Batavos flamenguistas de Amsterdam

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More black iconology for all people

Está tudo lá. Vale o – quase nunca – escrito, mas vale também o desenhado, quase fotografado, gravado pelos flamenguistas de lá de Amsterdam naquele pictórico século 17.

Que jogo!

Fazer o que? A gente cavuca e cavuca por aqui e nada, quase nada aparece, fica sendo quase como fazer uma arqueologia de nós mesmos (e olha que nem estamos – nós, o Brasil – ainda tão velhos assim). Como no futebol arte, salvam algumas das nossas aparencias estes flamenguistas arqueológicos de um jogo já muito antigo, para lá de secular.

Pois é: Séulo 17! Primeiro tempo jogado ainda antes do tempo do D.João Charuto.

Nosso craque de hoje é o gravurista batavo Olfert Dapper que, mais ou menos na mesma época em que o seu conterrâneo Albert Eckhout pintava os canecos da ocupação holandesa por aqui, fazia na África, Ásia, China, Pérsia, etc. a pesquisa iconográfica de sua vida.

A bem da verdade, alguns detalhes da iconologia do jovem Dapper são de certo modo questionáveis. Muito, provavelmente ele não viajou para aquelas ‘locações’ tão distantes e insondáveis que desenhou. Tudo indica que copiou os detalhes a partir da descrição de terceiros, viajantes, cronistas, aventureiros e mercadores, não tendo sido testemunha ocular de coisa alguma.

Dapper não viu, não testemunhou aquelas cenas e situações, mas trabalhou como um desenhista de história em quadrinhos destes meticulosos, embora fantasiosos que andam por aí.

Qualquer um mais familizarizado um pouco com o tema vai perceber que o figurino dos africanos (e quiçá dos asiáticos e árabes) que Dapper desenhou é bem mais europeu do que africano. Panos e brocados demais, artesanato de menos (veja as imagens neste link) .

Tem também umas pirâmides pontudas quase risíveis, que ‘entregam’ a psicografia de Olfert mais ainda. Quem visse uma pirâmide daquelas fantásticas, jamais erraria o angulo suave de sua inclinação para o ceu daquela civilização suprema.

Falando em pirâmides aliás, existe uma imagem daquelas de fazer pirar aqueles futucadores mais meticulosos e frios: O nariz da esfinge da pirâmide de Queóps, que só nos aparece hoje mutilado, para Drapper é um nariz flagrantemente negróide, para Chank Anta Diop nenhum botar defeito.

Olferd descreve egipcios e nariz negroide de esfinge

Dapper parecia até pretender deixar bem claros certos pormenores, para barrar as más intenções da posteridade dos etnocentristas tolos que o seguiriam. Dapper não viu, não testemunhou aquelas cenas e situações, mas trabalhou, mandou muito bem.

A plástica de Pitangui na esfinge de Queóps

A plástica de Pitangui na esfinge de Queóps

(É um caso parecido – se não fosse invertido – com o livro do Hans Staden, aquele marujo aventureiro e mercenário alemão, que descreveu o que viu entre os índios do Brasil no século 16 e contou para um Theodor de Bry destes da vida contar, por sua vez em ‘retratos falados’ rebuscados, como eram os hábitos excentricos e exóticos dos Tupinambás e dos Aymorés (o churrasco ritual – de carne de gente  – entre outros).

E convenhamos: Ele também não parecia estar querendo exagerar ou iludir ninguém. Os ‘171‘ de nosso apagão historiológico vieram bem depois.

Estas nossas observações, contudo (não existe verdade absoluta, muito menos em História) precisam ser vistas no contexto do que sabemos hoje sobre o assunto. Amanhã o aprofundamento de alguma pista, o aparecimento de algum novo indício,  pode nos ‘provar’, exatamente o contrário.

O fato é que – tirando o esforço interesseiro de Maurício de Nassau aqui no Recife tropical, pouco ou nenhum investimento se fazia naquela época para bancar expedições e missões artísticas que flagrassem, in loco, os modos de ser dos outros povos de fora do rococó mundinho fino europeu.

O trabalho dele, Drapper, contudo é tão importante quanto genial. Sem ele, por exemplo, alguns odiadores de negros por aí iriam estar até hoje, impunemente como uma TV Globo desbotada, vendendo o peixe podre de que os reinos africanos não passavam de amontoados de palhoças cheias de gente pelada comendo banana.

Neste chicotinho queimado de nosso escondido pézinho na cozinha africana, alguns indícios e evidencias muito quentes aparecem fulgurantes nas gravuras de Dapper. As pistas mais claras são aquelas  que indicam as datas das viagens dos informantes de Dapper como sendo a mesma época da dominação holandesa em Angola e Brasil (década de 40 do século 17).

É fácil demais constatar isto pela circunscrição dos cenários de quase todas as gravuras africanas de Dapper à área do antigo Reinos do Loango (cujo perímetro urbano  aparece numa visão panorâmica magestosa), do Kongo e do Nsoyo,  no qual pontificava à época o mandatário cujo nome portugues era Dom Daniel da Silva (que aparece impávido numa das gravuras). Muitas práticas e hábitos culturais daquelas pessoas, portanto, aparecidos nestas gravuras quando cruzados com os relatos escritos nas quais estas gravuras se basearam, podem esclarecer bastante coisa sobre este remoto passado de todos nós.

