No Blues, no Black People: Linching! Linchamentos de negros na América

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Blood, Sweat, tears… and Fire

“Linchagem, linchamento ou lei de Lynch é o assassinato de um indivíduo, geralmente por uma multidão, sem procedimento judiciário legal e em detrimento dos direitos básicos de todo cidadão.

A origem da palavra é mais atribuída ao capitão William Lynch (1742-1820), do condado de Pittsylvania, Virgínia, que manteve um comitê para manutenção da ordem durante a revolução, por volta de 1780.”

(Fonte Wikipedia)

Choque cultural. Tratamento de choque, alguma coisa eletrocutante assim, para que os desligados, os que fazem ouvidos moucos se tocarem.

Dá náuseas olhar a realidade quadro a quadro desta máxima demonstração dos mais torpes, dos mais sórdidos instintos de nossa alegada ’humanidade’. É fácil descobrir na natureza qual é o animal mais insano e desprezível: Somos nós.

As imagens que veremos não são muito difundidas no Brasil. Todo mundo já viu uma ou duas, no máximo, já leu algo sobre isto ou assistiu a cenas parecidas com estas em algum filme daqueles onde os pretos da América sofrem, sofrem para depois de cantarem algum Godspell – ou algum Spiritual ou algum Blues – ganharem alguma redenção ou glória no the end.

(Aqui cantamos os nossos sambas lamentosos)

Brancos extasiados, rindo sadicamente enquanto assistem ao espancamento, ao enforcamento e à mutilação e queima do cadáver de um negro qualquer numa grande fogueira, ódio visceral, animal, você já viu isto por aqui? Durante a escravidão talvez.

Pense bem. Não é bem assim, certo? Não assim, nesta ordem, mas reflita temos várias formas de linchamento por aqui. Nossos assassinatos de pretos são mais pragmáticos, mais frios e seletivos, mas são linchamentos sim.

Na maioria das vezes deixamos que eles, os negros se matem uns aos outros. O máximo de sujeira nas mãos a qual nos permitimos é quando fazemos vista grossa diante de chacinas perpetradas por policiais.

São as ‘leis’ das balas perdidas, das mortes em confronto, dos autos de resistência.  Como dizia aquele Cowboy egoísta: ‘Comendo eu e meu cavalo, quem quiser pode morrer”.

Ninguém no entanto teve coragem de ir mais a fundo na prospecção desta psicopatologia animalesca (no mal sentido, claro e com o perdão dos animais) que ocorreu nos Estados Unidos da América.

São cenas revoltantes que fazem o sangue de um negro ‘normal’ ferver nas veias, aterrorizado e depois, intimamente revoltado.

_”E se me matam aqui, nesta revista policial?”

“Não vi, não quero ver”, é o que dizemos sempre.

Estas imagens revolvem os instintos de vingança mais ocultos de uns e de outros. Não queremos – Deus nos livre e guarde! – odiar outro ser humano como estes brancos da América odiaram (ou odeiam ainda, sei lá). A razão de nossa aversão – a nossa, de nós todos – só é justificável porque algum resquício de humanidade e razão em nós sobreviveu.

Mas isto a história humana está cansada de demonstrar, nunca é suficiente.

Lembrem-se. Estes rompantes de insanidade assassina, secretos as vezes, covardes, mas sempre intensos e fatais são muito comuns em nossas sociedades ‘modernas’. Eles, os genocídios ‘raciais’ ocorrem periodicamente, explodem, afloram como flores de sangue.

As vezes estão ocorrendo agora mesmo e a gente envolvida que está com a nossa própria vidinha não se dá conta. Vê, mas não dá importancia, ri, se diverte as vezes com a visão dos cadáveres que doremm nas ruas – e nem queimados foram ainda – como aqueles estúpidos do Alabama.

Muitos dos que se julgam brancos por aqui, ficarão envergonhados e constrangidos. Tentarão, involutariamente esconder estas imagens dos olhos, como se a tentar aplacar fantasmas ‘raciais’ íntimos:

“_Será que sendo branco, sou portador também desta patologia, desta propensão insana e absurda para odiar, pensar em matar e trucidar pretos?”

É Esta: Fingir que não vimos nada, nãs sabemos de nada. Com certeza esta é uma das muitas razões para o tema nunca ter sido mais divulgado entre nós:

O pudor covarde

No momento em que enojado ia selecionando as imagens que ilustram esta matéria me ocorreram várias analogias sobre como os racismos são todos semelhantes – o de lá e o de cá – como são tresloucadamente assassinos, genocidas do mesmo modo.

