Bantu versus Yoruba: A diáspora no espelho

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Dia de Odum Ijeshu

Dia de Odum Ijeshu

A luta errada do roto contra o esfarrapado.

Rasgando a ‘Saia-Justa’ – Post # 03

O Calcanhar de Aquiles da luta anti racista é isto aí, meu brother.

 “…Vou sugerir que esta elite africana na Bahia acumulou sua riqueza através de investimentos consistentes em escravos (e às vezes no comércio ilegal no Atlântico), e no ramo imobiliário, conquistando mobilidade econômica, mas não direitos políticos ou “cidadania”, promovendo assim uma relativa endogamia social africana…”

(Luiz Nicolau Parés, em tradução livre do original em inglês, referindo-se á liderança religiosa nagô-yorubana nos terreiros de Candomblé da bahia na segunda metade do século 19 em “ The Nagôization process of Brazilian Candomblé” )

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Sou meio mineiro. Atribui-se aos mineiros este ditado popular tão pouco brasileiro:

“Dou um boi para entrar numa briga, mas depois que entro dou uma boiada para não sair”

Pensei nisto agora quando, envolvido até os ossos nesta saga de contar uma história possível dos bantu, me vi arrastado para a pendenga de ter que explicar afinal, porque cargas d’água vivo afirmando por aí que os ‘nagôs’ não são lá esta coisa toda que dizem.

Você sabe o que é nagô, certo? E Bantu, sabe o que é? Então vamos em frente.

Dia destes me provocaram a falar sobre as origens do Samba e da cultura negra que o envolve, numa palestra numa entidade do movimento negro aqui do Rio de Janeiro. Fiquei curiosíssimo com a constatação de que todos os palestrantes antes de mim, falando sobre temas os mais diversos (estratificação urbana no ‘Bota-Abaixo’ do tempo do prefeito Pereira Passos, saúde, psicologia, etc.) apoiavam e embasavam seus argumentos mais enfáticos na suposta filosofia do Candomblé e dos Yorubas, como se, à exemplo do Marxismo ou do Construtivismo, sei lá, o Candomblé fosse mesmo uma espécie de doutrina científica superior, de alto nível civilizatório, uma ideologia elevada, que sendo uma sabedoria exclusiva dos negros, deveria ser tratada como uma doutrina racial hegemônica, diante das outras filosofias  ‘de preto‘, ‘crioulas‘, consideradas ‘impuras‘.

Assim, o jeito de viver em habitações coletivas (‘cabeças de porco’) alvo da campanha higienista que expulsou os negros e os pobres do centro da cidade do Rio de Janeiro em 1906, seria uma ‘prática social africana‘ e não uma contingência absoluta da miséria em que aquelas pessoas eram obrigadas a viver, fenômeno, aliás, comum em todas as grandes cidades do mundo na virada do século 19 para o 20, inclusive Nova York.

Do mesmo modo, a rica farmacologia tradicional brasileira, em seu aspecto fitoterápico, contributo de vários povos tradicionais, não só africanos como indígenas também, seria uma contribuição exclusiva da sabedoria yoruba, contida no Candomblé.

_Gente de Deus! _ pensei eu.

Menos. Menos. Isto é um proselitismo muito desembestado. Nenhuma cultura vai para frente aferrada assim a embasamentos tão rasteiros e descabelados. É a mesma coisa que explicar tudo pela Bíblia. Legítimo acreditar, mas de científico, á vera mesmo nada a ver, não é?

Bem, o fato é que falei pelos cotovelos e fiquei mais surpreso ainda que as pessoas boquiabertas que me ouviam. Como pode ninguém ali ter se dado conta da armadilha em que estamos aprisionados, defendendo alegações absolutamente desprovidas de fundamento? Se bem que percebi que algumas pessoas, as mais doutas entre todas, me olhavam de banda, meio que me armando arapucas conceituais do tipo:

_”É, mas ao criticar a supremacia nagô você está é propondo uma supremacia bantu. Qual é o problema dos yorubas serem superiores?”

Ora, nem levo mais a sério estas contra argumentações ocas de sentido. Elas nem se aguentam em pé por falta de elementos e dados minimamente convincentes.

