negros que não tem muito tempo de sobra para perseguir dezenas de milhares de judeus. Este pensamento ocorreu aos judeus, cujas famílias (muitos de origem lituana), havia fugido de progroms europeus e assim evitado as valas para as quais as brigadas de extermínio de Hitler os teria enviado.

Como um sul-Africano judeu, ver os negros sem passes sendo agrupados na traseira de vans da polícia foi desconcertante. Mas pelo menos isto não era assassinato em massa, pensava. Você tenta desviar os olhos.

O racismo é um jogo mental. Faz as vítimas se sentirem gratas por pequenas misericórdias até a hora em se levantam com fúria incontrolável.

Eu fui iniciado cedo no veneno do racismo na África do Sul. Os Michels, minha família materna, viveu numa propriedade que chamávamos, meio brincando de ‘Château Michel’. Da praia para a piscina para churrasco a vida era uma amplidão só, pontuada pela  ressaca da inquietação.

Eu sentia a hostilidade de uma empregada negra como se fosse uma criança que ela ameaçava deixar cair, de propósito, de seus braços. Perguntava-me porque os negros nadavam num porto sujo enquanto as praias para os brancos se estendiam por milhas. Quando adolescente evitava olhares ilícitos porque flertar era um crime. Ouvia  justificativas esfarrapadas, intolerância vestida de teoria científica.

Anos depois, em Lagos, observando Fela Kuti numa discoteca, onde eu era o único branco entre mil negros, eu entendi a palavra “minoria“. Uma boa coisa da vida foi  eu ter conquistado, graças ao jornalismo, a capacidade de cruzar fronteiras: do racismo e da intolerância, por exemplo. Os negros na África do Sul não eram sequer uma minoria. Eles eram a maioria encurralada na escravidão.

De volta à Inglaterra as coisas foram indo bem. Fui chamado de “yid” (‘judeu’) por um tempo na escola. Procurei pela palavra ‘judeu’ no Dicionário de Oxford da época:

Definição 1: Uma pessoa de ascendência hebraica, uma pessoa cuja religião é o judaísmo.
Definição 2: Uma pessoa que se comporta de maneira anteriormente atribuída aos judeus: pessoa avarenta ou chantagista.

E por aí vai.

Nada faz meu sangue ferver mais do que o racismo. Eu tenho um monte de e-mails irritados de leitores de uma recente coluna que escrevi sobre o assassino em massa na Noruega e sua simpatia pela islamofobia racista. “Muçulmanos não são uma raça”, afirmavam os comentários.

Engraçado, várias notas raivosas eram de judeus, que pareciam ter esquecido que mesmo não sendo uma raça, mas uma religião não escaparam da perseguição racista: Talvez as brigadas de extermínio tenham se perdido numa confusão semântica na hora de abrir fogo. Talvez a multidão de futebol da Malásia, que vaiou Yossi Benayoun do Chelsea, um jogador  judeu israelense, não fosse realmente racista. Iluda-se.

O ódio aos muçulmanos na Europa e nos Estados Unidos é uma indústria política crescente. É odioso, perigoso e racista. Graças ao minha colega Andrea Elliott, agora sabemos não passou de uma orquestração bem sucedida a campanha contra a Shariah (lei islâmica) nos Estados Unidos, liderada por um judeu hassídico chamado David Yerushalmi, que sustenta que “a maioria das diferenças fundamentais entre as raças são genéticas”. Os direitistas da Europa que usam a retórica anti-muçulmana são verdadeiros herdeiros daquelas horas mais sombrias do Continente.

Fico feliz de numa idade em que já entendia as coisas, meu pai ter me falado sobre um estúpido policial branco, com poder para dizer a um jovem negra inteligente e com futuro promissor que ela não passava “de uma Kaffir.”

As coisas no mundo mudam, mas  a estupidez humana não.

(Tradução Spírito Santo+Google translator)

Diaspora captive. The Lagos-Salvador Conection


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Família negra brasileira rica em Lagos, no fim do século 19. Nos pés descalços – e tensos – da menina ao lado a evidencia incômoda e constrangedora: Ela é uma escrava de estimação da família.

O Eixo da ‘pureza nagô’ é preto & branco e transatlântico

“Rasgando a saia justa – Post#05”

(Leia o fundamental post anterior neste link)

Recomeço frisando que em certos detalhes estas últimas opiniões aqui defendidas acerca do Candomblé no século 19, não são originalmente minhas. Como disse anteriormente elas são opiniões extraídas de textos do professor da Universidade de Michigan Luiz Nicolau Parés.

Afinal, ando comentando as ditas ideias assim animadamente por que concordo, quase piamente com elas que, inusitadamente acabaram sendo muito idênticas ao que eu ando ruminando meio intuitivamente por aí.

Friso também então que no post anterior me ative apenas às implicações sociais e políticas do Candomblé no momento de sua invenção no século 19. Cito, portanto e só de passagem o momento da gênese da seita. Não entro ainda em sua seara propriamente cultural, na análise das características estético filosóficas do culto propriamente ditas. Na verdade nem sei se entrarei neste cipoal de conceitos antropológicos por inapetência e falta absoluta de aptidão para enveredar no intricado religiosismo contudo eles.

Neste aspecto, quando – e se – eu entrar mesmo na questão, o que predominará com certeza, será o questionamento e o aprofundamento do conceito ‘pureza=africanidade’ atribuído ao Candomblé, atribuição que julgo completamente impertinente e capciosa. A

A observação feita por  estudiosos mais argutos, de que a assimilação, a submissão consensual desta elite negra ao pensamento e aos modos de ser e viver dos burgueses brancos da época, precisaria estar visível para ser crível, procede.

Só que, paradoxalmente ela está visível sim, sempre esteve – menos para nós – e aí é que está o nosso grande problema: a ignorância sobre o assunto grassa, de forma as vezes deliberada.

Muitos se mostraram incrédulos diante da afirmação baseada, diretamente em Parés – de que uma elite negra de modos de ser assumidamente europeus pode sim,  se exprimir por outro lado com traços culturais ‘africanos’ – pelo menos a nível das aparências isto é perfeitamente possível. Ao que tudo leva a crer, este é o caso do Candomblé e de outras seitas e religiões “traducionais”, nas áreas dominadas pelo colonialismo convencional

Ora, estas coisas não acontecem de forma assim tão simples e direta. Apenas de leve, posso lembrar que a analogia entre Maçonaria e Candomblé, novamente se impõe procedente:

Nas aparências esta europeíssima seita dos Maçons exibe valores estéticos bem exóticos e nada eurocêntricos, baseados em valores proto cristianistas, árabe israelitas, marcados por esoterismos bem diversos dos ritos clássicos do cristiddanismo europeu mais convencional.

Ou seja, há tanto no Candomblé quanto em qualquer outra seita religiosa do tipo, digamos… sócio corporativista (como é o caso da Maçonaria), um jogo de aparências, uma pompa e várias circunstancias,  servindo como protocolo legitimador de sua…’pureza‘ doutrinária.

Tenho aqui comigo bem fresquinhas uma série de fotos desta elite negra no início do século 20, todas elas tiradas em Lagos entre o fim do século 19 e o início do 20 (publiquei uma delas no post anterior) e vou postar todas aqui, uma hora destas. Pois vejam lá: Os personagens retratados são cópias mais do que fiéis dos ‘sinhôzinhos‘ brancos que subjugavam o resto da negrada não rica e não nagô.

Estes sinais de assimilação estão todos lá e são – pasmem! – pra lá de evidentes. Esta negrada fina, publicamente em suas relações mais mundanas estava sim, perfeitamente integrada aos maneirismos da elite branca (no caso de Lagos, à elite inglesa).

Muitos deles nem adeptos do Candomblé seriam, posto que o catolicismo era muito mais forte entre eles (tanto quanto entre a nobreza bakongo-angolana do século 16), como referencia, por ser um valor ‘branco’ por excelência, até como atestado de assimilação.

Talvez a maioria fosse mesmo muito mais católica do que ‘candomblecista‘ (embora isto não diminua a importância dos terreiros de Candomblé nem a atuação ‘diplomática’ de ‘pais e ‘mães de santo’, no processo, como agentes desta conexão transatlântica)

Lagos-Salvador: The ‘Nagô’ Conection

A propósito – tentando esclarecer mais ainda este aspecto, preciso frisar que a organização por um grupo social específico, de uma seita religiosa, com propósitos, além de religiosos ou políticos, com o fim de se emancipar socialmente – mesmo em seu âmbito exclusivo (ou endogamicamente como diria Parés) como os ‘nagôs‘ de Lagos e Salvador fizeram, não é um ato indigno, de modo algum. É de uma perspicácia política elogiável sim. Admirável até.

O que se está apontando aqui, criticamente são os aspectos deletérios da ética, dos meios que estes ‘nagôs‘ teriam utilizado para atingir seus propósitos de hegemonia social, em detrimento dos demais negros que permaneciam escravos.