Me lembrei na hora daquele helicóptero fuzilando bandidos em  fuga no morro do Alemão. Me lembrei dos soldados do exército ferindo jovens inocentes no Morro da Providencia e os entregando a um bando de traficantes que os trucidaram, lançaram numa caçamba de lixo e depois num lixão no bairro vizinho (Caxias).

Lembrei também, aterrado, da incontável quantidade de vezes que fui, eu mesmo acossado por fuzis, revólveres ou metralhadoras numa parede ou num capô de uma viatura policial com PMs enlouquecidos, babando de ódio e ânsia de me trucidar apenas porque, sendo negro, ‘poderia’ ser um bandido destes qualquer.

Lembrei também – e como dói. Suo frio só de lembrar – do ódio desmedido, quase assassino que vi nos olhos de homens brancos quando me flagraram namorando, ou simplesmente abraçando uma ou outra moça branca nesta vida.

Quando vejo estas cenas não me iludo: Os assassinos de pretos estão adormecidos na alma de todo branco racista deste nosso mundo tão cão, pior que o mais hidrófobo dos cachorros.

Escrevo e divulgo estas imagens nauseado, mas é para para que ‘eles’ saibam muito bem – digo eles porque ‘nós’ já sabemos –  o quanto de insanidade pode haver num ser humano que se julga melhor e mais merecedor de vantagens sociais do que os outros, a ponto de assassinar o semelhante por força apenas desta ambição injusta e desmedida.

O Brasil vira e mexe esbarra neste abismo de insanidade ‘branca’. Este desprezo inexplicável pelo próximo.

Vendo estas imagens reflita, por favor. Não me julgue um neurótico incorrigível.

Mate o racista que mora dentro de você antes que, se apossando da sua alma vacilante, nos linche a todos.

Apague este fogo. Linche de si este demônio.

Se tiver estômago assista ao vídeo-slides que fiz para vocês. A música é a do clássico blues man Robert Johnson)

…”Nas últimas décadas do século XIX, o linchamento de negros nos estados do Sul tornou-se um método institucionalizado, usado pelos brancos para aterrorizar os negros e manter a supremacia branca.

No Sul, durante o período 1880-1940, foi uma época de profundo ódio racial e o medo dos brancos ensejou muita mobilização pela criação de uma “lei do linchamento”, como um meio de controle social.

Linchamentos e assassinatos públicos de indivíduos suspeitos de supostos crimes, realizados mais ou menos de forma espontanea por uma multidão, parece ter sido uma invenção americana.

Em “A Lei de Lynch”, a primeira investigação científica do linchamento, escrito em 1905, James E. Cutler afirmou que “linchamento é uma prática criminosa peculiar aos Estados Unidos.”

A maioria dos linchamentos foram por enforcamento ou por tiro, ou ambos. No entanto, muitos eram de natureza mais hedionda ainda, como a queima dos corpos em fogueiras, a mutilação, desmembramento de corpos, castração, e outros métodos brutais de tortura física e profanação de cadáveres.

Linchamento foi, portanto, uma combinação cruel de racismo e de sadismo, o qual era utilizado basicamente para sustentar o sistema de castas no sul. Muitos brancos acreditavam que os negros só podiam ser controlados pelo medo. Para eles, o linchamento era visto como o meio mais eficaz de controle social desta parte da população.

Há três principais fontes de estatísticas linchamento. Nenhuma delas cobriu a história completa do linchamento nos Estados Unidos. Antes de 1882, não há estatísticas confiáveis ​​de linchamentos registrados. Naquele ano, o Chicago Tribune começou a noticiar sistematicamente os linchamentos. Pouco tempo depois, em 1892, o Tuskegee Institute começou a fazer a recolha sistemática e a tabulação de estatísticas de linchamento. No início em 1912, a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor passou a manter um registro independente dos linchamentos.

Segundo os números do Tuskegee Institute, entre os anos de 1882 e 1951, 4.730 pessoas foram linchados nos Estados Unidos: 3437 brancos e 1293 negros. O maior número de linchamentos ocorreu em 1892. Das 230 pessoas linchadas naquele ano, 161 eram negros e 69 brancos.

Ao contrário do atual concepção popular, o linchamento não era um crime cometido exclusivamente contra os negros. Durante o século XIX uma minoria significativa das vítimas linchamento eram brancos.