Observem só:

Quando se instiga os adeptos da ‘supremacia nagô’ a nos fornecer estes argumentos válidos para explicar afinal as razões de ser desta alegada ‘superioridade’ da cultura yoruba, eles nos acenam com um arrazoado pseudo historiográfico que, supostamente nos dá conta de razões básicas, para mim com jeito de sofismas bem malandreados:

A primeira razão que alegam é a da vinda em massa de escravos yorubas nos últimos anos do tráfico oficial (por volta de 1850) forçada pela derrota dos yorubas para os invasores ingleses, o que teria ensejado a vinda para cá de importantes líderes dos reinos conquistados, seres ‘superiores’ que teriam trazido para o Brasil este DNA magestoso…nobre e superior.

(‘Nobre e superior’? Hum… parece até aquele papo do Erich Von Däniken, lembram?… Seriam os Deuses astronautas”?)

Pois vejam: esta é uma tese clássica – lançada por Pierre Verger, só que lida superficialmente. Verger – um ‘nagoista’ no bom sentido –  fala sim do interessante fenômeno da sobrevivência da cultura yoruba no Brasil, mas com certeza não cai no conto da carochinha de afirmar ‘supremacia cultural’ de quem quer que seja.

Não é preciso nem ser historiador para se constatar que os tais ‘razões historiográficas’ da supremacia nagô às quais os proselitistas mais espertos se referem, ocorreram de forma generalizada nesta parte do continente africano que nos diz respeito. Ou seja: rigorosamente todos os reinos africanos da Costa ocidental, das fraldas do Ghana até o Sul de Angola foram, ou destruídos ou assimilados, tornados títeres pau-mandados, portanto das metrópoles européias que os invadiram e dominaram na segunda metade do século 19. É óbvio que veio gente de alto nível, líderes religiosos inclusive, de toda esta região. A África toda desta parte do continente tem que estar em nós.

_E Olha o neo-colonialismo aí, gente!

(Aos desatentos – ai como é urgente repetir isto – precisamos dizer que este pedaço da costa ocidental africana que ‘nos diz respeito’ é aquele que avança pelo litoral de Ghana até o da Nigéria, excluindo uma vasta área da costa da Guiné, do Senegal e do Camarões propriamente dita, dominada mais ou menos do século 17 ao 19 por outras potencias européias (principalmente a França) para se espraiar depois pela grande área bantu que é hoje o que conhecemos como República de Angola, única área – além de Moçambique- incontestavelmente dominada pelos portugueses.)

E isto não é ‘bantuísmo anti-nagoista’ não, gente. Isto é um imperativo histórico já perfeitamente estabelecido. Infelizmente para alguns fanáticos da supremacia yoruba, este é um fato já irrefutável, inquestionável. Fazer o que?

Logo, é mais do que evidente que para cá vieram pessoas, populações, grupos étnicos de toda esta enorme costa marítima e – o que é fundamental – não apenas, nem predominantemente da área dos ketu, Yoruba, Ewe, etc.

Ou seja, veio gente daí desta área supostamente ‘nobre’ sim, mas não em quantidade tão considerável a ponto de influenciar de forma tão impactante a formação religiosa da maioria dos afro-descendentes das Américas. Aliás, a grandeza de várias outras culturas africanas é fato perfeitamente constatável quando se faz uma pesquisa mais aprofundada sobre o assunto.

A suposta ‘superioridade mítico-religiosa’ yoruba’ no Brasil precisa ser, portanto explicada por meio de outras razões bem menos prosaicas e diretas.

Devia ser óbvio isto, não é não?

Só para enfernizar a conversa, eu poderia sugerir, por exemplo, que toda a família ‘real’ do Reino de Palmares deve ter sido gerada por um ou mais ‘altos dignatários’ do Reino do Kongo, acossado e destruído em 1665 pelos portugueses (eu mesmo já tenho em meus alfarrábios elementos em profusão que sugerem, quase provam esta possibilidade instigante)

E é por aí que localizamos o lugar exato onde a porca dos ‘supremacistas nagôs’ torce o rabo: Uma religião de um grupo restrito de adeptos originais – e o Candomblé não é muito mais do que isto – nenhuma religião para sermos exatos, dá conta de explicar a história e a cultura de um povo tão imenso e diverso quanto o que habita este nosso Brasil. E isto mesmo se estivéssemos falando apenas de afro-descendentes que, como bem sabemos representam a maioria de nós.