Estamos falando enfim do aspecto contraditório desta doutrina – baseada assim, tão evidentemente em fundamentos ideológicos questionáveis – ser até hoje reconhecida como meritória gozando deste status recorrente de ‘ideologia oficial  dos negros’ numa sociedade ainda tão racista como é o Brasil.

Afinal esta ideologia serve para que?

O buraco deste assunto. É bem mais em baixo. A cultura negra ‘real’ do Brasil (e por favor, não pulem as aspas) está toda calcada numa relação legítima – do ponto de vista cultural – entre valores africanos (que não são só ‘negros’, porque antes de mais nada são humanos) e europeus (que, do mesmo modo não são apenas ‘brancos’, quando entendidos como cultura de gente comum). Não há dicotomia possível nesta história. Só se for como farsa.

Observem que se formos analisar, em profundidade esta alegada ‘pureza nagô’, esmiuçando à lupa as características alegadamente ‘puras’ ou ‘originais’, depois de nos livrarmos das inevitáveis influencias de outras culturas que, fatalmente estarão presentes no caldo e serão muitas (uma pitadinha de catolicismo aqui outra de islamismo ali, só para ficarmos no ramerrão) o que sobrará serão ritos ancestrais animistas pré históricos – como os sacrifícios de animais, por exemplo.

Ora, estes são valores que, do ponto de vista das pretendidas elevadas virtudes, das superiores qualidades filosóficas que se quer atribuir à doutrina do Candomblé, são anacrônicos demais, ou seja.

A tal ‘pureza nagô’ aventada só seria factível mesmo em aspectos que colocam os negros no patamar de povos muito atrasados, aferrados às superstições mais ingênuas e primitivas.

Ora, isto seria pureza para inglês ver, não é não?

As idiossincrasias das cruéis relações de dominação e poder entre colonizadores brancos e escravos negros – estas sim, dicotômicas por sua própria natureza – são de outra ordem. Há muitas nuances a serem consideradas. A existência de negros escravocratas desta elite de Lagos-Salvador é, aliás, a prova mais candente desta angustiante ambiguidade contida no tema.

O que não se pode esquecer (ou talvez eu não tenha deixado claro) é que o que chamo aqui de ‘Candomblé‘ não é apenas o Culto aos orixás. Chamo de Candomblé todo o arcabouço social e as intenções ideológicas e políticas que envolveram a criação da seita. Falo isto sim (e aí por minha própria conta e risco, sem me valer de Parés que é mais discreto, rigoroso e cuidadoso) das segundas e terceiras intenções ocultas na folha corrida da seita.

Falo assim, enfaticamente é do fato dela, a seita do Candomblé tornada doutrina, ter sido alçada à condição de avançada filosofia ‘dos negros’ em geral ao mesmo tempo em que servia,  na prática, isto sim, aos interesses  ‘dos brancos’, como estratégia assimilacionista.

Acho estranho e tento compreender ainda se foi mesmo ético a seita ter favorecido e servido de pano de fundo para o enriquecimento de um grupo restrito de negros, por meio da sua cumplicidade direta com a posse e o tráfico de escravos, no bojo de suas atividades comerciais gerais, além da evidente indiferença e cumplicidade demonstrada por estes líderes (uns políticos outros religiosos) pessoas de muitas posses, diante da abjeta instituição da escravidão de seus semelhantes africanos.

O fato é que as fotos desta aristocracia ‘nagô’ baiano-nigeriana que encontrei demonstram de forma tão cabal e evidente o seu assimilacionismo que fiquei até indeciso em publicar uma delas: esta aí de cima, de uma feliz família preta mui fina, posando com roupas muito elegantes, tendo ao lado… a sua escravinha de estimação de uns 12 anos de idade.

Muito constrangedor olhar a foto (tomara que ninguém queira me condenar como blasfemo por publicá-la).

Ou seja: ‘Pureza’ africana apenas para inglês ver, repito.

Há nas ponderações de alguns questionadores destas minhas opiniões, contudo, bem perceptivelmente até, certa nostalgia constrangida que tenta salvar da ‘virulência‘ provocativa do meu discurso os valores ‘supremos‘ da cultura do Candomblé, uma quedinha para aceitar o mito da ‘purezanagô , apesar de seus pesares como um valor caro à nossa negritude.

Esta é a parte mais delicada da minha argumentação.

Ocorre que, além deste conceito ‘pureza‘ ser antropologicamente questionável, problemático (além de suspeito) quando tratamos de valores étnicos, observem que como Parés coloca muito bem, houve um esforço deliberado dos líderes religiosos da seita do Candomblé no sentido de manter estreita fidelidade aos preceitos nigerianos do culto, mantendo uma ligação estreita com Lagos.

(Inserir trechos de entrevista de Martiniano)

Esta busca incessante pela manutenção desta ‘pureza‘ africana (que para ser mesmo  ‘pura’ deveria ter nascido espontaneamente), contudo precisa ser vista no âmbito de suas reais intenções que, para mim foram afirmar que aquele grupo (do ponto de vista dos brancos, bem entendido) era ‘mais africano’ do que todos os demais.

(E incrível, como este aspecto desta busca incessante por uma ‘pureza‘ evangélica aparente, lembra muito a criação e a afirmação de seitas evangélicas atuais como a Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo.)

Vista assim sobre este ponto de vista, o mito da ‘pureza’ nagô era um valor político em si, já que por meio dele o grupo minoritário podia se destacar dos outros.

Poderemos pontuar este aspecto, facilmente em outro momento, mostrando as estreitas ligações de altas autoridades e personalidades da aristocracia baiana desde o século 19, com o Candomblé e suas lideranças, tanto em Salvador quanto aqui no Rio, onde Tia Ciata (sim, Hilária Baptista, aquela da casa onde teria nascido o Samba) aparece como personagem chave nesta aliança da seita com o poder branco local (aliança que, certamente garantiu ao Candomblé a sua ascensão, status e sobrevivência no posto de religião negro africana ‘oficial‘ do Brasil).

Outro aspecto problemático e discutível (embora omisso) nestas contra argumentações, também observado nas minhas ultimas leituras é que, mesmo os antropólogos mais avançados  – sugeri isto no texto anterior –  passam batidos pela cultura também africana dos bantu, partindo talvez do pressuposto totalmente equivocado (e bem utilizado politicamente pelos nagôs) de que os bantu eram um povo ‘culturalmente impuro’ , com a sua cultura já ‘contaminada’ desde lá da África pelo catolicismo.

(Inserir falas anti bantu de Edison Carneiro)

Recomendamos, portanto muito cuidado antes de desqualificar ou questionar o caráter legitimamente africano da cultura bantu. É preciso estudá-la mais a fundo, pelo menos tanto quanto se estuda esta suposta cultura yoruba no Brasil.

Reparem que o negro norte americano não desqualifica, não questiona, assim tão subservientemente o islamismo fortemente incrustado na africanidade deles, do mesmo modo que não trata como “impura” sua profunda ligação com seu especial protestantismo.

E olha que há uma grande influencia e propaganda da ‘supremacia nagô’ também por lá.

MalcomX e Muhamad Ali são cultura negro afro-americana legítima. Ou não?

Ora, este é um erro antropológico crasso.

Aliás, frisemos aqui fortemente que este tipo de estratégia de organização de grupos étnicos para obter ascensão social, era muito comum nesta fase do século 19 em toda a África colonial. Não nos esqueçamos que, as irmandades católicas negras, tão ligadas à libertação de escravos por meio de caixas de pecúlio e poupanças coletivas, tinham função social exatamente idêntica.

O surgimento de seitas religiosas e sociedades secretas, de qualquer tendência, política ou religiosa, até mesmo para promover rebeliões ou insurreições, segundo etnólogos como o padre espanhol Ruíz Altuna, sempre esteve associado a este fenômeno típico da virada do século 19 para o 29..

Para quem não sabe a insurreição de escravos no Vale do Paraíba do Sul no Rio de Janeiro (onde a maioria esmagadora dos escravos eram bantu) ocorrida em 1838 e denominada ‘Quilombo de Manoel Kongo’, segundo pistas fornecidas por Ignácio Raposo em sua “Crônica da cidade de Vassouras“, urdida por uma sociedade secreta denominada ‘Embanda’, chefiada por escravos ferreiros e marceneiros e articulada em torno de um movimento ‘antonionista, um ‘mix’ de ritos católicos reinterpretados a luz de valores africanos tradicionais, de traço bakongo, resultando numa seita religiosa de tipo novo, de viés puramente africano sim, iniciada que foi no início do distante século 18 por uma sacerdotisa e líder rebelde da nobreza bakongo – angolana portanto – chamada Kimpa Nvita, presa e morta numa fogueira da inquisição em 1704.

Este ‘antonionismo’ africano – que por fortes indícios que tento comprovar numa difícil e intrincada pesquisa, talvez tenha estado presente no contexto da sociedade do Kilombo de Palmares dos últimos anos – até hoje ainda sobrevive na fronteira entre o Zaire e Angola, principalmente por força dos seguidores da pregação de um misto de sacerdote e líder político chamado Simon Kibangu, preso e morto pelas autoridades belgas em 1951.