Embora um número substancial de pessoas brancas tenham sido vítimas deste crime, contudo a grande maioria das vítimas de linchamentos, anos 90 do século 19 e depois da virada do século, eram negros.

Na verdade, o linchamento sistemático de negros, como padrão foi criado quase exclusivamente durante o período de reconstrução no pós-guerra de secessão. De acordo com o Instituto Tuskegee, segundo estatísticas para o período abrangido por este estudo, o número total de vítimas negras de linchamento foi mais de duas vezes e meia maior do que o número de brancos condenados à morte por este método (o linchamento).

Os linchamentos ocorridos nos Estados Unidos não eram um crime regional. No entanto, a grande maioria dos linchamentos no país ocorreu nos estados do Sul e na fronteira com o Norte. O economista Gunnar Myrdal disse certa vez: “Os estados do Sul são responsáveis por nove décimos dos linchamentos”.

Mais de dois terços dos restantes 1/10 tenha ocorrido nos seis estados que fazem fronteira com o Sul: Maryland, West Virginia, Ohio, Indiana, Illinois, Kansas, Mississippi, Georgia, Texas, Louisiana e Alabama foram os principais estados a praticar linchamentos sistemáticos.

 Estes cinco estados contabilizam quase metade das vítimas no total. O Mississippi teve a maior incidência de linchamentos no Sul, bem como o mais alto nacionalmente, com a Geórgia e Texas ocupando o segundo e terceiro lugares, respectivamente. No entanto, houve linchamentos no Norte e no Oeste também. Na verdade, todos os estados dos Estados Unidos continentais, com exceção de Massachusetts, Rhode Island, New Hampshire e Vermont tiveram vítimas de linchamento.

As causas atribuídas pelos brancos na justificação ou explicação dos linchamento de negros incluem de tudo, desde crimes graves até delitos menores. Em muitos casos, os negros foram linchados sem razão alguma e em todos os casos por preconceito racial. A tradição folclórica do Sul alega que os negros foram linchados apenas por cometerem crimes de estuprar mulheres brancas, um “crime inominável” e homicídio. No entanto, as estatísticas mais sérias não sustentam esta impressão.

As acusações contra as pessoas linchadas, de acordo com os registros do Instituto Tuskegee para o 1882 ano de 1951, foram: 41 por cento por agressão dolosa, 19,2 por cento para o estupro, 6,1 por cento por tentativa de estupro, 4,9 por cento para roubo e furto, 1,8 por cento por insulto a pessoas brancas, e 22,7 por cento por delitos diversos ou sem ofensa a um 11,5.

Na última categoria estão todos os tipos de “crimes triviais” como “discutir com um homem branco”, tentando se registrar para votar, “impopularidade”, auto-defesa, testemunhar contra um homem branco “, pedindo uma mulher branca em casamento” e até mesmo “assoviar da janela”.

Ser acusado de um crime não significava necessariamente que a pessoa acusada era culpada. Um estudo especial por Arthur Raper de quase cem linchamentos o convenceu de que aproximadamente um terço das vítimas foram acusadas por meio de provas falsas ou forjadas. Ocasionalmente os linchadores estavam errados quanto a identidade de suas vítimas.

O mito racista de que os negros são possuidores de “desejo incontrolável de estupro de mulheres brancas” adquiriu uma posição estratégica na defesa da prática linchamento. No entanto, os homicídios e assaltos não dolosos foram os crimes mais citados na explicação da ação dos linchadores.

Logo a seguir em importância (do ponto de vista do número de casos) com 25,3 por cento das vítimas, está o estupro ou tentativa de estupro. Quanto a estes dados em especial, Myrdal afirma: “Não há muita razão para acreditar que este número foi inflado pelo fato de que, se uma multidão faz a acusação de estupro a afirmação dispensa de antemão qualquer investigação mais aprofundada; pela definição das pessoas do Sul estupro pode significar  qualquer tipo de  relação sexual entre homens negros e mulheres brancas; e pelo medo psicopatológico das mulheres brancas diante de qualquer tipo de  contato, mesmo casual, com homens negros.

“Outro fato que refuta a falácia de estupro como sendo a principal causa de linchamentos de negros é que entre 1882 e 1927, 92 mulheres foram vítimas de linchamentos: 76 Negras e 16 brancas.