A grande armadilha – e olha que é apenas a principal e não a única – que os estudos do negro no Brasil estão aprisionados parece ser esta: Termos aceitado, por diversas razões, estratégias, artifícios e estratagemas – para bem e/ou para o mal – esta bazófia pomposa da ‘elevada’ cultura de uma suposta aristocracia negra, subalternizando toda a cultura negra restante (chamando-a pejorativamente de ‘crioula’), reduzindo, subordinando a nossa historiografia afro-diaspórica tão rica e diversa, dando foros de ciência a toda a esta montanha de mistificações conceituais concentradas neste Candomblé para inglês ver.

Infelizmente, o Candomblé ideológico, oficial é esta coisa construída, inventada – tanto por ‘brancos‘ quanto por ‘negros’ – com terceiras intenções, cheia de velhas explicações coloniais que as pessoas bem pensantes mais influentes entre nós ainda se aferram em defender – quase desesperadamente – ao que parece por não terem outros conhecimentos estabelecidos para por no lugar.

Ora, basta reler,reestudar, rever, revisar. Ninguém nasce sabendo.

O fato é que é preciso acordar logo deste delírio político e cultural ingênuo e ver que esta mistificação arraigada em nós (tão constrangedora quando é assim desnudada) muito mal e porcamente oculta, com o rabo de fora, esta velha balela da ‘supremacia sudanesa’, nagô, yorubana, baiana, sei lá, por extensão acaba afirmando sim é uma improvável ‘inferioridade’ negra diante de uma não menos fiada, esfarrapada ‘superioridade’ branca.

Convenhamos que isto não deveria mais ser uma opinião corroborada por nós mesmos, assim, como se fossemos culturalistas do engodo, ‘cornos sabidos’ conceituais.

Coisa de ‘pai-joão’ isto aí. Outros – os que levam vantagem com esta idéia de jerico – que a defendam. Nós não.

Com o perdão da analogia infame, este proselitismo candoblecista-nagô-yorubano é quase como aquele pensamento limitado por antolhos, dos criacionistas evangélicos que defendem até a morte, que o homem não nasceu de algum tipo de macaco, simplesmente porque acham que os macacos são feios, são ‘pregos’, idiotas e primitivos. Ora, qualquer um que já olhou no fundo dos olhos de um macaco sabe:

O macaco sabe tudo e sempre está certo!

Nem devia ser preciso dizer, mas quando se estuda a cultura de um povo – mesmo uma população de macacos – é necessário observá-la como um todo e não apenas sobre o ponto de vista de uma elite dominante, dos maneirismos de reis, de aristocratas, etc. Esta maneira de pesquisar bicho-gente, esta antropologia blasé, presunçosa e arrogante de eleger cercadinhos étnicos ‘vips’, está morta desde o século 15!

Infelizmente este aspecto de seita ou doutrina voltada para a ascensão social de uma casta, de uma elite, que nos aparece cada vez mais evidente no cerne deste Candomblé (e existem fontes comprovando isto, vocês verão), pode encerrar – enquanto ideologia, bem entendido – uma contradição terrível para a luta contra o racismo no Brasil. Um nó que será muito difícil de desatar.

É. Esta tal de supremacia nagô sofre mesmo é da Síndrome da Rainha-Má no espelho:

_“Espelho, espelho meu, existe alguém mais afro do que eu?”

Voltar os olhos para trás, para um passado supostamente glorioso, ignorando os outros aspectos de nossa cultura geral (por preconceito religioso, inclusive, já que o estigma, a  pecha lançada contra os bantu é acusá-los de ‘ter partes’ com o demônio do catolicismo) é para mim um equívoco trágico, muito nocivo à nossa boa e dócil negritude nacional.

(E vamos combinar: Cavucando no fundo no fundo o Candomblé bem que pode ter um pezinho no catolicismo sim, no islamismo também. E vem cá: Este negócio de Pureza Étnica é mesmo papo de negão? Eu heim, mermão!)