Claro que a cultura bantu é tão negro africana quanto a dos yoruba. Ocorre que, no meu modesto entender, a cultura bantu possui em sua essência e foi obrigada a abandonar isto aqui por força do isolamento e da escravidão, uma dinâmica sócio adaptativa comum à todas as outras culturas humanas. Cultura – vamos combinar – é sempre o intercâmbio de valores e saberes durante o contato entre grupos, quaisquer grupos, sejam lá quais forem as circunstancias deste contato.

Uns assimilam os valores e saberes dos outros, por osmose. É uma lei da natureza isto aí. E outra coisa: as culturas ‘evoluem’ sempre, caminham, se modificam, mesmo quando estão em conflito. Isto vale até para grupos de animais.

O que ocorreu com a cultura yoruba é que ela foi a que melhor se prestou – foi pensada para isto – para simbolizar os interesses de certo grupo de negros ricos e brancos aristocratas, no âmbito da complexa estratificação social na sociedade escravista do Brasil e da Nigéria da época.

Para serem tratados como interlocutores africanos ‘reais‘ e se destacarem de todo o resto de negros  (e isto ao que parece também ocorreu em Lagos, na relação dos nagôs com os ingleses, pude perceber), os membros desta aristocracia negra precisavam ter uma marca d’água, um sinal evidente qualquer, uma griffe, um selo de autenticidade.

Antes de Ser  tinham que Parecer ‘africanos reais’, certo?

(Neste sentido, convém estudar melhor o papel de Martiniano Eliseu do Bomfim, membro desta aristocracia Nagô, assistente-informante (remunerado) de Nina Rodrigues e principal articulador e formulador da ortodoxia adotada pelo candomblé jêje-nagô, tornada oficial é declarada “puramente africana”, no âmbito do II Congresso Afro-Brasileiro de 1937)

Parés acentua muito bem este aspecto quando fala da ‘nagôização‘, frisando que o processo natural de amálgama entre os valores culturais das várias etnias negras que compunham a sociedade escrava e liberta de Salvador do século 19, já estava em franco processo quando certa liderança negro-aristocrática decidiu inventar a tal ‘pureza’ nagô, como marca exclusiva de ‘sua’ africanidade, atropelando o processo, apelando inclusive para as suas relações com o poder branco, inclusive o estabilishement acadêmico da época.

(Citar as disputas acadēmicas de 1941)

O momento crucial nesta história (esboçado acima no caso de Martiniano do Bomfim) é quando  Edison Carneiro, Arthur Ramos e outros intelectuais negros e brancos (e lembrem-se: as ideias de  Nina Rodrigues estão ativas e operantes como também neste contexto) organizam congressos, seminários e encontros entre si e com autoridades da Bahia, para legalizar, institucionalizar o Candomblé local demarcando, sutilmente regras que acabaram por alijar do processo todos os outros grupos e elementos considerados ‘impuros‘, como as influencias proto-umbandísticas (os elementos ‘puramentebantu, precisamente) e as do chamado culto dos caboclos’, manifestações pejorativamente chamadas de ‘crioulas‘ pelos próprios negros desta aristocracia intelectual e religiosa negra.

É preciso entender, com clareza que a chamada cultura nagô-jêje moderna como eu sugiro – e Parés afirma – foi artificialmente construída. Quando ela é tornada hegemônica no Brasil, consideremos que não o foi por conta de sua pureza intrínseca – NÃO existe pureza intrínseca em cultura -, mas sim por conta de sua perspicácia política na criação e implantação de uma ortodoxia de aparências bem sucedida politicamente.

É preciso considerar também que o conceito ‘pureza‘ é um falso valor do ponto de vista dos interesses de nós todos, porque para culturas subalternizadas, o que é puro só o é em relação ao ponto de vista da classe dominante.

É só do ponto de observação do ‘branco‘ (de uma elite qualquer) e de seus interesses que o conceito ‘pureza nagô’ se materializa e diz a que veio. Uma posição subalterna, no âmbito de uma sociedade de hegemonia branca instalada, de tipo ainda colonial.

Não é à toa que a Academia adotou o Candomblé como sua única referencia para o estudo do negro no Brasil, em detrimento de todo o imenso resto.

Digo e afirmo que foram os ‘nagôs’ ricos interesseiros,  mancomunados com os aristocratas brancos de Salvador e de Lagos, Nigéria  que criaram no fim do século 19 início do 20 o Candomblé como estuário da tal  ‘Pureza Nagô’, um mito tão sutilmente racista e paradoxal quanto o do ‘Elogio á Mestiçagem’.

E digo mais: O mito da ‘Supremacia Nagô’ é um mito colonial tão arraigado em nós todos que pode ter ‘contaminado’ a cultura do negro da Diáspora inteira, como um vírus. Talvez fosse o caso de se estudar também, sob esta mesma ótica a cultura do negro nas antigas colônias inglesas, ‘parentes‘ de Lagos, Nigéria, como a costa oeste dos Estados Unidos da América e, em parte, as ilhas do Caribe, onde o ‘Mito da Pureza Nagô’, esta idéia cavernosa de um povo negro Superior aos outros, ‘Eleito’- foi disseminada e floresceu.

A verdade liberta.

Spirito Santo
Agosto 2011

(Nota: Estar numa ‘saia justa diz-se no Rio de Janeiro quando se está numa situação inusitadamente comprometedora)

“Rasgando a Saia Justa”: Siga a série abrindo estes links:
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‘Nagoization’- O cativeiro eterno dos Bantu na Diáspora


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Os homens mais ricos da comunidade brasileira ( em Lagos) , ou seja, ex-escravos do Brasil que voltaram a África, mandavam seus filhos para estudar na Europa ou na Bahia. Assim se formaram os primeiros médicos e advogados da Nigéria, como Plácido e Honório Assumpção. As carreiras de funcionário do governo colonial inglês e em empresas estrangeiras atraíam muito dos chamados "brazilian descendants". Os irmãos acima adotaram o nome iorubá Alakija. Parte da família voltou para a Bahia no começo do sec. XX. (Documento da família fotografado por Pierre Verger).

Os homens mais ricos da comunidade brasileira (em Lagos) , ou seja, ex-escravos do Brasil que voltaram a África, mandavam seus filhos para estudar na Europa ou na Bahia. Assim se formaram os primeiros médicos e advogados da Nigéria, como Plácido e Honório Assumpção. As carreiras de funcionário do governo colonial inglês e em empresas estrangeiras atraíam muitos dos chamados “brazilian descendants”. Os irmãos acima adotaram o nome iorubá Alakija. Parte da família voltou para a Bahia no começo do sec. XX. (Documento da família fotografado por Pierre Verger).

Um conceito que cabe como uma luva neste papo.

Ela, uma angolana:

“Kota Spirito Santo,

li o post e gostei bastante. Estava a pensar algo, que não tem muito a ver com esse post, mas que me fez lembrar e pensar sobre o seu post a analisar as falsas afirmações sobre cultura nago, menosprezando a bantu.

Estou a ler um livro que fala da arte youruba. O que chamou a minha atenção eh que se esta a tentar usar a arte youruba como referencia para falar da arte africana. Calculo que eh assim que os “buatos” se espalham. Ou será que esta eh uma boa forma. Será que a arte youruba pode ser posta nesta posição. Pelos mapas que o kota postou aqui, a área de yoruba eh tao pequena…”

—————–

Eu, o tal Kota:

“Pelo que vou constatando aqui nas minhas leituras, a coisa é bem complexa mesmo e, o que é pior, generalizada. Há muita ambiguidade nas análises porque o mito toca fortemente na auto estima de todos os negros do mundo.

 Ter uma suposta civilização filosoficamente ‘avançada’ como exemplo perante os brancos é um valor muito caro aos negros do mundo. Só que é um equívoco ignorante. Um uncle thomas myth representado por um ‘tio’  fantasiado de rei africano.

A cultura yorubana, por razões diversas e muito complexas, foi alçada a esta condição de ‘superior’, embora sirva, como ideologia e doutrina exótica (do ponto de vista do branco) muito mais para a manutenção do status quo do que para a revolução, a redenção dos negros sob o jugo do racismo.

O pior de tudo é que o mito, mesmo sendo falso e construido, artificialmente, por brancos e negros da elite burguesa e pequeno burguesa das grandes cidades da diáspora, se impôs como anteparo social, em detrimento de outros milhões de negros que ficaram subalternos, subjugados, socialmente submetidos sob a classificação de ‘crioulos impuros’ (e esta é a função última do culto ao yoruba em nossa sociedade diáspórica).

Só como pista uma informação constrangedora para vocês: dados documentais dão conta de que a aristocracia ‘nagô’ e candomblecista da Bahia no século 19, enriqueceu, entre outros expedientes (em geral comerciantes) por meio da compra, posse e venda de escravos.”