Cheios de detalhes historiólogicos preciosos, os  ‘retratos falados’ de Dapper desmentem, pois, as falastronices despeitadas de certos ‘estudiosos’ de tempos posteriores a ele, cabalmente.

(E agora façam careta e dêem vaias para estes’desestoriadores‘ que eles merecem:

_ Úuuuuu!

Todo mundo sabe: Rola por aí um mito historiográfico que sugere que, se fossemos colonizados pelos holandeses teríamos ido mais longe como sociedade. É um mito bem bobo, claro. Imagina: De que nos valeria termos sido colonizados por este ou por aquele xexelento invasor europeu? Mais há um aspecto curioso nisto tudo aí sim, que merece atenção dos estudiosos.

Reparem que aí em baixo o texto do Musée Dapper  fala do ‘humanismo’ de Olfer e da ausencia de etnocentrismo em seu trabalho, um aspecto significativo que parece comum no trabalho de vários artistas holandeses do período (além de Dapper, Albert Eckhout, Franz Post, Valkemburg, etc.).

Há sim – me perdoem os anticolonialistas mais radicais – um certo espírito humanista (de viés calvinista, talvez) que deu ao trabalho destes artistas flamengos uma valor etnológico bem especial. É uma mão na roda para quem precisa entender tintim por tintim de onde viemos e o que somos.

Eu acho.

Olfert Dapper é o nosso artilheiro flamenguista da vez

(Texto-resenha original do Museé Dapper Foundation – tradução Spírito Santo)

(VEJA as obras de Olfert Drapper AQUI neste link)

“Gravurista importante do século 17, um dos muitos mestres das formidáveis artes plásticas holandesas do período, Olferd Dapper,  nasceu em um bairro operário de Amsterdã, por volta de 1635.

Foi batizado na igreja luterana em janeiro de 1636. Se matriculando em maio de 1658, na Universidade de Utrecht e dois anos depois se formando doutor em medicina, embora não haja evidência alguma de que tenha  recebido, realmente algum treinamento na área da medicina.

Ao contrário de seus contemporâneos, Olferd Dapper nunca teve um seu retrato reproduzido em seus livros.

Olfert Dapper publicou em 1663 uma minuciosoa descrição histórica de Amsterdam, seguindo por uma tradução holandesa das obras de Heródoto, em 1665 e, a partir daí, muito outros trabalhos logo fluiram de sua pena.

Seguindo uma tendência muito em voga em Amsterdam (a publicação de obras etnológicas e geo-históricas) Dapper tinha pouco mais de trinta anos quando embarcou na pesquisa a qual iriaa se dedicar pelo resto da vida.

Ele se lançou com afinco neste vasto projeto de pesquisa, abordando primeiro Africa (1668), em seguida, China (1670), a Pérsia e na Geórgia (1672) e a Arábia (1680).

Hoje, ‘Descrição da África’ é a sua obra mais conhecida. Apenas duas cópias muito raras da edição holandesa sobreviveram, publicada pela gráfica de Jacob Van Meurs entre 1668 e 1676.

Dois anos após a publicação inicial, o inglês John Ogilby produziu o que provou ser uma tradução pouco confiável. A versão alemã apareceu no ano seguinte, enquanto a tradução francesa foi publicada em 1686.

No total Dapper passou três anos pesquisando seu livro sobre a África, estudando uma quantidade enorme de livros de geografia e história, bem como numerosos relatos de viajantes.

Não se contentando em simplesmente compilar fatos, Dapper produziu uma síntese admirável de documentos que havia consultado. Embora algumas das informações neles contidas devam ser vistas com cautela, sua ‘Descrição da África’* continua a ser um texto-chave para africanistas.

Longe de fazer juízos de valor sobre as sociedades que ele descreveu, Dapper evitou dar conotações etnocêntricas à sua pesquisa e se tornou a primeira pessoa a adotar uma abordagem interdisciplinar, tecendo os fios separados da geografia, economia, política, medicina, vida social e costumes. Ao contrário de alguns de seus contemporâneos, Dapper produziu uma autêntica obra para a posteridade, não apenas um compêndio de curiosidades exóticas.”

*O texto condensado está publicado em ‘Objets interdits, Éditions Dapper, 1989’,  com textos introdutórios sobre a vida e obras de Olfert Dapper. O texto integral pode ser consultado no site Gallica da Bibliothèque Nationale de France.

Spírito Santo
Agosto 2011

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~ por Spirito Santo em 05/08/2011.

3 Respostas to “Batavos flamenguistas de Amsterdam”

  1. Daniel,

    Fantásticas as pinturas. É impressionante o quanto o Eckhout e outros pintores da escola flamenga foram importantes para a nossa iconografia. Queria muito saber mais detalhes sobre estas inturas. A possibilidade delas terem sido feitas no Brasil, ao menos baseadas em dados angolanos (os detalhes são intrigantes) é eletrizante.

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  2. Fantásticas as pinturas. É impressionante o quanto o Eckhout e outros pintores da escola flamenga foram importantes para a nossa iconografia. Queria muito saber mais detalhes sobre estas inturas. A possibilidade delas terem sido feitas no Brasil, ao menos baseadas em dados angolanos (os detalhes são intrigantes) é eletrizante.

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  3. Spirito Santo, vou te mandar por email algumas pinturas preciosas que achei no livro:ALBERT ECKHOUT: VISOES DO PARAISO SELVAGEM, desculpe pela demora.

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