Os Linchamentos ocorreram mais comumente nas pequenas cidades e comunidades rurais isoladas do sul, onde as pessoas eram pobres, a maioria analfabeta, e onde havia uma significativa falta de diversão ou entretenimento comunitário.

As pessoas que compuseram milícias de linchadores em bairros, geralmente eram pequenos proprietários de terra, arrendatários e trabalhadores comuns, cuja situação econômica era muito parecida com a do negro. Eles frequentemente viam os homens negros como economicamente concorrentes e desenvolviam ressentimentos e inveja diante de qualquer evidencia de progresso de um negro.

Este estado de ânimo os fez enxergar na mobilização de grupos de linchadores como um meio rápido e eficaz de resolver a questão. O antagonismo racial fez então com que a matança de negros se transfromasse num tipo de diversão local que quebrava a monotonia da vida rural.

Embora a maioria dos participantes dos grupos de linchadores fossem dos estratos inferiores da sociedade branca do Sul, os brancos de classe média e alta, ocasionalmente, participavam também e geralmente a atividade ilegal era francamente tolerada. Muitos políticos e funcionários do Sul apoiaram o “linchamento”, e chegou ao poder com uma plataforma de preconceito racial.

As autoridades estaduais muitas vezes tentavam evitar linchamentos, mas raramente os linchadores eram punidos. Devido ao apoio firme no seio da opinião pública local, os linchadores raramente eram indiciados por um júri ou condenados. O juiz, o promotor, os jurados e as testemunhas, todos brancos, eram geralmente simpáticos aos linchadores.

Se condenados, os participantes dos linchamentos quase sempre eram perdoados. A polícia local e os xerifes raramente faziam alguma coisa para defender os cidadãos negros e os linchamentos que, muitas vezes eram francamente apoiados. Arthur Raper estimava a partir de um estudo de cem linchamentos, que “pelo menos metade dos linchamentos eram realizados por policiais, e que, em nove décimos dos outros casos, os oficiais ou toleravam ou fechavam os olhos para a ação das milícias de linchadores.”

Myrdal sugere várias causas e fatores para a prevalência de linchamento em áreas rurais por brancos de classe baixa: “a pobreza, o medo socio econômico em relação à ascensão dos negros, o baixo nível de educação, e o isolamento, a monotonia da vida diária e do tédio geral da vida rural em pequenas cidades”.

“No entanto, a causa fundamental dos linchamentos foi o medo do negro, base do racismo e da discriminação.”

Muitos brancos durante as primeiras quatro décadas do século XX, temiam que o negro “saísse do seu lugar” e que o status social do homem branco fosse ameaçado ou dependesse de proteção.

————–

(O texto- traduzido por mim livremente da Wikipedia  – apenas parcialmente traduzido aqui, apesar de enorme para o espaço de um blog como este, é muito elucidativo e permite várias sutis analogias com o racismo perpretado no Brasil, guardadas as devidas proporções, entre elas o fato de nossa população negra ser, quantitativa e estatísticamente imensa, o que impediria qualquer iniciativa de grupos de brancos pela prática de linchamento em massa, por razões óbvias). Se houver interesse, contudo posso prosseguir como o assunto em outro post.)

Strange Fruit

Canção escrita sobre um poema de Abel Meeropol em 1939 e gravada por Billie Holiday.(Ouça no link a gravação de Diana Ross para a filme ‘Lady sings blues’ biogafia de Billie)

Southern trees bear a strange fruit,

Blood on the leaves and blood at the root,

Black bodies swinging in the Southern breeze,

Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south

the bulging eyes and the twisted mouth

scent of magnolia

sweet and fresh

then the sudden smell of burning flesh

Here is a fruit

for the crows to pluck

for the rain to gather

for the wind to suck

for the sun to rot

for the tree to drop

Here is a strange

and bitter crop

—————-

Spirito Santo

Agosto 2011

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~ por Spirito Santo em 07/08/2011.

2 Respostas to “No Blues, no Black People: Linching! Linchamentos de negros na América”

  1. olha, Spirito…sem muitos comentários e nem digressões (pq tudo o que se poderia dizer já foi dito -e muito bem dito – em sua matéria…), a respeito…

    Só me (nos ??…) resta lamentar muito cabisbaixos esse holocausto “disfarçado” à céu aberto…

    e tudo isso ouvindo esse (e outros tantos…) Blues…

    “Blood on the leaves and blood at the root…”

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  2. infelizmente os americanos estão esquecendo desta parte sombria de sua historia

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