Ela, de novo:

“…Pensei que só tinha que lidar só com a supremacia branca (rsrs)…agora tem mais essa nagô. Então eu vou me informando…Uma das perguntas que me faço eh o que esta na base dessa ideologia. Porque eh que o retrato foi pintado com cores de rosa e não cores vermelhas, figurativamente falando. Ainda nao consigo perceber exactamente o porque da discrepancia. Se Bantu eh mais influente eh…porque mudar as coisas e onde isso começou a acontecer?”

(Eu e Lucia kudielela, amiga angolana de Nova York, via facebook:)

Daí fui seguindo o estudo, lendo surpreso o Luiz Nicolau Parés:

 “Desde os anos 1980 uma nova abordagem construtivista tem sido proposta. Autores como Beatriz Góis Dantas, Peter Fry e Patricia Birman têm argumentado que a valorização do Nagô foi principalmente uma construção acadêmica de pesquisadores e antropólogos, começando com Nina Rodrigues.

…Segundo ela (Beatriz Dantas), as elites brancas, ao promover o reconhecimento da herança afro-brasileira favoreceriam a idéia de uma aparente “democracia racial” (como a concebida por Gilberto Freyre)…

 “..Por outro lado, a ênfase na “pureza” africana iria “exotizar” a cultura afro-brasileira e implicitamente promover o estabelecimento de um “gueto cultural” e, portanto, privando os seus agentes sociais de cidadania.

(Luiz Nicolau Parés, em Repensando a “Nagôização do candomblé no século XIX”)

E eis enfim a minha ‘tese’ leiga corroborada também por alguns doutores ‘de direito’ (ou eu, sem querer, corroborando a deles). Ou seja. Acertei o certo por linhas tortas, ou o torto certo me acertou em pleno vôo.

Aliás, este caso, das teses-tabu que são escritas para jamais serem lidas, lembra bem a história do ovo e da galinha: Quem leu quem primeiro?

Tá bom. Pouco importa, desde que isto traga alguma luz ou faça sentido.

Juro por algum deus desses aí: Nunca havia lido estas teses. Além do Fry (que nunca li diretamente, confesso) nunca havia ouvido falar de algumas dessas destas pessoas. E vejam como são as coisas: o Peter Fry, tem sido personagem-vilão de muitas das minhas diatribes contra os anti-cotistas – entre os quais ele pontifica. E não é que ele tem lá a sua parte boa?)

_”É, mas são apenas doutores brancos” _ dirão os do lado de cá. _” Os mesmos que construíram o mito agora tentam desconstruí-lo.”

E daí? O que teria isto a ver com as calças? ‘Juntem-se aos bons’, diz um ditado destes aí. Se quiserem mostro uma penca de doutores e não-doutores negros que escrevem como se fossem brancos, defendendo que as coisas fiquem como estão, na base do ‘Cotas não! Viva a mestiçagem nacional!”.

(E não é que este é exatamente um dos nós desta nossa conversa?)

Mas é ‘saia justa’ sim só encontrar respaldo para idéias tão ‘de negão’, exatamente no meio dos…‘brancões’. Prova de que a verdade neste tema anda mesmo bêbada e de calças curtas, perambulando por ruas tortuosas e escuras, assim sem pai nem mãe.

…No entanto, uma minoria significativa (de africanos nagôs, etnias assemelhadas e seus descendentes: nota minha) foi capaz de acumular alguma riqueza e investir no que era então a mercadoria de base: os escravos.

Em meados do século XIX na freguesia urbana de Nossa Senhora de Santana (Salvador, BA: nota minha), uma das mais densamente povoadas por africanos, 22% dos africanos livres eram proprietários de escravos, e quase metade deles (52%) foram os donos de mais de dois escravos.

A maioria desses escravos estavam na locação de sistema ou de ganho, trabalhando por conta própria e com uma certa mobilidade, mas obrigado a pagar seus senhores uma quantia diária ou mesmos.”

(Luiz Nicolau Parés, em “Repensando a “Nagôização do candomblé no século XIX”)

_” Caô! Caô Cabecile!

Ser escravo de preto não, né meu rei Xangô?”

“…Portanto, de certa forma, poderíamos falar de uma solidariedade entre africanos natos (em Salvador, BA), agitada pelo antagonismo e pela competição com a população crioula.

Minha sugestão é que esse separatismo sociocultural brasileiro (completamente independente, mas ainda assim ocorrendo em paralelo com o racismo britânico do final do século XIX, que moldou a etnogênese iorubá em Lagos) encontraram um campo particularmente fértil de expressão no domínio religioso.

Mesmo que tenha havido, durante a segunda metade do século (19), um aumento da mistura étnica e racial entre os praticantes do Candomblé, os terreiros permaneceram pouco ou menos permeáveis à mistura inter-étnica e ainda se identificavam como exclusivamente africanos”

(Idem)

Hora então de um ‘Você Sabia?’ urgente, mote central do nosso papo de hoje:

Vi por aí:

“Etnogênese é um conceito antropológico que pretende dar conta do processo de emergência de novas identidades étnicas bem como o ressurgimento de etnias já reconhecidas. Não trata apenas da emergência física de um determinado grupo culturalmente diferenciado, abrange também e principalmente processos de transformação social pelos quais passa determinado grupo humano, não apenas politicamente, mas também em termos de definição de identidade, seleção e incorporação criativas de elementos auxiliares.

(O chato nestas horas é que a conversa fica tão cabulosa que periga escorregar para o pântano ensaboado das conversas bizantinas, academicas. Por isto eu grito aqui, enfático:):

_Academicice pomposa! Não passarás!

Ou seja – traduzindo, se me permitem.

Tem gente que não sabe, mas o conceito ‘Etnia’ ficou sendo popularmente confundido com ‘Raça’ nem vale a pena se discutir aqui porque. Como ‘Raça’ não existe, tem alguns engraçadinhos querendo diluir tudo num bolo misto só, miscigenado. Mas peço muita calma e pouca picardia nesta hora. Nem tudo é esta mistureba não.

O que a tese de Parés deixa claro com o termo ‘etnogênese’ é que as etnias são construções humanas, culturais, da iniciativa deliberada de um grupo movido por interesses corporativos ou mesmo por conta de algumas circunstancias políticas, sociais, econômicas à sua revelia.

É o que teria ocorrido com os yoruba ou ‘nagôs’ em Lagos, Nigéria na segunda metade do século 19. A dica de Parés é muito relevante para nós sim porque é esta mesma etnia yoruba que aparece como protagonista e pivô da construção étnica também do que estamos chamando aqui de ‘Mito da ‘supremacia Nagô’ no Brasil.

A constatação é clara: Foram as especificidades do racismo inglês em Lagos (cuja população era na época de ampla maioria yoruba) que formaram os guetos e aldeias de ‘nagôs’ isolados dos colonos brancos.

Foi isto o que em consequencia possibilitou a germinação de modos de ser e viver, ditos como sendo, ‘tipicamente yoruba’, em parte baseados na cultura ancestral daquelas pessoas, em suas velhas tradições oriundas das aldeias do interior, porém mesclados já à modernas recriações simbólicas, religiosas, culturais enfim.

No bojo de uma sociedade colonial já não mais tão – pelo menos assumidamente – escravista, de rígida estratificação como imaginamos que fosse Lagos na Nigéria do século 19, surgiu pelo que se deduz lendo Parés, uma espécie de aristocracia negra subalterna, com algum trânsito social e poderes de articulação, barganha e intermediação junto aos aristocratas brancos.

É esta casta dedicada à defesa dos interesses sociais exclusivos de seu grupo, que se fortaleceu ideologicamente a partir da estruturação de uma seita político-religiosa, seguramente muito mais poderosa do que era nas aldeias, ao tempo dos clãs yoruba mais originais ou tradicionais.

É só a gente deslocar o cenário para a Salvador do mesmo período para uma fiat lux bem escandalosa piscar na nossa cabeça.

Caraca! Era uma máfia preta este “Axé-babá” colonial!

Ora, é óbvio que circunstancias muito semelhantes ocorriam em Salvador do século 19, com o agravante de que aqui, algumas variantes socio economicas poderiam oferecer chances de ascenção social muito mais promissoras para os mais organizados e atentos ‘nagôs’ daqui.

E pensam que eles se avexaram?

A mais surpreendente descoberta que fizemos lendo Parés (uma espécie de Caixa Preta de Pandora que rasga de vez, a ‘saia justa’ e deixa a nossa moça-negritude completamente nua) é que houve um franco e intenso transito transatlântico Salvador-Lagos-Salvador, movido por abertos interesses comerciais e políticos – principalmente o tráfico de escravos – destes ilustres cidadãos e cidadãs negros e negras, natos ou descendentes de ‘nagôs’ libertos de Salvador, Bahia.

Gente fina – mesmo preta – é outra coisa.