Exaltar, de forma tão destituída de fundamentos uma única religião, cristalizada, congelada no tempo, supostamente mais ‘pura’, mais ‘africana’, apenas porque ela nos parece composta por elementos mais ‘altamente dignificantes’, ‘superiores’, a esta altura da história do mundo racista em que vivemos, não lhes parece ignorancia muito suicida não?

É falsa – posso garantir – esta polêmica ‘Bantu X Nagô’. O nosso nó cego sócio emocional não é este aí não. Ele é esta ‘saia justa’ de nos dividirmos ainda hoje em ‘negros puros’ e ‘negros impuros’, esta farsa racista conosco mesmo, que ninguém quer rasgar ou mesmo encarar (e este Calcanhar de Aquiles , dói mais do que dor de cotovelo porque é a dor do nosso desamor por nós mesmos. A nossa auto estima perdida, desprezada e ultrajada).

Mancos nesta luta anti racista travada (porque estamos sim travados por esta ideologia carnavalizada, cheia de alegorias e ‘oba-obas’ clássicos) precisamos levar logo este nosso Calcanhar de Aquiles ao ortopedista, antes que o nosso destino seja sentar na cadeira de rodas do conformismo de uma vez por todas.

É preciso lembrar que um Brasil democrático sem a supremacia de nada e de quem quer que seja é do que nós todos mais precisamos.

————

É o que vamos tentar explicar aqui nos posts seguintes desta que será uma longa série. O bom é que, cada vez mais o tema vai podendo ser debatido com a ajuda de um ou outro pesquisador menos aferrado a chavões conceituais. Entre estes eu destacaria, efusivamente o professor brasileiro Luiz Nicolau Parés da Universidade de Michigan, que acabo de conhecer garimpando elementos de prova na internet.

(E como é estranho ter que garimpar – além de tudo em inglês – certas abordagens mais irreverentes, menos conformistas sobre este assunto que nos deveria ser tão familiar)

Prometo também que volto nos outros posts pisando mais duro e com mais rigor, mostrando o pau e a cobra morta com afirmações mais cabais. O papo é longo e controverso assim mesmo e já há sinais de que está entrando na moda (o que é muito bom). Os fundamentos pululam e a verdade sempre quer aparecer.

(E cá entre nós: Me senti um verdadeiro ‘bidu’, um verdadeiro orixá ‘adivinhão’, quando li o Luiz Nicolau Parés ontem)

_”Uhú! Eu não disse? Eu não disse!”

Spirito Santo

Agosto 2011

(Nota: Estar numa ‘saia justa diz-se no Rio de Janeiro quando se está numa situação inusitadamente comprometedora)

“Rasgando a Saia Justa”: Siga a série abrindo estes links:
Post # 01, Post #02, Post #03, Post # 04 , Post#05, Post# 06

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~ por Spirito Santo em 10/08/2011.

4 Respostas to “Bantu versus Yoruba: A diáspora no espelho”

  1. É interessante quando nos deparamos com uma abordagem pautada em pesquisas e estudos reais. Por algum tempo em minha vida cheguei a pensar que a esta aparente “supremacia” era algum tipo de preconceito meu em relação as posturas dos ditos “herdeiros nagôs” (já ouvi estes termos algumas vezes)… Talvez não tenha me dedicado o suficiente em fuçar a história, talvez não tenha encontrado literaturas boas o suficiente para me ajudar a entender. O fato é que, os textos aqui apresentados e as indicações bibliográficas estão me ajudando a enxergar com mais nitidez o que antes era puramente intuitivo, puramente sensorial.

    Agradeço!

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  2. Parabens pelo seu trabalho ! Muito bonito !!!!

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  3. Denilson,

    O que? Não acredito! Depois de falar tudo aquilo, tentar desqualificar o meu post e os meus argumentos com aquelas insinuações tolas você me vem com esta, de que “não havia pensado” nunca no assunto? Quer dizer que agora que leu e pensouno assunto e… se sente melhor”? Devia é me pedir desculpas e agradecer por ter lhe feito bem. Tsc tsc tsc tsc…Como se pode levar você a serio? Me poupe e vá estudar, professor!

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  4. Eu ainda não hivia pensado nessa tão combatida supremacia yorubá, já consigo me sentir melhor.

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