Pois pasmem em saber – ainda aprendendo com Parés –  que presumivelmente foi por meio deste mesmo intercâmbio transatlântico que foi sedimentada toda a dita ‘pureza’ yoruba-‘nagô’ de Salvador, construída por intermédio de verdadeiros ‘workshops’ de sacerdotes yorubas vindos com esta finalidade de Lagos para cá ou por meio de viagens de ‘capacitação religiosa’  dos sacerdotes (‘pais’ e ‘mães de santo’) ou candidatos à sacerdote de cá, de modo que as premissas do culto permanecessem sempre recicladas (‘afro-puras‘) e imunes à ‘contaminação’ da natural evolução cultural do resto do crioléu normal, que foi expulso do salão.

Ai!…Respirem fundo, contem até dez e prossigam.

É que o que eu havia apenas insinuado acerca do carater deletério da chamada ‘Supremacia Nagô’ – e Parés, descubro eu, afirma enfaticamente, baseado em sua ampla pesquisa publicada pela Universidade de Michingan – assume agora para mim contornos de um complexo mito colonial transatlanticamente construído. Um mito diaspórico, portanto.

Este até então bem camuflado mito assumiu, pois, a forma de um verdadeiro pacto social (algo condenável,  sob um ponto de vista menos distanciado) que envolveu, de um lado um grupo de perspicazes negros ricos e remediados de Salvador, supostamente ‘yorubas’, africanos nagôs libertos, gente que enriqueceu às custas das idiossincrasias do sistema colonial daqui, no escravismo tardio da colônia portuguesa chamada Brasil).

De outro lado gente – ou agentes – do mesmo modo ‘nagô’, de lá da colônia inglesa em Lagos (descrita por Parés) para, por fim, num conluio de contornos sociais muito complexos, os daqui se tornarem líderes religiosos de uma seita mística endogâmiga, cuja única finalidade política e ideológica parece ter sido se organizar como uma casta, uma ‘máfia socio-religiosa’ (como uma Maçonaria negona chamada posteriormente de Candomblé ) e usufruir de algumas vantagens sociais geradas de sua proximidade com o poder aristocrata branco e suas instituições.

Será que é mesmo isto tudo aí, meu rei? Vá se benzer, rapaz! Tomar uns passes…

Difícil digerir este troço cabeludo, não é não? Mas ao que tudo indica, quando vista assim sob este ponto de vista crítico, analítico e sem papas ou entremeios ‘vaselinas’, esta seita-casta chamada Candomblé Baiano, se associou sim à a aristocracia branca para barrar – como até hoje barra, pelo menos como pretexto e ideologia oficial do negro do Brasil – qualquer possibilidade de organização da massa escrava em geral, carente de cidadania, massa escrava esta que foi alijada do processo, estigmatizada sob a pecha de ‘impura’, ‘crioula’, com os milhões de bantu e seus descendentes inclusos na classe dos ‘não-africanos’, dos pretos vira-latas, dos negros sem pedigree.

Ora…como foi que esqueceram que os bantu (angolanos em sua maioria) eram- e são – africanos tão ‘puros’ quanto os ‘yoruba-nagôs’? E o engraçado é que até hoje a antropologia brasileira inteira – até mesmo o Parés!_ meio que omite este detalhe claramente étnico sabe-se lá por que.

Difícil aceitar, mas tudo isto está devidamente fundamentado nos estudos mais novos que vão aparecendo sobre este assunto (como este do Parés que estou tendo o modesto prazer de comentar).

————-

(Ai! A tal bela moça símbolo da nossa inefável negritude já tão desprezada, aquela mesma da rasgada ‘saia justa’ – aquela que já está nua por minha culpa, minha máxima culpa, depois destas denúncias ácidas, porém sinceras – e que nem minhas são , assim, de sozinho deduzir – já nem me olha mais nos olhos

———–

Constrangido saio à francesa só por um tempinho. Volto já, prometo. Só espero que já não esteja tão sozinho, assim, crioulo apátrida pregando no deserto. Diria nesta minha saída súbita, o que disse certa vez o poeta cubano Nicolas Guillén na  ‘Llegada’:

¡Aquí estamos!
La palabra nos viene húmeda de los bosques,
y un sol enérgico nos amanece entre las venas.
El puño es fuerte
y tiene el remo.

Spirito Santo

Agosto 2011

(Nota: Estar numa ‘saia justa diz-se no Rio de Janeiro quando se está numa situação inusitadamente comprometedora)

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Bantu versus Yoruba: A diáspora no espelho


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Dia de Odum Ijeshu

Dia de Odum Ijeshu

A luta errada do roto contra o esfarrapado.

Rasgando a ‘Saia-Justa’ – Post # 03

O Calcanhar de Aquiles da luta anti racista é isto aí, meu brother.

 “…Vou sugerir que esta elite africana na Bahia acumulou sua riqueza através de investimentos consistentes em escravos (e às vezes no comércio ilegal no Atlântico), e no ramo imobiliário, conquistando mobilidade econômica, mas não direitos políticos ou “cidadania”, promovendo assim uma relativa endogamia social africana…”

(Luiz Nicolau Parés, em tradução livre do original em inglês, referindo-se á liderança religiosa nagô-yorubana nos terreiros de Candomblé da bahia na segunda metade do século 19 em “ The Nagôization process of Brazilian Candomblé” )

—————–

Sou meio mineiro. Atribui-se aos mineiros este ditado popular tão pouco brasileiro:

“Dou um boi para entrar numa briga, mas depois que entro dou uma boiada para não sair”

Pensei nisto agora quando, envolvido até os ossos nesta saga de contar uma história possível dos bantu, me vi arrastado para a pendenga de ter que explicar afinal, porque cargas d’água vivo afirmando por aí que os ‘nagôs’ não são lá esta coisa toda que dizem.

Você sabe o que é nagô, certo? E Bantu, sabe o que é? Então vamos em frente.

Dia destes me provocaram a falar sobre as origens do Samba e da cultura negra que o envolve, numa palestra numa entidade do movimento negro aqui do Rio de Janeiro. Fiquei curiosíssimo com a constatação de que todos os palestrantes antes de mim, falando sobre temas os mais diversos (estratificação urbana no ‘Bota-Abaixo’ do tempo do prefeito Pereira Passos, saúde, psicologia, etc.) apoiavam e embasavam seus argumentos mais enfáticos na suposta filosofia do Candomblé e dos Yorubas, como se, à exemplo do Marxismo ou do Construtivismo, sei lá, o Candomblé fosse mesmo uma espécie de doutrina científica superior, de alto nível civilizatório, uma ideologia elevada, que sendo uma sabedoria exclusiva dos negros, deveria ser tratada como uma doutrina racial hegemônica, diante das outras filosofias  ‘de preto‘, ‘crioulas‘, consideradas ‘impuras‘.

Assim, o jeito de viver em habitações coletivas (‘cabeças de porco’) alvo da campanha higienista que expulsou os negros e os pobres do centro da cidade do Rio de Janeiro em 1906, seria uma ‘prática social africana‘ e não uma contingência absoluta da miséria em que aquelas pessoas eram obrigadas a viver, fenômeno, aliás, comum em todas as grandes cidades do mundo na virada do século 19 para o 20, inclusive Nova York.

Do mesmo modo, a rica farmacologia tradicional brasileira, em seu aspecto fitoterápico, contributo de vários povos tradicionais, não só africanos como indígenas também, seria uma contribuição exclusiva da sabedoria yoruba, contida no Candomblé.

_Gente de Deus! _ pensei eu.

Menos. Menos. Isto é um proselitismo muito desembestado. Nenhuma cultura vai para frente aferrada assim a embasamentos tão rasteiros e descabelados. É a mesma coisa que explicar tudo pela Bíblia. Legítimo acreditar, mas de científico, á vera mesmo nada a ver, não é?

Bem, o fato é que falei pelos cotovelos e fiquei mais surpreso ainda que as pessoas boquiabertas que me ouviam. Como pode ninguém ali ter se dado conta da armadilha em que estamos aprisionados, defendendo alegações absolutamente desprovidas de fundamento? Se bem que percebi que algumas pessoas, as mais doutas entre todas, me olhavam de banda, meio que me armando arapucas conceituais do tipo:

_”É, mas ao criticar a supremacia nagô você está é propondo uma supremacia bantu. Qual é o problema dos yorubas serem superiores?”

Ora, nem levo mais a sério estas contra argumentações ocas de sentido. Elas nem se aguentam em pé por falta de elementos e dados minimamente convincentes.

Observem só:

Quando se instiga os adeptos da ‘supremacia nagô’ a nos fornecer estes argumentos válidos para explicar afinal as razões de ser desta alegada ‘superioridade’ da cultura yoruba, eles nos acenam com um arrazoado pseudo historiográfico que, supostamente nos dá conta de razões básicas, para mim com jeito de sofismas bem malandreados:

A primeira razão que alegam é a da vinda em massa de escravos yorubas nos últimos anos do tráfico oficial (por volta de 1850) forçada pela derrota dos yorubas para os invasores ingleses, o que teria ensejado a vinda para cá de importantes líderes dos reinos conquistados, seres ‘superiores’ que teriam trazido para o Brasil este DNA magestoso…nobre e superior.

(‘Nobre e superior’? Hum… parece até aquele papo do Erich Von Däniken, lembram?… Seriam os Deuses astronautas”?)

Pois vejam: esta é uma tese clássica – lançada por Pierre Verger, só que lida superficialmente. Verger – um ‘nagoista’ no bom sentido –  fala sim do interessante fenômeno da sobrevivência da cultura yoruba no Brasil, mas com certeza não cai no conto da carochinha de afirmar ‘supremacia cultural’ de quem quer que seja.

Não é preciso nem ser historiador para se constatar que os tais ‘razões historiográficas’ da supremacia nagô às quais os proselitistas mais espertos se referem, ocorreram de forma generalizada nesta parte do continente africano que nos diz respeito. Ou seja: rigorosamente todos os reinos africanos da Costa ocidental, das fraldas do Ghana até o Sul de Angola foram, ou destruídos ou assimilados, tornados títeres pau-mandados, portanto das metrópoles européias que os invadiram e dominaram na segunda metade do século 19. É óbvio que veio gente de alto nível, líderes religiosos inclusive, de toda esta região. A África toda desta parte do continente tem que estar em nós.

_E Olha o neo-colonialismo aí, gente!

(Aos desatentos – ai como é urgente repetir isto – precisamos dizer que este pedaço da costa ocidental africana que ‘nos diz respeito’ é aquele que avança pelo litoral de Ghana até o da Nigéria, excluindo uma vasta área da costa da Guiné, do Senegal e do Camarões propriamente dita, dominada mais ou menos do século 17 ao 19 por outras potencias européias (principalmente a França) para se espraiar depois pela grande área bantu que é hoje o que conhecemos como República de Angola, única área – além de Moçambique- incontestavelmente dominada pelos portugueses.)

E isto não é ‘bantuísmo anti-nagoista’ não, gente. Isto é um imperativo histórico já perfeitamente estabelecido. Infelizmente para alguns fanáticos da supremacia yoruba, este é um fato já irrefutável, inquestionável. Fazer o que?

Logo, é mais do que evidente que para cá vieram pessoas, populações, grupos étnicos de toda esta enorme costa marítima e – o que é fundamental – não apenas, nem predominantemente da área dos ketu, Yoruba, Ewe, etc.

Ou seja, veio gente daí desta área supostamente ‘nobre’ sim, mas não em quantidade tão considerável a ponto de influenciar de forma tão impactante a formação religiosa da maioria dos afro-descendentes das Américas. Aliás, a grandeza de várias outras culturas africanas é fato perfeitamente constatável quando se faz uma pesquisa mais aprofundada sobre o assunto.

A suposta ‘superioridade mítico-religiosa’ yoruba’ no Brasil precisa ser, portanto explicada por meio de outras razões bem menos prosaicas e diretas.

Devia ser óbvio isto, não é não?

Só para enfernizar a conversa, eu poderia sugerir, por exemplo, que toda a família ‘real’ do Reino de Palmares deve ter sido gerada por um ou mais ‘altos dignatários’ do Reino do Kongo, acossado e destruído em 1665 pelos portugueses (eu mesmo já tenho em meus alfarrábios elementos em profusão que sugerem, quase provam esta possibilidade instigante)

E é por aí que localizamos o lugar exato onde a porca dos ‘supremacistas nagôs’ torce o rabo: Uma religião de um grupo restrito de adeptos originais – e o Candomblé não é muito mais do que isto – nenhuma religião para sermos exatos, dá conta de explicar a história e a cultura de um povo tão imenso e diverso quanto o que habita este nosso Brasil. E isto mesmo se estivéssemos falando apenas de afro-descendentes que, como bem sabemos representam a maioria de nós.

A grande armadilha – e olha que é apenas a principal e não a única – que os estudos do negro no Brasil estão aprisionados parece ser esta: Termos aceitado, por diversas razões, estratégias, artifícios e estratagemas – para bem e/ou para o mal – esta bazófia pomposa da ‘elevada’ cultura de uma suposta aristocracia negra, subalternizando toda a cultura negra restante (chamando-a pejorativamente de ‘crioula’), reduzindo, subordinando a nossa historiografia afro-diaspórica tão rica e diversa, dando foros de ciência a toda a esta montanha de mistificações conceituais concentradas neste Candomblé para inglês ver.

Infelizmente, o Candomblé ideológico, oficial é esta coisa construída, inventada – tanto por ‘brancos‘ quanto por ‘negros’ – com terceiras intenções, cheia de velhas explicações coloniais que as pessoas bem pensantes mais influentes entre nós ainda se aferram em defender – quase desesperadamente – ao que parece por não terem outros conhecimentos estabelecidos para por no lugar.

Ora, basta reler,reestudar, rever, revisar. Ninguém nasce sabendo.

O fato é que é preciso acordar logo deste delírio político e cultural ingênuo e ver que esta mistificação arraigada em nós (tão constrangedora quando é assim desnudada) muito mal e porcamente oculta, com o rabo de fora, esta velha balela da ‘supremacia sudanesa’, nagô, yorubana, baiana, sei lá, por extensão acaba afirmando sim é uma improvável ‘inferioridade’ negra diante de uma não menos fiada, esfarrapada ‘superioridade’ branca.

Convenhamos que isto não deveria mais ser uma opinião corroborada por nós mesmos, assim, como se fossemos culturalistas do engodo, ‘cornos sabidos’ conceituais.

Coisa de ‘pai-joão’ isto aí. Outros – os que levam vantagem com esta idéia de jerico – que a defendam. Nós não.

Com o perdão da analogia infame, este proselitismo candoblecista-nagô-yorubano é quase como aquele pensamento limitado por antolhos, dos criacionistas evangélicos que defendem até a morte, que o homem não nasceu de algum tipo de macaco, simplesmente porque acham que os macacos são feios, são ‘pregos’, idiotas e primitivos. Ora, qualquer um que já olhou no fundo dos olhos de um macaco sabe:

O macaco sabe tudo e sempre está certo!

Nem devia ser preciso dizer, mas quando se estuda a cultura de um povo – mesmo uma população de macacos – é necessário observá-la como um todo e não apenas sobre o ponto de vista de uma elite dominante, dos maneirismos de reis, de aristocratas, etc. Esta maneira de pesquisar bicho-gente, esta antropologia blasé, presunçosa e arrogante de eleger cercadinhos étnicos ‘vips’, está morta desde o século 15!

Infelizmente este aspecto de seita ou doutrina voltada para a ascensão social de uma casta, de uma elite, que nos aparece cada vez mais evidente no cerne deste Candomblé (e existem fontes comprovando isto, vocês verão), pode encerrar – enquanto ideologia, bem entendido – uma contradição terrível para a luta contra o racismo no Brasil. Um nó que será muito difícil de desatar.

É. Esta tal de supremacia nagô sofre mesmo é da Síndrome da Rainha-Má no espelho:

_“Espelho, espelho meu, existe alguém mais afro do que eu?”

Voltar os olhos para trás, para um passado supostamente glorioso, ignorando os outros aspectos de nossa cultura geral (por preconceito religioso, inclusive, já que o estigma, a  pecha lançada contra os bantu é acusá-los de ‘ter partes’ com o demônio do catolicismo) é para mim um equívoco trágico, muito nocivo à nossa boa e dócil negritude nacional.

(E vamos combinar: Cavucando no fundo no fundo o Candomblé bem que pode ter um pezinho no catolicismo sim, no islamismo também. E vem cá: Este negócio de Pureza Étnica é mesmo papo de negão? Eu heim, mermão!)

Exaltar, de forma tão destituída de fundamentos uma única religião, cristalizada, congelada no tempo, supostamente mais ‘pura’, mais ‘africana’, apenas porque ela nos parece composta por elementos mais ‘altamente dignificantes’, ‘superiores’, a esta altura da história do mundo racista em que vivemos, não lhes parece ignorancia muito suicida não?

É falsa – posso garantir – esta polêmica ‘Bantu X Nagô’. O nosso nó cego sócio emocional não é este aí não. Ele é esta ‘saia justa’ de nos dividirmos ainda hoje em ‘negros puros’ e ‘negros impuros’, esta farsa racista conosco mesmo, que ninguém quer rasgar ou mesmo encarar (e este Calcanhar de Aquiles , dói mais do que dor de cotovelo porque é a dor do nosso desamor por nós mesmos. A nossa auto estima perdida, desprezada e ultrajada).

Mancos nesta luta anti racista travada (porque estamos sim travados por esta ideologia carnavalizada, cheia de alegorias e ‘oba-obas’ clássicos) precisamos levar logo este nosso Calcanhar de Aquiles ao ortopedista, antes que o nosso destino seja sentar na cadeira de rodas do conformismo de uma vez por todas.

É preciso lembrar que um Brasil democrático sem a supremacia de nada e de quem quer que seja é do que nós todos mais precisamos.

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É o que vamos tentar explicar aqui nos posts seguintes desta que será uma longa série. O bom é que, cada vez mais o tema vai podendo ser debatido com a ajuda de um ou outro pesquisador menos aferrado a chavões conceituais. Entre estes eu destacaria, efusivamente o professor Luiz Nicolau Parés da Universidade de Michigan, que acabo de conhecer garimpando elementos de prova na internet.

(E como é estranho ter que garimpar – além de tudo em inglês – certas abordagens mais irreverentes, menos conformistas sobre este assunto que nos deveria ser tão familiar)

Prometo também que volto nos outros posts pisando mais duro e com mais rigor, mostrando o pau e a cobra morta com afirmações mais cabais. O papo é longo e controverso assim mesmo e já há sinais de que está entrando na moda (o que é muito bom). Os fundamentos pululam e a verdade sempre quer aparecer.

(E cá entre nós: Me senti um verdadeiro ‘bidu’, um verdadeiro orixá ‘adivinhão’, quando li o Luiz Nicolau Parés ontem)

_”Uhú! Eu não disse? Eu não disse!”

Spirito Santo

Agosto 2011

(Nota: Estar numa ‘saia justa diz-se no Rio de Janeiro quando se está numa situação inusitadamente comprometedora)

“Rasgando a Saia Justa”: Siga a série abrindo estes links:
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No Blues, no Black People: Linching! Linchamentos de negros na América


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Blood, Sweat, tears… and Fire

“Linchagem, linchamento ou lei de Lynch é o assassinato de um indivíduo, geralmente por uma multidão, sem procedimento judiciário legal e em detrimento dos direitos básicos de todo cidadão.

A origem da palavra é mais atribuída ao capitão William Lynch (1742-1820), do condado de Pittsylvania, Virgínia, que manteve um comitê para manutenção da ordem durante a revolução, por volta de 1780.”

(Fonte Wikipedia)

Choque cultural. Tratamento de choque, alguma coisa eletrocutante assim, para que os desligados, os que fazem ouvidos moucos se tocarem.

Dá náuseas olhar a realidade quadro a quadro desta máxima demonstração dos mais torpes, dos mais sórdidos instintos de nossa alegada ’humanidade’. É fácil descobrir na natureza qual é o animal mais insano e desprezível: Somos nós.

As imagens que veremos não são muito difundidas no Brasil. Todo mundo já viu uma ou duas, no máximo, já leu algo sobre isto ou assistiu a cenas parecidas com estas em algum filme daqueles onde os pretos da América sofrem, sofrem para depois de cantarem algum Godspell – ou algum Spiritual ou algum Blues – ganharem alguma redenção ou glória no the end.

(Aqui cantamos os nossos sambas lamentosos)

Brancos extasiados, rindo sadicamente enquanto assistem ao espancamento, ao enforcamento e à mutilação e queima do cadáver de um negro qualquer numa grande fogueira, ódio visceral, animal, você já viu isto por aqui? Durante a escravidão talvez.

Pense bem. Não é bem assim, certo? Não assim, nesta ordem, mas reflita temos várias formas de linchamento por aqui. Nossos assassinatos de pretos são mais pragmáticos, mais frios e seletivos, mas são linchamentos sim.

Na maioria das vezes deixamos que eles, os negros se matem uns aos outros. O máximo de sujeira nas mãos a qual nos permitimos é quando fazemos vista grossa diante de chacinas perpetradas por policiais.

São as ‘leis’ das balas perdidas, das mortes em confronto, dos autos de resistência.  Como dizia aquele Cowboy egoísta: ‘Comendo eu e meu cavalo, quem quiser pode morrer”.

Ninguém no entanto teve coragem de ir mais a fundo na prospecção desta psicopatologia animalesca (no mal sentido, claro e com o perdão dos animais) que ocorreu nos Estados Unidos da América.

São cenas revoltantes que fazem o sangue de um negro ‘normal’ ferver nas veias, aterrorizado e depois, intimamente revoltado.

_”E se me matam aqui, nesta revista policial?”

“Não vi, não quero ver”, é o que dizemos sempre.

Estas imagens revolvem os instintos de vingança mais ocultos de uns e de outros. Não queremos – Deus nos livre e guarde! – odiar outro ser humano como estes brancos da América odiaram (ou odeiam ainda, sei lá). A razão de nossa aversão – a nossa, de nós todos – só é justificável porque algum resquício de humanidade e razão em nós sobreviveu.

Mas isto a história humana está cansada de demonstrar, nunca é suficiente.

Lembrem-se. Estes rompantes de insanidade assassina, secretos as vezes, covardes, mas sempre intensos e fatais são muito comuns em nossas sociedades ‘modernas’. Eles, os genocídios ‘raciais’ ocorrem periodicamente, explodem, afloram como flores de sangue.

As vezes estão ocorrendo agora mesmo e a gente envolvida que está com a nossa própria vidinha não se dá conta. Vê, mas não dá importancia, ri, se diverte as vezes com a visão dos cadáveres que doremm nas ruas – e nem queimados foram ainda – como aqueles estúpidos do Alabama.

Muitos dos que se julgam brancos por aqui, ficarão envergonhados e constrangidos. Tentarão, involutariamente esconder estas imagens dos olhos, como se a tentar aplacar fantasmas ‘raciais’ íntimos:

“_Será que sendo branco, sou portador também desta patologia, desta propensão insana e absurda para odiar, pensar em matar e trucidar pretos?”

É Esta: Fingir que não vimos nada, nãs sabemos de nada. Com certeza esta é uma das muitas razões para o tema nunca ter sido mais divulgado entre nós:

O pudor covarde

No momento em que enojado ia selecionando as imagens que ilustram esta matéria me ocorreram várias analogias sobre como os racismos são todos semelhantes – o de lá e o de cá – como são tresloucadamente assassinos, genocidas do mesmo modo.

Me lembrei na hora daquele helicóptero fuzilando bandidos em  fuga no morro do Alemão. Me lembrei dos soldados do exército ferindo jovens inocentes no Morro da Providencia e os entregando a um bando de traficantes que os trucidaram, lançaram numa caçamba de lixo e depois num lixão no bairro vizinho (Caxias).

Lembrei também, aterrado, da incontável quantidade de vezes que fui, eu mesmo acossado por fuzis, revólveres ou metralhadoras numa parede ou num capô de uma viatura policial com PMs enlouquecidos, babando de ódio e ânsia de me trucidar apenas porque, sendo negro, ‘poderia’ ser um bandido destes qualquer.

Lembrei também – e como dói. Suo frio só de lembrar – do ódio desmedido, quase assassino que vi nos olhos de homens brancos quando me flagraram namorando, ou simplesmente abraçando uma ou outra moça branca nesta vida.

Quando vejo estas cenas não me iludo: Os assassinos de pretos estão adormecidos na alma de todo branco racista deste nosso mundo tão cão, pior que o mais hidrófobo dos cachorros.

Escrevo e divulgo estas imagens nauseado, mas é para para que ‘eles’ saibam muito bem – digo eles porque ‘nós’ já sabemos –  o quanto de insanidade pode haver num ser humano que se julga melhor e mais merecedor de vantagens sociais do que os outros, a ponto de assassinar o semelhante por força apenas desta ambição injusta e desmedida.

O Brasil vira e mexe esbarra neste abismo de insanidade ‘branca’. Este desprezo inexplicável pelo próximo.

Vendo estas imagens reflita, por favor. Não me julgue um neurótico incorrigível.

Mate o racista que mora dentro de você antes que, se apossando da sua alma vacilante, nos linche a todos.

Apague este fogo. Linche de si este demônio.

Se tiver estômago assista ao vídeo-slides que fiz para vocês. A música é a do clássico blues man Robert Johnson)

…”Nas últimas décadas do século XIX, o linchamento de negros nos estados do Sul tornou-se um método institucionalizado, usado pelos brancos para aterrorizar os negros e manter a supremacia branca.

No Sul, durante o período 1880-1940, foi uma época de profundo ódio racial e o medo dos brancos ensejou muita mobilização pela criação de uma “lei do linchamento”, como um meio de controle social.

Linchamentos e assassinatos públicos de indivíduos suspeitos de supostos crimes, realizados mais ou menos de forma espontanea por uma multidão, parece ter sido uma invenção americana.

Em “A Lei de Lynch”, a primeira investigação científica do linchamento, escrito em 1905, James E. Cutler afirmou que “linchamento é uma prática criminosa peculiar aos Estados Unidos.”

A maioria dos linchamentos foram por enforcamento ou por tiro, ou ambos. No entanto, muitos eram de natureza mais hedionda ainda, como a queima dos corpos em fogueiras, a mutilação, desmembramento de corpos, castração, e outros métodos brutais de tortura física e profanação de cadáveres.

Linchamento foi, portanto, uma combinação cruel de racismo e de sadismo, o qual era utilizado basicamente para sustentar o sistema de castas no sul. Muitos brancos acreditavam que os negros só podiam ser controlados pelo medo. Para eles, o linchamento era visto como o meio mais eficaz de controle social desta parte da população.

Há três principais fontes de estatísticas linchamento. Nenhuma delas cobriu a história completa do linchamento nos Estados Unidos. Antes de 1882, não há estatísticas confiáveis ​​de linchamentos registrados. Naquele ano, o Chicago Tribune começou a noticiar sistematicamente os linchamentos. Pouco tempo depois, em 1892, o Tuskegee Institute começou a fazer a recolha sistemática e a tabulação de estatísticas de linchamento. No início em 1912, a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor passou a manter um registro independente dos linchamentos.

Segundo os números do Tuskegee Institute, entre os anos de 1882 e 1951, 4.730 pessoas foram linchados nos Estados Unidos: 3437 brancos e 1293 negros. O maior número de linchamentos ocorreu em 1892. Das 230 pessoas linchadas naquele ano, 161 eram negros e 69 brancos.

Ao contrário do atual concepção popular, o linchamento não era um crime cometido exclusivamente contra os negros. Durante o século XIX uma minoria significativa das vítimas linchamento eram brancos.

Embora um número substancial de pessoas brancas tenham sido vítimas deste crime, contudo a grande maioria das vítimas de linchamentos, anos 90 do século 19 e depois da virada do século, eram negros.

Na verdade, o linchamento sistemático de negros, como padrão foi criado quase exclusivamente durante o período de reconstrução no pós-guerra de secessão. De acordo com o Instituto Tuskegee, segundo estatísticas para o período abrangido por este estudo, o número total de vítimas negras de linchamento foi mais de duas vezes e meia maior do que o número de brancos condenados à morte por este método (o linchamento).

Os linchamentos ocorridos nos Estados Unidos não eram um crime regional. No entanto, a grande maioria dos linchamentos no país ocorreu nos estados do Sul e na fronteira com o Norte. O economista Gunnar Myrdal disse certa vez: “Os estados do Sul são responsáveis por nove décimos dos linchamentos”.

Mais de dois terços dos restantes 1/10 tenha ocorrido nos seis estados que fazem fronteira com o Sul: Maryland, West Virginia, Ohio, Indiana, Illinois, Kansas, Mississippi, Georgia, Texas, Louisiana e Alabama foram os principais estados a praticar linchamentos sistemáticos.

 Estes cinco estados contabilizam quase metade das vítimas no total. O Mississippi teve a maior incidência de linchamentos no Sul, bem como o mais alto nacionalmente, com a Geórgia e Texas ocupando o segundo e terceiro lugares, respectivamente. No entanto, houve linchamentos no Norte e no Oeste também. Na verdade, todos os estados dos Estados Unidos continentais, com exceção de Massachusetts, Rhode Island, New Hampshire e Vermont tiveram vítimas de linchamento.

As causas atribuídas pelos brancos na justificação ou explicação dos linchamento de negros incluem de tudo, desde crimes graves até delitos menores. Em muitos casos, os negros foram linchados sem razão alguma e em todos os casos por preconceito racial. A tradição folclórica do Sul alega que os negros foram linchados apenas por cometerem crimes de estuprar mulheres brancas, um “crime inominável” e homicídio. No entanto, as estatísticas mais sérias não sustentam esta impressão.

As acusações contra as pessoas linchadas, de acordo com os registros do Instituto Tuskegee para o 1882 ano de 1951, foram: 41 por cento por agressão dolosa, 19,2 por cento para o estupro, 6,1 por cento por tentativa de estupro, 4,9 por cento para roubo e furto, 1,8 por cento por insulto a pessoas brancas, e 22,7 por cento por delitos diversos ou sem ofensa a um 11,5.

Na última categoria estão todos os tipos de “crimes triviais” como “discutir com um homem branco”, tentando se registrar para votar, “impopularidade”, auto-defesa, testemunhar contra um homem branco “, pedindo uma mulher branca em casamento” e até mesmo “assoviar da janela”.

Ser acusado de um crime não significava necessariamente que a pessoa acusada era culpada. Um estudo especial por Arthur Raper de quase cem linchamentos o convenceu de que aproximadamente um terço das vítimas foram acusadas por meio de provas falsas ou forjadas. Ocasionalmente os linchadores estavam errados quanto a identidade de suas vítimas.

O mito racista de que os negros são possuidores de “desejo incontrolável de estupro de mulheres brancas” adquiriu uma posição estratégica na defesa da prática linchamento. No entanto, os homicídios e assaltos não dolosos foram os crimes mais citados na explicação da ação dos linchadores.

Logo a seguir em importância (do ponto de vista do número de casos) com 25,3 por cento das vítimas, está o estupro ou tentativa de estupro. Quanto a estes dados em especial, Myrdal afirma: “Não há muita razão para acreditar que este número foi inflado pelo fato de que, se uma multidão faz a acusação de estupro a afirmação dispensa de antemão qualquer investigação mais aprofundada; pela definição das pessoas do Sul estupro pode significar  qualquer tipo de  relação sexual entre homens negros e mulheres brancas; e pelo medo psicopatológico das mulheres brancas diante de qualquer tipo de  contato, mesmo casual, com homens negros.

“Outro fato que refuta a falácia de estupro como sendo a principal causa de linchamentos de negros é que entre 1882 e 1927, 92 mulheres foram vítimas de linchamentos: 76 Negras e 16 brancas.

Os Linchamentos ocorreram mais comumente nas pequenas cidades e comunidades rurais isoladas do sul, onde as pessoas eram pobres, a maioria analfabeta, e onde havia uma significativa falta de diversão ou entretenimento comunitário.

As pessoas que compuseram milícias de linchadores em bairros, geralmente eram pequenos proprietários de terra, arrendatários e trabalhadores comuns, cuja situação econômica era muito parecida com a do negro. Eles frequentemente viam os homens negros como economicamente concorrentes e desenvolviam ressentimentos e inveja diante de qualquer evidencia de progresso de um negro.

Este estado de ânimo os fez enxergar na mobilização de grupos de linchadores como um meio rápido e eficaz de resolver a questão. O antagonismo racial fez então com que a matança de negros se transfromasse num tipo de diversão local que quebrava a monotonia da vida rural.

Embora a maioria dos participantes dos grupos de linchadores fossem dos estratos inferiores da sociedade branca do Sul, os brancos de classe média e alta, ocasionalmente, participavam também e geralmente a atividade ilegal era francamente tolerada. Muitos políticos e funcionários do Sul apoiaram o “linchamento”, e chegou ao poder com uma plataforma de preconceito racial.

As autoridades estaduais muitas vezes tentavam evitar linchamentos, mas raramente os linchadores eram punidos. Devido ao apoio firme no seio da opinião pública local, os linchadores raramente eram indiciados por um júri ou condenados. O juiz, o promotor, os jurados e as testemunhas, todos brancos, eram geralmente simpáticos aos linchadores.

Se condenados, os participantes dos linchamentos quase sempre eram perdoados. A polícia local e os xerifes raramente faziam alguma coisa para defender os cidadãos negros e os linchamentos que, muitas vezes eram francamente apoiados. Arthur Raper estimava a partir de um estudo de cem linchamentos, que “pelo menos metade dos linchamentos eram realizados por policiais, e que, em nove décimos dos outros casos, os oficiais ou toleravam ou fechavam os olhos para a ação das milícias de linchadores.”

Myrdal sugere várias causas e fatores para a prevalência de linchamento em áreas rurais por brancos de classe baixa: “a pobreza, o medo socio econômico em relação à ascensão dos negros, o baixo nível de educação, e o isolamento, a monotonia da vida diária e do tédio geral da vida rural em pequenas cidades”.

“No entanto, a causa fundamental dos linchamentos foi o medo do negro, base do racismo e da discriminação.”

Muitos brancos durante as primeiras quatro décadas do século XX, temiam que o negro “saísse do seu lugar” e que o status social do homem branco fosse ameaçado ou dependesse de proteção.

————–

(O texto- traduzido por mim livremente da Wikipedia  – apenas parcialmente traduzido aqui, apesar de enorme para o espaço de um blog como este, é muito elucidativo e permite várias sutis analogias com o racismo perpretado no Brasil, guardadas as devidas proporções, entre elas o fato de nossa população negra ser, quantitativa e estatísticamente imensa, o que impediria qualquer iniciativa de grupos de brancos pela prática de linchamento em massa, por razões óbvias). Se houver interesse, contudo posso prosseguir como o assunto em outro post.)

Strange Fruit

Canção escrita sobre um poema de Abel Meeropol em 1939 e gravada por Billie Holiday.(Ouça no link a gravação de Diana Ross para a filme ‘Lady sings blues’ biogafia de Billie)

Southern trees bear a strange fruit,

Blood on the leaves and blood at the root,

Black bodies swinging in the Southern breeze,

Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south

the bulging eyes and the twisted mouth

scent of magnolia

sweet and fresh

then the sudden smell of burning flesh

Here is a fruit

for the crows to pluck

for the rain to gather

for the wind to suck

for the sun to rot

for the tree to drop

Here is a strange

and bitter crop

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Spirito Santo

Agosto 2011